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18 março 2022

Por trás do ‘cancelamento’ nas redes sociais - David Monducci


POR TRÁS DO 'CANCELAMENTO' NAS REDES SOCIAIS

Vivemos uma época muito conturbada de esgarçamento dos valores morais e de padrões comportamentais estabelecidos, em função de mudanças sociais rápidas.

Nesse cenário, de alguma forma caótico, presenciamos um ‘apagar’ dos limites entre o certo e o errado, o bem e o mal, o normal e o anormal, o lícito e o conveniente (1 Co 10:23). Simultaneamente, vivemos o período da imposição do politicamente correto e da pós-verdade, representada por declarações pessoais, com forte apelo emocional e apoiada exclusivamente em um conjunto de crenças, impostas no grito e na força, como uma suposta verdade alternativa para influenciar a opinião pública e o comportamento social. Isso tudo cria um pano de fundo desafiador, no qual os indivíduos ou grupos que não se amoldam a um determinado perfil ou modelo, são vistos como nocivos e perniciosos, e por isso, passíveis de serem desprezados, excluídos e cancelados.

Em cenários complicados assim, de tantos ‘cancelamentos’, fica evidente a falta de tolerância dos que se enrijecem em torno de um discurso e de ideias naturalmente falíveis, agindo de modo a cancelar, ou eliminar, as vozes dissonantes, erroneamente imaginando que silenciando os mensageiros podem cancelar as ideias.

A visão espírita

O livro dos espíritos (782 e 783) traz uma interessante explicação sobre essa questão. Kardec pergunta se não há homens que de boa-fé entravam o progresso, acreditando favorecê-lo porque o veem segundo seu ponto de vista. “Assemelham-se a pequeninas pedras que, colocadas debaixo da roda de um grande carro, não o impedem de avançar”, respondem os Espíritos, complementando logo a seguir, sobre a marcha progressiva e lenta do aperfeiçoamento da humanidade, que “há o progresso regular e lento, que resulta da força das coisas. Quando, porém, um povo não progride tão depressa quanto deveria, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o transforma”.

Allan Kardec comenta ainda que “o homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância, porque tem de atingir a finalidade que a Providência lhe assinou. Ele se esclarece pela força das circunstâncias. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas ideias pouco a pouco, dormitam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar em harmonia com as necessidades novas e com as novas aspirações. Nessas comoções, o homem muitas vezes não percebe senão a desordem e a confusão momentâneas que o ferem nos seus interesses materiais. Aquele, porém, que eleva o pensamento acima da sua própria personalidade admira os desígnios da Providência, que do mal faz sair o bem. São a tempestade e o furacão que saneiam a atmosfera, depois de a haverem revolvido”.

Distúrbio mental, emocional?

A dominação da organização psíquica por uma única ideia ou associação mental, configurando um estado prolongado de monoideísmo (ideia fixa), pode ser incluído como um sintoma em alguns transtornos psicológicos. Isso, se pensarmos em um distúrbio como aquilo que atrapalha ou perturba alguma coisa. Se pretendermos, porém, uma interpretação biológica, equiparando com uma enfermidade orgânica, não.

Segundo a doutrina espírita, é plausível argumentar que quando o psiquismo se acha fixamente dominado por uma ideia, ele cria as condições para o desenvolvimento de um quadro obsessivo autoinduzido, cenário que foi muito bem representado recentemente no desenho animado Soul (Pixar, 2020).

Por si só, o radicalismo e a intolerância por mais nefastos que possam ser, não configuram um estado doentio. Mas é interessante termos em mente a possibilidade de um distúrbio social como nos resultados do experimento social da “Terceira Onda”, conduzido pelo professor de história americano Ron Jones, em 1967, e transformado no filme alemão A onda de 2008. A experiência de Jones evidenciou como a diversidade e a pluralidade de ideias e visões enriquecem o mundo, a vida das pessoas e os contextos sociais. A história é farta de registros de épocas e contextos sociais nos quais as divergências de ideias e comportamentos foram suprimidas em nome de uma (pseudo) uniformidade.

Os contrários da vida

Os intolerantes não percebem que suas próprias vidas ficam pobres, monocromáticas, enfadonhas e monótonas quando cancelam os que pensam diferente.

A vida pode ser comparada com os brinquedos em um parque infantil. Quer na gangorra ou no balanço o que se tem é uma alternância entre pontos divergentes e opostos, para frente x para trás, em cima x embaixo, mocinho x bandido, quem pega x quem esconde. Se suprimimos um dos lados, a brincadeira acaba e só resta o tédio, o vazio de um espaço não preenchido.

Toda necessidade advém de uma ausência, carência ou insuficiência. No esforço de tentarmos preencher um vazio, buscamos alguma coisa que nos dê motivo e uma razão significativa para nos movermos. A percepção, mais ou menos consciente, de uma sensação de vazio existencial pode funcionar como a força motriz que leva os indivíduos a se identificarem com uma ideia ou grupo que lhes dê significado de vida ou que os acolha. O fato de nos identificarmos com um grupo ou um sistema de ideias propicia-nos o sentimento de pertencer a algo maior e mais importante do que a nós mesmos.

O prazer pelo mal Freud propôs uma teoria sobre o funcionamento da energia psíquica que se mostra suscetível a aumentos, diminuições e equivalência, de modo que poderíamos falar em prazer, sofrimento e substituição. Para evitarmos a angústia e o sofrimento do vazio existencial, quando não temos uma vida repleta de amor e ternura, buscamos algum tipo de prazer ao pertencermos a um grupo ou a um movimento mesmo que ele gere algum ônus. Uma metáfora famosa pode ser vista no conto de Claude Steiner Uma história de carícias com a paródia entre carinhos quentes e espinhos frios.

Numa visão simplista, podemos interpretar o prazer pelo mal, segundo a teoria freudiana da economia psíquica, pleiteando alcançar um estado de prazer pessoal ou coletivo impondo uma dor ou castigo ao outro. Seriam os traços de personalidade sádica descritos na literatura.

Para melhor lidarmos com esses desafios é preciso buscar a serenidade, o equilíbrio e algum distanciamento. Serenidade para não nos deixarmos envolver em um torvelinho de emoções e paixões que impeçam uma visão clara e lúcida do momento e dos movimentos da sociedade na qual estamos inseridos (Jo 17: 15-23). Equilíbrio para discernir o bem do mal, a verdade da impostura, o certo do errado, a luz das trevas, a essência da aparência, o eterno do passageiro (Mt 10: 16-23). Distanciamento na higiene mental que permite ir até os ímpios sem se fazer como eles (Mt 16: 6).

David Monducci*
Fonte: Correio News
 
*David Monducci é neurocirurgião, mestre em filosofia e autor do livro Saúde e Vida, uma abordagem espiritual sobre emoções e doenças, Correio Fraterno, 2016.

14 março 2017

Sobre a morte - David Monducci



SOBRE A MORTE

"Quase tão difícil quanto definir quando a vida começa é tentarmos definir e determinar quando ocorre a morte"

Para a Doutrina Espírita a morte é uma simples mudança de estado para o Espírito, que se desfaz de uma forma física que não possui mais as condições necessárias para atendê-lo. A extinção da vida orgânica provoca a separação da alma e do corpo, pela ruptura do laço fluídico que os une.

Na antiguidade não existiam critérios confiáveis para o diagnóstico de morte e o sepultamento era quase imediato. Tais procedimentos não apenas causavam muita confusão como, também nos ajudam a entender algumas das mais fascinantes passagens dos Evangelhos.

Em Matheus IX - 23 a 26, Marcos V - 35 a 43 e Lucas VIII - 49 a 56 podemos ler a passagem sobre a filha de Jairo que fora considerada morta, mas que Jesus informou estar apenas dormindo.

Em João XI vemos o mesmo padrão de relato para o caso de Lázaro. Por outro lado, todos os evangelistas relatam a morte de Jesus seguida do seu quase imediato sepultamento. Mas, o relato mais curioso é o que podemos ler nos Atos dos Apóstolos, capítulo V, concernente à fraude de Ananias e da sua esposa Safira.

Neste relato, Ananias, surpreendido em mentira, cai morto perante o apóstolo Pedro e o seu corpo é retirado e sepultado. Três horas mais tarde chega a sua esposa que ainda não sabe do ocorrido. Flagrada na mesma mentira do seu marido, Safira também caiu morta aos pés do apóstolo Pedro sendo retirada e sepultada ao lado do seu marido.

Nestes relatos vemos dois diagnósticos errados de morte física e outros dois de diagnósticos extremamente rápidos de morte com sepultamento quase imediato. Até meados do século XVIII muito pouca coisa havia mudado, apesar da utilização de métodos um tanto quanto esquisitos para o diagnóstico de morte.

Contudo começaram a surgir alguns relatos de pessoas que foram enterradas vivas e em 1785 um médico inglês mostrou que era possível ressuscitar um homem considerado morto por afogamento enchendo seus pulmões de ar. A partir de então, quando alguém era dado como morto esperava-se alguns dias de observação até que começassem a aparecer sinais de putrefação para que o corpo pudesse ser sepultado.

Em 1846 o médico francês Eugene Bouchut estabeleceu um conjunto de três parâmetros para definir a morte orgânica e prevenir os sepultamentos prematuros. Os sinais de morte segundo Bouchut eram a ausência da respiração, de batimentos cardíacos e da circulação por 10 minutos. Foi deste procedimento que derivou a tradição moderna de associarmos a morte com a perda da função cardio-respiratória.

Entretanto, poucas décadas mais tarde os patologistas sabiam que o coração de algumas pessoas decapitadas continuava a bater por até uma hora após a execução, o que exigiu uma revisão dos critérios em voga. Aos sinais de morte postulados por Bouchut foi acrescentado o exame das pupilas.

Na virada do século XX o diagnóstico de morte exigia a confirmação da ausência de sinais de função cardio-respiratória mais a constatação de que as pupilas estavam dilatadas e não reagiam a um feixe de luz.

Tais critérios permaneceram soberanos até meados dos anos 60 quando entraram em cena os primeiros modelos de respiradores artificiais e a criação das Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Apesar das novidades a situação parecia estar sob controle, todavia o primeiro transplante de coração realizado por Cristian Bárnard, em 1967, precipitou de maneira inevitável uma discussão sobre o estabelecimento de critérios para o diagnóstico de morte com o máximo de antecedência possível.

Em 1968 foi formado um comitê de notáveis na Universidade de Harvard com a finalidade de estabelecer quais seriam os critérios mínimos para se definir a morte. Começava a surgir o conceito de morte cerebral que evoluiu até a idéia atual de morte encefálica. A consequência desses estudos nos últimos 38 anos resultou na compreensão de que a morte é um processo lento e gradual no qual é possível distinguir-se uma morte clínica, uma morte biológica e uma morte encefálica.

Embora a vida e a morte sejam eventos de ordem natural, ou até justamente por serem eventos naturais, eles são considerados fatos jurídicos, pois é deles que se origina o Direito. Esta tese sustenta a resolução 1480/97 do Conselho Federal de Medicina que regulamenta no Brasil os critérios de morte encefálica e do doador cadáver de órgãos para transplante, pois a morte encefálica tem o mesmo status de morte clínica.

Neste ponto, alguns confrades adotam uma postura de extrema reserva perante a doação de órgãos para transplantes com doador-cadáver, alegando que o estado de morte encefálica não implica em desencarnação e que, nestas circunstâncias, a retirada de órgãos para transplante equivaleria a um homicídio.

Um estudo mais aprofundado d'O Livro dos Espíritos nos ensina que a parada da função cardíaca não é a única lesão que causa a morte (pergunta 69), portanto ante O Livro dos Espíritos podemos admitir que o estado de morte encefálica é equiparável ao de morte clínica.

A questão 136a nos informa que a vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar corpo sem vida orgânica. E, na pergunta 156, os Espíritos informaram que "na agonia, às vezes, a alma já deixou o corpo, que nada mais tem do que a vida orgânica.... O corpo é uma máquina que o coração põe em movimento. Ele se mantém enquanto o coração lhe fizer circular o sangue pelas veias e para isso não necessita da alma".

A questão 19 d'O Livro dos Espíritos nos diz que a ciência nos foi dada para o nosso adiantamento em todos os sentidos. Os recursos técnicos disponíveis atualmente permitem ao médico fazer um diagnóstico de morte encefálica com segurança, diferenciando este estado de outras condições neurológicas. Se dispomos dos meios para identificar com segurança um doador-cadáver de órgãos e se podemos ajudar a outros através da tecnologia dos transplantes, qual o motivo para não o fazermos??


Dr. David Monducci - Jornal Espírita - Fevereiro/07