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31 dezembro 2013

Deus Não Mudou - Jaci Regis


DEUS NÃO MUDOU

Fomos convencidos de que um Deus humano, sentado num trono no céu governava tudo. O céu, dentro do sistema geocêntrico, ficava encima e o inferno, embaixo. Mas, embora não exista nem encima nem embaixo, a ideia permanece nas nossas estruturas mentais arcaicas.

Recentemente, a doença e a morte do governador Mário Cova mobilizaram a população em oração. Padres, pastores, rabinos, umbandistas, espíritas, rogaram ao Todo Poderoso pela saúde e pela vida do homem que governava o Estado de São Paulo.

A televisão mostrou milhares de crianças, mulheres e homens arrebatados à morte e à miséria em Moçambique, devido às chuvas que provocaram enchentes arrasadoras, aumentando a miséria daquele país africano, envolto, como os demais, em nebulosos processos de maturação, disputas tribais e de poder.

Lembro-me bem da amargura de um amigo que, endurecido e revoltado, em vão implorara a Deus que salvasse sua filha.

O Governador morreu, os moçambicanos estão na pior e a filha do amigo partiu.

O silêncio dos céus foi ensurdecedor.

Essa postura diante de Deus, repetida em vários idiomas e religiões, remete-nos, mitologicamente, ao homem primitivo, que se postava temeroso e trêmulo perante o trovão ou diante das lavas dos vulcões, tomados como manifestação da ira divina.

Desde então, acostumou-se a fazer oferendas ao Todo Poderoso, para aplacar suas iras.

Poucos são os que neste mundo não creem na existência de Deus. Cada povo, cada época, cada instante da evolução pessoal e coletiva, enfim, na marcha das civilizações, em permanente trânsito para as mutações constantes, defrontou-se com a questão da divindade.

Os judeus, pastores primitivos, definiram, afinal, um deus único, invisível. Foi esse deus vulcânico, incompetente, mas Todo-Poderoso, que nos foi ensinado, conforme o cristianismo, e que definiu o fluxo das concepções vitais, a partir do feito deslumbrante de Moisés no Monte Sinai.

Consolidado na cultura do Império Romano, o cristianismo, atendendo ao impositivo mitológico, transformou Jesus de Nazaré na versão visível de Deus, na confusão da Santíssima Trindade, além de fazê-lo ocupar o lugar do Cristo, no mito judaico do Messias.

Afinal, com exceção dos judeus, todos os povos materializaram, fizeram formas expressas de seus deuses para prestar-lhes culto. Os egípcios viam seus deuses em formas semi-humanas. Os gregos humanizaram de tal forma o Olimpo, onde Zeus reinava, que criaram toda uma linguagem e toda uma mitologia que está presente na cultura ocidental.

Maomé, na linha do cristianismo, também tornou Alá invisível.

O DEUS BÍBLICO

Os tempos mudam, mas nossa postura diante da divindade permanece estanque. Continuamos, no fundo, apegados aos padrões que a bíblia judaica nos trouxe, na tumultuada relação entre Javé, o deus de Abraão e o povo hebreu. Toda a concepção judaica de Deus está baseada no seu poder discricionário. Deus, criador imperfeito, sempre revisando sua obra e maldizendo o dia em que criou sua criatura.

Jesus de Nazaré usou outros termos referindo-se a Deus, chamando-o de “pai” e dizendo que “ele” amava as criaturas e era tão zeloso com elas que não lhe caía um só cabelo sem que “ele” soubesse...

Se antes Deus era temido, odiado e suportado sem alternativas, acendeu-se uma luz, relaxou-se o pensamento. Não estamos sós, Ele vela por nós...

Na verdade, essas modificações aumentaram ainda mais o conflito.

O Nazareno, segundo o evangelho, afirmou que Deus amou tanto o mundo que enviou o seu filho primogênito. A expressão, como se vê é falsa. Em primeiro lugar, no nosso modo de entender, não há “filho primogênito”, concepção só cabível no horizonte restrito da Terra como o universo e o povo judeu como o escolhido.

Além disso, está subentendido que esse amor de Deus representava uma espécie de relaxamento da ira divina em relação à criatura. É o que depreendemos dessa outra afirmativa evangélica: “... Ora sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai Celestial....” Ou seja, a misericórdia divina é uma exceção dada pelo seu “coração” bondoso aos seus filhos, por ele criados, mas quase sempre desviados.

O deus de Jesus é, portanto, diferente do deus Jeová. Este teve ímpetos de acabar com a raça de víboras que somos todos nós. Aliás, tentou liquidar a humanidade com o dilúvio, segundo o relato bíblico. Mas, também até aí falhou.

Todavia, como foi dito que Deus ama, protege, providencia, cuida e é pai, nada mais natural que seus filhos que criou pela sua exclusiva vontade, a ele se dirijam pedindo providências particulares sobre doença, morte, o futuro e outros detalhes do dia-a-dia. Então, por que esse silêncio ensurdecedor quando a maioria esmagadora pede, suplica e não é atendida?

Para justificar esse silêncio, os sistemas religiosos afirmam que Deus bem que poderia atender, mas não faz porque as pessoas não merecem. A dor, o sofrimento, são remédios para a doença endêmica da maldade que domina os corações humanos.

A criatura desde o início pecou, criou a culpa, fez mau uso de seus instrumentos de vida e, por isso, Deus teve que castigá-la. E por todas as gerações. O homem comum é mau, não obedece a Deus.

A Doutrina Kardecista tenta avançar um pouco nesse espinhoso caminho.

Desenhou todo um esquema da atuação divina, mostrando um delineamento de progresso e evolução, do qual a pessoa é responsável por si, num tempo sem limites, na busca da relativa perfeição. A Providência Divina apenas propicia meios para que esse processo se realize, através, por exemplo, da encarnação/reencarnação, como instrumento de apreensão pela experiência de fatores externos e internos, basicamente centrados no relacionamento com o outro.

O sistema kardecista é racionalista. Tenta enquadrar a ação divina e mesmo o progresso espiritual dentro de critérios racionais. Entretanto, não é fácil desestruturar a mente, trabalhada por milênios de entendimento, conceituação e pressão cultural.

Milênios se passaram e nós, os Espíritos em processo de autorreconhecimento e crescimento espiritual, fomos ensinados a ver a divindade como a um poder invisível, senhor da vida e morte, de difícil comunicação, localizado em algum lugar inacessível, cheio de intermediários que falam, discursam e determinam em seu nome.

Qualquer um olhando as estrelas pensa que lá encima fica Deus. O que levou o astronauta russo Gagarin a dizer que não tinha encontrado Deus, mostrando que até os ateus pensavam no céu lá encima.

As igrejas sempre se mostraram arrogantes, criaram seus líderes como autênticos deuses. O papa católico é visto por milhões como representante desse deus, embora tenha sido eleito pelos demais cardeais. O aiatolá Khomeini criou um estado teocrático no Irã e agora o Taliban, no Afeganistão, pretende impor uma lei marcial-religiosa que cerceia a vida em nome de Deus.

Essa visão específica que criou Deus à semelhança do homem e vice-versa, criador de tudo, onipresente e onisciente, se tornou sufocante e deu um sentido inquietador ao coração humano.

Por isso mesmo a Doutrina Kardecista não pode livrar-se totalmente do Deus bíblico e cristão. Kardec tentou analisar a divindade dentro de padrões racionais. Mas, a razão humana é incapaz de fazer essa operação lógica e, além disso, o universo, a divindade, ou o que seja, não é apenas racional, mas afetivo.

DEUS É INDIFERENTE

Desde o momento que o mundo se livrou da tutela da Igreja que coagia o Espírito, filósofos, políticos, cientistas, alguns sacerdotes e teólogos, começaram a duvidar da forma como o deus Jeová se transplantou para o cristianismo, não obstante as modificações introduzidas por Jesus de Nazaré.

O Espiritismo apresenta uma interessante visão do processo evolutivo, mas na prática, os espíritas de modo geral, absorveram o “modus operandi” cristão e transformaram a reencarnação em pena de talião e a Justiça divina em contabilidade de erros e acertos; e a dor, o sofrimento, como moedas de pagamento dos débitos das pessoas e das coletividades.

A visão estática da vida prejulgou que toda verdade tinha sido revelada. Sem instrumentos e no nível de civilização agrária, as Igrejas acreditaram que tudo estava descrito, determinado.

O imenso vazio entre as esperanças e a realidade, as contradições entre o discurso moral e a realidade espiritual, eram “coisas de Deus”, que convinha não mexer, nem muito menos penetrar. O mistério era a chave mestra desse domínio total sobre as mentes.

Por exemplo, Ptolomeu era um astrônomo e, entretanto, seu sistema afirmava que a Terra era parada e centro do universo. Ele partiu da observação visual, pela qual, de fato, a Terra parece parada. Estamos sentados e não sentimos o globo rodar. Andamos e não percebemos o girar do planeta sobre si mesmo e, muito menos, em direção ao sol. Por isso ele concebeu seu sistema de acordo com sua visão e de suas observações práticas.

Estabelecida essa “verdade final” pela autoridade religiosa, guardiã da palavra de Deus, quem se atreveu a contraria-la foi submetido ao castigo, à humilhação e considerado herege.

Entretanto, a Terra não está parada, gira em torno de si mesma, caminha para o sol e é apenas um pequeno planeta num universo de tamanho inconcebível pela mente humana.

Portanto, é preciso compreender que a imagem e a atividade de Deus foram concebidas dentro de uma estrutura que não mais pode subsistir.

A incompreensão dessas mudanças conceituais, essa resistência às transições permanentes do processo evolutivo provocam atitudes que, guardadas as devidas proporções, é semelhante à da Igreja em condenar Galileu Galilei.

Segundo os conceitos difundidos pelas religiões (inclusive a espírita-cristã, roustainguista, chiquista e emmanuelina), a divindade é sensível à dor das pessoas e das coletividades. Entretanto, no dia-a-dia, a divindade é indiferente à dor das pessoas e dos povos.

Deus, certamente, não mudou. O Universo, a vida, apesar das descobertas, avanços e tecnologias são, basicamente, os mesmos. Aparentemente, a divindade é indiferente à dor, ao sofrimento. Isso decorre das posições estruturais desenvolvidas através dos tempos. Queremos um “pai” que nos dê colo, ansiamos por um ente superior que nos ampare, nos livre do mal e que nos ame.

Nós não sabemos nada da natureza desse “pai”. Pensamos nele como um homem, um Espírito ou que seja, um ser isolado, colocado em algum lugar, dando ordens, providenciando coisas.

Reflito na necessidade de mudarmos nossa estrutura mental, para nos adequarmos à nova visão da vida, mistificada, fraudada por ignorância e pelos sistemas religiosos de todos os tempos.

Não digo que “Deus não se importa”, nem que ele esteja à parte da criação. Existe um fio condutor na história, mas não da forma como gostaríamos. A identificação da divindade com cada um e com cada oportunidade parece definida por processos além de nosso entendimento racional.

Os cristãos autênticos criaram a escapatória da felicidade além-túmulo num céu estático, para premiar os bons e um inferno para punir os maus. Cada um que se esforce em passar pela vida terrena, sofrendo seus males, até alcançar a morte, que seria a aspiração suprema para os bons, pois só ela seria a porta da paz eterna, mas certamente nada desejada pelos maiores candidatos ao sofrimento sem fim.

Escrevendo essas coisas me sinto contando uma história da carochinha. Mas, os espíritas-cristão não ficam atrás. Estão absolutamente convencidos da inferioridade do ser humano e o culpam por não ter, nesses últimos dois mil anos, se tornado bom O sofrimento não é propriamente festejado, mas de certa forma exaltado, como uma espécie de sadomasoquismo moral, para purgar erros, pagar dívidas e aspirar a uma promoção além-túmulo ou na próxima vida.

Também aí, tudo me parece extremamente sem base...

A CIÊNCIA E DEUS

A ciência avança na descoberta de elementos fundamentais da vida orgânica, dos sistemas celestes, na constituição genética e até mental das pessoas. Muitos ficam assustados porque, na imaginação da maioria, ela estaria ocupando o lugar que antes era reservado a Deus. Mas a ciência não cria, descobre. Ela desvenda o que existe e penetra em campos que eram, antigamente, exclusivos da divindade.

A ciência segue sem se importar com as crenças. Embora muitos cientistas se digam propensos a aceitar um poder espiritual, muitos deles pretendem desconhecer toda a história, querem reescrever a criação, desejam ter o poder de mudar, modificar e reconstruir as estruturas orgânico-mentais.

A subversão dos antigos conceitos sobre a criação levou a mudanças profundas no modelo moral da sociedade. A criatura humana, sempre vilipendiada pelas Igrejas, inclusive a espírita, quer ter seu direito de opinar sobre si mesma. Entra em conflito com padrões definidos como divinos, mas estabelecidos pelas igrejas, que afirmam que a vida pertence a Deus e o homem não tem poder sobre seu destino, traçado fora dele...

Amor, sexo, casamento, divórcio, aborto, eutanásia deixaram de ser zonas proibidas ou divinas. É o fruto do livre-arbítrio, ainda que leve, a princípio, à banalização que é a consequência primeira do rompimento da coação mental, social e religiosa.

No princípio a Terra era o centro. Depois o sol, e agora, não existe o centro do universo, mas uma multidão de galáxias se expandindo no Cosmo. Todavia, multidões e igrejas, inclusive a espírita, tentam manter as mesmas posições antiquadas e arcaicas, como se nada houvesse mudado. Não conseguem intervir para orientar. Recolhem-se na condenação ou no discurso repressor.

Mas, parece que não há volta.

A expressão “coisas de Deus” confirma a manutenção de estruturas mentais arcaicas, separando o divino do profano, uma forma de se manter a ignorância.

Na altura dos acontecimentos, qualquer profecia ou futurologia sobre como as próximas décadas serão é especulação sem sentido.

O que tem que ser será.

Allan Kardec afirmou que Deus não faz milagres, porque isso seria derrogar a própria Lei que ele criou. Portanto, a impassividade e o silêncio divinos podem ser apenas formas que não conseguimos compreender dos mecanismos operacionais da Lei. Ou, para que saibamos que temos de resolver nossos problemas. Que a solidariedade é o instrumento de recíproco auxílio que permitirá a vida de relação; e haverá um limite para que a banalização desencadeie a reação para uma posição do meio, sem volta ao passado, por ser impossível e sem arrogância, que é destruída pela desestruturação das pessoas.

A PRESENÇA DE DEUS

Embora nos momentos de dor, sofrimento e angústia, a criatura possa se sentir abandonada por Deus, quando não é ouvida, se percebermos com serenidade veremos que, apesar desse silêncio, persiste uma ordem, uma ordenação no encaminhar das coisas, no decorrer dos tempos.

É como se fosse um grande quebra-cabeça, cujas peças vão aos poucos se encaixando, embora seja impossível determinar, não apenas a extensão, mas a profundidade desse quebra-cabeça.

Nessa altura, não podemos localizar um Deus-homem em um lugar específico do Universo. Não temos nem imagem, nem conhecimento da natureza da divindade. Mas, certamente, podemos compreender, ainda que limitadamente, que a imagem, a concepção e a forma como Deus foi mostrado, pelo menos no cristianismo, não pode ser mais mantida.

Existe uma Lei que abrange o universo, na qual todos estamos inseridos. Essa sensação de solidão decorre da inquietação sobre a morte e o desejo de persistência da maioria. Existem o mal e o bem, não como polos excludentes, mas como condições mutáveis em direção à plena satisfação pessoal, que a sabedoria divina condiciona ao harmonioso relacionamento com os outros.

O universo é baseado na solidariedade, nas leis de atração nos conjuntos estelares e nos conjuntos humanos. Pertencemos a nós mesmos, mas precisamos pertencer ao conjunto, nos inserir na relação afetiva com os outros.

Ninguém quer sofrer e é natural que recorra a um poder que lhe ensinaram ser arbitrário, que ora cede, ora endurece, que tem ira e castiga. Na verdade, muitas pessoas se julgam injustiçadas porque acreditam que não mereciam o sofrimento e as perdas que têm. Reclamam da Justiça Divina dada como sábia e misericordiosa, mas que, parece, muitas vezes premia o mau e castiga o justo.

As coisas, os problemas, enfim, os conflitos e contradições da vida acontecem não porque estão delineados em determinismos divinos, no sentido da alienação da pessoa, sob o império do destino, maktub ou karma. Mas porque decorrem dos mecanismos das leis ambientais e dos complexos processos mentais, nos quais o Espírito elabora o mapa de sua vida, a partir de como se posiciona no mundo e estrutura seu caráter.

As pessoas pedem a Deus que modifique o diagnóstico natural. Quase sempre não são ouvidas Não há uma presença, digamos, “pessoal” da divindade, mas tudo gira em torno de processo sincrônicos, atemporais, mostrando uma direção.

Ainda assim, fica sem resposta a razão da vida.


Jaci Regis (1932-2010)

Fonte: Abertura - Jornal de Cultura Espírita, abril de 2001 – Licespe, Santos-SP.


30 dezembro 2013

Silêncio e Fala - Joanna de Angêlis


SILÊNCIO E FALA

"Aumenta volumosamente a balbúrdia no mundo.

Não há respeito pelo silêncio.

Como consequência, as pessoas perderam o tom de equilíbrio nas conversações, nos momentos de júbilo, nas comunicações fraternais. 

Quando se fala em tonalidade normal, já não se ouve em face do hábito enfermiço do vozerio. A arte da conversação cede lugar aos temas vazios de significado e edificação, permanecendo adstrita a vulgaridades e queixas com que mais se entorpecem os indivíduos. 

Tem-se a impressão de que se perdeu o direito de experienciar o silêncio ou, pelo menos, de escutar-se em níveis suportáveis e agradáveis, mediante os quais as ondas sonoras produzam empatia e bem-estar.

O desrespeito graça por todo lado em razão da falta de educação generalizada.

*

Reserva-te o prazer do silêncio, diariamente, quanto possível.

O silêncio interior concederte-á harmonia, ensejando reflexões saudáveis e renovadoras. Mediante o seu contributo, disporás de um arsenal precioso de conceitos para apresentares, quando conversando, mantendo elevado o nível das propostas verbais, porque possuis discernimento e conseguiste armazenar ideias valiosas. Abordando temas edificantes, gerarás hábitos de equilíbrio e bem-estar, que te propiciarão paz interior e convivência agradável com os outros, agindo com sabedoria e não te permitindo engalfinhar nos debates da frivolidade, das reclamações, da revolta muito do agrado dos insensatos, daqueles que não pensam e somente falam sem dizer nada educativo.

A voz é instrumento delicado e de alta importância na existência humana. Sendo o único animal que consegue articular palavras, modulando o som e produzindo harmonia, o ser humano deve utilizar-se do aparelho fônico na condição de instrumento precioso e de cujo uso dará contas à Consciência Cósmica que lhe concedeu o admirável tesouro."

Joanna de Ângelis (espírito)
Psicografia de Divaldo Franco
Livro: Jesus e Vida



29 dezembro 2013

As Luzes do Espiritismo - Eugenio Lara


AS LUZES DO ESPIRITISMO

“E Deus disse: Que haja Newton! E tudo se fez luz.”
Alexander Pope (1688-1744), poeta britânico.

Luz e iluminação são palavras muito usadas pelos espíritas. Não somente no discurso, na oratória, mas, sobretudo, em publicações e na denominação das sociedades espíritas. “Mensageiros da Luz”, “Missionários da Luz”, “Vinha de Luz”, “A Caminho da Luz” são alguns dos nomes bem populares de obras do médium mineiro Chico Xavier. Entidades espíritas, influenciadas por essa literatura religiosa de feição cristã, também adotam nomes semelhantes: “Caridade, Luz e Amor”, “Caminheiros da Luz”, “Luz e Verdade”, “Luz Eterna” etc.

E no dia-a-dia, é comum o uso de expressões do tipo: “espíritos de luz”, “luz interior”, “iluminação”, “era de luz” ou comentários e reflexões “à luz do Evangelho”. No entanto, apesar de simpáticas e politicamente corretas, essas expressões passam ao largo do que deveria ser uma verdadeira iluminação sob a ótica da filosofia espírita. Ao invés de serem esclarecedoras, soam como algo místico, esotérico, inatingível, que nada explica, um lance metafísico e transcendental, seguindo assim um caminho contrário a uma concepção mais humanista do Espiritismo.

Para os cristãos, o Fiat Lux (faça-se a luz), também citado pelos espíritos, tem um sentido mágico, criacionista. “Deus disse: faça-se a luz e a luz foi feita.” Luz e Trevas, os dois opostos. Lúcifer, o anjo decaído, que no Cristianismo tornou-se o príncipe das trevas, tem seu nome associado à iluminação, à luminosidade celestial porque significa “portador da luz”, “aquele que leva a luz”, “aquele que brilha”.

Na Kardequiana, além do sentido usual, físico, o fundador do Espiritismo usa a palavra “luz” como sinônimo de esclarecimento, elucidação, a fim de se clarear a compreensão acerca de determinada questão. Curiosamente, o Espiritismo surge em 1857 na chamada Cidade-Luz, Paris, em um momento de grandes mudanças. O século 19, a exemplo do século 18, é também considerado como o Século das Luzes.

Todavia, a expressão Século das Luzes está associada principalmente ao século 18, graças ao Iluminismo, movimento cultural, filosófico, humanista e anticlerical que floresceu na Europa, também denominado de Era da Razão. Nada a ver, portanto, com o sentido religioso que os espíritas costumam dar ao Espiritismo, filosofia delineada e estruturada sob influência muito grande do pensamento iluminista.

Allan Kardec, um dos grandes humanistas de seu tempo, teve seu pensamento formado não somente no positivismo, mas principalmente no Iluminismo, onde as ideias de Rousseau se destacam em sua formação intelecto-moral. Na infância e juventude Kardec foi educado na escola de Pestalozzi, em Yverdun, Suíça, cuja orientação pedagógica era nitidamente rousseauniana. Como pedagogo, sempre permaneceu fiel à educação pestalozziana.

No pensamento kardequiano, que nada tem de irracional, “a luz” mostra-se simplesmente como uma metáfora do esclarecimento, da compreensão, segundo o poder da razão, da observação e experimentação. Para Kardec, o Espiritismo é uma questão de “razão e bom senso”, sem nenhum tipo de acesso ao conhecimento, ao saber, mediante posturas místicas, religiosistas e dogmáticas.

Diante desse irracionalismo exacerbado que invade o mundo, com a proliferação de ideologias fundamentalistas, o revigoramento das religiões monoteístas, amiúde disfarçadas e travestidas de “científicas”, como o Criacionismo Científico e o Design Inteligente, a alternativa é a busca de uma nova racionalidade onde o saber, a ética e a espiritualidade mostrem-se irmanados.

A Filosofia Espírita tem plenas condições de contribuir para a construção dessa nova racionalidade, seja sob o rótulo de pós-moderna ou hipermoderna. Para isso, terá que vislumbrar a luz kardecista no fim do túnel místico e igrejeiro em que os espíritas se meteram, sob pena de ficarem imersos nas trevas da ignorância, como naquela metáfora da caverna de Platão.

O Espiritismo é um dos filhos diletos do Iluminismo e sua vocação humanista necessita ser retomada a fim de que as luzes do saber espírita não fiquem aprisionadas nos porões da irracionalidade e do misticismo.

Eugenio Lara 

 

28 dezembro 2013

É Hora de Recriar - José Rodrigues


É HORA DE RECRIAR

“Que importa aquele que produz o bem, desde que o bem seja produzido?” Essa afirmação fecha o raciocínio de “Um filósofo do outro mundo”, espírito que assina uma comunicação transcrita por Allan Kardec na “Revista Espírita” de junho de 1863. Ele dissertava sobre o futuro do Espiritismo, em reunião. ocorrida na cidade de Lyon, tendo como médium a sra. B.

A abrangência universalista daquela afirmação demanda uma análise da trajetória do Espiritismo no mundo e particularmente no Brasil, onde um movimento em seu nome cresceu, avolumou-se em grandes proporções, a ponto de tornar-se até um “exportador” de ideias para outros países. As questões que se colocam são: o movimento espírita brasileiro guarda correlação com a ideia espírita? E esse mesmo movimento pode levar os adeptos do Espiritismo à conclusão do “filósofo do outro mundo?”.

Os conflitos de ideias vividos pelo movimento espírita nacional, a nosso ver, respondem negativamente à primeira questão; os caminhos não se cruzam entre as facções que se apresentam no cenário brasileiro. Novas leituras de Allan Kardec, as pesquisas na “Revista Espírita”, novas gerações de espíritas descomprometidos com antigas estruturas de pensamento, abriram irreversível conflito entre nós. A abordagem da questão social na imprensa espírita, os encontros específicos dessa área, por exemplo, encontraram e ainda sofrem forte oposição. Criou-se mesmo um cerco ideológico em torno daqueles que ousam repensar as estruturas, propor mudanças, colocar o Espiritismo em seu efetivo lugar.

Curiosamente, para dizer o mínimo, aqueles que cerceiam debates e tentam bloquear ideias progressistas, com receios de desvirtuamentos da tese espírita, nunca se insurgiram contra as distorções exaustivamente propagadas pela que se intitula “Casa Máter do Espiritismo no Brasil”. De fato, e de maneira insofismável, a FEB, historicamente, é responsável pela introdução e aplicação do pensamento antidoutrinário de Roustaing no Brasil, sem que essas mesmas pessoas e entidades que hoje se colocam na defensiva contra a discussão filosófica do Espiritismo tenham-se manifestado.

Também é verdade que as entidades representativas da unificação sempre conviveram num clima de extrema tolerância com filiadas cujas práticas doutrinárias longe estão de se afinarem com o pensamento espírita. São casas vendedoras de ilusões, de dependências em relação a seus dirigentes e de artigos de fé inconsistentes. Simulam saberes que não possuem, apresentam fórmulas feitas e acabadas em torno do destino, da mediunidade, que mais assustam do que libertam. Na verdade, sonegam o pensamento espírita.

Isto tudo é bem conhecido, mas fraternalmente tolerado há muito tempo. Outro peso, no entanto, tem sido usado para avaliar a intenção e os esforços dos que pretendem agitar as águas, sacudir o pó, procurar a luz no horizonte do pensamento espírita. Então a colisão teria mesmo que vir.

Ocorre que não é confortável para ninguém a manutenção permanente do conflito, da discussão. Chega-se a um ponto em que cada um deve seguir o seu próprio caminho e até com respeito pelo outro. E isto já está acontecendo.

Num ponto a outro do território nacional estão sendo criadas instituições, não necessariamente vinculadas ao movimento de unificação, com interesses pelo estudo do Espiritismo enquanto fonte de cultura e pela pesquisa. São embrionárias, mas revelam o que há de mais novo no cenário espírita brasileiro, uma busca de crescimento sem peias nem censuras, com idealismo, sim, de quem quer avançar no conhecimento para melhor servir a si e ao próximo. 

Não há mais como conter esses ventos de renovação porque eles partem de jovens ou de mais velhos, mas com espírito jovem, dispostos a rever posições, ideias, conceitos, de redescobrir caminhos e de revolver o terreno onde pisaram para o encontro de novos tesouros.

Allan Kardec por várias vezes constatou e afirmou que o Espiritismo é uma ciência positiva. Como tal, tem que avançar com críticas sobre si mesmo, porque este é o fundamento da ciência, de não temer recomeçar tudo, se preciso for, para a prevalência da verdade. Mas, a característica do movimento espírita não tem sancionado essa posição da Doutrina. Ao contrário. E o resultado é a marcação sobre pessoas e ideias, com pensamentos preconcebidos que impedem a conclusão do “filósofo do outro mundo”: “Que importa aquele que produz o bem...”.

Quando se discrimina dessa forma, contra a absorção de ideias ou produções dependendo de suas origens, é sinal de que o pensamento doutrinário espírita está sufocado. E para que a vida prossiga é preciso recriar, o que alguns já estão fazendo.


José Rodrigues

Fonte: Abertura - Jornal de Cultura Espírita, abril de 1987, Ano I, nº 1. Licespe - Santos-SP.



 

27 dezembro 2013

Desunião e Divergência - Deolindo Amorim


DESUNIÃO E DIVERGÊNCIA

Nem sempre divergência significa desunião. Se é verdade que as divergências ou discordâncias algumas vezes já comprometeram a união entre pessoas e grupos, não se deve dar a este fato a extensão de uma regra geral, pois é apenas um episódio discrepante. Onde há duas pessoas frente a frente sempre há o que ou em que discordar. Seria impossível a existência de um grupo humano, por menor que fosse, sem um pensamento discordante, sem uma opinião contrária a qualquer coisa. Entre dois amigos, como entre dois irmãos muito afins pode haver divergência frontal ou inconciliável em matéria política, religiosa, social etc., sem que haja qualquer “arranhão” na amizade. Discutem, discordam, assumem posições opostas, mas continuam unidos.

Justamente por isso e pelo que observo na vida cotidiana, não creio que seja necessário abafar as divergências ou evitar qualquer discussão, ainda que em termos altos, simplesmente para preservar a união de um grupo ou de uma coletividade inteira. Seria o caso, em última hipótese, de acabar de vez com o diálogo e adotar logo um tipo de vida conventual. 

O diálogo é uma necessidade, pois é dialogando que trocamos ideias e permutamos opiniões e experiências. Uma comunidade que não admite o diálogo está condenada, por si mesma, a ficar parada no tempo. Cada qual naturalmente deve preparar-se ou educar-se espiritualmente para discutir ou divergir sem prevenções ou ressentimentos.

O fato de não concordarmos com a opinião de um companheiro neste ou naquele sentido ou de não adotarmos a linha de pensamento de uma instituição deve ser encarado com naturalidade, mas não deve servir de motivo (jamais!) para que mudemos a maneira de tratar ou viremos as costas a alguém. Seria o caso de perguntar: e onde está o Evangelho, que se prega a todo momento?... Como falar em Evangelho, que é humildade e amor, e fugir a um abraço sincero ou negar um aperto de mão por causa de uma divergência ou de um ponto de vista.

Então, não é a divergência aqui ou ali que porventura “cava o abismo da desunião”, é a incompreensão, o personalismo, o radicalismo do elemento humano em qualquer campo do pensamento. Já ouvi dizer mais de uma vez que os espíritas são desunidos por causa das divergências internas. Sinceramente, não acompanho este ponto de vista. Acho que não há propriamente desunião, mas apenas desencontro de ideias, fora dos pontos cardeais da Doutrina. Somos uma comunidade composta de gente emancipada e por isso mesmo, o campo está sempre aberto ao estudo e à crítica. 

Certos observadores gostariam, por exemplo, que o Movimento Espírita fosse um “bloco maciço” sem nenhuma nota fora do conjunto. É uma pretensão utópica, pois não há um movimento religioso, político ou lá o que seja sem alguma voz discordante, aqui ou ali.

Tomava-se como referência, até bem pouco tempo, a “unidade monolítica” da Igreja Católica. Unidade relativa, diga-se de passagem. E o que se vê hoje? O fracionamento cada vez mais acentuado. Os grupos conservadores, porque se batem pela manutenção da Igreja tradicional, estão enfrentado os grupos renovadores, partidários de modificações estruturais; grupos que querem a Igreja fora da política estão em conflito com os grupos que querem justamente uma Igreja participante no campo político

Há, portanto, demanda de alto a baixo, com programas de reforma na teologia, como na administração e na disciplina eclesiástica. Logo, a Igreja não oferece hoje a unidade doutrinária que nos apontam às vezes, como modelo. E o Protestantismo, que é outro grande movimento religioso, não se divide em denominações e seitas, com características diferentes entre si? Batistas, presbiterianos, adventistas, congregacionalistas etc. Não desejo criticar procedimentos religiosos, pois todos os cultos são respeitáveis, mas estou anotando fatos.

Voltemo-nos para mais longe, fora da faixa ocidental, e lá está o Budismo, também um movimento expressivo. Não cabe, aqui, discutir se o Budismo é ou não religião. Seja como for, ocupa um espaço considerável, mas também se ramificou. Existe, hoje, pelo menos mais de uma escola budista. O Positivismo, que viera da França, teve muita força no Brasil, mas não se manteve íntegro, pois o grande bloco se desmembrou entre científicos e religiosos no século passado. Sobrevive, hoje, uma religião sem Deus, sem cogitação acerca da vida futura, mas um culto ritualizado, com sacerdócio. Muitos discípulos de Augusto Comte não queriam, de forma alguma, que o Positivismo se transformasse em religião e, por isso, eram chamados de científicos, ao passo que muitos outros absorveram logo o Positivismo como Religião da Humanidade. E realmente implantaram um culto religioso no Apostolado Positivista. Logo, também o Positivismo não conseguiu sustentar um padrão uniforme.

O fenômeno que se observa no meio espirita é muito diferente. Sempre houve divergências, mas não se quebrou a unidade doutrinária, que é fundamental. O Espiritismo continua a ser um só, inconfundível, não se dividiu em diversos espiritismos. Há, entre nós, opiniões discordantes em determinados aspectos, porém, os princípios são os mesmos, não se alteraram. Não formamos seitas nem correntes à parte, apesar das divergências. Então, não há motivo para que estejamos vendo desunião onde há simplesmente desacordo de ideias.

Deolindo Amorim

Fonte: Mundo Espírita, abril de 1984, Curitiba-PR. Órgão de divulgação da Federação Espírita do Paraná.


26 dezembro 2013

Evangelho - Francisco do Monte Alverne


EVANGELHO

Baseando no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo a predicação do apostolado que lhes compete, os Espíritos Superiores não se apegam a qualquer nuvem de mistério para sustentar o alimento à fé religiosa, em cuja renascença colaboram, na qualidade de homens redivivos.

É que a vida extrafísica promove, nos que pensam, mais altas ilações com respeito à realidade.

Se há leis que presidem ao desenvolvimento do corpo, há leis que regem o crescimento da alma.

Jesus no estábulo não é um fenômeno isolado no espaço e no tempo: é acontecimento vivo para o espírito humano.

Cristo-Homem veio plasmar o Homem-Cristo.

Há quem enxergue no Cristianismo a simples apologia do sofrimento. Acusam-no pensadores e filósofos vários, tachando-o em oposição à beleza e à alegria. Para eles, Jerusalém teria asfixiado a felicidade e o encanto da vida, a fluir vitoriosa e serena nos ajuntamentos da Grécia e de Roma.

Antes do Mestre, a única beleza espiritual, geralmente conhecida, era aquela das virtudes filosóficas e políticas que o homem representativo da escola, da justiça ou do poder mantinha, valoroso até à morte.

Com exceção de Çakia-Muni, o príncipe sublime que se retirou do mundo convencional para viver pelos seus semelhantes, os grandes heróis do pensamento aceitam a perseguição e o extermínio, mas, é força reconhecê-lo, com a vaidade dos triunfadores.

Bebem cicuta ou abrem as próprias veias, ilhados na fortaleza da superioridade individual. Sócrates é o filósofo sublime, confortado pela solidariedade dos discípulos. Sêneca é o professor honrado, que estimula com o sacrifício de si mesmo a indignação contra a tirania.

Com Jesus, a renunciação é diferente.

O Divino Crucificado sobe ao Calvário sem o apoio dos amigos. Suas últimas palavras são dirigidas a um ladrão. Sua morte não exalta o orgulho de um grupo, nem constitui incentivo à revolta. A ordem que lhe escapa do excelso comando é a de servir sem desfalecimento, com obrigações de amor, perdão e auxílio constantes, ainda aos inimigos. Seu olhar, do cimo da cruz, abarca o mundo inteiro.

Com Ele começa a agir o escopo do verdadeiro bem, operando sobre a dureza da animalidade o gradual aperfeiçoamento da alma divina.

As chagas que lhe cobrem o corpo representam o louvor ao trabalho de aprimoramento e elevação do espírito, iniciando a era de legítima fraternidade entre os homens.

O Evangelho é, por isso, o viveiro celeste para a criação de consciências sublimadas.

Nasce a mente na carne e nela renascemos, inúmeras vezes, buscando o sagrado objetivo do seu engrandecimento. E no intricado jogo das experiências compreende na dor o instrumento Idea da santificação. Recebendo os séculos por dias preciosos e rápidos de serviço, enceta a gloriosa carreira, com a juvenilidade da razão, amadurecendo-se na ciência e na virtude, através de reencarnações numerosas.
Conquista-se, sacrificando-se.

Quanto mais fornece de si em trabalho vantajoso a todos, mais se enriquece no mealheiro individual. Quanto mais distribui em amor, mais receber em poder.

Supera-se, quebrando limitações, doando o bem pelo mal; a simpatia pela versão; a claridade pela sombra. A Boa Nova oferece as medidas espirituais para que se atinjam as dimensões da vida genuinamente cristã, nas quais desfere o espírito excelso vôo para as Esferas Resplandecentes.

A carne é sagrada retorta em que nos demoramos nos processos de alquimia santificadora, transubstanciando paixões e sentimentos ao calor das circunstâncias que o tempo gera e desfaz.

Cada ensinamento do Mestre, efetivamente aplicado, é específico redentor, brunindo a alma imperecível, tornando-a obra viva de estatuária divina.

O que nos parece dor, é bênção.

O que se nos afigura sofrimento, é socorro.

Onde choramos com o espinho, recolhemos uma lição.

Daí o motivo de se escudarem os emissários de nosso plano na predicação de Jesus, desvelando aos homens os pórticos sublimes da era nova.

Quando fixarmos nas páginas vivas do próprio ser os ensinos do Cristo, afeiçoando-nos automaticamente a eles, tanto quanto se nos adaptam os pulmões ao ar que respiramos, habilitar-nos-emos ao programa de ação dos anjos, por enquanto incompreensível à nossa inteligência.

Quando o homem termina o repasto da ilusão aqui ou ali, perguntas milenárias lhe acordam, precípetes, à morte insatisfeita.

Donde venho? Para onde vou? Qual a finalidade do destino? Porque a lágrima?

– interroga, aflito, com ânsias análogas as de todos os vanguardeiros da vida superior que tiveram a coragem de partir, antes dele, para os cimos da imortalidade.

Quando o aprendiz indaga, experimentando autêntica sede da verdade, é, sem dúvida, chegado o momento iluminativo do Mestre.

Sem Jesus, que nos confere sublime resposta aos enigmas do caminho, converter-se-ia a existência em labirinto inextricável de padecimentos inúteis.

O Além é a continuação do Aquém.

Um século sucede-se a outro.

O filho é o herdeiro dos pais.

Não existe milagre.

Há lei, evolução, crescimento e trabalho com o prêmio da sublimação ao esforço.

O simples intercâmbio com a vida espiritual nada mais é que mera permuta de valores para estimular a experiência comum. Mas toda vez que encontrarmos o Evangelho do Senhor inspirando a renovação de nossa atitude pessoal, à frente do mundo, guardemos a certeza de que nos achamos em comunhão frutífera com a bendita claridade do Caminho, da Verdade e da Vida.


Pelo Espírito Francisco do Monte Alverne
Do Livro: Antologia Mediúnica do Natal 
Médium: Francisco Cândido Xavier


25 dezembro 2013

Natal de Amor - Joanna de Ângelis



NATAL DE AMOR

Jesus transcende tudo quanto a Humanidade jamais conheceu e estudou.
Personalidade singular, tem sido objeto de aprofundadas pesquisas através dos tempos, permanecendo, no entanto, muito ignorado.

Amado por uns e detestado por outros, conseguiu cindir o pensamento histórico, estabelecendo parâmetros de felicidade dantes jamais sonhada, que passaram a constituir metas desafiadoras para centenas de milhões de vidas.

Podendo ter disputado honrarias e destaques na comunidade do Seu tempo, elegeu uma gruta obscura para iluminá-Ia com o Seu berço de palha e uma cruz hedionda para despedir-se do convívio com as criaturas em Sua breve existência, na qual alterou totalmente as paisagens culturais do planeta.

Vivendo pobremente, em uma cidade sem qualquer significado social ou econômico, demonstrou que a inteligência e a sabedoria promanam do Espírito e não dos fatores hereditários, ambientais, educacionais, que podem contribuir para o seu desdobramento, nunca porém, para a sua gênese.

Movimentando-se entre multidões sequiosas de orientação, numa época de inconcebíveis preconceitos de todo gênero, elegeu sempre os indivíduos mais detestados, combatidos, perseguidos, excluídos, sem que abandonasse aqueles que se encontravam em patamares mais elevados na ribalta dos valores terrestres.

Portador de incomum conhecimento da vida e das necessidades humanas, falava pouco, de forma que todos lhe apreendessem os ensinamentos e os incorporassem ao cotidiano, sem preocupar-se com os formalismos existentes.

Utilizando-se de linguagem simples e de formosas imagens que eram parte do dia-a-dia de todas as criaturas, compôs incomparáveis sinfonias ricas de esperanças e de bênçãos que prosseguem embalando o pensamento após quase dois mil anos desde quando foram apresentadas.

Nunca se permitiu uma conduta verbal e outra comportamental diferenciadas. Todos os Seus ditos encontram-se confirmados pelos Seus feitos.

Compartilhando da companhia dos párias, não se fez miserável; atendendo aos revoltados, nunca se permitiu rebelião; participando das dores gerais, manteve-se em saudável bem-estar que a todos contagiava.
Jovial e alegre, cantava os Seus hinos à vida e a Deus, sem nunca extravasar em gritaria, descompasso moral ou vulgaridade de conduta.

Amando, sem cessar, preservou o respeito por todos os seres vivos, especialmente dignificando a mulher, que sempre foi exprobrada, incompreendida, explorada, perseguida, humilhada...

Ergueu os combalidos, sem maldizer aqueles que os abandonavam.

Socorreu os infelizes, jamais condenando os responsáveis pelas misérias sociais e econômicas do Seu tempo.

... E mesmo quando abandonado, escarnecido, julgado e condenado sem culpa, manteve a dignidade incomparável que Lhe assinalava a existência, não repartindo com ninguém Suas dores e o holocausto a que se submeteu.

*

Jesus é mais do que um símbolo para a Humanidade de todos os tempos.

Mudaram as paisagens sociais e culturais no transcurso dos séculos, enquanto os indivíduos da atualidade continuam mais ou menos semelhantes àqueles do Seu tempo.

A dor prossegue jugulando ao seu eito as vidas que estorcegam em sua crueza; o orgulho enceguece vidas; o egoísmo predomina nos relacionamentos e interesses sociais; a violência dilacera as esperanças; o crime campeia à solta, e o ser humano parece descoroçoado, sem rumo.

Doutrinas salvacionistas surgem e desaparecem, propostas revolucionárias são apresentadas cada dia e sucumbem sob os camartelos dos desequilíbrios, filosofias multiplicam-se e generaliza-se a loucura dizimando as vidas que Ihes tombam nas armadilhas soezes...

Jesus, no entanto, permanece o mesmo, aguardando aqueles que O queiram seguir.

Uns adulteraram-Lhe as palavras, outros tentam atualizá-lO, mesclando Sua austeridade com a insensatez que vige em toda parte, procurando assim confundir a Sua alegria com a alucinação dos sentidos exaltados pelo sexo em desalinho, e, não obstante, nada macula Suas lições, nem diminui de intensidade a Sua proposta libertadora.

Educador por excelência, despertava o interesse dos Seus ouvintes, mantendo diálogos repassados de incomum habilidade psicológica, de forma a penetrar no âmago dos problemas existenciais, sem permitir-se reproche ou desdém.

Psicoterapeuta excepcional, identificava os conflitos sem que se fizesse necessária a verbalização por parte do enfermo, auxiliando-o a dignificar-se e liberar-se da injunção perturbadora em clima de verdadeira fraternidade.

Os poucos anos do Seu ministério, todavia, assinalaram a História com luzes que jamais se apagarão e continuarão apontando rumos para o futuro.

*

Por tudo isso, o Natal de Jesus é sempre renovador convite a uma releitura da Sua mensagem, a novas reflexões em torno das Suas palavras de luz, à revivescência dos Seus projetos de amor para com a Humanidade.

A alegria que deve dominar aqueles que O amam, evocando o Seu berço, ao invés de ser estrídula e agitada, há de espraiar-se como contribuição para diminuir as aflições e modificar as estruturas carcomidas da sociedade atual, trabalhando-as de forma a propiciar felicidade, oportunidade de trabalho, de dignificação, de saúde e de educação para todas as pessoas.

Distende, portanto, em homenagem ao Seu nascimento, a tua quota de amor a todos quantos te busquem, de forma que eles compreendam a qualidade e o elevado padrão do teu relacionamento espiritual com Ele, interessando-se também por vincular-se a esse Amigo de todas as horas.

Não desperdices a oportunidade de demonstrar que o Natal de Jesus é permanente compromisso de amor entre os Céus e a Terra através dEle, que se fez a ponte entre os homens e Deus, e que continua, vigilante e amigo, pronto para ajudar e conduzir todos aqueles que desejem a plenitude.


Pelo Espírito Joanna de Ângelis
Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, na noite de 7 de setembro de 2000, em Salvador, Bahia. 

24 dezembro 2013

Natal, Convite para Nascer de Novo - Maurício de Araújo Zomignani

 

NATAL, CONVITE PARA NASCER DE NOVO
 
Houve um tempo na terra, um tempo absolutamente fantástico no qual, em cumprimento de profecias longamente anunciadas, ocorreriam enormes transformações. Profetas muito respeitáveis e antigos tinham anunciado que, nesse tempo, profundas limpezas seriam realizadas. Esse tempo em que vivemos não é assim? Em 2012, profecias muito antigas que falam justamente em momentos de profunda transição na terra entre eras muito diferentes foram erradamente interpretadas e se pensou que o mundo iria se acabar. Como sempre a morte, que é transformação, foi interpretada como fim e quase ninguém entendeu.  Entre os que entendem, resta, soberana a grande questão: como devemos agir na Transição?

Aquele tempo nos oferece modelos que nos devem fazer refletir. Um deles, Herodes, representa todos os que estão acomodados, em nichos grandes ou mesquinhos de poder. Quem se julga no poder, por cima, quer mudanças? Herodes, apavorado com a mudança, mandou matar a mudança, anunciada como uma criança de zero a dois anos, mandando passar a fio de espada todas as crianças com essa idade. Como nós agimos com a mudança, com essa mudança que vem na roupagem da dor? Pedimos, imploramos pelo seu afastamento, pela sua eliminação, tentamos também matar a mudança. Mas será esse nosso melhor modelo?

Naquele mês fundamental, havia gente que estudava. Mas naquele tempo, tanto quanto neste em que vivemos, quase a totalidade da terra vive a vida sem refletir, e acaba passando a vida sem viver. Entre os que estudavam a vida não apenas refletindo, mas ouvindo os sábios e, principalmente, tentando ver os sinais da vida havia três, apenas três entre milhões, que estudavam a vida com as vistas voltadas para o céu. E foi assim que souberam dos anúncios, que perceberam o sinal que veio, creram nele, seguiram-no e foram os únicos três estudiosos a estar no mais importante lugar do mais importante momento da Terra. Nós também estudantes, também num mês especial, estaremos com nossas vidas voltadas ao alto?

Naquela noite, muitos milhões de pessoas trabalham. A quase totalidade de nós trabalhamos  fechados em nós mesmos, pensando nos ganhos, nos cargos, no destaque. Aqueles, no entanto, trabalhavam na seara do Senhor, em meio a um labor comum mas, com sua atitude, sua atividade tornava-se um hino de louvor a Deus. E foi assim mesmo que ouviram cânticos, viram os mensageiros, creram na mensagem que dizia da grande transformação, e conseguiram ser os únicos três trabalhadores que assistiram o mais importante fato histórico da terra. Entre os bilhões de trabalhadores de nossos tempos, quantos trabalharão assim?

Meses antes, uma jovem muito nova, uma noiva que estava prestes a se casar soube que estava grávida. Eram tempos de muita opressão e vigilância contra a mulher e uma noiva que engravidasse antes do tempo seria repudiada, expulsa, rejeitada por todos. Ela sabia que não estava grávida do seu noivo, o que agravava muito mais sua situação. Mas a notícia, segura, era que esperava um filho, e que seu filho seria o centro de toda a grande transformação que se iria operar na Terra. Terrível sua situação. Pois ela teve a confiança extrema de, primeiro, acreditar na mensagem, segundo, de aceitá-la, com a seguinte frase luminosa: Faça-se na escrava a vontade do Senhor.

A maioria dos seres da terra foge apavorada das lições espirituais mais preciosas de suas vidas. 

Deixamo-nos tomar por uma cultura do terror que situa os fantasmas como terríveis monstros que nos infernizam a vida. Pois o Espiritismo vei nos dizer que um dia seremos apenas fantasmas, pois todos iremos morrer e se viermos à Terra, com saudades ou tristezas, poderemos ser vistos como entes assustadores por aqueles a quem mais amamos. E o medo, pior ainda, o terror, são poderosas trancas que fecham as nossas almas para maravilhosas lições que o mundo espiritual nos tenta, o tempo todo, ensinar.

O que há em comum entre os reis magos, os pastores e Maria? E o que eles têm a ver conosco? Todos eles viviam vidas comuns, com atitudes comuns e o mundo espiritual se lhes abriu para transformar suas vidas com o momento mais especial não só de suas existências, mas nas de toda a história da humanidade. A luz se abriu para eles, no entanto, como se abre todos os dias para nós e não vemos. Para eles o resultado foi muito diferente porque suas atitudes foram muito diferentes daquelas adotadas pela maioria da humanidade. 

Por que num momento tão solene foram escolher uma adolescente simples, um carpinteiro humilde? Porque humildade e simplicidade são valores poderosos, capazes de nos abrir todas as possibilidades. Por que, entre dezenas de milhões de trabalhadores, centenas de milhares de estudiosos, somente aqueles seis homens presenciaram a poderosa aurora espiritual da humanidade? Porque suas atitudes devotadas e confiantes os tornaram os únicos seres capazes de aproveitar aquele precioso momento do mundo.

Também nesses nossos tempos críticos de transição planetária, como anunciado por Jesus, nós trabalhamos, estudamos, nos relacionamos, mas com que olhos, ouvidos, com que atitude?

Pois trinta e três anos depois daquela inesquecível noite, a Mudança veio à casa de duas irmãs. Jesus e seus seguidores vieram sem avisar e, nessa situação, quais seriam nossas preocupações e ações? Pois uma das irmãs, Maria, ficou sentada ao pé de Jesus ouvindo suas estupendas lições enquanto a outra limpava, arrumava, cozinhava, atrapalhadíssima, acabando por vir se queixar ao Mestre. Não te importas que só eu trabalhe? Diga a Maria que venha servir comigo! Pediu ela, obtendo como resposta: Marta, Marta, tu te perturbas com muitas coisas...  Maria escolheu a melhor parte e essa não lhe será tirada!

Vem agora nosso próprio mês especial, dezembro. Nesse mês, espíritos de luz em mutirão vêm à Terra e produzem o que se convencionou chamar de “espírito de natal”.  Uma espécie de Oásis no imenso deserto em que transformamos nossas vidas, uma brisa refrescante nesse terrível calor materialista que nos sufoca. Nessa época como que um perfume maravilhoso se espalha em todos os ambientes tentando instalar em nossas vidas um momento diferente, feliz, amoroso a nos incentivar a buscar a felicidade e o amor.

É mês de Natal e quais são nossas preocupações e ações? Presentes, preparações e comidas? A criança imediatista pensa o Natal em função dos presentes materiais. Vigia os embrulhos nas mãos dos convidados como se as pessoas não existissem, sequer os cumprimentando se seus embrulhos não trazem os brinquedos que tanto desejam. Os adultos materialistas pensam o natal em função dos empregos que, nessa época, efetivamente aumentam, sem perceber as oportunidades mais amplas que para eles se abrem. Pois, como disse Paulo, quando eu era menino agia e pensava como menino, mas agora que eu cresci penso e ajo como homem.

Quantos de nós estaremos vivendo com os olhos voltados ao mundo espiritual que se abre para nós de forma tão espetacular? Pois é ele, ele mesmo que bate à nossa porta nessa noite tão especial: Papai Noel? É ele que, através de seus iluminados emissários, nos vem trazer frescores, perfumes, presentes essenciais à nossa autotransformação. Nos quintais, crianças brincam imitando seus ídolos, assumindo seus nomes. E nós, o que faremos, quem seremos, Herodes ou Reis Magos, Marta ou Maria? Temos uma grande decisão a tomar.

Pois esse é o convite de todos os natais, mas muito especialmente do natal da transição planetária. Se você não se deixar amesquinhar pelos interesses, vaidades e mal entendidos produzidos pelo orgulho, você certamente se deixará envolver pelo espírito de natal e então, como aquele mesmo trabalhador que melhor desempenha suas funções durante o trabalho temporário, você poderá ser efetivado e ter harmonia e paz do mundo regenerado por toda a eternidade.  



23 dezembro 2013

Eu Gostaria - Guilherme March




EU GOSTARIA
 

Eu gostaria Jesus,

Gostaria que Tu olhasses Para minha alma, 

 Para minha pobreza espiritual, 

Para minha vida na Terra. 

Gostaria que Tua misericórdia Me abraçasse, 

Que ouvisses o meu cantar que roga, 

Em silêncio, Tua caridade. 

Gostaria que Tua sabedoria 

Me levasse aonde o Pai do Céu quiser,

Para o meu coração aprender 

A louvar-Te como Guia e Modelo da Humanidade. 


Jesus, 

Gostaria que o Natal abrisse 

As comportas do Céu, para que todos 

Experimentem os favônios do Teu Reino. 


Mestre, 

Que o Natal possa fazer a revolução do espírito, 

Que gera esforço, boa vontade, tolerância, 

Bom senso, confiança no trabalho, 

Bondade, riqueza no tempo e felicidade; 

Essa revolução que nós necessitamos, 

Para que a paz reine no mundo, 

Principalmente no mundo da alma. 


Guilherme March 

Psicografia do médium Raul Teixeira, em 27.10.2013, em Niterói, RJ.


22 dezembro 2013

Diante - Eurípedes Barsanulfo


DIANTE DA CRISE

“Irmãos queridos.

Diante dessa crise que se abate sobre nosso povo, face a essa onda de pessimismo que toma conta dos brasileiros, frente aos embates que o país atravessa, nós, os seus companheiros trazemos na noite de hoje a nossa mensagem de fé e de coragem e estímulo. Estamos irradiando-a para todas as reuniões mediúnicas que estão sendo realizadas neste instante, de norte a sul do Brasil. Durante vários dias estaremos repetindo a nossa palavra, a fim de que maior número possível de médiuns possa captá-la. Cada um destes que sintonizar nesta faixa vibratória dará a sua interpretação, de acordo com o entendimento e a gradação que lhe forem peculiares.

Estamos convidando todos os espíritas para se engajarem nesta campanha.

Há urgente necessidade de que a fé, a esperança e o otimismo renasçam nos corações. A onda de pessimismo, de descrédito e de desalento é tão grande que, mesmo aqueles que estão bem intencionados e aspirando a realizar algo de construtivo e útil para o país, em qualquer nível, vêem-se tolhidos em seus propósitos, sufocados nos seus anseios, esbarrando em barreiras quase intransponíveis. É preciso modificar esse clima espiritual. É imperioso que o sopro renovador de confiança, de fé nos altos destinos de nossa nação varra para longe os miasmas do desalento e do desânimo. É necessário abrir clareiras e espaços para que brilhe a luz da esperança.

Somente através da esperança conseguiremos de novo, arregimentar as forças de nosso povo sofrido e cansado.

Os espíritas não devem engrossar as fileiras do desalento. Temos o dever inadiável de transmitir coragem, infundir ânimo, reaquecer esperanças e despertar a fé. Ah! A fé no nosso futuro! A certeza de que estamos destinados a uma nobre missão no concerto dos povos, mas que a nossa vacilação, a nossa incúria podem retardar. Responsabilidade nossa. Tarefa nossa. Estamos cientes de tudo isto e nos deixamos levar pelo desânimo, este vírus de perigo inimaginável. O desânimo e seus companheiros, o desalento, a descrença, a incerteza, o pessimismo, andam juntos e contagiam, muito sutilmente, enfraquecendo o indivíduo, os grupos, a própria comunidade. São como o cupim a corroer, no silêncio, as estruturas. Não raras vezes, insuflado por mentes em desalinho, por inimigos do progresso, por agentes do caos, esse vírus se expande e se alastra, por contágio, derrotando o ser humano antes da luta.

Diante desse quadro de forças negativas tornam-se muito difíceis quaisquer reações. Portanto, cabe aos espíritas o dever urgente de lutar pela transformação deste estado geral. Que cada Centro, cada grupo, cada reunião promova nossa campanha. Que haja uma renovação dessa psicosfera sombria e que as pessoas realmente sofredoras e abatidas pelas provações rudes, encontrem em nossas Casas um clima de paz, de otimismo e de esperança! Que vocês levem a nossa palavra a toda parte. Aqueles que possam fazê-lo, transmitam-na através dos meios de comunicação, precisamos contagiar o nosso Movimento com estas forças positivas, a fim de ajudarmos efetivamente o nosso país a crescer e caminhar no rumo do progresso. São essas forças que impelem o indivíduo ao trabalho, a acreditar em si mesmo, no seu próprio valor e capacidade. São essas forças que o levam a crer e lutar por um futuro melhor.

Meus irmãos, o mundo não é uma nau à matroca. Nós sabemos que “Jesus está no leme” e que não iremos soçobrar. Basta de dúvidas e incertezas que somente retardam o avanço e prejudicam o trabalho.

Sejamos solidários sim com a dor de nosso próximo. Façamos por ele o que estiver ao nosso alcance. 

Temos o dever indeclinável de fazê-lo, sobretudo transmitindo o esclarecimento que a Doutrina Espírita proporciona. Mas que também a solidariedade exista em nossas fileiras, para que prossigamos no trabalho abençoado, unidos e confiantes na preparação do futuro de paz por todos almejado.

E não esqueçamos de que, se o Brasil “é o coração do mundo”, somente será a “pátria do Evangelho” se este Evangelho estiver sendo sentido e vivido por cada um de nós.

Eurípedes Barsanulfo

Psicografada pela médium Suely Caldas Schubert, em 14 de setembro de 1983, no Centro Espírita Ivon Costa, em Juiz de Fora, MG.


21 dezembro 2013

Você trabalha pela Causa do Cristo ou pelas pessoas? - Wellington Balbo



VOCÊ TRABALHA PELA CAUSA DO CRISTO OU PELAS PESSOAS?

Vira e mexe escuto comentários do tipo: “Não irei mais fazer trabalho voluntário neste local, pois fulano é muito complicado e eu não preciso disto”.

“Credo, como beltrano é difícil, irei embora, tem tantas instituições em que eu posso ajudar e por que vou ficar aqui sofrendo?”.

“Acho que joguei pedra na santa ceia, meu Deus, como é impossível aturar ciclano”.

Pior ainda quando alguém coloca o coordenador da instituição contra a parede e tasca uma dessas: “Ou ele ou eu!”.

Ai a coisa ficou feia de vez.

Há, porém, um detalhe importante que poucos observam:

O mestre ensinou a importância de conviver apesar dos pesares, apesar das diferenças e apesar das ingratidões.

Evidentemente não estou dizendo que você deve levar “lambada” o tempo todo. No entanto, imagine se Jesus “abandonasse” o barco porque fulano é traidor, ou porque ciclano o negou sei lá quantas vezes...
Já pensou?

Você, claro, poderá me dizer: “É, mas não sou Jesus”.

Sim, não posso tirar sua razão, você não é mesmo Jesus, entretanto, considere que se fosse impossível Jesus não teria nos ensinado a importância de conviver e trocar experiências com os mais diversos espíritos, apesar dos pesares...

Qual o mestre que ensina coisas que os discípulos ainda não têm condições de entender e aplicar?

Pois bem, se Ele ensinou e exemplificou, ou seja, mostrou o caminho, é possível todos nós conseguirmos trabalhar sem abandonar a “Casa” e a “Causa”.

Basta apenas, digamos, mudar o foco e trabalhar pela Causa.

E ai está o “X” da questão:

Trabalhar pela Causa e não pelas pessoas.

Isto mesmo.

Se trabalharmos pela Causa e  não pelas pessoas o a abordagem e compreensão tomam outro rumo.

Se trabalho pela Causa não irei me sentir mais tão atacado, tão incomodado pela atitude dos outros porque sei que meu trabalho está incluso num objetivo maior, mais amplo e que transcende as “abobrinhas” do dia a dia.

Por isso, como cristão devemos trabalhar pela Causa do Cristo.

Quando trabalho pelas pessoas qualquer desentendimento com o próximo pode gerar o abandono da Causa.

Todavia, quando o trabalho é pela Causa coloco-me na posição de quem irá superar os desafios da convivência e seguir adiante, apesar dos pesares...

E como comentamos acima, é muito comum pessoas deixarem projetos bacanas de lado porque não se dão com o dirigente ou com alguém que está na equipe.

É porque trabalham apenas pelas pessoas, preocupadas apenas com as pessoas, com o que os outros pensam fazem...

Todavia, quando meu trabalho é pela Causa e não pelas pessoas poderão passar Céus e Terra, mas eu estarei firme e forte porque a Causa é bem maior do que os superáveis desentendimentos com as pessoas...

Pensemos nisto.