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09 novembro 2021

Todos somos, realmente, médiuns? - Leonardo Marmo Moreira

 
TODOS SOMOS, REALMENTE, MÉDIUNS?

Introdução

Uma frase enunciada por grande parte dos adeptos do Espiritismo é a famosa sentença: “Todos somos médiuns”. E, de fato, uma série de procedimentos cotidianos do centro espírita é guiada por essa ideia básica.

No entanto, o tema mediúnico é conhecido por ser um assunto altamente complexo assim como a faculdade mediúnica é conhecida por apresentar nuances bem particulares e distintas de indivíduo para indivíduo. Portanto, cabe-nos questionar se essa generalização é coerente com a realidade.

Para uma melhor avaliação do tópico, precisamos questionar a origem desse paradigma. De fato, esse conceito é, em princípio, oriundo de um texto kardequiano. Resta saber se ele está sendo bem interpretado e bem empregado como fundamento para as práticas usuais das casas espíritas.

O texto kardequiano mais utilizado

Assim sendo, vejamos o texto kardequiano em questão, o qual é encontrado no item 159 do capítulo XIV, intitulado “Os Médiuns”, da Segunda Parte de “O Livro dos Médiuns” (estamos utilizando a tradução do Professor Herculano Pires):

“Toda pessoa que sente a influência dos Espíritos, em qualquer grau de intensidade, é médium. Essa faculdade é inerente ao homem. Por isso mesmo não constitui privilégio e são raras as pessoas que não a possuem pelo menos em estado rudimentar. Pode-se dizer, pois, que todos são mais ou menos médiuns. Usualmente, porém, essa qualificação se aplica somente aos que possuem uma faculdade mediúnica bem caracterizada, que se traduz por efeitos patentes de certa intensidade, o que depende de uma organização mais ou menos sensitiva.

Deve-se notar, ainda, que essa faculdade não se revela em todos da mesma maneira. Os médiuns têm, geralmente, aptidão especial para esta ou aquela ordem de fenômenos, o que os divide em tantas variedades quantas são as espécies de manifestações. As principais são: médiuns de efeitos físicos, médiuns sensitivos ou impressionáveis, auditivos, falantes, videntes, sonâmbulos, curadores, pneumatógrafos, escreventes ou psicógrafos”
. (Grifos meus)

Analisemos o início da discussão do Codificador do Espiritismo:

“Toda pessoa que sente a influência dos Espíritos, em qualquer grau de intensidade, é médium.”

Kardec inicia a discussão estabelecendo que todos os que sentem os Espíritos “em qualquer grau de intensidade” poderiam ser considerados médiuns. No entanto, curiosamente, ele não diz que todos, sem exceção, sentem essa influência. Ademais, ele parece sugerir que os níveis de intensidade de sensibilidade mediúnica são muito variáveis.

“Essa faculdade é inerente ao homem.”

Nessa frase, Kardec sugere uma generalização para a ocorrência da mediunidade, ou, pelo menos, quer indicar uma naturalidade para o fenômeno. Para um texto publicado em torno de 160 anos atrás, é lícito supor que Kardec não estava se contradizendo em relação à sentença anterior, pois a ênfase pode ser no fato de se tratar de um fenômeno natural e não patológico ou maravilhoso, o que não deixa de ser um importante registro. Será que ele desejou frisar que se trata de fenômeno vivenciado por 100% dos indivíduos? Ou estava apenas rejeitando o caráter miraculoso normalmente atribuído aos fenômenos mediúnicos, sobretudo naquele tempo? Para avançar nesse entendimento, precisamos continuar a leitura do texto kardequiano.

“Por isso mesmo não constitui privilégio e são raras as pessoas que não a possuem pelo menos em estado rudimentar.”

Essa colocação de Allan Kardec parece esclarecer a dúvida que surgiu com relação ao comentário anterior. Quando o Codificador afirma “Por isso mesmo não constitui privilégio...”, ele está deixando claro que o médium não deve ser tratado como um “super-homem”, um “predestinado”, ou um “fora de série”, como é comum, ainda mais no século XIX. Por conseguinte, essa colocação parece sinalizar que a afirmação anterior (“Essa faculdade é inerente ao homem”) é muito mais uma prevenção contra o excessivo misticismo que a mediunidade desperta, do que o estabelecimento de que tal faculdade é ocorrência observada na totalidade da população.

De fato, quando Kardec afirma “...e são raras as pessoas que não a possuem pelo menos em estado rudimentar...”, ele admite que algumas pessoas poderiam não ter mediunidade alguma (ao utilizar a palavra “raras”). Portanto, estaria, em princípio, excluída a possibilidade de Kardec estar afirmando que 100% das pessoas são médiuns. Além disso, Kardec parece sugerir que muitos dos que a possuem, apresentam uma mediunidade apenas “em estado rudimentar”, o que seria, aparentemente, algo tão pouco expressivo, que, na prática, seria como se o indivíduo não tivesse mediunidade.

“Pode-se dizer, pois, que todos são mais ou menos médiuns.”


Para simplificar a questão, Kardec afirma que “pode-se dizer que todos são mais ou menos médiuns.” Apesar dessa afirmação de Kardec realmente dar margem à afirmativa de que “todos são médiuns”, ele a constrói quase como se fosse uma concessão (“Pode-se dizer...”), ou seja, uma simplificação didática mais grosseira. Isso fica evidente principalmente se analisarmos em conjunto com a frase anterior. De fato, Kardec não cairia em contradição tão brutal, ainda mais em duas colocações justapostas. Ademais, o “...mais ou menos médiuns”, sugere que essa concessão deve ser utilizada com um certo cuidado, pois alguns podem ser “mais médiuns”, mas muitos poderiam ser “...menos médiuns”.

“Usualmente, porém, essa qualificação se aplica somente aos que possuem uma faculdade mediúnica bem caracterizada, que se traduz por efeitos patentes de certa intensidade, o que depende de uma organização mais ou menos sensitiva.”

Kardec conclui seu primeiro parágrafo, afirmando que comumente o termo “médium” é utilizado somente para aqueles que demonstram uma “intensidade” mediúnica significativa, “bem caracterizada”, com “efeitos patentes”. Ora, é fácil perceber que apenas uma minoria bem pequena da população é capaz de apresentar fenômenos mediúnicos nesse nível de intensidade.

“Deve-se notar, ainda, que essa faculdade não se revela em todos da mesma maneira. Os médiuns têm, geralmente, aptidão especial para esta ou aquela ordem de fenômenos, o que os divide em tantas variedades quantas são as espécies de manifestações. As principais são: médiuns de efeitos físicos, médiuns sensitivos ou impressionáveis, auditivos, falantes, videntes, sonâmbulos, curadores, pneumatógrafos, escreventes ou psicógrafos.”

Kardec inicia o segundo parágrafo destacando o caráter eminentemente pessoal e variável da mediunidade. Ademais, interessantemente, para diferenciar as nuances mediúnicas, Kardec cita como tipos mediúnicos até casos raríssimos de especialidade mediúnica, como é o caso dos médiuns “pneumatógrafos”. Isso permite inferir que devemos ter cuidado ao utilizar o termo “médium”, pois o mesmo era, na prática, utilizado para quem realmente era intermediário de fenômenos bem representativos.

Logo, é importante que registrar que a predisposição básica ao fenômeno, que não gera nenhuma percepção mediúnica concreta, passível de ser analisada em reuniões de experimentação, constitui, em princípio, a condição da maioria dos seres humanos. Por outro lado, aquilo que se convencionou chamar de “mediunidade ostensiva” ou “mediunidade de ação” constitui condição de uma micro minoria dos seres humanos. Kardec também destaca que essa condição “...depende de uma organização mais ou menos sensitiva”, dando a entender que, por depender de uma predisposição orgânica, haveria limitações em nossas possibilidades de expandi-la, em uma única encarnação, a partir de uma condição orgânica desfavorável às manifestações mediúnicas mais contundentes.

Implicações no Movimento Espírita

A partir da popularização, sem maior explicação, da frase simplista “todos são médiuns”, uma série de procedimentos questionáveis comumente encontrados no nosso movimento espírita têm sido explicados ou pretensamente justificados.

Encaminhamentos sistemáticos à reunião mediúnica de grande número de interessados ou apenas curiosos têm gerado reuniões em que não se percebe a presença de nenhum médium ostensivo ou de ação. Isso não seria necessariamente ruim, se a reunião fosse entendida apenas como um teste preliminar, isto é, se houvesse um entendimento mínimo de que o exercício mediúnico pode realmente não gerar algo concreto. No entanto, raramente esse é caso, implicando que a proposição e principalmente a manutenção de “reuniões mediúnicas sem médiuns” frequentemente tem gerado processos anímico-mistificadores difíceis de serem corrigidos. Isso ocorre em função de uma expectativa exagerada em relação ao que a reunião mediúnica pode proporcionar e também em função de um desconhecimento das limitações da fenomenologia mediúnica, sobretudo para quem não é “médium ostensivo”.

Cursos de iniciação à Doutrina Espírita, com variados nomes, e com maior ou menor ênfase no estudo da mediunidade, têm gerado um número enorme de grupos mediúnicos ou de desenvolvimento mediúnico. Resta saber se todos esses grupos apresentam pelo menos um médium ostensivo por reunião ou, pelo menos, se as reuniões que não apresentam médiuns ostensivos têm, da parte de seus participantes, uma noção clara das limitações em termos de intensidade mediúnica de todos os componentes.

Esse cuidado deve ser bem trabalhado previamente por dirigentes, doutrinadores, palestrantes e estudantes da mediunidade em geral, a fim de evitarmos a ocorrência de reuniões em que a autossugestão e a imaginação acabem sendo tomadas como fenômenos mediúnicos “patentes”.

12 setembro 2020

Como o Espírito é Resgatado no Velório? - Leonardo Marmo Moreira

(Ilustração do Livro: Voltei - Irmão Jacob - Psicografia de Chico Xavier)


COMO O ESPÍRITO É RESGATADO NO VELÓRIO?


O momento da morte representa um impacto emocional muito forte para a maioria dos seres humanos. Isto se aplica tanto aos próprios desencarnantes como aos seus entes queridos. Como ninguém sabe ao certo quando será sua morte, ou, em outras palavras, por quanto durará o resto da sua própria existência física e a dos seus amigos e familiares, a morte quase sempre representa uma surpresa e um grande choque emotivo.

Sendo assim, a preparação para o enfrentamento da complexa transição desencarnatória consiste em uma tarefa espiritual relevante, urgente e contínua. De fato, a preparação para a morte, bem como a auto estruturação para a vida requer um processo de “educação continuada” para o Espírito que almeja passar bem por estes dois estágios da vida imortal.


Como age as equipes de resgate nos velórios?

Entretanto, grande número de criaturas desencarna diariamente na Crosta terrestre sem uma preparação prévia mínima para enfrentar esta difícil transição. O mesmo vale para a maioria dos amigos e familiares do desencarnante que muitas vezes não está preparada para encarar adequadamente este tipo de ocorrência, a começar pelo comportamento de disciplina espiritual requisitada no chamado “velório”.

O velório consiste em um período de mais ou menos 24 horas em que os indivíduos próximos “velariam” a alma desencarnante, em etapa preparatória para a fase decisiva e terminal do processo em questão, que seria a inumação definitiva dos despojos carnais. O velório funcionaria também como um momento de despedida e de assimilação emocional do choque por parte dos entes queridos.
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Além disso, o velório ainda apresenta uma relevância pragmática e significativa, que obviamente tinha uma maior importância nos séculos passados, que consiste em evitar que o indivíduo seja enterrado vivo. Antigamente, os critérios para certificação da morte, bem como a assistência médica, eram de qualidade precária. Isto ocorria em muitos rincões distantes das grandes cidades e em situações caóticas como a guerra, onde as certidões de óbito não eram proporcionadas ou eram emitidas de forma irresponsável. Assim, o intervalo de tempo respeitado desde a pressuposta morte até o enterro seria de vital importância para que muitas pessoas não fossem inumadas vivas. De fato, há muitos casos documentados no Brasil e no exterior de indivíduos que “acordaram” durante o seu próprio velório, em função de estados de letargia ou catalepsia associados à negligência e/ou imperícia dos responsáveis pela identificação e caracterização do óbito.

Do ponto de vista espiritual, a tradição de nossa sociedade de respeitar um período de vigília entre o óbito propriamente considerado e o enterro é totalmente justificada. As preces e o amor dos amigos ajudariam muito o desencarnante nessa viagem, muitas vezes perturbadora, para o mundo espiritual. Até porque as preces e as vibrações ambientes podem gerar, quando realmente elevadas, barreiras magnéticas que impeçam a presença de Espíritos sofredores e/ou vampirizadores que possam vir a prejudicar o desenlace de nosso irmão.

Respondendo sobre cremação, Emmanuel recomendou que se respeitasse um mínimo de 72 horas antes de se efetuar tal procedimento, pois isso evitaria sofrimentos desnecessários para o Espírito desencarnante, uma vez que tal período seria, a priori, suficiente para o total desligamento dos últimos liames que manteriam o perispírito conectado ao corpo físico. Tal informação denota que a desvinculação do perispírito não seria algo trivial e, ademais, demonstra que o processo crematório pode gerar repercussões em relação ao perispírito do Espírito que ainda não se libertou totalmente das impressões do corpo. De qualquer maneira, a recomendação do Benfeitor Espiritual demonstra como é importante nossa atuação efetiva do ponto de vista espiritual durante o velório.

Considerando esse contexto relevante e complexo de natureza espiritual, seria interessante frisar alguns comportamentos interessantes para todos aqueles que se dirigirem a um velório:


1) Somente permanecer presente no velório enquanto puder manter uma postura de vigilância;

2) Orar com sinceridade em favor do desencarnante e de sua família, compreendendo que mais cedo ou mais tarde chegará a nossa hora e que, então, constataremos o gigantesco valor da prece a nós dirigida em situações como a desencarnação;

3) Esforçar-se para não lembrar episódios infelizes envolvendo o desencarnante, compreendendo que todo pensamento tem elevada repercussão espiritual;

4) Estar sempre disponível para o chamado “atendimento fraterno” com os irmãos presentes, mas não esquecer que o velório não é uma situação adequada a debates de natureza filosófico-religiosa;

5) Respeitar a religião de todos os presentes e os cultos correspondentes a essas crenças, buscando contribuir efetivamente para a psicosfera de solidariedade do ambiente mesmo que em silêncio;

6) Não perder o foco do objetivo maior da presença no velório que é o auxílio espiritual ao desencarnante e aos familiares assim como aos Espíritos desencarnados que estejam no local necessitando de auxílio fluídico através da oração para contribuir no desligamento do desencarnante;

7) Estar disponível, na medida do possível, para contribuir espiritual e/ou materialmente com os irmãos presentes, sobretudo aqueles que estiverem sob maior impacto pela morte do irmão;

8) Se convidado a enunciar prece ou algumas palavras de homenagem ao desencarnante, tomar o cuidado de manter sempre a brevidade, a objetividade e o otimismo, evitando quaisquer imagens negativas que possam ser sugeridas por nossas palavras em relação aos irmãos presentes, sejam eles encarnados ou desencarnados;

9) Aproveitar a ocasião para refletir sobre a impermanência de todas as situações materiais da vida física, fortalecendo o nosso desejo de amar e servir durante o tempo que ainda nos resta no corpo físico.

10) Guardar a certeza de que o Espiritismo é “O Consolador” prometido por nosso Mestre Jesus e que a mensagem da Imortalidade da Alma desvelada por Jesus e por Kardec é a base de todas as nossas buscas de amor e fraternidade, bem como nosso refúgio em momentos dolorosos como a morte, sendo antes de tudo uma mensagem de alegria e otimismo, verdadeiramente a nossa “Boa Nova”.

Leonardo Marmo Moreira
O Consolador

30 janeiro 2018

Fracassos Reencarnatórios - Leonardo Marmo Moreira



FRACASSOS REENCARNATÓRIOS


"Àquele que tem, mais será dado e àquele que não tem, até o que pensa ter, ser-lhe-á tirado.” O Consolador – Leonardo Marmo Moreira

Esse interessante aforismo evangélico é ainda motivo de indagações profundas em relação ao seu significado em termos da Lei de Causa e Efeito.

Tal comentário de Jesus necessita ser associado a conquistas de valores espirituais e não de posses efêmeras, suscetíveis às alternâncias circunstanciais da vida material.

Quem tem grande potencial, ou seja, um elevado talento intelecto-moral terá mais condições de desenvolver obras de maior envergadura para o avanço espiritual concomitante de si mesmo e da sociedade.

Realmente, a Questão 132 de O Livro dos Espíritos estabelece que as tarefas primordiais do esforço reencarnatório consistem na própria evolução espiritual do Espírito reencarnado e, ao mesmo tempo, na participação como colaborador da Obra da Criação.

Logo, à medida que evoluímos individualmente colaboramos com a evolução de todos à nossa volta, uma vez que a nossa evolução dá-se através de contato social (Lei de Sociedade) e dos esforços inerentes a essa interação (Lei de Trabalho, Lei de Justiça, Amor e Caridade, entre outras).

Esse raciocínio bem simples e acessível é respaldado, inclusive, por outras passagens evangélicas como a própria “Parábola dos Talentos”.

Ocorre, porém, que vários indivíduos talentosos fracassam em suas tarefas reencarnatórias. André Luiz, em sua obra “Os Mensageiros”, relata em vários capítulos as experiências frustradas de companheiros que desencarnaram com realização espiritual pífia.

A intensidade do fracasso está relacionada à capacidade do fracassado, ao tempo de preparo, às oportunidades disponíveis e à relevância dos objetivos previamente traçados pelos próprios protagonistas dessas vivências em colaboração com mentores espirituais extremamente preparados e experientes.

Ressalta-se que as tarefas destes casos supracitados estavam centradas em trabalhos de cunho espiritual, destacando-se o papel de médiuns e doutrinadores.

Além disso, o autor espiritual, que havia sido médico na última encarnação, analisa o próprio fracasso como ser humano de uma forma geral em relação a outros médicos que fracassaram especificamente no desempenho da atividade médica.

Também é digna de registro a obra “Tormentos da Obsessão” (Manoel Philomeno de Miranda/Divaldo Pereira Franco) que relata grande número de casos envolvendo espíritas fracassados em suas reencarnações, os quais foram socorridos no “Hospital Esperança” pelo Mentor Espiritual Eurípedes Barsanulfo e sua equipe.

Em muitos exemplos, as falências espirituais de criaturas talentosas acontecem, pois, apesar de indiscutíveis conquistas prévias em determinada área, o Espírito reencarnante traz falhas espirituais, sobretudo morais, que acabam afetando o trabalho específico que ele deveria realizar, mesmo que esse indivíduo tenha realmente imenso cabedal em certo setor evolutivo. Assim, as diversas mazelas intelecto-morais em outras áreas do comportamento humano dificilmente permitem que o candidato à realização espiritual consiga manifestar plenamente seu talento, pois a indisciplina, a falta de força de vontade e a ausência de ideal superior, entre outras características pessoais, são tendências inferiores que limitam o desenvolvimento de maior amplitude de tarefas.

Até mesmo pequenos trabalhos podem ser comprometidos, pois traços de personalidade inferior como a intolerância e a impaciência suprimem frequentemente a manutenção de esforços de longo prazo, favorecendo o desperdício de oportunidades.

É importante frisar que “Deus não dá fardos pesados a ombros frágeis”, significando dizer que, se o indivíduo fracassa, ele deve atribuir essa queda espiritual à sua própria negligência, uma vez que o livre-arbítrio é alicerce da Lei de Deus.

No entanto, mesmo assim, estas experiências fracassadas, se bem estudadas e assimiladas, podem trazer aprendizados que serão as bases para realizações vitoriosas no futuro.

Por isso, quando não pudermos realizar totalmente nossas tarefas, tentemos, ao menos, realizar parcialmente, pois o nosso futuro espiritual será construído a partir das nossas construções do presente.

“Todo esforço de hoje é uma facilidade a sorrir amanhã”, nos ensina Emmanuel na obra “Palavras de Vida Eterna”, implicando que todo tempo perdido hoje será sempre oportunidade de crescimento desperdiçada a ser lembrada no dia de amanhã, quando as circunstâncias da vida podem não mais favorecer a referida realização.

Quando o indivíduo detém vários talentos, os quais são conquistas espirituais pretéritas, essas potencialidades atuam sinergicamente, fomentando o desenvolvimento de obras de maior complexidade.

Em outras palavras, quanto mais pré-requisitos intelecto-morais, maior a probabilidade de sucesso espiritual na encarnação, uma vez que mais recursos o Espírito reencarnado terá para “driblar” os obstáculos e as armadilhas do caminho existencial. Mesmo quando fraqueja espiritualmente, é possível que consiga realizar significativa obra, pois suas habilidades favorecem o surgimento e o aproveitamento de bom número de oportunidades.

Estes casos de Espíritos com grande capacidade que realizam parcialmente as suas tarefas são muito interessantes, pois podem gerar conflitos espirituais e complexos de culpa, mesmo quando tais companheiros são altamente reconhecidos pelo que realizaram, especialmente na análise dos encarnados.

Acontece que o autoexame sincero demonstra uma extensa perda de oportunidades e até mesmo aquisição de débitos, os quais passariam praticamente despercebidos se fossem associados a criaturas com menor cabedal espiritual.

Todavia, como a Lei de Deus está escrita na consciência da própria criatura, os Espíritos em questão constatam que poderiam ter feito muito mais por si mesmos e pela humanidade, pois o nível de consciência dessas criaturas já é bem elevado.

Assim sendo, quando nos sentimos detentores de poucos talentos, devemos ter alta vigilância e disciplina, porque somente o foco, o esforço no trabalho e a humildade frente às nossas fragilidades farão com que não “caiamos em tentações”, não nos deixando levar por interesses tortuosos que nos desviem de nossas tarefas principais, atrapalhando a manifestação de nosso talento espiritual, que representa os dons divinos em nós.

Interessantemente, a vigilância e a disciplina também são fundamentais quando alguns irmãos se sentem detentores de grandes possibilidades, pois as responsabilidades são evidentemente maiores: “Muito será cobrado a quem muito foi dado”.

Os Espíritos que já trazem um expressivo leque de habilidades podem, eventualmente, deixarem-se levar por interesses, muitas vezes dignos, mas não tão prioritários em relação aos compromissos assumidos previamente.

Neste contexto, é muito sugestiva a famosa recomendação de Emmanuel em seu primeiro contato com Chico Xavier, asseverando a relevância da disciplina nas tarefas espirituais.

Sabendo-se que “reconhece-se a árvore pelos frutos”, devemos nos autoavaliar constantemente para identificarmos as consequências concretas de nossas ações efetivas na vida física.

Se os efeitos dessas atitudes não têm representado valores do bem, da utilidade e da verdade, devemos repensar os caminhos que estamos trilhando, sob pena de nos vermos pelejando por questões com pouco valor espiritual em nossos esforços diários.

“Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que empreende para domar suas más inclinações.”

Portanto, o verdadeiro Espírita busca sua melhoria pessoal de forma sistemática, o que deve repercutir diretamente nos sentimentos, pensamentos e atitudes de cada adepto do Espiritismo, e, conseqüentemente, no aproveitamento das oportunidades evolutivas e na construção da obra no bem.

O Consolador – Leonardo Marmo Moreira