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31 outubro 2009

Prazeres Efêmeros - Momento Espírita

Prazeres Efêmeros

É bastante comum ouvir-se falar que só se vive uma vez.

Esse discurso em geral é feito por quem deseja se justificar perante a própria consciência.

Afoito por desfrutar de estranhos prazeres, quer acreditar que oportunidades de gozo não podem ser desperdiçadas.

Nessa lógica, quando tais oportunidades se apresentam, elas reclamam fruição e entrega total e imediata.

Mas o raciocínio se apresenta falseado em seu princípio.

Em realidade, vive-se mesmo apenas uma vez.

Desde que é criado, o Espírito vive ininterruptamente e para sempre.

Na carne ou fora dela, a vida segue una e invencível.

Ela não experimenta solução de continuidade, não tem pausas e nem fim.

O cenário muda, os corpos se sucedem, na longa jornada da Imortalidade.

Mas a essência do ser jamais se perde.

Ela se aprimora, refina-se, em suas múltiplas experiências.

Por vezes também se complica ao desperdiçar precioso tempo em práticas infelizes.

De fato, a vida é uma só.

Ela apenas se desdobra em incontáveis existências, nos mais diversos contextos.

Justamente por isso é preciso cautela quando se cogita de divertimentos exóticos.

Muitos prazeres fugazes causam transtornos duradouros.

Os compromissos assumidos em momentos de devaneio e desfrute terão de ser honrados, mais cedo ou mais tarde.

A saúde comprometida com leviandades representa um patrimônio de vida, do qual será preciso dar conta.

Na contabilidade cósmica não há a figura do calote.

Há plena liberdade para estabelecer os mais diversos vínculos e acordos.

Entretanto, todos deverão ser solvidos e desatados.

Convém pensar nisso, antes de se entregar a prazeres efêmeros.

O que quer que se decida viver terá consequências.

Se algo desejado compromete a própria dignidade, é melhor abdicar do desejo.

De nada adianta ter uma satisfação momentânea seguida de um pesar permanente.

Experiências indignas jamais representam oportunidades reais.

São antes de mais nada um perigo.

Em sua jornada milenar, é comum o Espírito cometer alguns deslizes que o enfraquecem em dados setores.

Como precisa vencer-se para transcender em direção ao infinito, de tempos em tempos ele é confrontado com tentações nas quais já sucumbiu.

É quando o passado surge forte, na forma do desejo palpitante e das mais variadas fantasias.

Mas é justamente o momento de o valor pessoal falar mais alto.

Perante as tentações do mundo, lembre-se de que você é imortal.

Por saborosa que pareça determinada sensação ou conquista, ela fatalmente passará.

Ao passo que a sua dignidade espiritual representa um tesouro imorredouro.

Não compensa comprometê-la.

Redação do Momento Espírita

30 outubro 2009

Fé e Vida - Eros

FÉ E VIDA

A chama da esperança incendiava os corações e se refletia no brilho dos olhos, que fitavam, desafiadoramente, o futuro.

O Messias havia discorrido sobre as bênçãos e consolações reservadas aos humildes e simples, aos mansos e pacificadores.

Já se preparava para afastar-se da massa humana, quando alguém inquiriu:

- E a fé? Qual a tarefa que desempenha na vida?

"- A fé - explicitou, sem censura ou cansaço - é a lâmpada que se acende na mente para clarear a razão e aquece os sentimentos para atuarem com segurança de paz.

Nascidas nas fontes insondáveis da psique divina, de que todos somos herdeiros, é a estrela em noite escura apontando rumo, linfa refrescante no deserto, pão nutriente na fome espiritual.

Espontânea, quando irrompe dos refolhos da alma, e, sustentada pelo combustível do amor, faz-se confiança e estímulo para a luta libertadora que todos travamos com nós mesmos, em relação aos outros e em favor da Sociedade na qual nos movimentamos.

Racional quando surge como consequência da análise das coisas, do estudo do Universo e do aprofundamento das questões da vida, que dizem respeito à Criação.

A fé na criatura, na humanidade, no conhecimento, no progresso de alguma forma é filha da vivência espiritual do homem com Deus, inevitável conquista do ser imortal no seu processo de ascensão.

O céptico, atormentado e zombeteiro, encontra-se enfermo da emoção e, quando se diz douto, entroniza no ego a própria ignorância. Desejando ver Deus, se duvida, não o consegue, e se lobriga, já não tem por que duvidar. Para lográ-lo, no entanto, necessita despojar-se da presunção e buscá-Lo.

O homem sem fé é comparável ao nauta que conduz a embarcação, esquecido de que ela perdeu o leme.

A fé é uma atitude emocional e uma conquista intelectual em favor da Vida.

Pode ser trabalhada através da meditação, que a desenvolve e amplia, da oração, que a consolida, bem como da ação que a demonstra.

Ao abandono, perde a vitalidade, enquanto que estimulada, se expande e arde como labareda divina que jamais consome.

A fé possibilita as conquistas aos himalaias das dificuldades e a vitória sobre os labirintos das paixões.

A fé jamais se confunde, porque intui sempre o correto caminho a seguir, estabelecendo os deveres a cumprir e nunca teme nada, em razão de que, estribada na verdade, não teme conflitos nem suspeitas.

O que hoje se lhe apresenta como impossível de operar, amanhã surge como factível e depois se torna realização vitoriosa.

A Fé é a luz da Vida."

De "A um passo da imortalidade",
de Divaldo P. Franco,
pelo Espírito Eros

29 outubro 2009

Fiel Para Sempre - Joanna de Ângelis

FIEL PARA SEMPRE

No embate contínuo das inúmeras paixões para a intransferível sublimação espiritual, o cristão, descontente com as concessões que frui, compreende a necessidade de prosseguir lutando.

O triunfo imediato, as glórias fáceis, as alegrias ligeiras não o fascinam, porque lhes confere a transitoriedade.
Ante os monumentos colossais do passado, agora corroídos pelo tempo, constata a vacuidade dos bens terrenos.
Colunas de mármores raros cinzelados, granitos preciosos ornados de metais que produzem pujança e beleza deslumbrante, ressurgem, frios, tristes, aos seus olhos, narrando a história das mãos escravas que os trabalharam, lavando com suores e lágrimas de sangue a poeira que os instrumentos produziram ao dar-lhes forma arrancando dos minerais brutos a mensagem da beleza.
Museus abarrotados de valores de alto preço, que descrevem conquistas e poder, parecem páginas que choram em esculturas quebradas e ornatos incompletos, preciosidades mortas, fitando homens que a miséria mata desde a orfandade e que, possivelmente, foram os mesmos, que um dia no passado, se banquetearam na abastança da ilusão.
Lajes que suportaram, indiferentes, o tropel de exércitos com os seus animais e carros de guerra, continuam, gastas, suportando máquinas velozes que a técnica constrói...
E as paixões hoje são quase as mesmas de ontem, senão mais açuladas, mais violentas e devastadoras, no homem que prossegue inquieto.
Fala-se muito sobre tais belezas, ora transformadas em mausoléus de lembranças. Sem dúvida, retratam a arte, expressam grandezas espirituais, muitas delas. Fitando-as, todavia, não há como deixar de inquirir: “Se Deus concede ao homem ímpio e infeliz tanta fortuna, que não reservará ao filho generoso e trabalhador que Lhe é fiel?!”

Luta, pois, e sofre, mesmo sozinho.
Desencarcera-te das primitivas manifestações do instinto, por cujos impulsos tens transitado e ascende aos panoramas da emoção superior, buscando com os sentimentos nobres e a inteligência lúcida, a intuição libertadora.
Não te equivoques com o sorriso dos conquistadores iludidos, nem suponhas que, promovendo alaridos, eles hajam encontrado a felicidade. O júbilo que promove balbúrdia é loucura em plena explosão.
A alegria que brota de dentro é como córrego precioso, que nasce discretamente e dessedenta a terra por onde cantam, docemente, suas águas passantes.
A atroada dos infelizes é produzida pela fuga que promovem, aparentando festa interior.
Ei-los que se embriagam por um dia, se entristecem no outro, murcham repentinamente e se desgarram na excentridade das alienações mentais, conquanto aplaudidos por outros enfermos, sumindo pela porta do suicídio direto ou indireto para defrontar a realidade dolorosa, logo depois.

Todo cristão autêntico sofre um “espinho na carne”, que lhe dói e é, também, sua advertência.

O Calvário não é apenas a recordação ou o nome do lugar onde Ele padeceu. É a mensagem eterna da superação do Filho de Deus a todas as contingências, circunstâncias e imposições humanas, falando de amor, coragem, renúncia e fé.
Todos os mártires da fé, os heróis do bem e os santos do amor, caminhando entre os homens, sofriam com alegria o seu calvário, que era o sinal de união contínua com Ele, o Herói Estelar.

Abre, desse modo, os teus braços, submete-te à cruz redentora e avança. Pára a ouvir um pouco as vozes do passado que ensinam experiências e não temas: sê fiel a Jesus até o fim!

Autor: Joanna de Ângelis (espírito)
Psicografia de Divaldo Franco

28 outubro 2009

Desajuste Aparente - Emmanuel

DESAJUSTE APARENTE

Há quem afirme que a Doutrina dos Espíritos é viveiro de crentes indisciplinados, pelo excesso das interpretações e pelo arraigado individualismo dos pontos de vista. Outros proclamam que a Nova Relação desloca a vida mental daqueles que a desposam, compelindo-os à renunciação.

Tais enunciados, porém, não encontram guarida nos fundamentos da verdade.

O Espiritismo, naturalmente, amplia os horizontes do ser.

A visão mais segura do Universo e a mais alta concepção da justiça dilatam na mente a sede de libertação, para mais altos vôos do espírito, e a compreensão mais clara, aliando-se à mais viva noção de responsabilidade, estabelece sublimes sentimentos para a alma, renovando os centros de interesse para o campo íntimo, que se vê, de imediato, atraído para problemas que transcendem a experiência vulgar.

Realmente, para quem estima os padrões convencionalistas, com plena adaptação ao menor esforço, não será fácil manejar caracteres livres, nos domínios da fé, porque os desvairamentos da personalidade invariavelmente nos espreitam, tentando-nos a impor sobre outrem o tacão do nosso modo de ser.

Dentro da Nova Revelação, todavia, não há lugar para qualquer processo de cristalização dogmática ou de tirania intelectual.

A imortalidade desvendada convida o homem a afirmar-se e o centro espiritual do aprendiz desloca-se para interesses que transcendem a esfera comum.

As inteligências de todos os tipos, tanto quanto os mundos, gravitam em torno de núcleos de força, que as influenciam e sustentam.

O panorama do infinito, descortinado ao homem pelo nosso ideal, atrai o cérebro e o coração para outros poderes, e a criatura encarnada, imperceptivelmente induzida a operar em serviços diferentes, parece desajustada e sedenta, à procura de valores efetivamente importantes para os seus destinos na vida eterna.

As escolas religiosas oficializadas ou organizadas, presas a imperativos de estabilidade econômica, habitualmente gravitam em derredor da riqueza perecível ou da autoridade temporal da Terra e jazem magnetizadas pela idéia de domínio e influência que, no mundo, facilitam a solidariedade e a união, de vez que a maioria dos espíritos encarnados, ainda cegos para a divina luz, reúnem-se e obedecem alegremente, ao redor do ouro ou do comando sobre os mais fracos.

Mas no Espiritismo é difícil aglutinar caracteres libertados, sob o estandarte nivelador da convenção.

Assim como aconteceu nos trezentos anos que antecederam a escravização política do Evangelho redentor, o discípulo da nossa Doutrina Consoladora pretende encontrar um caminho de acesso à vida superior.

Aceita as facilidades humanas - para dar com largueza e desprendimento da posse.

Disputa o contentamento de trabalhar - para servir.

Busca a liberdade - para submeter-se às obrigações que lhe cabem.

Adquire luz - para ajudar na extinção das trevas.

"Está no mundo sem ser do mundo."

É alguém que, em negando a si mesmo, busca o Mestre da Verdade, recebendo, de boa-vontade, a cruz do próprio sacrifício para a jornada de ressurreição.

E demorando-se cada discípulo, em esfera variada de trabalho, observamos que eles todos, à maneira de viajores, peregrinando escada acima - cada qual contemplando a vida e a paisagem do degrau em que se encontra -, oferecem o espetáculo de almas em desajuste e extremamente separadas entre si, porquanto os habitantes do vale ou da planície, acostumados aos mesmos quadros de cada dia, com a repetição das mesmas nuances de claridade solar, não conseguem esquecer, de improviso, as velhas atitudes de muito tempo e nem podem entender o roteiro dos que se desinteressam da ilusão, caminhando, em sentido contrário ao deles, ao encontro de outra luz.

De "Roteiro",
de Francisco Cândido Xavier,
pelo Espírito Emmanuel

27 outubro 2009

Calar a Boca - Momento Espírita

CALAR A BOCA

A maioria dos pais deseja que seus filhos sejam felizes. Que cresçam com saúde. Que sejam amados, inteligentes, que conquistem louros na escola, na profissão, na vida.

Apesar disso, nem sempre conseguem seu intento.

Por mais que desejem, por mais que se empenhem, por vezes um dos seus filhos, quando não todos eles, detestam a escola.

Alguns têm problemas de relacionamento, ou não desejam trabalhar, ou, ainda, se envolvem com drogas, crimes, etc.

Muitas vezes nos questionamos: por quê?

Não teremos nos empenhado o suficiente? Onde teremos falhado?

Não devemos esperar que nossos filhos sejam perfeitos, desde que a perfeição não é deste planeta onde vivemos.

Temos que nos preocupar em transformar nosso filho em um homem de bem, bom o bastante para viver no mundo e servir ao mundo.

Com tal disposição, é importante que repensemos a nossa função educativa, como pais.

Dentro do lar, às vezes agimos de forma a invalidar as teorias, ou seja, desmentimos na ação o que aconselhamos aos filhos.

Uma das frases mais ditas, possivelmente, para as nossas crianças, é o famoso "cala a boca!"

Normalmente, a frase cai como um raio sobre um pirralhinho que já repetiu a mesma questão, pelas nossas contas, mais ou menos umas dez vezes.

De verdade, será talvez a quinta. Nossa impaciência é que multiplica de forma equivocada.

Consideremos que a criança é repetitiva mesmo. Faz parte do seu desenvolvimento infantil a repetição para fixar conceitos e frases que ela vai aprendendo.

Freqüentemente, é preciso explicar dezenas de vezes a mesma coisa para que ela entenda.

E aquela bateria de: "por que, hein?" Leva muitos pais à exaustão.

Mas se a criança está repetindo, se ela está perguntando outra vez, é porque sente a necessidade de uma compreensão que lhe seja satisfatória.

Por isso, não tem jeito. É preciso se munir de paciência, responder, e responder.

Mesmo porque, caso contrário, os pais podem criar um filho que tem medo de falar, medo de se exprimir, medo de ser repreendido.

Uma criança com esse tipo de insegurança poderá ter dificuldades na escola, pois não entenderá o que foi explicado, mas jamais perguntará.

Nas questões afetivas também terá problemas. Não falará o que pensa, por medo ou insegurança.

Perguntar faz parte do aprendizado. Pensemos bem: não é verdade que a nossa impaciência estoura sobre o pequeno, não porque estejamos cansados de responder os porquês, mas porque não sabemos respondê-los?

Afinal, quem de nós vai saber explicar para o pequenino porque a lua é redonda? Porque a formiguinha anda em fila indiana? Porque ele deve colocar a jaqueta que detesta só porque nós estamos com frio?

Calma deve ser a nossa tônica todos os dias. Dar as explicações necessárias, sem nos alongar muito, nem complicar a resposta.

E lembremos de uma coisa: pessoas educadas não mandam as outras calarem a boca. Demos o exemplo para os nossos filhos.

Você sabia?

Você sabia que nossos filhos são espíritos reencarnados que já passaram por muitas existências?

Por esse motivo não lhes tiremos as oportunidades de aprendizado, nem lhes soneguemos informações, pois eles são filhos de Deus, tanto quanto nós, a caminho da evolução.

Equipe de Redação do Momento Espírita

26 outubro 2009

Paciência - Humildade - Cenyra Pinto

PACIÊNCIA - HUMILDADE

Por mais que se fale sobre a paciência, não se conseguirá jamais alcançá-la em toda a sua plenitude.

Ela encerra todas as experiências e conquistas do homem sobre si mesmo. Contém a humildade, a bondade, a tolerância: produtos de compreensão.

Ninguém conseguirá ter paciência se não tiver humildade. A humildade tão apregoada é um sentimento que o seu verdadeiro possuidor desconhece, tão natural é a qualidade na sua formação.

Não é humilde quem se esconde para não ser visto, quem recusa aplausos e foge às glórias e aos poderes temporais. A vaidade muitas vezes se recobre com o manto da humildade para enganar os incautos.

O humilde, onde estiver, em meio às honrarias do mundo ou mergulhado na miséria, é sempre o mesmo homem simples, sem vaidade ou revolta pela condição que lhe é dada viver: vive despreocupadamente, agindo sempre com equilíbrio. Não se ofende com a ofensa: não por covardia, mas por ser invulnerável, uma vez que nada existe em seu íntimo capaz de vibrar e corresponder ao insulto.

Compreende a natureza humana porque já a interpretou nas zonas profundas da sua alma.

O mundo não entende o humilde, rebaixa-o pela dificuldade de compreender tal natureza, distante do campo negativo das experiências terrenas. O humilde modificou sua expressão na superfície da personalidade porque transformou-se em sua intimidade. Sofre pelo ofensor, não pela ofensa.

Seu estado de compreensão permite-lhe viver suas conquistas sem se julgar superior. Sabe o que foi e os sacrifícios que experimentou no trabalho de transformação interna, por isso vê cada um no seu verdadeiro lugar e dispensa a todos amável consideração.

Escandaliza aos outros mas não se aborrece a si mesmo.

Não interfere na experiência de ninguém, a não ser para auxiliar, havendo receptividade e ocasião conveniente.

Jamais passa por virtuoso e alardeia virtudes.

Esforçai-vos, caros irmãos, para compreenderdes vossa verdadeira natureza e vencer-vos em vossas debilidades, a fim de subirdes um pouco mais; e assim, sem os obstáculos que vos impediam de ver outras paisagens na distância, vossa visão se ampliará e iluminará, reconhecendo o engano da limitação em que viveis.

Que as pedras da ignorância ao tocarem o bronze de vossas reais qualidades soem como um sino festivo, convidando aos que despertaram para a oração do amor e da alegria.

De "Vem!...", de Cenyra Pinto

25 outubro 2009

De Retorno - Romeu A.Camargo

De Retorno

Por mais afeito esteja o aprendiz da Revelação Nova aos enunciados da fé que o reconforta e educa para a grande transição, a morte é sempre um caminho surpreendente.

Sabemos que a reencarnação nos enforma, na carne e que, antes de qualquer operação biológica no renascimento, já vivemos na pátria espiritual, quase sempre no mesmo ponto em que se verifica o nosso reingresso; entretanto, quem não experimentaria o deslumbramento do novo despertar?

O pássaro encarcerado na gaiola, em escuro porão, por muitos e muitos anos, em se vendo inesperadamente libertado, contempla os quadros da natureza livre, estuante de imenso júbilo, como se o vento e o sol, o rio e o arvoredo lhe fossem preciosas descobertas. Em verdade, sentir-se-ia enfraquecido e incapaz de sem auxílio sustentar-se na floresta enorme, viciado, como se encontra, com o alpiste e o bebedouro diariamente colocados no artificial domicílio de arame.

É o nosso caso.

Por muito que nos disponhamos a encarar, face a face, as realidades da morte, atravessamos os pórticos da vida nova, de coração aos pulos e a passos vacilantes.

A paisagem dos mundos felizes e a residência dos eleitos ficam ainda muito distantes...

A visão pormenorizada de toda a existência humana,no estado de liberdade de nosso corpo espiritual, quadro que mereceu de Bozzano apontamentos valiosos e especiais, começa por integrar-nos na posse de nós mesmos.

Enquanto a caridade dos irmãos mais velhos nos auxilia a libertação da grade orgânica do mundo, a memória como que retira da câmara cerebral, às pressas, o conjunto das imagens que gravou em si mesma, durante a permanência na carne, a fim de incorpora-las, definitivamente, aos seus arquivos eternos.

Sem a capacidade para definir o fenômeno introspectivo, devo apenas registrar a impressão de que a vida efetua um movimento de recuo, dentro de nós mesmos.

Em pensamento, voltamos da hora derradeira do envoltório somático ao berço que nos viu ressurgir na Terra e aí somos geralmente surpreendentes por extensa barragem de sombra, estabelecida pelo choque de retorno da alma às correntes da vida física, que raros espíritos desencarnados conseguem transpor de imediato.

Para mim, igualmente, o obstáculo foi dificílimo.

De peito e braços hirtos, embora os afeiçoados me certificassem dos desprendimento, aflito, mas imóvel, assisti ao desenrolar de minha existência última, com todo o séqüito de meus atos, palavras e pensamentos, como se a minha vida fosse uma película cinematográfica projetada, ao inverso, na tela de minha consciência.

Tudo claro, eficiente e rápido.

Atingido, porém, o instante exato em que reapareciam as horas da meninice, intraduzível turvação mental me absorveu o raciocínio...

Debati-me, inquieto, buscando clarear as minhas reminiscências e precisar-lhes os contornos; no entanto, incoercível vacuidade me assaltou o pensamento expectante e caí num repouso inconsciente e profundo, qual trabalhador fatigado, após longo dia de estafante labor.

Quando acordei, convenci-me de haver reconquistado o equilíbrio total.

O leito alvo, em amplo e bem arejado aposento, obrigou-me a refletir na hospitalização.

Quis movimentar-me, mas não pude.

Meu corpo me parecia chumbado ao lençol farto e macio.

Tentei erguer as mãos, no gesto instintivo do enfermo que, ávido, procura a campainha de chamada; contudo, meus braços desobedeceram, como se fossem de bronze.

Examinei a sala, assombrado.

Enquanto as paredes se achavam revestidas de uma substância acetinada, de tom róseo, o teto arqueado exibia um painel de repousante beleza, do qual sobressaía um campo de lírios prateados e abertos, proporcionando a real sensação de vitalidade e perfume.

A contemplação do quadro, que se desdobrava no alto, pareceu-me reanimar-me.

Leve sopro de renovação fortaleceu-me o íntimo.

Poderia falar? – pensei.

Que espécie de enfermidade me deprimia? Não sentia dores físicas, e, entretanto, extremo abatimento me anulava todas as forças.

Tentei gemer e consegui. O meu “ai” arfante cortou o ar em dolorido apelo.

Aproximou-se alguém, e, então, pude ver a meu lado graciosa mensageira de ternura fraterna. Indubitavelmente, seria uma colaboradora da enfermagem.

Intrigou-me sua veste, estranha para mim, mas depressa não mais liguei a essa particularidade, inebriado pelo carinho espontâneo e pela bondade sem afetação com que passou a confortar-me.

Acariciando-me a cabeça quase imóvel, chamou-me irmão e pronunciou palavras de estímulo que me aliviaram todo o ser.

O contacto daquela mão de enfermeira, tocada de boa-vontade, parecia inocular-me fluidos revigorantes.

Noutra ocasião, talvez eu não tivesse notado, mas, agora, surpreendia em mim, sem dúvida em razão de meu pronunciado enfraquecimento, certa receptividade magnética que, em outras circunstâncias, me passaria despercebida.

Reconheci essa minha virtude, reparando que a jovem assistente projetava sobre mim, intencionalmente ou não, copiosa chuva de forças reconfortantes que eu, num impulso firme de vontade, procurava acumular na região da voz, tentando a fala.

A intimidade com a literatura espiritualista me favorecia as operações naturais do pensamento.

Doente e enfraquecido qual me achava, não seria justo aproveitar as energias que me repassavam o campo orgânico?

Sendo a vontade o elemento determinador nos fenômenos magnéticos, não poderia, de minha parte, valer-me dela na aquisição de recursos com que me fosse possível rearticular a palavra?

Desejei, então, instintivamente, transformar a garganta num aspirador vigoroso para fixar as energias flutuantes em minhas cordas vocais.

Iniciei o exercício silencioso e recebi a impressão nítida de que os fluidos emitidos pela enfermeira se condensaram no ponto indicado por minha mente e, findos alguns instantes de expectação, meus lábios se moveram e as palavras surgiram entrecortadas.

- Minha irmã – indaguei, com dificuldade -, onde estou? Que aconteceu?

- A interpelada, muito gentil, declarou que eu me achava abatido e aconselhou-me serenidade.

Perguntei pelos meus familiares, pelos amigos, pelo médico da casa e pelas drogas que deveria tomar, melhorando o timbre de voz à proporção que me adiantava na experiência nova.

A jovem sorriu e informou:

- Chamarei o amigo que o aguarda na ante-sala. É companheiro que lhe espera o despertar.

Retirou-se, lépida, e percebi que minha resistência decresceu.

Agora, sozinho, experimentei monologar, mas não fui além de algumas frases que para outros seriam ininteligíveis.

O abatimento quase completo voltou a imperar sobre mim.

Decorridos alguns minutos, regressava, a jovem, fazendo-se acompanhada de alguém.

Era um cavalheiro maduro, alto, de rosto pletórico, corpo bem fornido e passo firme.

Abeirou-se de mim com simpatia, e, quando aplicou a destra sobre a minha fronte, renovei o processo mental de absorção da força que ele me trazia e o meu revigoramento não se fez esperar.

Pousei nele os olhos, agora mais seguros, e reconheci-o. Confrangeu-se-me o coração no peito. Era Lameira de Andrade.

Até ali me sentia tão naturalmente instalado naquela casa como se estivesse num hospital terrestre comum, julgando-me reintegrado no aparelho físico; mas... e a presença de Lameira que eu sabia desencarnado desde muito?!...

Refleti na possibilidade de estar sendo agraciado por dons mediúnicos e dirigi-me a ele, tentando tranqüilizar-me:

- Obrigado, meu irmão, obrigado!... Não contava com uma clarividência, tão avançada...

O visitante ouviu-me as frases “impronunciadas”, sorriu, franco, e acrescentou:

- Você já dormiu bastante e deve sabe-lo. Acha-se num hospital de emergência. Você, Romeu, está desencarnado.

A inopinada revelação me golpeou profundamente.

O coração, como se fora lançado por invisível chicote, bateu precipite no tórax. Aturdi-me. Apalpei o leito, as vestes, a mim mesmo: tudo tangível, adensado, concreto.

Intraduzível sensação de asfixia começou a entontecer-me, experimentando eu o mal-estar da criatura encarnada ao sentir o sangue afluir-lhe à cabeça.

Aflitivas perguntas vagavam em meu ser.

Como teria sido aquilo? E meus interesses na Terra? meus serviços inacabados?

A sumária declaração do companheiro perturbara-me.

Recordei a desenvoltura com que nos habituamos a doutrinar os irmãos desencarnados na experiência comum, e somente aí senti brotar em meu íntimo a verdadeira piedade por todos os que são arrebatados à realidade da morte, na ignorância do além.

Lameira percebeu-me o constrangimento e informou, prestativo:

- Meu caro, com a transição pelo túmulo nada se acaba, mas tudo se modifica, se nos achamos efetivamente empenhados no verdadeiro aperfeiçoamento. Agora, as oportunidades são outras; as do mundo foram interrompidas. O que você fez está feito.

Talvez porque meus olhos se nublassem de prato, aditou em voz firme:

- Não cultive qualquer estado mental deprimente. Onde a matéria é mais leve, a vibração espiritual é mais importante.

Lembrei-me de antigos estudos e esforcei-me.

Logrei concentrar, de novo, as minhas energias e, ais confortado, perguntei por meus familiares de outro tempo, estranhando não me houvesse recebido ali, no recomeço da vida nova.

Com a mesma calma, o prestimoso companheiro explicou, delicadamente:

- Nem todos podem retornar, com o êxito desejável, à comunhão com o círculo doméstico. Há emoções violentas que nos prejudicam, sem que apercebamos isso. A planta frágil exige proteção. Adaptação e crescimento são imperativos artigos da Lei. Espere.

E contou que inúmeros irmãos desprevenidos, quando se rebelam contra o socorro assistencial de que me via rodeado, são naturalmente atraídos para velhos círculos de luta, escravizando-se a sensações que não mais se justificam, e passando a viver em longo processo de vampirismo natural.

A palestra do amigo, reportando-se a paisagens sombrias e a almas atormentadas, quando me afligiam os meus próprios cuidados, acabou por levar-me a indefinível abatimento.

Assaltou-me a dispnéia dos asmáticos.

Lameira compreendeu tudo, silenciou como quem ora sem palavras e começou a aplicar-me passes na região do baço. Vi-lhe as mãos, despedindo brilhantes raios róseos, arrancando, ao contato de minha epiderme, fios tênues de uma substância azul-violácea.

Pouco a pouco, reparei que forças novas me invadiam, como se eu fora emperrada máquina repentinamente lubrificada e restituída, com êxito, às suas funções normais.

Terminada a intervenção magnética e surpreendido ante o milagroso efeito, pude sentar-me, amparando-me nos braços do amigo que se acomodou ao meu lado, com o sorriso do colaborador vitorioso e feliz.

- Aqui – esclareceu, bondoso -, o passe é uma transfusão de energias, com resultados imediatos, quase milagrosos.

E porque eu indagasse sobre o tempo em que me cabia esperar a restauração, plena, ponderou:

- Romeu, em nossas atividades comuns na Terra, clareamos a vida, mas somente por fora; com a lâmpada sublime dos conhecimentos espiritualistas e, da existência tiramos todos os proveitos, assim como o pomicultor avarento ou ignorante colhe os frutos da árvore sem lhe auscultar as necessidades e sem sequer uma nota de reconhecimento aos serviços que ela lhe presta, supondo-se o credor absoluto de suas vantagens preciosas. É assim, meu amigo, que desencarnamos... Tão plenos de confiança no Céu, quanto vivíamos alvoroçados com as revelações na Terra, mas vazios de espiritualidade santificante.

Fez breve pausa, como se quisesse dar algum repouso à minha atenção, e prosseguiu:

- E por mostrarmos aqui o que realmente somos, bastas vezes não passamos de mendigos ou de cegos, com o poder de pronunciar lindas palavras, mas sem irradiar ondas de simpatia ou de edificação aos outros seres. Na esfera que deixamos para trás, usávamos o corpo denso quase sempre sem lhe analisar a grandeza; o coração, o cérebro, os pulmões, o fígado, o baço, os rins, sustentados por glândulas de recursos sutis, não vivem à mostra, no veículo que baldeamos no túmulo, como trapo velho; e, no entanto, desempenham funções básicas em nossa comunhão com os ensinamentos preciosos do plano carnal. Valemo-nos desses órgãos quase sem nenhuma consideração para com os reais benefícios que nos prestam; e, se algum dia nos recordamos deles, é, com freqüência, quando destrambelham, irritados ou enfermos, geralmente por nossa própria culpa. Em muitas ocasiões, antes dos quarenta anos de idade, no corpo físico, desequilibramos o aparelho circulatório, impondo-lhe comoções violentas da nossa cólera destrutiva, viciamos as células cerebrais com o provocar e manter pensamentos perturbadores, ulceramos o estômago, ingurgitamos o fígado ou obstruímos os rins com alimentação imprópria, ou com tóxicos vários, despendendo anos e anos em reparos do carro físico, os quais nem sempre se levam a termo por nos surpreender a morte antes do integral reajustamento.

As elucidações pareciam impregnadas de virtudes calmantes para as minhas chagas mentais, porque, enquanto eu lhes dedicava a minha atenção, doce alívio me penetrava...

Lameira interrompeu-se, fitou-me longamente e, como se quisesse imprimir maior significação às palavras, modificou o tom de voz, prosseguindo, delicado:

- Imagine semelhante situação aplicada à nossa alma. Nosso corpo espiritual encerra também potentes núcleos de energia, que, entretanto, não vivem expostos à visão externa, qual acontece ao veículo de carne. São centros de força, destinados à absorção e à transmissão de poderes divinos, quando conseguimos harmoniza-los com as grandes leis da vida. Localizam-se nas regiões do cérebro, do coração, da laringe, do baço e do baixo-ventre. Não importa que a ciência do mundo os desconheça por enquanto. O conhecimento humano avança por longos e pedregosos trilhos. A circulação do sangue e a nutrição das células só agora vão recebendo alguma claridade nas observações cotidianas, e os processos da geração constituem ainda quase um enigma para os investigadores da vida renascente. Não é de estranhar, portanto, que a inteligência mediana da Terra ainda ignore o profundo e complexo mecanismo da alma.

Percebeu Lameira a imensa atenção com que lhe seguia as palavras e, provavelmente condoído de minha prostração, acentuou:

- Aliás, quero esclarecer-lhe que, com esta minha minuciosa explicação, desejo apenas salientar que raramente desencarnamos em condições satisfatórias. À proporção que nos desenvolvemos em conhecimento, cresce nossa capacidade de pensar, e quem pensa gera determinadas forças e as irradia. Para estilo mais conciso, recorramos à simbologia, sempre valiosa em qualquer lição. Imaginemos o fruto verde e o fruto maduro. O primeiro denominar-se-á em longo estádio preparatório, elaborando a polpa, ainda sem expressão de utilidade: o segundo já se oferece pronto a quantos queiram aproveitar-lhe a carne a renovar-lhe as virtudes na sementeira, ou em benefício de seres inferiores que vivem na terra. A imagem é pálida e insuficiente, mas serve para confronto rudimentar. Enquanto a mente da criatura transita nas zonas selvagens, sob os fluídos condensados da carne, ou sem eles, não possui recursos de autoprojeção, em face do circulo restrito em que vibra; mas, se nossa razão amadurece, o campo do pensamento se alarga a distância nossa influência individual. É natural que a força emitida nos alcance em primeiro lugar. Se o benfeitor é o primeiro a envolver-se nas irradiações do bem que produz, o homem incauto, que despede as negras correntes do mal, é também o primeiro a sofrer-lhes o efeito. Assim é que, muito especialmente depois da morte, temos nossa organização espiritual ligada às nossas próprias criações. Quase sempre, acordamos com os centros de força viciados pelos quadros mentais a que por muitos e muitos anos demos origem e sustento. As possibilidades de imaginar e de desejar aumentam-nos a responsabilidade. Somos, na Terra, dentro da esfera da razão, frutos amadurecidos que, sem proveito integral para os demais, em vista de nossa constante fuga ao trabalho, nos intoxicamos, dando pasto a elementos viciosos que deveríamos reconhecer incompatíveis com a nossa atual posição. Dispondo de tantos recursos de serviço, sem a devida aplicação, assemelhamo-nos também, de algum modo, ao poço de águas estagnadas, que desenvolve microorganismos prejudiciais, ao invés de semear benefícios, e somos habitualmente surpreendidos pela morte nessa inconveniente situação. Os grandes ensinamentos das religiões são fórmulas que, aplicadas nas experiências de cada dia, operam a higiene e a iluminação de nossa alma, rumo aos degraus superiores. Todavia, enquanto permanecemos no corpo, infinita é a nossa distorção. Invariavelmente dispostos a ensinar o bom caminho aos outros, dele nos afastamos, sempre que a virtude nos peça algo contra os nossos desejos.

Valendo-me da pausa natural de sua palavra carinhosa e fluente, arrisquei:

- Quer dizer então que...

Lameira não me deixou terminar.

Tornando à frase convincente, esclareceu...

- Quer dizer que para cá voltamos à semelhança de máquinas desarranjadas à oficina. Vícios do pensamento, inclinações nocivas não combatidas, desequilíbrios nervosos não extintos, sentimentos de culpa imanifestos, hábitos deprimentes, impulsos não educados, excessivo apego a objetos, situações e paisagens materiais ainda arraigados, acidentes íntimos de mágoa, ou de revolta, paixões ocultas, e verdadeira mole de outros fenômenos corruptores do sentimento – nos obrigam a lamentável demora na viagem, constrangendo-nos à perda de muito tempo que poderia ser utilizado em nossa própria ascensão.

Notando-me a expressão de amargura no olhar inquiridor, prosseguiu, comovido:

- Não acredite seja você o único a experimentar as dificuldades do ressurgimento. Lutei muito, por minha vez, e ainda me encontro em reajuste, satisfazendo certos compromissos que, desprevenido, assumi. Somos extensa fileira de trabalhadores em transição. Nem na extrema vanguarda, nem de todo para trás. Muitíssimos anos exige a obra da restauração, e nem poderia ser de outro modo. Ainda assim, meu amigo, cabe-nos render graças a Deus, porque milhões de pessoas, embora já sem o veículo de carne, permanecem aferradas à matéria, com o risco de maiores desilusões para a necessária libertação.

Tais instruções calaram-me fundamente no espírito.

Recordei a leitura das mensagens e dos apontamentos de André Luiz e conclui, pela experiência direta, que enfrentava, por minha vez, os duros tempos do conserto próprio.

Desdobraram-se os dias entre a aflição e a saudade, amenizadas, de alguma sorte, pelas novas amizades que me floriram a estrada de alegrias surpreendentes.

Lameira foi para mim um cicerone bondoso e um amigo vigilante.

Pouco a pouco, reconheci que recebemos do Além o que realmente criamos para nós mesmos, em contato com as criaturas.

Tudo o que é nosso em nós demora.

O amor encontra, depois da morte, aqueles a quem se consagra ou aquilo a que se devotou.

O ódio convive com as imagens horrendas que para si mesmo gerou e das quais se alimenta.

É assim que me restauro; e, guardando intacto o velho ideal de aprender e servir, no trabalho de engrandecimento da vida imperecível, eis-me de retorno aos companheiros de luta, oferecendo-lhes o relatório de minhas surpresas iniciais na Espiritualidade. Saibam, destarte, que o corpo de sangue e ossos é simplesmente uma sombra da nossa entidade real e que todas as nossas virtudes ou vícios a nós se atrelam na Terra; pelo que, cada qual depende o caminho aberto ou o desfiladeiro sombrio na sublime romagem para a Luz.

Por: Romeu A.Camargo
Do livro: Falando à Terra,
Médium: Francisco Candido Xavier – Espíritos Diversos

24 outubro 2009

Voltando - Fernando de Lacerda

Voltando

recioso é o sofrimento, na floresta humana, para rasgar alguma clareza amiga por onde a luz possa penetrar nas furnas da sombra; contudo, ainda não me refiz totalmente dos choques trazidos daí, depois de minha consagração à mediunidade, por alguns anos.

Tive a felicidade de transmitir aos meus contemporâneos as notícias de vários pensadores e literatos redivivos, incorporando-as ao Espiritismo luso-brasileiro, qual o telegrafista postado à ponta do fio estendido entre os dois mundos; entretanto, guardo ainda bem vivas as marcas do sarcasmo e da perseguição que o serviço me valeu, por parte de muitas personalidades importantes, já agora recambiadas para cá, onde não mais se dispõem ao mau gosto de escarnecer a verdade.

Não é fácil entregar certas mensagens a destinatários que se voltam contra elas.

Por mais que se identifique o portador, através de palavras e atitudes a lhe positivarem a idoneidade moral, há sempre recursos multiplicados para evasivas.

Se a tarefa mediúnica representasse um manancial de ouro e de prazeres imediatos no currículo da carne, acredito que o povo se congregaria em massa, ao ruído de foguetes e ao som festivo de filarmônicas para recebê-la. O emissário da realidade, porém, não dispõe senão de palavras e de emoções para distribuir, apelando para realizações e louros, que quase toda a gente considera remotos ou inaceitáveis.

Raríssimas pessoas admitem a medicina preventiva. A maioria espera que a doença lhe desordene os nervos ou lhe apodreça a carne para se resolver, pondo a boca no mundo, a procurar clínicos ou cirurgiões.

Muito poucos, na atividade usual da Terra, se inclinam ao socorro da medicação religiosa. Detidos temporariamente nas ilusões do império celular, que se desmorona no sepulcro, passam por aí distraídos, no que tange aos interesses do espírito eterno.

Na morte, sim. Exasperam-se e choram até à prostração, lastimando-se, contudo, algo tarde. Não porque alguma vez lhes faltasse – como a ninguém falta – a Compaixão Divina: a paciência do Pai é inexaurível. É que se postergam, nas circunstâncias da luta terrena e nos quadros da parentela consangüínea, as valiosas oportunidades de mais amplo serviço.

O ensejo de aprender, corrigir, restaurar e auxiliar é indefinidamente adiado.

Indispensável se torna aguardar outra época, outros meios e reajustes.

O chamado “homem prático” ainda se assemelha, em diversas tendências, aos seres rudimentares do mundo, vivamente apaixonados pelas bactérias do solo e indiferentes à claridade solar.

Por esta razão, o serviço da mediunidade, por agora, ainda não é apetecível tentame para mim.

Compreendo que é preciso amargurar-se alguém para que outrem se alegre. Curte o cascalho a provação da fealdade, mas vive na alegria de fornecer o ouro precioso. Para nutrir-se, a célula física ainda exige no mundo a existência do matadouro. O que, no entanto, me estarrece não é o sacrifício de um homem pela melhoria dos semelhante: é a indiferença das criaturas pensantes e responsáveis, diante da ternura e da renunciação dos amigos de além-mundo.

O enrijecimento e a impermeabilidade das inteligências encarnadas, com reduzidas exceções, só os podem corrigir a dedicação e o carinho dos Espíritos Superiores.

Muitas vezes aí observei a deplorável paga do bem pela ingratidão, a revolta e a vaidade a troco da humildade e da ternura.

Que sempre houve muita gente preocupada em ouvir os desencarnados não padece dúvida; mas pessoas realmente interessadas na verdade jamais encontrei, exceção feita de alguns raros amigos, considerados banzos e loucos, quanto eu mesmo o fui.

As entidades comunicantes por meu intermédio eram admiradas, ou suportadas, sempre que lisonjeassem, confortassem ou distraíssem; mas quando tangiam as cordas da realidade no mágico instrumento da palavra, convertiam-se em demônios de mistificação ou de inconveniência.

Entre máscaras e almas, vivi perplexo e atenazado por interrogações e decepções contundentes.

Daí, talvez, a exaustão que me colheu, de súbito, em plena luta.

Meu cérebro era uma trincheira sob contínuas investidas.

De obstáculo em obstáculo, caí sobre as pedras do meu caminho, minado por intraduzível esgotamento.

Alguns companheiros verificaram, em meu drama doloroso na casa de saúde, a falência de minhas faculdades, acreditando-me desprezado pelos amigos espirituais. Na verdade, porém, os mensageiros da luz não me haviam abandonado. Quando se inutiliza o filamento frágil de uma lâmpada, assim fazendo o aposento às escuras, isso não quer dizer que a usina geradora de força houvesse deixado de existir. Os vexilários da causa de Jesus eram excessivamente bondosos para não desculparem a insignificância e a pobreza do amigo que lhes acompanhava as pegadas na romagem difícil.

Ainda que me fosse dado cumprir todos os deveres que a mediunidade me indicava ou impunha, sentir-me-ia efetivamente pequenino e derrotado perante a magnitude da idéia que me cabia servir.

Creia, porém, que a minha desencarnação, em dificuldades prementes, depois de haver conquistado vasta corte de amizades e relações em Portugal e no Brasil, traz-me à lembrança curiosa narrativa de um amigo, a propósito de esquecido adivinho do povo de Israel.

Ao tempo dos Juízes, apareceu um homem inteligente e prestativo nas cercanias de Jerusalém, que era procurado por centenas de pessoas todas as semanas. Sacerdotes e instrutores, políticos e negociantes, cavalheiros e damas de prol vinham ouvir-lhe a palavra inspirada e reveladora.

Tamanha era a movimentação popular, ao redor dele, que de maneira nenhuma lhe era permitido cuidar do seu interesse e sustento. Mal conseguia repousar, apenas algumas horas escassas, quando a noite adormentava os inquietos consulentes de toda parte.

E os grandes homens da raça, porque se sentissem na presença de missionários incomum, começaram a encher-lhe o nome de títulos imponentes e a enfeitar-lhe o peito com medalhas diversas. Era considerado o mensageiro de Jeová, o sucessor de Moisés, o profeta dos profetas, o emissário da verdade, o revelador do oculto, o médico infalível e o sábio protetor do povo.

Rara a semana em que solene comissão não lhe procurasse o lar, trazendo-lhe novas comendas e homenagens, papiros comovedores e honrosas felicitações.

O mago maravilhoso e incompreendido, sorridente e valoroso, definhava, incapaz de uma reação, parecendo cada vez mais pálido e abatido, até que, um dia, foi encontrado morto em seu singelo montão de palha.

Ante os clamores públicos, um médico foi chamado à pressa, a fim de verificar o acontecimento, certificando, com facilidade, que o glorioso filho de Israel morrera de fome.

Reuniu-se o conselho do Povo Escolhido, com veneráveis solenidades, e, depois de acalorados debates, concluíram os conspícuos maiorais de Jerusalém que o famoso adivinho falecera em tão deploráveis circunstâncias, em virtude de provação determinadas pelo Divino Poder.

E todos esqueceram a singular personagem, guardando a consciência tranqüila, tanto quanto lhes era possível.

Não desejo com a presente história constituir-me advogado em causa própria. Cada qual principia a tarefa que lhe cabe entre os homens e termina os serviços que lhe compete, de conformidade com os seus merecimentos.

O problema do médium, no entanto, é questão fundamental no Cristianismo renascente.

Em quase toda parte há uma tendência positiva para a fiscalização ou para tomar conta da criatura que as circunstâncias apresentam por veículo de comunicação entre os dois planos. Raros medianeiros, por isso, terminaram o ministério com a galhardia e a segurança que deles se deveria esperar. Logo depois de encetada a marcha, retornam aos pontos de origem ou se perdem nos vastos espinheiros da desilusão, após tentarem a fuga do caminho reto, atendendo às sugestões das zonas inferiores.

Mas, se é justo dar onde exigimos, se é imperioso auxiliar onde somos auxiliados, se protegemos o canteiro de legumes para que estes nos não faltem à mesa, se providenciamos a devida instrução para o moço de recados que desejamos converter em colaborador do escritório, por que motivo negar a piedade e o estímulo ao companheiro que se transforma em cooperador de nossa alegria e elevação na senda do espírito?

Até que o avanço moral do Planeta possibilite equações definitivas da ciência, no terreno da sobrevivência e da intervenção das almas desencarnadas no círculo terrestre, o médium será a “cabeça de ponte” do mundo espiritual entre os homens, solicitando compreensão, solidariedade e incentivo para funcionar com a eficiência precisa.

A questão é, pois, das mais delicadas. Como será resolvida, não sei.

É assunto, porém, de imediato interesse para o ideal que esposamos e para a coletividade a que servirmos, achando-se naturalmente sob a responsabilidade dos homens encarnados, que para ele necessitam voltar olhos amigos.

Deus dá a semente e o clima, a água e o solo; quem dirige, porém, o arado e sustenta a lavoura, esse é o próprio homem, herdeiro e usufrutuário dos benefícios da Terra.

Que o Céu nos ajude a vencer as dificuldades, a fim de que a evolução permaneça baseado nas palavras do Senhor; “misericórdia quero e não sacrifício”.

Por: Fernando de Lacerda
Do livro: Falando à Terra,
Médium: Francisco Cândido Xavier

23 outubro 2009

Sofrimentos Morais - Manoel Philomeno de Miranda

Sofrimentos Morais

A simples desencarnação de forma alguma liberta o Espírito dos seus hábitos e necessidades até então cultivados.

Impregnado pelas sensações em que se demorou, quando interrompidos os vínculos carnais permanecem os mesmos condicionamentos impondo-se como expressões que exigem atenção e cuidados.

Sensibilizado pelos impositivos que lhe constituíam recurso vital para a fixação no corpo, o perispírito continua canalizando para o ser espiritual os conteúdos que proporcionam alegria ou dor, conforme o teor vibratório de que são formados.

Os vícios mentais, os hábitos orgânicos e sociais, as ações desenvolvidas são elementos que nessa fase somatizam às impressões vigorosas nas tecelagens delicadas do Espírito, transformando-se em sensações e emoções correspondentes.

Algumas são tão fortes que se fazem correspondentes às físicas anteriormente vivenciadas, transformando-se em bênção, quando elevadas, ou incomparável suplício, se formadas por energias deletérias.

Convertendo-se em necessidades, impõem atendimento orgânico, como se a argamassa fisiológica se mantivesse em funcionamento.

Como é compreensível, o interromper de um hábito qualquer por circunstância não elegida, não consegue anular-lhe o condicionamento, particularmente se for

acolhido por largo período, no qual a pessoa se comprazia, centrando os interesses mentais e emocionais no seu desfrutar.

Transformando-se em martírio que não diminui de intensidade, em razão da carência não atendida, inflige sofrimentos morais de difícil definição.

Somem-se a essas sensações as ânsias, mágoas, angústias e o despertar da consciência, que faculta a avaliação das experiências fracassadas e torna-se volumoso o fadário que enlouquece muitos recém-desencarnados.

A autoconsciência é responsável pela ressurreição de fantasmas que pareciam extintos ou esquecidos, mas que nessa hora ressumam dos refolhos do inconsciente, assumindo forma e tomando força, transformando-se em algozes implacáveis, cujas aflições impostas se caracterizam pelo superlativo.

A descoberta do tempo malbaratado, a constatação dos erros e delitos perpetrados, o arrependimento tardio formam componentes punitivos que camartelam o ser espiritual, transformando-o.

Todos os sofrimentos são dilaceradores das carnes da alma, no entanto, aqueles de natureza moral são mais severos, porque ínsitos no âmago do ser não dão trégua a quem os padece.

Sem o costume salutar da oração lenificadora, nem da meditação saudável, a vítima de si mesma não encontra conforto para minimizar-lhes a intensidade, entregando-se à degradação da revolta ou ao abandono na agonia com que mais se agravam as aflições íntimas. Estorcegam então, sem consolo moral, atirando-se pelos resvaladouros da rebeldia e da blasfêmia, exaurindo-se e desfalecendo, para logo retornarem sob a mesma carga aflitiva de intérmina duração...

Tal ocorrência tem lugar, porque ninguém foge da sua realidade interior.

Desalojado o Espírito do domicílio celular, prossegue como antes, com a diferença exclusiva de encontrar-se desvestido da couraça orgânica.

Todos o seus valores permanecem inalterados, assim como os seus desejos e vinculações.

A frustração amarga por não poder administrar a máquina atual conforme o fazia com a orgânica, exaspera e alucina.

A nova dimensão para a qual se transferiu mediante a morte do corpo tem as suas próprias leis e constituição que não se alteram quando enfrentadas ou agredidas pelos que a alcançam.

O ser humano é essencialmente o conjunto dos seus hábitos mentais e contingências deles decorrentes.

Transferindo-se de habitat não se libera das condições a que se submetia, antes condu-las, e mais lhes sente a pressão em face do novo campo vibratório em que se encontra.

As dores morais no além-túmulo são uma realidade muito significativa, como sucede em relação à felicidade, à alegria, ao bem-estar, à paz, para aqueles Espíritos que se conduziram na Terra com retidão, equilíbrio, lucidez, abnegação.

Com admirável coerência, acentuou Jesus: — A cada um conforme as suas obras.

A morte, portanto, é a grande desveladora da realidade para todos quantos se encontram em trânsito pela névoa carnal, rumando, mesmo que sem se dar conta, para a Vida plena.

Alargar os horizontes mentais para a contemplação da madrugada imortal deve ser o compromisso de todos os seres humanos, mediante a vivência do dever reto, da consciência digna e dos pensamentos saudáveis.

Por: Manoel Philomeno de Miranda
Médium: Divaldo Pereira Franco,
página psicografada em 26-7-1999,
no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador-BA

22 outubro 2009

Buscai a Verdade e a Liberdade - Caibar Schutel

BUSCAI A VERDADE E A LIBERDADE

"Jesus disse aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos; e conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará". (João, VIII, 31-32)

O homem é um ser dotado de razão e de sentimento. São estes os dois pólos da Vida Psíquica através da qual se realça o eixo do ideal mantenedor da evolução gradativa do Espírito!

O homem é um ser polarizado pelo raciocínio e vivificado por sentimentos de virtude, por afetos que o prendem à Fraternidade e só quando usa esses atributos em busca da Verdade, ergue-se, dignifica-se, eleva-se e santifica-se.

Fora dessa esfera de ação e de educação o homem é besta! Besta porque não sente, besta porque não pensa!

Pensar é existir; assimilar afeições, virtudes, amor; é viver: Cogito, ergo sum!, "Penso, logo existo!"

Há homens que pensam; há homens que sentem; uns e outros estão nos primórdios da vida. É preciso, entretanto, que o pensar seja acompanhado do sentir, porque o pensar sem o sentir, o sentir sem o pensar, são faculdades abstratas que encaminham, a alma para o grande ideal, mas não o libertam completamente da ignorância e do atraso.

Na alma livre o pensar se completa com o sentir, e o sentir, com o pensar, porque a Verdade não teme o erro, a luz não pode ser absorvida pelas trevas.

Todos os grandes pensamentos só podem ser assimilados depois de sentidos, e todos os nobres sentimentos só podem ser compreendidos depois de pensados.

Quando Descartes proclamou: Cogito, ergo sum, não só pensou, como sentiu; pensou existir e sentiu a vida em si próprio.

A compreensão não vem só do raciocínio, mas do raciocínio aliado ao sentimento: são estes os dois grandes faróis luzentes da Estrada da Vida.

Abri clareiras ao vosso entendimento pelo raciocínio; alargai as esferas do sentimento; não vos atemorizeis ante as alturas e longitudes, porque a águia e o condor não transpõem o círculo do seu vôo; os pássaros têm os seus limites nos ares!

Homens! Voai, desprendei-vos da escuridão da ignorância que cerceia a vossa inteligência e vos ata a pesados dogmas!

Voai! Daí expansão à vossa razão, deixai palpitar os vossos corações aos generosos sentimentos para ascenderdes às esferas da Ciência e do Amor, onde a Verdade brilha com todos os seus esplendores!

Lembrai-vos, ó homem! Que sois dotado de razão e sentimento!

Buscai a Palavra de Jesus, permanecei na sua palavra, sede verdadeiramente seus discípulos, e "conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará"!

Do livro "Parábolas e Ensinos de Jesus",
de Cairbar Schutel

21 outubro 2009

A Prova da Riqueza - Cairbar Schutel

A PROVA DA RIQUEZA

"Jesus olhando ao redor de si disse: Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas! Os discípulos ficaram surpreendidos com estas palavras. Mas Jesus tornou a dizer-lhes:
Filhos, quão difícil é entrar no Reino de Deus os que confiam nas riquezas! É mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus. E eles ficaram sobremaneira admirados, dizendo entre si: Quem pode então ser salvo? Jesus olhando para eles, disse: Aos homens é isto impossível, mas a Deus, não; Porque a Deus tudo é possível." (Marcos, X, 23-27)

A opulência tem as suas virtudes, os seus feitos gloriosos, mas são grandes os escolhos dos que se acham na opulência.

Espíritos predestinados, talvez para concorrerem com maior soma de benefícios para o engrandecimento material, moral e espiritual de seus irmãos, eles, as mais das vezes, se esquecem da missão que
vieram desempenhar.

O orgulho insuflado pelos bajuladores, pelos servis, que não conhecem outro deus que o do ouro, tem transviado muitas almas, conduzindo-as a rudes e penosas provações, pelo mau emprego da fortuna que o Criador lhes concedeu para o seu aperfeiçoamento e o aperfeiçoamento de seus semelhantes.

O homem rico tem mais dificuldades a vencer que o pobre.
Além de tratar de si e dos seus, além de procurar manter as exigências sociais, além de estudar e estudar muito porque dispõe de mais tempo que o pobre, ainda lhe cabe o dever restrito de exercer a Caridade, quer socorrendo os necessitados do corpo, quer ensinando os ignorantes, dirigindo a todos palavras de conforto, de coragem, de resignação.

Deus não condena a riqueza e ninguém é condenado por ser rico.

O que Deus condena é o mau uso que se faz da fortuna.

"Como é difícil entrar um rico no Reino dos Céus! É mais fácil - disse Jesus - passar um camelo pelo fundo duma agulha que um rico se salvar."

Esta sentença do Mestre vem em apoio das provas por que passam aqueles que pedirem bens de fortuna para se lhes oferecer ocasião de mais benefícios prestarem a seu próximo, e, portanto, progredirem mais rapidamente. E basta ler em O Céu e o Inferno, de Allan Kardec, a comunicação do Espírito da Condessa Paula, desencarnada em 1851, para ver que o dinheiro é também um poderoso auxiliar para conquistarmos a fortuna imperecível que os ladrões não roubam, as traças não roem e a ferrugem não consome.

Aqueles que pediram pobreza, porque não se julgaram à altura de desempenhar os deveres impostos pela riqueza, devem manter a coragem e resignação, pois a verdadeira fortuna é a que nos proporcionam as virtudes que praticamos e das quais nos cercamos.

Aos ricos, repetimos que o último trecho da comunicação da Condessa Paula:

"E vós ricos, tendes sempre em mente que a verdadeira fortuna, a fortuna imorredoura, não existe na Terra; procurai antes saber o preço pelo qual podeis alcançar os benefícios do Todo
Poderoso."

De "Parábolas e Ensinos de Jesus",
de Cairbar Schutel

20 outubro 2009

Visão Espiritual de um Centro Espírita - Eugênio S.Vitor

Visão Espiritual de um Centro Espírita

...Satisfazendo, porém, ao nosso objetivo essencial, aproveitaremos os minutos de que dispomos para falar-lhes, de algum modo, acerca da tela de nossas atividades.

Qual ocorre aos demais santuários de nossa fé, orientados pelo devotamento ao bem, junto aos quais o Plano Superior mantém operosas e abnegadas equipes de assistência, nossa casa, consagrada à Espiritualidade, é hoje um pequeno mas expressivo porto de auxílio, erigido à feição de pronto socorro.

Com a supervisão e cooperação de vasto corpo de colaboradores em que se integram, médicos e religiosos, inclusive sacerdotes católicos, ministros evangélicos e médiuns espíritas já desencarnados, além de magnetizadores, enfermeiros, guardas e padioleiros, temos aqui diversificadas tarefas de natureza permanente.

Nossa reunião está garantida por três faixas magnéticas protetoras.

A primeira guarda a assembléia constituída e aqueles desencarnados que se lhes conjugam à tarefa da noite.

A segunda faixa encerra um círculo maior, no qual se aglomeram algumas dezenas de companheiros daqui ainda em posição de necessidade, à cata de socorro e esclarecimento.

A terceira, mais vasta, circunda o edifício, com a vigilância de sentinelas eficientes, porque além dela temos uma turba compacta – a turba dos irmãos que ainda não podem partilhar, de maneira mais íntima, o nosso esforço no aprendizado evangélico. Essa multidão assemelha-se à que vemos, freqüentemente, diante dos templos católicos, espíritas ou protestantes com incapacidade provisória de participação no culto da fé.

Bem junto à direção de nossas atividades, está reunida grande parte da equipe de funcionários espirituais que nos preservam as linhas magnéticas defensivas.

À frente da mesa orientadora, congregam-se os companheiros em luta a que nos referimos.

E em contraposição com a porta de acesso ao recinto, dispomos em ação de dois gabinetes, com leitos de socorro nos quais se alonga o serviço assistencial.

Entre os dois, instala-se grande rede eletrônica de contenção, destinada ao amparo e controle dos desencarnados rebeldes ou recalcitrantes, rede essa que é um exemplar das muitas que, da vida espiritual, inspiraram a medicina moderna no tratamento pelo eletrochoque.

E assim organiza-se nossa casa para desenvolver a obra fraterna em que se empenha, em favor dos companheiros que não encontraram, depois da morte, senão as suas próprias perturbações.

Assinalando, de maneira fugacíssima, o setor de nossa movimentação, devemos recordar que, acima da crosta terrestre comum, temos uma cinta atmosférica que classificamos por “cinta densa”, com a profundidade aproximada de 50 quilômetros, e, além dela, possuímos a “cinta leve”, com a profundidade aproximada de 950 quilômetros, somando mil quilômetros acima da esfera em que vocês presentemente respiram.

Nesse grande mundo aéreo, encontramos múltiplos exemplares de almas desencarnadas, junto de variadas espécies de criaturas sub-humanas, em desenvolvimento mental no rumo da Humanidade.

Milhões de Espíritos alimentam-se da atmosfera terrestre, demorando-se, por vezes, muito tempo, na contemplação íntima de suas próprias visões e criações, nas quais habitualmente se imobilizam, à maneira da alga marinha que nutre a si mesma, absorvendo os princípios do mar.

Eugênio S. Vitor
Do livro: Relicário de Luz,
Médium: Francisco Cândido Xavier

19 outubro 2009

A Palavra de Jesus - Meimei

A PALAVRA DE JESUS
Reunião de 6/10/1985

Na parte final de nossas tarefas, tivemos a alegria de ouvir Meimei, a nossa abnegada irmã de sempre, que nos falou, comovida, sobre a palavra de Jesus.

Meus irmãos.

Deus nos abençoe.

A palavra do Cristo é a luz acesa para encontrarmos na sombra terrestre, em cada minuto da vida, o ensejo divino de nossa construção espiritual.

Erguendo-a, vemos o milagre do pão que, pela fraternidade, em nós se transforma, na boca faminta, em felicidade para nós mesmos.

Irradiando-a, descobrimos que a tolerância por nós exercida se converte nos semelhantes em simpatia a nosso favor.

Distribuindo-a, observamos que o consolo e a esperança, o carinho e a bondade, veiculados por nossas atitudes e por nossas mãos, no socorro aos companheiros mais ignorantes e mais fracos, neles se revelam por bênçãos de alegria, felicitando-nos a estrada.

Geme a Terra, sob o pedregulho imenso que lhe atapeta os caminhos...

Sofre o homem sob o fardo das provações que lhe aguilhoam a experiência.

E assim como a fonte nasce para estender-se, desce o dom inefável de Jesus sobre nós para crescer e multiplicar-se.

Levantemos, cada hora, essa luz sublime para reerguer os que caem, fortalecer os que vacilam, reconfortar os que choram e auxiliar os que padecem.

O mundo está repleto de braços que agridem e de vozes que amaldiçoam.

Seja a nossa presença junto dos outros algo do Senhor inspirando alegria e segurança.

Não nos esqueçamos de que o tempo é um empréstimo sagrado e quem se refere a tempo diz oportunidade ajudar para ser ajudado, de suportar para ser suportado, de balsamizar as feridas alheias para que as nossas feridas encontrem remédio e de sacrificarmo-nos pela vitória do bem, para que o bem nos conduza à definitiva libertação.

Nós que tantas vezes temos abusado das horas para impor, aos que nos seguem, o Reino do Senhor, à força de reprovações e advertências, saibamos edificá-lo em nós próprios, no silêncio do trabalho e da renúncia, da humildade e do amor.

Meus irmãos, no seio de todos os valores relativos e instáveis da existência humana, só uma certeza prevalece - a certeza da morte, que restitui às nossas almas os bens ou os males que semeamos na alma dos outros.

Assim, pois, caminhemos com Jesus, aprendendo a amar sempre, repetindo com Ele, em nossas proveitosas dificuldades de cada dia: - "Pai Nosso, seja feita a vossa vontade, assim na Terra como nos Céus."

Meimei
De "Vozes do grande-além",
de Francisco Cândido Xavier - Diversos Espíritos

18 outubro 2009

A Paciência - Miramez

A PACIÊNCIA
ESE - Cap. IX - Item 7

A paciência é força poderosa que nos leva à meditação, estendendo o amor de Deus a todos os seus filhos; ela ajuda no comportamento diante da dor e das provações, por saber que o aprendizado será mais vantajoso. Quem sofre com paciência se liberta mais depressa da própria dor; quando a lição é aprendida, ela passa a ser sabedoria.

Meu irmão, tenha calma em todas as dificuldades, mas não deixe que a resignação se transforme em desleixo. O esforço próprio é dever da criatura em todos os sentidos. Todas as mensagens cristãs incentivam a todos para a conformidade, mas todas elas também nos mostram que devemos perseverar constantemente no bem. Deus estabeleceu leis para favorecer os indisciplinados, porém espera de nós a nossa parte, para o verdadeiro equilíbrio.

Tente em todos os passos alimentar a coragem, a fé, aquela disposição de vencedor, que as dificuldades irão diminuindo, e a esperança irá se apoderando de você. O maior vencedor é aquele que vence a si mesmo, com plena confiança em Deus, ajustando seus pensamentos em Cristo, para que não lhe falte a Sua companhia nas estradas tortuosas da vida.

Tenhamos paciência sobremodo ativa, que não ignora o dever, e que sabe se portar diante das necessidades; comecemos conhecendo a verdade, que o seu trabalho é libertar os corações das peias do engano e a consciência da tristeza.

A paciência bem estruturada é aquela que se transforma em caridade e que começa em nós. Dar o pão a quem tem fome e vestir os nus é a mais fácil benevolência; a mais difícil é o perdão, que esquece as ofensas, fazendo do ofensor um amigo, aquele companheiro que passa a ter prazer em andar conosco.

A caridade legítima é igualmente a renúncia em favor dos que nos odeiam, mostrando amor por todos os que sofrem...

Caridade também manchetada de luz é o trabalho honesto, porque é exemplo cristão em favor dos que nos observam em caminho.

E ainda mais, a benevolência é que sofre com paciência e padece com alegria cristã, agradecendo a Deus pela oportunidade de encontrar a lição, no padecimento. A firmeza no bem são máximas de luz que encorajam os companheiros que viajam conosco na ascensão espiritual.

Avancemos com Jesus, pedindo a Ele que nos ajude a compreender mais Seus ensinamentos e que cada reencarnação alivie com efeito nossa consciência do fardo pesado de eras pretéritas. Ele, Jesus, veio ao mundo para nos mostrar como se deve viver a paciência e, ainda mais, continua junto de nós para que se faça a vontade de que nenhuma de Suas ovelhas se perca, pois, na verdade, todas elas estão sendo amparadas pelo Seu amor.

Se você foi chamado para viver perto de alguém que o maltrata, ferindo sua sensibilidade, procure esforçar-se com a paciência, tolerando, mas servindo com a tolerância, fazendo caridade em servir com a vida.

Os benfeitores espirituais reconhecem, principalmente para os encarnados, que não é fácil o que escrevemos vir a ser transformado em vida; no entanto, não se pode esquecer de se esforçar todos os dias na melhora dos comportamentos, agradecendo a Deus e a Jesus por ter enviado o Consolador prometido, o Espírito da Verdade, abrindo portas para novos entendimentos das coisas espirituais, sobretudo do conhecimento da verdade mais acentuada, na limpeza da consciência e no alívio do coração.

Peçamos aos Céus que nos ajudem, pela paciência, no avanço para a Luz.

De "Máximas de Luz",
de João Nunes Maia,
pelo Espírito Miramez

17 outubro 2009

A Caridade e o Amor - Richard Simonetti

A CARIDADE E O AMOR

"Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus?"
"Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas."
Questão n.º 886 (Da Lei de Justiça, de Amor e de Caridade) - O Livro dos Espíritos

Confunde-se, freqüentemente, caridade com amor. No entanto, não são palavras sinônimas, tanto que ambas aparecem numa lei divina que inclui a justiça. Muitos centros espíritas levam o nome "Amor e Caridade". Evidentemente não imaginavam seus fundadores tivessem o mesmo significado, algo como "Luz e Claridade" ou "Paz e Tranqüilidade".

Caridade seria, na ótica de "O Livro dos Espíritos": Benevolência, que se exprime na boa vontade e na disposição para praticar o Bem; Indulgência, que é clemência e misericórdia para as imperfeições alheias; Perdão, que é o ato de desculpar ofensas.

Exercício de benevolência: Trabalho em favor do semelhante.

Exercício da indulgência: Solidariedade em face das limitações e fraquezas do próximo, evitando discriminá-lo.

Exercício do perdão: Esquecimento do mal que se tenha sofrido de alguém, num ato de tolerância esclarecida que se exprime na compreensão.

Talvez tenhamos aí a origem da máxima de Kardec: "Trabalho, Solidariedade e Tolerância", a orientar a ação espírita. Sem tais princípios não há a possibilidade de um entendimento perfeito ente os homens na construção de um mundo melhor.

E o Amor?
Amor é afeição profunda. É gostar muito. É, em sua acepção mais nobre, querer o bem de alguém na doação de si mesmo.
Decantado pelos poetas e exaltado pelos sonhadores, o Amor é abençoado sol que ilumina e aquece os escabrosos caminhos humanos.
Só há um problema: é impossível sustentá-lo, torná-lo operoso e produtivo sem o combustível da caridade.

Encontramos na via pública uma mulher em penúria, rodeada de filhos maltrapilhos e famintos.
Sensibilizamo-nos: "Que quadro triste, meu Deus! Quanto sofrimento!"
Estendemos-lhe alguns trocados e seguimos em frente, evocando, cheios de compaixão: "Jesus a ampare, minha irmã!."
Naquele exato momento brilhou em nós uma réstia de amor, infiltrando-se no impassível egocentrismo humano.

Mas que amor vazio, efêmero! Um amor quase inútil, que se limitou à esmola para aliviar a consciência, transferindo para o Cristo providência melhor, sem considerar que Ele esperava por nós para atendê-la com a iniciativa de parar, conversar, conhecer melhor a extensão de seus problemas, ajudando-a. Sem caridade o amor pode ser muito displicente...

Temos um grande amigo. Gostamos muito dele. Um dia ele faz algo que nos desagrada. Irritamo-nos profundamente. Azedamos nosso relacionamento. Distanciamo-nos, jogando fora uma gratificante amizade. Sem caridade o companheiro mais querido pode converter-se num estranho.

O casal vive bem. Marido e mulher amam-se profundamente. Um dia ele comete um deslize: envolve-se em aventura extraconjugal. A esposa toma conhecimento e o abandona imediatamente, não obstante ele implorar-lhe que fique, dilacerado de remorsos. E estagiam ambos em crônica infelicidade, marcada por insuperável nostalgia. Sem caridade o afeto mais ardente pode ser afogado num oceano de mágoas e ressentimentos.

No passado muitos religiosos instalavam-se em lugares ermos, impondo-se privações e flagícios como sacrifício em favor da Humanidade. Em sua maioria apenas comprometeram-se em excentricidades e desequilíbrios. Sem caridade o amor pelo semelhante pode converter-se em perturbadora paixão por nós mesmos.

O apóstolo Paulo vai bem mais longe no assunto (I Coríntios 13: 1-3), quando destaca que ainda que detenhamos o verbo mais sublime, a mediunidade mais apurada, o conhecimento mais profundo, a convicção mais poderosa, o desapego mais amplo e inabalável destemor da morte, isso tudo pouco valerá se faltar a caridade, isto é, se não estivermos imbuídos do desinteresse pessoal, no desejo sincero de servir o semelhante.

E Kardec nos oferece a mesma visão de inutilidade de todas as iniciativas em favor da redenção humana, se faltar o componente básico, ao proclamar:
"Fora da Caridade não há Salvação."

De "A Constituição Divina",
de Richard Simonetti