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25 setembro 2018

Convite à Probidade - Joanna de Ângelis



 
CONVITE À PROBIDADE



"... Cingidos de verdade e sendo vestidos da couraça da justiça." (Efésios: 6-14)

Consideras interiormente revoltado quanto ocorre em torno de ti e não poucas vezes vitimando-te também:

as circunstâncias negativas que proliferam cruéis, engendrando conflitos arbitrários que dizimam multidões inocentes sob o estrugir de guerras inexoráveis;

a fortuna que transita, passando de cofre a cofre, nos quais a usura coloca terríveis cadeados de dominação; enfermidades virulentas que desfalcam esperanças, enquanto decompõem corpos de linhas estéticas atraentes, reduzindo-os a escombros orgânicos em degeneração...

Vês a prosperidade dos maus, o júbilo sorrindo excelentes alegrias em bocas acostumadas à maledicência, à calúnia, e aplausos festivos aos que se demoram nas torpezas morais;

a tranquilidade dormindo em companhia dos usurpadores;

o poder retido em mãos que se levantaram para apoiar carnificinas e o luxo desenfreado naqueles que se estribam em desfrutar do lenocínio organizado, do negócio de tóxicos destruidores, os benefícios da criminalidade de vário porte...

Repassas, mentalmente, as tragédias que abalam as estruturas emocionais do homem com se tudo estivesse na Terra – esse imenso navio fundeado em muitos quilômetros de atmosfera – qual nau à matroca.

Incêndios surpreendendo magotes indefesos e os destruindo;

naufrágios em que perecem centenas de vidas, nos quais crianças e velhinhos são tragados pela voragem das águas volumosas;

desastres aéreos em que se aglutinam esposos e mães devotados ou parentes aturdidos que encetam viagens precipitadas para atenderem familiares enfermos ou negócios de urgência, vitimados pelo golpe da fatalidade;

homicídios que sofrem vítimas inermes, homens probos, corações honrados, e quantos infortúnios ocultos estão colocando travo de fel e ácido que requeima o espírito de milhões e milhões de corações?!

Não podes compreender a Justiça em face do sensacionalismo dos veículos de comunicação que se comprazem em expor as desditas e tragédias que acontecem em todo lugar.

Acalma, porém, as aflições, para refletir o insondável da tecedura da Lei que transcende as tuas pobres visões e os ângulos limitados da tua observação.

Está tudo certo ante as diretrizes funcionais de Deus.

Ocorre que no palco dos homens, mudam-se os cenários, trocam-se as idumentárias, mas as personagens são as mesmas: vão e tornam acumpliciadas com novos grupos que aderem espontaneamente às tragédias, às comédias, às exibições dos dramas do cotidiano, sob o impositivo da Lei.

A vítima inocente de hoje é o sicário impiedoso de ontem.

O trêmulo velhinho de agora justiçado, continua sendo a mão do verdugo passado, embora a idumentária cansada que o tempo carcome, mas que a Justiça Divina não olvidou.

A teu turno engendra causas positivas para que os efeitos da Leis não te alcancem na condição inevitável de alma sob o suplício do resgate penoso.

Não pratiques o mal porque a hora é má.

Não te despojes do bem porque te pareça inviável a ação elevada da Justiça e da misericórdia.

Recorda-te do Apóstolo Paulo e reveste-te da couraça da justiça para que disponhas da perenidade da paz.

Probidade é o estágio a que devem atingir os que encontraram Jesus, não obstante o clamor da perturbação, a balbúrdia inquietante das lutas ou as ciladas soezes da impiedade que grassa transitoriamente na Terra, nestes dias que precedem aos dias da vitória do Evangelho sobre todas as circunstâncias que amarfanham o espírito humano sedento de evolução.

Sê probo e honrado, especialmente quando escasseiam a honradez e a justiça na Terra.

Pelo Espírito Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Pereira Franco
Livro: Convites da Vida 
LEAL – Livraria Espírita Alvorada Editora



24 setembro 2018

O que devemos nós, esperar diante da vida? - Wellington Balbo



O QUE DEVEMOS NÓS, ESPERAR DIANTE DA VIDA


É muito comum considerarmos que por ocuparmos esta ou aquela posição, fazer parte desta ou daquela família, religião, país, ou estar nesta ou naquela condição devemos experimentar algum “privilégio” na passagem por este mundo.

Um favor dos “céus” aqui, uma “facilitada” acolá ou, quem sabe, uma “carteirada” da espiritualidade para que sejamos beneficiados de alguma forma. Afinal, merecemos, praticamos o bem, passamos um tempo na igreja, centro, templo e, segundo nossa visão, ficamos quites com o Pai do Céu, o que nos possibilitaria alguns benefícios extraordinários.

Quando não somos atendidos, frequentemente, exclamamos: Nossa! Mas eu fiz tanta coisa, ajudei tanta gente e recebo isto da vida?

E fulano, então? Ótima pessoa, vejam o que ocorreu com ele! Ah, dizem alguns, vida ingrata.

A questão 625 de O Livro dos Espíritos, em que os invisíveis apontam ser Jesus o modelo de comportamento a que o homem deve aspirar na Terra é das mais interessantes. E esta questão é, também, por uma série de razões, reveladora do que o homem pode esperar em sua passagem pela Terra. Vou me ater apenas a um ponto.

Sendo Jesus o ser mais evoluído que aqui esteve, o que lhe ocorreu? Teve, por acaso, uma estrada repleta de alegrias e gente grata por tudo quanto ele fez pela humanidade? Acaso Jesus teve tranquilidade para ministrar sua mensagem? Estenderam-lhe o tapete vermelho dando-lhe boas vindas? Certamente, você leitor e leitora, conhecem bem a saga de Jesus, o que lhe fizeram. Creio ser, portanto, desnecessário trazer aqui detalhes da traição, negação por parte dos amigos, crucificação, calvário e etc. Como se costuma dizer: a vida de Jesus não foi bolinho. Alguns poderão discordar dizendo que Jesus veio dar o exemplo, por isso passou por todos aqueles constrangimentos. Esqueçamos, então, Jesus. Vamos para os grandes missionários, mas que estão, numa escala, abaixo do Galileu.

Como morreu Mahatma Gandhi? Ironia do destino, pereceu seu corpo físico justamente da forma contrária a que devotou sua vida. Pregou a paz, desencarnou pela violência, assassinado. O que dizer, então, de Chico Xavier, o brasileiro do século? Não obstante sua bondade e dedicação ao próximo teve a existência marcada pela ingratidão de alguns familiares, amigos próximos, limitações físicas e financeiras. Ao invés de tecer reclamações, informava ser grato às dificuldades, pois graças a elas conseguiu avançar.

Basta uma pálida observação na vida das grandes figuras da humanidade para constatar que, apesar da enorme missão, não contaram com nenhum tipo de privilégio ou regalia. Ao contrário, tiveram de “ralar” um bocado para atingir seus objetivos, ultrapassar barreiras quase intransponíveis, testar a capacidade de resignação, ressignificar suas vidas diante dos percalços, enfim, trabalhar o Espírito para que pudessem sair vitoriosos.

Até porque, é sabido que as facilidades acabam por distrair as pessoas dos objetivos que vieram desempenhar no mundo. Quando estamos ali, imersos em alguns desafios não nos sobra tempo para desvio e perdas de focos sempre tão prejudiciais. Claro que poderia ser diferente, ou seja, facilidades deixarem as coisas mais fáceis. Contudo, em boa parte dos casos não é assim, e as facilidades tornam-se caminhos para dificuldades no porvir.

Como diz o jargão popular: mar calmo não faz um bom marinheiro.

Pois sim, se não teve privilégio para o maior de todos, Jesus, o que devemos, nós, ainda distantes da qualidade moral de Jesus, esperar diante da vida e seus desafios?

Fica a indagação para refletirmos.


Wellington Balbo


23 setembro 2018

Cada um ao seu tempo - Márcio Martins da Silva Costa



CADA UM AO SEU TEMPO


Fazia pouco tempo que Pedro havia conhecido a Doutrina Espírita. Começou a frequentar uma Casa e estava maravilhado com os estudos e as atividades desenvolvidas.

A ideia de encontrar outros irmãos esclarecendo as mesmas dúvidas que tinha, trazia-lhe um grande conforto. Antes pensava ser o único a não entender o mundo dos Espíritos.

Não tardou a se envolver nos diversos trabalhos disponíveis no Centro. Ajudou a organizar campanhas, preparava estudos, frequentava as reuniões públicas e, sempre que podia, fazia-se presente nas diversas ações do movimento.

Todavia, começou a perceber que nem todos os amigos do início o acompanhavam. Todos sabiam que era necessário o apoio coletivo às campanhas, mas só ele e o pessoal antigo na Casa participavam. Todos eram convidados para os estudos, mas só alguns compareciam. Todos sabiam quando haveria reunião pública, mas só ele e alguns trabalhadores assistiam os expositores que falavam para uma pequena audiência de visitantes.

Chegou ao ponto de se irritar várias vezes, sempre questionando:

“- As pessoas não aprenderam que seria importante estarem ali? Por que não vêm? Não acordaram?”

*     *     *

Não, nem todos despertam ao mesmo momento.

Admitindo o processo da reencarnação, basilar da Doutrina Espírita, entendemos que somos seres milenares cruzando os séculos em experiências diferenciadas no corpo carnal.

Em contínua evolução intelecto-moral, vamos abandonando em cada existência as nossas imperfeições, tal como um diamante sendo lapidado gradativamente.

Se em uma encarnação cometemos erros, em algum momento adiante o arrependimento baterá a nossa porta, indicando a necessária e decorrente expiação para que possamos reparar o ato infeliz (1).

Na dinâmica deste processo evolutivo, alguns caminham mais rápido em direção a perfeição, enquanto outros se mostram mais lentos (2), iludidos pelas paixões terrenas.

Um simples olhar nas páginas da história irá nos mostrar valores culturais questionáveis, inaceitáveis nos tempos modernos. Quantas encarnações, a exemplo, vivenciamos na Idade Média, nascendo, renascendo e cometendo os mesmos erros, alheios às sucessivas oportunidades de evolução moral.

Com o avanço da humanidade, muitos de nós passamos a entender a mensagem do Nazareno, mas nem todos se esforçam por vivenciá-la.

Assim ocorre com aqueles que frequentam nossos Centros Espíritas, igrejas e templos, sem dar muita importância ao trabalho. De alguma forma já perceberam o quanto certas ações no bem são importantes, mas não se prendem a elas pela necessidade que sentem de atender em prioridade às demandas materiais.

Cada um ao seu tempo, vamos percebendo o quanto é importante o amor e a caridade estarem mais presentes em nossas vidas.

Logo, antes de julgar um irmão por acreditar que ele deixou de fazer algo, voltemos nossos olhos a nós mesmos, interrogando de maneira amiúde à nossa consciência quantas vezes erramos sem perceber e o que precisamos fazer para nos melhorar (3). Uma vez corrigindo nossos erros, nossas ações, por si só, servirão de exemplo e incentivo aos que ainda precisam despertar.


Márcio Martins da Silva Costa

Referências:

(1) KARDEC, A. O Céu e o Inferno. 61a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013a;
(2) KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Questão 117, 93a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013b; e
(3) KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Questão 919, 93a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013b.


22 setembro 2018

Busquemos o Imprescindível Alimento Espiritual - Devaldo Teixeira de Araújo



BUSQUEMOS OS IMPRESCINDÍVEL ALIMENTO ESPIRITUAL


Disse-nos Emmanuel, por meio da psicografia do notável missionário divino Chico Xavier, em sua obra “Pão Nosso”, c. 148: “…. Os abnegados operários do Cristo prosseguem onerados em virtude de tantos famintos que cercam a seara, sem a precisa coragem de buscarem por si o alimento da vida eterna. E esse quadro persistirá na Terra, até que os bons consumidores aprendam a ser também bons ceifeiros.”

E, relendo essa grandiosa lição, logo visualizo o cotidiano de nossa vivência em prática, quando percebo, por exemplo, queixas de pessoas que dispõem de todo apoio material e psicológico, até afetuoso, suficientes para serem felizes e, no entanto, vivem instáveis, com constantes momentos de desequilíbrios psicossomáticos, que as deixam relativamente infelizes, posto que somente nesses momentos. Mas, que se agravam, com a constância vivencial desses momentos.

Então, reflito e percebo a extensão das verdades ditas pelo primoroso Emmanuel… Os consumidores a que ele se referiu, necessitados do alimento da vida eterna, logo espiritual… Que, acostumados às facilidades que a modernidade proporciona, cada vez mais, no aspecto material, dos prazeres mundanos, em suas satisfações fisiológicas e até psíquicas, por suas ocupações mentais com diversões que mais alienam e perturbam, do que entretém educando, como deveria ser, elevando, alimentando a alma, para o seu equilíbrio e evolução, como verdadeiro prazer para os sentidos espirituais – buscando por si o alimento da vida eterna, a que se referiu Emmanuel.

Ou seja, acostumamo-nos a encontrar, sobretudo os que dispõem de recursos para tanto, tudo pronto e disponível, com o mínimo esforço, desde a alimentação, com os serviços de terceiros, até as diversões, como já citei… E, de certa forma, buscam estender tais hábitos materiais, como se fosse possível, às necessidades mentais, espirituais. E, assim, deixa-se de lado os bons hábitos da boa leitura, da seletividade do que se ouve e assiste, que possam entreter educando, instruindo, enlevando a alma, como verdadeiro alimento espiritual.

Por isso, sem que se perceba, sob tais ilusões efêmeras e a abstinência do alimento espiritual, advém os quadros de instabilidades e desequilíbrios notórios em nossa sociedade hodierna, quando, então, no desespero das aflições psíquico-espirituais, a busca, afinal, das soluções salvadoras, não raro, infrutíferas, quando não se desperta para a terapia do corpo e do espírito…

Nesse contexto, pensei e escrevi, outrora, a respeito da busca e ajuda espiritual em alguns casos: “…. Assim, em geral muitos obtêm substancial melhora dos estados doentios, quando há a força de vontade na aplicação das atitudes recomendadas, e se redimem dos processos enfermiços, mudando os hábitos enganosos, passando a compreender a realidade espiritual, com religiosidade, em equilíbrio e harmonia. O que corresponde à eficácia desejada nesses casos, para melhoria de todos e o progresso geral desejado, para uma vida melhor.

Entretanto, alguns tão logo se sentem melhor, restabelecidos, esquecem as recomendações, os aconselhamentos, como se sentindo curados de um ocasional problema meramente fisiológico, não assimilando os ensinamentos dados, tão pouco compreendendo a realidade espiritual vivenciada, e voltam aos hábitos de sempre… Infelizmente, então, atraindo novos problemas enfermiços, senão os mesmos… E o resultado todos sabemos ou é fácil imaginar: as intermináveis idas e vindas de buscas desesperadas e ajudas infrutíferas, como também, no final, as consequentes reencarnações corretivas, quanto sejam necessárias e possíveis. ….”

(Publicado no Blogdoteixeira.com.br – em 16.06.2014). Destarte, urge de todos nós a conscientização de nossa realidade espiritual, em perfeita e completa interação com a vivência existencial, como seres humanos, mas, espíritos eternos, necessitados de alimento espiritual.


Devaldo Teixeira de Araújo


Militantes político partidários, deixem o Espiritismo em paz - Wellington Balbo



MILITANTES POLÍTICO PARTIDÁROS, DEIXEM O ESPIRISTISMO EM PAZ


É muito natural, dentro do contexto que estamos vivendo em questões políticas, que o brasileiro e, claro, o espírita, debata, discuta e argumente em favor do seu candidato ou partido político.

Faz parte do jogo democrático toda discussão saudável, que não extrapole os limites do respeito ao outro. Mas, se o espírita pode e deve exercer o seu direito de cidadão, ele deve, também, guardar respeito ao Espiritismo no que concerne ao tema político partidário.

Se pode debater, argumentar, defender seu candidato, deve fazê-lo longe das lides espíritas, porque o Espiritismo não se vincula a questões político partidárias. Também está fora do campo de ação do Espiritismo informar se quem vota no candidato A é bom ou mau caráter, ou se quem defende o partido B tem o nível moral elevado. Aliás, são as ações e não a escolha do candidato que dirá se alguém é ou não um indivíduo moralizado.

São diretrizes de Kardec que nas reuniões espíritas não se discuta política, economia e religião. O objetivo do Espiritismo é outro, bem outro, e é muito mais abrangente do que saber em quem ou qual partido nós votamos ou apoiamos.

O que vemos hoje, porém, é um cenário bem diferente do que pediu Kardec. Em face da polarização e do grande interesse do brasileiro/espírita por política, há um movimento que engloba gente de todas as preferências políticas e partidárias a recortar frases de Kardec e dos Espíritos e adequar conforme as suas conveniências, de modo a colocar o outro, ou seja, o adversário político como alguém “malvadão”, ruim, uma espécie de sub grupo da humanidade porque não “reza” em sua cartilha.

Os adversários políticos são justamente aqueles que devem ser combatidos pelo motivo de “faltarem” com a caridade que, diga-se, é uma das bandeiras defendidas por Kardec ao longo de sua obra.

Quem assim age desconhece a postura serena de Kardec a sinalizar que o campo espírita não é palco para este tipo de jogo, até porque a caridade anunciada por Kardec é muito mais profunda do que proposta de partido político ou qualquer outro plano de governo.

Há muito a fazer no campo espírita, muito a trabalhar, a divulgar, a levar adiante a doutrina tal como foi concebida por Kardec e os Espíritos. Enquanto gastamos fôlego, tinta, tempo e energia tentando provar quem dos políticos fez mais ou menos, uma infinidade de pessoas atenta contra a própria vida, sedentas que estavam do genuíno conhecimento espírita que poderia dar-lhes uma melhor qualidade de vida, poupando-lhes o triste ato.

Paro por aqui nos exemplo, pois vão aos milhares…

Por essas e outras é que peço:

Militantes político partidários, deixem o espiritismo em paz!


Wellington Balbo 

21 setembro 2018

Haverá Destino para o Mal? - Richard Simonetti



HAVERÁ DESTINO PARA O MAL?


Qualquer pessoa medianamente informada conhece o complexo de Édipo, consagrado por Sigmund Freud (1856-1939), como a tendência de se ligarem os filhos às suas mães, em oposição aos pais.

Freud inspirou-se numa tragédia grega: Édipo Rei, de Sófocles (495-406 a.C.). Édipo, segundo os oráculos, mataria seu pai e se casaria com a mãe, o que efetivamente aconteceu, numa fantasia recheada de lances dramáticos e mirabolantes, bem ao gosto da mitologia grega.

A tese de Freud, porém, não resiste aos fatos. Há filhos “vidrados” na figura paterna. Além disso, a afinidade ou animosidade entre pais e filhos decorre muito mais de ligações harmônicas ou conflituosas de vidas anteriores.

Se alguém reencontra no pai um rival do passado, quando disputavam o amor de uma mulher, hoje possivelmente ligada a ambos como mãe e esposa, enfrentará conflitos em seu relacionamento. Em contrapartida, dar-se-á muito bem com o genitor que foi amigo ou familiar ligado ao seu coração.

E há que se considerar o comportamento. Se não cultivarmos valores elementares de convivência civilizada – compreensão, atenção, respeito, tolerância, cooperação, solidariedade… –, os melhores amigos do pretérito nos parecerão figadais inimigos a nos aborrecerem no ambiente doméstico.

O aspecto mais interessante da famosa obra teatral de Sófocles diz respeito à fatalidade.

É possível alguém nascer com a trágica sina de matar o pai e casar com a mãe ou destinado a cometer atrocidades? Negativo. Não há o determinismo para o mal. Ninguém reencarna para ser suicida, alcoólatra, fumante, toxicômano, adúltero, traficante, ladrão, assassino, terrorista…

Comportamentos dessa natureza configuram um desatino. Jamais um destino!

Dirá o leitor amigo que o oráculo não teria acertado o sinistro vaticínio, se não fosse esse o fado de Édipo. Oportuno não esquecer, porém, que estamos diante de uma ficção, uma história da carochinha para adultos.

Questionará você: e quanto aos oráculos de hoje, representados por médiuns, pais de santo, cartomantes, quiromantes, astrólogos e quejandos? Não antecipam, efetivamente, o futuro?

Consideremos, em princípio, que eles falam de generalidades. Assim fica fácil. Se eu fizer dez previsões superficiais sobre seu futuro, envolvendo saúde, negócios, vida afetiva, família, viagens, pelo menos metade se cumprirá. Você ficará admirado de meus poderes premonitórios, tão entusiasmado com os acertos que não reparará nos desacertos.

E há um detalhe: se o “oráculo” revela que terei um dia muito difícil, cheio de contratempos, e acredito firmemente nisso, assim tenderá a acontecer. Estarei predisposto a encontrar “chifre em cabeça de cavalo”.

Obviamente, há indivíduos dotados de grande sensibilidade que podem “ler” em nosso psiquismo algo do que nos espera.

Nele podem estar registrados alguns compromissos que teríamos assumido ao reencarnar, conjugando família, profissão, trabalho, ideal… Mesmo assim, não poderá fazer afirmações taxativas, porquanto nem sempre cumprimos na Terra o que nos propusemos a realizar, no Além.

Há, também, desajustes no perispírito, nosso corpo espiritual, decorrentes de faltas desta existência ou precedente, tendentes a se refletirem no corpo físico, dando origem a males variados. Um sensitivo poderá identificá-los e nos falar a respeito. Não obstante, esses males não são inevitáveis. É possível, com o empenho de renovação e a prática do Bem, “depurar” o perispírito, favorecendo uma existência saudável.

O ideal é viver o hoje, procurando fazer o melhor, sem nos preocuparmos com o que virá. O futuro não está escrito. Há apenas esboços. O “texto definitivo” está sendo grafado por nossas ações.

Jesus sabiamente ensina, no Sermão da Montanha, que a cada dia basta o seu labor. Cuidemos de buscar o Reino de Deus em primeiro lugar, com o empenho do Bem, e tudo o mais, acentua o Senhor, virá por acréscimo da misericórdia divina.


Richard Simonetti
Fonte:  Kardec Rio Preto



20 setembro 2018

Brasil, Brasil, Brasil! - Orson Peter Carrara




BRASIL, BRASIL, BRASIL!



O planejamento de nossa atual encarnação, cuidadosamente elaborado pelos benfeitores espirituais, permitiu-nos renascer no Brasil, a querida Pátria que nos acolhe. A história do país, na colonização, nos embates para a construção da democracia e mesmo nos gigantescos desafios da atualidade – onde se incluem a violência e o tráfico, o contraste entre os interesses de variadas ordens e a corrupção, entre outros itens dispensáveis de serem citados –, também apresenta os benefícios de um povo aberto, feliz, descontraído, ardente na fé e na disposição.

É nosso querido Brasil, gigantesco em proporções geográficas e na diversidade que se apresenta em todos os aspectos! Bendita pátria!

 

Por outro lado, o país acolheu a Doutrina Espírita como nenhum o fez. Das sementes germinadas em solo francês, foi aqui que a grande árvore do conhecimento se fez gigante como o próprio país continental. E nós temos a felicidade de conhecer essa Doutrina maravilhosa que inspira ações de caridade – em toda a extensão da palavra –, convivência fraterna e amiga por toda parte. Apesar das dificuldades e limitações humanas que são nossas, individuais e coletivas, ele, o Espiritismo, espalhou e espalha seus frutos pelas mentes e corações que o buscam ou são beneficiados por sua imensa luz.

Estamos no mesmo país que recebeu o cognome de Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, justa e coerente adjetivação para um povo ameno, solidário, apesar das lutas próprias de nossa condição humana. É aqui que as variadas expressões religiosas se manifestam para conduzir mentes e corações; é também nessa terra querida que nasceram ou renasceram almas que conhecemos sob os abençoados nomes de Irmã Dulce, Zilda Arns, Chico Xavier, Divaldo Franco, Dr. March, Dr. Bezerra de Menezes, entre tantos outros ilustres filhos que lhe dignificam o nome, sendo impossível citar todos e mesmo especificá-los por área, tamanha a variedade e quantidade de benfeitores que aqui vieram e ainda aqui vivem.


Setembro lembramos a Pátria, desde os tempos escolares. Setembro também normalmente estamos às vésperas das eleições, como ocorre agora em 2018. Isso lembra responsabilidade, comprometimento, ética. Afinal, temos um compromisso com o país, com a coletividade brasileira. Qualquer cidadão está comprometido com a segurança, com os valores do país, com a obrigação moral da retidão e da gratidão, que se estendem por ações em favor do bem comum. É o dever! Não apenas um dever cívico, mas o dever moral para conosco mesmo e para com o próximo, como indica o Espírito Lázaro em O Evangelho Segundo o Espiritismo.


Aliás, lembrando a Codificação Espírita, há que se ater às Leis Divinas, didaticamente apresentadas pelo Codificador em O Livro dos Espíritos. Leis que baseiam-se no amor, diga-se de passagem, mas igualmente são justas e misericordiosas.


Por tudo isso, a reflexão sobre nosso papel de brasileiros perante a Pátria Brasileira inclui-se igualmente no dever, ainda que apenas por gratidão pelo país que nos acolhe, garantindo-nos a paz desse foco irradiador de trabalho e fé que é o Brasil. Tamanho compromisso dispensa corrupção, egoísmo e tolas vaidades. Pede-nos, isso sim, trabalho e dignidade, exatamente pelo alto compromisso que todos temos com a vida e seu significado. O que significa, em termos de eleições para outubro próximo, o compromisso com a decência e a escolha consciente sem outros interesses que não os da coletividade.


Mas, para a família espírita nacional e internacional, setembro tem ainda outro grande significado em todo esse contexto. Comemora-se o nascimento de Cairbar Schutel, que nasceu no dia 22, no ano de 1868, no Rio de Janeiro, instalando-se em Matão, no interior paulista, para ficar conhecido mais tarde como o Bandeirante do Espiritismo, justamente por essa consciência clara de compromisso com o bem. Matão, inclusive, realiza em setembro, o Encontro Cairbar Schutel, justamente para homenagear seu mais ilustre cidadão, em todos os tempos. Neste ano, com o diferencial marcante dos 150 anos de nascimento.


Esses exemplos todos, dentro e fora do movimento espírita, de grandeza moral, de trabalho em prol do bem coletivo, aliados ao compromisso coletivo do país com o fornecimento de bases espirituais sólidas para a humanidade, como já vem ocorrendo, motiva-nos a trabalhar mais e mais. Repare o leitor atento que, quando ouvimos o Hino Nacional, a emoção nos envolve completamente. É o sentimento de compromisso com a missão da Pátria que integramos. O renascimento no país não é obra do acaso. Indica comprometimento e programação sabiamente elaborada. Saibamos respeitar e cumprir o que antes prometemos.


O Brasil tem grande papel a exercer junto à Humanidade. Filhos dignos, espíritos preparados e nobres estão sempre presentes como autênticos faróis a conduzir a coletividade. Sejamos daqueles que honram nossa condição humana e brasileira! Exemplos não faltam.

 

Por gratidão, ao menos, ao querido e grandioso Brasil! Lembremo-nos: o planeta construído por Jesus teve na mente e planejamento do Mestre da Humanidade a 



Orson Peter Carrara


19 setembro 2018

O sofrimento silencioso - Adriana Machado




O SOFRIMENTO SILENCIOSO


Estamos vivenciando um momento em que vemos muitas pessoas buscando no suicídio a cura para as suas dores.

Estaria mentindo se disse que consigo imaginar o que sentem essas pessoas que, em razão de sua dor, chegam ao ponto de infringir uma das leis divinas mais perfeitas que é a Lei da Conservação. Como somos seres de outra localidade (plano espiritual), e para não desejarmos voltar à nossa origem antes do tempo, a cada existência terrena nos é imputada a vontade quase intransponível de nos manter aqui para vivenciarmos os momentos de alegria e de dor sem desejarmos fugir de nossa própria regeneração.

Estamos a séculos vindo e indo, repetindo os mesmos equívocos, buscando o nosso aprimoramento, caindo e levantando, nos melhorando pouco a pouco apesar de nossa teimosia em acreditar que a vida a ser valorizada é a material e não a espiritual.

Mas, estamos evoluindo. E como estamos enfrentando uma fase de mudança do estágio evolutivo planetário, para aqui ficarmos, precisaremos nos deparar conosco sem máscaras, sem véus. Assim, todos que para cá vieram (e ainda vem) reencarnados, estão preparados para se enfrentar ou enfrentar as experiências que nos farão enxergar quem somos, não significando dizer, todavia, que gostaremos do que veremos, ou que aceitaremos quem somos sem lutas íntimas.

Assim, sem fazer qualquer julgamento a quem quer que seja, percebo que, por nos vermos tão enfraquecidos em nossos valores íntimos, por não valorizarmos quem somos, não nos sentimos fortalecidos para enfrentarmos algumas experiências que, pela misericórdia divina, estaríamos à altura de vivenciá-las e, portanto, de alcançarmos o aprendizado merecido.

Por tal incapacidade, muitas vezes sem percebermos, buscamos um dos caminhos mais difíceis de trilhar, mas que, por nossa ignorância, nos parece o único apropriado: o de interromper a dor pela ausência da vida que acreditamos estar alimentando essa mesma dor.

Precisamos voltar a nos importar! Precisamos estar atentos às mudanças de atitude daqueles que estão ao nosso redor, precisamos estar atentos às nossas próprias mudanças internas!... porque podemos ser nós, daqui a um tempo, entristecidos profundamente por uma dor vivenciada, a nos afundar na lama da desesperança e não conseguirmos sair dela.

Se não voltarmos o nosso coração e mente para esta vida encarnada;
Se não voltamos a nossa atenção para a vida real, fora das redes sociais, fora da internet, fora da ilusão de que “todos têm uma vida melhor do que a minha”;
Se não valorizarmos cada experiência como uma benção divina a nos ensinar e nos fortalecer diante das adversidades;
Se não abraçarmos, com fé, a crença de que Deus é Misericordioso e Bom e que não agiria com menos amor do que um filho Seu que, diante de um filho da carne, só quer o melhor para ele;
Não conseguiremos perceber os dramas que nos rodeiam e, não chegaremos a tempo de socorrer a quem amamos ou, até pior, nos impedir de ir pelo mesmo caminho.

O problema é que, na grande maioria, essa dor é silenciosa. Ela vai preenchendo o nosso ser, sem nos apercebermos. Vamos desconsiderando os parcos avisos que a nossa consciência nos permite flagrar, achando que o que sentimos é simples, drama ou bobagem, e que as pessoas não nos escutarão porque veriam essa mesma dor como frescura. Sem sabermos, estamos alimentando uma doença que após alojada é difícil combater!

Percebo que tudo o que os nossos irmãos desalentados pela dor precisam é de alguém que possa mostrar-lhes um outro caminho, porque eles não estão mais aptos para achá-lo. Eles não precisam de julgamento, eles não precisam de nossa piedade, eles precisam de nosso consolo e atenção.

Que sejamos nós a ouvir e acalentar o nosso próximo. Que sejamos nós a indicar um caminho de amor e esperança[1] para que as cores da vida voltem a fazer parte da vida deste nosso irmão. Que não desistamos jamais de socorrer mesmo aqueles que parecem não querer o auxílio. É uma vida que precisa ser defendida!

Usemos de tantas horas quantas forem necessárias para o auxílio deste irmão, da mesma forma que gostaríamos que gastassem conosco no momento de nosso maior desespero.

Sem buscar nas crenças espíritas cristãs que me alimentam a alma, façamos isso, pura e simplesmente, porque precisamos uns dos outros.

O nosso silêncio ou o de nosso irmão pode ser o sinal de que precisamos nos movimentar urgentemente para a mudança deste caminho para a escuridão.

[1] Essa ajuda, dependendo do grau da dor de nosso irmão, precisa ser associada ao auxílio de um profissional que saberá desenrolar os fios embolados que embaçam a visão de um futuro melhor.





18 setembro 2018

Considerações sobre a cura - Manoel Philomeno de Miranda



CONSIDERAÇÕES SOBRE A CURA


Tudo quanto nasce, morre. É uma fatalidade inderrogável.

A vida, para viver, exige energia, e todo o processo vital, à medida que desempenha o mister, gasta-se, consome-se.

Todos os seres vivos, em consequência, nascem, vivem, enfermam, envelhecem e morrem.

Nesse panorama que se manifesta nos seres sencientes, tem lugar a dicotomia saúde/doença.

Nas criaturas humanas, esse fenômeno transcende o impositivo fundamental, dependendo do ser, em si mesmo, muito mais do que da fatalidade biológica.

O Espírito é sempre o responsável por todas as manifestações que surgem na organização molecular. É ele que modela o corpo de que se utilizará durante o périplo carnal, nele imprimindo as suas necessidades morais de acordo com o programa da evolução. É, desse modo, o agente responsável pelo equilíbrio ou destrambelho celular. A ocorrência tanto pode acontecer por ocasião das manifestações patológicas congênitas, como também sem qualquer influência da hereditariedade. Em muitas ocasiões, por impositivo da Lei de Afinidade, o Espírito é atraído para os futuros genitores, junto aos quais tem compromissos que lhe oferecem os genes propiciatórios à instalação das formas degenerativas ou não, de que se revestirá para os resgates que lhe são necessários.

A presença, portanto, dos fenômenos graves, de disfunções teratológicas, decorre dos títulos infelizes referentes aos comportamentos desastrosos em existências transatas.

Concomitantemente, em razão dos males praticados, vincula-se às vítimas que ficaram maceradas na retaguarda e não tiveram resistências morais para perdoar o que lhe sofreram, sendo atraídas pelo impositivo da identidade fluídica e vibratória, dando lugar aos transtornos obsessivos, às vezes, antes do berço...

Confundem-se, inevitavelmente, os gravames, dando lugar aos processos lamentáveis das doenças de variada etiologia, ampliadas pelas influências espirituais daqueles infelizes ora transformados em algozes inclementes.

Desde priscas eras, os seres humanos, inspirados pelos Espíritos nobres, compreenderam essa intercorrência, dando origem ao xamanismo, às pajelanças, por cujo conhecimento da vida espiritual elaboraram alguns processos de cura das enfermidades derivadas do convívio com os desencarnados em sofrimento.

Variando de denominação, os mortos influenciavam os seres humanos, sendo afastados, quando tal acontecia, através de métodos compatíveis com o seu estado de lucidez ou de ignorância.

Surgiram, então, os cerimoniais, os exorcismos, as técnicas variadas que o Espiritismo aprimorou nos memoráveis diálogos com os desencarnados nas reuniões mediúnicas especializadas, através de sensitivos adestrados e devotados à prática do bem.

Jesus, por conhecer a causalidade das ocorrências, usava a Sua autoridade moral para aplicação da terapêutica do amor, libertando os enfermos não somente das influências maléficas, como também das deformidades e degenerescências orgânicas.

Os extraordinários casos de pacientes cegos, surdos e mudos, da atormentada hemorroíssa, do portador de mão mirrada demonstram o Seu poder de agir nos tecidos sutis do períspirito, precipitando o movimento das moléculas que restauravam os órgãos, Nada obstante, sempre advertia aos recém-curados que preservassem a saúde moral, a fim de não insculpirem no organismo danos mais graves em decorrência da conduta insana.

A enfermidade, no entanto, não é um castigo ou punição divina de que o seu padecente se deve libertar de imediato. Possui uma função mais significativa, que é trabalhar os valores morais, aprimorá-los, enquanto desenvolve resistências íntimas para os futuros embates evolutivos…

Na atualidade, graças às conquistas da ciência e da tecnologia médica, aos saneamentos básicos, às contribuições da alimentação correta e aos programas de exercícios equilibrados, várias enfermidades dizimadoras têm recebido consideração adequada, algumas das quais já foram eliminadas, enquanto a vida física tornou-se mais longa e melhor... Entretanto, porque não tem havido correspondente desenvolvimento moral, equilíbrio ético nos relacionamentos e serviços de dignificação, proliferando os vícios dourados, a frivolidade e os desvios para os crimes, alguns hediondos, as mentes em desvario têm criado outras graves e dolorosas enfermidades que cobram elevados preços à insensatez e à irresponsabilidade.

Pululam os transtornos emocionais, os de natureza psíquica, assim como os tormentosos fenômenos cardiovasculares, neoplásicos, gástricos, ao lado dos males degenerativos e infecções que atingem cifras alarmantes.

O Espiritismo chegou à Terra para iluminar as consciências e consolar as emoções em desespero, sustentando os fracos e fortalecendo-os para oferecer conforto aos desesperados pela ausência física dos afetos que a morte lhes arrebatou do convívio, para curar os corpos e proporcionar bem-estar para um bem viver aprazível.

A fim de ser conseguido o mister, a Revelação Espírita objetiva, essencialmente, o trabalho de renovação moral para melhor de cada qual, de construção edificante, assim como o amealhar de valores edificantes.

A cura das enfermidades, antes de ter prioridade no conceito espírita, é menos relevante, porque possui um caráter secundário ante o impositivo precípuo do paciente, o Espírito, do qual procedem as ondas vibratórias contínuas que lhe proporcionam o equilíbrio ou o desconserto celular.

Comprova-se em outras áreas, na ciência médica, que o pensamento é portador de força ainda não totalmente mensurada.

A sua intensidade sobre a organização física, emocional e psíquica responde pelas ocorrências na área da saúde.

Cada um vive, portanto, sem dar-se conta no continente mental e experiencia na forma física tudo quanto cultiva no pensamento.

Contribuir-se espiritualmente para que as pessoas despertem para a sua realidade é dever que se impõe a todo discípulo do Evangelho restaurado, que advoga a Lei de Causa e Efeito como responsável por todos os acontecimentos humanos.

Prometer-se curas mediante as técnicas fluidoterápicas é maneira ineficaz para a boa propaganda da Revelação dos Imortais. O paciente recuperado que se não modifica interiormente volta à ribalta do sofrimento em decorrência da irresponsabilidade. Demais, nem todo doente se recuperará, em razão da necessidade evolutiva no estágio de resgate em que se encontra, vivenciando expiação redentora.

É compreensível a busca e a oferta de milagres na área da saúde. No entanto, a atitude correta é sempre a da cura interior, da instalação da saúde espiritual, que sempre proporciona paz e alegria, mesmo quando sob a injunção do sofrimento.

A biomédica, por sua vez, recomenda que a saúde integral é preservada quando os indivíduos mantêm condutas saudáveis, tanto do ponto de vista físico como emocional, cultivando pensamentos elevados que proporcionam clima de alegria e de paz.

O cultivar de tormentos de qualquer natureza, desde a moderna e vulgar área do erotismo, assim como da drogadição em fuga da realidade, a manutenção das paixões dissolventes, a cultura do ressentimento e do ódio, da competição desleal para a conquista das migalhas financeiras e dos destaques ilusórios na sociedade, evidentemente criam transtornos nas neurocomunicações, com a consequente presença de tóxicos mentais que desorganizam o raciocínio e contribuem para alguns distúrbios emocionais e também orgânicos.

A somatização de problemas responde pela presença de diversas enfermidades geradas pelo comportamento do paciente, dando lugar aos distúrbios gástricos, respiratórios, cardíacos e psicológicos.

A saúde mental é essencial para a conquista das outras expressões de bem-estar.

Conscientizar o indivíduo em torno dos seus compromissos para com a existência e a grave responsabilidade pela atual reencarnação deve ser o comportamento de todo aquele que deseja exercer a mediunidade curadora, auxiliando na causa de todos os fenômenos, ao tempo em que poderá fomentar a contribuição fluídica, a fim de atenuar ou liberar o sofrimento daqueles que buscam a paz.

Mantendo, porém, o esclarecimento de que a cura de um órgão não significa saúde real, porque o problema moral não resolvido ressurgirá em outro aspecto, em forma de nova doença.

Conversações de significado nobre, convivência fraternal, labor em favor do próximo, esforço pessoal para o cultivo do bem-estar, hábito da oração que eleva o ser a dimensões superiores da Vida, constituem a terapêutica preventiva para todos os males, ao mesmo tempo curativa, quando estão instalados os problemas na área da saúde.

Caberia repetir o provérbio latino elaborado pelo poeta romano Juvenal: Mente sã em corpo saudável.

Portanto, o compromisso do Espiritismo, embora a sua valiosa contribuição nos problemas da saúde humana, é com a modificação moral de cada ser, a aquisição do equilíbrio interior que se manifestará em forma de harmonia.

Além do mais, ter-se sempre em vista que uma existência, mesmo saudável, por mais longa que seja, alcança o final, consumida pela fatalidade da morte ou desencarnação.

Estar-se preparado para o Mais-além é a proposta sublime da Revelação dos Imortais.


Manoel Philomeno de Miranda
Psicografia de Divaldo Pereira Franco, na reunião mediúnica de 26 de fevereiro de 2014, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.


17 setembro 2018

A abordagem beligerante da desobssessão - Marcus Vinicius de Azevedo Braga



A ABORDAGEM BELIGERANTE DA DESOBSSESSÃO



1. A visão beligerante


O escritor argentino Eugenio Raúl Zaffaroni[1], no estudo do punitivismo com uma das facetas do Direito Penal, traz como uma das ideias centrais de suas pesquisas que o poder punitivo se construiu na sociedade moderna como uma forma de tratamento hostil para os seres humanos enquadrados em determinadas situações, negando-lhes a condição de pessoa, seus direitos fundamentais, legitimando para estes o tratamento estigmatizante, segregador. Um inimigo do Estado, em uma visão polarizada do mundo, que produz um estado de guerra permanente, que gera medo e coalizão, mas uma união de trincheira.

Essa visão do inimigo que deve ser perseguido e exterminado não figura apenas no Direito Penal punitivista, mas também surge no histórico religioso do fenômeno da Inquisição, como sistema jurídico canônico para combater a heresia, esta que seria capitaneada por uma entidade sobrenatural causadora de todo o mal, que agiria por meio de ardis e tentações.

Modelos tão antigos, mas tão atuais. 

Muito ódio permeia essas abordagens de questões religiosas e sociais, e olhando mais amiúde a literatura espírita sobre o fenômeno da desobsessão (a oficial e a controversa), sejam os livros mais técnico-procedimentais, sejam as obras mais romanceadas, figura por vezes, de forma sutil ou ostensiva, uma visão dos espíritos sofredores como inimigos a serem combatidos e expulsos. 

Um superdimensionamento conspiratório das organizações dos desencarnados em sofrimento, que é uma visão recorrente no Movimento Espírita, presente também nas falas e práticas, nas quais as pessoas revelam síndromes de perseguição nas quais atribuem suas mazelas aos obsessores, ou ainda, taxam de obsediado qualquer um que apresente opinião divergente do status quo. 

Esse discurso de medo, que lembra as histórias de súcubos e de bruxas da Idade Média, ou ainda, lendas escapistas como o Boto no Brasil amazônico, alimentam uma visão teológica de medo e de delegação das responsabilidades individuais, com medidas saneadoras no sentido de se combater esse inimigo, que ainda que chamado de irmão, é visto não como alguém, mas como algo. 

 Alimentam-se, assim, paranoias, que abrem espaços, inclusive, para que as pessoas sejam vítimas da extorsão por médiuns interesseiros, ou ainda, para que se comportem como soldados de uma guerra sem sentido, buscando estratégias para atacar esse suposto inimigo, motivados no trabalho de assistência espiritual por fatores estranhos à essência dessas atividades. 

2. Quem é o inimigo?


Essa visão do inimigo do bem, do espiritismo, da casa, ou seja, “meu” inimigo, surge então na prática da desobsessão nas casas espíritas, constituindo mais um atavismo, uma importação de paradigmas de tempos inquisitoriais, ou de outras denominações religiosas, que tem como foco o exterior, um mal alienígena que precisa ser expulso, ou exorcizado, e que devemos orar e vigiar, em um binômio que poderia ser traduzido como temer e se proteger.

Essa abordagem não adentra nas relações que suportam o processo da obsessão, as paixões, os compromissos passados, e traz tudo para uma visão de uma eterna labuta entre o bem e o mal, como se existissem dois poderes rivais no governo do mundo, e que devêssemos nos posicionar em relação a estes, em uma visão oriunda de uma época em que o homem se encontrava ainda incapaz de, pela razão, penetrar a essência do Ser supremo[2]. Uma matriz desumanizada e que difere em muito da visão da Doutrina Espírita dos atributos de Deus, e do nosso papel na evolução, como encarnados e como desencarnados.

Aí ouvem-se os discursos de que temos que estar atentos, pois querem derrubar o nosso trabalho. Narrativas mirabolantes de tramas que são feitas na espiritualidade para destruir reuniões, parecendo, por vezes, que em nossas residências estaríamos tranquilos e que basta nos filiarmos a um trabalho, para sermos objeto de uma perseguição desenfreada.

Terminamos assim por enxergar os espíritos desencarnados não como seres em evolução, como nós, mas como inimigos que precisam ser combatidos. E nesse desiderato, nos arvoramos como cruzados nas lutas contra as forças do mal das falanges desencarnadas. Esquecemos nossa natureza, que somos todos filhos de Deus, e preferimos o comodismo de um pensamento maniqueísta que busca bons e maus absolutos, indicando apenas a quem devemos combater. O mundo é mais complexo que isso.

Idealizamos heróis, vilões, e aventuras fantásticas, nas quais queremos arregimentar um exército e clamamos por união, motivados pelo medo do que poderá nos acontecer se não encararmos esse inimigo de forma coesa, como em uma organização militar, na busca de uma vitória de Pirro.

O espírito sofredor, agindo individualmente ou por meio de alguma organização, é um agente motivado por interesses, forças, desejos, paixões, como nós, e se busca agir contra casas e trabalhos, vociferando e ameaçando, merece de nós uma postura mais refletida, mais amena, para além de se colocar como inimigo em uma guerra, na qual não devemos nos alistar.

3. Quem é você?


Nesse sentido, a pergunta é qual o nosso papel nessa prática de lidar com obsessores e obsediados em nossas reuniões mediúnicas? Se focarmos em ardis, escaramuças e ainda, na busca da vitória que não virá, pois não é uma batalha, nos afogaremos nessa lógica de buscar o inimigo, e de expulsá-lo ou exterminá-lo, em um paradigma antigo, ainda que por vezes fantasiados por palavras doces e cândidas.

A atividade do dialogador, outrora chamado equivocadamente de doutrinador, não é uma tertúlia racional na qual se impõe a um contendor as nossas verdades, ou de uma doutrina. Assemelha-se muito mais a um esclarecimento ou acolhimento, do que um duelo verbal. Não resgatamos vítimas de obsessores, e sim buscamos atender espíritos que estão irmanados em um sofrimento mútuo, aparentemente vestidos de algozes e vítimas.

Não somos soldados. Somos vetores do amor.

Não podemos patrocinar visões incoerentes com a mensagem de amor do espiritismo, em propostas que fortaleçam o medo, a exteriorização das mazelas, relembrando a lição de Kardec[3], que indica que : “No tocante ao Espírito obsessor, por mau que ele seja, é necessário tratá-lo com serenidade mas ao mesmo tempo com benevolência, vencendo-o pelo bom procedimento, orando por ele”, ensinando-nos que a forma de vencer essa guerra é não vê-la como um confronto. Não nos cabe jogar querosene nessas fogueiras, e sim, água!

O problema não são os espíritos sofredores, magos das sombras, e as suas diversas formas de organização que apimentam a nossa imaginação, e sim como encaramos nas atividades mediúnicas essas interações. Agiremos da mesma forma de outrora, como uma guerra fluídica, energética, verbal, ou entenderemos que a nossa abordagem é que deve ser diferente, pautada no amor, no exemplo, e no conhecimento de forma instrumental que ajude aquele irmão a romper aquele ciclo?

Por óbvio, que quando o espírito se manifesta na psicofonia com ameaças e bravatas, é normal que tenhamos medo, mas é preciso compreender a lógica da causa e efeito trazida pelo espiritismo, e ainda, que nosso papel ali não é de guerreiro que combate o inimigo ali trazido, devendo dar respostas à altura, mas sim de um irmão pelo qual a espiritualidade instrumentaliza o atendimento aquele outro irmão em humanidade, e ainda aproveita aquela interação para ensinar lições profundas a todos que participam da reunião.


4. Conclusão 

O livro “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, uma obra pouco lida, citada e estudada, trata mais do que da Justiça Divina, e sim da quebra dos paradigmas da teologia cristã, mostrando que o espiritismo enxerga essas relações metafísicas de outra forma, consoante com a visão de um Deus justo e bom, e ainda, das vidas sucessivas.

O fracasso dessa quebra de paradigmas se reflete em práticas e discursos, e no caso discutido aqui, em nossa visão dos espíritos sofredores e da abordagem dada na interação com estes.

A visão do obsessor inimigo, que quer nos derrubar, mascara pela sua polarização as relações de nossas reuniões, nem tão perfeitas e ungidas assim, e desses espíritos, desorientados e que sustentam ameaças para esconder as suas fraquezas. Fiéis à essência do pensamento espírita, enxerguemos o amor como remédio que cura doentes na atividade de obsessão, e não antagonismos que partidarizam grupos, e superestimam nós e eles, quando na verdade somos todos viajores dessa longa estrada chamada evolução.


Marcus Vinicius de Azevedo Braga

Referências:

[1] ZAFFARONI, Eugenio Raúl. O inimigo no direito penal. Tradução de Sérgio Lamarão. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2007. (Coleção Pensamento Criminológico).

[2] KARDEC, Allan. O céu e o inferno. [tradução de Manuel Justiniano Quintão]. 61. ed. 1. imp. (Edição Histórica) – Brasília: FEB, 2013.

[3] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução da 2ª. edição francesa por J. Herculano Pires. São Paulo – LAKE, 2004.


16 setembro 2018

O Museu do Rio de Janeiro - Divaldo Pereira Franco



O MUSEU DO RIO DE JANEIRO


Todos nós, brasileiros, lamentamos profundamente o esperado incêndio do museu histórico do Rio de Janeiro, responsável por 200 anos de brasilidade, sob vários aspectos.

Narra a imprensa que a questão de segurança vinha sendo debatida desde há muito, sem que as necessárias providências fossem tomadas com seriedade, o que facultou a terrível catástrofe.

Enquanto as labaredas consumiam parte da nossa história, não nos foi possível ficar indiferentes àquela consumpção decorrente da irresponsabilidade humana. Recordo-me de quando Hitler em 1933 celebrou com os seus asseclas a queima dos livros escritos por judeus, iniciava, dessa forma, a futura cremação de seres humanos nos seus campos de trabalhos forçados e câmaras de gás…

Visitando Dachau, lembro-me de uma frase de grande poeta ali exposta: “Quando se queimam livros, mais tarde se queimarão seres humanos”. Era uma profecia macabra que se fez real e chocou a humanidade.

A história de uma nação é a sua alma, são os seus feitos, suas glórias e quedas, suas experiências vitoriosas ou infelizes, páginas vivas que contribuirão em favor do seu e do futuro do povo.

Milhões de documentos valiosos transformaram-se em cinza, e hoje permanece o esqueleto carbonizado do edifício grandioso, que um dia foi residência da família real que governou o País.

Nunca mais será possível recuperar-se qualquer peça, porque nenhuma providência foi tomada, mesmo durante o incêndio, para ser salva.

Os que viram o fogaréu ficaram imobilizados…

Tive ocasião de visitar Oradour, cidade francesa que os nazistas destruíram durante a Segunda Guerra Mundial, por falso motivo de receber e esconder partisans (guerrilheiros patriotas), não deixando vivas sequer as plantas. A cidade fora cercada e aniquilada com todos os seus habitantes e animais. Posteriormente, o general Charles de Gaulle, ao tornar-se presidente da França, tornou-a patrimônio da humanidade através da Unesco, como lição viva da barbárie humana.

Quantos extraordinários documentos desapareceram para sempre, fotografias, pinturas, trabalhos científicos e peças de arte foram consumidos, deixando-nos ignorantes da própria história.

As futuras gerações estarão órfãs desde agora de poderosas e legítimas fontes de informações a respeito do belo país em que renasceram.

O Brasil, dizem muitos notáveis periodistas, é “um país sem história”, o que se torna lamentável, considerando-se a sua grandeza e o seu destino espiritual e cultural.

Que a infeliz ocorrência pelo menos sirva de advertência às autoridades responsáveis por outros patrimônios vivos desta grandiosa pátria do Cruzeiro do Sul, fadada à construção de uma sociedade justa e plenamente feliz.


Divaldo Pereira Franco
Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, em 06-09-2018.

15 setembro 2018

A bolha de felicidade dos espíritas - Cláudia Rocha Azevedo



A BOLHA DE FELICIDADE DOS ESPÍRITAS



Não é muito clara a informação sobre quem cunhou o termo bolha para designar pessoas que se isolam e nem quando foi usado pela primeira vez, no entanto, ele tem sido utilizado cada vez mais nas mídias sociais para se referir a pessoas que vivem apenas em um tipo de ambiente, por exemplo, o indivíduo que só assiste a séries, ou aquele que não sai do facebook ou ainda aquele que vive no Instagram etc., abdicando da vida social, afastado de todos.

Ao participar de várias casas espíritas, em cidades diferentes, grupos de estudo e grupos pela internet, observa-se um fenômeno muito interessante: a bolha da felicidade, da bondade e da boa intenção. E isso não é necessariamente ruim, é apenas um fenômeno.

Desconectados da realidade política, cultural e social e da subjetividade inerente aos humanos, os espíritas vivem num falso nirvana, apregoando um amor que são incapazes de sentir, enrodilhados pelas questões emocionais que se recusam a olhar. É como se, frente ao espelho de suas próprias dores e dificuldades, eles preferissem olhar para o que está além do espelho, reforçando assim sua bolha.

Imersos em suas questões internas, emocionais, como todo indivíduo encarnado e quiçá desencarnado, preferem levantar bandeiras de paz, de união, de caridade, as quais estão muito longe de poder suportar.

Dividem-se então entre aqueles que sequer cogitam nas questões emocionais e aqueles que cogitam, mas que acham que boa intenção, prece, passes, água fluidificada e ‘trabalho na seara’ são suficientes para curar ou mesmo aliviar, muitas vezes, uma infância negligenciada, desprovida de afetos saudáveis, vítima de violência doméstica, sexual ou de abandono. E mesmo aqueles que não viveram situações tão limites, mas ainda sim têm suas questões, como luto mal resolvido, inseguranças, medos, crises de ciúme, ambiente familiar ou profissional doloroso etc. não percebem a importância de olharem para si mesmos e se lançam a cuidar dos outros, em vez de cuidarem de si, num afã interminável e muitas vezes improdutivo.

Tanto é que muitos cansam do espiritismo e vão procurar outras praias porque apenas o conhecimento espírita, sem seu contexto verdadeiramente humano, acolhedor e como ferramenta de autoconhecimento, não dá conta do imenso complexo físico, mental, emocional, espiritual, social, cultural que cada ser é.

E como isso é observável? De várias maneiras. Uma delas é pela exclusão daqueles que não se encaixam perfeitamente neste modelo romantizado. Tudo vai bem até que alguém, com intenção ou não, provoca um pequeno cisma ou uma pequena marola na relação idealizada e então todo pretenso amor ao próximo, que deveria traduzir-se em acolhimento ao indivíduo, transforma-se em ‘é preciso afastar este cidadão ou impedi-lo de se manifestar, porque ele vai acabar com a harmonia do grupo’, e o que era para ser fonte de crescimento e de amadurecimento transforma-se tão somente em mais um afastamento.

Outra forma tangível é o comportamento de ira de muitos espíritas nas mídias sociais, nestes tempos de polarização, onde atacam até seus pares. Textos reflexivos, como este, que buscam entender a classe espírita e seus componentes também são, às vezes, alvo de uma raiva indefinida. Comportamento muito diferente daquele preconizado por Kardec e por Jesus e que provavelmente é fruto de alguma demanda emocional não atendida, porque não é vista.

Desta maneira, passam-se meses, anos, décadas, e a bolha só cresce e só exclui aqueles que precisam de um tratamento mais individualizado, como acontece com todo ser humano, na realidade.

A sociedade inteira, e os espíritas não fogem a regra, tem dificuldade em dialogar. Diálogo não é brigar, discutir ou debater, é simplesmente se colocar, falar, sem querer convencer ou transformar ninguém, e ouvir. Ouvir de verdade, ouvir o outro e a si mesmo, prestando atenção e respeitando. Simples assim. Exercício este que deve ser feito constante e conscientemente.

Não somos colmeia, comunidade de formigas ou de cupins. Somos pessoas com necessidades únicas que não devem ser negligenciadas e não podemos e nem queremos ser tratados como grupo. Queremos nossa individualidade aceita, respeitada e cuidada, ainda mais tendo em vista o discurso de amor que permeia a comunidade espírita.

Enfim, cuidar da saúde mental e emocional é primordial para um relacionamento verdadeiramente empático, amoroso e transformador.

Cláudia Rocha Azevedo
Fonte: ABPE