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30 junho 2011

A Menina que Chorava na Calçada - Hermínio C.Miranda


A MENINA QUE CHORAVA NA CALÇADA


NUMA DESSAS MANHÃS ensolaradas de domingo, saímos para a habitual caminhada pelas ruas mais tranqüilas do bairro em que moramos. Logo ali em baixo, a uma quadra de distância, chorava uma menina na calçada. Não tinha mais que três ou quatro anos, era bonita e estava bem vestidinha, como se acabasse de se aprontar para um passeio. A poucos passos dela um jovem senhor contemplava-a, amargurado. Não era um choro escandaloso, birrento e malcriado, o dela, mas pranto sofrido, vindo de um sofrimento maior e mais profundo que se mostrava no seu olhar angustiado. A dor da querida e desconhecida irmãzinha doeu em mim também. Antes que desse conta do que fazia, aproximei-me dela e coloquei minha ternura de avô em algumas palavras de solidariedade e consolo. Por que razão estaria chorando aquele ser que apenas reiniciava suas experimentações com a vida? Não quis ser indiscreto, nem invasivo, dado que todos nós temos direito à privacidade, mas o jovem fez, voluntariamente, um comentário sucinto: a menina queria que a mãe também fosse com ela. Não me caberia perguntar mais nada e nem precisava. Desenhou-se logo todo o quadro.

Papai e mamãe estavam, certamente, separados. A justiça decidira que papai ficaria autorizado a vir buscá-la aos domingos para passar o dia com ele. Teria ele outra companheira?
Ou mamãe estaria de marido novo? Não sei. Para a menina que chorava na calçada, eles continuavam sendo papai e mamãe, só que, agora, separados. Falavam pouco ou nunca, um com o outro, mal se olhavam, pareciam inimigos. Mal começara a vida para ela e já as coisas mudavam de maneira brutal, no seu pequeno universo pessoal. De repente, ficaram confusas e incompreensíveis. Por exemplo: por que razão mamãe não podia ir com ela passar o dia com papai?

Às vezes bem que a gente gostaria de fazer umas mágicas, como naquelas antigas histórias de fadas. Como a de reunir aquele triângulo, mãe, pai e filha. Mas isto importava desfazer outro triângulo, mamãe, papai e a ‘outra’, ou, quem sabe, papai, mamãe e o ‘outro’. Ou, então, pegar aquela criança ao colo e levá-la para uma terra onde ninguém se separasse de ninguém. Mas isso eu não podia fazer e ainda que pudesse, não o faria, sem interferir no livre-arbítrio de cada uma das pessoas envolvidas. Tratava-se de um drama pessoal com várias pontas espinhentas que machucavam a todos, especialmente a sofrida menina que queria levar consigo a mãe naquele passeio de domingo de sol.

Só me restava seguir meu caminho e vê-los seguirem o deles.

Seja como for, levei comigo um pouco daquela dor e deixei com a criança confusa uma vibração de ternura. Levei mais que isso, um tema para meditar.

Vindo de casamentos duradouros, minhas matrizes de avaliação de certas situações da vida encontram-se — reconheço-o honestamente —, talvez desatualizadas e inservíveis para muita gente. Mãe e pai, sogra e sogro só se separam pela morte. Ao escrever estas linhas, minha própria união já passou pelo marco número 50. Não posso, obviamente, responder pelos nossos antepassados; quanto a nós, contudo, sim, houve problemas de relacionamento ao longo do percurso. Quem não os tem? Ademais, estamos aqui precisamente para esmerilhar arestas, corrigir desafeições, ampliar afetos, cultivar entendimentos, pacificar antigos rancores, testemunhar dedicações e devotamentos. Se no primeiro ou no segundo embate, ou no centésimo, damos o processo de ajuste por encerrado, estaremos apenas adiando para não sei quando e onde e como, a oportunidade da paz. É que as harmonias da paz a gente não consegue comprar na farmácia, ou no supermercado — é trabalho lento e difícil para uma vida e até mais. Exige compreensão, tolerância e renúncia. O lar é um ponto de encontro, o momento cósmico é aquele, as condições estão ali criadas para que tudo dê certo e, se cada um tiver que tomar diferentes rumos após o trabalho da conciliação, partirão todos como amigos que apenas se despedem por algum tempo, com encontros marcados no futuro, para dar prosseguimento aos projetos em comum, e, portanto, para novas etapas evolutivas, dado que somos todos companheiros de viagem. Não adianta a gente abandonar de repente a tarefa do entendimento ou da convivência para seguir sozinho, mesmo que se esteja em condições de fazê-lo. Vai faltar alguma coisa no futuro. Alguma coisa que a gente deixou de fazer quando tinha tudo para concretizá-la.

Uma entidade espiritual contou-nos, a respeito disso, uma historinha ilustrativa. Ela —uma mulher, vinha caminhando com um companheiro de jornada evolutiva. Acerta altura, precisavam dar um passo decisivo. Figurativamente, pararam ambos a uns poucos passos de um portal que prenunciava nova etapa de realizações e progresso, dado que percebiam luzes brilhando lá adiante.

Houve um momento de confabulação, pois ele relutava em seguir adiante. Acabaram separando-se. Ele ficou e ela foi em frente. Sofria, agora, por não ter insistido um pouco mais ou, quem sabe, ter permanecido com ele por mais algum tempo, até que ele se decidisse a acompanhá-la. Não o fez e, daquele momento em diante, cada um seguiu sua própria rota. Ela nos contava agora, em pranto, o desacerto da decisão. Perderam-se de vista por muito tempo. Ela caminhou um bom trecho pelos caminhos da luz, mas ele demorou-se pelos seus próprios espaços, provavelmente, porque não estavam mais juntos para negociar com a vida a estratégia da paz.

— É como se você tivesse, lá no futuro — contou ela —, um valioso tesouro guardado num cofre à sua espera. Você chega primeiro, mas o cofre só poderá ser aberto com duas chaves e você tem apenas a sua; a outra está com a pessoa que ficou para trás. Ou você a espera ou tem que ir buscá-la, para terem, juntos, acesso ao tesouro.

A história daquela irmã ficou em mim como uma parábola. Será que não estamos sendo impacientes demais com os companheiros de viagem? Será que um pouquinho mais de tolerância e compreensão não teriam evitado os desacertos?

A família é a nossa universidade. Ou saímos dela diplomados, com mestrado ou PhD concluídos, prontos para as conquistas pessoais, ou dela nos retiramos precipitadamente interrompendo o curso das esperanças. Tanto quanto pude apurar, na pesquisa feita para escrever a parte que me coube no livro de Deolindo Amorim, ainda não se chegou, após vários milênios de experimentação, a um modelo melhor de célula social do que a família. E posso garantir que não faltou experimentação. Tentou-se de tudo, numerosas fórmulas e processos foram testados, mas o modelo antigo resistiu. Se agora as coisas não estão dando certo, acham os entendidos que a falha não é do modelo, mas das pessoas.

Como não sou especialista do ramo, prefiro não entrar na discussão, o que não significa, de modo algum, que deixe de ter minha opinião a respeito. Tenho-a e muito nítida. Acho que se jogou fora a fórmula antes de ter uma que a substituísse com vantagens, se é que um dia a teremos. Penso mais ainda: que a falência do sistema começou a partir do momento em que se separou sexo para um lado e amor para outro. Vejo nessa dicotomia “amor sexo” a projeção, no plano em que vivemos, de outra dicotomia mais ampla, ou seja, matéria e espírito, na qual o amor é atributo da entidade espiritual e o sexo instrumentação meramente biológica, a fim de assegurar a todos renovadas oportunidades de reencarnação. Juntos, realizam a tarefa da continuidade da vida na carne, ao passo que a separação deles cria turbulências imprevisíveis, porque, desligado do componente espiritual do ser o sexo recorre ao artifício da paixão, que, em vez de chama que ilumina e aquece, é labareda que consome e logo se extingue, em sombras.

Enquanto nossas paixões vão e vêm, ofuscam-nos e apagam, sofrem os seres que se dispuseram a conviver conosco, nesta dimensão. Conflitos entre pai e mãe, repercutem no âmago dos filhos, sopram-lhes temores aos ouvidos, criam para eles um clima de incertezas e insegurança, paralisam esperanças. Eles precisam de ambos para levar a bom termo o projeto de vida que lhes cabe implementar. Alguns deles vêm para a aventura da vida terrena com o propósito de cimentar a união, reparando fraturas remanescentes de passadas disputas. A tarefa da conciliação constitui elevada prioridade para todos e, por isso, não há esforço ou sacrifício, tolerância ou compreensão que sejam demais. Se o preço parece excessivamente alto é porque a dívida é, igualmente, vultosa.

Se, porém, a despeito de tudo o que for dito, planejado e considerado, a ruptura ocorre mesmo, pelo menos que se faça tudo civilizadamente, sem rancores ou agressões, com um mínimo possível de dor para todos, mas, principalmente, para os filhos.

Estou dramático? Talvez. Apocalíptico? Não. É o que vemos nos painéis que a vida em sociedade vem exibindo nestes tempos difíceis. Se, por acaso, você me perguntar que tenho eu a ver com isso, um septuagenário já no poente da existência, poderei dizer das minhas razões.

Há uns poucos anos, numa das viagens aos Estados Unidos, fui convidado para fazer uma palestra a um grupo de pessoas interessadas nos enigmas e perplexidades da vida. Não que eu tenha soluções prontas e acabadas para as mazelas humanas, mas porque venho insistindo teimosamente, obstinadamente, em que está fazendo uma falta terrível à sociedade em que vivemos a visão da realidade espiritual. Em vez de nos vermos como espíritos temporariamente acoplados a um corpo físico, assumimos a identidade desse corpo, confundimo-lo com a nossa própria individualidade e estamos levando o espírito a reboque, como um traste inútil e que, além de tudo, estaria atrapalhando a plena realização da insensatez que parece instalada na memória coletiva.

Mas e daí? Por que a preocupação, se já está chegando a hora de você ir embora, para essa dimensão cósmica da qual você tanto fala? — insistirá você. É simples, “meu caro minha querida”.
Esta não será, certamente, minha derradeira passagem pela matéria bruta. Terei que voltar para aqui de outras vezes, como também você. Ao retornar, em novo corpo físico, para mais uma existência, não me importa qual será a minha raça, cor, nacionalidade ou condição social. O que desejo, pretendo e peço a Deus é que tenha mãe e pai que se amem e que me amem. E que me proporcionem o apoio e o carinho de que vou necessitar até que possa recomeçar a exploração do mundo com meus próprios recursos. Foi o que disse aos americanos.

Não desejo, se isto for possível, ficar chorando em alguma esquina do mundo futuro, porque minha mãe não pode ficar junto de mim e de meu pai. Vou precisar deles, minuto por minuto, do amor que desejo que tenham por mim, tanto quanto do amor que tenham um pelo outro, por Deus e pela vida. Quero que me falem de Deus, me ensinem de novo a falar com ele, a vê-lo através das minhas lágrimas e a senti-lo em mim, nos momentos de harmonização cósmica. Como iria cumprir um programa desses numa sociedade que se esqueceu d’Ele, tanto quanto de si mesma, porque só cuida do momento que passa e do próximo prazer?

Do livro "Nossos Filhos São Espíritos", cap. 21
De Hermínio Correa de Miranda

29 junho 2011

Espíritos Protetores


ESPÍRITOS PROTETORES

Jehul, elevada entidade de uma das mais belas regiões da vida espiritual, foi chamado pelo caricioso apelo de um nobre mensageiro da Verdade e do Bem, que lhe falou nestes termos:

- Uma das almas a que te vens devotando particularmente, de há muitos séculos, vai agora ressurgir nas tarefas da reencarnação sobre a Terra. Seus destinos foram agravados de muito em virtude das quedas a que se condenou pela ausência de qualquer vigilância, mas o Senhor da Vida concedeu-lhe nova oportunidade de resgate e elevação.

Jehul sorriu e exclamou, denunciando sublimes esperanças:

- É Laio?

- Sim - replicou o generoso mentor -, ele mesmo, que noutras eras te foi tão amado na Etrúria. Atendendo às tuas rogativas, permite Jesus que lhe sejas o guardião desvelado, através de seus futuros caminhos. Ouve, Jehul! - serás seu companheiro constante e invisível, poderás inspirar-lhe pensamentos retificadores, cooperar em suas realizações proveitosas, auxiliando-o em nome de Deus; mas, não esqueças que tua tarefa é de guardar e proteger, nunca de arrebatar o coração do teu tutelado das experiências próprias, dentro do livre-arbítrio espiritual, a fim de que construa suas estradas para o Altíssimo com as próprias mãos.

Jehul agradeceu a dádiva, derramando lágrimas de reconhecimento.

Com que enlevo pensou nas possibilidades de conchegar ao seio aquele ser amado que, havia tanto tempo, se lhe perdera do caminho!... Laio lhe fora filho idolatrado na paisagem longínqua. É certo que não lhe compreendera a afeição, na recuada experiência. Desviara-se das sendas retas, quando ele mais esperava de sua mocidade e inteligência; seu coração carinhoso, porém, preferira ver no fato um incidente que o tempo se encarregaria de eliminar. Agora, tomá-lo-ia de novo nos braços fortes e o reconduziria à Casa de Deus. Suportaria, corajosamente, por ele, a pesada atmosfera dos fluidos materiais. Toleraria, de bom grado, os contrastes da Terra. Todos os sofrimentos eventuais seriam poucos, pois acabava de alcançar a oportunidade de erguer, dentre as dores humanas, um irmão muito amado, que fora se\! filho inesquecível.

O generoso amigo espiritual atravessou as paisagens maravilhosas que o separavam do ambiente terrestre. Ficaram para trás de seus passos os jardins suspensos, repletos de flores e de luz. As melodias das regiões venturosas distanciavam-se-lhe dos ouvidos.

Esperançoso, desassombrado, o solícito emissário penetrou a atmosfera terrestre e achou-se diante de um leito confortável, onde se identificava um recém-nascido pelo seu brando choramingar. Os Espíritos amigos, encarregados de velar pela transição daquele nascimento, entregaram-lhe o pequenino, que Jehul beijou, tomado de profunda emoção, apertando-o de encontro ao peito afetuoso.

E era de observar-se, daí em diante, o devotamento com que o guardião se empenhou na tarefa de amparar a débil criança. Sustentou, de instante a instante, o espírito maternal, solucionando, de maneira indireta, difíceis problemas orgânicos, para que não faltassem os recursos da paz aos primeiros tempos do inocentinho humano. E Jehul ensinou-lhe a soletrar as primeiras palavras, reajustando-lhe as possibilidades de usar novamente a linguagem terrestre. Velou-lhe os sonos, colocou-o a salvo das vibrações perniciosas do invisível, guiou-lhe os primeiros movimentos dos pés. O generoso protetor nada esqueceu, e foi com lágrimas de emoção que inspirou ao coração materno as necessidades da prece para a idolatrada criancinha. Depois das mãos postas para pronunciar o nome de Beus, o amigo desvelado acompanhou-a a escola, a fim de restituir-lhe, sob as bênçãos do Cristo, a luz do raciocínio.

Jehul não cabia em si de contentamento e esperança, quando Laio se abeirou da mocidade.

Então, a perspectiva dos sentimentos transformou-se.

De alma aflita, observou que o tutelado regressava aos mesmos erros de outros tempos, na recapitulação das experiências necessárias. Subtraía-se, agora, à vigilância afetuosa dos pais, inventava pretextos desconcertantes e, por mais que ouvisse as advertências preciosas e doces do mentor espiritual, no santuário da consciência, entregava-se, vencido, aos conselheiros de rua, caindo miseravelmente nas estações do vício.

Se Jehul lhe apontava o trabalho como recurso de elevação, Laio queria facilidades criminosas; se alvitrava providências da virtude, o fraco rapaz desejava dinheiro com que se desvencilhasse dos esforços indispensáveis e justos. Entre sacrifícios e dores ásperas, o prestimoso guardião viu-o gastar, em prazeres condenáveis, todas as economias do suor paternal, assistindo aos derradeiros instantes de sua mãe, que partia, da Terra, ferida pela ingratidão filial. Laio relegara todos os deveres santos ao abandono, entregando-se à ociosidade destruidora. Não obstante os cuidados do mentor carinhoso, procurou o álcool, o jogo e a sífilis, que lhe sitiaram a existência consagrada por ele ao desperdício. O dedicado amigo, entretanto, não desanimava.

Após o esgotamento dos recursos paternos, Jehul cooperou junto de companheiros prestigiosos, para que o tutelado alcançasse trabalho.

Embora contrafeito e subtraindo-se, quanto possível, ao cumprimento das obrigações, Laio tornou-se auxiliar de urna empresa honesta, que, às ocultas, era objeto de suas críticas escarnecedoras. Quem se habitua à ociosidade criminosa costuma caluniar os bens do espírito de serviço.

De nada valiam os conselhos do guardião, que lhe falava, solícito, nos quais profundos recessos do ser.

Daí a pouco tempo, menos por amor que por necessidade, Laio buscou uma companheira. Casou-se. Mas, no desregramento que se entregava de muito tempo, não encontrou matrimônio senão sensações efêmeras que terminavam em poucas semanas, como a potencialidade de um fósforo que se apaga em alguns segundos. Jehul, no entanto, alimentou a esperança de que talvez a união conjugal lhe proporcionasse oportunidade para ser convenientemente ou não. Isso, todavia, não aconteceu. O tutelado não sabia tratar a esposa senão entre desconfianças e atitudes violentas. Sua casa era uma seção do mundo inferior a que havia confiado seus ideais. Recebendo três filhinhos para o jardim do lar, muito cedo lhes inoculava no coração as sementes do vício, segregando-os num egoísmo cruel.

Quando viu o infeliz envenenando outras almas que chegavam pela bondade infinita de Deus para a santa oportunidade de serviços novos, Jehul sentiu-se desolado e, reconhecendo que não poderia prosseguir sozinho naquela tarefa, solicitou o socorro dos Anjos das Necessidades. Esses mensageiros de educação espiritual lhe atenderam atenciosamente aos rogos, começando por alijar o tutelado do emprego em que obtinha o pão cotidiano. Entretanto, em lugar de melhorar-se com a experiência buscando meditar como convinha, Laio internou-se por uma rede de mentiras, fazendo-se de vítima para recorrer às leis humanas e ferir as mãos de antigos benfeitores. Acusou pessoas inocentes, exigiu indenizações descabidas, tornou-se odioso aos amigos de outros tempos.

Jehul foi então mais longe, pedindo providências aos Anjos que se incumbem do Serviço das Moléstias úteis, os quais o auxiliaram de pronto, conduzindo Laio ao aposento da enfermidade reparadora, a fim de que o mísero pudesse refletir na indigência da condição humana e na generosa paternidade do Altíssimo; aquele homem rebelde, contudo, pareceu piorar cem por cento. Tornou-se irascível e insolente, abominava o nome de Deus, sujava a boca com inúmeras blasfêmias. Foram necessários verdadeiros prodígios de paciência para que Jehul lhe lavasse do cérebro esfogueado e caprichoso os propósitos de suicídio. Foi aí que, desalentado quanto aos recursos postos em prática, o bondoso guardião implorou os bons ofícios dos Anjos que se encarregam dos Trabalhos da Velhice Prematura. Os novos emissários rodearam Laio com atenção, amoleceram-lhe. as células orgânicas, subtraíram-lhe do rosto a expressão de firmeza e resistência, alvejaram-lhe os cab elos e enrugaram-lhe o semblante. No entanto, o infeliz não cedeu. Preferia ser criança ridícula nas aparências de um velho, a entrar em acordo com o programa da Sabedoria Divina, a favor de si mesmo.

Enquanto blasfemava, seu amigo orava e desdobrava esforços incessantes; enquanto praticava loucuras, o guardião duplicava sacrifícios e esperanças.

O tempo passava célere, mas, um dia, o Anjo da Morte veio espontaneamente ao grande duelo e falou com doçura:

- Jehul, chegou a ocasião da tua retirada!. . .

O generoso mentor abafou as lágrimas de angustiosa surpresa. Fixou o mensageiro com olhos doridos e súplices; o outro, no entanto, continuou:

- Não intercedas por mais tempo! Laio agora me pertence. Conduzi-lo-ei aos meus domínios, mas podes rogar a Deus que o teu tutelado recomece, mais tarde, outra vez...

Terminara a grande partida. A Morte decidira no feito, pelos seus poderes transformadores, enquanto o guardião recolhia, entre lágrimas, o tesouro de suas esperanças imortais. .

E, grafando esta história, lembro-me que quase todos os Espíritos encarnados têm algum traço do Laio, ao passo que todos os Espíritos protetores têm consigo os desvelos e os sacrifícios de Jehul.

Pelo Espírito Humberto de Campos
Do livro: Reportagens do Além Túmulo
Médium: Francisco Cândido Xavier

28 junho 2011

Vida e Morte - João Cléofas


VIDA E MORTE

A teimosa insistência negativa dos conceitos humanos, em torno das legítimas realidades da vida, faz que se conserve o verbete “morte” como sendo a expressão capaz de traduzir o aniquilamento do ser, no estágio posterior ao da decomposição orgânica.

Em verdade, porém, a desencarnação de forma alguma pode ser conceituada como o fim da vida.

Do lado de cá pululam seres que se localizam felizes ou inditosos em regiões compatíveis com o seu estado mental, em que a vida se lhes manifesta conforme o que trazem da jornada fisiológica, na qual edificaram propósitos e realizações, fixando ideais, plasmando objetivos, que defrontam depois do traspasse orgânico.

A perda do envoltório carnal não os santificou, não os desgraçou, não os extinguiu. Situou-os na dimensão em que cada um preferiu, mantendo os hábitos de prazer ou de renúncia com que se agraciaram, mediante as realizações contínuas que vitalizaram pelo pensamento.

Multiplicam-se, povoadas de dores, as paisagens de sombras e as províncias de angústias, como se sucedem os panoramas de bênçãos e os painéis de luz, sustentados pelos valores pessoais intransferíveis, que identificam os viandantes recém-chegados da Terra...

Há, todavia, se assim desejarmos, um estágio espiritual que pode ser tido, transitoriamente, como um estado de morte: é o da consciência obliterada para a verdade, anatematizada pelos remorsos infelizes e pelos arrependimentos tardios; o da razão vencida pela revolta contumaz e pela toxicidade do ódio demoradamente conservado; o da inteligência gasta na inutilidade e no comércio do prazer fugaz...

Para tais Espíritos há um demorado estado de morte, porque a perda do roteiro interior atira-os num Dédalo onde não defrontam a luz nem encontram a esperança, terminando por anestesiarem os centros do discernimento longamente.

E não é por outra razão, conforme se refere o Mestre, que Deus não é o Senhor dos mortos, mas, sim, dos vivos.

Libertemo-nos das vendas que impedem a visão espiritual e dos vapores dos vícios que anestesiam, a fim de que a consciência livre nos enseje vida e sempre vida abundante.

De “Intercâmbio Mediúnico”
De Divaldo Pereira Franco
Pelo Espírito João Cléofas

27 junho 2011

Vida e Destino - Caibar Schutel


Vida e Destino

"Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim, são ladrões e salteadores. Eu sou a porta: se alguém entrar, por mim, será salvo; e entrará, sairá e achara pastagem. O ladrão não vem senão furtar, matar e destruir; eu vim para que elas tenham vida e a tenham em abundância." (João X, 8-10.)

A vida é uma luta acérrima, um caminhar incessante para a realização do destino. O destino é a luz que, quanto mais dela nos aproximamos, mais clareia e realça os horizontes da vida.

A vida material tem nascente e ocaso: nasce com as carícias promissoras da aurora; morre abafada nas trevas da noite!

E a vida nasce e renasce tantas vezes quantas são as areias do mar e os átomos do ar!

Na Terra imperam as alternativas: o dia estende seu luzente lençol de gaze, iluminando, aos olhos humanos, as belezas da Natureza; a noite obumbra as alegrias e as esperanças com o seu manto tenebroso.

No alto fulgem estrelas, mas se avolumam nuvens; ora, a aragem derrama fluidos nas pétalas das rosas e dos jasmins, perfumando a atmosfera; ora, estrugem os raios concentrando a seiva das plantas no caule trêmulo de terror!

Nas fases tão diversas da vida terrestre, à pureza d’alma sucedem as paixões malsãs, e, a estas, a enfermidade e a velhice acabrunhadora.

Enquanto louras crianças correm e folgam nos prados atapetados de musgos e sombreados por arvoredos, e os moços fascinados pelas grandezas e dominados pela volúpia embrenham-se nos tremedais, os velhos e desvalidos curvados ao peso dos anos e das dores, caminham para o túmulo na esperança do renascimento!

Na alegria e na tristeza, na abastança e na miséria, na velhice e na mocidade, na saúde e na enfermidade, na sabedoria e na ignorância, na vida e na morte, o Espírito pode paralisar a sua marcha ascensional para a Verdade, mas não se exime do seu destino!

Nas encostas das montanhas também raiam claridades e descem chispas luminosas.

A luz do destino projeta auroras do nascimento à morte e realça, na sua plenitude, os horizontes da Vida Eterna.

Tenhamos fé: a vida é luta acérrima para a conquista da perfeição; o destino é grandioso e acena com promissoras felicidades. Tudo caminha para a luz!

No caminho palmilhado pelo Cristo, brilham as verdades precursoras do destino; Ele é a Luz que clareia aos homens o roteiro da perfeição; nele está a Vida de todas as grandes almas; Ele é o caminho, a Verdade e a Vida; Ele nos guia para o destino e o destino é a Vida Eterna, onde reinam as mais perenes felicidades.

Tenhamos fé e caminhemos na Luz da Vida pelo caminho traçado por Jesus; Bom Pastor, ele quer que tenhamos vida, e no-la dá em abundância!

De “Parábolas e ensinos de Jesus“
De Cairbar Schutel

26 junho 2011

Aparências - Hammed


APARÊNCIAS

A árvore que produz maus frutos não é boa, e a árvore que produz bons frutos não é má; porque cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto. Não se colhem figos dos espinheiros e não se cortam cachos de sobre as sarças..." (Lc 6, 43 - 44)

Fugimos constantemente de nossos sentimentos interiores por não confiarmos em nosso poder pessoal de transformação e, dessa forma, forjamos um "disfarce" para sermos apresentados perante os outros.

Anulamos qualquer emoção que julgamos ser inconveniente dizendo para nós mesmos: "eu nunca sinto raiva", "nunca guardo mágoa de ninguém", vestindo assim, uma aparência de falsa humildade e compreensão.

Máscaras fazem parte de nossa existência, porque todos nós não somos totalmente bons ou totalmente maus e não podemos fugir de nossas lutas internas. Temos que confrontá-las, porque somente assim é que desbloquearemos nossos conflitos que são as causas que nos mantêm prisioneiros frente à vida.

Devemos nos analisar como realmente somos.

Nossos problemas íntimos, se resolvidos com maturidade, responsabilidade e aceitação são ferramentas facilitadoras para construirmos alicerces mais vigorosos e adquirirmos um maior nível de lucidez e crescimento.

Nunca, porém, mantê-los escondidos de nós próprios, como se fossem coisas hediondas, e sim, aceitarmos essas emoções que emergem do nosso lado escuro, para que possamos nos ver como somos realmente.

Por não admitirmos que evoluir é experimentar choques existenciais e promover um constante estado de transformação interior é que, às vezes, deixamos que os outros decidam quem realmente nós somos, colocando-nos, então, num estado de enorme impotência perante nossas vidas.

A maneira de como os outros nos percebem tem grande influência sobre nós mesmos. Amigos opressores, religiosos fanáticos, pais dominadores e cônjuges inflexíveis podem ter exercido muita influência sobre nossas aptidões e até sobre nossa personalidade.

Portanto, não nos façamos de superiores, aparentando comportamentos de "perfeição apressada": isso não nos fará bem psiquicamente e nem ao menos nos dará chance de fazermos autoburilamento.

Deixemos de falsas aparências e analisemos nossas emoções e sentimentos, burilando-os e canalizando nossas energias, fazendo delas uma catarse dos fluxos negativos e transmutando-as a fim de integrá-las adequadamente.

Aceitar nossa porção amarga é o primeiro passo para a transformação, e nunca fugirmos para novo local, emprego ou novos afetos, porque isso não nos curará do sabor indesejável, mas somente nos transportará a um novo quadro exterior. Os nossos conflitos não conhecem as divisas da Geografia e, se não encarados de frente e resolvidos, eles nos acompanharão e estarão conosco onde quer que estejamos na Terra.

Para que possamos fazer alquimia das correntes energéticas que circulam em nossa alma, façamos auto-observação e auto análise de nossa vida interior, sem jamais negá-las a nós mesmos.

Lembremo-nos que, por mais que se esforcem as más árvores para parecerem boas, mesmo assim elas não produzirão bons frutos. Também os homens serão reconhecidos, não pelos aparentes "frutos", não por manifestarem atos e atitudes mascarados de virtudes, mas sim, por serem criaturas resolvidas interiormente e conscientes de como funciona seu mundo emocional.

Somente pessoas providas dessa atitude estarão aptas a serem árvores produtoras de frutos realmente bons.

De “Renovando Atitudes”
De Francisco do Espírito Santo Neto
Espírito Hammed

25 junho 2011

A Lenda da Criança - Irmão X


A LENDA DA CRIANÇA

Dizem que o Supremo Senhor, após situar na Terra os primeiros homens, dividindo-os em raças diversas, esperou, anos e anos, pela adesão deles ao Bem Eterno. Criando- os todos para a liberdade, aguardou pacientemente que cada um construísse o seu próprio mundo de sabedoria e felicidade. À vista disso, com surpresa, começou a ouvir do planeta terrestre, ao invés de gratidão e louvor, unicamente desespero e lágrimas, blasfêmias e imprecações, até que, um dia, os mais instruídos, amparados no prestígio de Embaixadores Angélicos, se elevaram até Deus, a fim de suplicarem providências especiais. E, prosternados diante do Todo-Poderoso, rogaram cada qual por sua vez:

-Pai, tem misericórdia de nós!... Repartimos a Terra, mas não nos entendemos... Todos reprovamos o egoísmo; no entanto, a ambição nos enlouquece e, um por um, aspiramos a possuir o maior quinhão!...

-Oh! Senhor!... Auxilia-nos!... Deste-nos a autonomia; contudo, de que modo manejá-la com segurança? Instruíste-nos códigos de amparo mútuo; no entanto, ai de nós!... Caímos, a cada passo, pelos abusos de nossas prerrogativas!...

-Santo dos Santos, socorre-nos por piedade!... Concedeste-nos a paz e hostilizamo-nos uns aos outros. Reuniste-nos debaixo do mesmo Sol!... Nós, porém, desastradamente, em nossos desvarios, na conquista de domínio, inventamos a guerra... Ferimo-nos e ensanguentamo-nos, à maneira de feras no campo, como se não tivéssemos, dada por Ti, a luz da razão!...

-Pai Amantíssimo, enriqueceste-nos com os preceitos da justiça; todavia, na disputa de posições indébitas, estudamos os melhores meios de nos enganarmos reciprocamente, e, muitas vezes, convertermos as nossas relações em armadilhas nas quais os mais astuciosos transfiguram os mais simples em vítimas de alucinadoras paixões... Ajuda-nos e liberta-nos do mal!...

-Ó Deus de Infinita Bondade, intervém a nosso favor! Inflamaste-nos os corações com a chama do gênio, mas habitualmente resvalamos para os despenhadeiros do vício... Em muitas ocasiões, valemo-nos do raciocínio e da emoção para sugerir a delinquência ou envenenar-nos no desperdício de forças, escorregando para as trevas da enfermidade e da morte!...

Conta-se que o Todo-Misericordioso contemplou os habitantes da Terra, com imensa tristeza, e exclamou, amorosamente:

-Ah! Meus filhos!... Meus filhos!... Apesar de tudo, Eu vos criei livres e livres sereis para sempre, porque, em nenhum lugar do Universo, aprovarei princípios de escravidão!...

-Oh! Senhor – soluçaram os homens - compadeça-Te então de nós e renova-nos o futuro!... Queremos acertar, queremos ser bons!...

O Todo-Sábio meditou, meditou...

Depois de alguns minutos, falou comovido:

-Não posso modificar as Leis Eternas. Dei-vos o Orbe Terreno e sois independentes para estabelecer nele a base de vossa ascensão aos Planos Superiores. Tereis, constantemente e seja onde for, o que fizerdes, em função de vosso próprio livre arbítrio!... Conceder-vos-ei, porém, um
tesouro de vida e renovação, no qual, se quiserdes, conseguirei engrandecer o progresso e abrilhantar o Planeta... Nesse escrínio de inteligência e de amor, disporeis de todos os recursos para solidificar a fraternidade, dignificar a ciência, edificar o bem comum e elevar o direito... De um modo ou de outro, todos tereis, doravante, esse tesouro vivo, ao vosso lado, em qualquer parte da Terra, a fim de que possais aperfeiçoar o Mundo e santificar o porvir!...

Dito isso, o Senhor Supremo entrou nos Tabernáculos Eternos e voltou de lá trazendo um ser pequenino nos braços paternais...

Nesse augusto momento, os atormentados filhos da Terra receberam de Deus a primeira criança.

Irmão X/Francisco Cândido Xavier
Do livro LUZ NO LAR, cap. 17, Ed. FEB

24 junho 2011

No Reino da Terra - Irmão X


NO REINO DA TERRA

Em meio de nossas conversações referentes às grandes personalidades do mundo, o ancião generoso tomou a palavra e contou, pausadamente:

– Dizem que após as vitórias de Constantino, quando os cristãos se sentiram mais tranqüilos, em virtude dos cálculos políticos do imperador, o Diabo, certo dia, tomou as aparências do Mestre e, com maneiras sacrílegas, aproximou-se da multidão reverente e boquiaberta.

Um dos principais do povo, assumindo ares de liderança, acercou-se de Satanás e perguntou:

– Senhor, como saberemos quais são os maiores no Reino da Terra?

De olhar coruscante, embora a máscara apostólica em que se dissimulava, o Rei das Trevas parecia esperar a interrogação. Lançou um gesto largo à guisa de bênção e falou untuoso:

– Em verdade vos digo que os maiores no Reino da Carne serão aqueles que souberem usar a mentira com as mais belas cores.
Conquistarão a glória dos cimos quantos conseguirem o grande prêmio das atitudes escorregadias e despistadoras.
Respirarão os ares da montanha terrestre todos os que defenderem zelosamente as suas próprias algibeiras, atentos aos códigos dos convencionalismos exteriores.
Viverão nos pináculos os que desempenharem a função de “sal” dos grandes negócios, fáceis e lucrativos; os que amontoarem camisas, olvidando a nudez dos semelhantes; os que monopolizarem o azeite e a farinha, esquecendo a fome da vizinhança.
Crescerão sempre os que fugirem das associações pobres e humildes; os que cuidarem exclusivamente da túnica irrepreensível e bem talhada; os que falarem mais alto nas assembléias.
Subirão em destaque os que exercerem a tirania, fazendo valer caprichos pessoais acima do direito dos outros; os que nunca passaram pela dependência e se apegam à liberdade de tudo fazerem sem consultar a ninguém; os maus e os perversos, que apresentarem suas obras com a decência do mundo.
Escalarão eminências prodigiosas quantos avançarem sem escrúpulos de qualquer natureza, de modo a se mostrarem no topo da escada dos interesses imediatos; os que, despreocupados da reconciliação sincera com os adversários, tornam ao convívio deles, em nova fantasia, para vinganças oportunas; os que em absoluta compostura humana atenderem à prática do mal, ostentando o título de benfeitores.
Ganharão alturas inexprimíveis na Terra os que melhor anularem os seus irmãos; os que, em lugar do “amai-vos uns aos outros”, exercitarem o “devorai-vos como puderdes”; os que, ao invés do “orai e vigiai”, aceitarem como lema o “defendei-vos de qualquer modo sem reparar os meios”.
Revelar-se-ão nas galerias da evidência aqueles que caluniarem como quem elogia, que perseguirem como quem ajuda, que destruírem o bem como quem combate o mal.
Valorizar-se-ão incessantemente nos mercados da apreciação comum os que assassinarem o tempo, menosprezarem o trabalho digno e ridicularizarem o estudo sério e edificante.
Levantar-se-ão como gigantes os cultivadores do sarcasmo, os expoentes da ironia e os representantes mais finos da crítica.
Viverão assinalados em relevo os clientes da extravagância, os fregueses dos direitos sem obrigações e os promotores das longas e venenosas palestras que compliquem a vida alheia.
Atingirão invejáveis cumes os que melhor confundirem a quem os ouça, os afoitos em possuir e os inteligentes na preservação das vantagens transitórias que lhes são próprias.
Em verdade vos foi dito que enquanto não vos fizerdes simples como as crianças, não estareis aptos à maioridade no Reino dos Céus! Agora, porém, vos digo que enquanto não vos fizerdes maduros, na habilidade humana, de modo algum possuireis o Reino da Terra!

Calou-se o velhinho bom, sob a estupefação que nos tornara de assalto.

Em seguida a longo silêncio, deitou para trás as madeixas de cabelos brancos a lhe caírem esparsas na testa rugosa, levantou-se, firme, arrimado ao bordão e exclamou para nós outros, antes de prosseguir o seu caminho:

– Dizem igualmente que até hoje, muitos séculos decorridos sobre os ensinamentos de Jesus, raríssimas pessoas aparecem pleiteando posição no Reinado Celestial, mas milhões de criaturas disputam ferozmente, todos os dias, os melhores recursos de alcançarem a maioridade terrestre, segundo as definições de Satanás...

Pelo Espírito Irmão X
Do livro: Luz Acima
Médium: Francisco Cândido Xavier

23 junho 2011

Culpa - Emmanuel


CULPA

Quando fugimos ao dever, precipitamo-nos no sentimento de culpa, do qual se origina o remorso, com múltiplas manifestações, impondo-nos brechas de sombra aos tecidos sutis da alma.

E o arrependimento, incessantemente fortalecido pelos reflexos de nossa lembrança amarga, transforma-se num abscesso mental, envenenando-nos, pouco a pouco, e expelindo, em torno, a corrente miasmática de nossa vida íntima, intoxicando o hausto espiritual de quem nos desfruta o convívio.

A feição do ímã, que possui campo magnético específico, toda criatura traz consigo o halo ou aura de forças criativas ou destrutivas que lhe marca a índole, no feixe de raios invisíveis que arroja de si mesma. É por esse halo que estabelecemos as nossas ligações de natureza invisível nos domínios da afinidade.

Operando a onda mental em regime de circuito, por ela incorporamos, quando moralmente desalentados, os princípios corrosivos que emanam de todas as Inteligências, encarnadas ou desencarnadas, que se entrosem conosco no âmbito de nossa atividade e influência.

Projetando as energias dilacerantes de nosso próprio desgosto, ante a culpa que adquirimos, quase sempre somos subitamente visitados por silenciosa argumentação interior que nos converte o pesar, inicialmente alimentado contra nós mesmos, em mágoa e irritação contra os outros.
É que os reflexos de nossa defecção, a torvelinharem junto de nós, assimilam, de imediato, as indisposições alheias, carreando para a acústica de nossa alma todas as mensagens inarticuladas de revolta e desânimo, angústia e desespero que vagueiam na atmosfera psíquica em que respiramos, metamorfoseando-nos em autênticos rebelados sociais, famintos de insulamento ou de escândalo, nos quais possamos dar pasto à imaginação virulada pelas mórbidas sensações de nossas próprias culpas.

É nesse estado negativo que, martelados pelas vibrações de sentimentos e pensamentos doentios, atingimos o desequilíbrio parcial ou total da harmonia orgânica, enredando corpo e alma nas teias da enfermidade, com a mais complicada diagnose da patologia clássica.

A noção de culpa, com todo o séquito das perturbações que lhe são consequentes, agirá com os seus reflexos incessantes sobre a região do corpo ou da alma que corresponda ao tema do remorso de que sejamos portadores.


Toda deserção do dever a cumprir traz consigo o arrependimento que, alentado no espírito, se faz acompanhar de resultantes atrozes, exigindo, por vezes, demoradas existências de reaprendizado e restauração.
Cair em culpa demanda, por isso mesmo, humildade viva para o reajustamento tão imediato quanto possível de nosso equilíbrio vibratório, se não desejamos o ingresso inquietante na escola das longas reparações.

É por essa razão que Jesus, não apenas como Mestre Divino mas também como Sábio Médico, nos aconselhou a reconciliação com os nossos adversários, enquanto nos achamos a caminho com eles, ensinando-nos a encontrar a verdadeira felicidade sobre o alicerce do amor puro e do perdão sem limites.

Do livro "Pensamento e Vida", cap. 22
Espírito Emmanuel
Médium: Francisco Cândido Xavier

22 junho 2011

Obedeçamos - André Luiz


OBEDEÇAMOS

Meus amigos:

Companheiros existem que não se cansam de alegar incapacidade para o serviço do bem.

No entanto, o serviço do bem pertence, na Terra, a Nosso Senhor Jesus Cristo e compete a nós outros a obrigação de nos afeiçoarmos a Ele, para sermos intérpretes de seu Infinito Amor.

Recorramos à Natureza para que nos ilustre a asserção.

O fio de cobre, largado na via pública, não passa de bagatela, mas ligado ao poder da usina é transmissor de luz e força.

O cano de chumbo, abandonado à poeira, é tropeço na estrada, contudo, em se ajustando ao reservatório, é mensageiro da água pura.

A argila, dormindo no charco, é simples trato de lama, todavia, entregue aos cuidados do oleiro, converte-se em vaso nobre.

A pedra, solta no campo, é calhau pobre e esquecido, mas, se unida à construção, é alicerce do lar.

A lagarta na amoreira é triste animal, de aspecto repelente, mas, trazida à indústria do fio, produz a seda brilhante.

A tripa de carneiro, estendida ao sol, é realmente algo desprezível, contudo, transformada na corda do violino, é abrigo doce de música.

Entretanto, o fio de cobre para iluminar padece a tensão da energia elétrica, o cano de chumbo necessita disciplinar-se para servir, a argila experimenta o insulto do fogo para erguer-se em utilidade, a pedra sofre a própria ocultação para erigir-se em sustentáculo, a lagarta deve morrer para auxiliar e a tripa de carneiro passa por longo processo renovador, a fim de responder com segurança aos sonhos do musicista.

Em verdade, todos somos corações frágeis, almas culpadas, consciências denegridas e Espíritos transgressores, diante da Lei, mas, ligados ao Espírito de Nosso Divino Mestre, podemos ser instrumentos do Eterno Bem.

Não basta, porém, salientar as nossas fraquezas, cultivando a preguiça e a falsa modéstia.

É imprescindível abraçar a verdadeira humildade, com obediência e disciplina, ante os desígnios do Senhor, porque, aprendendo e servindo, amando e ajudando, lutando e sofrendo em sua Causa Sublime, será possível cumprir-lhe a Divina Vontade e retratar-lhe a Divina Luz.

Espírito de André Luiz
De "Vozes do Grande Além",
de Francisco Cândido Xavier - Diversos Espíritos

21 junho 2011

A Glória do Esforço - Neio Lúcio


A GLÓRIA DO ESFORÇO

Relacionava Tiago, filho de Alfeu, as dificuldades naturais na preparação do discípulo, quando várias opiniões se fizeram ouvir quanto aos percalços do aprimoramento.

É quase impossível praticar as lições da Boa Nova, no mundo avesso à bondade, à renúncia e ao perdão — concluíram os aprendizes de maneira geral.

A maioria das criaturas comprazem-se na avareza ou no endurecimento.

Registrava o Mestre a conceituação expendida pelos companheiros, em significativa quietude, quando Pedro O convocou diretamente ao assunto.

Jesus refletiu alguns instantes e ponderou:

— Entre ensino e aproveitamento, tudo depende do aprendiz.

E a seguir, falou com brandura: — Existiu no tempo de David um grande artista que se especializara na harpa com tamanha perfeição que várias pessoas importantes vinham de muito longe, a fim de ouvi-lo.

Grandes senhores com as suas comitivas descansavam, de quando em quando, junto à moradia dele, cercada de arvoredo, para escutar-lhe as sublimes improvisações.

O admirável mestre fez renome e fortuna, parecendo a todos que ninguém o igualaria na Terra na expressão musical a que se consagrara.

Em seus saraus e exibições, possuía em seu serviço pessoal um escravo aparentemente inábil e atoleimado, que servia água, doce e frutas aos convivas e que jamais conversava, fixando toda a atenção no instrumento divino, como se vivesse fascinado pelas mãos que o tangiam.

Muitos anos correram quando, certa noite, o artista volta, de inesperado, ao domicílio, findo o banquete de um amigo nas vizinhanças e, com indizível espanto, assinala celeste melodia no ar.

Alguém tocava magistralmente em sua casa solitária, qual se fora um anjo exilado no mundo.

Quem seria o estrangeiro que lhe tomara o lugar? Em lágrimas de emoção por pressentir a existência de alguém com ideal artístico muito superior ao dele, avança devagar para não ser percebido e, sob intraduzível assombro, verificou que o harpista maravilhoso era o seu velho escravo tolo que, usando os minutos que lhe pertenciam por direito e sem incomodar a ninguém, exercitava, as lições do senhor, às quais emprestava, desde muito tempo, todo o seu vigilante amor em comovido silêncio.

Foi então que o artista magnânimo e famoso libertou-o e conferiu-lhe a posição que por justiça merecia.

Diante da estranheza dos discípulos que se calavam, confundidos, o Mestre rematou: — A aquisição de qualidades nobres é a glória infalível do esforço.

Todo homem e toda mulher que usarem as horas de que dispõem na harpa da vida, correspondendo à sabedoria e à beleza com que Nosso Pai se manifesta, em todos os quadros do mundo, depressa lhe absorverão a grandeza e as sublimidades, convertendo-se em representantes do Céu para seus irmãos em humanidade.

Quando a criatura, porém, somente trabalha na cota de tempo que lhe é paga pelas mordomias da Terra, sem qualquer aproveitamento das largas concessões de horas que a Divina Bondade lhe concede no corpo, nada mais receberá, além da remuneração transitória do mundo.

Pelo Espírito Neio Lúcio
Do livro: Jesus no Lar
Médium: Francisco Cândido Xavier

20 junho 2011

Seja Feita a Tua Vontade - Vinícus


SEJA FEITA A TUA VONTADE

Dentre as sentenças de que se compõe o “Pai Nosso” encontramos a seguinte: Seja feita a tua vontade, assim na Terra como no Céu.

Certamente que a vontade de Deus é soberana. A onipotência é um dos atributos da Divindade. Se assim não fora, não haveria, como há, perfeita ordem no universo, sob todos os aspectos. Haja vista a marcha ininterrupta dos mundos e dos sóis, girando, constantemente, dentro das suas respectivas órbitas.

Não consta dos anais da história que houvesse uma colisão entre as imensas moles que gravitam nas regiões etéreas. Os veículos se chocam na terra, no mar e até no espaço infinito. As colisões de automóveis, de vapores e de aviões são, mais ou menos, comuns, a despeito de todos os cuidados e de todas as precauções imaginadas para evitá-las. A razão é simples: os volantes e os lemes são dirigidos pelas mãos dos homens, enquanto que os astros obedecem ao impulso seguro e certo do Divino Timoneiro. Daí a harmonia imperturbável que reina entre os infinitos sóis e as incontáveis “moradas da casa do Pai”. A interdependência em que se encontram os corpos celestes constitui a segurança do inalterável equilíbrio universal.

Da mesma sorte, uma lei semelhante estabelece uma outra harmonia mais excelente: a harmonia da justiça, distribuindo a cada um aquilo que de direito lhe cabe, consoante o emprego que tem dado às suas faculdades, na órbita do respectivo livre-arbítrio já conquistado. Assim, pois, tanto no plano físico, como no espiritual, prevalece a soberania divina, pairando sobre as paixões e as veleidades humanas.

Não obstante, o Mestre nos ensina a orar, dizendo: Seja feita a tua vontade, assim na Terra como no Céu. Diante da onipotência de Deus, que significam essas palavras? Por elas aprendemos que, para felicidade nossa, cumpre subordinarmos a nossa vontade à vontade do Pai celestial. Só assim conseguiremos estabelecer a harmonia interna, tal como já está, pelas forças naturais, estabelecida a harmonia dos mundos e dos astros. Harmonia é equilíbrio e equilíbrio é felicidade, é vida eterna.

No uso da relativa liberdade que desfrutamos, podemos alimentar uma vontade que se contrapõe à vontade d’Aquele que criou e mantém a mecânica celeste. É do seu mesmo “querer” que assim seja. A criatura pode agir, dentro de determinados limites, em contradição com o Criador. Desse proceder, porém, resulta uma desarmonia cujo efeito é a dor. Esta cessará, desde que se restabeleça o ritmo desfeito no interior das almas. Tal o motivo porque o sábio Mestre nos aconselha a harmonizarmos nossa vontade com a vontade de Deus. Infelizmente, o homem se esquece dessa advertência, procurando, debalde, fazer com que a sua vontade prevaleça. Ele acha que está com a razão em todas as conjunturas em que se encontre. Contraria-se e sofre, sempre que não consegue realizar os seus planos, os quais se lhe afiguram os melhores e os mais acertados. Certos acontecimentos, que com ele se dão, lhe parecem verdadeiramente injustos. O homem não pode alcançar o “porquê” desses casos. Por vezes se revolta, agravando a situação penosa em que se envolve.

Há, pois, sobejas razões para que nos submetamos de “motu próprio” à vontade divina. Essa vontade é a que nos convém porque satisfaz e assegura, no que vemos e no que não vemos, no que compreendemos e no que não compreendemos, a nossa felicidade.

A onipotência e a onisciência de Deus estão a serviço do seu infinito amor. Nós somos o objeto desse amor. Confiemos, portanto, e digamos sempre, em todas as emergências da nossa vida: Seja feita a tua vontade, Senhor, assim na terra como no céu!

Do livro “Na Escola do Mestre”
De Vinícius (Pedro de Camargo)

19 junho 2011

Somos Coerentes? - Momento Espírita


SOMOS COERENTES?

Qual o conceito que você tem de coerência? Afinal, o que é coerência? Para os melhores dicionários, a palavra remete à ligação, ao nexo, à harmonia entre fatos ou ideias.

Assim, será coerente aquele que agir, pensar, falar, de uma maneira em que haja nexo, harmonia entre suas ações.

Será isso que fazemos no nosso dia-a-dia? Conseguimos agir com coerência em todos os nossos dias, em todas as nossas ações?

Vejamos que, muitas vezes, discursamos para todos a respeito da sujeira das ruas, das calçadas sem limpeza em nossa cidade, dos detritos que se avolumam.

Porém, não nos damos conta que jogamos o papel de bala, o recibo do estacionamento, o bilhete do ônibus pela janela do veículo, assim que ele não nos sirva mais. Contribuímos com a sujeira que tanto criticamos.

Preocupamo-nos em ensinar a honestidade para nosso filho, discursando longamente a respeito. E, caso toque o telefone e não queiramos falar com a pessoa que nos demanda atenção, pedimos para que nosso filho vá ao telefone e diga que não estamos.

Usamos da mentira que tanto detestamos.

Reclamamos, e com razão, do administrador público, ou do político, quando esse se apropria do que não lhe pertence, prejudicando a nação e seus cidadãos. Taxamos de roubo, exigimos os rigores da lei, tudo plenamente justificado.

Mas, às vezes, somos nós mesmos a não devolver o troco a mais no supermercado e ficamos com o que não nos pertence. Ou ainda, quando a autoridade policial nos pune frente a uma infração, tentamos suborná-la, corrompê-la.

Para quem discursa sobre roubo, suborno, somos nós então a roubar ou subornar. Pura incoerência.

E por que temos dificuldade para sermos coerentes? Por que tantas vezes agimos de maneira diferente daquela que pensamos ou defendemos com nossas palavras?

Isso acontece porque, se já temos o conceito formulado na mente, ainda nos falta o valor instalado na consciência.

Essas incoerências são geradas no descompasso entre o que a mente pensa, os nossos conceitos, e o que o coração sente, os nossos valores.

Se já pensamos certo, se nossos conceitos estão adequados, se fez um grande passo. Porém, faz-se necessário ainda, conquistar os valores, fazer que a consciência aja dessa forma.

Assim é necessário que meditemos sobre nossos atos. Que pensemos longa e profundamente sobre como estamos agindo em nossas vidas, o que estamos a fazer das oportunidades que desfrutamos todos os dias.

E, em última instância, somos muito mais aquilo que agimos e sentimos do que aquilo que apenas discursamos.

Isso é de tal forma real e verdadeiro que, certa feita, um filósofo americano afirmou: O que você faz fala tão alto que não consigo escutar o que você está dizendo.

Assim se passa conosco. O que fazemos será nosso maior discurso sobre nós mesmos, a maior representação do que efetivamente trazemos na alma, muito acima e além do que qualquer preleção ou apresentação verbal.

Desta forma, depois de escolhermos os valores que irão pautar nossa vida, comecemos o esforço inadiável de fazer com que esses conceitos, com disciplina e persistência, transformem-se em valores reais, e a coerência seja a tônica do nosso agir.

Redação do Momento Espírita

18 junho 2011

Rogativa Reajustada - Irmão X


ROGATIVA REAJUSTADA

Ildefonso, o filho de Dona Malvina Chaves, dama profundamente virtuosa e devotada à causa do bem, há quatro longos anos jazia semi-acamado; entretanto, preso à situação difícil, assemelhava-se a um cordeiro. Parecia estimar as preces maternas, consagrava-se à leitura edificante e sabia conversar, respeitoso e gentil, encorajando quem o visitasse.

Contemplando-o, comovidamente, a desvelada mãe inquiria o Médico Divino, ansiosa:

– Senhor, que motivo trouxe meu filho à invalidez? Não te parece doloroso imobilizar a juventude aos dezoito anos? Traze-o, de novo, aos movimentos da vida! Restaura-lhe o equilíbrio, por piedade!

Levanta-o e consagrar-me-ei inteiramente ao teu divino serviço!...

As lágrimas do sublime coração materno sufocavam as palavras na garganta, emocionando os amigos espirituais que a assistiam em silêncio.

No propósito de obter a concessão celeste, a prestativa senhora sacrificava-se através de todas as atividades socorristas.

Visitava moribundos, amparava sofredoras, protegia crianças abandonadas e arriscava a própria saúde e os recursos na caridade operante, conquistando prestigiosos colaboradores no plano invisível.

Em virtude dos inumeros laços de simpatia e reconhecimento, as súplicas da estimada matrona eram agora secundadas por imenso grupo de entidades espirituais, que imploravam diariamente a renovação do destino de Ildefonso. Reclamava-se para ele plena liberdade de movimentação. Esclarecia-se que na hipótese de o enfermo não merecer a graça, o benefício não deveria tardar, mesmo assim, considerando-se os méritos da genitora, mulher admirável na fé e no devotamento.

Tantos rogos se multiplicaram e tantas simpatias se entrelaçaram, que, um dia, a ordem chegou de mais alto, determinado que o jovem fosse reajustado cem por cento.

Os trabalhadores invisíveis, jubilosos, aguardaram ensejo adequado; e quando surgiu um médium notável, no setor da tarefa curativa, a Senhora Chaves foi inspirada a conduzir o filho até ele.

O missionário recebeu-a solícito e declarou-se pronto a contribuir no socorro ao doente, em obediência aos desígnios superiores.

A mãezinha fervorosa observou, no entanto, que aguardava a cura completa, era face da confiança que a orientara até ali.

O servo da saúde humana, cercado de espíritos amorosos e agradecidos, orou, impôs as mãos sobre o hemiplégico e transmitiu, vigorosamente, os fluidos regenerativos dos benfeitores desencarnados.

Em breves dias, o prodígio estava realizado.

Ildefonso recuperou o equilíbrio orgânico, integralmente.

E a genitora, feliz, celebrou a bênção, multiplicando serviços de compaixão fraterna e gestos de elevada renovação espiritual.

Um mês desdobrara os dias consuma, quando Dona Malvina começou a desiludir-se.

Ildefonso, curado, era outro homem. Perdera o amor pelas coisas sagradas. Pronunciava palavrões de minuto a minuto. Convidado à prece, informava, irreverente, que a religião era material de enfermarias e asilos e que não era doente nem velho para ocupar-se de semelhante mister. Inadaptado ao trabalho, fugia à disciplina benéfica. Trocava o dia pela noite, tal a pressa de esfalfar-se em noitadas ruidosas. Parecia vigilante do clube noturno e suas despesas desordenadas não chegavam a termo. Se a mãezinha pedia reconsideração e atitudes, sorria, escarninho, asseverando a intenção de recuperar o tempo que perdera através de espreguiçadeiras, drogas e injeções.

Com dez meses, era um transviado autêntico.

Embriagava-se todas as noites, tornando ao lar nos braços de amigos, e, quando a genitora, impondo-lhe repreensões educativas, se negou a pagar-lhe a centésima conta mais exagerada, Ildefonso falsificou a assinatura de um tio em escandaloso saque de grandes proporções.

A generosa mãe não sabia como solver o enigma do filho rebelde e ingrato.

Queixas surgiam de toda parte. Autoridades e parentes, amigos e desconhecidos traziam reclamações infindáveis.

A abnegada senhora via-se aflita e estonteada, ignorando como reajustar a situação, quando, certa noite, pedindo ao filho ébrio lhe respeitasse os cabelos brancos, foi por ele agredida a pauladas que lhe provocaram angustiosas feridas no coração. Sem palavras de revolta, Dona Malvina, a abençoada intercessora, procurou a câmara íntima, em silêncio, e rogou:

– Médico Divino, compreendo-te agora, os desígnios sábios e justos. Meu filho é também uma ovelha de teu infinito rebanho!... Não permitas, Divino Amigo, que ele se converta num mostro!... Não sei, Senhor, como definir-lhe as necessidades, mas faze-me entender-te as sentenças compassivas e modifica-lhe a rota desventurada!...

Enxugando o pranto copioso, repetiu as palavras evangélicas:

– Sou tua serva... Faça-se em mim, segundo a tua vontade!...

Intensa luminosidade espiritual resplandecia em torno de sua cabeça venerável. Nova benção desceu de mais alto e, com surpresa de todos no dia imediato, Ildefonso acordou paralítico...

Pelo Espírito Irmão X
Do livro: Luz Acima
Médium: Francisco Cândido Xavier

17 junho 2011

Sublimidade - Vinícius



SUBLIMIDADE

Às minhas filhas: Martha, Elisa, Almira e Maria Amélia.

Haverá algo mais maravilhoso que um pôr-do-sol, tingindo o horizonte de vivos e variegados coloridos?

Haverá alguma coisa mais encantadora que uma noite de luar; plácida e serena, calma e doce, envolvendo a Terra em seu manto de alumínio?

Haverá quadro mais imponente que o oceano em suas águas levemente crispadas, ondulando deleitosas, através de brando marulhar?

Haverá painel mais admirável que a mata virgem, ostentando árvores seculares, através de cuja ramada côa-se, a custo, a luz solar, cujo calor não basta para secar a umidade que refresca o solo acamado de folhas e musgos?

Haverá cena mais cheia de suavidade que aquela proporcionada pelo lago tranqüilo, de águas azuladas, sempre mansas, arfando de leve ao sopro da brisa?

Haverá, acaso, expressão de beleza maior que a das flores, dispostas com arte, num conjunto mesclado de verde, trescalando viço, frescor e aroma?

Haverá graça comparável à do passaredo garrido e travesso, enchendo o ambiente de vida e de alegria com seus gorjeios e trinados?

Haverá espetáculo mais majestoso e arrebatador que um céu escuro, recamado de estrelas, tremeluzindo e cintilando na solidão profunda que se estende, imensurável, sobre as nossas cabeças?

Haverá mais solene representação que aquela que nos oferece a aurora, espantando as derradeiras sombras da noite com as primeiras claridades do dia que desponta?

Haverá, enfim, impressão mais digna e mais nobre, mais delicada e mais tocante, mais sensibilizadora e mais emotiva que aquela que nos proporciona a atitude do santo que ora, do justo que defende os seus algozes, e da virtude ignorada que se dá em holocausto pela felicidade de outrem?

Sim — existe algo no mundo mais maravilhoso que o pôr-do-sol; mais encantador que a noite de luar; mais imponente que o oceano; mais admirável que as árvores seculares; mais garrido que os pássaros; mais majestoso e arrebatador que o céu recamado de estrelas; mais belo que as flores; mais solene que a aurora:

É a criança sorrindo no regaço materno, batendo palmas em sinal de aplauso ao doce chamamento de Jesus: Deixai vir a mim os pequeninos!

De “Na escola do Mestre”, de Vinícius (Pedro de Camargo)

16 junho 2011

Mãos Marcadas - Maria Dolores


MÃOS MARCADAS


Senhor!
Quando me deres
O privilégio do renascimento
No berçário do mundo, ante as necessidades que apresento
E aquelas que não vejo,
Eis, Senhor, o desejo
Em que dia por dia me aprofundo:
Deixa-me renascer em qualquer parte,
Entretanto, que eu possa acompanhar-te
Onde constantemente continuas
Trabalhando e servindo em todas as estradas
Para que eu também tenha as mãos marcadas
Como trazes as tuas...

Quanta ilusão quando me debatia
Crendo que o desespero fosse prece,
A rogar-te alegria e esperança
Sem que nada fizesse!
Imitava na Terra o lavrador
A temer a pedra e lama, vento e bruma,
Aguardando milagres de colheita
Sem plantar coisa alguma.
Entretanto, Senhor, agora sei
Que o trabalho é divino compromisso,
Estímulo do Céu guiando-nos os passos
E que, atendendo à semelhante lei
Puseste ambas as mãos em nossos braços
Por estrelas de amor e de serviço.

Assim, quando efetues
As esperanças em que me agasalho
E estiver entre os homens, meus irmãos,
Que eu me esqueça em trabalho
E me lembre das mãos...

Não me dês tempo para lastimar-me,
Que eu busque tão-somente a luz que me acenas...
No anseio de seguir-te
Quero o trabalho apenas.

Dá que eu seja contigo, onde estiveres,
Uma rósea de paz... Que eu seja alguém
Sem destaque e sem nome
Que se olvide no bem.

E se um dia uma cruz de provas e de agravos
Reclamar-me a tarefa e o coração,
Não me largues ao susto a que me enleie,
Ajuda-me a entregar as próprias mãos aos cravos
Da incompreensão que me rodeie,
Entre bênçãos e fé e preces de perdão!

Não consintas que eu volte ao tempo morto
Da ilusão convertida em desconforto,
Dá-me os calos da paz nas tarefas do bem,
A servir sem perguntar a quem...
Ouve, celeste amigo,
Aspiro a estar contigo,
Longe de minhas horas desregradas,
Onde sempre estiveste e sempre continuas
Plantando o amor em todas as estradas,
Para que eu também tenha as mãos marcadas
Como trazes as tuas...


Pelo Espírito Maria Dolores
Do livro: Mãos Marcadas
Médium: Francisco Cândido Xavier

15 junho 2011

Tópicos das Dificuldades Redentoras - Bezerra de Menezes


TÓPICOS DAS DIFICULDADES REDENTORAS

I

Somos de parecer que todos nós devemos prosseguir em nossos estudos, preparando a melhoria do campo de ação funcional, pois, embora o sacrifício que nos custa semelhante preparo, tais serviços de ordem intelectual representam uma fuga e um descanso de nós mesmos, porquanto, há casos, em que o aumento da atividade é o meio de repousar o cérebro quanto aos choques mais íntimos, determinantes de maiores cansaços.

II

O caminho é esse mesmo - lutas por vencer e dificuldades como preço da redenção.

Guardemos, pois, a nossa fé, certos de que as mãos de Jesus estão sobre as nossas.

Confiemos sempre!

III

Embora o coração se nos desfaça no peito, como taça de lágrimas, nas dolorosas circunstâncias em que a renúncia e o nosso carinho são colocados à prova, não esmoreçamos em nossa fé.

Continuemos amorosos e abnegados, ajudando e amando, porque a mão do Senhor é o nosso apoio na dor e na alegria, na paz e na tempestade.

IV

Estamos na atualidade terrena como quem se desvencilha da sombra noturna para clarear o coração na luz de novo dia. Imprescindível conservarmos a fé viva em Jesus por lâmpada acesa e prosseguirmos adiante.

V

Com relação às nossas dificuldades redentoras, continuemos na aceitação das circunstâncias difíceis, em que presentemente nos achamos, na certeza de que, seguindo as Suas próprias palavras na Redenção Divina, Ele, nosso Amado Jesus, continuará caminhando conosco, em nosso jornadear para a Vida Imperecível.

Confiemos Nele, o Senhor, hoje e sempre.

VI

Deixemos que a serenidade nos garanta a calma precisa. Nossos corações nunca estão desamparados. Reanimem-nos firmes no otimismo, amparando a cada um dos nossos, segundo as suas necessidades.

VII

Na estrada redentora, seremos sempre assistidos espiritualmente.

Jesus nunca falha! Busquemos o Senhor, em nossas dificuldades, para que o Seu pensamento em nosso pensamento nos ampare as soluções. Confiemos!

VIII

No círculo de nossas lutas redentoras, continuemos oferecendo o melhor de nós mesmos para que o melhor se faça no auxílio aos que amamos.

A dor é a nossa benção na luta que é sempre a nossa escola.

Confiemos em Jesus, e esperemos por Ele, o nosso Divino Mestre, sempre e sempre.
IX

Confiemos na Proteção Divina e esperemos a manifestação da assistência do Alto pelos canais competentes, por onde transitam os assuntos que referem à nossa luta redentora. Dentro de nossos recursos, tudo devemos fazer no sentido de recuperar a tranquilidade de que necessitamos para o desempenho de nossas tarefas. Jesus nos fortaleça e abençoa!

X

Na Redenção Edificante em que se encontram, nossos irmãos permanecem amparados por diversos amigos da espiritualidade, esperando nós que a fé prossiga brilhando como luz nas sombras, na certeza de que as nossas esperanças e abnegações encontrarão com Jesus a vitória almejada.

XI

A luta prossegue, entretanto, a Misericórdia Divina é sempre maior!

*

De “Apelos cristãos”
De Francisco Cândido Xavier
Pelo Espírito Bezerra de Menezes

14 junho 2011

Lição Inesquecível - Momento Espírita


Lição Inesquecível

Na atualidade, é bastante comum os casais se queixarem um do outro. A esposa critica o marido por suas manias, por lhe cercear a liberdade e por outras tantas coisas.

O marido reclama dos gastos da esposa, do tempo que demora para se arrumar toda vez que decidem sair, e daí por diante.

É natural que numa roda de amigas, quando o assunto é marido se comentem os defeitos deles e como elas poderiam ser mais felizes sem eles.

Assim foi numa tarde, na academia, onde uma senhora, que aparentava um pouco mais de quarenta anos, se encontrava. Alguém comentou que invejava a sua felicidade.

Ela era uma mulher que transpirava alegria. Dedicava-se a obras de caridade, estudava música.

Mas, em tudo que fazia, havia uma tonalidade de alegria contagiante.


Qual era o segredo, afinal? – Perguntou uma das amigas.

Devo tudo ao meu marido. - Respondeu rápido.

Como assim? Tornou a perguntar a outra. Ele acompanha você a todo lugar, incentiva você, o que ele faz?

E uma pontinha de inveja adornava as perguntas agora.

Como podia aquela mulher ser tão feliz com seu marido?

Mas a outra tornou a responder: Bem, meu marido morreu.

Na roda de amigas, houve um grande silêncio e, pela mente de todas elas, passou a ideia: Claro que ela é feliz. Ele devia ser um carrasco. Ele morreu e ela se libertou.

No entanto, continuando a explicar, a viúva disse:

Enquanto vivemos juntos e foi pouco mais de vinte anos, esse homem me ensinou a amar.

Quando nos casamos, eu era uma jovem tola, cheia de sonhos, vivendo a irrealidade. Ele era um homem prático, mas extremamente sensível.

Amante da poesia, ensinou-me a amar os versos, a descobrir a beleza nas rimas.

Nas horas de folga, tornava-se jardineiro. Ensinou-me a amar a terra, as flores, a semear e esperar o crescimento e a floração.

Gostava de boa música. Com ele aprendi a ir ao teatro para assistir a concertos de música clássica e shows de música popular. Ele me instruiu nos primeiros caminhos dessa bela arte.

Esse homem me ensinou a amar a vida e nela descobrir valores. Deu-me a conhecer o verdadeiro valor de uma amizade, a não desprezar nenhuma manifestação de carinho, por menor que pudesse ser.

Ensinou-me a amar a natureza, bendizendo o sol e a chuva, em suas alternâncias. A não reclamar do frio, nem do calor excessivo. Ele me ensinou a ver em tudo a Providência de Deus a nos abençoar.

Por isso, quando ele se foi, quando pensei entregar-me à tristeza, recordei-me dos anos vividos e das lições repassadas.

Em memória dele, não posso deixar de ser feliz e transmitir felicidade a todos.

* * *

A vida é o hálito do Pai Criador em Sua soberana manifestação de amor.
Examinemos nossa vida e das experiências de todos os dias retiremos o melhor proveito.
Nossa vida se constitui de bênçãos e sofrimentos.
Exatamente como no jardim existem duas formas de encontrar as rosas: pelo aroma ou pelos espinhos, nossa vida depende da forma que encaramos o que nos rodeia, o que nos chega, o que nos acontece.

Redação do Momento Espírita, com pensamentos finais extraídos do livro Repositório de sabedoria, v. 2, pelo Espírito Joanna de Ângelis, psicografia de Divaldo Pereira Franco, ed. Leal

13 junho 2011

Fé - Hammed




Fé não é uma questão de conveniência. Fé não é uma muleta milagrosa. Fé não é satisfação de caprichos, mas “um meio de demonstrar as realidades que não se veem”.

A fé a qual se referia Jesus Cristo é aquela que vibra no coração das criaturas que acreditam que Deus tudo vê e provê. Essa fé verdadeira, que respeita os ritmos e os ciclos naturais da vida, considera que tudo está certo e nada está fora dos domínios da Ordem Providencial.

Ter fé é aceitar a dor e a dificuldade em nossas vidas como pedidos de renovação. Ter fé é perceber as nossas limitações e, da mesma forma, as dos outros e perdoar sempre.

Nossa consciência de vida é diminuta e frágil. Como esperar que um paralítico possa caminhar por uma ladeira íngreme, repleta de fendas e pedregulhos, com precisão e agilidade, sem vacilar? É óbvio que o erro traz consequências para quem errou, mas a Vida Maior não tem como método de educação punir ou condenar. Ela visa apenas transformar a “energia do ato” na “consciência do ato”. Em outras palavras, quer que a criatura possa extrair do erro ensinamentos e que fique cada vez mais atento às leis que regem sua existência. Portanto, ter fé é aprender a nos perdoar e aos outros, para que possamos ser perdoados.

Ter fé é entender que não se consegue paz meramente pedindo, e sim fechando as portas das sensações exteriores a fim de penetrar no sentido interior – a intuição sapiencial.

Enfim, ter fé é compreender que “Deus está em tudo, e tudo está em Deus”, conforme legitimou Jesus Cristo: “Quem me vê, vê o Pai. Como podes dizer: Mostra-nos o Pai? Não crês que estou no Pai e o Pai está em mim?”. Ou mesmo, quando asseverou “Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizeste”.

Sobre isso também escreve Paulo de Tarso em I Coríntios, 15:28: “para que Deus seja tudo em todos”, pois, na realidade, o Criador Excelso está em todas as criações e criaturas, mas não se confunde com nenhuma delas, nem nelas se dissipa.

Pelo Espírito Hammed
Do livro: “Um Modo de Entender, uma Nova Forma de Viver”
Médium: Francisco do Espírito Santo Neto

12 junho 2011

Bilhete Amigo - Emmanuel


BILHETE AMIGO

Meu Irmão.

Ninguém espera te transformes num milionário ou num santo para que o bem te ilumine o coração e dirija os passos.

Sublime é a caridade que se transforma em reconforto.

Divina é a caridade que se converte em amor irradiante.

De sementes minúsculas, procedem as árvores gigantescas que sustentam a vida.

Evita falar de ti mesmo.

Cumpre o dever que te cabe, sem intromissão nas tarefas alheias.

Não provoques o elogio no desempenho de tuas obrigações.

Não te prendas a ninharias, quando o benefício geral te reclame a colaboração.

Perdoa sem alarde as ofensas.

Não te encarceres na indisciplina.

Aprende a ouvir com serenidade as palavras ingratas ou contundentes, para que a irritação não perturbe os outros, através de tuas energias descontroladas.

Esquece todo mal.

Procura, cada dia, uma nova oportunidade de ser útil.

Abstem-se das conversações maliciosas ou indignas.

Não partilhes o triste banquete da leviandade ou da calúnia.

Compadece-te dos ausentes e ajuda-os com o verbo cristão.

Escuta com calma quem te procura, trazendo inquietação ou veneno.

Nunca olvides que, se, muitas vezes, nos arrependemos de haver falado, ninguém padece remorso por haver preferido o silêncio.

Ora por quem te persegue ou não compreende.

Emite bons pensamentos para todos os que te cercam.

Não te furtes aos serviços humildes, quais sejam os do copo d’água, da palavra estimulante, do sorriso amigo, da limpeza gratuita, da gentileza anônima, da bondade prestimosa e desconhecida.

Da caridade divina, que exterioriza a claridade santificante do exemplo, pode participar todo irmão de ideal evangélico, ainda mesmo aquele que se declara absolutamente sem tempo e sem dinheiro para o exercício do bem.

Usa, cada hora, o gesto espontâneo da fraternidade imperceptível e os teus singelos depósitos, aparentemente insignificantes, capitalização, em teu benefício, um tesouro de glórias no Céu.

Da obra "Nosso Livro"
Pelo Espírito Emmanuel
Médium: Francisco Cândido Xavier

11 junho 2011

O Médium Espírita - Irmão X


O MÉDIUM ESPÍRITA

Quando o Médium Espírita apareceu na assembleia doutrinária, sinceramente decidido à tarefa que lhe fora designada, abraçou o serviço com ardor; no entanto, das pequenas multidões que o acompanhavam saíram vozes: "é por demais verde, não tem experiências".

O seareiro do Bem assumiu ares de adulto e adotou costumes austeros e mostrou-se entusiasta, mas ouviu novo conceito: "é um temperamento perigoso, entregue à chocarrice". Procurou então adicionar veemência ao otimismo e os circunstantes fizeram coro: "é explosivo, dado à violência".

O servidor arrefeceu os impulsos e começou a usar textos esclarecedores para fundamentar as próprias asserções, lendo pareceres de autoridades, e escutou novo apontamento: "é um burro que não sabe falar, senão recorrendo a notas alheias".

Abandonou, daí em diante, o sistema de citações e passou a dar somenterespostas rápidas sobre os problemas que lhe vinham à esfera de ação, eexclamaram para logo: "é um preguiçoso, sem qualquer atenção para o estudo".
Nessa altura, o obreiro da Espiritualidade julgou mais razoável servir à Causa da Luz, no próprio lar; contudo, ouviu: "é um covarde, não enfrenta responsabilidades diante do povo".

O Médium regressou às atividades públicas e entrou a colaborar na sementeira do conhecimento superior, onde fosse chamado, e surgiu outra sentença: "é um manequim da vaidade, manobrado por agentes das trevas".

O atormentado trabalhador procurou evitar discussões e escolheu atitude de reserva, falando apenas em torno das questões mais simples da edificação espiritual, e comentaram: "é mole demais, sem qualquer fibra moral para os testemunhos de fé". Registrando isso, esposou o regime da mente arejada com o verbo franco, e anotaram, de imediato: "é um obsidiado, entregue à mistificação".

Tentou acomodar-se, fazendo unicamente aquilo que considerava como sendo o seu próprio dever, e clamaram: "é vagabundo, nada quer com o trabalho". Ele tornou a inflamar-se de boa vontade, oferecendo o máximo das próprias forças à construção da Espiritualidade Maior, e acusaram: "é revolucionário, deve ser vigiado..."

Aflito, o medianeiro procurou o Mentor Espiritual que lhe propiciava amparo constante, e chorou:

- Ah! benfeitor meu, que faço se não satisfaço?

- De quem recebeste a tarefa do bem? - perguntou o amigo. - Do Senhor ou dos homens?

- Do Senhor - soluçou o Médium.

- Então - replicou o abnegado companheiro -, levarei tua indagação ao Senhor e amanhã trarei a resposta.

No dia seguinte, ao amanhecer, quando o servidor orava, rogando força e inspiração, surgiu-lhe à frente o instrutor espiritual e falou, sereno:

- O Senhor mandou dizer-te que, em te nomeando para colaborar na Obra de redenção, assim o fez porque confiava em teu amor para com os irmãos da família humana, e que, por isso mesmo, não te solicitou o inventário das críticas que porventura te fossem feitas, e sim te recomendou tão-somente servir e trabalhar.

Nesse instante, o primeiro clarão diurno varou, de chofre, a vidraça. O medianeiro, de alma subitamente bafejada por nova compreensão, mirou o fio de luz que vencera as trevas para aquecê-lo em silêncio... Em seguida, pensou e pensou, a pouco e pouco invadido de estranho júbilo... Desde então, o Médium Espírita olvidou a si mesmo e aprendeu com o raio de Sol que a sua força vinha do Senhor e que a sua felicidade se resumia em servir e servir, trabalhar e trabalhar.

Humberto de Campos [Irmão X]
Médium: Francisco Cândido Xavier
Do livro: Estante da Vida – cap. 5

10 junho 2011

Poligamia e Monogamia... - André Luiz


POLIGAMIA E MONOGAMIA - ALIMENTO ESPIRITUAL ENFERMIDADES DO INSTINTO SEXUAL


POLIGAMIA E MONOGAMIA - O instinto sexual, a desvairar-se na poligamia, traça para si mesmo largo roteiro de aprendizagem a que não escapará pela matemática do destino que nós mesmos criamos.
Entretanto, quanto mais se integra a alma no plano da responsabilidade moral para com a vida, mais aprende o impositivo da disciplina própria, a fim de estabelecer, com o dom de amar que lhe é intrínseco, novos programas de trabalho que lhe facultem acesso aos planos superiores.
O instinto sexual nessa fase da evolução não encontra alegria completa senão em contato com outro ser que demonstre plena afinidade, porquanto a liberação da energia, que lhe é peculiar, do ponto de vista do governo emotivo, solicita compensação de força igual, na escala das vibrações magnéticas.
Em semelhante eminência, a monogamia é o clima espontâneo do ser humano, de vez que dentro dela realiza, naturalmente, com a alma eleita de suas aspirações, a união ideal do raciocínio e do sentimento, com a perfeita associação dos recursos ativos e passivos, na constituição do binário de forças, capaz de criar não apenas formas físicas, para a encarnação de outras almas na Terra, mas também as grandes obras do coração e da inteligência, suscitando a extensão da beleza e do amor, da sabedoria e da glória espiritual que vertem, constantes, da Criação Divina.
ALIMENTO ESPIRITUAL — Há, por isso, consórcios de infinita gradação no Plano Terrestre e no Plano Espiritual, nos quais os elementos sutis de comunhão prevalecem acima das linhas morfológicas do vaso físico, por se ajustarem ao sistema psíquico, antes que às engrenagens da carne, em circuitos substanciais de energia.
Contudo, até que o Espírito consiga purificar as próprias impressões, além da ganga sensorial, em que habitualmente se desregra no narcisismo obcecante, valendo-se de outros seres para satisfazer a volúpia de hipertrofiar-se psiquicamente no prazer de si mesmo, numerosas reencarnações instrutivas e reparadoras se lhe debitam no livro da vida, porque não cogita exclusivamente do próprio prazer sem lesar os outros, e toda vez que lesa alguém abre nova conta resgatável em tempo certo.
Isso ocorre porque o instinto sexual não é apenas agente de reprodução entre as formas superiores, mas, acima de tudo, é o reconstituinte das forças espirituais, pelo qual as criaturas encarnadas ou desencarnadas se alimentam mutuamente, na permuta de raios psíquico-magnéticos que lhes são necessários ao progresso.
Os espíritos santificados, em cuja natureza super evoluída o instinto sexual se diviniza, estão relativamente unidos aos Espíritos Glorificados, em que descobrem as representações de Deus que procuram, recolhendo de semelhantes entidades as cargas magnéticas sublimadas, por eles próprios liberadas no êxtase espiritual.
De outro lado, as almas primitivas comumente lhe gastam a força em excessos que lhes impõem duras lições.
Entre os espíritos santificados e as almas primitivas, milhões de criaturas conscientes, viajando da rude animalidade para a Humanidade enobrecida, em muitas ocasiões se arrojam a experiências menos dignas, privando a companheira ou o companheiro do alimento psíquico a que nos reportamos, interrompendo a comunhão sexual que lhes alentava a euforia, e, se as forças sexuais não se encontram suficientemente controladas por valores morais nas vítimas, surgem, frequentemente, longos processos de desespero ou de delinquência.

ENFERMIDADES DO INSTINTO SEXUAL — As cargas magnéticas do instinto, acumuladas e desbordantes na personalidade, à falta de sólido socorro íntimo para que se canalizem na direção do bem, obliteram as faculdades, ainda vacilantes, do discernimento e, à maneira do esfaimado, alheio ao bom senso, a criatura lesada em seu equilíbrio sexual costuma entregar-se à rebelião e à loucura em síndromes espirituais de ciúme ou despeito. À face das torturas genésicas a que se vê relegada, gera aflitivas contas cármicas a lhe vergastarem a alma no espaço e a lhe retardarem o progresso no tempo.
Daí nascem as psico-neuroses, os colapsos nervosos decorrentes do trauma nas sinergias do corpo espiritual, as fobias numerosas, a “histeria de conversão”, a “histeria de angústia”, os “desvios da libido”, a neurose obsessiva, as psicoses e as fixações mentais diversas que originam na ciência de hoje as indagações e os conceitos da psicologia de profundidade, na esfera da Psicanálise, que identifica as enfermidades ou desajustes do instinto sexual sem oferecer-lhes medicação adequada, porque apenas o conhecimento superior, gravado na própria alma, pode opor barreiras à extensão do conflito existente, traçando caminhos novos à energia criadora do sexo, quando em perigoso desequilíbrio.
Desse modo, por semelhantes rupturas dos sistemas psicossomáticos, harmonizados em permutas de cargas magnéticas afins, no terreno da sexualidade física ou exclusivamente psíquica, é que múltiplos sofrimentos são contraídos por nós todos, no decurso dos séculos, porquanto, se forjamos inquietações e problemas nos outros, com o instinto sexual, é justo venhamos a solucioná-los em ocasião adequada, recebendo por filhos e associados de destino, entre as fronteiras domésticas, todos aqueles que constituímos credores do nosso amor e da nossa renúncia, atravessando, muitas vezes, padecimentos inomináveis para assegurar-lhes o refazimento preciso.
Compreendamos, pois, que o sexo reside na mente, a expressar-se no corpo espiritual, e consequentemente no corpo físico, por santuário criativo de nosso amor perante a vida, e, em razão disso, ninguém escarnecerá dele, desarmonizando-lhe as forças, sem escarnecer e desarmonizar a si mesmo.

Do livro "Evolução em Dois Mundos", cap. XII, André Luiz
Médiuns: Chico Xavier, W. Vieira, FEB