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02 outubro 2021

Quando as máscaras caem - Anselmo Ferreira Vasconcelos

 
QUANDO AS MÁSCARAS CAEM

O momento presente não é apenas avassalador em razão das milhares de almas que estão partindo da dimensão material sob intenso sofrimento. Ele deve ser igualmente considerado como um momento único e especial pelo que está proporcionando em termos de aprendizado às criaturas humanas. Ora, devemos recordar que as pessoas – pelo menos aquelas minimamente informadas acerca das coisas do Espírito imortal - vêm há muito tempo sendo alertadas sobre as dramáticas mudanças agora em curso.

Pois bem. A Terra finalmente chegou ao seu novo estágio de transição evolutiva (regeneração). Quanto tempo vai durar? Quantas almas perecerão? Quantas mudanças imediatas ocorrerão? Só Deus sabe. Seja como for, sob a transição nos alcançam não apenas inúmeras desgraças individuais e coletivas, mas também revelações terrivelmente chocantes sobre a natureza humana. Faço tal afirmação baseado no fato de que o cristianismo esparge sua luz redentora nos corações humanos há exatos 21 séculos.

Não me refiro aqui também aos atos escabrosos praticados pelos lobos travestidos de gente, que tentaram de todas as formas possíveis lucrar com a epidemia. Muitos, felizmente, já foram identificados pelas forças policiais e enfrentam agora as justas consequências dos seus crimes. Outros ainda tentam, é verdade, atrapalhar a ação da justiça, mas seu tentame é inútil. Mais hora menos hora haverão de receber a merecida pecha de ladrões do patrimônio público e certamente trilharão caminho semelhante. No geral, não passam de indivíduos sem escrúpulos que não se importam com a dor dos semelhantes.

Num plano mais básico da vida, no entanto, há aqueles que no clamor do processo depurador em andamento também estão mostrando a sua verdadeira face. Infelizmente, deles emergem características, traços de personalidade, comportamentos e atitudes deploráveis, claramente perceptíveis. Com efeito, ninguém consegue enganar os outros para sempre, já que a verdade sempre vem à tona. Mas quem são eles(as)? São simplesmente os(as) falsos(as) amigos(as), companheiros(as), colegas, parentes e – pasmem – até mesmo cônjuges.

De modo geral, os delitos não se circunscrevem apenas e tão somente aos execráveis feminicídios, parricídios, latrocínios etc. Há uma outra ordem de “crimes” não computadas pelas estatísticas, que destroem os relacionamentos e, por extensão, as oportunidades de união e entendimento. Ou seja, refiro-me às traições de todas as formas; as inimizades disfarçadas que geralmente escondem objetivos nefastos; os desejos de vingança ocultados pelo abençoado manto da reconciliação; o propósito de prejudicar (sem qualquer razão ou justificativa) outrem; a crônica falta de sinceridade, típica, aliás, da tibieza humana; o onipresente olhar malicioso e invejoso; sem falar na hedionda hipocrisia, que grassa em toda parte. Obviamente não esgoto aqui todas as possibilidades de manifestação do mal. Confesso humildemente não ter tal capacidade.

É verdade que a história humana é repleta de cometimentos torpes, cruéis e abomináveis. Afinal de contas, os indivíduos continuam privilegiando o efêmero em vez do eterno. A sublime mensagem de Jesus não foi ainda assimilada. Há poucos dias, aliás, assisti a um documentário muito esclarecedor sobre a vida do rei Henrique VIII da Inglaterra (1491-1547), e como ele se desfazia das pessoas, dos seus métodos perversos e da abundante maldade do seu Espírito. Claro que estou resgatando um exemplo extremo de perturbação espiritual. Entretanto, Henrique também enfrentou a morte física sob pesadas injunções, e não seria inconcebível imaginar que aquela alma ainda esteja pagando um elevado tributo pelos seus desmandos através de penosas encarnações.

O que realmente preocupa é identificar que o coração humano continua comprometido com as sombras, espalhando maldades e fel em todas as direções. Há, vivendo entre nós, criaturas profundamente doentes não apenas do corpo, mas também da alma. Altamente comprometidas com projetos malignos, estão criando para si mesmas futuras experiências tenebrosas, dignas do inferno de Dante. Dominadas por imensa insensatez, inveja, mesquinharia, maquiavelismo e ingratidão para os que lhes estendem as mãos amorosas, destilam o ácido corrosivo da fala maldosa e tomam atitudes perversas.

Mas, como tudo na vida, chega o dia em que a máscara cai e – como tantos romances da literatura espírita evidenciam com meridiana clareza – a verdade soberana sobrepuja todos os males. Dela, a propósito, ninguém escapa! Infelizes, aliás, todos aqueles que tentam subvertê-la ou manipulá-la. Acontecimentos ou eventos desenrolam-se naturalmente pela vontade de Deus, e, assim, os indivíduos trevosos acabam revelando todo o mal que lhes preenche o Espírito ensandecido. Para tais criaturas, ainda muito distantes da luz pela sua própria incúria e desequilíbrio emocional, provavelmente restará, por um bom tempo, o “choro e ranger de dentes”, do qual nos falou Jesus. Pobres criaturas!

Se uma delas estiver no seu caminho, use o sagrado recurso da oração misericordiosa. Sua iniciativa será certamente reconhecida pela espiritualidade, e o(a) infeliz haurirá, no momento oportuno, forças e inspiração para alcançar a indispensável lucidez.

Anselmo Ferreira Vasconcelos
Fonte: Espiritismo na Rede

06 julho 2021

A escravidão moderna e os seus desdobramentos espirituais - Anselmo Ferreira Vasconcelos

 
(imagem by Latuff 2006)

A ESCRAVIDÃO MODERNO E SEUS DESDOBRAMENTOS ESPIRITUAIS


Na sua geralmente árdua romagem terrena, que deveria lhe despertar a sensibilidade e os sentimentos para algo maior, a criatura humana não raro demonstra enormes dificuldades na assimilação da boa-fé e discernimento.

Ao agregar ao seu ser um conjunto de atitudes e ações desastrosas, não atina sobre os indesejáveis passivos que cria para si mesma. Sob essa sombria perspectiva e ainda movida pelo afã de “lucrar” inescrupulosamente, a tudo e a todos arrasta sem medir as consequências.

De erro em erro, portanto, elege a dor e o sofrimento como colheita obrigatória, que lhe caberá ceifar mais dia menos dia. Aliás, é decepcionante constatar que a lista dos desacertos dos seres humanos cresce exponencialmente, dado o seu voluntário afastamento das coisas sérias e elucidativas. Infelizmente, os apelos da matéria continuam atraindo os arautos da insensatez, até o dia em que os acicates da reparação cármica os despertem...

A propósito, Allan Kardec aduz interessantes comentários à questão 399 d’O Livro do Espíritos, que merecem aqui ser resgatados – ou seja:

“A natureza dessas vicissitudes e das provas que sofremos também nos podem esclarecer acerca do que fomos e do que fizemos, do mesmo modo que neste mundo julgamos os atos de um culpado pelo castigo que lhe inflige a lei. Assim, o orgulhoso será castigado no seu orgulho, mediante a humilhação de uma existência subalterna; o mau rico, o avarento, pela miséria; o que foi cruel para os outros, pelas crueldades que sofrerá; o tirano, pela escravidão; o mau filho, pela ingratidão de seus filhos; o preguiçoso, por um trabalho forçado etc.” (ênfase minha)

Posto isto, é deveras chocante observar que ainda há nesse planeta a soez prática da escravidão. É verdade que travestida de formas mais sutis, mas nem por isso menos real e concreta. Tal aberração foi, aliás, banida pela Inglaterra – país que, por sinal, muito dela se beneficiou – em 1834. No entanto, só em 1888 se deu a abolição da escravidão no Brasil – última nação do mundo a abraçar tão relevante ideal. Exibindo uma natural vocação à exploração humana, adiou quanto pôde a sua eliminação, até finalmente ceder aos ventos das transformações benfazejas trazidos pelas novas ideias e valores disseminados além-mar. Seja como for, e independente dos resgates justamente delineados pela lei de ação e reação, há criaturas ainda submetidas às injunções da escravidão em pleno século XXI.

Segundo o Observatório do Terceiro Setor, em 25 anos, 55 mil pessoas foram resgatadas do trabalho escravo em nosso solo. Para ilustrar a dimensão dessa imoralidade, só no ano passado, 942 pessoas foram libertadas dessa degradante condição. É fato incontestável que a pandemia trouxe mais agravos à situação que já era por si só deplorável. Com efeito, o desemprego acentuado e a miséria funcionam como indutores à proliferação desse mal à medida que facilitam a exploração trabalhista. E todo esse cenário indesejável proporciona as condições ideais à contratação de trabalhadores submetidos a situação semelhante à escravidão. Vítimas de verdadeiras aves de rapina são levadas a trabalhar e viver em ambientes sem sanitários, equipamentos mínimos de segurança e, o que é mais revoltante, sem pagamentos. A precariedade social desses trabalhadores leva-os ao endividamento perante os seus empregadores, que os exploram implacavelmente.

Lamentavelmente, não há suficiente número de auditores do trabalho, que poderiam, em teoria, intensificar as fiscalizações e, assim, reduzir ou eliminar de vez tão nefanda prática no país. Aqueles que são resgatados dessas aviltantes situações não têm garantia de que terão um futuro melhor já que:

“Mesmo com ações em prol da defesa dos direitos das vítimas resgatadas, os auditores não conseguem garantir que a vítima não vá retornar para a cadeia de exploração. De acordo com um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com base nas guias de seguro-desemprego do trabalhador resgatado no Brasil, ao menos 1,73% dos mais de 35 mil trabalhadores resgatados entre 2003 e 2017 haviam sido resgatados mais de uma vez”.

Segundo as estatísticas disponíveis, os setores que mais exploram esses trabalhadores são: criação de bovinos para corte (32%), cultivo de arroz (20%) e fabricação de álcool (11%). Boa parte das vítimas chegou a cursar no máximo até o 5º ano do ensino fundamental, mas a maioria é constituída de analfabetos.

A forma de escravização moderna é extremamente variada, ou seja, pode abarcar o trabalho forçado (incluindo o já referido endividamento), casamento forçado, exploração sexual de adultos e crianças e trabalho forçado imposto pelo próprio estado, ao ponto de especialistas afirmarem que “As pessoas precisam ter em mente que já podem ter tido contato com o trabalho análogo à escravidão. Não é algo que ocorre apenas em uma fazenda distante ou no interior do Brasil. A doméstica que trabalha para o seu vizinho, os trabalhadores na construção civil, ou até mesmo a carne que você compra pode ter passado por trabalhadores explorados. Toda a sociedade está envolvida neste ciclo”.

A situação é tão preocupante que a escravização moderna representa uma violação dos direitos humanos de aproximadamente 40,3 milhões de homens, mulheres e crianças ao redor do mundo, segundo um relatório de 2017 da OIT. Do ponto de vista espiritual, é preciso considerar que ao enveredar por tão tortuoso caminho, o Espírito infrator às leis de Deus está se comprometendo seriamente. Conforme revelaram os Espíritos a Kardec na citada obra, pois “É contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem. A escravidão [e seus sistemas análogos hodiernos, vale acrescentar] é um abuso da força. Desaparece com o progresso, como gradativamente desaparecerão todos os abusos”.

Ora, se tal coisa ainda persiste é porque não atingimos o progresso espiritual minimamente desejado em nossa civilização. Submeter os nossos semelhantes a prática tão ultrajante denota profundo atraso moral, e o perpetrador de tamanha barbaridade um dia sofrerá sob o mesmo guante. Por ora, cabe a nós denunciar supostos casos que se enquadrem nessa descrição, elaborar leis mais sólidas e, acima de tudo, punir severamente os infratores.

Anselmo Ferreira Vasconcelos
Fonte:
Espiritismo na Rede

04 setembro 2020

A mentira e as suas consequências - Anselmo Ferreira Vasconcelos


A MENTIRA E AS SUAS CONSEGUÊNCIAS


Dada a persistência de inúmeras ocorrências desagradáveis relacionadas ao hábito de mentir, volto ao tema. [1] Por que escrevo novamente sobre esse tema? Porque me causa espanto – e certamente o mesmo acontece para muitos – saber que se trata de comportamento corriqueiro em nosso país. Talvez também seja em outras nações do mundo, particularmente naquelas onde a ética ainda não constitua uma preocupação geral. Em todo caso, não é comum encontrar notícias dessa natureza no noticiário internacional, exceção aos Estados Unidos por motivos óbvios.

A questão é que a mentira apresenta muitas facetas. Aliás, não é, por exemplo, a chamada fake news uma atividade espúria que visa, nada mais nada menos, do que macular reputações ilibadas através da disseminação de mentiras? Com efeito, há atualmente um esforço para no mínimo tolher esta prática abjeta, que, por incrível que pareça, é abraçada por muita gente que faz disto uma profissão de fé.

As fake news, cumpre recordar, distorcem, confundem e, principalmente, entesouram inverdades cruéis, que tornam mais complicada a vida das vítimas dos comentários levianos. Portanto, é decepcionante perceber que há indivíduos que ainda se dedicam, de maneira contumaz, ao mister da mentira. Não bastasse isto, a prática de mentir propriamente dita – é preciso reconhecer – envolve todos os segmentos da sociedade.

Nesse sentido, já é de amplo conhecimento que, conforme revelam recrutadores profissionais, os candidatos a emprego têm a péssima mania de “inflar” os seus currículos, normalmente listando uma língua que não dominam ou experiências que nem chegaram perto de ter. Em face disso, o profissional de recrutamento precisa ser meticuloso em sua análise, checando e rechecando as informações prestadas pelo aspirante ao cargo, para que a sua indicação seja precisa.

É igualmente comum – embora indesejável – observar políticos exagerarem os seus supostos feitos ou proezas em discursos ou falas. Lembro-me, por sinal, de uma famosa novela exibida na minha adolescência, O Bem-Amado, cujo protagonista, o prefeito Odorico Paraguaçu, extraordinariamente interpretado pelo ator Paulo Gracindo, fazia estripulias no campo da linguagem em seus pronunciamentos para justificar as suas tramoias.

Histórias à parte, tal hábito, infelizmente, continua entranhado em nosso meio. Aliás, recordo-me igualmente de certo político do passado da minha querida São Paulo, que costumava usar este expediente para ganhar a simpatia do eleitorado. A sua fala caricaturada era tão distante da realidade, tão eivada de inverdades, que, geralmente no dia seguinte, os jornais tratavam de publicar artigos desmentindo-o com veemência. Triste figura!

No entanto, mais triste ainda é o fato de se tratar de atitude generalizada, isto é, muito longe de ser apanágio exclusivo dos políticos espertalhões. Sabe-se agora que também educadores mentem descaradamente sobre os seus cursos e diplomas. A propósito, um candidato a ministro recentemente teve o seu currículo acadêmico devassado e, para a sua infelicidade, inúmeras inconsistências foram encontradas.

O resultado foi a simples retirada do convite para assumir posição altamente relevante na administração pública do país. Por conta disso, esse indivíduo – embora não seja o único, vale frisar – terá de conviver com uma dolorosa pecha para o resto dos seus dias. O seu caso despertou a atenção para outros que também mentiram sobre os seus títulos, mas que gozam de maior complacência. Até mesmo no Espiritismo – valha-me Deus – há gente que afirma ter conhecido em tom de jactância este ou aquele expoente, esquecendo-se da sempre elogiável discrição como princípio.

Seja como for, a questão central é que mentir não é uma atitude sã. Tal desvio de conduta revela que o seu portador possui alguma anormalidade que o impede de se apresentar ao mundo tal como é. Por isso, independentemente das nossas características intrínsecas ou extrínsecas, não devemos temer a atitude de empregar a verdade em todas as ocasiões. O cultivo da verdade é diretriz seguida por almas essencialmente maduras, cientes da sua real condição, e que não sucumbem mais aos apelos das falsas aparências.

Consagrar-se ao hábito de mentir, por outro lado, é conduta típica daqueles que não conseguem alcançar o estado ou condição que propalam, e que se valem desse recurso obscuro para alcançar vantagens ou conquistas imerecidas. Mas como não há mal que fique indefinidamente encoberto, um dia a verdade vem à tona e com ela a vergonha de ser desmascarado. Na verdade, os recursos tecnológicos ora existentes contribuem significativamente para desvendar a verdadeira identidade de cada um. Diria, por isso, que mentir é fundamentalmente perda de tempo, já que se gasta o precioso recurso em atividades que não se sustentarão para sempre. Posto isto, recorro uma vez mais ao ensinamento do Espírito Joanna de Ângelis, no livro Luz da Esperança (psicografia de Divaldo Pereira Franco): “Acostuma-te a ser fiel à verdade e ela estará à tua frente, abrindo-te os caminhos por onde palmilharás, sem que receies ser por ela seguido, corrigindo as tuas informações e dando a dimensão do teu comportamento, como sucede ao mentiroso”.

Sendo assim, sejamos verdadeiros em todas as circunstâncias de nossas vidas. Não atribuamos a nós características ou feitos que ainda não somos capazes de realizar.

AnselmoFerreira Vasconcelos
Fonte: Espiritismo na Rede

Nota:

[1] Avaliei outros aspectos no seguinte artigo: Enfrentando os males da mentira. O Consolador [On-line], ano 12, nº 578, 29 de julho de 2018.

21 abril 2019

Amor e trabalho andam juntos? - Anselmo Ferreira Vasconcelos



O AMOR E TRABALHO ANDAM JUNTOS?



A indagação acima é pertinente, já que reina a sensação de que tal combinação é impossível. Amor no contexto do trabalho não é um tema amplamente escarafunchado. Com efeito, há muito espaço ainda, especialmente dentro da área do comportamento organizacional e da psicologia industrial, para significativos avanços em relação ao entendimento da manifestação do amor no trabalho.

Afinal, não há lógica nenhuma em imaginar ou transformar o ambiente de trabalho em cenário de confrontos e desamor. Mas enquanto ainda não se desenvolvem estudos mais profundos, particularmente sob o enfoque fenomenológico, tem-se como aceitável que o amor, na visão dos scholars, é um construto multifacetado. Para eles, aliás, prevalece a compreensão de que o amor no trabalho pode manifestar-se de várias maneiras, tais como estar disposto em ser útil, em conhecer as necessidades dos outros, em ter coragem para expressar admiração e respeito pelo trabalho dos companheiros.

Por ora, no entanto, segundo as pesquisas, duas marcantes características foram devidamente identificadas: trata-se de algo calcado em valores e foco na organização como uma comunidade. Talvez tão pouco ainda tenha sido revelado devido à nossa incapacidade — assim especulo — de enxergar no trabalho que realizamos — independentemente do que fazemos — o desdobramento de amor que eventualmente nos anima. Seja como for, em tendo a oportunidade de ter um trabalho — algo extraordinário no momento em que vivemos sob crescente domínio da inteligência artificial e robótica — é preciso igualmente saber retribuir, de alguma maneira, a bênção recebida.

Voltamos a esse assunto devido às tragédias coletivas e aos sinais visíveis de ausência de amor no trabalho sob as perspectivas acima mencionadas. Para muitos, infelizmente, o trabalho é apenas um meio de se ganhar a vida, pagar as contas, acumular patrimônio e assim por diante. Ou seja, muitas pessoas percebem o trabalho apenas como um meio de subsistência ou eventual enriquecimento e nada mais. Suas mentes não conseguem ainda divisar a atividade laboral sob a perspectiva transcendental. Seguem daí as atitudes negligentes, as cogitações infelizes e, o mais preocupante, as decisões temerárias.

Explicando melhor, as tragédias de Mariana, Brumadinho e do Ninho do Urubu não foram obras do acaso. Em síntese, foram frutos amargos gerados pela falta de amor ao próximo. Cristo, a quem temos por modelo de amor, deixou-nos dois mandamentos basilares: amar a Deus e ao próximo como se fosse nós mesmos. Tais deveres representam a essência do desafio humano no cadinho da matéria acrisolante. Conforme nossa conduta nestas duas dimensões, haveremos de avançar para a luz ou padecer nas sombras.

Portanto, o desenvolvimento do amor no trabalho é a chance de mostrar se estamos efetivamente prontos para cooperar e contribuir na obra divina. Tendo por premissa Deus e os nossos vizinhos, não cabe de nossa parte outra atitude a não ser ajudar, facilitar, proteger e amparar os que precisam de nós ou de nosso esforço. Quando vemos, por exemplo, pontes caindo — ou em vias de — nas grandes cidades, remédios e médicos faltando nos hospitais públicos, idosos desrespeitados, serviços malfeitos ou perigos subestimados devido à ganância ou negligência de executivos e agentes do Estado, então, é preciso rever o que estamos fazendo em relação aos dons e potencialidades que o Pai nos outorgou.

Por outro lado, cabe lembrar que o nosso envolvimento em malfeitorias ou atos de perversidade nos prejudicará aqui e do outro lado. Não há justificativa aceitável para quem usa o seu trabalho para prejudicar ou lesar os outros, mesmo que se trate de “obrigações da função”. Tenhamos muito cuidado com relação ao meio que escolhemos para ganhar a vida, pois daremos conta do que fizermos perante as leis do mundo e as de Deus.

Nesse sentido, o Espírito Manoel Philomeno de Miranda faz importante advertência aos indivíduos de conduta delituosa, na obra Transição Planetária (psicografia de Divaldo Pereira Franco), que vale destacar:

“As criaturas que persistirem na acomodação perversa da indiferença pela dor do seu irmão, que assinalarem a existência pela criminalidade conhecida ou ignorada, que firmarem pacto de adesão à extorsão, ao suborno, aos diversos comportamentos delituosos do denominado colarinho branco, mantendo conduta egotista, tripudiando sobre as aflições do próximo, comprazendo-se na luxúria e na drogadição, na exploração indébita de outras vidas, por um largo período não disporão de meios de permanecer na Terra, sendo exiladas para mundos inferiores, onde irão ser úteis limando as arestas das imperfeições morais, a fim de retornarem, mais tarde, ao seio generoso da mãe-Terra que hoje não quiseram respeitar.”

Posto isto, lembremos também que fazer ao outro o que desejamos para nós é uma obrigação moral. É a oportunidade de reciprocar os proeminentes benefícios do amor que nos envolvem desde o nascimento. Assim sendo, adornar as nossas tarefas com esse sentimento sublime nos aproxima da divindade. Todos nós temos condições de nos conduzir consoante esse preceito. A transformação da Terra para uma morada melhor, mais iluminada, dependerá exclusivamente do nosso empenho em aplicar o amor em tudo o que fizermos e tocarmos. Tal esforço contará muito a nosso favor hoje e sempre. Do contrário, será muito desagradável retornar ao mundo espiritual sem termos uma lista de feitos com base nesse sentimento.

Anselmo Ferreira Vasconcelos
Fonte: O Clarim


18 junho 2017

Líderes narcisistas e a sua influência - Anselmo Ferreira Vasconcelos



LÍDERES NARCISISTAS E A SUA INFLUÊNCIA



Com muita propriedade, lembra o Espírito Emmanuel na obra Caminho, Verdade e Vida (psicografia de Francisco Cândido Xavier) que não apenas as criaturas sofrem a obsessão de Espíritos perversos, mas, igualmente ou ainda mais, os agrupamentos e as instituições humanas.

De fato, certas obsessões coletivas são claramente perceptíveis no mundo hodierno. Algumas chegam a desafiar a lógica e o pensamento racional. Já nos referimos anteriormente às obsessões produzidas pelos vícios tecnológicos.

Essas, cada vez mais pronunciadas, têm manietado milhões de humanos no mundo inteiro às telas de smartphones, tablets, videogames e PCs numa frequência e intensidade anormais. Tais devices tornaram-se praticamente extensões do corpo humano. Por conseguinte, os seus efeitos deletérios têm sido proficientemente identificados por cientistas, médicos, psicólogos e terapeutas.

Todavia, existem outras obsessões coletivas menos visíveis. Estas exigem muito esforço do observador para detectá-las, pois não são claramente explicitadas pelo menos até o momento em que determinadas forças sociais eclodem. No geral, elas são mais sutis, embora não menos destrutivas. Elas nascem e se proliferam em meio aos valores e ideias comuns cultivadas por uma considerável parcela de indivíduos.

Às vezes, abarcam até uma nação tal o seu poder de penetração. O advento do nazismo, por exemplo, tem forte ligação com o que queremos aludir. Uma boa parte da população se sentia algo alijada e incomodada até que surgiu um líder carismático (e também narcisista) capaz de aglutinar todos os descontentes com o seu discurso explosivo.

De modo geral, os dicionários tendem a descrever o indivíduo narcisista como alguém extremamente apegado à própria imagem, assim como focado em si mesmo. Dito de outra forma, pessoas narcisistas não se importam muito com o que os outros pensam ou sentem. O que efetivamente vale para elas são os seus desejos pessoais. Por força das circunstâncias, elas conseguem elevada projeção, pois não raro apresentam grande capacidade de articulação e arregimentação. São normalmente populistas, astutos e, como tal, sabem convencer com extrema competência os mais incautos. Sabem manipular com destreza temas candentes.

Tais líderes estão ocupando presentemente postos de comando em importantes nações do planeta, assim como organizações humanas.

Precisamos, por isso, nos precatar contra a sua influência maléfica e destrutiva. Eles são muito sedutores e conseguem com grande habilidade distorcer fatos e acontecimentos para atingir os seus propósitos inconfessáveis. Na essência, contudo, não passam de almas infantilizadas já que brincam com coisas muito sérias.

No universo político, indivíduos com tal perfil abundam. Eles certamente vieram para confundir e iludir as criaturas mais ingênuas. As suas propostas nacionalistas, xenófobas, eivadas de intolerância e malícia, não visam nada mais do que criar o caos planetário. Com toda certeza, eles não servem a Deus. O seu ideário é constituído de pensamentos necrosados. Por isso, devemos lembrar dos sábios ensinamentos de Jesus como, por exemplo: “[...] O reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, e que apanha toda qualidade de peixes” (Mateus, 13: 47). O sublime rabi da Galileia deixa entrever nessa passagem evangélica que o respeito às diferenças e singularidades estão presentes em toda a obra divina.

Desse modo, não há sentido em fomentar a cizânia e o preconceito, especialmente em sociedades claramente identificadas com os ideais cristãos. É fato que nem tudo pode nos agradar na atualidade, mas devemos exercitar a tolerância e o respeito. Ademais, todos têm o direito de buscar uma vida melhor independentemente das suas particularidades e crenças.


Anselmo Ferreira Vasconcelos


06 novembro 2016

Alzheimer Espiritual - Anselmo Ferreira Vasconcelos



ALZHEIMER ESPIRITUAL


O papa Francisco tem se notabilizado pela coragem e firmeza em seus pronunciamentos. A ele tem cabido, como líder de uma das maiores instituições religiosas do planeta, a dura missão de corrigir o rumo do Catolicismo diante dos desmandos e desvirtuamentos perpetrados pelos seus prelados ao longo das últimas décadas e do distanciamento dos ensinamentos de Jesus Cristo.

O seu pontificado tem sido notável por apontar com clareza meridiana as fraturas morais praticadas pela sua instituição num autêntico processo catártico. Recentemente, o Papa Francisco apresentou, num encontro religioso comemorativo do Natal, todos os males que, a seu ver, estavam contaminando a religião Católica.

Não pretendemos nos deter nos pormenores da sua alocução, pois cada religião tem os seus problemas e deficiências, mas nos ater a um aspecto que, em nosso entendimento, tem alcance ainda maior do que o por ele proposto. Ou seja, trata-se do “Alzheimer espiritual” como ele próprio denominou. Explicando melhor, o Papa referiu-se a essa metáfora como resultado do esquecimento por parte dos sofredores dos seus respectivos encontros com Deus. Em nossa visão, a metáfora aí empregada comporta outros raciocínios e conjecturas que, de certa maneira, envolvem toda a humanidade.

Não há como negar que temos sido um tanto descuidados, para usar um eufemismo, com o elevado conteúdo proveniente da mensagem do Cristo de Deus. Se considerarmos que a encarnação em si já é uma dádiva extraordinária concedida pelo mais alto, então a maioria de nós está em débito. Apenas por essa razão, afinal, já deveríamos agradecer todos os dias de nossa vida.

Por outro lado, o nosso Alzheimer espiritual não nos permite enxergar que tudo que vem do Cristo é simples e objetivo. No seu evangelho encontramos, a propósito, os salutares remédios para todos os males da humanidade. Mas mesmo assim continuamos em nossa sanha autodestrutiva e inconsequente. Simplesmente, não conseguimos ainda nos amoldar aos seus ensinamentos e recomendações.

Uma das mais expressivas demonstrações do nosso Alzheimer espiritual decorre do fato de que, no geral, vivemos manietados a uma vida consumista onde o ter é um imperativo. Em consequência, pouco ou nada desenvolvemos no que concerne ao ser. Em razão dessa dificuldade de interpretação, acorremos aos consultórios de psicólogos, terapeutas, orientadores e quejandos, buscando soluções para toda a sorte de problemas existenciais quando a cura está, muitas vezes, em nós mesmos. Ou seja, em criarmos vontade e disposição de nos autoconhecermos como, de fato, somos. Com efeito, quem costuma olhar para o interior da sua alma sabe perfeitamente o que precisa melhorar.

O nosso Alzheimer espiritual nos impede de aceitar a realidade de que os sofrimentos, as adversidades e os contratempos são elementos normais do caminho redentor, não a ira de Deus sobre nós. O nosso Alzheimer espiritual nos leva a desejar aquilo que já contribuiu para a nossa queda em outros tempos. A pura e humilde aceitação da pobreza como condição reabilitadora, por exemplo, poderia contribuir para a recuperação espiritual de muitos que invadem as propriedades privadas no século presente tentando obter à força o que não lhes pertence.

O Alzheimer espiritual pode nos levar a uma situação provisória de sustentação do poder e, por extensão, ao perigo de sucumbirmos ao seu fascínio. Nesse sentido, não chega a ser surpreendente observarmos empresários e executivos de grandes organizações presos por atos de corrupção, assim como certos políticos que assumiram a responsabilidade de defender os interesses dos eleitores que os elegeram.

O Alzheimer espiritual afeta todos aqueles que comercializam dons mediúnicos que gratuitamente receberam - como vemos muitos hoje em dia -, os quais deverão prestar contas dos seus atos mais dia menos dia à espiritualidade. O Alzheimer espiritual também abarca aqueles que assumiram o compromisso/missão de realizar tarefas em benefício da humanidade, mas que ao longo da caminhada terrena se perderam.

O Alzheimer espiritual afeta igualmente os que negligenciam o desenvolvimento de sua própria espiritualidade, isto é, aqueles que arrumam tempo para tudo, exceto para a meditação, a oração, a leitura edificante, ou para o encontro com o Deus interior. Como bem pondera o Espírito Joanna de Ângelis, “... a existência física é uma experiência de iluminação e não uma pousada para o prazer infinito”.

O Alzheimer espiritual domina aqueles que se enxergam como o centro do mundo e que desrespeitam e maltratam os seus semelhantes. O Alzheimer espiritual atinge os que ainda são incapazes de sequer cogitar se há vida após a morte ou que tem medo de encará-la. O Alzheimer espiritual acomete os que vivem uma existência rala de valores universais, sem propósitos superiores e práticas voltadas ao bem.

Em suma, o Alzheimer espiritual perpassa basicamente aquela porção da humanidade que ainda não entendeu o significado da vida e que não percebeu que Jesus é o caminho e a verdade a ser assimilada.



Por Anselmo Ferreira Vasconcelos
Artigo publicado na Revista "O Consolador" por Anselmo Ferreira Vasconcelos
Email: afv@uol.com.br