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18 fevereiro 2022

Ciúmes: quando o Amor vira Patologia - Cláudio Sinoti

 
CIÚMES: QUANDO O AMOR VIRA PATOLOGIA

É preocupante observar como certas patologias do comportamento humano são tidas como algo natural. O ciúme é uma dessas doenças, porquanto ao impedir a natural e curativa expressão do amor deve ser tratada na condição de patologia.

Infelizmente, mesmo nos dias atuais, ainda são utilizadas expressões do tipo: o ciúme é o tempero do amor – quando o mais correto seria estabelecer que é o destempero –; tenho ciúmes porque cuido – quando seria mais verdadeiro dizer que se é possessivo –; dentre outras formas que encontramos para verificar a deturpação com que o ciúme é tratado.

Nossos padrões de expressão afetiva têm raízes em nossa infância, no aprendizado da expressão das nossas emoções. Quanto mais acolhedor, afetuoso, respeitoso e pautado em valores nobres for a convivência familiar, mais rica e profunda torna-se a base afetiva, pois possibilita um “repertório” mais variado de expressões saudáveis na convivência com o outro, que não passa a ser tido como uma ameaça. Mas como nem sempre essa formação inicial se dá da forma ideal, as marcas de abandono, negligência, violência ou desrespeito daquilo que presenciamos e/ou sofremos na pele, constroem barreiras na nossa capacidade afetiva, gerando baixa autoestima e, consequentemente, insegurança nas relações com o outro.

Como consequência da baixo autoestima, acionamos mecanismos de defesa em nossas relações, e não raro o ciúme se faz presente. Qualquer expressão de afetividade por parte do outro que não seja dirigida a mim passa ser vista como uma ameaça, gerando críticas expressas ou veladas. Dependendo do grau de insegurança do indivíduo, assim como dos seus valores morais, o ciúme passa a gerar agressividade nos seus vários níveis.

Por ser possessivo, o ciumento acha-se no direito de tratar o outro como sendo de sua propriedade, passando à tentativa de controlar qualquer expressão da individualidade do outro. Não raro nos deparamos com pacientes que checam o telefone do(a) companheiro(a), acessam (sem permissão) suas redes sociais, e-mail ou qualquer outra forma de expressão do outro, o que leva a desentendimentos que poderiam ser evitados tivesse a relação uma forma mais madura de lidar com as questões que trazem incômodo. E quando esses fatores não são cuidados devidamente, tornam aquilo que deveria ser belo e saudável em algo doentio para todas as partes envolvidas.

O caminho para a cura passa, inicialmente, pela aceitação de que algo está errado, para que se possa buscar a terapia conveniente. Por incrível que possa parecer essa aceitação é algo doloroso para o ciumento, que não quer reconhecer que sua possessividade é uma doença. Afinal, é sempre mais fácil achar que o culpado é o outro. Quando o primeiro passo é dado, a terapia irá investigar a formação dos padrões afetivos do paciente, para poder encontrar as raízes do seu comportamento doentio. Muitas vezes isso leva a avaliar a relação dos pais ou seus substitutos, assim como a importância que era dada para a educação de ordem emocional e afetiva dentro do lar.

Infelizmente, na maioria dos lares e escolas não há uma educação emocional afetiva, e por conta disso não aprendemos a lidar convenientemente com nossos medos, raiva, paixões e afetos, o que amplia o campo de insegurança, já que esses fatores vêm à tona constantemente.

A terapia estimula que o paciente mantenha um contato mais íntimo com suas emoções e afetos, treinando sua expressão e verificando os bloqueios que surgem durante isso. Esse exercício fortalece a autoestima, pois ao aceitar nossos pontos de insegurança, e aprender a lidar com eles, passamos a não mais ver o outro como uma ameaça. Ademais, a sombra que se consegue ver no outro com tanta intensidade é parte do comportamento do ciumento, que deve cuidar dos aspectos que deseja esconder na relação com o outro, e não simplesmente projetá-los.

A religião também possui um papel importante, ao promover uma avaliação e desenvolvimento dos valores morais. Afinal, o outro merece no mínimo nosso respeito. E mesmo nos casos em que as suspeitas sobre o comportamento negativo do outro se verifiquem, ninguém possui o direito de agredir, verbal e/ou fisicamente, sendo livre para escolher não mais manter a relação, se não se sente confortável.

Fora isso, qualquer investimento para libertar nossa amorosidade de forma madura e plena é valiosa, pois na condição de força curativa por excelência, o amor nos aproxima de Deus.


Autor: Cláudio Sinoti
Fonte:
Correio Espírita.


16 julho 2020

Menos Armas, Mais Amor - Cláudio Sinoti




MENOS ARMAS, MAIS AMOR


Os tempos que vivemos, com avanços significativos em várias áreas do conhecimento e na tecnologia, fazem com que certos embates se tornem muito intensos, desafiando a mulher e o homem modernos a alçarem os altos voos do espírito aos quais estão destinados, conforme a lei de progresso.

Nada obstante, as questões do passado não muito longínquo, de seres primitivos recém-saídos das cavernas, nos mostram que para a conquista da consciência ainda há um longo percurso pela frente. E não é preciso ir muito longe para comprovar que estamos distantes de uma consciência plena, e que a psique e o nosso mundo emocional ainda são grandes incógnitas a serem decifradas.

As psicopatologias, em suas diversas manifestações, muitas vezes levando ao suicídio, têm apresentado índices alarmantes. Ao lado desse quadro, a violência, nas suas várias faces, bate à nossa porta, adentrando-se pelos nossos lares de forma cada vez mais preocupante. Esses são sinais que os instintos agressivos ainda encontram guarida no comportamento humano, na violência que o indivíduo pratica consigo mesmo, assim como contra o próximo e a coletividade.

Descrentes dos valores nobres da vida, muitos desistem de buscar uma solução pacífica e harmoniosa para os graves problemas que enfrentamos, e passam a alimentar a ideia que, para combater a violência, devem ser usadas com intensidade as armas da própria violência. E quando já não é mais um eco isolado a ideia de que é preciso nos armarmos mais, assim como fazer uso de meios punitivos mais severos, chegando à pena de morte, o ser “primitivo” demonstra que ainda predomina diante do ser espiritual que somos em essência, mas que ainda adormece em nosso mundo íntimo.

E qual será a saída para tudo isso que vivemos?

Não existe receita mágica para resolução de crises, senão o enfrentamento consciente de todas as questões que nos inquietam, individual e coletivamente. Isso passa pela decisão consciente do indivíduo de se autoconhecer e se aprimorar, assim como a construção de mecanismos educacionais e sociais que proporcionem o despertar de uma nova consciência, para conseguirmos estabelecer uma vivência mais harmoniosa e respeitosa entre os seres humanos.

Algumas terapêuticas têm-se mostrado excelentes para construção de uma cultura de paz e amorosidade, e estão à disposição de todos, como por exemplo:

– Prática diária da reflexão e meditação. Esse hábito deve ser estimulado nas escolas, com crianças e jovens, no trabalho, nos grupos religiosos e em todos os ambientes em que pudermos implementá-lo. Pesquisas sérias, como as conduzidas pelo Dr. Richard Davidson (1), comprovam os efeitos benéficos da meditação para uma vida mais saudável e consciente. Na Índia há relatos de uma experiência positiva da inclusão da prática da meditação em presídios (2), com resultados excelentes. Breves momentos diários podem resultar em benefícios para toda uma vida.

– Diálogo familiar. O diálogo familiar, que pode dar-se em meio às refeições, é excelente terapêutica para que os membros da família construam laços mais fortes de afetividade. Esse hábito é útil tanto para que a família possa perceber quando um dos familiares estiver passando por algum desafio que não está sabendo lidar, assim como para compartilhar alegrias, conquistas e percepções. Na correria da vida moderna, alguns hábitos saudáveis têm sido deixados de lado, comprometendo nossa saúde emocional, física e espiritual.

– Evangelho no Lar. A oração em família, a reflexão sobre valores morais e espirituais, proporciona uma reavaliação das nossas atitudes, assim como a serenidade necessária para lidar com questões desafiadoras sem que nos desesperemos. Além disso, favorece para que os guias espirituais encontrem em nosso lar a harmonia necessária para nos intuir, proteger e direcionar nossos esforços em prol de uma vida espiritual saudável.

– A Caridade. Doar coisas é importante, especialmente quando a carência material se faz presente, mas doar de si, do próprio sentimento, é uma alavanca de transformação, pois ao tempo em que nos mobiliza a amar, proporciona que nos conectemos ao outro de uma forma mais profunda. Ademais, estimula aquele que passa por dificuldades a superar-se e a encontrar forças para sair da situação na qual se encontra, quando possui forças e possibilidades para tal, ou a resignar-se e encontrar um sentido mais profundo na existência, quando viva situações limitadoras.

E em casos mais graves, quando o comportamento de algum componente familiar necessitar de cuidados mais urgentes, não negligenciar a busca de profissionais do campo do comportamento, para que aliada às terapêuticas acima, a ciência possa fazer sua parte, com os avanços que já dispõe.

É o momento, portanto, de escolhermos o amor como solução, pois como propõe a Benfeitora Joanna de Ângelis (3): “…a força do amor terminará por vencer as barreiras fortes da impiedade e do materialismo de que se reveste esse sentimento vil, e instalará, a pouco e pouco, os alicerces do respeito humano, que se expande em favor da Natureza, do planeta, de toda expressão de vida que nele se manifesta…”.


Autor: Cláudio Sinoti


Referência:

1- Sugerimos o livro: O Estilo Emocional do Cérebro (The Emotional Life of Your Brain)



3- O Amor como Solução. Leal Editora