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31 agosto 2010

Velhos e Moços - Momento Espírita

Velhos e Moços

Por vezes ocorria, entre os Apóstolos do Senhor Jesus, algumas pequenas discussões a respeito do trabalho que teriam a realizar.

Numa dessas oportunidades, os mais jovens do grupo passaram a tecer considerações sobre como poderiam levar o Evangelho às nações, renovando o mundo.

Eram jovens, afirmavam, e, tão logo o Mestre lhes permitisse, deixariam a Galileia a fim de pregar as verdades do Reino de Deus por toda a Terra.

Sentiam-se fortes e dispostos. Respiravam com entusiasmo os ares da boa nova e se supunham habilitados a traduzir com fidelidade os novos ensinamentos.

Simão, o antigo pescador do lago, tudo ouvia e seu coração foi ficando turvo de tristeza. Ele não era tão jovem. Suas energias pareciam descer de uma grande montanha. O que poderia o seu esforço singelo perante a grande obra que se descortinava?

Jesus, percebendo-lhe os pensamentos, mergulhou Seu doce olhar nos olhos vivos do Apóstolo e servidor e lhe disse: Simão, por que te preocupas com a idade? Se fôssemos contar o tempo, no relógio das preocupações terrenas, quem de nós seria o mais velho?

A vida pode ser comparada a uma grande árvore. A infância é a sua ramagem verdejante. A mocidade se constitui de suas flores perfumadas e formosas.

A velhice é o fruto da experiência e da sabedoria. Há ramagens que morrem aos primeiros beijos do sol, e flores que despetalam aos primeiros sopros da primavera.

O fruto, no entanto, é sempre uma bênção do Todo-Poderoso. A ramagem é uma esperança. A flor, uma promessa. O fruto é a realização. Só ele contém o mistério da vida, cuja fonte se perde no infinito da Divindade.

Não te magoe a conversa dos jovens. Quando te cerque o burburinho da juventude, ama os jovens que revelem trabalho e reflexão.

Entretanto, não deixes de sorrir também para os levianos. São crianças que pedem cuidado, como abelhas que ainda não sabem fazer o mel.

Perdoa os entusiasmos sem rumo como se esquecem as pequenas tolices dos meninos que brincam na infância. Esclarece-os, Simão, e nunca penses que outro homem possa realizar a tarefa que te compete no concerto da vida. Tarefa que te foi dada pelo nosso Divino Pai.

Um velho sem esperança em Deus é um irmão triste envolto em sombras. Mas eu venho trazer ao mundo as claridades de um dia perene.

Em verdade, Simão, ser moço ou velho, no mundo, não interessa!... Antes de tudo, é preciso ser de Deus!...

* * *

Se a juventude já não te felicita o corpo e as energias parecem estar a pouco e pouco diminuindo, recobra o bom ânimo e pensa:

Ninguém, no mundo, possui o que tens: a sabedoria, que é consequência de todos os reveses e problemas que enfrentaste e venceste. Ninguém tem a tua experiência.

Cada qual é único no Universo. As conquistas pessoais são intransferíveis.

Ninguém poderá fazer aquilo que te está destinado a produzir. Assim, não percas o ânimo e prossegue, sempre, atuando feliz, dando do que tens aos mais moços, esses rebentos novos que se ensaiam para a vida e necessitam do teu amparo e orientação.

Redação do Momento Espírita, com base no cap. 9, do livro Boa nova, pelo Espírito Humberto de Campos, psicografia de Francisco Cândido Xavier, ed. Feb.

30 agosto 2010

A Lenda do Dinheiro - Neio Lúcio

A LENDA DO DINHEIRO

Conta-se que, no princípio do mundo, o Senhor entrou em dificuldades no desenvolvimento da obra terrestre, porque os homens se entregaram a excessivo repouso.

Ninguém se animava a trabalhar.

Terra solta amontoava-se aqui e ali. Minerais variados estendiam-se ao léu. Águas estagnadas apareciam em toda parte.

O Divino Organizador pretendia erguer lares e templos, educandários e abrigos diversos, mas... com que braços?

Os homens e as mulheres da Terra, convidados ao suor da edificação por amor, respondiam: - "para quê?" E comiam frutos silvestres, perseguiam animais para devorá-los e dormiam sob as grandes árvores.

Após refletir muito, o Celeste Governador criou o dinheiro, adivinhando que as criaturas, presas da ignorância, se não sabiam agir por amor, operariam por ambição.

E assim aconteceu.

Tão logo surgiu o dinheiro, a comunidade fragmentou-se em pequenas e grandes facções, incentivando-se a produção de benefícios gerais e de valores imaginativos.

Apareceram candidatos a toda espécie de serviços.

O primeiro deles pediu ao Senhor permissão para fundar uma grande olaria. Outro requereu meios de pesquisar os minérios pesados de maneira a transformá-los em utensílios. Certo trabalhador suplicou recursos para aproveitamento de grandes áreas na exploração de cereais.

Outro ainda implorou empréstimo para produzir fios, de modo a colaborar no aperfeiçoamento do vestuário. Servidores de várias procedências vieram e solicitaram auxílio financeiro destinado à criação de remédios.

O Senhor a todos atendeu com alegria.

Em breve, olarias e lavouras, teares rústicos e oficinas rudimentares se improvisaram aqui e acolá, desenvolvendo progresso amplo na inteligência e nas coisas.

Os homens, ansiosamente procurando o dinheiro, a fim de se tornarem mais destacados e poderosos entre si, trabalhavam sem descanso, produzindo tijolos, instrumentos agrícolas, máquinas, fios, óleos, alimento abundante, agasalho, calçados e inúmeras invenções de conforto, e, assim, a terra menos proveitosa foi removida, as pedras aproveitadas e os rios canalizados convenientemente para a irrigação; os frutos foram guardados em conserva preciosa; estradas foram traçadas de norte a sul, de leste a oeste e as águas receberam as primeiras embarcações.

Toda gente perseguia o dinheiro e guerreava pela posse dele.

Vendo, então, o Senhor que os homens produziam vantagens e prosperidade, no anseio de posse, considerou, satisfeito:
- Meus filhos da Terra não puderam servir por amor, em vista da deficiência que, por enquanto, lhes assinala a posição; todavia, o dinheiro estabelecera benéficas competições entre eles, em benefício da obra geral. Reterão provisoriamente os recursos que me pertencem e, com a sensação da propriedade, improvisarão todos os produtos materiais de que o aprimoramento do mundo necessita. Esta é a minha Lei de Empréstimo que permanecerá assentada no Céu.

Cederei possibilidades a quantos mo pedirem, de acordo com as exigências do aproveitamento comum; todavia, cada beneficiário apresentar-me-á contas do que houver despendido, porque a Morte conduzi-los-á, um a um, à minha presença. Este decreto divino funcionará para cada pessoa, em particular, até que meus filhos, individualmente aprendam a servir por amor à felicidade geral, livres do grilhão que a posse institui.

Desde então, a maioria das criaturas passou a trabalhar por dedicação ao dinheiro, que é de propriedade exclusiva do Senhor, da aplicação do qual cada homem e cada mulher prestarão contas a Ele mais tarde.

Do livro "Alvorada Cristã"
Espírito de Neio Lúcio
Psicografia deFrancisco C. Xavier

29 agosto 2010

Campanha Amiga - Augusto Cezar Netto

CAMPANHA AMIGA

Senhora.

Decididamente, o seu convite é uma honra.

A sua bondade me fala em conjugarmos esforços no apoio aos companheiros marginalizados pelo desgaste físico.

Sem dúvida, não é justo empregar a palavra “velhice” a fim de nos reportarmos a esses irmãos valorosos que souberam atravessar as barreiras do cotidiano, na Terra, sem recorrerem à fuga ou ao suicídio.

Que são heróis já se vê.

Formaram famílias robustas. Doaram-se a filhos e netos. Ergueram lar seguro para os descendentes. Trabalharam com fidelidade extrema aos próprios deveres.

E agora muitos deles se espalham por aí, largados a si mesmos ou afetuosamente detidos nos chamados “refúgios geriátricos”, sentenciados à tristeza, como se exílio fosse prêmio à dedicação.

Compreendemos que essa campanha em auxílio aos super-idosos não inclui qualquer gênero de crítica aos grupos sociais.

No crepúsculo da reencarnação os companheiros da estrada humana, quase sempre, estão cansados, qual se não tivessem tido tempo para socorrer aos próprios nervos, senão quando a aposentadoria.

E estamos convencidos de que a maioria deles se recolhe a pensionatos de tratamento a descanso atendendo a decisão voluntária. Sentem-se esses nossos irmãos incompatibilizados com as extravagâncias de determinados descendentes, declaram não suportar os costumes dos bisnetos, nem a algazarra das crianças. E retiram-se para as casas de repouso, no ilusório tentame de esquecer. Entretanto, a família lhes palpita nos recessos da alma. Começam a viver de recordações, imobilizados no tempo, com as lágrimas penduradas nos olhos, esperando que o carinho de alguém lhes reaqueça os corações.

Temos tantos casos desses, sob nossa observação que só nos resta formular os melhores votos pelo êxito do empreendimento que se reveste de tamanha oportunidade.

E se você, coração amigo, se você nos pode emprestar os ouvidos, escute o nosso apelo.

Se possível, adote uma criatura super-idosa por parente, sem afastá-la da paisagem na qual se encontre. Você surpreenderá o seu tutelado tanto em algum recanto esquecido, onde a penúria fornece lições de humildade e fé em Deus, quanto em algum pouso aristocrático, no qual a saudade leciona paciência e conformação.

Se é carência de ordem material o problema de seu protegido, recorde a importância de que o alimento e o agasalho se revestem para ele, e se é pesar pela ausência da família, conceda-lhe alguns minutos de conversação por semana.Meia hora de entendimento, um livro reconfortante, algum tópico ,ais expressivo da imprensa, essa ou aquela página de carinho ou um simples bilhete que demonstre atenção, constituem ingredientes de que se lhes entreteça o reconforto.

Mas por obséquio, não chame os seus protegidos por “vovô” ou por “vovó”, porque esses titulações pertencem aos pais de seus pais e, quando atiradas a outrem, podem ser pontas de sarcasmo que humilham ou depreciam aqueles que a recolhem.

Trate com gentileza o companheiro ou a irmã aos quais você se proponha auxiliar, como se estivesse à frente de um amigo e hóspede de Jesus.

E lembre-se de que se você não desencarnar na mocidade ou nas primeiras faixas de idade adulta, igualmente passará pela obrigação de tolerar o “tempo do desgaste” e, com toda a certeza, embora as plásticas regeneradoras em larga usança no mundo de hoje, você também andará de corpo abatido a inclinar-se para o chão até cair...

Pelo Espírito Augusto Cezar Netto
Do livro: Augusto Vive
Médium: Francisco Cândido Xavier

28 agosto 2010

Amor, Imbatível Amor - Joanna de Ângelis

Amor, Imbatível Amor

O amor é substância criadora e mantenedora do Universo, constituído por essência divina.

É um tesouro que, quanto mais se divide, mais se multiplica, e se enriquece à medida que se reparte.

Mais se agiganta, na razão que mais se doa. Fixa-se com mais poder, quanto mais se irradia.

Nunca perece, porque não se entibia nem se enfraquece, desde que sua força reside no ato mesmo de doar-se, de tornar-se vida.

Assim como o ar é indispensável para a existência orgânica, o amor é o oxigênio para a alma, sem o qual a mesma se enfraquece e perde o sentido de viver.

É imbatível, porque sempre triunfa sobre todas as vicissitudes e ciladas.

Quando aparente - de caráter sensualista, que busca apenas o prazer imediato - se debilita e se envenena, ou se entorpece, dando lugar à frustração.

Quando real, estruturado e maduro - que espera, estimula, renova - não se satura, é sempre novo e ideal, harmônico, sem altibaixos emocionais. Une as pessoas, porque reúne as almas, identifica-as no prazer geral da fraternidade, alimenta o corpo e dulcifica o eu profundo.

O prazer legítimo decorre do amor pleno, gerador da felicidade, enquanto o comum é devorador de energias e de formação angustiante.

O amor atravessa diferentes fases: o infantil, que tem caráter possessivo, o juvenil, que se expressa pela insegurança, o maduro, pacificador, que se entrega sem reservas e faz-se plenificador.

Há um período em que se expressa como compensação, na fase intermediária entre a insegurança e a plenificação, quando dá e recebe, procurando liberar-se da consciência de culpa.

O estado de prazer difere daquele de plenitude, em razão de o primeiro ser fugaz, enquanto o segundo é permanente, mesmo que sob a injunção de relativas aflições e problemas-desafios que podem e devem ser vencidos.

Somente o amor real consegue distingui-los e os pode unir quando se apresentem esporádicos.

A ambição, a posse, a inquietação geradora de insegurança - ciúme, incerteza, ansiedade afetiva, cobrança de carinhos e atenções -, a necessidade de ser amado caracterizam o estágio do amor infantil, obsessivo, dominador, que pensa exclusivamente em si antes que no ser amado.

A confiança, suave-doce e tranqüila, a alegria natural e sem alarde, a exteriorização do bem que se pode e se deve executar, a compaixão dinâmica, a não-posse, não dependência, não-exigência, são benesses do amor pleno, pacificador, imorredouro.

Mesmo que se modifiquem os quadros existenciais, que se alterem as manifestações da afetividade do ser amado, o amor permanece libertador, confiante, indestrutível.

Nunca se impõe, porque é espontâneo como a própria vida e irradia-se mimetizando, contagiando de júbilos e de paz.

Expande-se como um perfume que impregna, agradável, suavemente, porque não é agressivo nem embriagador ou apaixonado...

O amor não se apega, não sofre a falta, mas frui sempre, porque vive no íntimo do ser e não das gratificações que o amado oferece.

O amor deve ser sempre o ponto de partida de todas as aspirações e a etapa final de todos os anelos humanos.

O clímax do amor se encontra naquele sentimento que Jesus ofereceu à Humanidade e prossegue doando, na Sua condição de Amante não amado.

De "Amor, imbatível Amor"
Psicografia de Divaldo P. Franco
Espírito de Joanna de Ângelis


27 agosto 2010

Belarmino Bicas - Irmão X

BELARMINO BICAS

Depois da festa beneficente, em que servíramos justos, Belarmino Bicas, prezado companheiro a que nos afeiçoamos, no Plano Espiritual, chamou-me à parte e falou, decidido:

- Bem, já que estivemos hoje em tarefa de solidariedade, estimaria solicitar um favor...

Ante a surpresa que nos assaltou, Belarmino prosseguiu:

- Soube que você ainda dispões de alguma facilidade para escrever aos companheiros encarnados na Terra e gostaria de confiar-lhe um assunto...

- Que assunto?

- Acontece que desencarnei com cinquenta e oito anos de idade, após vinte de convicção espírita. Abracei os princípios codificados por Allan Kardec, aos trinta e oito, e, como sempre fora irascível por temperamento, organizei, desde os meus primeiros contactos com a Doutrina Consoladora, uma relação diária de todas as minhas exasperaçãoes, apontando-lhes as causas para estudos posteriores... Os meus desconchavos, porém, foram tantos que, apesar dos nobres conhecimentos assimilados, suprimi, inconscientemente, vinte e dois anos da quota de oitenta que me cabia desfrutar no corpo físico, regressando à Pátria Espiritual na condição de suicida indireto... Somente aqui, pude examinar os meus problemas e acomodar-me às desilusões... Quantos tesouros perdidos por bagatelas! Quanta asneira em nome do sentimento!...

E, exibindo curioso papel, Belarmino acrescentava:

- Conte o meu caso para quem esteja ainda carregando a bobagem do azedume! Fale do perigo das zangas sistemáticas, insista na necessidade da tolerância, da paciência, da serenidade, do perdão! Rogue aos nossos companheiros para que não percam a riqueza das horas com suscetibilidades e amuos, explique ao pessoal na Terra que mau-humor também mata!...

Foi então que passei à leitura da interessante estatística de irritações, que não me furto à satisfação de transcrever: Belarmino Bicas – Número de cóleras e mágoas desnecessárias com a especificação das causas respectivas, de 1936 a 1956

1811 em razão de contrariedades em famíla;
906 por indispor-se, dentro de casa, em questão de alimentação e higiene;
1614 por altercações com a esposa, em divergência na conduta doméstica e social;
1801 por motivo de desgostos com os filhos, genros e nora;
11 por descontentamento com os netos;
1015 por entrar em choque com chefes de serviço;
1333 por incompatibilidade no trato com os colegas;
1012 em virtude de reclamações a fornecedores e logistas em casos de pouca monta;
614 por mal-entendidos com vizinhos;
315 por ressentimentos com amigos íntimos;
1089 por melindres ante o descaso de funcionários e empregados de instituições diversas;
615 por aborrecimentos com barbeiros e alfaiates;
777 por desacordos com motoristas e passageiros desconhecidos, em viagem de ônibus, automóveis particulares, bondes e lotações;
419 por desavenças com leiteiros e padeiros;
820 por malquistar-se com garções em retaurantes e cafés;
211 por ofender-se com dificuldades em serviços de telefones;
90 por motivo de controvérsias em casas de diversões;
815 por abespinhar-se com opiniões alheias em matéria religiosa;
217 por incompreensões com irmãos de fé, no templo espírita;
901 por engano ou inquietação, diante de pessoas imaginários ou da perspectiva de acontecimentos desagradáveis que nunca sucederam.
Total: 16.386 exasperações inúteis.

Esse, o apanhado das irritações do prestimoso amigo Bicas: 16.386 dissabores dispensáveis em 7.300 dias de existência, e, isso, por quatro lustros mais belos de sua passagem no mundo, porque iluminados pelos clarões do Evangelho Redivivo. Cumpro-lhe o desejo de tornar conhecida a sua experiência que, a nosso ver, é tão importante quanto as observações que previnem desequilíbrios e enfermidades, embora estejamos certos de que muita gente julgará o balanço de Belarmino por mera invencionice de Espírito loroteiro.

Pelo Espírito Irmão X
Do livro: Cartas e Crônicas
Médium: Francisco Cândido Xavier

26 agosto 2010

Inesperada Observação - Irmão X

INESPERADA OBSERVAÇÃO

Assim que a fama de Jesus Se espalhou fartamente, dizia-se, em torno de Genesaré, que o Messias jamais desprezava o ensejo de ensinar o bem, através de todos os quadros da natureza.

Ante as ondas revoltas, comentava as paixões que devastam a criatura; contemplando algum ninho com filhotes tenros, exaltava a sublimidade dos elos da família; à frente das flores campesinas louvava a tranqüilidade e a segurança das coisas simples; ouvindo o cântico das aves, reportava-se às harmonias do alto. Ocasião houve em que de uma semente de mostarda extraiu glorioso símbolo para a fé e, numa tarde fulgurante de pregação consoladora, encontrara inesquecíveis imagens do Reino de Deus, lembrando um trigal. Explanou sobre o amor celeste, recorrendo a uma dracma perdida, e surgiu um instante, ó surpresa divina, em que o Cristo subtraíra infortunada pecadora ao apedrejamento, usando palavras que lhe denunciavam a perfeita compreensão da justiça!

Reconhecida e proclamada a sabedoria d’Ele, porfiavam os discípulos em lhe arrancarem referências nobres e sábias palavras. Por mais se revezassem na exposição de feridas e maldades humanas, curiosos de apreender-lhe a conceituarão da vida, o Mestre demonstrava incessantes recursos na descoberta da “melhor parte”.

Como ninguém, sabia advogar a causa dos infelizes e identificar atenuantes para as faltas alheias, guardado o respeito que sempre consagrou à ordem. Guerreava abertamente o mal e chicoteava o pecado. Entretanto, estava pronto invariavelmente ao socorro e amparo das vítimas. Se vivia de pé contra os monstros da perversidade e da ignorância, nunca foi observado sem compaixão para com os desventurados e falidos da sorte. Levantava e animava sempre. Estimulava as qualidades superiores sem descanso, surpreendia ângulos iluminados nas figuras aparentemente trevosas.

Impressionados com aquela feição d’Ele, Tiago e João, certa feita, ao regressarem de rapida estada em Cesareia, traziam, espantados, o caso de um ladrão confesso, que fora ruidosamente trancafiado no cárcere...

Pisando Cafarnaum, de retorno, Tiago disse ao irmão, após relacionar as dificuldades do prisioneiro:

– Que diria o Senhor se viesse a sabê-la. Tiraria ilações benéficas de acontecimento tão escabroso?

Ouvido pelo irmão, com indisfarçável interesse, rematou:

– Dar-lhe-ei notícias do sucedido.

Com efeito, depois de abraçarem Jesus, de volta, o filho de Zebedeu passou a narrar-lhe a ocorrência desagradável, em frases longas e inúteis.

– O criminoso de Cesareia – descreveu, prolixo – fora preso em flagrante, em seguida a audaciosa tentativa de roubo, que perdurara por seis meses consecutivos. Conhecia, através de informações, vasto ninho de jóias pertencentes a importante família romana e, por cento e oitenta dias, cavara ocultamente a parede rochosa, de modo a pilhar as preciosidades, sem testemunhas. Fizera-se passar por escravo misérrimo, sofrera açoites na carne, padecera fome e sede, por determinações de capatazes insolentes, trabalhara de sol a sol num campo não distante da residência patrícia, tão só para valer-se da noite, na transposição do obstáculo que o inibia de apropriar-se dos camafeus e das pedras, das redes de ouro e dos braceletes de brilhantes. Na derradeira noite de trabalho sutil, foi seguido pela observação de um guarda cuidadoso e, quando mergulhava as mãos ávidas no tesouro imenso, eis que dois vigilantes espadaúdos agarram-no pressurosos. Buscou escapar, mas debalde. Rudes bofetadas amassaram-lhe o rosto e dos braços duramente golpeados corria profusamente o sangue. Aturdido, espancado, depois de sofrer pesadas humilhações, o infeliz, agonizando, fora posto a ferros em condições nas quais, talvez, não lhe seria dado esperar a sentença de morte...

O Mestre ouviu a longa narrativa em silêncio e, porque observasse a atitude expectante dos aprendizes, neles fixou o olhar percuciente e doce e falou:

- Se a prática do mal exige tanta inteligência e serviço de um homem, calculemos a nossa necessidade de compreensão, devotamento e perseverança no sacrifício que nos reclama a execução do verdadeiro bem.

Logo após, afastou-se, pensativo, enquanto os dois jovens companheiros se entreolhavam, surpresos, sem saberem que replicar.

Pelo Espírito Irmão X
Do livro: Luz Acima
Médium: Francisco Cândido Xavier

25 agosto 2010

De Alma Desperta - Emmanuel

DE ALMA DESPERTA

"Por isso te lembro despertes o dom de Deus que existe em ti." Paulo (II TIMÓTEO, 1:6)

É indispensável muito esforço de vontade para não nos perdermos indefinitamente na sombra dos impulsos primitivistas.

À frente dos milênios passados, em nosso campo evolutivo, somos suscetíveis de longa permanência nos resvaladouros do erro, cristalizando atitudes em desacordo com as Leis Eternas.

Para que não nos demoremos no fundo dos precipícios, temos ao nosso dispor a luz da Revelação Divina, dádiva do Alto, que, em hipótese alguma, devemos permitir se extingua em nós.

Em face da extensa e pesada bagagem de nossas necessidades de regeneração e aperfeiçoamento, as tentações para o desvio surgem com esmagadora percentagem sobre as sugestões de prosseguimento no caminho reto, dentro da ascensão espiritual.

Nas menores atividades da luta humana, o aprendiz é influenciado a permanecer às escuras.

Nas palestras comuns, cercam-no insinuações caluniosas e descabidas. Nos pensamentos habituais, recebe mil e um convites desordenados das zonas inferiores.

Nas aplicações da justiça, é compelido a difíceis recapitulações, em virtude do demasiado individualismo do pretérito que procura perpetuar-se.

Nas ações de trabalho, em obediência às determinações da vida, é, muitas vezes, levado a buscar descanso indevido.

Até mesmo na alimentação do corpo é conduzido a perigosas convocações ao desequilíbrio.

Por essa razão, Paulo aconselhava ao companheiro não olvidasse a necessidade de acordar o "dom de Deus", no altar do coração.

Que o homem sofrerá tentações, que cairá muitas vezes, que se afligirá com decepções e desânimos, na estrada iluminativa, não padece dúvida para nenhum de nós, irmãos mais velhos em experiência maior; entretanto, é imprescindível marcharmos de
alma desperta, na posição de reerguimento e reedificação, sempre que necessário.

Que as sombras do passado nos fustiguem, mas jamais nos esqueçamos de reacender a própria que luz.

Psicografia de Chico Xaiver
Espírito Emmanuel
Livro:Vinha de Luz. 14ª ed - FEB: RJ

24 agosto 2010

Em Nossos Caminhos - Emmanuel

EM NOSSOS CAMINHOS

Revisando a parábola do samaritano, lembramo-nos de que hoje milhares de irmãos nossos sobem do passado em direção do futuro pelos caminhos do presente, desfalecendo, muitas vezes, sob dificuldades e provações que os deixam semimortos:

os que não contavam com as tempestades de renovação da atualidade e se marginalizaram em desequilíbrio;

os que forjaram algemas para o amor transformando-o, logo após, no fogo passional em que se atiram na delinqüência;

os que desertaram do trabalho e tombaram em penúria;

os que converteram a inteligência em antena nas trevas e se horizontalizaram, por dentro de si mesmos, nas depressões da culpa;

os que abusaram da misericórdia dos medicamentos pacificadores e, tentando fugir das próprias responsabilidades, se precipitaram em despenhadeiros de alucinação e loucura;

os que perderam a fé em meio das experiências necessárias à evolução e estiram-se no desânimo, à beira do suicídio;

os que não suportaram a transformação dos seres amados e se acomodaram, revoltados, sobre pedras de angústia;

e aqueles outros que tateiam a lousa, nos parques da saudade, perguntando pelos entes queridos que a morte lhes arredou da convivência, a carregarem o coração encharcado de lágrimas.

À frente de quantos surpreendas na estrada, caídos em sofrimento, interrompe-te para compreender e servir.

Determina a caridade nos situemos no lugar daqueles que necessitam de amparo, doando-lhes o melhor de nós, com a certeza de que provavelmente amanhã serão eles, os socorridos de agora, nossos próprios benfeitores.

Entre os companheiros de Humanidade que conhecem o campo de trabalho e passam, de longe, com receio de serem incomodados, e aqueles que foram espoliados na coragem de caminhar e na alegria de viver, recordemos o samaritano que se deteve na marcha dos próprios interesses e auxiliou espontaneamente ao próximo sem nada perguntar e, conforme a lição do Cristo, façamos nós o mesmo.

De "Viajor"
de Francisco Cândido Xavier
pelo Espírito Emmanuel

23 agosto 2010

Socorro Oportuno - Emmanuel e André Luiz

SOCORRO OPORTUNO

Sensibiliza-te diante do irmão positivamente obsidiado e esmera-te em ofertar-lhe o esclarecimento salvador com que a Doutrina Espírita te favorece.

Bendito seja o impulso que te leva a socorrer semelhante doente da alma; entretanto, reflete nos outros, os que se encontram nas últimas trincheiras da resistência ao desequilíbrio espiritual.

Por um alienado que se candidata às terapias do manicômio, centenas de fronteiriços da obsessão renteiam contigo na experiência cotidiana. Desambientados num mundo que ainda não dispõe de recursos que lhes aliviem o íntimo atormentado, esperam por algo que lhes pacifiquem as energias, à maneira de viajores tresmalhados nas trevas, suspirando por um raio de luz. . . Marchavam resguardados na honestidade e viram-se lesados a golpes de crueldade, mascarada de inteligência; abraçaram tarefas edificantes e foram espancados pela injúria, acusados de faltas que jamais seriam capazes de cometer; entregaram-se, tranqüilos, a compromissos que supuseram inconspurcáveis e acabaram espezinhados nos sonhos mais puros; edificaram o lar, como sendo um caminho de elevação, e reconheceram-se, dentro dele, à feição de prisioneiros sem esperança; criaram filhos, investindo em casa toda a sua riqueza de ideal e ternura, na expectativa de encontrarem companheiros abençoados para a velhice, e achar am-se relegados a extremo abandono; saíram da juventude, plenos de aspirações renovadoras e toparam enfermidades que lhes atenazam a vida. . . E, com eles, os que se acusam desajustados, temos ainda os que vieram do berço em aflição e penúria, os que se emaranharam em labirintos de tédio, por demasia de conforto, os que esmorecem nas responsabilidades que esposaram e os que carregam no corpo dolorosas inibições. . .

Lembra-te deles, os quase loucos de sofrimento, e trabalha para que a Doutrina Espírita lhes estenda socorro oportuno. Para isso, estudemos Allan Kardec, ao clarão da mensagem de Jesus Cristo, e, seja no exemplo ou na atitude, na ação ou na palavra, recordemos que o Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade – a caridade da sua própria divulgação.

Espíritos Emmanuel e André Luiz
Livro: Estude e Viva, psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira

22 agosto 2010

O Momento de Deus - André Luiz

O MOMENTO DE DEUS

Passará, talvez desapercebido para nós, contudo, ele existe no tempo, o momento de Deus.

Esfalfamo-nos, bastas vezes, transfigurando os valores da atenção nos desperdícios da inquietação, diligenciando impor a fé religiosa naqueles que amamos, esquecidos de que o Criador lhes consagra mais amor que nós mesmos.

Deus espera. Por que desanimar, de nossa parte, quando a edificação espiritual se nos afigura tardia?

Com isso, não desejamos dizer que somente nos resta abandonar ao vento da provação aqueles entes queridos para os quais aspiramos o entendimento maior. Reflitamos que se a Divina Providência no-los confiou, decerto assim procedeu, através das pessoas e circunstâncias que nos rodeiam, aguardando algo de nossa cooperação no amparo a eles.

Em tempo algum, ser-nos-á lícito relegar para Deus as obrigações que nos competem, o que nos constrange igualmente a verificar que existe a "parte de Deus" em cada realização, cujo âmbito nos é defeso à qualquer exigência.

Não conseguimos antepor-mos, de maneira alguma, ao momento de Deus e nem fazer o que lhe cabe realizar, todavia, somos convidados a preparar-lhe as condições adequadas ao surgimento vitorioso.

À medida que se nos intensifica a madureza de espírito, categorizamo-nos à conta de semeadores nas almas.

Nesse sentido, recordemos os cultivadores da gleba que sustentam a civilização e asseguram a vida. Nenhum deles, por mais sábio, logra desentranhar com as próprias mãos, os princípios da semente, cujo embrião possui um instante próprio a fim de desacolchetar envoltórios e desabrochar à plena luz.

Ainda assim, patrocinam a exatidão da leira, administram adubos, dosam a rega, garantem a defesa da planta e efetuam enxertias, quando enxertias se façam necessárias ao rendimento da produção.

Se há imperscrutável serviço divino na intimidade dos processos da natureza, há inadiável serviço do homem na esfera da natureza para que a natureza corresponda intensamente ao toque divino.

Os estatutos da Criação não permitem à criatura relegar para o Criador a obrigação que lhe compete.

Ama, pois, teus pais, filhos, irmãos, amigos e companheiros tais quais são por agora, sem te esqueceres de ajudá-los com simpatia, cooperação, fraternidade e bons exemplos, a se exprimirem por valioso auxílio prévio.

Trabalha e prepara com eles e junto deles o futuro melhor, na convicção de que, em matéria de compreensão e penetração nos reinos do espírito, os mais elevados anseios humanos são compelidos a esperar pelo momento de Deus.

Pelo Espírito André Luiz
Do livro: Sol na Alma
Médium: Francisco Cândido Xavier

21 agosto 2010

Estás Aflito? - Camilo

ESTÁS AFLITO?

Por toda a parte, a aflição tem povoado a vida de incontáveis criaturas, pelos mais variados motivos.

Tu estás aflito?

Por quê?

Estás aflito por causa dos problemas da saúde que tu ou algum dos teus tem enfrentado?

Estás aflito por questões de ordem econômico-financeira, que te ferreteiam a existência?

Estás aflito em virtude do desemprego que vens amargando há longo tempo?

Estás aflito por dificuldades na esfera política da sociedade em que vives?

Estás aflito por medo da violência, denunciada, audaciosa e renitente, a extravasar em todo lugar a sua baba perturbadora?

Por que te deixas afligir?

É importante que te deixes empolgar pelas vozes de Jesus, quando exprime que "a cada dia já basta o seu mal".

Faz-se urgente maior atenção para com os ensinos da vida eterna, tendo em vista que, por mais aflija a criatura, nada será modificado se não se modificam concepções, mentalidades e posturas dos indivíduos.

Se te queres libertar das peias das desnecessárias aflições, basta que passes a prestar atenção naquilo que se constitua o teu dever e teus compromissos, dando conta dessas atividades e realizações. E aquilo que não te couber, e que não tenhas possibilidades de ativar ou propiciar o ativamento, tranqüiliza-te, pondo-te e pondo todas as coisas sob a guarda de Quem de tudo cuida, tudo prevê, tudo provê...põe tudo, e põe-te, também, nas Mãos do Criador.

"A cada dia já basta o seu mal". Assim, dá conta dos teus quefazeres e das tuas responsabilidades, no tempo presente, no dia de hoje, e não te perturbes na aflição por desejar, sem conseguir, consertar as pessoas, refazer os caminhos alheios ou modificar a Humanidade.

Se estiveres operando o melhor, segue avante, confiando sempre nas providências do Altíssimo, que a tudo atende, que ao ser humano entende e envia ao mundo tudo o de que carecem os Seus filhos, a fim de que desenvolvam a própria felicidade, em clima de tranqüila confiança no amanhã de Deus.

Do livro "Revelações da Luz"
De J. Raul Teixeira
Espírito Camilo

20 agosto 2010

Fidelidade Doutrinária - Vianna de Carvalho

FIDELIDADE DOUTRINÁRIA

“O Espiritismo deve ser divulgado conforme foi apresentado por Allan Kardec, sem adaptações nem acomodações de conveniência em vãs tentativas de conseguir-se adeptos. É a doutrina que se fundamenta na razão, que decorre da observação do fato em laboratório e, por isso mesmo, não se compadece com as extravagâncias em predomínio nos diferentes segmentos religiosos da Humanidade nos seus mais diversos períodos. Possui a sua própria estrutura, que resiste a quaisquer investidas e lutas, permanecendo inabalável, sem que tenha necessidade de reformular conceitos para acompanhar modismos e modernismos, a pretexto de adaptá-la aos caprichos então vigentes.

Por meio sub-reptício, porém, não faltam tentativas de enxerto de idéias e convenções, práticas inconvenientes e comportamentos que não encontram guarida na sua rígida contextura doutrinal que, aceitos, poderiam criar desvios, através dos quais atrairia os incautos e desconhecedores das suas propostas corretas, destituídas de compromissos com outras doutrinas, que iriam criar, sem dúvida, perturbações perfeitamente evitáveis.

Atualmente, alguns indivíduos pretendem deixar à margem os estudos dos seus postulados, para que sejam adotados programas com os quais o Espiritismo não tem compromisso nenhum.

Certamente, o desenvolvimento cultural do espírito faz parte da proposta doutrinária, no entanto, deve existir total preferência e comprometimento pelo estudo e reflexão nos ensinamentos que se encontram exarados na Codificação.

O Espiritismo possui suas próprias características, conforme delineadas por Allan Kardec, a fim de manter os seus aspectos filosófico, científico e religioso inalteráveis.

Qualquer enxerto, por mais delicado se apresente para ser aceito, fere-lhe a integridade, porque ele é um bloco monolítico, que não dispõe de espaço para adaptações, nem acréscimos que difiram da sua estrutura básica.

Indispensável, portanto, a vigilância de todos os espíritas sinceros, para que o escalracho seitista e sutil da invasão de teses estranhas não predomine no seu campo de ação, terminando por asfixiar a planta boa que é, cuja mensagem dispensa as propostas reformadoras, caracterizadas pela precipitação e pelo desconhecimento dos seus ensinamentos.

O Espiritismo resiste aos seus oponentes, que o caluniam insensatamente e aos seus adeptos invigilantes que se deixam fascinar pela vaidade, buscando promoção do ego, projeção da personalidade doentia, através da sua extraordinárias contribuição.

Simples como um raio de luz e poderoso como a chama crepitante, o Espiritismo é a resposta sábia dos Céus às interrogações da criatura aflita na Terra, conduzindo-a ao encontro de Deus.

Preservá-lo da presunção dos reformadores e das propostas ligeiras dos que o ignoram e apenas fazem parte dos grupos onde é apresentado, constitui dever de todos nós, encarnados e desencarnados, que fomos convidados ao esforço de edificar a Nova Era do Espírito Imortal, seguindo as pegadas de Allan Kardec, o discípulo fiel e incorruptível de Jesus”

Vianna de Carvalho* (Espírito)
Psicografia de Divaldo Pereira Franco
Salvador (BA), 07 de Agosto de 1996


*Vianna de Carvalho (1874 – 1926)

Foi o primeiro grande orador espírita. 0 seu nome representou verdadeira bandeira no campo da disseminação do Espiritismo, pois, o que ele fez em vários anos de luta e de atividades intensíssimas é algo que ainda não se pode mensurar, tal o gigantismo da tarefa por ele desenvolvida em todo o país.
A sua palavra era atraente e arrebatadora, conseguindo uma penetração inusitada e inconfundível. Como conferencista era dos mais requisitados, uma vez que seu verbo inspirado, sua voz harmoniosa, sua animação eram impressionantes. Foi, na realidade, um fenômeno da palavra.

19 agosto 2010

Estás Preocupado? - Camilo

Estás Preocupado?

É compreensível que te surpreendas em estado de preocupação, quando te defrontes com os diversos desafios do teu cotidiano.

Não será tarefa simplista o ter que dar conta dos quefazeres domésticos, associados aos da profissão e do convívio social.

Realmente, concebe-se que são tantas coisas a pesar sobre o teu sentimento, sobre os teus pensamentos, sobre o teu humor, que, vez que outra, percebes que foste invadido por ondas de preocupações, para o que abriste as portas morais.

Entretanto, vale parar um pouco e meditar acerca desse fenômeno.

Quando te preocupas, passas a dispender largas quotas das tuas energias na direção do objeto da tua preocupação.

Se a causa é válida, converge a preocupação em ação positiva e benfazeja, ao invés de te manteres paralisado à frente do desafio.

Se o móvel da preocupação não tiver a marca do legítimo valor, se o teu estado psicológico prende-se ao desejo de posse, ao ciúme, à falta de fé em Deus ou a qualquer capricho nocivo à saúde da alma, é chegado o tempo de, à custa dos necessários esforços, te desligares dessa sintonia, que te irá minando o mundo íntimo, sem que encontres solução, podendo escorregar para valões de desespero, mágoa, ódio ou indiferença, ou em estado extremo, podendo impulsionar-te para o crime, que tem variado espectro para as almas lúcidas que conhecem, ainda que por simples informações, as orientações das Leis Divinas.

Desse modo, estuda com clareza as fontes e motivos das tuas preocupações, considerando com o Celeste Guia que a cada dia já basta o seu mal.

Na certeza de que estás no mundo a fim de aprender, crescer e amar, nos roteiros da felicidade, não te permitas sucumbir ante problemas de saúde, financeiros, mal-entendidos ou familiares. Aprende a resolver, um após outro, os teus problemas e, na certeza de que o tempo é o fator de resolução de todos os enigmas, entrega as tuas preocupações ao Criador e marcha adiante aguardando a luz do novo dia, que sempre brilha após as noites de horror e sombras.

Não te deixes aturdir pelas exageradas preocupações, trabalhando com valor e afinco o cerne de ti mesmo.

Camilo
Psicografia de Raul Teixeira

18 agosto 2010

Mulher Especial - Ivan de Albuquerque




MULHER ESPECIAL


Há mulheres que são especiais.

Em dadas circunstâncias, parecem princesas ou mesmo rainhas, pois encantam, fascinam e mostram ter poderes de tal modo expressivos, diante dos quais dobramos a cerviz.

Há ocasiões em que são como administradoras ou economistas, quando se põem a organizar a vida do lar, seus movimentos e despesas, tudo aquilo que se compra e o que se põe na mesa, para a fruição de todos. Conseguem, muitas vezes, ajuntar alguma quantia que sobra para momentos mais difíceis.

Quantas vezes se mostram como agentes de disciplina? Alteiam a voz, como quem dá voz de comando, ordenam, impactam com o tipo de inflexão que utilizam, e põem, dessa maneira, tudo e todos em seus devidos lugares, dentro de casa.

São quais colegas, quais colegiais, variadas vezes. Envolvem-se com os petizes, brincam, jogam com eles; riem-se deles e com eles, até o momento justo de estancar a brincadeira.

Mulheres há que se tornam médicas ou enfermeiras, diante das necessidades dos seus filhos. Acolhem-nos, preparam-lhes poções e chás diversos, e, muitas vezes contrariando as instruções formais, dão-lhes xaropes e pastilhas. Se enfermos, banham-nos, põem-nos em seus leitos, recobrem-nos, acalentam e vigiam, dias ou noites, dias e noites, até que retornem à saúde.

Mas, dentre essas mulheres incríveis, especiais de verdade, temos aquelas que reúnem todas essas habilidades: são mestras, são agentes disciplinares; são administradoras e economistas, enfermeiras, psicólogas, são médicas. São cozinheiras, lavadeiras, artesãs e fiandeiras. Conseguem ser governantas, serviçais e chegam a ser santas.

Essas almas geniais de mulher são alimentadas pelo estranho ideal de sempre entender, de atender e de sempre servir. São companheiras próximas dos anjos, são servidoras de Deus e mensageiras da vida. São nossas fãs, amigas extremadas para quem nunca há nada impossível, quando se trata de atender-nos, de alegrar-nos, de ajudar-nos.

São mulheres sem igual. Perfumam como flores, são ardentes como a chama e brilham como estrelas. Nada obstante todos os encômios que lhes possamos dirigir, o que é mais tocante, mais comovente, é saber que uma dessas mulheres, incumbidas por Deus para mudar o mundo, ajudando-o a ser melhor, a ser um campo bom de se viver, tem uma missão particular.

Há uma mulher para quem o Criador entregou a missão de cuidar-me, de fazer-me estudar para entender, de ensinar-me a orar e a crescer, a respeitar a todos e a servir para o bem. Essa mulher é um encanto em minha vida, e não há ninguém que se lhe assemelhe. Ao vê-la, marejam-se-me os olhos e bate forte o meu coração. Ela é tal qual amálgama de ouro e brilhante. Ela é, por fim, a luz que torna meu caminho cintilante. É aquela a quem chamo de minha mãe.


Ivan de Albuquerque
Mensagem psicografada por Raul Teixeira, em 08.03.2006, na Sociedade Espírita Fraternidade, Niterói-RJ.

17 agosto 2010

Ave, Allan Kardec! - Camilo


Ave, Allan Kardec!

Nos programas de Deus, nos projetos da Vida, são poucas as vezes em que o cérebro humano consegue penetrar, com o necessário aprofundamento.

A Terra jazia sob névoa escura, no açodar de forças desconexas. Mutilados os sentimentos; acirrados os temperamentos rebeldes; ensombrada a Ciência, em face de absurdo materialismo; niilismo na Filosofia e treda vaidade nas academias, quanto nos salões culturais...

A cegueira da fé que se debatia por entre paredes frias, sob as naves vazias dos templos mortiços. Apregoava-se o nome do Senhor, mantendo-O, todavia, à distância das práticas religiosas...

Em meio a essa hecatombe, nos arraiais da cultura francesa, o racionalismo penetrava de modo insopitável.

Bonaparte, o Corso, que fizera-se imperador, belicoso, vociferando loucuras, após abaladas as bases dos seus compromissos mais nobilitantes para com a existência, armava-se contra a Igreja, liderada por Pio VII...

Eram dias atrozes, em que não parecia haver solução para os enigmas do pensamento, para o questionamento da fé ou para as conclusões filosóficas que, amadurecidas, conduzissem a mentalidade humana para as reflexões acuradas...

O povo continuava relegado e a miséria grassava, desafiadora, enquanto os intelectuais vaidosos se debatiam entre discussões intérminas, que a lugar nenhum logravam conduzir.

É nesse momento que os corações sofredores do orbe lançam aos Espaços Infinitos a sua litania que atinge os Ouvidos Divinos. Nesse período histórico, os ais da Humanidade rompem as distâncias mentais para comoverem os Céus.

A programática celeste, desde muito, preparava o instante ideal, para o advento da Luz.

Abrindo-se os Céus, lançam-se as Coortes dos Espíritos Nobres, em alamedas de estrelas, espargindo lucidez nos ensinos de escol.

Enviam batedores, achanadores, preparadores. As notícias chegam a todos, como rastilho incendiado. A vila de Mr. Hyde explode fenomênica e torna-se berço da Nova Era. As mesas contam, cantam, movimentam-se, deixando estupefatos os observadores, quanto embalam os frívolos de todos os tempos...

A América treme, a Europa se agita...

Atuam, diligentes, as Hostes do Consolador. Do gabinete excelente, entre estudos profundos, vão buscar a personalidade gigantesca, protagonista da epopéia futura... A Falange da Verdade prepara-se para admoestar a vacuidade e estabelecer um império novo, agora sobre as consciências, dinamizando o amor e burilando a cultura; dando razão à fé e iluminando o conhecimento.

Inaugurando novo período para o pensamento humano, com a força do ideal e o apoio de insuperável grandeza, surge como um Astro, pintando de luz a escuridade da noite terrena, a figura apostolar de Léon Rivail.

* * *

Não mais se discutem as afirmativas revoltosas de Chaumette, tentando substituir, pela Razão convertida em nova divindade ateísta, que ele fazia representada por jovem figura do meretrício parisiense, a força ideológica dos representantes da Notre Dame.

Já não se levantam questões em redor de Danton, de Marat, de Robespierre, nos seus ideais revolucionários.

Bruxuleavam as chamas inquisidoras, nos seus últimos estertores. A letra morta, que Lutero tivera a coragem de retirar da escuridão da cripta para a claridade do dia, já não alimentava, devidamente, as almas carecentes, tornando-se necessário ajuntar o espírito vivificante que motiva à vida.

Agora é uma nova luta que se trava na Terra.

Os Imortais lançam-se das imensidões e aportam o orbe. O Missionário escolhido identifica-se com a Missão. Concebe sua pujança e olvida os próprios interesses, adotando o criptônimo que lhe correspondia ao antigo nome, quando cantara a fraternidade, sob carvalhos seculares, nas florestas gaulesas, na condição de grave sacerdote, Allan Kardec.

* * *

Impondo-se portentoso trabalho, Kardec organiza os ditos dos Espíritos do Senhor. A Codificação do Espiritismo fulgura para o mundo.

Não mais deuses de pedra insinuando-se como verdadeiros, para as consciências atreladas à ignorância...

O Senhor dos Mundos, expulso, antes, do território francês, retorna, convertido na Inteligência Suprema, causadora de tudo quanto existe, nas Vozes gloriosas dos Céus...

Nunca mais os numes belicosos, nem o senhor dos exércitos, caprichoso, destruindo os seus adversários, para consumi-los, aterradoramente...

Com Kardec, na formidável Codificação, os filhos de Deus são imortais por essência. Indestrutíveis, deverão retornar ao plano das lutas, sempre que necessário, até coroarem-se com a fulguração evolutiva.

Em passos lentos, se vai despegando a criatura do pavor e das superstições, elucidada quanto à realidade do Espírito, galgando os roteiros da fé refletida, raciocinada, de modo a poder vivê-la, senti-la, sofrê-la, se preciso.

Jesus Cristo volve aos caminhos das ovelhas perdidas da Casa de Israel. Convoca os Espíritos corajosos a seguirem-No. Deixa que falem ao mundo, aqueles que se supunham mortos ou eram tidos como tais. A mediunidade é ponte levadiça, unindo a Terra aos Estuários Divinos, atendendo aos sofredores em quaisquer condições e coletando as messes luminosas do Mais Alto.

A interpretação das lições do Nazareno faz-se clara. O entendimento das verdades do Evangelho, com o Espiritismo, é palpável.

A mensagem consola e orienta, propõe que se amem as criaturas e que, ao mesmo tempo, desenvolvam-se, instruam-se. E a vida se faz lógica, compreensível.

Com Allan Kardec, a Doutrina Espírita avança. Ao decaído, estende a mão que socorre e o arrimo que o apruma, em nome da caridade. Aos que estão de pé, fala-lhes de sua missão no mundo, sem que se percam na inutilidade vaidosa ou nos labirintos da impiedade. A ninguém promete salvação, embora faculte paz pelos compromissos devidamente atendidos. Ninguém vai ameaçado com os terrores infernais, entretanto, todos tomam posse das noções de responsabilidade à frente dos próprios atos.

E, quando o Bandeirante da Verdade tomba, rompendo as cadeias que o detinham no chão terrestre, prossegue além, vencidas as pelejas humanas, atendendo aos serviços de Jesus, cuidando das almas sofridas e em processo de brunimento, que ainda se acham vinculadas aos processos planetários.

Legítimo Benfeitor da Humanidade, na vibração que a tua memória enseja, dizemos:

- Ave, Allan Kardec! Teus discípulos novos e singelos, saudamos-te, nos umbrais da Era Nova, que impulsionaste com tua luta.

Camilo
Psicografia de J. Raul Teixeira

16 agosto 2010

Influência Paralisante - Camilo

Influência Paralisante

A subjugação é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo. (O Livro dos Médiuns, 2.a parte, cap. XXIII, item 240, § 1.o)

Sem desconsiderarmos os casos de patologias que agem sobre os centros da motricidade de certos indivíduos, fazendo-os ancilosados, mencionamos um gênero de perturbação obsessiva, que vem, sem dúvida, dominando companheiros desavisados ou desassisados que, gradualmente, se aprofundam em miasmas infelizes, sem que disso se apercebam.

Referimo-nos ao que poderíamos chamar de obsessão anestesiante.

É válida a consideração pelos anestésicos, quando eles representam conquistas abençoadas do progresso do mundo, objetivando o impedimento das dores torturantes. Entretanto, identificamos outros tipos de substâncias, trabalhadas por psiquismos cruéis e infelicitadores que, quando assimiladas pela alma, têm o poder de detê-las na caminhada para a frente.

Variados têm sido os que se deixam conduzir pelas influências narcóticas de muitas mentes atreladas ao mal ou ao marasmo, do Mundo Invisível, naturalmente desleixados com relação à vigilância íntima, realizando seus afazeres, quando os realizam, como quem se desincumbe de um fardo pesado e difícil, mas não como quem participa do alevantamento espiritual da Humanidade.

Encontram-se elementos que se acostumaram a deixar tudo para que seja feito amanhã, quando o dia de hoje pede disposição e não adiamento.

Ninguém pode, em sanidade de consciência, afirmar que estará no corpo somático no dia seguinte. Temos aí, então, maior razão para que não retardemos os labores que têm regime de urgência em nossa pauta de tarefas.

Diversos irmãos da Terra, portadores de enorme quota de má vontade ou deixando as próprias mentes mergulhadas na displicência, são envolvidos nos vapores letárgicos, paralisantes, que impedem a continuidade dinâmica da obra sob seus cuidados.

Há sempre uma providência que se pode procrastinar.

Surgem problemas a solucionar na esfera de renovação do Espírito, sempre postergados, sem que os companheiros se deem conta de que poderão estar sendo minados por fluidos anestesiantes da vontade.

Uma vez que não puderam impedir que muitas criaturas aceitassem e desejassem servir na Seara do Cristo, Entidades do Além, inimigas do progresso e da luz, que não se dão por vencidas com a primeira perda, fazem com que esses mesmos indivíduos não se movimentem no bem, que tem caráter de premência e que depende tão somente da boa vontade dos lidadores. Estão no movimento do bem, mas não atuam com o bem, o que é sempre lastimável.

Não fazemos apologia das neuroses da pressa. Não estamos aconselhando desequilíbrios e irreflexão, seriamente comprometedores. Estamos, isto sim, conclamando aos que costumam meditar nas questões da alma, para que não se permitam o amolentamento, a preguiça, a pachorra, em pleno labor de Jesus, quando da Terra inteira se erguem gritos de imensa necessidade de equilíbrio e de paz.

* * *

É importante cuidar do corpo, repousar, quando os trabalhos imponham desgastes. É da Lei Divina.

Se o problema é de enfermidade física ou estafa orgânica ou mental, é justo se providencie o devido tratamento.

O que não nos cabe fomentar ou aplaudir é a postura dos que estão sempre esgotados, por pouco ou nada que façam, exigindo largos períodos de estacionamento, e, quando se decidem por algo fazer, demoram sem rendimento positivo, complicam a atividade geral, francamente embriagados por energias anestesiantes que, ameaçadoramente, têm tomado em seu bojo a muitos seareiros irrefletidos, preparando-lhes grandes tormentos de remorsos e angústias para logo mais, quando a hora propícia e ideal para o trabalho do bem já houver passado.

Quando sintas que, não obstante o repouso, não tens ânimo para as leituras e quefazeres edificantes, ou quando a sonolência tornar-se presença comum em suas horas de estudo ou de necessária atenção aos chamados do Infinito, ergue a tua oração e roga dos Benfeitores Celestes o socorro, a assistência de que careças, a fim de te desviares desses dardos morbíficos que se destinam a retardar a ação do bem na Terra, produzindo narcose nos combatentes invigilantes, exatamente porque esse bem, em última análise, é a atuação de Jesus Cristo reafirmando o Seu amor a todos nós, ovelhas desgarradas do Seu rebanho, da esperança e da ação.

Camilo
Psicografia de J. Raul Teixeira

15 agosto 2010

Aja Com Calma - Raul Teixeira

Aja Com Calma

Há um provérbio popular que estabelece que a pressa é a inimiga da perfeição. Quem é que nunca ouviu isto? Sempre ouvimos falar que a pressa perturba o trabalho da perfeição.

Naturalmente que esse provérbio deve querer dizer que se nós fazemos as coisas atabalhoadamente, apressadamente, temos todas as possibilidades de cometer erros, de cometer equívocos, de esquecer coisas, de desacertar. Todos temos experiências em nossas vidas. Quando saímos de casa correndo, esquecemos alguma coisa, deixamos alguma coisa aberta, a lâmpada acesa ou aquilo que a gente ia levar para fazer esquecemos em casa.

É muito comum percebermos como é que a pressa nos complica, nos agita, nos excita. E, neste mundo no qual vivemos, o que mais tem é excitação, corre-corre. Estamos num mundo de estresses. As pessoas estão sempre agitadas, sempre atrasadas para algum compromisso.

Quanto mais tempo se dá às pessoas menos tempo elas têm. A Humanidade recebeu vários implementos do progresso: as máquinas para nos facilitar os trabalhos, máquinas domésticas, lavadoras, passadeiras, lavadoras de louça, fogões autolimpantes. Tudo eletrônico, tudo fácil. Geladeira que se descongela, geladeira que produz gelo, que a gente tira na porta. Tudo para facilitar a nossa vida.

E estamos sempre correndo. Nunca temos tempo. Algo está equivocado. Se Deus não comete equívocos, esses equívocos devem ser cometidos por nós. A calma é a grande palavra nesse momento.

Ter calma é algo importantíssimo nas nossas relações sociais, familiais e nas relações conosco também. Mas ser calmo é mais importante ainda. Muita gente diz assim: Perdi a calma com Fulano.

Como é que se perde a calma? Como é que se perde a paciência? Se a calma quanto a paciência são virtudes entronizadas no nosso ser, são virtudes já assimiladas pelo ser, como é que a gente perde? Quando dizemos que perdemos a calma ou que perdemos a paciência estamos estabelecendo que nós nunca fomos calmos, nunca fomos pacientes. A calma e a paciência ainda não eram atributos da nossa personalidade, éramos pacientes por conveniência, quando tínhamos interesses.

Éramos calmos por conveniências, quando algum interesse nos feria os desejos. Daí vale a pena pensarmos que, ao falar-se em calma, não se deve pensar naquela paralisia, naquela lerdeza, naquela incapacidade que caracteriza tanta gente no mundo. Quando se pensa que elas estão realizando algum serviço elas ainda não foram! Quando se imagina que já estejam voltando com o produto do que realizaram, ainda não se foram.

Não, não é isto a calma. Isso é pachorra, preguiça, acomodação ou qualquer outro nome correlato que lhe queiramos dar. A calma é uma virtude ativa. A pessoa é calma no pensamento, avalia o que tem para fazer, o que vai fazer, como deseja fazer, qual é a intensidade do seu fazer. Uma pessoa calma. Ela tem tudo já estruturado na mente mas não se assoberba.

Jesus Cristo nos propôs: Não vos atormenteis pelo dia de amanhã. A cada dia já basta o seu afã. Segundo algumas traduções: A cada dia já basta o seu mal.

Esse recado de Jesus Cristo é em prol da paciência. Se somos pacientes, se formos pacientes não nos importe o dia de amanhã porque estaremos conscientes de que o dia de amanhã não será outra coisa se não a consequência do nosso dia de hoje.

Então, não nos vale sofrer pelo amanhã senão viver bem o dia de hoje. No dia de hoje, plasmamos o amanhã, plasmamos o futuro. Então, o mais importante é que aprendamos a ser calmos. É um trabalho que leva tempo, exige o nosso esforço pelo autoconhecimento, a fim de que verifiquemos as áreas mais sensíveis da nossa personalidade onde qualquer estiletada, qualquer contato pode nos fazer explodir, atormentar por falta de calma.

* * *

Na medida em que ajamos com calma, diante das situações, teremos tempo de refletir sobre a calma. Por que se consegue calma? A calma é um estado de autocontrole que o indivíduo exerce sobre si mesmo. A calma é a consequência do estado de confiança. Na medida em que temos confiança em nós, nas instituições, nas coisas, adquirimos calma, sabemos que tudo vai acontecer no tempo certo.

Se somos deístas, se adotamos qualquer crença deísta, temos o dever de trabalhar em prol da calma porque é dessa calma que nós conseguimos refletir melhor sobre o Cosmos, sobre a vida na Terra, sobre nós e o que estamos fazendo aqui, o que nos cabe fazer aqui, qual o motivo pelo qual o Criador nos trouxe para cá.

E, dentro dessa visão das coisas, entenderemos a calma de Deus. Por que podemos dizer a respeito da calma de Deus? Está tão certo nosso Criador de que mais cedo ou mais tarde todos teremos que chegar à felicidade, à vitória sobre nós mesmos, que criou para nós a dimensão temporal. O tempo é o grande agente que nos prodigaliza alcançar a calma.

É através do tempo que verificamos um dia atrás do outro, sem fazer alarde, sem tumulto. Os dias que se sucedem, as noites que se sucedem, os dias demonstrando a paciência de Deus. Colocamos uma semente na terra e esperamos que ela germine, que ela cresça, floresça, possa dar frutos. Trabalho de paciência.

Nenhum lavrador colocaria a semente no chão e a semana que vem desejaria colher os frutos dessa sementeira. Há que se ter paciência. Daí, quando pensamos nessa paciência de Deus, gerando nas nossas vidas a possibilidade de trabalhar, no tempo e no espaço, começaremos a verificar o tempo que nós mesmos perdemos com as agitações, com as excitações.

Se tivermos que falar alguma coisa com alguém, falemos com calma. Não importa se alguém dirá que temos sangue de barata. É muito comum as pessoas calmas serem confundidas com aquelas que têm sangue de barata. Diz-se que alguém tem sangue de barata quando não reage, quando está daquele jeito o tempo todo.

Mas a proposta dos bons Espíritos é por nossa ação positiva no caminho da calma. É tão importante na hora que vemos que o sangue ferve, entrar para o quarto, guardar-se no aposento, tomar um banho frio para relaxar. Não vale a pena dar vazão ao temperamento, não vale a pena dar vazão às agitações do intimo.

Vale a pena, sim, trabalharmos pela manutenção da nossa calma. Sabemos que durante doze horas o dia estará iluminado pelo astro rei e, dali a pouco, teremos a noite pintalgada de estrelas. Ao longo dos dias e das noites fecha-se a semana, fecha-se o mês, fecha-se o ano.

Como nenhum de nós sabe, nesse ínterim, nesse interregno até quando o Criador pretende que fiquemos por aqui, exercitemos a nossa calma enquanto é hoje. Quando em nossa casa as coisas parecerem nos tirar do sério, ocultemo-nos no quarto, apelemos para a oração consciente, contrita, pedindo ao nosso Criador, ao Sempiterno as bênçãos para que nós não nos percamos no caminho da calma.

Não é que nós vamos perder a calma, é que nós não deveremos nos perder na excitação, na agitação. Quando pensamos na calma de Deus, verificamos o quanto Ele nos espera, há quanto tempo nos aguarda. Só a partir de Jesus são dois milênios que já se passaram.

E como é que não terei paciência e calma diante dos equívocos, dos erros, dos tropeços dos meus entes queridos, daqueles que me cercam na trajetória do mundo? Calma sempre. Aja com calma.

Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 195, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná. Programa gravado em janeiro de 2009. Exibido pela NET, Canal 20, Curitiba, no dia 11.04.2010.

14 agosto 2010

A Importância da Vida Religiosa - Raul Teixeira


A Importância da Vida Religiosa

É muito comum confundirmos a nossa vida religiosa com outros sentimentos conhecidos no mundo. Pouca gente se dá conta de que religião advém do religare latino, é re-ligar. E o que nós estaríamos desejando religar? A alma humana ao Criador.

E por que religar? Nós viemos de Deus, criados por Seu amor. Logo, ligados a Ele como por um cordão umbilical simbólico e, a partir do momento em que Ele nos põe na estrada da evolução temos necessidade de desenvolver nosso progresso às nossas próprias custas.

É a partir daí que o uso do livre-arbítrio, bem ou mal, vai nos fazendo claudicar, tropeçar, caminhar mais rapidamente, mais lepidamente. E a nossa destinação, uma vez que saímos de Deus simples e ignorantes, será retornar a Deus conscientes, amadurecidos como um filho que sai de sua casa para estudar numa Universidade e volta formado, para colaborar no lar com a família.

Então, vamos percebendo a importância de nossa vida religiosa. Não é religião o que a gente diz, é religião o que a gente faz. A vida religiosa não é como ter um time de futebol. Sou Religioso Futebol Clube. Mato, morro para defender as cores de minha religião!

De nenhuma maneira. A vida religiosa não é alguma coisa que está do lado de fora. Há muita gente que faz expressão de religiosa, cara de religiosa, gestos de religiosa, mas são verdadeiras rapinas por dentro, verdadeiras hidras no seu comportamento. Existe uma diferença gritante entre o que a gente chamaria de religiosismo que são essas mise-en-scène que aparentam religião e a religiosidade, que é esse sentimento interno, essa vida interna, que pouca gente se dá conta.

A nossa vida religiosa é importante exatamente por isso, porque é uma realidade interna do ser. É uma verdade que se passa portas adentro de nossa alma e, quando pensamos em religião, nessa forma de nos religar a Deus, de voltar a Deus com nossos próprios esforços, vamos percebendo que encontraremos diversissimas formas de voltar a Deus.

Se trabalho honestamente, desejoso de que a comunidade em que eu vivo se beneficie do que eu sei fazer, ainda que eu lhe cobre, ainda que eu ganhe dinheiro por isso, esse é um trabalho de religação porque eu estou buscando, via honestidade, servir à minha comunidade.

Se me coloco no trabalho da orientação das pessoas, norteando as sociedades, ajudando as sociedades, como um administrador, como um político de boa índole, se coloco minha vida à disposição da Divindade, esse é um gesto religioso.

Ninguém misture gestos esteriotipados, benzeduras, benzeções, lamúrias, voz teatralizada, olhares lânguidos, ninguém confunda isso com o verdadeiro sentimento. Há pessoas que gritam, que choram, diante dos seus símbolos religiosos, mas são pessoas perversas, viciosas, corruptas ou corruptoras. Logo, a verdadeira religião é importante para nós exatamente porque nos faz mudar. Ao invés dessa exteriorização quase sempre balofa, quase sempre insensata, piegas, ou fanática, a verdadeira religião é como respirar, é como o batimento cardíaco que nós não nos damos conta dele e ele está acontecendo.

Nós não nos damos conta de que estamos respirando, só quando nos falta o ar e nem nos damos conta do batimento do coração, só quando ele para.

A partir disso a vida religiosa nos é fundamental.

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Esse caráter fundamental da religião interna do Ser foi o que levou Jesus Cristo a enunciar, num daqueles momentos luminosos de Sua passagem pela Terra que Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus.

Parece quase óbvio que Jesus Cristo se referia ao fato de que, muitas vezes, estamos pronunciando o nome do Senhor de maneira hipócrita, da boca para fora. Então nem todos aqueles que dizem Senhor, Senhor estão tirando essas expressões da sua própria intimidade.

Ele também expressou-Se dizendo que a boca fala daquilo que está cheio o coração, daquilo que a alma se preenche. Então, é muito importante que a religião seja um gesto, um ato, uma ação, muito mais do que palavras, muito mais do que mise-en-scène.

É a partir disso que começamos a perceber que aquele pai devotado, dedicado, que transpira no trabalho de reeducação de seus filhos, aquela mãe dedicada, austera, firme, amorosa, que investe recursos para bem conduzir seus filhos, realiza atos religiosos.

O facultativo que se devota ao seu paciente, ao seu doente, que se interessa por ele verdadeiramente e não por quanto ele pagou; aquele médico que está desejoso de fazer valer o juramento de Hipócrates, de salvar vidas, independentemente de quanto ele tenha recebido ou mesmo sem ter recebido anda, está realizando um ato religioso.

Cada vez que, no momento da grita, da cólera, do alvoroço algum de nós tenha uma palavra apaziguadora, uma palavra de harmonia, de tranquilização, este é um gesto religioso. Cada vez que, na intimidade da nossa casa, ou do templo ou em qualquer lugar em que estejamos, emitimos um pensamento de bem para alguém, desejamos bem a alguém, que seja feliz, que seja aprovado, que consiga o emprego, cada vez que pensamos coisas boas para alguém, esses são gestos religiosos.

Assim, percebemos a importância de nossa vida religiosa. Quando encontrarmos pessoas que dizem Eu não vou mais a Igreja, Não vou mais ao meu Templo, Não vou mais ao Centro Espírita, Não vou mais a sinagoga, Não vou mais ao Pagode oriental, porque eu vou e a minha vida está na mesma, tenhamos a convicção de que essas pessoas realizam o religiosismo. Elas supõem que o fato de ir lá, de assentar-se e ouvir já é o suficiente.

Mas Jesus Cristo foi muito explícito: Faze a tua parte, que os céus te ajudarão. Não adianta frequentar diariamente qualquer templo, não adianta dizer palavras mágicas, sacramentais, se nossa intimidade não se transforma, se o nosso mundo interior não se renova, se não instalamos dentro de nós a verdadeira religião.

Religarmo-nos a Deus é realizar, nos caminhos pelos quais trilhamos aqui na Terra, tudo que seja importante para que tenhamos uma vida mais alta, mais bela, mais clara e conduzamos conosco aqueles que nos são caros, aqueles que sejam os nossos dependentes afetivos porque, com a vida religiosa bem urdida, bem nutrida, bem arejada, conseguiremos gradativamente seguir através do caminho que nos leva à verdade em prol da vida porque foi Jesus que disse que fora dessa tríade, ninguém chegaria ao Pai, ao afirmar: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.


Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 187, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná. Programa gravado em janeiro de 2009. Exibido pela NET, Canal 20, Curitiba, no dia 18.04.2010