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23 maio 2019

Ser cristão no cotidiano - Alessandro Viana Vieira de Paula



SER CRISTÃO NO COTIDIANO


O Espiritismo, sendo o Cristianismo Redivivo, não deixa a menor dúvida quando nos apresenta a finalidade da vida física, ou seja, o Espírito volta ao cenário terrestre para se iluminar, aprimorando-se intelectual e moralmente.

O Espírito Carlos Torres Pastorino1 assevera que A iluminação interior funciona como sendo o objetivo essencial da reencarnação, que facilita o roteiro para a ação libertadora. (…) Sugestões diversas em favor da morte no mundo para a conquista do grande silêncio libertador, em contato com a Natureza ou em países de tradição mística, são apresentadas na Mídia, como se num passe de mágica fosse possível encontrar-se a plenitude.

Dessa forma, percebemos que crescimento espiritual nada tem a ver com isolamento, afastamento do convívio do próximo, abdicar das festividades saudáveis e de momentos de entretenimento e lazer, elegendo uma expressão facial sisuda e de falsa espiritualidade.

O Espírito Pastorino foi enfático ao desqualificar a morte no mundo, que simboliza uma vida distante de tudo e de todos, de tal sorte que somente encontraremos o Reino de Deus, que está dentro de nós, através da vivência de situações, felizes algumas e desagradáveis outras, e do convívio com outros irmãos de caminhada evolutiva, sendo alguns Espíritos difíceis e exigentes, mas que nos ajudarão a fazer brilhar a própria luz, e outros serão Espíritos equilibrados, que iluminarão nossas almas.

Recordemos Jesus, o Modelo e Guia de nossas vidas, que, ao convidar os discípulos para a epopeia da Boa Nova e para a implantação do amor na Terra, jamais exigiu que eles se distanciassem da convivência do próximo e que abandonassem seus labores profissionais.

Aliás, Jesus foi exemplo de vivência plena do amor e de grande espiritualidade, mantendo a convivência com ricos e pobres, com doutores da lei e pessoas simples, com os saudáveis do corpo e os doentes, bem como teve grande mobilidade social e esteve em diversas festividades (Bodas de Caná, Páscoa em Jerusalém).

Por isso, temos que buscar o aprimoramento espiritual sem fugir das experiências da vida e das pessoas. Todavia, necessitaremos de momentos de solidão reflexiva, de oração silenciosa, de meditação e comunhão com os benfeitores espirituais, a fim de nos fortalecermos, moralmente, para os desafios naturais da vida, num planeta de provas e expiações.

Pastorino1 lembra que Jesus também buscou a solidão física, em lugares ermos, para se reabastecer em Deus, mas impulsionou os Apóstolos para que saíssem de si para servirem o próximo.

Allan Kardec, o nobre Codificador, quando abordou o tema Sede Perfeitos, no capítulo XVII, de O Evangelho segundo o Espiritismo, também inseriu a proposta da vivência de espiritualidade no cotidiano, no dia a dia de nossas vidas.

Na lição O homem no mundo2, Kardec traz à baila uma mensagem espiritual, onde o Espírito, que se denominou Um Espírito protetor, propôs a necessidade de purificar os nossos corações e santificar os nossos atos, mas convivendo com os homens do nosso tempo.

Não julgueis, todavia, que, exortando-vos incessantemente à prece e à evocação mental, pretendamos vivais uma vida mística, que vos conserve fora das leis da sociedade onde estais condenados a viver. Não; vivei com os homens da vossa época, como devem viver os homens. Sacrificai às necessidades, mesmo às frivolidades do dia, mas sacrificai com um sentimento de pureza que as possa sacrificar.

Sois chamados a estar em contato com espíritos de naturezas diferentes, de caracteres opostos: não choqueis a nenhum daqueles com quem estiverdes. Sede joviais, sede ditosos. (…)

Essa notável lição nos remete à proposta do Cristo de viver no mundo sem ser do mundo.

Cabe-nos, portanto, a missão de realizar o melhor, cumprindo o dever moral em cada situação, por mais simples que seja, e com as pessoas que encontrarmos, deixando, no mínimo, uma palavra de esperança, ou uma vibração de felicidade que as contagie.

Quando analisamos a vida de grandes missionários do bem, encontramos esses gestos, menores ou maiores, mas que refletem esse compromisso de viver rico de espiritualidade no dia a dia, e, às vezes, nas situações mais singelas.

Recordo-me de uma história de Chico Xavier que, ao comprar tomates na feira, sempre escolhia um bom e um ruim, e o feirante lhe perguntou o motivo dessa conduta. Chico respondeu que se escolhesse só os bons, o próximo que chegasse não teria tomates de boa qualidade para levar.

Seguindo ainda os passos luminosos de Chico, lembro que, em muitas manhãs, tomava seu cafezinho num bar, onde só havia bêbados. Mas ele ali levava sua boa vibração, sua palavra gentil, criando afinidade com alguns deles que, depois, se sentiam à vontade para buscar o socorro espiritual na Casa Espírita que Chico frequentava.

Assim sendo, é no dia a dia que demonstramos nosso patamar evolutivo, nosso empenho por sermos uma pessoa melhor, mais compromissada com o bem, vivendo as frivolidades do cotidiano, mas sem perder a consciência de que somos Espíritos imortais acendendo a própria luz.

Tanto é essa a proposta maior da vida que, de forma exemplificativa, cito dois livros que merecem o nosso estudo, pois focam a vivência do bem e da ética nas situações comuns da vida: Educação e Vivências, do Espírito Camilo, através da mediunidade de José Raul Teixeira (editora Fráter), e Conduta Espírita, do Espírito André Luiz, através da mediunidade de Waldo Vieira (editora FEB).

Como temos nos comportado no cotidiano do trabalho, da intimidade doméstica, do interior do templo religioso, durante as viagens de férias, diante das pessoas que passam por nós na via pública, nos velórios?

Há necessidade de sermos mais gentis e afáveis com todos, sorrir mais e usarmos a palavra para levantar o ânimo das pessoas, atentos àquelas que estão sofridas e carecem de nosso suporte amoroso.

Não podemos nos omitir diante do sofrimento…

Temos que ser um bom cristão onde estejamos…

O bem tem que predominar em nossas atitudes…

Temos que evitar os altos e baixos da emoção, procurando ser mais estáveis na alegria e no bem…

Não podemos perder o ânimo de construir um mundo melhor…

Jamais desperdiçar as oportunidades do cotidiano para expressar nossa espiritualidade e identificação com as propostas do Cristo…

Diante daqueles que nos odeiam façamos silêncio e oremos por eles…

Não tenhamos dúvida de que no cotidiano é que promovemos o bom combate, procurando sempre fazer o melhor, ousando no bem.

Reflitamos sobre a mensagem da benfeitora Joanna de Ângelis3: A cada instante, a vida se expressa dentro de um esquema que te surpreende.

Procura descobrir a mensagem que te está sendo revelada. Dependerá de ti o esforço de hoje para a tranquilidade de amanhã.

Resolve os problemas existenciais simples ou complexos com cuidado e gentileza, a fim de não produzires lesões emocionais noutrem. (…)

Onde estejas, como te encontres, como te apresentes, recorda que estás construindo o Reino de Deus no coração, a fim de que reflita no teu entorno e se inicie naqueles com os quais convives. Fonte:  Mundo Espírita (FEP)


Alessandro Viana Vieira de Paula


Referências:
  1. Franco, Divaldo Pereira. Impermanência e Imortalidade. Pelo Espírito Carlos Torres Pastorino. Rio de Janeiro: FEB, 2004. cap. Iluminação para a ação.
  2. Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVII, item 10.
  3. Franco, Divaldo Pereira. Luz nas trevas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2018. cap. 5.
 

06 setembro 2016

Mortes violentas e planejamento reencarnatório - Alessandro Viana Vieira de Paula



MORTES VIOLENTAS E PLANEJAMENTO REENCARNATÓRIO

Inegavelmente, vivemos um período em que a violência se acentua, tomando conta, quase que integralmente, da mídia televisiva e escrita. São notícias diárias de sequestros, roubos, estupros, homicídios e mortes causadas por acidente de carro.

A violência é fruto da nossa imperfeição moral, da predominância dos instintos agressivos (adquiridos pelos Espíritos nas vivências evolutivas no reino animal), que a razão ainda não converteu em expressões de amor.

Neste período de transição planetária, vivenciamos o ápice das provas e expiações, de forma que a violência atinge índices alarmantes, praticada por Espíritos ainda primários, que não desenvolveram os sentimentos nobres, os quais, nesse processo de expurgo evolutivo (separar o joio do trigo, como ensinava Jesus), após a desencarnação, já não terão mais condições vibratórias de reencarnar no planeta Terra. Lembremos, ainda, a assertiva de Jesus: Os mansos herdarão a Terra.

Anote-se que a tônica deste artigo é abordar a incidência do planejamento reencarnatório nos casos de mortes violentas, isto é, a vítima teria que desencarnar dessa maneira? E o agressor, também teria assumido esse papel de algoz antes de reencarnar?

Alguns autores espíritas defendem a ideia de que a morte causada pela violência alheia não fazia parte do contexto reencarnatório, em virtude de que ninguém reencarna para o mal, portanto o agressor não havia planejado matar alguém, de tal sorte que a vítima desencarnaria em função do mau uso do livre arbítrio daquele (agressor).

Em que pese o nosso respeito por aqueles que nutrem esse tipo de ponto de vista, sabemos que as vítimas que desencarnam em razão da violência alheia estão inseridas, basicamente, em três tipos de situações:

1) Prova – a vítima vivencia uma situação de violência que gera a sua desencarnação, o que lhe trará um teste, um desafio para que ela exercite as virtudes no sentido de perdoar sinceramente o agressor (gera aprendizado, evolução – esse tipo de morte foi solicitado pela vítima antes de sua reencarnação). Lembremos que prova pressupõe avaliação, ou seja, colocar em teste as virtudes aprendidas. Caso vença moralmente a situação, podemos dizer que o Espírito alcançou determinada virtude.

2) Expiação – são as situações mais frequentes. A vítima foi a autora de violência em vidas anteriores que lesou alguém e, como não se liberou desse compromisso através do amor, sofre as consequências na atual existência. Expiar é reparar, quitar, harmonizar-se com as leis divinas.

3) Missão – algumas almas nobres morrem de forma violenta, uma vez que seus exemplos de amor e tolerância geram antipatias nas pessoas mais embrutecidas. Menciono como exemplos os casos de Jesus e Gandhi.

Notem que estamos abordando a questão das violências mais graves, que acabam gerando a nossa desencarnação, pois as violências menores que vivenciamos em nosso cotidiano, tais como calúnias, traições, indiferença e outras, normalmente são circunstâncias naturais da vida num mundo atrasado moralmente como o nosso, a estimular nosso aprendizado espiritual (veja questão nº 859 do Livro dos Espíritos). Jesus já nos orientava: “No mundo só tereis aflições”.

Dessa forma, à luz do Espiritismo e da justiça divina (a cada um segundo suas obras), temos a certeza de que a desencarnação violenta fazia parte de seu cronograma reencarnatório.

Aliás, O Livro dos Espíritos, na questão nº 853-a, nos ensina que nós somente morreremos quando chegar a nossa hora, com exceção do suicídio, conforme acima exposto.

Não há acaso, mesmo nas hipóteses de “bala perdida” e erro médico. Não há desencarnação casual, produzida por falha de terceiros ou mau uso do livre arbítrio alheio.

Caso não tenha chegado a hora de morrer, os benfeitores espirituais interferirão para evitar essa afronta às leis divinas, como inúmeros casos que conhecemos (veja o capítulo X – lei de liberdade – da 3º parte d´O Livro dos Espírito, no subcapítulo “fatalidade”).

A questão crucial diz respeito aos autores dessas violências graves. Concordo que ninguém reencarna com o compromisso de matar outra pessoa (veja questão nº 861 do Livro dos Espíritos). Quando, por exemplo, o agressor opta por assassinar alguém, ele o faz em virtude de sua inferioridade espiritual, ou quando atropela alguém por estar alcoolizado e/ou em excesso de velocidade, o faz em razão de sua imprudência, de forma que, em ambas as hipóteses, está usando indevidamente sua liberdade de escolha e ação, o que gerará compromissos expiatórios.

Consigne-se, ainda, que num mundo de provas e expiações, como a Terra, há muitos Espíritos na faixa evolutiva do primarismo, que se comprazem na violência e na imprudência, de forma que não faltará matéria-prima ou instrumentos para que se cumpram as leis divinas quando algum Espírito necessite desencarnar de forma violenta.

Assim sendo, quando a vítima reencarna com o compromisso de morrer violentamente, não haverá nesse momento algum Espírito predeterminado a matá-la, que assuma esse compromisso reencarnatório antes de nascer, mas haverá na Terra inúmeros Espíritos atrasados que, ao dar vazão à sua inferioridade (violência e/ou imprudência), ceifarão a vida daquela (vítima). Esses autores da violência funcionarão como instrumentos das leis divinas. Todavia, tal situação não os isentará das consequências morais e espirituais de suas ações, pois, repita-se, os agressores não estavam predeterminados a agirem dessa forma, poderiam ter elegido outro tipo de conduta, e foi Jesus quem nos ensinou que os escândalos eram necessários, mas ai de quem os causar.

Para fixar o ensino, recordemos do recente e trágico caso da escola de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. O assassino poderia ter deixado de agir daquela forma, pois ele não havia planejado aquilo na espiritualidade (antes de nascer), e se não tivesse adentrado na escola e efetuado os disparos com a arma de fogo, os menores que morreram naquela circunstância sobreviveriam, mas, mais adiante (dias, semanas ou meses – não há dia e hora certa para a desencarnação, mas um período provável), desencarnariam em outra situação violenta.

Poder-se-ia perguntar: Mas como o agressor identifica a pessoa que deve desencarnar? Aprendemos com o Espiritismo que o indivíduo que deve desencarnar de forma violenta, notadamente nos casos de expiação, tem uma vibração espiritual específica, que denuncia e reflete esse débito, de forma que o agressor, inconscientemente, identifica-se com aquele e promove-lhe a desencarnação. É essa particularidade vibracional que, da mesma forma, explica outros tipos de violência (estupro, roubos, sequestros,…), fazendo com que o autor do delito aja em desfavor daquele que deve vivenciar a situação traumática.

É dessa maneira que compreendemos a justiça divina, mas convém enfatizar que a lei divina maior é a lei de amor, portanto, conforme assevera o apóstolo Simão Pedro, o amor cobre uma multidão de erros, de tal sorte que aquele que venha com o compromisso expiatório de desencarnar de forma violenta, poderá amenizar ou diluir integralmente esse débito com as leis divinas através do bem que realize em sua vida, que poderá libertá-lo de uma possível desencarnação violenta. Não nos esqueçamos de que Deus é amor.

Alessandro Viana Vieira de Paula – O Consolador
Fonte: Verdade Luz