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06 janeiro 2021

Fogueiras modernas: o testemunho de Jan Hus - Vinícius Lara da Costa


 
FOGUEIRAS MODERNAS: O TESTEMUNHO DE JAN HUS

Hus nasceu em julho de 1369, em uma pequena comunidade localizada a aproximadamente 75 km de Praga, na Boêmia. Filho de camponeses, adentrou pelo caminho dos estudos em busca de uma melhor condição de vida, tendo se formado em Teologia, Filosofia e Artes, na Universidade de Praga. No ano de 1400 foi nomeado sacerdote e a partir de 1402 passou a realizar pregações na Igreja de Belém, também em Praga.[1]

Um traço marcante de sua formação intelectual foi a influência de John Wycliffe (1328-1384), considerado precursor das reformas religiosas que aconteceriam na Europa nos séculos XV e XVI. Wycliffe foi um sacerdote que trabalhou na primeira tradução da bíblia para o inglês e era conhecido por sua firmeza ao defender a incompatibilidade entre comportamentos eclesiásticos de seu tempo e os ensinos contidos nos Evangelhos. Segundo seu pensamento, a Igreja possuía muitas posses e poder, negligenciando os assuntos espirituais para se ocupar de eventos mundanos. Após sua morte, em 1415, foi ordenado que seus restos mortais fossem exumados, queimados e jogados sobre o rio Swift como forma de reforçar a perseguição eclesiástica ao teólogo reformista.

Baseando-se em Wycliffe, Hus seguiu um caminho bastante semelhante ao dele, não oferecendo reconhecimento à autoridade papal, considerava apenas Jesus como verdadeiro superior à Igreja, bem como os Evangelhos como única lei aos fiéis. Aos poucos suas divergências com o clero se tornaram tão claras que, em 1410, ele foi excomungado, o que gerou entre seus compatriotas uma grande festa que o elevava como herói nacional na luta contra o tráfico das indulgências e a política imperialista e dominadora que era adotada pela Igreja Católica. No ano de 1414 ele foi convocado a se apresentar junto ao Concílio de Constança (Alemanha) tendo sido preso e condenado à morte pela fogueira, o que enfrentou com dignidade, coragem e fé.

As sementes reformistas plantadas por Wycliffe e alimentadas pela postura de Hus foram muito importantes para o amadurecimento de uma crítica à função política da instituição Igreja, bem como para reflexões a respeito dos fundamentos dos ensinos de Jesus que deveriam se assentar sobre as bases da simplicidade, permitindo assim amplo acesso de todas as pessoas à verdade espiritual, sem intermediação de sacerdotes ou sacramentos. Martinho Lutero (1483-1546) juntamente com outros reformadores iniciaram movimentos semelhantes ao de Wycliffe-Hus no século seguinte, o que permitiu a realização do que a História registra como Reforma Protestante.

A admiração de Allan Kardec pelo mártir da Boemia é grande, e isso se pode notar pela mensagem ditada por ele na edição de setembro de 1869 a respeito das comemorações de 500 do nascimento de Hus:

Analisando através das eras a história da Humanidade, o filósofo e o pensador logo reconhecem, na origem e no desenvolvimento das civilizações, uma gradação insensível e contínua. – De um conjunto homogêneo e bárbaro surge, em primeiro lugar, uma inteligência isolada, desconhecida e perseguida, mas que, não obstante, faz época e serve de baliza, de ponto de referência para o futuro. – A tribo, ou se quiserdes, a nação, o Universo avançam em idade e as balizas se multiplicam, semeando aqui e ali os princípios de verdade e de justiça que serão a partilha das gerações que chegam. Essas balizas esparsas são os precursores; eles semeiam uma idéia, desenvolvem-na durante sua vida terrena, vigiam-na e a protegem no estado de Espírito, e voltam periodicamente através dos séculos para trazerem seu concurso e sua atividade ao seu desenvolvimento.

Além de Kardec, também Léon Denis faz menções a Jan Hus e algumas de suas obras[2], sempre destacando o caráter exemplar de sua conduta, que repercutiu pelos séculos como modelo de firmeza moral diante de excessos religiosos. Mas o que especificamente teria a vida e a morte de Jan Hus a nos dizer hoje?

Penso de modo objetivo que a herança hussista não seria outra senão o valor da contestação e da resistência íntegra diante dos abusos no campo da fé. Hus nos ensina sobre a necessidade de buscar a conexão com os ensinos espirituais a partir do coração e da mente, nunca seguindo rastros de formalismo externos. Aqui reside o tesouro mais precioso de seu testemunho, como também o de quase todos os heróis da virtude que nosso Ocidente conheceu e rechaçou.

Vejamos alguns aspectos do pensamento hussista em transporte para a contemporaneidade. Gostaria de me ater a três tópicos, que, obviamente, pelo espaço que dispomos neste artigo, serão abordados de maneira superficial. São eles o valor da pobreza/ simplicidade em oposição à ostentação; o rigorismo diante do acesso à informação/“formação” e a burocracia na condução da comunidade de prática espirituais.

Já o primeiro tópico seria fatal para boa parte de nosso movimento espírita: a simplicidade. Jan Hus – assim como Wycliffe e Lutero – foi crítico severo da discrepância entre os ensinamentos de Jesus e a rotina da Igreja. Como podemos conciliar templos suntuosos, eventos caríssimos, máfias[3] livreiras em busca de recursos, palestrantes exigentes ao extremo com suas necessidades, ou federativas faraônicas e distantes da realidade das casas espíritas com os ensinamentos daquele homem que “não tinha sequer um lugar para repousar a cabeça[4]” e ensinava andando pelas cidades cercado de pessoas socialmente proscritas? Não é possível a conciliação, eis a questão!

Alguns companheiros poderão responder com recursos demagógicos como: “mas nós precisamos oferecer conforto aos participantes e frequentadores de eventos”, ou “é melhor quando recebemos palestrantes que vendem seus livro porque isso nos poupa gastos”, ou “mas os ricos e poderosos também precisam de atendimento” ou ainda, “organizando atividades grandiosas poderemos manter as tarefas sociais na instituição espírita e, neste contexto, os fins justificam os meios.” Infelizmente não é assim que acontece. O Espiritismo é uma ciência da mente e tem como função mais importante a capacidade de modificar nossa visão de mundo para percebermos a realidade material como transitória; uma ferramenta para superar vícios morais como orgulho, raiva, ignorância, apego ou inveja. Como apagar um incêndio se o alimentamos com todo tipo de combustível?

O argumento da massificação da doutrina é muito utilizado, sem que percebamos que, ao distribuir para as pessoas uma filosofia espírita misturada com alucinações e devaneios esdrúxulos estamos fazendo um desserviço para a doutrina e outro para a pessoa – vide casos como o de João de Deus, o de Otília Diogo, o de Maury Rodrigues da Cruz entre outros ainda não descobertos pela imprensa. Ninguém negará que remédios sejam úteis ao tratamento de doenças, desde que corretamente selecionados e ministrados com disciplina. Como podemos falar de valores morais como antídoto ao sofrimento em meio a “camarins” para palestrantes e identificações em telas de transmissão pela internet do tipo “fulano de tal – médium”?

Passando para o rigorismo e para a burocracia, que Hus combateu firmemente ao propor um cristianismo mais próximo das pessoas através do que chamava de “sacerdócio universal dos crentes” – ou seja,a crença de que qualquer fiel poderia se comunicar com Deus sem a intercessão de sacerdotes ou sacramentos – nos deparamos com outros desafios. Vem crescendo o número de casas espíritas extremamente engessadas em seu padrão de funcionamento, munidas com cartões de ponto, leitura biométrica ou outras coisas que compõem um conjunto de parafernálias modernas utilizadas para controlar seus frequentadores, enquanto estes percorrem o longo caminho de um currículo espírita com duração de anos – em alguns lugares mais de uma década – entre a adesão à instituição e a efetiva “liberação” para participar de trabalhos nas diversas áreas da casa, sendo o topo da escala sempre o departamento da mediunidade. Não é de se estranhar que, de modo geral, as instituições estejam perdendo seus jovens. Tudo isso leva tempo e burocracia demais, e o pior, são um mapa escrito de modo burocrático por pessoas de realidades diferentes daquela em que estão sendo seguidos. Falta lucidez ao processo.

Não faço aqui apologia ao despreparo – Hus não faria -, da mesma maneira que também não acredito que exercícios ascéticos estranhos seriam melhor do que toda essa “graduação” em Espiritismo. É preciso estudo e compreensão, mas tudo isso ladeado pela coerência e pela lógica.

Cada célula espírita possui o desafio de se construir sobre experiências reais de disciplinas físicas e morais para, em seguida, adaptar suas atividades à realidade particular do meio em que está inserida. Não são as federativas estaduais que devem definir como e quais estudos são melhores para uma casa espírita, nem mesmo a FEB tem condição de fazê-lo de modo absoluto. Sugestões, apoio e direcionamento, isso sim, cabe a nossos órgãos unificadores oferecer ao movimento. Agindo ao contrário vemos se construir o câncer que assola hoje o Espiritismo brasileiro: donos da doutrina, agressores contumazes dos grupos que não rezam em suas cartilhas e médiuns perturbados assinando literatura de mau gosto como se fossem verdades elevadas. E o resultado disso? Descrédito para o Espiritismo.

Me pergunto então, onde anda a coragem de romper com o círculo vicioso? De dizer não aos modismos tão travestidos de sabedoria inofensiva? De testemunhar a fidelidade ao pensamento de Jesus e de Allan Kardec sem a preocupação com as fogueiras ociosas de companheiros de movimento que lidam com o Espiritismo como se fosse uma copa de futebol? Eis aí o valor exemplar de Jan Hus, a coragem de assumir que o Espiritismo não é doutrina de massas, de reconhecer que conhecimento com arrogância é como veneno misturado no leite e de aceitar o compromisso modesto de viver a filosofia dos espíritos conquistando discernimento e paz capazes de se espalharem em nosso derredor.

O mundo em que vivemos ainda é lugar de provas e expiações e, com sinceridade, pode ser que jamais deixemos essa condição se não houver uma real guinada na direção do que importa verdadeiramente. Pessoas padecem a cada dia porque perderam o sentido existencial. Longe dos locais santificados do templo, nas ruas, nos metrôs, em escolas, supermercados, casas de família, bares ou bordéis há muita gente em sofrimento e é para elas que o Espiritismo existe, foi para elas que Jesus dedicou sua senda. Se nossa prática espírita acontece apenas entre as paredes do templo, com dia e hora marcada, debruçada sobre regras excessivas e que não estão presentes nos ensinamentos de Jesus, lembremo-nos de Jan Hus. O testemunho da humanidade nos convoca à coragem de servir, mesmo que com isso sejamos entregues às fogueiras modernas de nosso tempo.

Vinícius Lara da Costa
Fonte:
Rede Amigo Espirita


Referência:
 
[1] A maioria das informações biográficas coletadas sobre Jan Hus apresentadas neste artigo foram colhidas de outros textos disponíveis na internet. Destaco, entre eles, o artigo de Enrique Eliseo Baldovino, publicado na Revista O Reformador e disponível no endereço: http://www.souleitorespirita.com.br/reformador/destaque/jan-huss-600-anos-de-desencarnacao/

[2] Entre elas podemos citar “No invisível’, “Cristianismo e Espiritismo” e “O Problema do Ser, do Destino e da Dor.”

[3] O Dicionário Michaelis da língua Portuguesa apresenta a seguinte definição de máfia: ¹ Organização criminosa originada na Sicília controladora de atividade ilícita; ² Qualquer grupo de inescrupulosos que se associam para praticar crime organizado. Creio que aqui nos interesse especialmente a segunda definição.

[4] Mat. 8:20

13 outubro 2020

Hipocrisia gourmet: os riscos de uma seita chamada Espiritismo - Vinícius Lara da Costa

 



HIPOCRISIA GOURMET: OS RISCOS DE UMA SEITA CHAMADA ESPIRITISMO


E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito:Este povo honra-me com os lábios,Mas o seu coração está longe de mim; Marcos 7:6

Talvez o número de revelações espirituais seja grande no mundo porque, com mais frequência do que desejaria nossa motivação de praticar o bem, temos pervertido e conspurcado grandes ensinamentos semeados ao longo da história.

Embora não seja passível de uma afirmação categórica, praticamente todas as grandes religiões surgiram a partir da experiência de espíritos maduros que, intuindo as Leis Naturais, as traduziram de acordo com a cultura e o tempo para seus companheiros. Assim, a primeira geração da religião costuma ser vigorosa, profética. Após a rolagem do tempo, porém, o que antes fora vigor tende a se transformar em rigorismo e os profetas, que são missionários sem formação institucionalizada e cumprem sua função por uma espécie de impulso íntimo, são lentamente substituídos pelo sacerdotes: doutores no texto e da língua.

O Espiritismo não possui sacerdotes, pelo menos não em sua feição original. Não temos – ou não deveríamos ter – palestrantes, médiuns, espíritos ou dirigentes de instituições, que apenas pela função que ocupam temporariamente são tomados como referências absolutas da verdade. Para o Espiritismo conforme organizado por Allan Kardec há apenas duas fontes de aprendizado seguro para os iniciantes: o estudo dos fundamentos da nova ciência e a observação dos fatos espíritas, donde se poderia derivar princípios mais ou menos gerais capazes de sustentar a filosofia e a moral. Deste modo seria ideal que o móvel para nossas ações se desse no campo da análise detida, da meditação profunda e da crítica fraterna, reconhecendo que a autoridade de um espírito ou de um espírita não é fruto de uma boa produção midiática, do número de livros que ele publicou ou pelo número de seguidores que fez ao longo da vida, essa autoridade advém, antes, da capacidade de efetivar transformação na visão de mundo de seus companheiros, reconhecendo-se sempre como mais um.

Nesta direção o problema da hipocrisia é um ponto central. Como disse uma vez Richard Simonetti, “os espíritas se odeiam fraternalmente” e esse ranço, que só é fruto do embaçamento mental e vaidoso de grupos e seus guias solapa, dia após dia, o que poderia ser uma unidade de princípios ampla no campo da prática espírita brasileira e mundial.

As divisões aumentam na medida em que não compreendemos a obra de Allan Kardec e, à guisa de auxílio, nos valemos de outros autores, por mais respeitáveis que sejam, para tentar edificar a fundação do Espiritismo em nós. Com humildade e respeito é preciso dizer que se a casa onde habita sua prática espírita está construída sobre a obra de Léon Denis, Chico Xavier, Divaldo Franco, Yvonne do Amaral Pereira ou outros nomes importantes do nosso movimento, cedo ou tarde ela sofrerá fissuras porque fundação em Espiritismo se chama Allan Kardec. Todos os que vêm depois dele compõem paredes, telhado, acabamentos, enfim, acabamentos à obra de nossa morada espiritual. Acredito que o exemplo seja claro.

Mas o que isso tem em relação à hipocrisia? Ora, na medida em que não estamos seguros da base podemos descobrir que boa parte dos comportamentos adotados ante os nosso ídolos da caridade e da filantropia são belos, mas não possuem relação positiva com o Espiritismo. Vejamos alguns exemplos: Allan Kardec recusa, em o Livro dos Médiuns[1], várias mensagens atribuídas a espíritos renomados por não revelarem a elevação necessária, mesmo que bem redigidas. Quantas vezes nós, como movimento, pudemos fazer o mesmo com os espíritos que nos auxiliam sob a forma de “guias” seja na casa espírita ou nos congressos? Simplesmente por ter sido dito/ psicografado por este ou aquele médium as mensagens são isentas de equívocos?

Além disso, como lidar com problemas a respeito da cobrança e direitos autorais por parte de palestrantes que, divulgando o Espiritismo, criam plataformas de streaming pagas? Ou então, com a realização de eventos custosos, em hotéis, sob propagandas nada elevadas, alegando-se que o recurso dos eventos seria destinado à manutenção de obras assistenciais, os fins justificam os meios? Isso para não citar a mistura não ingênua entre terapeutas/médiuns/profissionais liberais que se apresentam com currículos longuíssimos antes de sua fala. O que impacta no entendimento de quem escuta e ensina sobre o evangelho se o expositor é engenheiro, mecânico, desempregado ou professor? Amigos, isso nunca esteve relacionado com o Espiritismo, nestas circunstâncias todos os ídolos são frágeis, e o pior, mesmo assim, adoramos o glamour de estar perto “do médium”, “do guia”, “da elite”.

Na Revista Espírita, em dezembro de 1863, o Espírito Erasto nos apresenta uma bela página a respeito do que ele identifica como os principais conflitos no seio do Espiritismo. É fácil perceber a atualidade do pensamento no que tange aos médiuns respeitáveis, porém humanos:

Hoje vossas falanges engrossam a olhos vistos e vossos partidários se contam aos milhões. Ora, em razão do número de adeptos, deslizam sob falsas máscaras os falsos irmãos dos quais ultimamente vos falou vosso presidente temporal. Não que eu venha recomendar-vos que não sejam abertas vossas fileiras senão às ovelhas sem mancha e as novilhas brancas; não, porque, mais que todos os outros, os pecadores têm direito de encontrar entre vós um refúgio contra suas próprias imperfeições. Mas aqueles dos quais vos aconselho que desconfieis são esses hipócritas perigosos, aos quais, à primeira vista, se é tentado e conceder toda a confiança. Com o auxílio de uma atitude rígida, sob o olho observador das massas, eles conservam esse ar sério e digno que leva a dizerem deles: “Que criaturas respeitáveis!” ao passo que, sob essa respeitabilidade aparente, por vezes se dissimulam a perfídia e a imoralidade.

Eles são acessíveis, obsequiosos, cheios de amenidades; eles insinuam-se nos interiores; eles entram voluntariamente na vida privada; eles escutam atrás das portas e se fazem surdos para escutar melhor; eles pressentem as inimizades, atiçam-nas e as alimentam; eles vão aos campos opostos, indagando, interrogando sobre cada um. O que faz este? De que vive aquele? Quem é fulano? Conheceis sua família? Depois os vereis ir surdamente desfilar na sombra as pequenas maledicências que conseguiram recolher, tendo o cuidado de envenená-las com untuosas calúnias. “São rumores em que a gente não acredita”, dizem eles, mas acrescentam: “Onde há fumaça há fogo, etc., etc.”

A esses tartufos da encarnação reuni os tartufos da erraticidade e vereis, meus caros amigos, quanto tenho razão de vos aconselhar a agir, de agora em diante, com extrema reserva e de vos guardardes de toda imprudência e de todo entusiasmo irrefletido.[2]

Se não podemos alinhar estes comportamentos com o fundamentos extremamente simples do Espiritismo, como ainda investir em uma espécie de “guiismo” tão descarnado da lógica e do bom senso? A resposta não é racional, porque racionalmente isso não tem sentido. Na mediocridade de nossa carência humana, o sonho é ser amigo do rei…

Aí chegamos então a uma religião de estrelas, ansiosa por expandir o número de adeptos e muito atenta aos nichos mercadológicos em que se enquadra a fé. Uma crença dissidente da ortodoxia, que se arvora em correta, portanto, uma seita[3]!

Tomando emprestada uma ideia da psicanálise – tão cara aos movimentos psicologizantes do espiritismo pop – é quase como se entre posturas afetadas, eventos caritativos e poses para fotos acontecesse, eventualmente, atos falhos, nos quais representantes destas mentalidades estranhas resolvem falar em nome da filosofia espírita de questões ligadas a partidarismos sociais, poder, autoridade e moralismo. Há um recalque presente, talvez o prazer de ser autoridade. Um prazer narcísico, personalista. Que bom que a morte sempre vem e destrói tudo isso.

Referências:

[1] O Livro dos Médiuns, cap. XXXI, Comunicações apócrifas.

[2] Revista Espírita, dezembro de 1863, Instruções dos espíritos, Os Conflitos.

[3] De acepção muitas vezes pejorativa, a seita é constituída de um grupo de indivíduos que professam uma doutrina diferente da doutrina considerada ortodoxa e majoritária. É o caso por exemplo dos hereges em matéria de religião; porém, quando ela se institucionaliza e adquire amplidão, a seita acaba por constituir uma Igreja: foi esse o destino, principalmente, das Igrejas protestantes. Como mostra Durkheim, o adepto, antes de se vincular à própria doutrina, quer participar a princípio do “sistema de forças coletivas” representadas pela seita. – DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Vinícius Lara da Costa
Fonte: Rede Amigo Espírita