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31 março 2011

Pela Fé em Deus - Miramez


PELA FÉ EM DEUS
"Todos estes perseveravam unânimes em orações, com as mulheres estando entre elas Maria mãe de Jesus, e com seus irmãos." Atos 1:14.
Grande Foco do Universo! Não pretendemos Vos conhecer da maneira como sois. Todavia, queremos, pela Vossa bondade, que alimenteis em nós, sem cessar, a fé em Vós e na Vossa bondade e amor para conosco. O mundo, Senhor, corrói-nos de maneira tal pelas incompreensões, pela dor e pelos problemas, que as nossas inferioridades toldam a nossa fé, fazendo-nos esquecer nossos deveres perante as leis que nos enviastes pelos caminhos de Jesus.

Eis porque devemos orar coletivamente: uns fornecem, pela Vossa graça, energias tais para os outros, em permutas cristãs, que ao cessar as preces, todos estão renovados na fé e impulsionados para o amor. Os discípulos, quando se encontravam quase todos em Jerusalém, ansiosos por mais fé, se congregaram inclusive com Maria e buscaram a oração coletiva, encontrando nesse ato de fé novas energias, no tocante aos difíceis problemas que todos iriam enfrentar, na sustentação da Boa Nova do Reino de Deus.

Todo Poderoso! Derramai sobre nós as Vossas bênçãos, assim como iluminastes em Jerusalém os primeiros discípulos de Jesus, acompanhados de Maria, que saíram fora da cidade para orar ao Senhor mais secretamente: Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote e Judas. Maria foi a estrela medianeira entre as claridades dos Céus e as necessidades da Terra, e o Cristo foi, no plano espiritual, o Regulador Divino das voltagens incomensuráveis do Sol Supremo, que sois, de energias vivas, para que todos eles pudessem se solidificar nos caminhos por onde vai a mensagem do Evangelho, com o mesmo brilho dos primeiros dias.

Deus de Amor! Permiti que possamos orar com essa unidade de paz, em busca da fé; que possamos orar coletivamente, trocando experiências, e que as necessidades juntas possam atrair maior atenção do plano divino em favor de todos. A fé, Senhor, é indispensável nos nossos caminhos; sem ela nos desorientamos, desconhecendo os meios de nutrição espiritual que deveremos tomar para alcançar a meta desejada. Alguém já disse, com muita propriedade, que a fé é a substância da coisa pensada, mormente quando pensamos com certeza da realização.

Permiti que possamos pensar com dignidade, em busca da felicidade, para que a fé em nós possa ser uma chama inextinguível, a iluminar todos os nossos caminhos. E que o amor a Vós possa estar no mais intenso calor da fé, aquela que pode também encarar a razão sem temor.

E se, de vez em quando, o amor nos faltar, que a fé possa nos ajudar a ficarmos ligados a Vós.

De “Vamos Orar”
De João Nunes Maia
Espírito Miramez

30 março 2011

A Pedra da Sabedoria - Espírito “Um jardineiro”


A PEDRA DA SABEDORIA

Quando a primavera nos envolvia em desejos vãos, dúvidas e inquietações, deixávamos a pequena aldeia onde vivíamos, à margem do grande rio, e buscávamos a sombra do olmeiro, recanto aprazível onde costumava meditar um paciente "rishi", longe do tumulto das aglomerações urbanas.

Ali nos reuníamos, os jovens da aldeia, todas as manhãs e tardes, sentados em torno do mestre para melhor aproveitar suas lições. E então, fitando seus olhos mansos, aguardávamos as histórias que sempre ele reservara para nossos ouvidos ávidos.

Assim, ensinava-nos a distinguir a verdade da mentira, o bem do mal.

Suas histórias eram simples, tinham a pureza das águas correntes. Em meu desejo de aprender, eu lhe bebia as palavras como terra sedenta sorve a água das chuvas; por isso, guardei-as todas na memória.

Por muito tempo, como sementes em um canteiro, ficaram plantadas em minha lembrança... Um dia, senti que germinavam, ansiosas de floração. Eis por que deixo que venham à luz, narrando-as agora como costumava ouvi-las à sombra do olmeiro.

- Se um homem se julga superior - disse-nos, uma tarde, o "rishi" - mas escolhe um caminho errado, antecipa seu próprio fim. Não serei eu que lhe direi: Segues um caminho errado. Como me acreditaria, se o homem se considera sábio e a mim ignorante?

Então, contou-nos a história do homem que rejeitou a pedra da Sabedoria:

- Certo homem, que se acreditava sábio, encontrou, durante uma viagem de negócios que fizera a uma cidade vizinha, um mercador astuto que comerciava com pedrarias falsas, embora as apregoasse como legitimas e puras.

Ofuscado pelo brilho mentiroso das pedras, o homem que se julgava conhecedor das coisas e das almas, na ânsia de adquirir bens conquistados pelo ouro, não pelo esforço e experiência, comprou algumas, e pagou por elas grande quantia.

De volta à sua cidade, expunha, feliz, o seu pretenso tesouro a amigos e conhecidos. Até que, certa vez, exibiu-o a um perito, e este lhe revelou, finalmente, que as gemas não passavam de pedras sem valor.

Sabendo-se ludibriado, mais ferido em seu orgulho que na boa fé, atirou fora todas as pedras, indignado, esquecido de que fora vitima da própria presunção.

Tempos depois, um outro homem, que recebera a missão de ofertar as preciosas pedras da Sabedoria, a ele confiadas por Sivã, a todos que delas necessitassem, graciosamente, como o sol oferta luz, ao saber do logro aplicado ao homem que se considerava sábio, bateu à sua porta, ao entardecer.

Quando aquele o atendeu, o emissário de Sivã apresentou-lhe na palma da mão uma de suas valiosas pedras. Ao ver a gema, que cintilava em transparências azuladas à meia luz do poente, como se conservasse toda pureza e luminosidade do dia, o homem que se considerava conhecedor das coisas e das almas não lhe deu nenhuma importância, e repeliu o visitante, esbravejando:

- Não me enganarão mais! Fora da minha porta, cúpido homem... Do meu rico dinheiro não me levarás uma só moeda de cobre.

Tranquilo, respondeu-lhe o emissário, enquanto guardava sua preciosa pedra:

- Não vim te vender um tesouro, mas sim ofertá-lo a ti. Porém o repeles.
Melhor, não saberias aproveitá-lo...

Despediu-se então o enviado de Sivã e seguiu calmamente seu caminho, a distribuir dádivas como os pássaros ofertam cânticos e as plantas suas flores...

O homem que se considerava sábio conhecedor das coisas e das almas ficou parado em sua porta, a olhar, com desprezo, o vulto do emissário que aos poucos desaparecia no noturno que procedera à tarde.

Orgulhoso, monologava:

- Ninguém mais me enganará, ninguém...

No infinito, algumas estrelas fulgiam entre flocos de nuvens...

Ao vê-las, pensou o homem:

- São pirilampos... - e fechou a porta.

Fonte: Correio Fraterno
Espírito “Um jardineiro”
Médium: Dolores Bacelar

29 março 2011

Recristianização dos Homens - Emmanuel


RECRISTIANIZAÇÃO DOS HOMENS

No conformismo que caracteriza os tempos modernos, não são poucos os espíritos da literatura e da filosofia que apelam para a recristianização dos homens.

Entretanto, não falamos de recristianização, por quanto o afinamento da mentalidade do mundo terrestre no ideal de perfeição e de amor de Jesus Cristo não chegou a se verificar em tempo algum.

Apelamos para a cristianização de todos os espíritos e é dentro desse sentido que se guarda o mais alto objetivo de todas as nossas mensagens extraterrestres.

O homem cresceu e evoluiu fisicamente, sem que progredisse, em identidade de circunstâncias, à sua posição espiritual.

Algumas almas nobilíssimas trouxeram-lhe num esforço generoso as grandes idéias dos seus tratados de filosofia social e política.

Todos esses gênios do Espaço, encarnados no mundo viveram isolados de seus contemporâneos.

Incompreendidos no seu século, apenas conseguiram uma facção de entendimento da posteridade, quando a morte já os havia arrancado do cenário de atividades do mundo.

E se me refiro a esses grandes espíritos da Humanidade é somente para salientar que as idéias evoluídas do campo social deveram somente a eles o seu surto, no seio das coletividades, nestes últimos anos do Planeta.

A prova disso é que os homens, como os Estados que são os aparelhos físicos da coletividade terrestre e humana, regressam atualmente a todos os processos da força.

A coroa foi substituída pelo poder integral e absoluto dos ditadores nos vossos tempos de incompreensão.

Os últimos acontecimentos nas chancelarias européias são a prova do nosso asserto.

Não existe tanta necessidade de expansão por parte das potencias imperialistas.

O que existe é a dilatação do espírito agressivo dos povos considerados fortes, em virtude das conquistas fáceis da força bruta.

Em todos eles prevalece somente a vontade de potencia e o interesse inferior do domínio político.

Ontem era a Itália, dividindo a Abssínia, sem que o direito internacional estabelecesse a posição histórica dos humilhados e agora é o Japão querendo transformar 500 milhões de chineses em instrumentos de sua ambição, para marchar com novas hostes de Gengis Khan sobre o mundo europeu, como aconteceu há nove séculos; é a Alemanha, apoderando-se sumariamente da Áustria, a Espanha debatendo-se na guerra terrível das ideologias.

As nações interessadas igualmente no poderio internacional fazem as comédias diplomáticas, nos seus reconhecimentos "de jure" ou "de fato", mas a verdade que ressalta de tudo isso, de todos esses acordos é que a mentalidade humana retrocedeu alguns séculos, no que se refere à sua posição espiritual.

Consideremos, porém, que é a própria ambição de cada país que fará apodrecer todos os eixos diplomáticos e todas as alianças do poderio militar, lançando sobre as almas o fantasma do morticínio e do sofrimento.

O quadro da civilização européia, desenvolvida no Mediterrâneo que ficou como escola terrível de suas ambições e de seus absurdos, é bastante doloroso para quantos se preocupam com os problemas sérios e graves da vida.

A guerra é inevitável nessa civilização que depende exclusivamente do militarismo.

Os grandes exércitos são a sua grande ruína, todavia, consideremos que Jesus está no leme e o seu barco não pode sossobrar.

Que Deus se apiede de todos nós, tornando-nos dignos da grande tarefa de reviver o Evangelho, em sua expressão pura e simples, para o necessário reerguimento moral da Humanidade.

Pelo Espírito Emmanuel
Do livro: Ação, Vida e Luz
Médium: Francisco Cândido Xavier
Reunião da noite de 17 de março de 1938, em Pedro Leopoldo,
Minas
Espíritos Diversos

28 março 2011

Pela Nossa Fé - Miramez


PELA NOSSA FÉ

"Orando noite e dia, com o máximo empenho, para vos ver pessoalmente, e reparar as deficiências de vossa fé..." I Tessalonicenses 3:10.

A fé é um sol que brilha no coração do espírito. Dizer que não temos fé é realmente ignorar a nossa procedência, pois não há ninguém que não tenha fé, mesmo que seja em estado embrionário, que seja bruxuleando em frouxos raios, que seja com mais luz, que seja como um sol. Todos nós possuímos a fé relativa ao tamanho evolutivo da alma.

A fé é o trabalho de milhões de anos, estruturando, no calor da razão e nas bênçãos do coração, esse clima do céu dentro do ser humano. A fé é algo de divino a palpitar na chama espiritual. A fé pura, somente os seres puros a possuem; é vacilante no seio daqueles que não conquistaram a redenção, que não saíram dos processos evolutivos que a vida propõe.

Deus, sabemos que os anjos tutelares oram por nós dias e noites incontáveis, no afã de reparar as nossas deficiências acerca da fé. Permiti, Senhor, que possamos sentir forças nos corações vacilantes, para que os pedidos angélicos tenham ressonância em nossas almas, e que nós nos ergamos decididos frente à renovação espiritual, alimentando a certeza da Vossa bondade para conosco. Quanto a fé pode fazer em nosso benefício! Desde que nos certifiquemos da sua eficácia, ela cura todas as enfermidades, levanta os caídos e farta de esperança os desamparados.

Mestre Jesus! A fé constitui valor adquirido. Contudo, não poderemos nos esquecer que, sem as permutas de experiências de uns para com os outros, não somos reconhecidos como seres de fé comprovada, por nos faltar a verdadeira fraternidade. Toda humanidade é uma grande corrente, cujos elos somos nós; se esses elos se desprendem uns dos outros, desaparece o amor, tema, lema e destino de todas as criaturas.

Permiti, Pai Incomparável, que nos amemos uns aos outros.
Ensinai-nos a orar, Jesus, como ensinastes aos Vossos discípulos, para que a fé não vacile tanto dentro de nós. Ensinai-nos a orar para que a caridade prolongue os nossos dias de felicidade na Terra, avançando para os céus.
Ensinai-nos a orar, Mestre, para que nos tornemos verdadeiros discípulos do Vosso amor, caminhando Convosco rumo à eternidade da vida.

Quando aprendermos a magia da prece em nosso benefício, que possamos orar pelos outros, ajudando a restauração da fé alheia, como foi feito conosco. É que a fé, tanto humana quanto divina, seja estimulada entre todos os homens, para que a vida na Terra se complete e que as mãos humanas possam se entrelaçar com as divinas, na plenitude da oração com as regiões
superiores.

Que Deus nos abençoe hoje e sempre.

De “Vamos Orar”
De João Nunes Maia
Pelo Espírito Miramez

27 março 2011

Primeiros Instantes de Um Morto - G.


PRIMEIROS INSTANTES DE UM MORTO

No horário reservado à instrução, na noite de 14 de julho de 1955, nosso conjunto recolheu expressiva mensagem do irmão G., inserta neste capítulo, em que nos informa quanto aos seus primeiros instantes na Vida Espiritual.

Cabe-nos esclarecer que o comunicante, político e administrador de méritos indiscutíveis, recentemente desencarnado, esteve antes em nossa casa de preces, sob a custódia dos amigos espirituais que lhe amparavam a recuperação necessária e justa.

Mostrava-se, então, enfermiço e indisposto, mas a breve tempo, retemperado e fortalecido, retomou ao nosso templo, onde nos forneceu as valiosas impressões que passamos a transcrever.

Meus amigos:

Recordando aquele rico da parábola evangélica que não obteve permissão para tornar ao círculo doméstico, depois da morte, compreendo hoje perfeitamente a justeza da proibição que lhe frustrou o propósito, porque, sem sombra de dúvida, ninguém no mundo lhe daria crédito à palavra.

A experiência social na Terra vive tão distraída nos jogos de máscara, que a visita da verdade sem mescla, a qualquer agrupamento humano, por muito tempo ainda será francamente inoportuna.

Falando assim ao vosso mundo afetivo, não nutro o menor
interesse em quebrar a cadeia de enganos a que se aprisionam meus antigos
laços do coração.

Profundamente transformado, depois da grande travessia, em que o túmulo é o marco de nosso retorno à realidade, dirijo-me particularmente a vos outros, navegantes da fé no oceano da vida, para destacar a necessidade de valorização do tempo nos curtos dias de nossa permanência no corpo.

Para exemplo, recorro ao meu caso, já que, pelo concurso fraterno, ligastes-vos ao processo de minha renovação.

Como sabeis, qual ocorre à árvore doente, que tomba aos primeiros toques do lenhador, caí também, de imprevisto, ao primeiro golpe da Morte.

Industrial, administrador e homem público, em atividade intensa
e incessante, não admitia que o sepulcro me requisitasse tão apressadamente
à meditação.

A angina, porém, espreitava-me, vigilante, e fulminou-me sem que eu pudesse lutar.

Recordo-me de haver sido arremessado a uma espécie de sono que me não furtava a consciência e a lucidez, embora me aniquilasse os movimentos.

Incapaz de falar, ouvi os gritos dos meus e senti que mãos
amigas me tateavam o peito, tentando debalde restituir-me a respiração.

Não posso precisar quantos minutos gastei na vertigem que me tomara de assalto, até que, em minha aflição por despertar, notei que a forma inerte me retomava a si, que minh’alma entontecida regressava ao corpo pesado; no entanto, espessa cortina de sombra parecia interpor-se agora, entre os meus afeiçoados e a minha palavra ressoante, que ninguém atendia...

Inexplicavelmente assombrado, em vão pedia socorro, mas acabei por resignar-me à ideia de que estava sendo vítima de estranho pesadelo, prestes a terminar.

Ainda assim, amedrontava-me a ausência de vitalidade e calor a que me via sentenciado.

Após alguns minutos de pavoroso conflito, que a palavra terrestre não consegue determinar, tive a impressão de que me aplicavam sacos de gelo aos pés.

Por mais verberasse contra semelhante medicação, o frio alcançava-me todo o corpo, até que não pude mais...

Aquilo valia por expulsão em regra.

Procurei libertar-me e vi-me fora do leito, leve e ágil, pensando, ouvindo e vendo...

Contudo, buscando afastar-me, reparei que um fio tênue de névoa branquicenta ligava minha cabeça móvel à minha cabeça inerte.

Indiscutivelmente delirava — dizia de mim para comigo —, no entanto aquele sonho me dividia em duas personalidades distintas, não obstante guardar a noção perfeita de minha identidade.

Apavorado, não conseguia maior afastamento da câmara íntima, reconhecendo, inquieto, que me vestiam caprichosamente a estátua de carne, a enregelar-se.

Dominava-me indizível receio.

Sensações de terror neutralizavam-me o raciocínio.

Mesmo assim, concentrei minhas forças na resistência.

Retomaria o corpo.

Lutaria por reaver-me.

O delíquio inesperado teria fim.

Contudo, escoavam-se as horas e, não obstante contrariado, vi-me exposto à visitação pública.

Mas oh! irrisão de meu novo caminho!...

Eu, que me sentia singularmente repartido, observei que todas as pessoas com acesso ao recinto, diante de mim, revelavam-se divididas em identidade de circunstâncias, porque, sem poder explicar o fenômeno, lhes escutava as palavras faladas e as palavras imaginadas.

Muitas diziam aos meus familiares em pranto:

— Meus pêsames! perdemos um grande amigo...

E o pensamento se lhes esguichava da cabeça, atingindo-me como inexprimível jato de força elétrica, acentuando: “Não tenho pesar algum, este homem deveria realmente morrer...”

Outras se enlaçavam aos amigos, e diziam com a boca:

— Meus sentimentos! O doutor G. morreu moço, muito moço.

E acrescentavam, refletindo: “Morreu tarde... Velhaco! deixou uma fortuna considerável... Deve ter roubado excessivamente...”

Outras, ainda, comentavam junto à carcaça morta:

— Homem probo, homem justo!...

E falavam de si para consigo: “Político ladrão e sem palavra!
Que a terra lhe seja leve e que o inferno o proteja!...”

Via-me salteado por interminável projeção de espinhos invisíveis a me espicaçarem o coração.

Torturado de vergonha, não sabia onde esconder-me.

Ainda assim, quisera protestar quanto às reprovações que me pareceram descabidas.

Realmente não fora o homem que devia ter sido, no entanto, até ali, vivera como o trabalhador interessado em quitar-se com os seus compromissos.

Não seria falta de caridade atacarem-me, assim, quando
plenamente inabilitado a qualquer defensiva?

Por muito tempo, perdurava a conturbação, até que encontrei algum alívio...

Muitas crianças das escolas, que eu tanto desejaria ter ajudado, oravam agora junto de mim.

Velhos empregados das empresas em que eu transitara, e de cuja existência não cogitara com maior interesse, vinham trazer-me respeitosamente, com lágrimas nos olhos, a prece e o carinho de sincera emoção.

Antigos funcionários, fatigados e humildes, aos quais estimara de longe, ofertavam-me pensamentos de amor.

Alguns poucos amigos envolveram-me em pensamentos de paz.

Aquietei-me, resignado.

Doce bálsamo de reconhecimento acalmou-me a aflição e pude chorar, enfim...

Com o pranto, consegui encomendar-me à Bondade Infinita de Deus, respirando consolo e apaziguamento.

Humilhado, aguardei paciente as surpresas da nova situação.

Estava inegavelmente morto e vivo.

O catafalco não favorecia qualquer dúvida.

Curtia dolorosas indagações, quando, em dado instante, arrebataram-me o corpo.

Achava-me livre para pensar, mas preso aos despojos hirtos pelo estranho cordão que eu não podia compreender e, em razão disso, acompanhei o cortejo triste, cauteloso e desapontado.

Não valiam agora o carinho sincero e a devoção afetiva com que muitos braços amigos me acalentavam o ataúde...

A vizinhança do cemitério abalava a escassa confiança que passara a sustentar em mim mesmo.

O largo portão aberto, a contemplação dos túmulos à entrada e a multidão que me seguia, compacta, faziam-me estarrecer.

Tentei apoiar-me em velhos companheiros de ideal e de luta, mas o ambiente repleto de palavras vazias e orações pagas como que me acentuava a aflição e o desespero.

Senti-me fraquejar.

Clamei debalde por socorro, até que, com os primeiros punhados de terra atirados sobre o esquife, caí na sepultura acolhedora, sem qualquer noção de mim mesmo.

Apagara-se o conflito.

Tudo era agora letargo, abatimento, exaustão...

Por vários dias repousei, até que, ao clarão da verdade, reconheci que as tarefas do industrial e político haviam chegado a termo.

Apesar disso, porém, a certeza da vida que não morre levantara-me a esperança.

Antigas afeições surgiram, amparando-me a luta nova e, desse modo, voltou a condição do servidor anônimo o homem que talvez indebitamente se elevara no mundo aos postos de diretiva.

E assim que, em vos visitando, devo estimular-vos ao culto dos valores claros e certos.

Instalar a felicidade no próprio espírito, através da felicidade que pudermos edificar para os outros, é a única forma de encontrarmos a verdadeira felicidade.

Tenho hoje a convicção de que os patrimônios financeiros apenas agravam as responsabilidades da alma encarnada, e a política, presentemente, para mim se assemelha à tina d’água que agitamos em esforço constante para vê-la sempre a mesma, em troca apenas do cansaço que nos impõe.

Todos os aparatos da experiência humana são sombras a se movimentarem nas telas passageiras da vida.

Só o bem permanece.

Só o bem que idealizamos e plasmamos é a luz que fica.

Assim, pois, buscando o bem, roguemos a Deus nos esclareça e nos abençoe.

G.

Do livro: ‘’Vozes do Grande Além’’
Mensagens Psicofônicas de Vários Espíritos
Recebidas no Grupo Meimei
Médium: Francisco Cândido Xavier Por Espíritos Diversos

26 março 2011

Um Antigo Lidador - Ernesto Senra


UM ANTIGO LIDADOR

Encerrando as nossas atividades socorristas na reunião de 21 de outubro de 1954, fomos reconfortados com a visita do Irmão Ernesto Senra, antigo lidador dos arraiais espiritistas de Minas Gerais.

Foi ele um dos fundadores do “Centro Espírita Amor e Luz”, a primeira organização doutrinária de Pedro Leopoldo, instalada em 5 de fevereiro de 1903, emprestando, anos mais tarde, sua valiosa colaboração às casas espíritas de Belo Horizonte.

Sua palavra de companheiro esclarecido e perspicaz denota grande conhecimento de nossa vida mental e de nossas necessidades doutrinárias, merecendo, por Isso, a nossa justa atenção.

*****

Imaginai pequena bandeja de papel sobre um ímã.

As partículas de ferro organizar-se-ão, segundo as linhas de força do campo magnético por ele estabelecido.

Mentalizemos as radiações gravitantes que arremessamos de nós, em torno do próprio veículo que nos exterioriza. Os órgãos vivos que o constituem reproduzir-lhes-ão o impulso e a natureza, inclinando-nos ao equilíbrio ou ao desequilíbrio, à saúde ou à enfermidade.

Nossa mente pode ser comparada a vigorosa usina electromagnética de emissão e recepção e o nosso corpo espiritual, seja no círculo da carne ou em nosso presente estágio evolutivo fora dela, é um condensador em que os centros de força desempenham a função de baterias e em que os nervos servem por fios condutores, transmitindo-nos as emanações mentais e absorvendo-as, em primeira mão, de conformidade com a lei de correspondência ou de fluxo e refluxo.

No exame de quaisquer perturbações, é indispensável o serviço de auto-análise para conhecer a onda vibratória em que nos situamos e a fim de ponderar quanto aos elementos que estamos atraindo.

Isso é de fundamental importância no estudo de nossas impressões orgânicas, porque, provocando os eflúvios mórbidos das entidades enfermas que se nos associam ao mundo psíquico, já estamos consumindo esses mesmos eflúvios, originariamente produzidos por nosso próprio pensamento, colocando-nos em ligação indesejável com os habitantes da sombra.

Através de nossas radiações, favorecemos a eclosão ou o desenvolvimento de moléstias aflitivas, como sejam a neurastenia e a debilidade, a epilepsia e a loucura, a paralisia e a angina, a tuberculose e o câncer, sem nos reportarmos às doenças menores, catalogadas nos quadros da sintomatologia comum.

Referimo-nos, porém, ao assunto, não para pesquisar os raios da treva, de cuja intimidade precisamos distância.

Tangemos a questão, destacando o impositivo de trabalho para os nossos setores doutrinários, no campo do Espiritismo, de modo a cunharmos novos padrões para nossas atitudes e atividades, criando um estado de consciência individual e coletiva, em que preponderem a saúde e a harmonia, a compreensão e a tolerância, a bondade e o otimismo, o altruísmo e a fortaleza moral.

A cada passo, somos defrontados por grupos de nossa Doutrina que mais se assemelham a muros de lamentação, repletos de petitórios e necessidades, quando possuímos em nosso movimento toda uma fonte de bênçãos renovadoras e dons divinos, à feição de ricos potenciais, mobilizáveis na concretização de nosso idealismo com Jesus.

Compete-nos, dessa forma, acionar as energias ao nosso alcance para que a nossa tarefa não se converta em graciosa colheita de conforto particularista, mas sim numa campanha viva e ativa de valores educacionais, porqüanto o Espiritismo envolve em si mesmo o mais vasto empreendimento de espiritualização até agora surgido no mundo.

Valioso é o nosso patrimônio doutrinário. Mas, se o tesouro permanece aferrolhado no cofre das teorias inoperantes, em verdade perderemos no século oportunidade das mais preciosas, expressa no ensejo de nossa própria edificação ao sol do Cristianismo redivivo.

Em nossa posição de associados de luta, encontramos também doutrinadores sempre ágeis na ministração do ensinamento, com imensa dificuldade de assimilá-los a si mesmos; companheiros que exaltam a paciência, conservando o coração à maneira dum poço de irascibilidade e de orgulho; irmãs que se reportam à humildade, transformando o lar que o Senhor lhes confia em trincheira de guerra contra os próprios familiares, e amigos que glorificam a lição do Mestre, salientando o impositivo da bondade e do perdão, com absoluta incapacidade de suportar os irmãos da retaguarda.

Cabe-nos, assim, modelar recursos e iniciativas que aperfeiçoem não apenas os nossos corações, mas também nossas casas de trabalho, a se fundamentarem nas nossas próprias almas.

Para esse fim, é indispensável a coragem de aceitar os princípios, incorporando-os à nossa existência.

Os velhos homens do mar abandonaram a vela que lhes dificultava a navegação; entretanto, para atingir esse resultado, investigaram o vapor e dispuseram-se a receber-lhe os benefícios.

As antigas cidades aboliram o serviço deficiente do gás, contudo, para isso, estudaram a eletricidade e adotaram a lâmpada.

Reclamamos um Espiritismo, não somente sentido, crido e ensinado, mas substancialmente vivido, porque amanhã seremos congregados pela Vida Eterna e o trabalho na Vida Eterna brilhará nas mãos daqueles servidores que, desde agora, procurem realizar a sua própria renovação para o bem.

Amigos, cremos não estar usando a palavra de maneira ociosa.

Desejamos fazer em vossa companhia essa mesma cruzada em que empenhais o coração, de vez que nós outros, os vossos companheiros desencarnados, também somos caminheiros da libertação, decididos a estabelecer novos rumos em nós mesmos, a fim de que a nossa fé seja tanto aí, quanto aqui, trabalho vivo e santificante.

Pelo Espírito Ernesto Senra
Do livro: Instruções Psicofônicas
Médium: Francisco Cândido Xavier - Espíritos Diversos

25 março 2011

Eva e a Costela de Adão: Um Mito de Origem Social - J.Herculano Pires


EVA E A COSTELA DE ADÃO: UM MITO DE ORIGEM SOCIAL

Acreditam alguns comentaristas e exegetas que a alegoria bíblica da criação da mulher tinha uma finalidade social: incluir no homem o respeito pela companheira tirada da sua própria carne. A verdade, ao que parece, é outra. Esse objetivo seria melhor atingido se Deus criasse o casal ao mesmo tempo. A Bíblia deu preferência ao homem e colocou a mulher em segundo plano. O motivo deve ser a necessidade de atender aos preconceitos da época. Mas é incrível que até hoje, no mundo inteiro, multidões de pessoas acreditem que Adão dormiu sozinho e acordou acompanhado de Eva, porque Deus lhe tirou uma costela e dela fez a primeira mulher.

A passagem figura no cap. II do Gênesis, versículos 18 a 25. Note-se que Deus já havia criado todas as coisas, o mundo já estava feito e povoado de animais, com Adão solitário no Éden, quando a mulher foi criada. Tudo concorre para a sua situação de dependência e subserviência das sociedades patriarcais. O próprio Moisés não compreenderia a mulher criada ao mesmo tempo que o homem. Por isso, o espírito-guia do povo hebreu, que na verdade era o deus-familiar de Abrão, Isaac e Jacó, lançou mão dessa alegoria ingênua e poética, proveniente de lenda folclóricas.

Quem estuda, na História das Religiões e na Antropologia Cultural, o problemas das cosmogonias antigas, não tem dúvida quanto à natureza lendária e alegórica dessa passagem bíblica. Basta recordar os processos mitológicos de criação, em que os próprios deuses e as criaturas humanas também, como no caso muito conhecido da descendência de Brama, na Índia. Aceitar, pois, literalmente, o relato bíblico da criação da mulher é deixar de lado a nossa faculdade de pensar, que Deus nos deu para que seja usada e desenvolvida cada vez mais.

A situação de dependência da mulher se justifica ainda com a alegoria do pecado original, pois é a mulher, criatura inferior, que põe o homem a perder. O Cristianismo veio modificar essa situação, típica das sociedades patriarcais de toda a Antiguidade, ao valorizar a mulher no plano espiritual, como vemos no Novo Testamento, a começar do nascimento do Messias. O Espiritismo, que representa o desenvolvimento natural do Cristianismo, completa essa modificação, ao revelar que homem e mulher só existem como expressões da vida nos planos inferiores.

O espírito não tem sexo e se encarna neste ou naquela sexo de acordo com as suas necessidades evolutivas. Por isso Jesus ensinou que os espíritos "nem se casam nem se dão em casamento, pois são como os anjos do céu", como vemos na passagem de Mateus sobre a ressurreição (Mateus, 22:23-33). E Paulo sustenta o mesmo princípio, afirmando que em Cristo, na vida espiritual que ele nos oferece: "não há nem homem nem mulher". (Gálatas, 3:28).

De "Visão Espírita da Bíblia"
De J. Herculano Pires

24 março 2011

O Reverso - Joanna de Ângelis


O REVERSO

Cada verso do sermão da montanha é um hino completo de exaltação a quem se entrega a Deus e nEle confia.

*

A emotividade de Jesus desatou o poema das bem-aventuranças, endereçando aos tempos do futuro as regras de ouro para a aquisição da felicidade perfeita.

A síntese extraordinária chegou aos ouvidos da Humanidade como sendo o mais completo discurso de esperança de que se tem notícia.

Toda uma eloquente dissertação, representativa das mais amplas aspirações humanas, ali se encontra exarada.

Todos quantos passaram sob o judô da discriminação arbitrária, sofrendo as chuvas de sarcasmos e desaires, encontram na poesia lírica do Mestre o coroamento das suas lutas, se souberem conduzir os fardos das provações que lhes pesam sobre os sentimentos.

*

Bem-aventurados são os mansos e os pacíficos, que atravessam o campo de batalha sem revidar aos golpes da violência.

*

Bem-aventurados os pobres de espírito, que sabem reconhecer a condição redentora em que se encontram e não disputam as vãs posições do jogo perigoso da alucinação terrena.

*

Bem-aventurados os que se humilham por amor e submissão às leis, sem permitir-se a indignidade nem a vulgarização moral às circunstâncias em que se encontram.

*

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, não se rebelando ante as condições ignominiosas que lhes são impostas no trânsito carnal.

*

Bem-aventurados os simples que se contentam com o ar, a paz e o pão da vida, sem os caprichos das ilusões passageiras que ocultam a realidade e não mudam o panorama íntimo.

*

Bem-aventurados os puros de intenções, que não têm maldades, nem desconfianças, e caminham com entrega total a Deus, fiéis para sempre.

São bem-aventurados os que choram sem reclamação, os que sofrem sem rebeldia...

*

Cada verso é um símbolo da vitória do bem no sofrimento e do triunfo da luz na treva da ignorância.

Assim o disse Jesus.

*

Há, porém, o reverso, o que ficou subentendido e não foi enunciado.

O reverso é a aflição demorada que carpirão os orgulhosos e os prepotentes ao darem-se conta da realidade, passada a rápida aventura do corpo físico;

o desencanto e a amargura que assaltarão aqueles que se utilizaram das leis, do poder e das circunstâncias para uso pessoal, enquanto as necessidades e a sujeição os observam ansiosas, carentes;

indescritíveis serão o despertar das consciências e o compreender da razão, por parte daqueles que viviam na fartura, saturados pelo prazer e insatisfeitos diante dos excessos...

*

O Senhor jamais condenava, não se atribuindo qualidades de juiz, das vidas, embora sendo o Educador e Magistrado por excelência, mantendo sempre uma posição de superior bondade, na qual se encontram a sabedoria e a misericórdia.

No entanto, aqueles que não estão catalogados no sermão da montanha, são o reverso doloroso da carta magna que Ele endereçou à Humanidade.

*

Observa com cuidado de que lado te situas ante a canção das bem-aventuranças; se estás no verso de luz e paz ou no reverso de sombra e dor.

De “Viver e Amar”
De Divaldo Pereira Franco
Pelo Espírito Joanna de Ângelis


23 março 2011

Opiniões Alheias - Irmão X


OPINIÕES ALHEIAS

As dificuldades de Dona Josefina Murta eram, indiscutivelmente, bem grandes. Entretanto, se a pobre senhora não encontrava disposição segura para atender às obrigações mediúnicas, é que vivia sempre sob impressões desagradáveis da sensibilidade enfermiça.

Logo que se lhe manifestaram os fenômenos de incorporação, procurou aderir, de boa-vontade, à tarefa, mas não possuía bastante força para resistir às apreciações desfavoráveis.

- Josefina – disse-lhe, certa feita, o marido -, necessita você de melhor educação mediúnica. Deve compreender que o médium sensato pode melhorar o próprio ambiente, em qualquer reunião.

A esposa ouvia, contrafeita, e retrucava:

- Não sei como fazer, Aparício. Nem tudo depende de nós.

- Isto não – tornava o companheiro, conselheiral -, a educação corrige qualquer defeito. As manifestações turbulentas, por seu intermédio, constituem verdadeiro desastre.

Josefina levava o lenço aos olhos para enxugar o pranto de nervosismo. E, abespinhada, entrava em rigoroso silencio.

Depois desse dia, quando voltou novamente à sessão semanal, o presidente da agremiação observou-lhe, em tom confidencial:

- Minha irmã: no instante da recepção de nossos amigos desencarnados, peço-lhe muita atenção. Não se entregue, de maneira absoluta, ao desequilíbrio de nossos irmãos sofredores e perturbados. Controle-se, quanto lhe for possível. Como sabemos, o médium não deve permanecer em extrema passividade. Ainda mesmo nos casos de sonambulismo puro, é imprescindível que o trabalhador sincero esteja vigilante. O tumulto nas sessões desorganiza o serviço espiritual. Espero me releve estas observações. É que me compete o dever de avisá-la em particular.

Dona Josefina, muito corada pela advertência ouvida, agradeceu em palavras entrecortadas de pranto.

Sentou-se, como de costume, à mesa da oração, sentindo-se envergonhada e ferida.

No momento das atividades mediúnicas, porém, absteve-se.

O demônio do medo iniciara a ofensiva. A medianeira das entidades espirituais mobilizou a resistência de que dispunha e permaneceu invulnerável. Terminada a reunião, respondeu às perguntas de Aparício, alegando que, naquela noite, não sentira a menor influenciaçao.

Longe, no entanto, de estudar os deveres legítimos que lhe cabiam à alma e sem qualquer propósito de desenvolver os valores da cultura e do sentimento, Josefina Murta deixava-se conduzir pela sensibilidade atormentada.

Guardava consigo muitas noções singulares de amor-próprio e cercava-se, na intimidade, de vigorosos preconceitos. Acima de tudo, agastavam-na profundamente qualquer observação que partissem dos outros.

Em razão do ocorrido, não mais se confiou ao trabalho de esclarecimento e consolação das entidades sofredoras.

Continuando, porém, a freqüentar o núcleo espiritista – não só porque o esposo ali recebia valiosa contribuição á saúde, como também por que os seus orientadores invisíveis insistiam pela sua adaptação à tarefa -, certa noite, depois de proveitosa reunião, chamou-a o direto da casa, sentenciando:

- Dona Josefina, creio que a senhora está reagindo mais do que deve. Lembre sua missão na mediunidade. Em tal serviço, o instrumento não pode entregar-se, de todo, aos Espíritos imperfeitos que nos visitam, mas também não deve negar-se ao trabalho, mantendo-se em extrema atitude de reação. Dê curso à sua tarefa. Não se descuide. Recorde, sobretudo, que o nosso tempo é muito curto na Terra.

A interpelada agradeceu e, na reunião imediata, retomou os afazeres medianímicos. Procurou desenvolver sobre si própria o controle possível. Comunicou-se, através dela, na primeira noite de retorno ao esforço psíquico, uma entidade bem-intencionada, mas em grande perturbação, conversando longamente.

Encerrados os serviços, o Sr. Carvalho Serra esclareceu, irrefletidamente, dirigindo-se à esposa de Aparício:

- Desculpe-me, Dona Josefina, mas na condição de amigo sincero de suas faculdades, cabe-me dizer-lhe que o comunicante desta noite é um grande mistificador. Notei que o patife soube fingir como ninguém. Gesticulou estudadamente e exprimiu-se com indisfarçado fingimento.

A médium registrou um choque doloroso. Ferida no fundo dalma, começou a chorar, convulsivamente.

Dominada pelas impressões alheias, abandonou a mediunidade falante e tentou a psicografia.

A principio, movimentava-se-lhe a mão direita, sem rumo exato, traçando sinais ilegíveis.

O orientador do núcleo, na décima noite de experimentação, endereçou-lhe a palavra amiga:

- Dona Josefina, admito que a senhora deve fazer o possível para auxiliar as entidades que nos visitam. Repare que há dez semanas, precisamente, a senhora apenas recebe garatujas. Suponho que se utilize a intuição, mostrando-se mais receptiva, tudo andaria pelo lado melhor.

A esposa de Aparício orou, pediu o socorro de Jesus e, auxiliada por generosos amigos da espiritualidade, psicografou extensa mensagem na sessão seguinte.

Exultava de contentamento e elevava ardentes agradecimentos a Jesus, quando o diretor da casa tomou as paginas para a leitura em alta voz.

Tratava-se de peça edificante, moldada em princípios evangélicos, exortando os companheiros ao serviço do bem, com humildade e fé. Assinava a pequena epistola devotado mensageiro invisível, da equipe de assistência ao grupo.

Ninguém, todavia, percebeu a essência educativa e consoladora da mensagem. Todos anotavam, antes de tudo, a forma verbalista e o mentor do núcleo se detinha, a cada trecho, para analisar a letra, a ortografia e a construção fraseológica. Finda a leitura, comentou, impiedoso, em tom grave:

- Infelizmente, estas páginas não podem ser do emissário que supostamente as subscreve. O português apresenta numerosas falhas. Aliás, é preciso observar que a nossa irmã Josefina permanece ainda em treinamento mediúnico e semelhantes mistificações são naturais e necessárias.

A pobre dama prorrompeu em soluços, novamente desalentada.

Acalmou-a carinhosamente o esposo:

- Não há razão para tantas lágrimas – disse -, resigne-se querida! Continuemos devotados ao serviço de nossa fé. Dentro de algum tempo, estará você convenientemente preparada e feliz. Não chore assim. Ergamos nossa coragem.

Dona Josefina, no entanto, não conseguiu sofrear o enorme desânimo. Em sua sensibilidade ferida, julgava-se ao desamparo, sem apoio, sem incentivo. Devia, a seu ver, afastar-se dos labores doutrinários para sempre; tantos espinhos a defrontavam na estrada e tantas advertências ouvia, que deliberou interromper o desenvolvimento de ordem psíquica.

Prosseguiu freqüentando invariavelmente o núcleo, em companhia do esposo, mas tornou-se intencionalmente impassível. Sentia a presença dos desencarnados, ouvia-lhes os apelos; contudo, negava-se agora a qualquer colaboração nas atividades de intercambio. A sua mãezinha, que desde muito lhe antecedera os passos ao além-túmulo, implorava-lhe atenção para com os deveres assumidos, destacando a necessidade de paciência e buscando curar-lhe as chagas da sensibilidade doentia. Josefina, porém, fizera-se igualmente surda aos apelos maternos. Afirmava-se cansada de fracassos e desilusões. E, longe de refletir na extensão dos bens que poderia espalhar, intoxicava-se com as migalhas de ignorância que o mundo lhe atirava ao campo de serviço redentor. Declarando-se extremamente ofendida, resistiu a todas as solicitações do esposo e dos mais sinceros amigos.

Trinta anos correram céleres sobre a sua atitude de retraimento e negação, até que a morte lhe requisitou, de novo, o corpo físico.

Num misto de aflição e esperança, entregou-se ao grande transe. Com inexprimível assombro, porém, verificou, à ultima hora, que sua abnegada mãe se mantinha, em pranto, junto ao leito mortuário...

Preocupada e receosa, desligou-se do veiculo carnal com dificuldade inexprimível e, exausta, abraçou-se à genitora, exclamando, por fim:

- Minha mãe, minha mãe, por que choras? Não é a morte a vida eterna? Não estaremos juntas para sempre?

- Ah! Minha filha – redargüiu a benfeitora, lacrimosa -, venho acariciar-te no limiar da nova vida; entretanto, não te retiraras ainda do mundo!... Não cumpriste a tarefa, junto à família espiritual que o Senhor te confiou...

- Que dizes? – perguntou Josefina, aterrada.

- Reporto-me ao teu grupo doutrinário, querida filha! O Mestre não nos reúne uns ao outros casualmente. Em cada situação da vida, há um dever mais alto que é necessário cumprir. E agora terás duplicada luta pela ausência do corpo terrestre!...

- Mas, minha mãe – tornou a desencarnada -, não cumpri os meus deveres de esposa, não me dediquei ao marido até ao fim?

A prestimosa mensageira fixou um gesto triste e acentuou:

- Em semelhante setor do aperfeiçoamento, és a obreira plenamente aprovada. No entanto, esqueceste as tuas obrigações de irmã, porque, em verdade, não vieste ao mundo para te embaraçares nas opiniões alheias, e, sim, para realizar a vontade do Senhor, em ti mesma, no serviço aos semelhantes.

Pelo Espírito Irmão X
Do livro: Pontos e Contos
Médium: Francisco Cândido Xavier


22 março 2011

Invocações Indiretas - Humberto de Campos


INVOCAÇÕES DIRETAS

Nos primeiros movimentos de intercâmbio com a esfera invisível, Casimiro Colaço experimentara sensações de indefinível inquietude. Aquelas comunicações com o Além assombravam-no. Povoavam-lhe a alma profundas indagações. Aquele novo mundo que se lhe descortinava aos olhos, trazia maravilhosas incógnitas para cuja solução daria, de bom grado, todas as possibilidades terrestres. Casimiro não se contentava com as reuniões de experimentação mediúnica, num esforço metódico e gradativo. Embora o arraigado amor à família, vivia mentalmente muito distante dos deveres inadiáveis e justas. Viciado pela curiosidade doentia, esperava a noite com singular ansiedade. Ao regressar do estabelecimento bancário, após a luta do ganha-pão, trancava-se a sós no quarto, dilatando observações por catalogar conhecimentos novos, no vasto círculo de entidades espiritual. Longe de aceitar com proveito as manifestações espontâneas, preferia impor os próprios c aprichos, perdendo-se em longas evocações diretas e ignorando sistematicamente se possuía credenciais ou merecimento para isso.

Entre as entidades que costumava invocar impertinentemente, contava-se um velho tio – o ex-sacerdote Leão Colaço, que partira do mundo, anos antes. Padre inteligente e devotado ao bem coletivo, Leão convertera-se em ídolo dos parentes. Por isso mesmo o sobrinho, ao menor obstáculo utilizava a concentração, pedindo-lhe esclarecimentos. O ex-sacerdote era obrigado a abandonar trabalhos sérios, no plano de ação onde se localizava quase sempre, para solucionar espantosas futilidades. Decorrido algum tempo em que Leão se destacou pela paciência e o sobrinho pela leviandade, reconheceu o nobre emissário que a situação requeria outros rumos. Muito delicado, falou confidencialmente em mensagem carinhosa:

– Meu filho, nas relações com o Invisível, não queiras impor a vontade caprichosa, quando não identificas, ao certo, as próprias necessidades. Faze a prece, observa, medita e espera com paciência. A oração e o esforço mental, por si sós, valem imensamente, ainda mesmo que não recebas conselhos diretos dos amigos. Por que invocar violentamente os desencarnados, se não desconheces que também eles assumiram certas responsabilidades de serviço ante os desígnios de Deus? Por que insistir nominalmente no comparecimento de quem sofre ou de quem trabalha? Submetes o primeiro à dor da vergonha e ao segundo impões o pernicioso esquecimento do dever. Não recordas a lição de Jesus na prece dominical? O Mestre ensinou ao homem rogasse a Deus o cumprimento da Vontade Divina, assim na Terra como no Céu. Trabalha, meu filho, e sê atento às obrigações próprias. Se não é justo pedir o aluno aos instrutores a necessária solução de problemas condizente s ao aprendizado em curso, também não é razoável abandone a criatura a possibilidade de novas luzes, recorrendo, nas ocorrências mais fúteis, à bondade daqueles que a seguem de mais alto. Organiza reuniões, continua observando os planos invisíveis, mas não olvides a espontaneidade. Se o irmão infeliz bate à tua porta, consola-o; se recebes a visita generosa de respeitável instrutor, pondera-lhe os conselhos e guarda-lhe a sabedoria. Aprende a interpretar os desígnios de Deus, no local de serviço ou testemunho onde te encontres, nas horas mais diversas. O trabalho divino sempre requisitou devotamento, mas dispensa a provocação, por desnecessária e inconveniente.

Casimiro leu e releu a mensagem e, contudo, continuou agindo com a mesma leviandade que o caracterizava antes dela. A qualquer frioleira, repetia o antigo estribilho :

– Chamemos o tio Leão Colaço e teremos a solução precisa.

Submergia-se a prestimosa entidade em verdadeiro mar de preocupações, atenta à confusão que se desdobrava, quando certo amigo lhe observou:

– Não te entregues a exagerada inquietação. Se o sobrinho vem buscar-te tantas vezes por semana, compelindo-te à dilação de serviços tão graves, por que não o invocas igualmente? Se é verdade que os companheiros do mundo podem chamar-nos, não desconhecemos a possibilidade de lhes retribuir no mesmo grau. Experimentando a inconveniência das invocações diretas, o Casimiro renovará as concepções sobre o assunto. E creio que uma vez será o bastante.

O ex-sacerdote aceitou o alvitre, evidenciando indisfarçável contentamento. Escolheu, por isso, a noite mais oportuna e, reunindo alguns companheiros, invocou o sobrinho de modo a lhe proporcionar excelente lição.

Enquanto se lhe enrijecia o organismo no leito, alarmando a família, Casimiro Colaço compareceu em Espírito ante a reduzida assembléia que o atraía intencionalmente. Revelava-se indisposto e perturbado, o mísero sentindo-se presa de inenarrável angústia. Em frente dos amigos espirituais, rojou-se de joelhos e exclamou em pranto amargo :

– Benfeitores amados, por quem sois, não me deixeis voltar por enquanto ao vosso plano, quando tenho filhinhos a esperar por mim!...

Após doloroso gemido, prosseguiu num véu de lágrimas :

– Ah!... quem me chamou aqui com tamanha insistência? Deixai-me regressar à Terra, por amor de Deus!

Aproximou-se então o bondoso tio e esclareceu :

– Sou eu quem te chama, Casimiro.

– Oh! sois vós, meu tio? Por quê? desconheceis, porventura, a bagagem dos meus deveres? Tendes seguido carinhosamente meus passos e compreendeis, certamente, que me não posso furtar ao cumprimento de obrigações intransferíveis. Não me retenhais aqui por mais tempo!...

Depois de soluços convulsivos, rematava diante do ex-sacerdote que sorria, bondoso :

– Afinal, por que me buscastes assim nesta violência terrível?

Colocou-lhe a entidade a mão paterna no ombro, evidenciando amorosa solicitude e respondeu :

– Chamei-te por amor e porque não devia desprezar o ensejo de entregar-te novos valores educativos.

Aprende a considerar as situações alheias, meu filho! Também nós, aqui, temos deveres e trabalhos, responsabilidades e compromissos. Não somos figuras aéreas, catalogadas entre seres ociosos ou vagabundos. Já que percebeste o quanto dói a perturbação infligida ao homem no trabalho honesto e intransferível, não procures desorientar serviços de nossa esfera de ação, onde colaboramos na estruturarão espiritual de um mundo melhor.

Tanto se pode invocar a entidade celeste, quanto atrair a criatura terrestre, na mesma lei que rege o constante intercâmbio das almas. Não olvides, pois, estas preciosas verdades!

E, mergulhando o olhar penetrante no sobrinho angustiado, concluía:

– Voltarás, imediatamente, ao serviço que Deus te confia no mundo; entretanto, faze tudo por não esquecer a valiosa lição desta noite.

Em casa de Casimiro, todavia, observava-se o vaivém dos familiares alarmados. Durante quatro horas, permanecia o pobre rapaz no leito, pálido, ofegante, semimorto. Multiplicavam-se cataplasmas e injeções, sob o olhar atento do médico que o assistia. Quando o suposto enfermo revelou os primeiros sinais de melhora, o facultativo chamou em particular o velho genitor de Casimiro e esclareceu, demonstrando justificada alegria:

– Felizmente o problema está resolvido.

– E que pensa o senhor? – interrogou o ancião aflito.

– Trata-se de caso para observar – retrucou o interpelado, confidencialmente –, aplicarei tratamento decisivo, pois a meu ver a moléstia tem todos os característicos de fenômeno epileptóide.

Mas Casimiro Colaço, daí a dois dias, estava refeito para o trabalho comum. E embora não recordasse o ensinamento senão na tela mágica de sonho mal definido, jamais se atreveu a repetir invocações diretas e nominais, renunciando à imposição da vontade caprichosa em relação ao plano invisível.

Pelo Espírito Humberto de Campos
Do livro: Reportagens de Além Túmulo
Médium: Francisco Cândido Xavier


21 março 2011

O Bico de Gás - Hilário Silva


O BICO DE GÁS

Naquela noite Vitalino discutira muito. Acaloradamente.
Opondo-se aos argumentos de dois amigos, combatia a fé. Acreditava somente no que visse. Estudara profundamente a anatomia e precisava apalpar para crer. Necessitava sentir, ouvir, cheirar, analisar...
Por isso mesmo, estava contrariado ao recolher-se.
A esposa demorou-se ainda um tanto em luta pela ordem no apartamento estreito.
Acomodava os filhinhos, atendia aos afazeres da casa.
Mas, mesmo depois que Da. Constância passou a ressonar, Vitalino prosseguia em solilóquio mental.
Não mudaria. Era homem prático. Só renderia à evidência dos fatos. Queria fatos. Mais fatos. Mais fatos para compreender os fatos.
Algo cansado, acabou dormindo.
Dormiu e sonhou que se achava diante de Rosalino, seu velho irmão desencarnado havia muitos anos...

* * *

Rosalino dizia convincente:
- Meu caro, ouvimos-lhe as considerações silenciosas.
Realmente, as provas de sobrevivência, muitas vezes, são difíceis. Mas, essa circunstância, só por só, não lhe autoriza negá-la.
Veja bem.
Existe a fé automática, inconsciente, sem comprovação. É a aceitação dos acontecimentos naturais, sem a ajuda dos sentidos.
Em quanta coisa você confia inteiramente sem proceder a qualquer exame!
Você não examina a competência do motorista, mas viaja no veículo despreocupadamente...
Você não testa a resistência do leito, cada noite, mas deita e dorme tranquilo...
Você não vê os ingredientes que lhe compõem a refeição, mas como sem medo...
Você não experimente a segurança da casa bancária, mas confia-lhe os bens sem titubear...
Por outro lado, inúmeras ocorrências perspassam-lhe na vida sem merecer de sua parte estudo mais acurado.
Você não apalpa o ar, mas respira o oxigênio sem susto...
Você não vê o vírus, mas sofre a gripe...
Você não escuta muitas das ondas sonoras que se entrecruzam à sua volta, mas ouve satisfeito os programas radiofônicos...
Você não mediu o Universo, metro a metro, mas reconhece o infinito da Criação...
Você não morreu ainda, mas aceita a fatalidade do fenômeno da morte...
Igualmente, meu amigo, você diz que não vê e não pega o Mundo Espiritual, mas.....ele....existe...
Acorde para a verdade!
Acorde e viva!
Acorde e viva!

* * *

Como se impulsionado por estranha força, Vitalino despertou no corpo físico.
O ambiente pesava. Fazia-se o ar irrespirável. Algo sucedera de estranho...
Levantou-se estremunhado. Procurou o berço das duas crianças. Ambas desacordadas.
Aflito, abre maquinalmente a janela próxima e faz luz.
Somente aí descobre que a esposa, distraída, deixara aberta a torneira do gás.
A família salvara-se a tempo.
E, passado o perigo, tomou papel e lápis, escreveu todas as considerações que ouvira em sonho, e começou a meditar...

Do livro "A Vida Escreve"
Pelo Espírito Hilário Silva
Médiuns: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira

20 março 2011

A Ilusão do Discípulo - Humberto de Campos


A ILUSÃO DO DISCÍPULO

Jesus havia chegado a Jerusalém sob uma chuva de flores.

De tarde, após a consagração popular, caminhavam Tiago e Judas, lado a lado, por uma estrada antiga, marginada de oliveiras, que conduzia às casinhas alegres de Betânia.

Judas Iscariote deixava transparecer no semblante íntima inquietação, enquanto no olhar sereno do filho de Zebedeu fulgurava a luz suave e branda que consola o coração das almas crentes.

– Tiago – exclamou Judas, entre ansioso e atormentado – não achas que o Mestre é demasiado simples e bom para quebrar o jugo tirânico que pesa sobre Israel, abolindo a escravidão que oprime o povo eleito de Deus?

– Mas – replicou o interpelado – poderias admitir no Mestre as disposições destruidoras de um guerreiro do mundo?

– Não tanto assim. Contudo, tenho a impressão de que o Messias não considera as oportunidades. Ainda hoje, tive a atenção reclamada por doutores da lei que me fizeram sentir a inutilidade das pregações evangélicas, sempre levadas a efeito entre as pessoas mais ignorantes e desclassificadas.

Ora, as reivindicações do nosso povo exigem um condutor enérgico e altivo.

– Israel – retrucou o filho de Zebedeu, de olhar sereno – sempre teve orientadores revolucionários; o Messias, porém, vem efetuar a verdadeira revolução, edificando o seu reino sobre os corações e nas almas!...

Judas sorriu algo irônico e acrescentou :

– Mas, poderemos esperar renovações, sem conseguirmos o interesse e a atenção dos homens poderosos?

– E quem haverá mais poderoso ao que Deus, de quem o mestre é o Enviado divino?

Em face dessa invocação Judas mordeu os lábios, mas prosseguiu:

– Não concordo com os princípios de inação e creio que o Evangelho somente poderá vencer com o amparo dos prepostos de César, ou das autoridades administrativas de Jerusalém, que nos governam o destino. Acompanhando o Mestre nas suas pregações em Cesaréia, em Sebaste, em Corazin e Betsaida, quando das suas ausências de Cafarnaum, jamais o vi interessado em conquistar a atenção dos homens mais altamente colocados na vida. É certo que de seus lábios divinos sempre brotaram a verdade e o amor, por toda parte; mas, só observei leprosos e cegos, pobres e ignorantes, abeirando-se de nossa fonte.

– Jesus, porém, já nos esclareceu – obtemperou Tiago, com brandura – que o seu reino não é deste mundo.

Imprimindo aos olhos inquietes um fulgor estranho, o discípulo impaciente revidou com energia:

- Vimos hoje o povo de Jerusalém atapetar o caminho do Senhor com as palmas da sua admiração e do seu carinho; precisamos, todavia, impor a figura do Messias às autoridades da Corte Provincial e do Templo, de modo a aproveitarmos esse surto de simpatia. Notei que Jesus recebia as homenagens populares sem partilhar do entusiasmo febril de quantos o cercavam, razão por que necessitamos multiplicar esforços, em lugar dele, afim de que a nossa posição de superioridade seja reconhecida em tempo oportuno.

– Recordo-me, entretanto, de que o Mestre nos asseverou, certa vez, que o maior na comunidade será sempre aquele que se fizer o menor de todos.

– Não podemos levar em conta esses excessos de teoria. Interpelado que vou ser hoje por amigos influentes na política de Jerusalém, farei o possível por estabelecer acordos com os altos funcionários e homens de importância, afim de imprimirmos novo movimento às idéias do Messias.

– Judas! Judas!... – observou-lhe o irmão de apostolado, com doce veemência – vê lá o que fazes! Socorreres-te dos poderes transitórios do mundo, sem um motivo que justifique êsse recurso, não será, desrespeito à autoridade de Jesus? Não terá o Mestre visão bastante para sondar e reconhecer os corações? O hábito dos sacerdotes e a toga dos dignitários romanos; são roupagens para a Terra... As idéias do Mestre são do céu e seria sacrilégio misturarmos a sua pureza Com as Organizações viciadas do mundo!... Além de tudo, não podemos ser mais sábios, nem mais amorosos do que Jesus e ele sabe o melhor caminho e a melhor oportunidade para a conversão dos homens!... As conquistas do mundo são cheias de ciladas para o espírito e, entre elas, é possível que nos transformemos em órgão de escândalo para a verdade que o Mestre representa.

Judas silenciou, atormentado.

No firmamento, os derradeiros raios de Sol batiam nas nuvens distantes, enquanto os dois discípulos tomavam rumos diferentes.

Sem embargo das carinhosas exortações de Tiago, Judas Iscariote passou a noite tomado de angustiosas inquietações.

Não seria melhor apressar o triunfo mundano do Cristianismo? Israel não esperava um Messias que enfeixasse nas mãos todos os poderes? Valendo-se da doutrina do Mestre, poderia tomar para si as rédeas do movimento renovador, enquanto Jesus, na sua bondade e simplicidade, ficaria entre todos, como um símbolo vivo da idéia nova.

Recordando suas primeiras conversações com as autoridades do Sinédrio, meditava na execução de seus sombrios desígnios.

A madrugada o encontrou decidido, na embriagues de seus sonhos ilusórios. Entregaria o Mestre aos homens do poder, em troca de sua nomeação oficial para dirigir a atividade dos companheiros. Teria autoridade e privilégios políticos. Satisfaria às suas ambições, aparentemente justas, afim de organizar a vitória cristã no seio de seu povo. Depois de atingir o alto cargo com que contava, libertaria a Jesus e lhe dirigiria os dons espirituais, de modo a utilizá-los para a conversão de seus amigos e protetores prestigiosos.

O Mestre, a seu ver, era demasiadamente humilde e generoso para vencer sozinho, por entre a maldade e a violência.

Ao desabrochar a alvorada, o discípulo imprevidente demandou o centro da cidade e, após horas, era recebido pelo Sinédrio, onde lhe foram hipotecadas as mais relevantes promessas.

Apesar de satisfeito com a sua mesquinha gratificação e desvairado no seu espírito ambicioso, Judas amava ao Messias e esperava, ansiosamente, o instante do triunfo, para lhe dar a alegria da vitória cristã, através das manobras políticas do mundo.

O prêmio da vaidade, porém, esperava a sua desmedida ambição.

Humilhado e escarnecido, seu Mestre bem-amado foi conduzido a cruz da ignomínia, sob vilipêndios e flagelações.

Daqueles lábios, que haviam ensinado a verdade e o bem, a simplicidade e o amor, não chegou a escapar-se uma queixa. Martirizado na sua estrada de angústias, o Messias só teve o máximo de perdão para seus algozes.

Observando os acontecimentos, que lhe contrariavam as mais íntimas suposiçôes, Judas Iscariote se dirigiu a Caifas, reclamando o cumprimento de suas promessas. Os sacerdotes, porém, ouvindo-lhe as palavras tardias, sorriram com sarcasmo. Debalde recorreu às suas prestigiosas relances de amizade: teve de reconhecer a falibilidade das promessas humanas. Atormentado e aflito, buscou os companheiros de fé. Encontrou-os vencidos e humilhados; pareceu-lhe, porém, descobrir em cada olhar a mesma exprobração silenciosa e dolorida.

Já se havia escoado a hora sexta, em que o Mestre expiara na cruz, implorando perdão para seus verdugos.

De longe, Judas contemplou todas as cenas angustiosas e humilhantes do Calvário. Atroz remorso lhe pungia a consciência dilacerada. Lágrimas ardentes lhe rolavam dos olhos tristes e amortecidos. Mau, grado à vaidade que o perdera, ele amava intensamente ao Messias.

Em breves instantes, o céu da cidade impiedosa se cobriu de nuvens escuras e borrascosas. O mau discípulo, com um oceano de dor na consciência, peregrinou em derredor do casario maldito, acalentando o propósito de desertar do mundo, numa suprema traição aos compromissos mais sagrados de sua vida.

Antes, porém, de executar seus planos tenebrosos, junto à figueira sinistra, ouvia a voz amargurada do seu tremendo remorso.

Relâmpagos terríveis rasgavam o firmamento; trovões cavernosos pareciam lançar sobre a terra criminosa a maldição do céu vilipendiado e esquecido.

Mas, sobre todas as vozes confusas da Natureza, o discípulo infeliz escutava a voz do Mestre, consoladora e inesquecível, penetrando-lhe os refolhos mais íntimos da alma:

– “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. Ninguém pode ir ao Pai, senão por mim....


Pelo Espírito Humberto de Campos
Do livro: Boa Nova
Médium: Francisco Cândido Xavier

19 março 2011

Desgosto - Emmanuel


DESGOSTO

Referimo-nos habitualmente aos desgostos da vida como se nada mais tivéssemos que pensar.

Tal ocorrência sobrevêm, de vez que, em nossas atuais condições evolutivas, somos ainda propensos a fixar o coração nos fenômenos do mal, extremamente desmemoriados quanto ao bem, à feição de pessoa que preferisse morar dentro de uma nuvem, à frente do Sol.

Ligeiro mal-estar obscurece-nos a harmonia interior e adotamos regime de aflição que acaba por atrair-nos moléstia grave...

Isso porque apagamos da lembrança os mi-lhares de horas felizes que lhe antecederam o apareci- mento, sem perceber que o incômodo diminuto é aviso da natureza a que retomemos posição de equilíbrio.

Breve desajuste no lar interrompe-nos a alegria e desvairamo-nos em revolta, instalando, às vezes, perigosos quistos de malquerença, no organismo familiar...

Isso porque quase nunca relacionamos os te-souros de estabilidade e euforia com que somos favore-cidos em casa, longe de observar que o problema impre-visto expressa bendita oportunidade de consolidarmos o amor e a tranquilidade no instituto doméstico.

Um companheiro nos deixa a convivência e deitamos longas teorias, acerca da ingratidão, estabelecendo complicações de profundidade...

Isso porque olvidamos as afeições preciosas que nos enriquecem os dias, incompetentes que nos achamos para concluir que o amigo, tangido pelas forças espirituais com que se afina, terá buscado o tipo de experiência mais adequada aos próprios impulsos, com vantagem para ele e proveito nosso.

Insignificante desentendimento reponta na esfera profissional e exageramos o acontecido, lançando perturbação ou incrementando a desordem...

Isso porque muito dificilmente ligamos justa importância aos dotes inúmeros que recolhemos do nosso campo de trabalho, inábeis para reconhecer que o destempero havido é o ensejo de proteger e prestigiar a organização a que fomos chamados, em favor de nós mesmos.

Desgosto está efetivamente para o coração, como a poda para a árvore.

Se dissabores nos visitam, recordemos que a vida está cortando o prejudicial e o supérfluo, em nossas plantas de ideal e realização, a fim de que possamos nos renovar e melhor produzir.

Médium: Chico Xavier
Autor: Emmanuel


18 março 2011

O Talismã Divino - Neio Lúcio


O TALISMÃ DIVINO

Tiago, o mais velho, em explanação preciosa, falou sobre as ânsias de riqueza, tão comuns em todos os mortais, e, findo o interessante debate doméstico, Jesus comentou sorridente: — Um homem temente a Deus e consagrado a retidão, leu muitos conselhos alusivos à prudência, e deliberou trabalhar, com afinco, de modo a reter um tesouro com que pudesse beneficiar a família.

Depois de sentidas orações, meteu-se em várias empresas, aflito por alcançar seus fins.

E, por vinte anos consecutivos, ajuntou moeda sobre moeda, formando o patrimônio de alguns milhões.

Quando parou de agir, a fim de apreciar a sua obra, reconheceu, com desapontamento, que todos os quadros da própria vida se haviam alterado, sem que ele mesmo percebesse.

O lar, dantes simples e alegre, adquirira feição sombria.

A esposa fizera-se escrava de mil obrigações destinadas a matar o tempo; os filhos cochichavam entre si, consultando sobre a herança que a morte do pai lhes reservaria; a amizade fiel desertara; os vizinhos, acreditando-o completamente feliz, cercaram-no de inveja e ironia; as autoridades da localidade em que vivia obrigavam-no a dobradas atitudes de artifício, em desacordo com a sinceridade do seu coração.

Os negociantes visitavam-no, a cada instante, propondo-lhe transações criminosas ou descabidas; servidores bajulavam-no, com declarado fingimento quando ao lado de seus ouvidos, para lhe amaldiçoarem o nome, por trás de portas semi-cerradas.

Em razão de tantos distúrbios, era compelido a transformar a residência numa fortaleza, vigiando-se contra tudo e contra todos.

Sobrava-lhe tempo, agora, para registrar as moléstias do corpo e raramente passava algum dia sem as irritações do estômago ou sem dores de cabeça.

Em poucas semanas de meticulosa observação, concluiu que a fortuna trancafiada no cofre era motivo de desilusões e arrependimentos sem termo.

Em certa noite, porque não mais tolerasse as preocupações obcecantes do novo estado, orou em lágrimas, suplicando a inspiração do Senhor.

Depois da comovente rogativa, eis que um anjo lhe aparece na tela evanescente do sonho e lhe diz, compadecido:

— Toda fortuna que corre, à maneira das águas cristalinas da fonte, é uma bênção viva, mas toda riqueza, em repouso inútil, é poço venenoso de águas estagnadas...

Por que exigiste um rio, quando o simples copo dágua te sacia a sede? Como te animaste a guardar, ao redor de ti, celeiros tão recheados, quando alguns grãos de trigo te bastam à refeição? Que motivos te induziram a amontoar centenas de peles, em torno do lar, quando alguns fragmentos de lã te aquecem o corpo, em trânsito para o sepulcro?...

Volta e converte a tua arca de moedas em cofre milagroso de salvação! Estende os júbilos do trabalho, cria escolas para a sementeira da luz espiritual e improvisa a alegria a muitos! Somente vale o dinheiro da Terra pelo bem que possa fazer! Sob indizível espanto, o caçador de outro despertou transformado e, do dia seguinte em diante, passou a libertar as suas enormes reservas, para que todos os seus vizinhos tivessem junto dele, as bênçãos do serviço e do bom ânimo...

Desde o primeiro sinal de semelhante renovação, a esposa fixou-o com estranheza e revolta, os filhos odiaram-no e os seus próprios beneficiados o julgaram louco; todavia, robustecido e feliz, o milionário vigilante voltou a possuir no domicílio um santuário aberto e os gênios da alegria oculta passaram a viver em seu coração.

Silenciando o Mestre, Tiago, que comandava a palestra da noite, exclamou, entusiasta: — Senhor, que ensinamento valioso e sublime!...

Jesus sorriu e respondeu:

— Sim, mas apenas para aqueles que tiverem “ouvidos de ouvir” e “olhos de ver”.

Pelo Espírito Neio Lúcio
Do livro: Jesus no Lar
Médiuns: Francisco Cândido Xavier

17 março 2011

Doações - Emmanuel


DOAÇÕES

"... O cumprimento da lei é o amor." - Paulo. (Romanos, 13:10)

Milhares de dádivas transitam na Terra diariamente.

Vemos aquelas que se constituem do dinheiro generoso que alimenta as boas obras; as que se definem por glórias da arte enriquecendo a mente popular; as que se erigem sobre os louros da palavra traçando caminhos para o encontro fraternal entre as criaturas; e aquelas outras, inumeráveis, que consubstanciam a amizade de quem as oferece ou recolhe. Todas elas, demonstrações da bondade humana, são abençoadas na Vida Superior. Entretanto, uma existe, inconfundível entre todas, da qual nós, os seres em evolução no Orbe Terrestre, não conseguimos
prescindir...

Ao alcance de todos ela se expressa por exigência inarredável do caminho de cada um. Desejamos referir-nos ao amor, sem o qual ninguém logra subsistir.

Além disso, o amor é a força que valoriza qualquer dádiva, tanto quanto a maneira de dar.

Muitos de nossos irmãos necessitados, junto de quem praticamos o ideal da beneficência, decerto agradecem o concurso materializado que lhes possamos ofertar, mas quantas vezes estimariam, acima de tudo, receber uma bênção de solidariedade e otimismo que lhes restaure a alegria de viver e o conforto de trabalhar!

Reflitamos de igual modo nos companheiros temporariamente apresados no cárcere das paixões e reconheceremos que o mundo tem tanta necessidade de amor quanto de luz.

Meditemos nisso, e, diante da parte de trabalho que nos compete, na construção do Reino de Deus entre os homens, seja à frente dos felizes ou dos imperfeitamente felizes, dos justos ou dos menos justos, comecemos por estender com as dádivas de nossas mãos aquelas outras que nos é lícito nomear como sendo o favor do sorriso fraterno, o benefício da boa palavra, o empréstimo da
esperança e o donativo do entendimento.

Texto extraído do livro Bênção de Paz
Espírito Emmanuel,
Psicografia Francisco Cândido Xavier

16 março 2011

O Poder da Fé - Miramez


O PODER DA FÉ

"Tendo ouvido a fama de Jesus, vindo por trás dele, por entre a multidão, tocou-lhe a veste" - Marcos - Cap. 5, v. 27.

Jamais apareceu alguém no mundo que conseguisse colocar limites à fé. O seu poder suplanta quaisquer fronteiras, que o homem, por ignorância, queira lhe impor. Não há criatura que possa viver sem fé. Muitos julgam não a possuírem, mas se enganam completamente. Ela vive dentro de todos os seres, variando sua intensidade numa escala progressiva, e de acordo com a evolução espiritual de cada um. Dessa forma, espírito algum tem o mesmo quilate de fé que seu semelhante, indo sua variação, de parcela mínima, até o infinito. Porém, só Deus possui a totalidade dessa virtude.

Várias dúvidas persistem no meio humano. Pergunta-se se em outros reinos, abaixo do homem, existe a fé. Deus não Se esquece de nada que foi criado e é sustentado por Ele. Porém, a fé mais pura ou menos pura só surge no ser quando já dotado de razão. Isso é da lei. Nos outros degraus evolutivos à retaguarda do homem há rudimentos da fé que, algum dia, irá brotar com a força da razão. E como se comparássemos o instinto do animal com a razão humana. Ambas as forças procedem da mesma fonte; mas, no ser humano, esse dom já mostra claridades do aperfeiçoamento.

A fé, para o espírito, é tão necessária como o ar o é para o corpo.
A ciência do mundo já quis destruir a fé dos homens em Deus e na vida que continua depois do túmulo. Jamais conseguiu e nem conseguirá, pois, ao invés de combatê-la, está avivando ainda mais, nas almas, essa certeza de que nada morre. Tudo viveu, vive e continuará a viver sempre.

As leis de Deus não podem ser mudadas. Há que compreendê-las. E sua descoberta requer muita ciência e bastante fé. Que o Senhor abençoe os homens, fazendo com que a ciência procure os olhos da fé, para não perderem muito tempo em vislumbrar Deus por onde passarem. Não existe outro caminho, e o tempo espera esse acontecimento. A ciência material representa a fé humana, enquanto a ciência espiritual, a fé divina. Necessário se faz que as duas se unam, completando-se para maior felicidade dos homens e do mundo.

Estudemos, com Jesus Cristo, o poder da fé.

Havia uma mulher que há doze anos estava desenganada pelos médicos, narra o Evangelho. Desesperada, ela tem notícias de que Jesus estava operando maravilhas e vai à procura do Mestre, enfrentando todas as dificuldades, pois outros também O procuravam. Avança daqui, força dali, varando a multidão, até que consegue tocar na orla das vestes do Nazareno.
Sente, então, um bem-estar estranho penetrar-lhe o corpo e alojar-se, demoradamente, em suas entranhas.

Cristo possuía, em torno de Si, um manancial de forças magnéticas indescritíveis. Era um potencial de luzes nunca visto nem sentido por seres humanos, porquanto o Mestre procedia de regiões divinas. Mas o poder da fé levanta o padrão vibratório, nivelando-o em quem, pelo menos, tocasse Jesus e que já vivia em estado de perfeição espiritual. E a mulher tinha o mais alto grau de certeza quando os seus dedos, de leve, tocaram as vestes do Cristo; da poderosa aura do Mestre fluiu certa quantidade de magnetismo espiritual que, bafejando todo o seu ser, alojou-se como por encanto, no lugar enfermo, atendendo a seu pensamento que se fixava na região doentia, e restabelecendo o órgão em desequilíbrio.

Jesus, sentindo o fenômeno, pergunta: - "Quem tocou em mim?" Ao que, assustados, responderam os discípulos: - "O povo é que te comprime, Senhor".

Jesus não se dá por satisfeito, olha em torno para reconhecer quem o havia tocado e depara com a mulher que, meio trêmula, de joelhos, Lhe diz: - "Fui eu, Senhor".

O Mestre, olhando-a compassivo, deixa entreabrir os lábios com um leve sorriso e afirma: - "A tua fé te salvou. Vai em paz e fica livre de teu mal".
O poder da fé é sem limites e, assim reconhecendo-a, cientes de que ela dormita em nós, despertemo-la. E já que não podemos tocar as resplandecentes vestes de Jesus, toquemos, com os dedos dos sentimentos, Sua roupagem evangélica, esperando provar a ventura de ouvir, a exemplo da mulher enferma citada no Evangelho: - "A tua fé te curou".

"Tendo ouvido a fama de Jesus, vindo por trás dele, por entre a multidão, tocou-lhe a veste".

De “Alguns ângulos dos ensinos do Mestre”
De João Nunes Maia

Pelo Espírito Miramez

15 março 2011

Conheçamo-nos - Farias Brito


CONHEÇAMO-NOS

Asseverava o velho Heráclito: “quando os olhos acreditam observar alguma coisa de permanente, em verdade são vítimas da ilusão”.

E o homem, que atravessa as reduzidas dimensões da experiência sensória, reconhece, de mais perto, a profunda realidade do asserto, quando consegue elevar-se no quadro conceptual da vida em si mesma.

Dentro do universalismo que a morte nos descerra, a consciência jungida à carne terrena é crisálida da Inteligência infinita, em cuja grandeza o nosso “eu” se dilui e se amesquinha, aguardando a possibilidade de vir-a-ser, na expectativa da herança divina...

Aquele “tudo flui” da filosofia grega patenteia-se claramente aos nossos olhos, quando, de ângulo mais alto no edifício dos fenômenos, podemos observar o contínuo evolver de tudo o que nos rodeia a atividade terrestre, no multifário aspecto do ser.

Tudo no mundo é transformação e renovação.

E o homem,psíquico, diante do porvir glorioso a que se destina, é, ainda, a larva mental no ventre da Natureza.

Conhecermo-nos é o primeiro dever imposto pela razão pura.

Penetrar a essência da nossa mais íntima estrutura, para descobrir nossa individualidade incorruptível, investindo-nos na posse de nossos títulos morais, constitui o passo fundamental para o engrandecimento filosófico, dentro do qual resolveremos os antigos e sombrios enigmas da alma humana.

Ocioso, assim, é encarecer agora os estéreis conflitos da ira ou da palavra, de que já nos libertamos.

Comentar o criticismo de Kant ou o positivismo de Auguste Comte, quando a flor do nosso entendimento desabrocha noutros climas, seria o mesmo que exigir à planta o inconseqüente recuo à bolsa escura do solo, onde o gérmen desintegrou os efêmeros envoltórios da semente.

Disse Berkeley que toda a realidade jaz encerrada no espírito. E não tenho hoje maior novidade além desta.

O progresso do homem e a purificação da alma representam, no fundo, expansão da consciência.

A mente encarnada é ponto minúsculo da Mente Universal, conservando estreita analogia com a célula aparentemente perdida no edifício orgânico, em cuja sustentação desempenha funções específicas. Contida na totalidade, mantém o potencial da grandeza cósmica, com deveres de maturação e burilamento; porque, somente além da catarse laboriosa de si mesma, consegue transcender o tipo normal de evolução no Planeta; então, alarga-se em sensibilidade e conhecimento, dilata seu raio de ação em círculo cada vez mais vasto, supera as qualidades inerentes aos padrões vulgares em que se desenvolve, e os ultrapassa, assim se aproximando da glória imanente do Todo.

Eis por que, se me fora possível, proclamaria daqui, onde novos problemas me assoberbam o angusto raciocínio de aprendiz da verdade, a lógica simples do Espiritismo como a base da escola filosófica mais imediata e mais aceitável à média intelectual do mundo.

Não há vida sem morte, nem expansão sem dilaceramento.

A santificação em alicerces do saber e da virtude é obra de crescimento, de esforço, de luta.

O “outro mundo” é esfera de matéria quintaessenciada, em que nossas qualidades se destacam.

Não existe milagre.

Os únicos mistérios do céu e do inferno palpitam em nós mesmos.

A vida é onda contínua e inextinguível a manifestar-se em diversos planos. E a individualidade é um número consciencial que, ou se ilumina, afinado com os valores de sublimação, ou se obscurece, em contacto com os fatores de embrutecimento a que se prenda, em vibrações de baixa freqüência.

Cada alma sente e atua pelo grupo de seres em ascensão ou em estagnação a que se incorpore, na economia do Universo.

O mundo, com os seus múltiplas departamentos educativos, é escola onde o exercício, a repetição, a dor e o contraste são mestres que falam claro a todos aqueles que não temam as surpresas, aflições, feridas e martírios da ascese. E dentro dele, na atualidade das pesquisas filosóficas em que procuramos eleger a psicologia para sentar-se no trono da ciência e legislar sobre os seus princípios e indagações, o Espiritismo, banhado pelas claridades do Evangelho, é o melhor caminho de elevação e a fórmula mais simples de auxiliarmos o pensamento popular e o sentimento comum, no serviço regenerativo, em função de aperfeiçoamento.

É por isto que, voltando a escrever algumas palavras para os companheiros de jornada do nosso século, engrandecido por singulares realizações da inteligência e atormentado por amargas desilusões, não me praz o comentário clássico dos doutrinadores mergulhados na corrente profunda das observações e das deduções, para só repetir, de mim para comigo, as corriqueiras e sublimes palavras do velho oráculo: “Homem, conhece-te a ti mesmo!”

Pelo Espírito Farias Brito
Do livro: Falando à Terra
Médium: Francisco Cândido Xavier - Espíritos Diversos

14 março 2011

Tempestades da Vida - Momento Espírita


Tempestades da Vida


Há noites muito escuras em que o vento violento e ruidoso traz a tempestade inclemente.

Os trovões e os relâmpagos invadem a madrugada como se fossem durar para sempre.

Não há como ignorar os sentimentos que tomam de assalto nossos frágeis corações.

O medo e a incerteza tiram nosso sono, e passamos minutos infindáveis, imaginando o pior, temerosos de que o céu possa, de um momento para o outro, cair sobre nossas cabeças.

Sem, no entanto, qualquer aviso, o vento vai se acalmando, as gotas de chuva começam a cair com menos violência e o silêncio volta a imperar na noite.

Adormecemos sem nos dar conta do final da intempérie, e quando acordamos, com o sol da manhã a nos beijar a fronte, nem sequer nos recordamos das angústias da noite.

Os galhos caídos na calçada, a água ainda empoçada na rua, nada, nenhum sinal é suficientemente forte para que nos lembremos do temporal que há poucas horas nos assustava tanto.

Assim ainda somos nós, criaturas humanas, presas ao momento presente.

Descrentes, a ponto de quase sucumbir diante de qualquer dificuldade, seja uma tempestade ou revés da vida, por acreditar que ela poderia nos aniquilar ou ferir irremediavelmente.

Homens de pouca fé, eis o que somos.

Há muito tempo fomos conclamados a crer no amor do pai, soberanamente justo e bom, que não permite que nada que não seja necessário e útil nos aconteça.

Mesmo assim continuamos ligados à matéria, acreditando que nossa felicidade depende apenas de tesouros que as traças roem e que o tempo deteriora.

Permanecemos sofrendo por dificuldades passageiras, como a tempestade da noite, que por mais estragos que possa fazer nos telhados e nos jardins, sempre passa e tem sua indiscutível utilidade.

Somos para Deus como crianças que ainda não se deram conta da grandiosidade do mundo e das verdades da vida.

Almas aprendizes que se assustam com trovões e relâmpagos que, nas noites escuras da vida, fazem-nos lembrar de nossa pequenez e da nossa impotência diante do todo.

Se ainda choramos de medo e não temos coragem bastante para enfrentar as realidades que não nos parecem favoráveis ou agradáveis, é porque em nossa intimidade a mensagem do cristo ainda não se fez certeza.

Nossa fé é tão insignificante que ante a menor contrariedade bradamos que Deus nos abandonou, que não há justiça.

Trata-se, porém, de uma miopia espiritual, decorrente do nosso desejo constante de ser agraciados com bênçãos que, por ora, ainda não são merecidas.

Falta-nos coragem para acreditar que Deus não erra, que esta característica não é dele, mas apenas nossa, caminhantes imperfeitos nesta rota evolutiva.

Falta-nos humildade para crer que, quando fazemos a parte que nos cabe na tarefa, tudo acontece na hora correta e de forma adequada.

As dores que nos chegam e nos tocam são oportunidades de aprendizado e de mudança para novo estágio de evolução.

Assim como a chuva, que embora nos pareça inconveniente e assustadora, em algumas ocasiões, também os problemas são indispensáveis para a purificação e renovação dos seres.

Por isso, quando tempestades pesarem fortemente sobre nossas cabeças, saibamos perceber que tudo na vida passa, assim como as chuvas, as dores, os problemas.

Tudo é fugaz e momentâneo.

Mas tudo, também, tem seu motivo e sua utilidade em nosso desenvolvimento.

Equipe de Redação do Momento Espírita