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13 março 2015

Diferenças Entre Ser uma Autoridade e Ser Mandão - Enéas Martim Canhadas


DIFERENÇAS ENTRE SER UMA AUTORIDADE E SER 
MANDÃO

Por quê tememos a autoridade?

Antes de fazer esta pergunta é necessário fazer uma outra: “Por quê nós temos medo da autoridade?” Se esclarecermos o medo, provavelmente vamos saber lidar melhor com as ameaças representadas por todas as atitudes de mando, comando e autoridade. A questão não se resolve com uma resposta simples. Quando temos temor frente à autoridade, cabe uma parcela de responsabilidade a quem a representa para nós, mas também cabe uma parcela a nós mesmos, porque a figura de autoridade ou esse temor de que estamos falando habita o nosso íntimo e nos faz, geralmente, muito mal.

Somos nós mesmos que deixamos os medos da autoridade tomar conta da gente? Como este medo surge?

A figura de autoridade torna-se muito grande sobre nós devido a importância ou valor que atribuímos a ela. As raízes desses medos tem início, bem cedo, na maneira como a autoridade é passada para nós através da educação. Primeiramente, a influência do lar. Os diálogos que são ouvidos pelas crianças é uma das maneiras como elas aprendem. Os pais são os seus principais autores. Quando a mãe diz, de forma natural e inconseqüente “você vai ver quando o papai chegar, vou contar tudo para ele”, não tem idéia do conteúdo que está passando para o seu filho relacionado a autoridade. Nesta idade, a criança não sabe ainda que é a própria mãe que conta para o pai tudo que aconteceu durante o dia na ausência dele. Para a criança, fica a constatação de um fato misterioso.

O pai fica sabendo do que acontece mesmo não estando presente. Num outro momento, a mãe usa outra expressão como “papai do céu vai castigar você se mentir outra vez”. Para a criança o papai do céu que pode ficar sabendo da sua mentira é outro mistério. Na cabecinha infantil estes dois mistérios começam a funcionar em conjunto. Papai do céu pode saber de tudo que ela faz e o seu papai também fica sabendo das coisas que acontecem mesmo não estando presente.

Ambos os papais representam autoridade invisível. Mais do que isso, uma autoridade sobrenatural porque o papai do céu Todo Poderoso fica na mesma categoria e dimensão do seu papai, pois ambos adquirem o mesmo tipo de poder. É o que eu chamo de caráter sobrenatural da autoridade. Daí por diante, qualquer figura de autoridade vai ter um traço de poder misterioso e sobrenatural. Esta verdade que foi fixada pela criança vai sendo confirmada pela vida afora, com expressões do tipo “se a tua professora ver estar letra, você vai levar um zero deste tamanho!” ou “se o teu chefe te pega fazendo isso, você vai levar uma bronca daquelas” até que as pessoas se casem, constituindo um novo casal e reiniciem o ciclo ao educar os seus filhos, quando a nova mãe ou o novo pai vai usar, e pior do que isso, vai repetir uma expressão semelhante a que ouviu na infância “se a tua mãe ver você mexendo na água, ela vai te bater!”. Isto dito pelo pai ou pela babá, tem o mesmo efeito da frase da mãe “você vai ver quando o seu pai chegar”.

As frases ouvidas durante a infância recebem outras versões, mudam os personagens, mas o sentido continua o mesmo. Sempre conferindo à figura de autoridade, um traço de super poder, na medida em que pode punir, mesmo não estando presente ao ato que a criança pratica. É o poder praticado à distância, não porque esse poder exista de fato, mas ele passa a agir dentro de cada um de nós como verdadeiro. Esta verdade interna aparece nos medos e pelas sensações de perseguição que vêm a nossa mente, quando nos sentimos emocionalmente ameaçados pela autoridade invisível que pode ver e punir. Chefes, professores, policiais e principalmente os pais, moram dentro da gente como autoridades causadoras de medo, porque representam o castigo que devemos sofrer por fazer alguma coisa errada.

Que diferenças podem existir entre a autoridade e a pessoa que manda?

As diferenças residem nas diversas maneiras como a autoridade é exercida. Estas maneiras de que falamos, vão determinar a qualidade do modo de exercer autoridade e, ao mesmo tempo, construir a legitimidade da autoridade exercida por alguém. O uso do autoritarismo, é apenas um modo de exercer a autoridade, e podemos dizer que é o modo ruim ou desqualificado de uma pessoa em posição de comando ou de liderança, atribuindo-se o título de dono da verdade.

Alexandre Herculano disse que “o princípio da autoridade, considerado como critério único e exclusivo da verdade, é não menos falso que o da razão, da consciência, ou de qualquer outro, tomado do mesmo modo exclusivamente”. A posição de mando não confere à pessoa a condição de idônea, nem torna a faz verdadeira nos seus atos. A pessoa que manda, deve construir a sua autoridade durante o tempo que está a frente de um grupo ou exercendo um cargo que lhe permite ter pessoas subordinadas, para que possa vir a ser referência para os outros, pelo seu modo de ser e de agir. Não precisará provar nada, pois é como é. Será reconhecida. Saberá ouvir quem a procure sem medos e sem sentir-se ameaçada. Possui sabedoria e conhecimentos para criar e estabelecer regras e normas, e saberá avaliar as exceções quando elas surgirem. Será capaz de demonstrar visão de futuro, percebendo novas tendências, novos valores, hábitos e costumes. Mostrar-se-á como uma pessoa de mente atualizada e inovadora. Acima de tudo, será capaz de praticar atitudes éticas. Nenhuma dessas qualidades você vai encontrar na pessoa mandona, porque ela depende dos outros estarem submissos e concordes para conseguir demonstrar pseudo firmezas e aparente segurança nas atitudes.

À luz da Doutrina Espírita, como podemos esperar as atitudes de autoridade?

A faculdade mediúnica possibilita a ligação entre as inúmeras dimensões vibracionais do Universo, mostrando que a vida é ampla e infinita e, para que possamos ser bons instrumentos da Vontade Divina, precisamos apenas viver a normalidade da condição humana.

Por não termos “senso de humanidade”, é que não aceitamos o atual estágio evolutivo, ou seja, não admitimos viver, no momento presente, a etapa existencial que o Criador nos destinou. No Livro dos Médiuns em resposta à pergunta 226 encontramos a afirmação de que o desenvolvimento da mediunidade não se processa na razão do desenvolvimento moral porque a faculdade mediúnica é orgânica e sendo assim, independe da moral. Mas o mesmo não acontece com o uso da mediunidade que, pode ser bom ou mau, segundo as qualidades de cada um. Desta forma, a autoridade moral que podemos esperar de um dirigente ou praticante da Doutrina Espírita que se constitua autoridade, esta sim, depende da pessoa que vai, ao longo da vida, amadurecendo um pouco mais o seu Espírito para encontrar-se já, em elevação moral e ser capaz de exercê-la com este traço. Podemos pois, afirmar que uma figura de autoridade de traços morais e éticos duvidosos, não sabe administrar bem o que é valor pessoal ou valor de outras fontes, querendo usar como se fosse dele, a sabedoria e o discernimento de uma autoridade que não lhe pertence.

Você pode comentar alguma coisa sobre a questão ética? O que é mesmo?

A palavra Ética vem do latim e significa moral. Segundo o Dicionário Aurélio, é o estudo dos juízos de apreciação que fazemos sobre a conduta humana e suas atitudes, classificando-as do ponto de vista do bem e do mal dentro de uma determinada sociedade.

Segundo o pensador francês André Comte-Sponville, não nascemos virtuosos, mas nos tornamos pela educação, pela moral, pelo amor. Agir bem e, antes de mais nada, fazer o que temos que fazer, e depois o que se deve fazer, o que vem a ser moral. Portanto, a moral estará mais no que devemos fazer. E é claro que nesse dever, entra em questão o respeito e a consideração aos outros. Como seres que um dia alcançaremos as virtudes, ser ético é praticar o senso de justiça sendo portanto, justo e bom. Nunca fazer alguma coisa para alguém que não gostaríamos que fizessem a nós.

Enéas Martim Canhadas
Fonte: Portal do Espírito

28 novembro 2014

Tudo Passa - Enéas Martim Canhadas



TUDO PASSA

Se você consultar o dicionário na palavra ciclo, vai surpreender-se. Pelo menos aconteceu comigo. Tantos os significados dessa pequena palavra de apenas cinco letras. A partir daí, comecei a pensar o quanto vivemos no dia-a-dia muitos ciclos. A inspiração e a expiração, completa um ciclo que nos mantém vivos. A noite seguida de um novo dia, também completa outro ciclo. A semana é um ciclo. O ano é um ciclo, e hoje sabemos com precisão que há tantos anos diferentes quantos são os planetas da nossa galáxia e também dos corpos celestes existentes no Universo. A seqüência de quatro luas dentro de um mês também perfaz outro ciclo. Os nove meses de uma gestação dando à luz um novo ser, também constitui um ciclo e assim por diante. Há significados próprios para esta palavra em quase todas as áreas de conhecimento. 

Que lições podemos tirar dessa compreensão, e que correlações podemos fazer com a Doutrina Espírita? 

A primeira lição é que tudo passa, mas ao mesmo tempo tudo volta. Na verdade, tudo continua perenemente. Os ciclos se repetem, no entanto nunca no mesmo tempo. O ciclo anterior seja qual for, aconteceu no passado. Conta-se que um professor perguntou aos seus alunos se o pêndulo do relógio estava indo ou vindo. Depois de muita discussão, o professor explicou que o pêndulo marcava a passagem do tempo e por isso, ele estava sempre indo. Não podemos discordar completamente desse professor, uma vez que o presente é apenas um momento, e o mais é passado. 

A segunda lição é que não nos é possível viver a mesma experiência da mesma maneira. Os ciclos indicam o progresso das coisas, porque na medida em que eles se repetem são outras pessoas, outros aprendizados, outras idéias, outras experiências, novos tempos, etc. Nunca entramos no mesmo rio. Na sabedoria Chinesa, todo ano a primavera se repete como uma das estações, mas as flores são sempre novas, outras. 

A terceira lição nos mostra que os ciclos indicam apenas o fim de uma fase. Aliás como o círculo não tem começo e não tem fim, quando uma fase termina a outra já começou. Portanto, não é o fim de tudo, é o recomeço perene. A idéia do círculo, quer dizer ciclo, simboliza a perfeição, exatamente por não ter nem começo e nem fim. No I Ching, o Livro das Mutações, o penúltimo hexagrama de número 63, significa “após a conclusão” e o último, de número 64, significa “antes da conclusão”, o que nos transmite a idéia de que a vida é circular. 

A quarta lição nos ensina que os ciclos são grandes e também pequenos movimentos, como já vimos acima nos vários exemplos. São longos períodos e também breves espaços de tempo. Não importa o tamanho do ciclo. A significação de um ciclo de experiências, portanto de vida, não se mede por uma métrica emocional ou física como uma trena. A grandeza e importância dos ciclos, mede-se pela intensidade dos sentimentos. É esta intensidade que marca o valor das experiências a que nos propomos passar na atual encarnação e é o que realmente nos modifica e permanece como progresso conseguido. 

A quinta lição que podemos aprender a partir do conceito de ciclo é que a reencarnação, constitui também um ciclo. Desta maneira aprendemos que as encarnações sucessivas são um fenômeno natural, de modo que a própria evolução é um processo natural, o que comprova a sabedoria Divina e a plena validade das leis naturais como obra de um Criador Supremo. 

Depois das lições extraídas, uma outra questão fundamental surge no que se refere a como estas verdades nos tocam e o quanto evocam as nossas responsabilidades. Por quê é importante fazer bem as coisas dentro de um ciclo e por quê isto nos torna responsáveis? 

Primeiramente é necessário compreender que vivendo bem a experiência de um ciclo, é que nos tornamos aptos para viver ainda melhor o próximo, isto é, aproveitando e aprendendo com o que vivemos na fase anterior. Se vivermos de maneira inconseqüente será equivalente a não o termos vivido, pois nenhum aprendizado poderemos acumular de uma vivência assim. A consciência nos leva à segunda compreensão.
Precisamente a consciência da nossa existência dentro de um determinado ciclo é o que nos dá a ciência da experiência e de nós mesmos. Aliás, quando não há consciência, não há vida. Estar vivo é estar consciente. O ser humano é o único capaz de ter consciência bastante ampla de que está vivendo as experiências da sua vida. Por isso, podemos problematizar, isto é, podemos nos propor problemas, metas e desafios, um futuro enfim, e usar a sabedoria do passado. Se o ciclo não nos trouxer uma consciência do que fazemos, de nada nos valerá para o próximo. 

Mais uma compreensão advém da consciência que nos faz responsáveis pelos ciclos que vivemos, uma vez que, desse fato decorre tanto a angústia pelo futuro que virá, como também nos faz preocupados conosco mesmo e também com os outros. Esses sentimentos criam em nós a consciência ética e o dever moral, ou como nos ensina o Evangelho Segundo Espiritismo, cria uma coragem moral. 

As transformações que conseguimos realizar num ciclo de experiências, vai atomizar, isto é, reorganizar as moléculas de energia em novas combinações, e assim estaremos melhor providos no próximo ciclo de vida. Desta forma dá-se a evolução, através de um perene processo de reciclagem e reorganização de energias. Movimentar as energias ao viver um ciclo, naturalmente faz com que estejamos mobilizando forças para um novo ciclo que virá, naturalmente. 

A compreensão da vida em ciclos de evolução nos mostra que não se trata de uma vivência linear, isto é, as experiências não acontecem uma atrás da outra. É com o movimento circular que vamos ascendendo, isto é, subindo na compreensão da vida pelas experiências vividas. É a chamada espiral da vida. Etmologicamente a palavra ex + peri + ciência compõe a palavra experiência que podemos traduzir por trazer para fora (ex) a ciência, isto é, o conhecimento das coisas que estão à nossa volta (peri). Não existe a possibilidade de voltar para trás, porque quando estamos circulando, de certa forma, sempre estamos andando para frente. A idéia de frente e atrás, apenas existe quando pensamos de maneira linear. 

O conhecimento do tempo que existe dentro de nós, isto é, do tempo emocional, aquele tempo que parece passar muito rápido quando estamos muito envolvidos com um acontecimento, e que parece andar muito devagar quando estamos enfastiados de algo, dá-nos a noção da consciência que temos das coisas e como esta consciência nos afeta. Nesta vida e neste plano, nos situamos pelo tempo cronológico e pelo espaço que ocupamos. No Plano Espiritual nos situamos pela consciência. Assim sendo, viver as experiências com a consciência de que são ciclos de vida, é um treino para viver, futuramente, numa outra dimensão, onde o tempo cronológico deixa de existir para dar lugar à eternidade da existência. 


Enéas Martim Canhadas
Fonte: Portal do Espírito

 

07 novembro 2014

Filhos Adotivos e Nossas Atitudes - Enéas Martim Canhadas



FILHOS ADOTIVOS E NOSSAS ATITUDES


Questões sobre o tema Filhos Adotivos

1 – À luz do Espiritismo, quais as diferenças entre um filho adotivo e o filho consangüíneo?

Como no ensina o Livro dos Espíritos, Item 205, a doutrina da reencarnação amplia a função dos laços de família enquanto proposta de vivência da fraternidade entre espíritos afins, e mesmo não afins mas que têm ajustes a realizarem nas suas convivências, tanto entre os chamados filhos legítimos como os filhos adotivos. Como nos ensina Emmanuel, essa doutrina nos mostra que “no vizinho ou no servo, pode achar-se um Espírito a quem tenhamos estado presos pelos laços da consangüinidade”.

Podemos pois, inferir com segurança que, em se tratando de espíritos encarnados numa ou noutra condição não há nenhuma diferença. Os chamados filhos do coração podem ser entendidos assim em toda a extensão que esta expressão possa conter quanto a co-responsabilidades paternais e filiais. 

2 – Um filho natural pode ter o mesmo nível de carência afetiva do que um filho adotivo?

A carência afetiva não me parece estar atrelada ao fato de ser filho natural ou adotivo. O ser humano é, intrinsecamente, um ser carente. No entanto, vale evidenciar que o filho adotivo tem uma carência agravada pelo fato de ser um indivíduo rejeitado. Difícil haver um amor sobre a Terra que possa lhe tirar esta sensação. Ele vai ser feliz por ter sido aceito e amado, porém vai conviver com a rejeição.

3 – Toda adoção tem vínculos com as vidas passadas dos pais?

Não diria tal coisa. Podemos ser levados a pensar desta forma por causa da lei de ação e reação. No entanto isso pode não estar acontecendo num processo de adoção. Não posso pensar que trabalho durante anos num asilo de velhos por que tenho vínculo com todas aquelas pessoas idosas que ali estão. O afeto que dedico a eles é, antes de tudo, um afeto que não precisa estar sendo manifesto apenas por acerto de contas ou resgate por dívidas contraídas. Os gestos amorosos não precisam estar condicionados a dívidas pregressas.

4 – Qual a melhor forma para se contar para a criança que ela é adotiva?

Diria que se conta a uma criança que ela é adotiva assim como se ensina uma criança a perder o medo de escuro ou a ficar sozinha em casa. Aos poucos. Doses homeopáticas são o alimento afetuoso que vai fortalecer os sentimentos de confiança do ser que traz em si dúvidas por ter sido rejeitado.

5 – Até que ponto a revelação da adoção pode gerar conflitos emocionais e situações traumáticas?

Se essa revelação for sendo feita com cuidado e com afeto, não deverá causar traumas. No entanto os conflitos emocionais, em alguns casos poderão ser inevitáveis, não devido a maneira errada da revelação mas sim pelas características do espírito que está ali encarnado na condição de filho adotivo. Um espírito inseguro ou irascível ou que já traz em si uma baixa estima, provavelmente viverá conflitos causados por essa revelação. O que restará aos pais será uma missão ainda mais complexa no sentido de doar afeto, ter paciência e ser perseverante na tarefa que assumiram.

6 – Os adultos adotam crianças por amor ou por necessidade psicológica?

As duas coisas. Seria ideal que só o fizessem por amor. É bom dizer porém, que necessidades psicológicas desse calibre precisariam ser muito bem diagnosticadas e esclarecidas. Principalmente para que não estejam por trás dessa atitude, mecanismos psíquicos de compensação, de auto afirmação, de sublimação, de substituição, enfim mais relacionados a orgulho ou “status” do que a um legítimo ato de amor ou afeto. Não fosse assim teríamos menos rejeitados nos abrigos e “lares” como negros, feios, doentes, limitados intelectualmente e outros.

7 – A origem fiso-psíquica dos adotados, mesmo vivendo em uma boa estrutura familiar pode influenciar seus atos e atitudes no futuro?

Com certeza. O que é constituição de caráter vai estar presente pela vida toda. Um espírito problemático, rebelde será assim pela sua história e não pelo lar que o adotou. Pode aprender e assimilar o afeto que for a ele dedicado? Certamente, e isso pode mudar o seu rumo proporcionando um salto no seu progresso intelectual, moral e espiritual. “O Espírito dos pais tem a missão de desenvolver o dos filhos pela educação”. Esse mandato que está no Livro dos Espíritos parece-nos muito apropriado tanto a filhos naturais quanto a filhos adotados. A educação é a maneira correta de influenciar, lembrando porém que não se trata de “mudar” alguém mas sim de criar condições para que ali se dê o processo educativo juntando as oportunidades que o indivíduo tenha de perceber os ensinamentos e que toquem o seu espírito para que ele próprio, pelo seu livre arbítrio, mude o seu interior. Como nos ensina Paulo Freire, “o homem se educa a si mesmo”, porém facilitado pela condição educacional que o ambiente familiar oferecer.

8 – Os sentimentos (amor e mágoa) que a criança nutre pela mãe natural, podem ser transferidas para a mãe adotiva?

Com certeza. Hoje sabemos que os fetos tem uma intensa vida intra-uterina na relação com a mãe natural. Certamente ele já vive no útero que o gerou a dor de que vai ser rejeitado. Quando vier à luz se a mãe natural, por alguma razão, não o quiser ou não estiver livre para desejá-lo para ela, amor ou mágoa existirão e irão sim em forma de amarguras e dúvidas para a mãe adotiva. As dúvidas são inerentes aos espíritos amados e bem equilibrados, quanto mais para os espíritos que foram realmente enjeitados. O filho adotivo, muito provavelmente, terá nas suas raivas e rebeldias naturais (por exemplo na adolescência) o agravante de ter sido adotado. E a mãe natural será alvo desses sentimentos e emoções agravantes.

9 - Um filho adotivo problemático é sempre um “carma” que os pais precisam resgatar?

Não podemos pensar assim pois se não os filhos adotivos que dão certo e são felizes, produtivos e gratos, também teriam que ser considerados prêmios. Não podemos pensar numa providência divina que se utilize de seres encarnados para serem “carmas” ou troféus entregues a pais dedicados. Aliás falando de carma, vamos abandonar a idéia limitada e limitante de que os carmas são dívidas a serem pagas. Os carmas podem ser entendidos como heranças a serem transmutadas ou transformadas. É melhor pensar em carma como estímulo para o nosso desenvolvimento ou mesmo proposta de superação para o nosso progresso. Os carmas podem mesmo ser entendidos por talentos. O homem que enterrou o único talento recebido transformou-o em carma. O outro que multiplicou o talento recebido transformou-o e o multiplicou.

10 - Há mais facilidade em lidar com uma criança adotada recém nascida ou com aquela de maior idade?

Diria que a recém nascida é mais amoldável ao ambiente e aos costumes do casal que a adotou. A própria voz dos pais adotivos se farão ouvir desde muito mais cedo. A criança adotada de maior idade já terá passado outras experiências e também já sofrido mais as agruras da sua rejeição, quer pelos pais naturais ou pela experiência de viver num “lar” provisório ou mesmo na rua ou, sob a guarda de um juizado, ou então nas mãos dos pais naturais que a maltrataram. Não há dúvida que o processo de adaptação da criança de maior idade, será muito mais doloroso para todos, e muito mais difícil enquanto tarefa a ser assumida.


Referências Bibliográficas:

  • Maldonado, Maria Tereza – “Os caminhos do coração: pais e filhos adotivos”, Edit. Saraiva.
  • Miranda, Ermínio – “Nossos filhos são espíritos”, Edit. Arte e Cultura.
  • Oliveira, Amarilis de; Espírito Dori – “Pai Adotivo”, Edit. DPL
  • Sulloway, Frank J. – “Vocação: Rebelde”, Edit. Record
  • Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo – “Sexo e Destino”, F.E.B.
  • Xavier, Francisco Cândido; Espírito Emmanuel – “Vida e Sexo”, F.E.B.

Enéas Martim Canhadas
Revista Literária Espírita DELFOS Março/Abril de 2001