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01 dezembro 2008

O Casamento - Raul Teixeira

O Casamento

Das instituições sociais, aquela que marca um importante progresso na ordem da sociedade humana, se chama casamento. E aqueles que imaginam que casamento seja uma coisa simples, uma coisa fácil, certamente incorrem em erro.

Casamento é uma coisa complexa. Vejamos porquê. Cada qual de nós é uma individualidade que se desconhece. Cada qual de nós se ignora solenemente. Há reações no nosso mundo íntimo, que não fazemos idéia de que as teremos. Há grandezas do nosso mundo interior que desconhecemos totalmente.

Há muitas reações nossas que explodem num minuto, num momento, e a gente não imagina de onde saíram essas tais reações. Logo, nós somos desconhecidos de nós próprios.

Não é a toa que os Espíritos do Bem recomendam que, para nós superarmos as tentações do mal e sermos felizes nesta vida, será importante seguir o que um velho sábio da antigüidade já disse: Conhece-te a ti mesmo.

Ora, na medida em que nós não nos conhecemos, se torna sempre difícil uma relação mais saudável de nós para conosco. Imaginemos quando nos unimos a uma outra criatura, que, por seu turno, também se desconhece.

Sim, porque cada criatura humana se ignora solenemente. Então, somos dois indivíduos, um homem e uma mulher que se desconhecem em si próprios, se conhecem relativamente e que vão se unir. E cada qual ignora o outro mais profundamente ainda.

Tudo isso poderia ser superado pela boa vontade. Esse desejo de conviver junto à pessoa querida, junto à pessoa amada, junto àquele indivíduo que escolhemos para participar da nossa vida, para partilhar da nossa vida.

Isso tudo nos ajudaria a ir superando essas dificuldades de entendimento. Iríamos nos conhecendo reciprocamente, enquanto nos iríamos conhecendo individualmente.

Cada vez que eu fizesse esforços, que eu demandasse movimentos de autoconhecimento, isso me facilitaria muito conhecer a outra pessoa. Obviamente eu me tornaria melhor esposo, ela se tornaria melhor esposa e ambos se fariam melhor casal.

Lamentavelmente essas coisas não existem. Porque, quando o indivíduo se casa com outro, deseja ser servido pelo outro, deseja que as virtudes estejam com o outro.

É muito comum que os rapazes digam: Estou procurando uma moça ideal para mim. Só que ele não imagina se ele será o rapaz ideal para ela.

As moças dizem: Estou procurando um príncipe encantado para mim, um homem ideal para minha vida. Muitas vezes não se dão conta de que elas não são a pessoa ideal para a vida dele.

E vivemos nesse jogo social de engana-engana e se engana e, com isso, é muito complicada a estrutura do matrimônio.

Mas nada que seja aberrante, nada que seja impossível de se concretizar, a partir do momento em que estamos lidando com pessoas adultas, com criaturas amadurecidas, que sabem que, a partir do momento em que tenham compromissos com outro coração, precisamos ter respeito para com esse compromisso.

É desse modo que o casamento se torna, segundo dizem os Bons Espíritos, os Guias da Humanidade, um progresso na marcha da sociedade.

O notável codificador espírita, Allan Kardec, fez uma pergunta em O Livro dos Espíritos: O que seria da vida social caso houvesse a abolição do casamento?

E a resposta que ele obteve em O Livro dos Espíritos é de que o ser humano tenderia a voltar à vida dos irracionais.

Lamentável seria isso porque, no momento em que nós já chegamos no estágio em que nos encontramos, somos seres racionais.

A razão deve guiar as nossas decisões, os nossos passos, deve orientar as nossas propostas de vida e, desse modo, o casamento se tornaria uma coisa bastante agradável. Por quê?

Porque nós estaríamos vivendo com a pessoa gostada, com a criatura querida.

Vale a pena pensar que o casamento na Terra tem esse caráter de nos fazer experienciar dimensões do amor que a gente não teria dentro de casa com o pai e com a mãe.

O amor que a gente dedica à mãe, o amor que dedicamos ao pai, ao irmão, aos irmãos, não tem a mesma dimensão do amor que um rapaz dedica à sua esposa ou à sua noiva, ou que a moça dedique ao seu marido, ao seu noivo.

Daí, nós vamos, através da instituição do casamento, desenvolvendo essas nuanças do amor: o amor conjugal, também conhecido como amor passional.

Até que nos nasçam os filhos e nós teremos aí a dimensão do amor paternal, maternal e, gradativamente, numa mesma existência, nós estaremos experimentando as mais variadas dimensões do amor.

E a visão do casamento, segundo as vistas de Deus, é nos permitir esse entrosamento, esse encaixe, de tal modo que nos candidatemos a cidadãos do futuro.

Estamos montando, através de um cadinho pequeno na forja doméstica, a grande família do futuro, a grande família do porvir, porque todos nós somos membros da família universal.

* * *

Quando nos unimos duas criaturas, é bom que se diga: nós não nos fundimos. Não estamos uma criatura amalgamada à outra.

Continuamos a ser um e outro, unidos pelo bem querer, pelos laços de amor, pela afetividade, pela camaradagem. Por tudo isso que deve alimentar uma relação a dois.

Mas, é importante saber que cada qual precisa ter essa liberdade de respirar, como nos lembra o grande poeta árabe Gibran Khalil Gibran, quando nos assevera que nós deveremos viver juntos, dançar juntos, cantar juntos, mas que cada um deverá estar sozinho.

É importante que cada cônjuge tenha esse espaço na relação, para o momento em que precisa ficar só.

Há muitos instantes em que a gente quer dar conta das próprias angústias internas, das aflições íntimas, das dúvidas que carrega consigo mesmo, dos tormentos espirituais, das angústias morais e, obviamente, não adianta o outro querer estar junto naquele momento.

São situações em que cada qual precisa respirar sozinho, chorar sozinho. E se precisar da ajuda do outro terá a liberdade de chamar.

É muito ruim quando o casal, porque está casado, se sente um dono do outro. Na hora que eu quero, o outro tem que querer: Eu só vou se você for, eu só faço se você fizer, eu só como se você comer.

Obviamente que sobrecarrega por demais a alma do cônjuge.

Nós deveremos estar juntos quando isso nos agradar a ambos. Nós deveremos caminhar juntos enquanto isso for importante para ambos. Mas quando um dos dois pedir um tempo para pensar a sós, para estar a sós, para chorar a sós, é indispensável que a gente dê.

Porque no casamento nós estamos experimentando esse entrosamento de dois irmãos. Nós somos irmãos porque somos filhos de Deus. Somos marido e mulher, somos esposos pelas relações biológicas do mundo, biopsicológicas do mundo, pelas relações sociais.

Mas, essencialmente, o que nós somos um do outro? Dois irmãos, filhos do mesmo Pai, do mesmo Deus, em experiências do matrimônio para que desenvolvamos essa dimensão do amor conjugal, que vai nos ajudar muito pelos caminhos da nossa evolução afora.

Mas não é esse o amor total que esperamos na vida. Por isso é que na relação familiar nós experienciamos as mais várias conotações do amor: o amor fraternal (entre irmãos), o amor passional (entre esposos), mais o amor filial, o amor maternal, o amor paternal.

Todas as nuanças, exatamente porque nós precisamos, através do casamento, ganhar essa experiência para que, unificados nesse sentimento tão bonito de amar, possamos cumprir a parte que nos cabe na obra da Criação.

Deus conta conosco para que, através da relação conjugal, através da família que nós vamos formar, possamos dar conta da nossa parte na evolução planetária, na evolução da família.

Vale a pena não cedermos às tentações da guerra doméstica, da briga doméstica, da disputa domiciliar.

É importantíssimo que cada esposo seja companheiro de sua esposa, seja o colega de sua esposa, que se riam juntos, que cantem juntos, que chorem juntos, comentem as coisas juntos, que briguem juntos.

Mas que o amor esteja acima de tudo isso e, gradativamente, todas as malquerenças, as indisposições, aquele pisar mais duro, aquele falar mais alto, possa ter alento nas águas do amor.

Ninguém vai esperar que na Terra de provas e expiações, cada casal se levante pela manhã saudando-se um ao outro naquele famoso Ave, César. Não.

Cada qual vai ter as suas dificuldades diárias, mas que o amor possa estar sempre à frente, nos ajudando a superar os mais variados enigmas da alma.

Cada qual que se une a uma outra pessoa, cada indivíduo que se une em casamento com outro ser, deverá pensar que essa é uma instituição complexa, porque são dois indivíduos, que se autodesconhecem profundamente, se unindo numa relação em que eles se entredesconhecem.

Por mais que convivamos juntos, por mais que os anos passem, vamos conhecendo uma ou outra nuança do caráter do companheiro, do cônjuge, mas nunca conheceremos a intimidade, a essencialidade de cada criatura, uma vez que nem essa mesma criatura se conhece a esse nível.

Vamos nos aproximando cada vez mais, tornando a nossa relação sempre mais fecunda e bela. Os esposos se sentindo companheiros, seres úteis à companheira e ela se fazendo a amiga, a conselheira, a cúmplice do seu ser querido. Que toda essa cumplicidade seja luminosa, que toda essa vinculação seja dadivosa, gerando frutos opimos, frutos doces, nessa grande árvore da vida, em que o Senhor da vida nos situou.

Transcrição do Programa Vida e Valores, de número 112, apresentado por Raul Teixeira, sob coordenação da Federação Espírita do Paraná. Programa gravado em outubro de 2007. Exibido pela NET, Canal 20, Curitiba, no dia 06.07.2008.

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