Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Eugênia Pickina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eugênia Pickina. Mostrar todas as postagens

28 outubro 2018

Bullying: como lidar com o agressor? - Eugênia Pickina



BULLYING: COMO LIDAR COM O AGRESSOR?


"Educar mal um homem é dissipar capitais e preparar dores e perdas à sociedade" - Voltaire

Vez por outra as crianças (e os adolescentes) brigam em razão de inúmeros desentendimentos. São brigas episódicas e que têm simplesmente um fim. Isso não tem nada a ver com o bullying.

Bullying, presente nas escolas em todo o mundo, é praga social que afeta inúmeras crianças e adolescentes e que, infelizmente, a partir da década de 1970, aumentou drasticamente, segundo demonstrativos de estudos científicos diversos.

Na infância e nos anos iniciais do ensino médio, eu fui vítima do bullying. Por causa dele, achei a escola um lugar horrível e inseguro. O que me salvou foi a minha natural introversão e o meu amor aos estudos.

Na sala de aula, no pátio da escola, especialmente durante o recreio, eu e mais duas meninas – as três recém-chegadas à essa escola –, por sofrer o sadismo de um grupo de colegas, compreendemos que se engana quem acredita que o bullyingé monopólio de meninos! Meninas (e na infância e na adolescência) podem ser cruéis, maldosas, e sem fazer uso de força física, isto é, elas ofendem usando a agressão verbal, manifestando de modo repetido atitudes grosseiras (são traços inequívocos de espíritos atrasados): indiferença, exclusão, caçoada, apelidos, ameaças…

O agressor tem fragilidade? Logicamente. Contudo, a ideia de fazer o outro ser humano sofrer é sempre inaceitável. Por isso, no geral, o autor do bullying revela já precocemente mau-caráter, impulsividade, baixa autoestima, falta de empatia, um nítido sentimento de inferioridade. Além disso, na maioria das vezes, o agressor costuma promover a violência na escola com base também em antivalores que traz de sua vivência doméstica.

Bullying é prática abusiva. O agressor, então, devidamente identificado pelas autoridades educacionais, necessita de cuidado e correção. O ideal é que ele faça, por exemplo, pequenos trabalhos comunitários dentro da própria escola – auxiliar na biblioteca, na enfermaria ou na cantina, porque o mero castigo não educa, não gera mudança, não ajuda aquele que pratica violência reiterada contra colegas a entender a gravidade dos seus atos e suas consequências. E isso poderá ser feito durante o recreio ou intervalo, e para dar oportunidade ao agressor incorporar um novo tipo de conduta, ou seja, a atitude que manifesta respeito pela dignidade alheia.

Ato violento, o bullying é realidade mundial que merece atenção e cuidado por parte das famílias e das escolas, pois geram danos contra terceiros (as vítimas do bullying). No caso de agressores menores, os pais são também responsáveis, pois há para eles o dever de supervisionar os filhos.

Aos pais que têm uma criança que está a sofrer o bullying no ambiente escolar, e a escola, por sua vez, assume uma posição omissa, um aviso: procurem assistência jurídica, pois os atos configurados como bullying atingem diretamente os direitos fundamentais da pessoa humana (previstos na Constituição Brasileira e no Estatuto da Criança e do Adolescente) e têm, por isso, o devido amparo legal.

Rubem Alves, que foi vítima de bullying na escola, tem razão quando contou que “o bullying é a forma escolar de tortura”.

Notinhas:

Bullying é definido como a violência que ocorre entre crianças e adolescentes, de forma intencional, repetitiva e sem motivação aparente, demarcada pelo desequilíbrio de poder entre agressor e vítima em alguma instância.

Prática abusiva proibida, o bullying (intimidação frequente, seja física ou psicológica) é um dos principais problemas de disciplina na escola. Uma dificuldade em combater essa prática é que muitos dos agressores (e até alguns pais de alunos e professores) acreditam estar apenas “brincando” com as vítimas.

Na literatura científica, o bullying manifesta três características principais: o comportamento agressivo e de intenção negativa, a repetição sistemática e a desigualdade tanto física quanto psíquica dos envolvidos.

Xingar, gozar, humilhar, zombar, isolar são atitudes agressivas e manifestações do bullying.

De acordo com a ONU, a maioria dos casos de bullying é devido à aparência física, etnia ou orientação sexual.

No Brasil, dados do IBGE afirmam que a quantidade de jovens vítimas de bullying subiu para 47% no ano de 2016.


Eugênia Pickina


16 maio 2014

O perigo da idolatria espírita - Eugênia Pickina


O PERIGO DA IDOLATRIA ESPÍRITA

Por enquanto pertencemos a uma época instável e compomos, no geral, uma sociedade instável. Porém, ser moderno não é apenas estar vivendo atualmente (2013), mas também procurar compreender o que denuncia nosso Zeitgeist, ou seja, tentar discernir os ecos do plano invisível que guiam os padrões do existir no plano visível – e, portanto, os comportamentos sociais não são apenas “eventos externos”, eventos da esfera privado-público, mas também “internos” e como ocorrências ou fatos da alma.

Por isso somos obrigados a tornar conscientes motivos e/ou convicções que no geral estão a orientar nossas vidas para que possamos viver “menos” às cegas, mais conscientes em relação a nós mesmos, nossos deveres, tarefas, compromissos e para que não sejamos escravos da biografia alheia.

É fato que as pessoas na Antiguidade tinham por hábito cultuar deuses. Não sem razão, Jung perguntou para onde foram os deuses depois que deixaram o Olimpo, e ele mesmo adivinhou que tinham ido para o plexo solar. Mais tarde, quando os homens descartaram as catedrais medievais – e o culto a reis e papas –, o mesmo Jung escreveu numa carta que eles, os ocidentais,despencaram no abismo do Si-mesmo.

Em consequência, embora a diversidade de facetas da experiência moderna, uma há que chama a atenção, porquanto hoje (como no passado) os homens estão a cultuar deuses, mas estes agora estão metamorfoseados de líderes políticos, atores, jogadores de futebol, celebridades em geral e, no contexto espírita, celebridades espíritas!

Sem alarde, sabemos, através de estudos e pesquisas sérias, que grande parte da população mundial sofre nos tempos de agora, em maior ou menor grau, da síndrome do culto à personalidade. Além disso, os adolescentes, insinuam os estudos dedicados ao tema, são os mais suscetíveis ao transtorno. Mas particularmente observo muitos adultos preocupados com o ídolo...

Compreendo o respeito que se tenha a pessoas pela admiração que elas nos provocam quando realizam (e/ou realizaram) ações (obras) que nos afetam ou cativam em profundidade por qualquer razão ou motivo sensato. É humano e um belo tributo à pessoa, que terá seu nome inscrito na história de um povo, de uma comunidade, e, no nosso caso, nos registros espíritas...

Mas a meu ver isso basta. A idolatria não dá certo.

Cada um de nós pode, de tempos em tempos, regredir através de um padrão que polariza uma pessoa (no caso uma personalidade pública), tornando-se prisioneiro da arte de idolatrar.

E o mínimo então que temos a fazer diante do risco das grandes forças regressivas dentro de nós, muito ligadas talvez ao antigo hábito de idolatrar ‘deuses ou bezerro de ouro’, é procurar retomar a consciência e se ater à prudente observação do poeta persa Rumi: “cada homem veio ao mundo para realizar um trabalho particular e esse é o seu propósito”. Quer dizer, mesmo “ele” [o ídolo] está fadado à realização de um trabalho particular e é um ser humano como qualquer outro.

Assim somos gratos a Francisco Cândido Xavier por sua fecunda mediunidade dedicada aos livros, por seus exemplos de consolo, caridade e humildade. Igualmente, sem olvidar que, segundo o próprio Jung, a coisa mais desastrosa sobre o inconsciente é que ele é inconsciente, somos gratos aos livros que alargaram nosso entendimento sobre o mundo interior, rigorosamente escritos pelo competente Espírito Joanna de Ângelis, e através da mediunidade de Divaldo Franco, cuja obra de assistência e de divulgação do Espiritismo pelo mundo é vasta e por si mesma denuncia o belo “trabalho particular” desse homem, trabalhador de Jesus.

Mas condutas que, no meio espírita, extrapolem o justo reconhecimento aos trabalhadores espíritas, infelizmente fazem aliança com o equívoco da idolatria. E creio que nenhum trabalhador espírita sério e mesmo Divaldo Franco mereçam ser alvos disso. Com ênfase, muito menos Divaldo Franco (1) e no instante do seu crepúsculo... Tenho certeza de que ele, se pudesse, apenas pediria para ser reconhecido como um trabalhador que de forma luminosa completou sua tarefa e que honra a Obra de Jesus.

Então, espíritas, por que dar vazão à síndrome do culto à personalidade e, em consequência, a esses excessos que observamos na mídia espírita, quando há registros de reportagens ou escritos de qualquer natureza carregados de expressões superlativas e/ou adulações? A discrição e humildade são sempre sinais de maturidade espiritual e essenciais para um existir equilibrado.

Como aprendizes da desistência da necessidade egoica de identificação/comparação, isto é, a atitude de estar ligado àquele que não sou,mas do qual dependo para ser quem sou, o culto à personalidade é sempre algo que urge ser retificado e evitado, principalmente no contexto espírita (e aqui me refiro especialmente aos responsáveis pela imprensa espírita), pois somos convocados a procurar nos precaver contra maneiras vicárias de viver.

Sabemos que Jesus é o modelo de todas as virtudes. E quando em sua passagem se reconheceu Mestre (Professor), recusou o qualificativo de bom, afirmando que somente o Pai merecia esse adjetivo. Uma clara prova de humildade e também uma atitude veementemente pedagógica contra o culto à personalidade.

Por fim, em julho deste ano, Papa Francisco pediu a remoção de uma estátua que o retrata, e que fora colocada nos jardins da Catedral Metropolitana de Buenos Aires. Ele, segundo o jornal Clarín, pediu a um padre da capital argentina: “tirem a minha estátua de Buenos Aires, sou contrário ao culto à personalidade”.

Assim como o Deus espírita não é um ídolo, “mas aquela realidade que, como dizia Descartes, está na consciência do homem como a marca do artista na sua obra” (Herculano Pires), tratemos pessoas e trabalhadores espíritas (2) como nossos irmãos (alguns mais experientes e, por isso, bem-sucedidos em suas tarefas e projetos), mas não como ídolos; afinal, o único modelo, e para todos nós, é Jesus, nosso Mestre e irmão mais velho, como bem esclareceu Francisco de Assis.

NOTAS:

(1) E que fique claro o objetivo deste escrito: o problema não é “Divaldo Franco”, trabalhador honesto e autor de uma obra dedicada à causa do Cristo bela e decente, mas sim os “divaldianos”. Meus professores diziam sempre que o problema dificilmente reside no “autor da obra”, mas no geral o “fator de complicação” está nos seguidores (pensemos aqui em Marx e os marxistas; em Kant e os kantianos; em Lacan e os lacanianos etc.). Com exceções, é claro, muitos seguidores correm o risco do fanatismo. E isso diz respeito também a uma das facetas da idolatria, e que pode mascarar-se como ideologia etc.

(2) O culto à personalidade espírita é um desserviço à divulgação da Doutrina, especialmente com o advento da Internet e mesmo das redes sociais. Poderíamos então evitar cultuar espíritas, estejam eles vivos ou mortos (vida além da vida). Senão corremos o risco, principalmente no Brasil, de observamos um “Espiritismo” polarizado nas figuras de “Chico e Divaldo” e isso não é saudável, pois muitos outros contribuíram e contribuem para a difusão desta Doutrina luminosa. E penso que nós temos o dever de analisar as coisas de maneira serena e compreensiva, mas é preciso dar nosso testemunho sempre. E o Espiritismo, como uma Doutrina evolutiva, não pode por ingenuidade/imaturidade anuir com a idolatria. Fiquemos, pois, com um só Modelo: Jesus. 

Eugênia Pickina