Total de visualizações de página

Mostrando postagens com marcador Dora Incontri. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dora Incontri. Mostrar todas as postagens

07 maio 2021

Convocação aos espíritas pelo diálogo! - Dora Incontri


CONVOCAÇÃO AOS ESPÍRITAS PELO DIÁLOGO!
 
Um dos propósitos que norteiam a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita é o diálogo inter-religioso, o diálogo com outras filosofias, sejam espiritualistas ou materialistas, sem perda da identidade de um espiritismo kardecista livre – conforme já expusemos num manifesto publicado aqui em fevereiro de 2019.

Esse diálogo requer uma arte de empatia, respeito e reconhecimento de valor no outro e ao mesmo tempo, a preservação de um espírito crítico (não demolidor) em relação a qualquer corrente de pensamento, incluindo a nossa. Perder a mão nesse caminho é algo muito fácil, quando nos afastamos da fraternidade e nos deixamos incendiar por paixões avassaladoras.

Mas tenho observado que o mais difícil é manter o diálogo entre nós mesmos – entre aqueles mesmos que se dizem espíritas kardecistas. E quero tecer algumas reflexões em torno desse delicado tema.

Desde o manifesto de 2019, entre os próprios que assinaram aquele manifesto, já houve brigas, cancelamentos, mágoas, raivas e toda espécie de negação de diálogo construtivo. Um dia desses, entrevistando o querido frade franciscano Volney Berkenbrock, em nosso programa Semeando Espiritualidades: Diálogo e Crítica, ele nos apresentava uma ideia interessante: é mais fácil dialogar com o outro mais distante, mais diferente de nós, do que com o que é nosso, está próximo, faz adesão à mesma corrente e pensa diferente. Dizia ele isso para explicar por que católicos progressistas, por exemplo, dialogam com tanta empatia com adeptos das religiões afro-brasileiras ou com budistas e taoístas, mas se esquivam de um encontro com espíritas kardecistas. Para o Frei, e concordei com ele, sendo o espiritismo uma releitura do cristianismo, ele é visto muito mais como uma heresia, do que como outra tradição, que deve ser respeitada.

Para mim, há outros fatores também, que não cabem aqui. Mas sim, na medida em que Kardec destrona Lúcifer, torna os diabos simples seres humanos desencarnados e em estado de sofrimento e endurecimento, considera Jesus não o próprio Deus encarnado, mas um Espírito que nos serve de modelo e guia, que confronta a eternidade das penas e propõe a reencarnação, ele está re-explicando o cristianismo, confrontando dogmas fundamentais, dentro da própria tradição greco-judaico-cristã – porque o espiritismo, sim, está dentro dessa tradição histórica. Compreende-se então o que falou o frei.

Em nosso caso, dos espíritas kardecistas, teríamos que rever posições intolerantes e extremadas, para mantermos um mínimo de fraternidade, colaboração e respeito à diversidade. Senão, tanto criticamos o movimento espírita institucional hegemônico, leia-se FEB e afins – com quem também, na medida do possível, devemos tentar um diálogo (não submisso e acrítico, mas humanamente amistoso), e acabamos por agir como os mais autoritários, impedindo a livre manifestação do pensamento de cada um.

Entendamos que sempre haverá diferenças entre os que mais pensam igual – e ótimo que assim seja, isso é enriquecedor e fecundo e jamais poderemos fugir de nossa subjetividade.

Quero citar aqui algumas diferenças aceitáveis e o que realmente não podemos aceitar como espíritas – seja de que tendência que nos consideremos.
  • Se há espíritas roustainguistas e kardecistas, podemos discutir à vontade as teses de Roustaing e criticá-las (se assim quisermos e acharmos importante, eu particularmente acho relevante, porque o roustainguismo teve um papel histórico importante no sincretismo do espiritismo com o catolicismo no Brasil). Mas nem por isso, não há coisas fundamentais que nos unam, como a reencarnação, a mediunidade e, sobretudo a Ética da fraternidade universal. Por isso, posso discutir até a morte o roustainguismo, mas quem aceita Roustaing não é meu adversário…
  • Há quem aceite que o espiritismo seja uma revisão, uma releitura, uma reafirmação do cristianismo e outros que falam de um espiritismo laico. Estou entre aqueles que afirmam o espiritismo como um resgate de um cristianismo que foi reprimido historicamente. Kardec bateu insistentemente na tecla de que o espiritismo não é religião, mas escreveu O Evangelho segundo o Espiritismo e usa o termo espírita-cristão. Ao mesmo tempo, no próprio Evangelho, anuncia que o espírita poderia pertencer a qualquer culto que quisesse. Então, há espaço para diferentes interpretações do próprio Kardec. Por que nos combatermos mutuamente, ao invés de debatermos civilizadamente? Recentemente, numa live com Jon Aizpurua, um queridíssimo amigo e liderança internacional do espiritismo laico (termo que nunca me convenceu), chegamos a um conceito que nos agradou mutuamente: de que o espiritismo é uma forma de espiritualidade livre. Como se vê, o diálogo encontra pontes. Dentro desse âmbito, quem quiser comemorar Natal e Páscoa ressignificando-os espiritamente, que comemore, quem não quiser, não comemore. Quem quiser orar a Maria (como podemos orar a qualquer Espírito elevado) que ore, quem não quiser nem orar, não ore! E que ninguém se incomode com essas questões de foro íntimo de cada um.
  • Nesses últimos anos, a maior ruptura que tivemos no movimento espírita, como de resto em toda a sociedade brasileira, é em relação aos bolsonaristas espíritas. Veja-se que aí não é mais uma questão doutrinária, de detalhes, de briga por palavras ou conceitos. Mas o bolsonarismo fere os princípios éticos básicos do espiritismo. E não só do espiritismo, mas do cristianismo, do budismo, das religiões afro… de uma ética laica, da própria civilização. É simplesmente a barbárie! E estamos testemunhando aonde nos levou essa barbárie: mais de 300 mil mortos por Covid-19 no Brasil. Na medida em que seu líder defende tortura, morte, anulamento do adversário, misoginia, negacionismo científico, homofobia, racismo, armamento da população, ele está completamente fora da moralidade básica de qualquer pessoa racional, saudável psiquicamente, seja espírita ou não. Compreende-se assim que devamos repudiar, criticar, lamentar espíritas que se alinham ao bolsonarismo – e infelizmente foram muitos. Mas não odiá-los, porque não vamos nos igualar a eles em nenhum discurso de ódio.
  • Por conta justamente desse retrocesso experimentado no Brasil, desde o golpe de 2016, e a decepção de muitos espíritas com dirigentes e médiuns bolsonaristas, surgiram inúmeros coletivos, lideranças novas, grupos, que vieram fazer coro a uma visão que a ABPE já cultivava desde o seu início em 2004 – aliás, já antes com a Editora Comenius: uma visão progressista, social e à esquerda do espiritismo, como, pensamos, ele realmente é. Só para lembrar, o último Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita e Internacional de Educação e Espiritualidade, tivemos o tema: Educação, Espiritualidade e Transformação Social. Mas… assim como as esquerdas brigam, se fendem, se combatem, também essa atitude de intolerância e cancelamento já atingiu as fileiras dos espíritas progressistas. Muitos acham que para ser progressista e de esquerda, devemos seguir as cartilhas que cada grupo ou indivíduo seguem. Primeiramente, esses movimentos não poderiam nunca se partidarizar, porque quando discutimos política e sociedade no movimento espírita, devem ser debates teóricos, ações práticas de atuação social, mas jamais a propaganda de um partido ou de uma liderança, embora individualmente, cada qual tenha o direito de ter suas preferências. Dentro de um diálogo da esquerda espírita, cabem sociais-democratas, socialistas, marxistas, anarquistas, partidários da cultura da paz, partidários de pautas identitárias e aqueles que não consideram essas pautas prioritárias no momento… enfim, há espaço para todos, todas e todes (como querem alguns – para mim, me dói ferir a língua, embora é claro, repudio muito mais ferir os corpos). Tudo isso seria possível, se houvesse menos paixão, menos arrebatamento e menos desejo de sermos sempre os únicos donos da verdade.

O desafio, portanto – e isso se estenderia a vários outros temas, como Chico Xavier, Emmanuel, Pietro Ubaldi e ao próprio Kardec, nossa grande referência – é manter o espírito crítico, atualizado, mas equilibrado, preciso, sóbrio, sem arrebatamentos destruidores, sem cancelar quem pensa diferente e colhendo o que é bom no meio de equívocos. Assim agia Kardec, que nunca perdia a classe, tinha um fino espírito de ironia crítica, mas jamais usou as armas do ódio e da destruição do outro. Fraternidade, empatia, diálogo construtivo, argumentativo – essas devem ser as posturas de um espírita.



31 maio 2020

Precisamos falar de morte - Dora Incontri

<
r /> PRECISAMOS FALAR DE MORTE...


No mundo contemporâneo, quase nunca se pode falar da morte. Não é de bom tom. A morte a gente hoje esconde, do luto muitos se envergonham. Antigamente, quando morria alguém próximo, carregava-se na roupa um sinal de luto. O doente morria em casa, cercado de familiares. Os velórios feitos na sala, todos participavam, inclusive as crianças. Hoje não. A morte fica à distância. Na UTI, a pessoa morre só. Os velórios, às vezes me choca, são lugares de conversas frívolas – só às vezes, quando parte alguém mais jovem ou mais tragicamente, ouve-se o pranto dos mais próximos.

E de repente, a morte invade o mundo. Não que ela não nos visite todos os dias. Mas agora, são milhares diariamente, a ponto de faltar covas, a ponto de não termos números exatos. Já houve outras ondas de morte na história de séculos atrás ou na história recente: a peste negra, a peste bubônica, a gripe espanhola, as duas grandes guerras… Nesses momentos, os lutos são mais complicados, deixam marcas mais profundas. Morrer um ser amado num leito tranquilo, cercado pelos familiares em despedida (assim morreu minha mãe), é uma dor, mas uma dor pacífica, que se torna saudade amena. Mas perder um ser amado sem se encontrar o corpo mutilado numa guerra ou sem se poder despedir como se deve, como agora com esse coronavírus, aí a dor é mais angustiante e a marca depois terá de ser muito tratada, com assistência terapêutica e espiritual. É o que se chama luto complicado.

Entretanto, essas ondas de mortes coletivas, que nos angustiam tanto, são momentos que nos chamam a pensar na vida e na morte, nossa e do outro, lembrando que se há algo que nos iguala enquanto humanidade é a nossa finitude. Todos vamos enfrentar esse momento. Uma pandemia apenas pode convocar algumas pessoas mais cedo do que o esperado, e convocar muito mais pessoas ao mesmo tempo.

Pensar na morte faz bem, é educativo, é necessário – porque, como diria Renato Russo, é preciso amar as pessoas, como se não houvesse amanhã. Quando temos sempre a consciência de nossa finitude, ficamos mais perto dos que amamos, criamos com mais visceralidade, preocupamo-nos em deixar as coisas terminadas e bem feitas a cada dia. E procuramos uma consciência que esteja em paz, para o grande dia da passagem.

Estou sendo fúnebre? Não, apenas a morte faz parte da vida. E agora nos lembramos disso todos os dias. 

Para mim, que sou espiritualista e, mais especificamente espírita, a morte não é o fim, mas apenas um recomeço, uma passagem para outra dimensão da existência. Eu, que sou médium, tenho vivências diárias dessa outra dimensão e dos seres que lá habitam e que continuam nos seguindo de perto. Claro que essa convicção não nos exime do luto por alguém que partiu, mas nos consola e nos levanta o ânimo, lembrando do reencontro que virá, quando a nossa hora chegar.

Quando a morte se apresenta mesmo, não há como revidar, não há como fugir. Ela nos leva e ponto.

Mas há outras espécies de morte – que podem nos afligir: a morte de nossos sonhos, a morte de nossas esperanças, a morte de projetos em que investimos suor e sangue. Todos os brasileiros, conscientes, lúcidos, estamos cientes do imenso número de mortes por coronavírus, que sequer são notificadas, mas também estamos sentindo a morte da nossa democracia (que nunca foi muito viva, na verdade), a morte de nossos projeto de país independente (que nunca foi realizado também), a morte de elementos civilizatórios em nossa sociedade. Bem no momento em que enfrentamos a onda de mortes coletivas no mundo e no Brasil, também temos que lidar com a morte de tudo aquilo que considerávamos princípios e marcos legais e sociais para sermos minimamente uma nação. Por isso, urge uma reação. Porque contra essas mortes, podemos lutar. Quando chega a nossa hora de partirmos dessa para melhor, não há o que nos segure aqui.

Mas não somos obrigados a aceitar o decreto de morte de tudo o que nos é caro: a cultura, a arte, a cidadania, a educação, a ciência, o bom senso e o sentimento de sermos brasileiros. E ainda assim nos sentimos impotentes e por isso a sensação de luto é maior, parece incontornável. Precisamos sacudir essa passividade e nos mobilizarmos. Precisamos levantar a cabeça e não colocá-la sob a lâmina no carrasco. Enquanto seres humanos, vamos morrer, mais dia, menos dia; enquanto coletividade, sociedade, nação – o que fizermos hoje terá ressonâncias para nossos filhos e netos. Tenhamos compaixão do futuro e façamos a nossa parte, para tirar do poder os que o tomaram de assalto para destruir o país.


Dora Incontri


16 fevereiro 2019

Espiritualidade de idolatria e submissão - Dora Incontri



ESPIRITUALIDADE DE IDOLATRIA E SUBMISSÃO


Não podemos nos omitir diante dessa grave denúncia e que está ultrapassando as centenas, em relação ao renomado médium (que nunca foi espírita, mas isso tanto faz): João de Deus de Abadiânia.

Nesses últimos meses, diversos líderes religiosos têm sido denunciados como assediadores, abusadores de mulheres e/ou crianças e adolescentes. Já escrevemos aqui um artigo a respeito, quando se falou do médium de Curitiba Maury Rodrigues da Cruz.

Depois foram monges budistas, sobre os quais se pediu uma posição mais clara e enérgica do Dalai Lama; depois foi o Prem Baba e, claro, os padres católicos de sempre.

O que todos esses abusadores denunciados têm em comum?

Todos são homens. Todos aparentemente abusaram de pessoas que estavam em situação de fragilidade emocional (seja por uma questão de doença física, psíquica ou por idade ainda imatura). E todos gozam de uma suposta superioridade moral, diante da qual a comunidade se curva reverente. Uma autoridade inquestionável, porque envolta nas dimensões do sagrado!

Então, vamos ao primeiro item… o machismo estrutural, enraizado em nossa cultura e em todas as culturas humanas, há milênios. Nesse mesmo instante em que estou escrevendo esse artigo, milhares de mulheres no mundo estão sendo assediadas, estupradas e mortas. Milhares de crianças estão perdendo precocemente sua infância, abusadas por pais, padrastos, tios, avôs, parentes ou estranhos.

Isso acontece no contexto da família, das instituições, das religiões. Em toda parte, os abutres abusam, se insinuam e acham que isso é natural, é seu direito, é o que os torna “homens”. Então, em primeiro lugar precisamos mudar a educação das crianças, afastando a ideia e a projeção de que o homem (masculino) tem que ser aquele macho predatório, sem sensibilidade e, portanto, sem compaixão de ninguém. Esse é o estofo do abusador e do estuprador.

Em segundo lugar, precisamos falar claramente às meninas e aos meninos também: falar sobre os abusos, sobre os cuidados que devem ter consigo, com os alertas que devem estar sempre presentes, já que estão mergulhados num mundo de homens violentos. O desafio é falar e conscientizar, sem que percam a capacidade de confiar no amor e no ser humano, principalmente no ser humano masculino. Falar de maneira delicada para compreenderem que são donos dos próprios corpos. Entretanto a fala só fará sentido se desde pequenas as crianças sejam tratadas com afeto e respeito, com cuidado e atenção. Elas saberão se proteger na medida em que forem protegidas.

Lembro-me da minha bisavó italiana, nascida no século XIX, que não cheguei a conhecer, mas cuja cultura de cuidado e atenção chegou até mim, através de minha avó e de minha mãe: essas mulheres estavam sempre de olho, não deixavam fechar as portas, não descuidavam de prestar atenção…não sei que experiências essa minha bisavó teve, para ser precavida e sempre atenta desse jeito. Mas com mães assim por perto, abusos não ocorrem.

Em terceiro lugar – e esse é o tema mais importante aqui: precisamos finalmente tratar a espiritualidade de forma desierarquizada. Nem mestres, nem gurus, nem médiuns veneráveis, nem sacerdotes inatingíveis. Humanos somos todos. A espiritualidade deve ser horizontal, no campo da fraternidade. Verticalidade só com Deus, o supremo. Mas Deus está dentro de nós, de todos nós.

Então chega de querer procurar salvadores, curadores, mestres, a quem nos entregamos cegamente. Qualquer tipo de relação religiosa ou espiritual que leve à submissão, à idolatria, à anulação da própria criticidade e razão, à humilhação, deve ser posta imediatamente sob suspeita. Mestres verdadeiros não querem submissão, nem obediência do outro. Querem servir, acolher, discretamente; ensinam sem espalhafato, através do exemplo e de conselhos que servem para todos. Jesus não aceitou o título de bom, Gandhi tinha horror quando o chamavam de Mahatma. Não aceitava devoção e submissão de ninguém.

A espiritualidade verdadeira e saudável promove o ser humano ao melhor de si. Empodera-o para superar seus problemas, para desenvolver suas capacidades. Não aprisiona a um guru que o pode explorar financeiramente, psiquicamente e… sexualmente.

O abusador, o falso profeta seduz com elogios (você é especial!), oferece milagres, ameaça, submete.

Então, como tanta gente cai numa cilada dessas, quando é tão óbvio o engodo? Nunca tinha ido ver João de Deus, mas nada me caía bem: as pessoas (sobretudo mulheres) ajoelhadas diante dele, ele sentado numa espécie de trono, acima do povo, os retratos dele próprio na parede… quando um suposto líder espiritual não se envergonha de receber devoção e homenagens indébitas, já de imediato pode-se desconfiar dele. Além disso, o comércio em torno das atividades dele (a Veja publicou em 2013 um artigo alertando sobre os seus milhões), já o colocam de imediato sob a suspeita de charlatanismo.

Considero que o mais problemático são os espíritas não terem suficiente avaliação crítica para não perceberem de antemão o clima de exploração das massas. Embora ele nunca tenha se declarado espírita e ter práticas diferentes das propostas pelo espiritismo, conheço muitos espíritas que lá foram! E gostaram. Quem estuda Kardec deveria saber que a mediunidade deve ser algo desprendido, discreto e jamais espetacular e que os médiuns são seres falíveis como qualquer um e não devem ser endeusados.

Trabalhei durante mais de 20 anos num trabalho mediúnico de cura, com uma médium já falecida, minha querida amiga D. Addy Piedade, no Centro Espírita Pedro e Anita em São Paulo. Eu ficava na sustentação com outras pessoas. Foram dos momentos mais elevados espiritualmente que tive em minha vida. No entanto, ela fazia um trabalho anônimo, para pouca gente, devagar e sempre, sem nenhuma ostentação e sempre demonstrando carinho, respeito e acolhimento para as pessoas que vinham buscá-la. E vi muitas curas acontecerem, até com pessoas da minha família.

A mediunidade deve ser, assim, distribuída democraticamente entre muita gente, que trabalha em pequenos círculos familiares e em centros discretos. A mediunidade espetáculo, onde multidões vão buscar cura, cartas, oráculos, dá sempre nisso. Nenhum médium tem essa potência de curar a todos, de atender com veracidade a todos. Se tivesse, seria um Jesus e mesmo Jesus não curava todo mundo e nem se punha como fonte distribuidora de milagres. Dizia: “vai, tua fé te salvou!” Essa é a verdadeira cura, aquela que nos remete ao nosso próprio poder e não aquela que manipula nosso desejo de salvação fácil.

Cresçamos e deixemos de ser crianças espirituais, sempre pedintes de consolo, cura, cartas. Formemos muitos médiuns, trabalhemos em círculos pequenos e igualitários. Façamos uma espiritualidade de comunhão e escuta mútua e não de idolatria e submissão! E uma espiritualidade com muitas mulheres!

Finalmente, quero deixar a minha solidariedade às inúmeras vítimas, incluindo a filha dele, que conta sua vida de extrema violência e nossa indignação em relação a esses homens, que como se já não bastasse o machismo nosso de cada dia, ainda fazem do campo da fé, um campo de violência sexual.

Quero deixar registrado aqui também meu apoio à Sabrina Campos Bittencourt que, tendo sofrido ela mesma violência sexual de religiosos, está nesse ativismo necessário e urgente de denunciar e ajudar as mulheres a contarem suas dores. Coragem admirável de todas elas, porque é através da fala destemida e franca, que havemos de curar essas chagas da humanidade.


Dora Incontri



08 janeiro 2019

Jesus e a Violência dos Cristãos - Dora Incontri



JESUS E A VIOLÊNCIA DOS CRISTÃOS


Não é de política que vou falar, por enquanto. Vou falar de humanismo, de cristianismo, de fraternidade. Estamos mergulhados numa onda de ódio, de radicalismo fascista, de rejeição ao bom senso.

E a quem podemos recorrer para inspirar nossas ações, nossas palavras, nossos pensamentos? Se nos pretendemos cristãos, sejamos católicos, evangélicos ou espíritas, ou simplesmente simpatizantes de Cristo, é justamente a ele que devemos apelar: para os seus ensinos, para o seu exemplo, para o seu legado. Jesus puro e simples e não aos cristãos, que dizem segui-lo.

Cristãos já fizeram as Cruzadas, já incendiaram gente na Inquisição, participaram e participam de grupos racistas e violentos, como a Ku-klux-klan, apoiaram o nazismo e perseguiram judeus e muçulmanos, séculos afora…

Mas será que, ao fazerem tudo isso, chegaram alguma vez perto de seu Mestre, foram semeadores do seu Reino nesse mundo? Ou a cada gesto de violência e intolerância, guerra e morticínio, retardaram a vinda do Reino e espalharam as sombras do fanatismo e da ignorância?

De novo hoje, vemos cristãos que não entendem Jesus, ou pelo menos, acham-no talvez um tanto utópico, um tanto mole, um tanto romântico, inaquedado para a dureza de nosso mundo e dos nossos tempos.

Não, Jesus não era um covarde, assim como não o foram seus verdadeiros seguidores, como Francisco de Assis, Gandhi (que apesar de hindu, se inspirava também no Sermão da Montanha), Martin Luther King e tantos outros, que enfrentaram a perseguição, a prisão e até a morte, para semear o Reino da verdade e da fraternidade no mundo.

O verdadeiro cristão não fere, não julga, não mata, não tem desejos de extermínio, tormento e castigo do outro. O verdadeiro cristão acolhe, perdoa, se compadece, entende que a violência do outro é doença, ignorância e não se rebaixa com mais violência, mas eleva-se em exemplo de paz, em proposta de educação. “Não julgueis para não serdes julgados”, “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra!”

O verdadeiro cristão não discrimina, não fere, não grita, não favorece a guerra, não anda armado, não condena a sexualidade alheia. “Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra!” “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Essa frase, aliás, foi dita a Pedro, no momento em que ele, Mestre, estava sendo preso e o apóstolo sacou de uma espada para defender Jesus. Nesse minuto, recebeu a lição máxima da não-violência: é melhor ser injustiçado do que injustiçar, ser ferido do que ferir, ser preso, torturado e morto, do que prender, torturar e matar…

Essa é a filosofia cristã… por isso, durante 300 anos, os primeiros cristãos se entregavam aos leões da arena romana, cantando seu perdão e orando pelos algozes.

Quem acha tudo isso rematada loucura, fraqueza ou utopia, não entendeu a mensagem de Jesus e ainda está vivendo os valores da velha Roma, em que é preciso lavar a honra com sangue e em que perdoar é indignidade e humilhação.

Nosso problema central é que depois de 300 anos sendo vítimas pacíficas da perseguição romana, os cristãos ascendem ao poder, pelas mãos de Constantino, funda-se a Igreja Católica Apostólica Romana e, de mártires, pouco a pouco, os cristãos se tornam perseguidores, inquisidores, guerreiros, poderosos – tudo em nome de Jesus, num permanente sofisma histórico!

Desde então, vivemos nessa contradição absurda: uma civilização que se diz seguidora de Jesus, mas que é constituída de Estados militarizados, de policiamento aos indivíduos, de repressão à liberdade, de descrença na fraternidade entre os seres humanos. Sociedades construídas em bases de violência, exploração e exclusão. Foi por isso que Tolstoi entendeu o cristianismo como uma forma de anarquismo, com a abolição de todos os poderes, porque todos são sustentados pela violência institucional.

Somos cristãos, discípulos de um Mestre que tinha entre seus seguidores mulheres de todas as condições e inclusive, após a morte, apareceu em primeiro lugar para uma mulher – mas a nossa civilização violenta, desrespeita, oprime a mulher…

Somos cristãos, discípulos de um Mestre que amava as crianças e dizia que deveríamos ser como elas, para ganhar o Reino dos Céus, e a nossa civilização ainda abusa, violenta, escraviza e domestica a criança…

Somos cristãos, discípulos de um Mestre que disse que deveríamos nos amar uns aos outros, como ele nos amou, e nossos Estados, a polícia e muitos cidadãos consideram natural matar, guerrear, torturar…

Somos cristãos, discípulos de um Mestre que andava com gente que era considerada ralé em sua época – prostitutas, escribas, cobradores de impostos – e consideramos desculpável discriminar (e até matar!!) alguém por sua orientação sexual.

Somos cristãos, discípulos de um Mestre que disse que seus seguidores viriam do Ocidente e do Oriente e pregou e viveu a fraternidade universal e praticamos durante séculos a escravidão de africanos e ainda estamos estruturados socialmente no racismo, na desigualdade, na exclusão social…

Jesus amado! Tanta clareza usaste, palavras tão poéticas, diretas e simples… Exemplos tão tocantes, arrebatadores e fortes! E parece que a maioria nada entendeu. Ou vamos descobrindo passo a passo, cada qual no seu ritmo evolutivo (Gandhi dizia que o bem anda na velocidade de uma lesma!!!) que: violência só gera violência, que o amor cobre a multidão de pecados e que o Reino só virá pela fraternidade entre todos os seres humanos!

O princípio da não-violência não nos induz à omissão, à covardia, à moleza de atitudes ou ao silêncio de quem consente com toda sorte de violência. A prática da não-violência é a resistência ao mal; é a luta pacífica, sem ódio, mas com firmeza; é a permanente semeadura de valores como dignidade humana, respeito a todas as criaturas, igualdade de direitos e justiça!

Justiça que não é vingança ou punição, massacre e ódio. Justiça que é o pão para todos, a vida respeitada, a educação garantida, a saúde cuidada e o crime, se existir nas condições de uma sociedade justa e bem organizada, tratado como um problema psíquico a ser cuidado e não como um motivo para arrancar do criminoso a sua dignidade e a sua capacidade de superação e educação.


Dora Incontri


08 setembro 2018

Padres, gurus, médiuns, acusados de abuso. Como o espiritismo se posiciona?




PADRES, GURUS E MÉDIUNS, ACUSADOS DE ABUSO
COMO O ESPIRITISMO SE POSICIONA?



Na mesma semana em que saiu uma reportagem em O Globo sobre a investigação de 300 padres nos EUA, que teriam abusado de mil vítimas; aqui no Brasil, foi publicada a notícia, pela G1 sobre “médium presidente de sociedade espírita que vira réu por estelionato e violação sexual”. Ante o choque de muitos espíritas, que nos procuraram para comentar o fato, não poderíamos deixar de tecer uma análise a respeito, em que pese a nossa repugnância em tocar em assunto tão indigesto.

É preciso, porém, dizer que a prática (ou suspeita de prática) de abuso e assédio sexual e de desvio de bens financeiros entre líderes religiosos são tão antigos quanto as religiões. Mais recentemente na história, temos o desvendamento desses crimes na Igreja católica, que sempre os acobertou. Mas no Oriente, as coisas não se passam de forma diferente: Sai Baba, considerado pelos seguidores como uma encarnação divina, tinha inúmeros processos de pedofilia contra ele na Índia e no quarto em que dormia, foram encontrados milhões de rúpias e quantidades imensas de ouro. O guru aclamado em frases diárias de autoajuda, que primeiro se chamava Rajneesh e depois, para fugir de crimes de que estava sendo acusado, mudou seu nome para Osho, também tem denúncias várias envolvendo abuso sexual e acúmulo de fortuna, em rolls-royces, aviões etc.

Ou seja, assistimos a esse fenômeno universal de mestres, sacerdotes, gurus, chefes de seitas, líderes religiosos aclamados que têm uma face sombria, de dominação, exploração e violência contra mulheres, crianças, adolescentes, jovens e adultos.

Qual a explicação para isso? Muita gente sempre supôs que a Igreja Católica, pela sua imposição de celibato, tenha sido uma fábrica de pervertidos. Mas se observamos o mesmo fenômeno em outros movimentos (e agora no próprio movimento espírita), onde não há a imposição de celibato sacerdotal, então essa não parece ser a explicação, ou pelo menos não é a única explicação.

E se invertêssemos o raciocínio? E se justamente nos redutos da liderança religiosa, vão muitas vezes se esconder personalidades doentias, desejosas de dominação, que buscam o acobertamento da religião para a prática de seus crimes?

E por que acontece isso? Porque as religiões, com suas hierarquias instituídas, com sua produção de mestres artificiais que comandam ovelhas submissas, dependentes e idólatras, são lugares onde a idealização de alguém dá a esse alguém, carta branca para quase tudo.

Quando colocamos um ser humano, sempre falível, sempre simplesmente humano, com suas fraquezas e até doenças e desvios, como alguém superior a nós, alguém que não podemos questionar, que não está sujeito à crítica, que não é gente como a gente… alguém apenas reverenciado e idolatrado – estamos abrindo a porta para qualquer tipo de abuso, de sujeição, de violência mesmo.

Seria de se esperar que no espiritismo não ocorresse isso, porque não somos uma religião no sentido tradicional do termo. Não temos sacerdotes, não temos gurus, não temos mestres. Em matéria de espiritualidade e espiritismo, todos somos aprendizes. E para o espiritismo, todos somos aprendizes e sujeitos, capazes de raciocinar, com autonomia e espírito crítico.

Mas sim, no Brasil, o movimento espírita se tornou uma religião no sentido tradicional. Médiuns e dirigentes agem como gurus, são venerados como tais e se tornam referência inquestionável de determinado centro ou comunidade e até do movimento espírita inteiro. E de repente, a casa cai, porque toda idealização encontra a chão duro da realidade. Porque quem se deixa venerar e idealizar tem algo a esconder. As pessoas que são mais normais, mais acessíveis, mais despojadas, mais gente como a gente, costumam ter menos obscuridades, embora qualquer pessoa possa ter seu lado problemático.

Algumas palavras sobre esse caso do médium Maury Rodrigues da Cruz. Eu já o conhecia de um encontro apenas, já tinha estado na Faculdade que ele dirige e alguns discípulos seus haviam me enviado anos atrás, vários livros de sua autoria mediúnica, com um espírito chamado Leocádio Correia. Já tinha feito uma análise cuidadosa dos livros, que achei muito confusos, prolixos e repetitivos. E o pior, a bibliografia do curso de Teologia Espírita na faculdade dirigida pelo médium era predominantemente constituída desses livros mediúnicos. Vejam-se aí vários problemas (que aliás são generalizados no movimento espírita): textos supostamente psicografados, que são em linguagem empolada, ininteligível e que não passaram por nenhuma leitura crítica; centros, comunidades, baseadas inteiramente na liderança de um médium que se torna uma autoridade constituída pela sua própria e inquestionável mediunidade; e nesse caso específico, temos a proposta da constituição de um conhecimento (uma teologia espírita) baseada na obra de um médium, de um espírito, sem nenhum respaldo acadêmico, científico e sem nenhuma solidez filosófica.

Tudo isso, claro, não indicaria necessariamente essa acusação de abuso. Mas tudo isso abre a porta para qualquer desvio mais grave.

O espiritismo deveria ser – e é quando bem compreendido – uma ideia emancipatória, que entrega ao indivíduo a gestão de si mesmo, a uma proposta de autoeducação. Assim, as relações entre espíritas devem ser sempre horizontais, fraternas, abertas e jamais baseadas numa veneração submissa a uma suposta autoridade mediúnica. Isso perturba os que praticam a idolatria e perturba quem está posto no pedestal, pois que vai perdendo sua dimensão humana e igual aos outros e acaba acreditando em sua própria e suposta superioridade.

Lamentamos profundamente as vítimas desse caso e de outros, que sem dúvida acontecem em centros espíritas Brasil afora – mas alertamos a todos: estudemos o espiritismo, empoderemo-nos de seu caráter libertador e não rendamos culto a ninguém. Não alimentemos dependências doentias, que podem nos levar a situações de grande vulnerabilidade psíquica e mesmo ao perigo de sermos violados em nossa integridade.

Dora Incontri


24 agosto 2018

Criminalizar ou Descriminalizar o Aborto - Dora Incontri



CRIMINALIZAR OU DESCRIMINALIZAR O ABORTO


Em primeiro lugar, devo declarar para abertura desse artigo que considero o aborto algo muito negativo, traumático, para a própria mulher, para o ser que está em seu ventre e para a sociedade. Ninguém aborta por esporte e conheço várias mulheres que abortaram por convicção e nem por isso tratou-se de um fato corriqueiro, sendo um ato que deixa sempre uma ferida psíquica. Do ponto de vista espírita, sabemos que há ali um ser reencarnante, que sente a expulsão à força daquele local aconchegante e supostamente protegido, que deveria ser o ventre de uma mãe.

Até mesmo a psicanálise, uma ciência sem nenhuma ideia de transcendência espiritual, considera que há vida humana uterina, já que se fala em formação psíquica desde o ventre, e que se pode trabalhar mesmo traumas que se deram durante esse momento. Se há alguma forma de lembrança emocional que a pessoa pode ter da fase fetal, então isso significa que havia uma consciência ali, pelo menos em formação. Alessandra Piontelli, uma psicanalista italiana, relata os resultados de uma pesquisa realizada com crianças, desde o ventre até a idade de 4 anos num livro chamado De Feto a Criança – um estudo observacional e psicanalítico. Aí se percebe que falas, vivências, impressões que a mãe teve durante a gravidez repercutiram no psiquismo da criança em gestação. Para o grande psicanalista inglês, Donald Winnicott, a relação mãe-bebê, um estado de fusão psíquica que só vai se desfazer totalmente aos 2 anos de idade, começa ainda no ventre.

Pondero tudo isso, para deixar claro que a questão do aborto não é apenas, como querem alguns, uma discussão entre feministas radicais e religiosos fanáticos! Geralmente essa polêmica tem girado em torno dos argumentos seguintes: De um lado, a liberdade da mulher de fazer o que quiser com o próprio corpo (mas há outro corpo e outra consciência ali) e de outro lado uma questão de princípios religiosos (mas esses princípios não poderiam se apresentar como parâmetro social de uma coletividade em que há crentes e ateus e divergências de visão de fé – o Estado deve ser laico e não pode se orientar por determinações religiosas). Acredito assim que não deveríamos discutir o aborto meramente do ponto de vista ideológico e religioso. Deveríamos olhar a problemática mais de forma psicológica, ética e social.

Os espíritas, supostamente, deveriam estar de posse de um discurso diferente de outras correntes religiosas, fazendo apelo a evidências de pesquisa de que há uma consciência que sente ali no ventre materno. Por exemplo, as fartas pesquisas de memórias de vidas passadas de Ian Stevenson e equipe ou as regressões que muitos terapeutas fazem que passam pela memória intrauterina (cujas lembranças podem ser confirmadas por pais e outros familiares).

Entretanto, como no Brasil, o espiritismo virou mais uma religião institucionalizada, os órgãos federativos assumem um ar místico de defesa da vida, que em nada difere do discurso de outras religiões.

E há vários problemas nessa postura.

Primeiramente, podemos considerar o aborto um trauma psíquico para a mãe e para o espírito reencarnante, mas não precisamos com isso criminalizar a mãe e encarcerá-la. Isso é desumano, desnecessário e ineficiente para coibir o aborto. Sobretudo porque sim, nesse caso, temos uma visão machista, como se uma mulher pudesse ter um filho sozinha. Os homens também são responsáveis pelo ser que geraram – embora muitas e muitas vezes não assumam. E depois querem fazer leis que criminalizam a mulher, que foi deixada sozinha com a decisão de ter ou não esse filho. De outro lado também, os próprios homens deveriam reivindicar o direito de decidir em conjunto, já que o filho não é só da mulher. Ela não é a única envolvida na questão.

O problema, portanto, não é ser contra a aborto, o problema é criminalizá-lo. Também considero repugnantes as clínicas comerciais de aborto, sejam clandestinas em países em que o aborto é proibido, sejam oficializadas em países em que é legal – em ambos os casos, aliás, bastante lucrativas. Mas a questão é de conscientização e não de proibição.

E o problema dos espíritas não é militar contra o aborto, mas a maneira que o fazem e a exclusividade de sua militância por essa questão.

Ao invés de ficar batendo na tecla de não descriminalizar o aborto, porque os espíritas (e com isso digo as instituições que se julgam representantes do espiritismo) não discutem as mortes de mulheres pobres nas clínicas de aborto clandestinas, por que não falam do machismo da nossa sociedade que não ampara a mulher na maternidade, a partir de muitos pais, homens, que consideram que não é com eles (eles não deveriam ser criminalizados também nesse caso?), da miséria estrutural que não favorece a consciência social da gravidez desejada e responsável?

A nossa militância deveria ser pela licença maternidade e pela licença paternidade prolongadas, pela educação sexual na adolescência, numa postura de prevenção da gravidez precoce, pela abolição da violência obstétrica, da violência doméstica, da violência sexual contra mulheres e crianças… E de nada disso ouço os espíritas institucionais falar… Sem mencionar outros temas vitais que deveriam fazer parte da pauta de discussão e militância destes nossos companheiros tão devotados à vida: será que ouvi alguma manifestação da FEB contra a intervenção militar no Rio de Janeiro, a mesma que exterminou Marielle com 9 tiros e que poucos dias atrás matou um menino em uniforme escolar? Por que motivo esses nossos confrades (para usar um termo que ouvia muito na minha adolescência espírita) se mobilizam tanto por uma criança que não nasceu ainda (e já disse que me mobilizo também) mas não dizem uma palavra das crianças mortas nas favelas por tiros perdidos ou pelo extermínio sistemático de jovens nas periferias de São Paulo ou nos morros do Rio de Janeiro?

Já narrei num artigo sobre o assunto no meu blog pessoal, qual foi a postura de Pestalozzi em pleno século XVIII, na Suíça, quando se debruçou sobre as mulheres que matavam seus filhos ao nascerem e depois eram condenadas pela justiça. Descobriu que era um problema social, pois eram mulheres que vinham do campo, engravidavam, eram abandonadas e não tinham nenhum apoio. E Pestalozzi não achava que era justo e necessário punir as mulheres, mas prevenir a situação social, que as levava àquele ato desesperado.

Com toda essa problematização da postura dos espíritas na sociedade brasileira, gostaria de dizer que me preocupa ver os supostos representantes do espiritismo ao lado das facções mais conversadoras das igrejas cristãs, com um tom moralista e religioso, tão ungidos contra a descriminalização do aborto. Acho que os espíritas deveriam ter uma abordagem mais abrangente, compassiva e complexa do problema e ao mesmo tempo se engajarem em outras urgências sociais, das tantas que se apresentam no Brasil e no mundo, com propostas progressistas, transformadoras e profundas.

Dora Incontri

13 setembro 2014

O Casamento - Desafios e Soluções - Dora Incontri



O CASAMENTO - DESAFIOS E SOLUÇÕES 

A estrutura familiar sofreu diversos ajustes e desajustes desde o último século, mas ainda não atingiu o ponto de maturação adequada ao exercício de suas funções - sobretudo pedagógicas. De um modelo hierárquico e autoritário, escorregou-se para o indeterminismo, embora isso não seja regra geral, pois muitas famílias no mundo ainda adotam o estilo repressivo, crentes no poder da pancadaria e da opressão. Já atravessada pelos ventos da modernidade, ou ainda apegada a velhos padrões, a família hoje, de qualquer modo, está diante de questões ,muito dolorosas e ainda não encontrou respostas satisfatórias.

Uma das problemáticas mais fortes está na fácil dissolução dos laços familiares, o que causa sempre um trauma maior ou menor em todos os seus membros, mas sobretudo nas crianças. É certo que a indissolubilidade do casamento à moda antiga degenerava muitas vezes em hipocrisia e infelicidade permanente. A Doutrina Espírita não se opõe ao divórcio de maneira absoluta. Mas parece óbvio que o instituto familiar deveria ter maior estabilidade do que atualmente. A facilidade com que se quebram os laços matrimoniais e mesmo os laços maternais, paternais, filiais ou fraternais está radicada no encrudescimento do egoísmo e no culto excessivo ao prazer e ao sucesso pessoal. Palavras como sacrifício, devotamento, renúncia, perdão - integrantes necessários de qualquer relação humana altruísta e verdadeira - caíram em desprezo público, pois a realização individual do homem e da mulher pairam acima de qualquer concessão. E nessa realização, a sexualidade e a profissão ganham proeminência.

É verdade que antigamente aqueles requisitos morais só eram impostos à mulher, enquanto o homem usufruía de maior espaço de liberdade para o culto de suas ambições profissionais e fantasias sexuais. Com a liberação da mulher - fruto necessário e positivo da evolução social - também ela passou a ter maior possibilidade de buscar realização fora do lar, o que nem sempre fez de forma equilibrada. Atravessamos ainda um momento de mutação e crise nas relações entre os sexos, mas devemos achar um termo de equilibrio e sensatez, sobretudo para que as crianças não sofram tanto com o abandono e o conflito de ver a unidade familiar destroçada. Para isso, será preciso que homens e mulheres, de forma igualitária, recorram às virtudes domésticas - não mais virtudes de fachada como antes, mas sinceras e sentidas. Isso implica num retorno de ambos ao lar. Mais tempo, mais atenção de todos os familiares uns para com os outros., mais diálogo aberto e menos melindres, mais convivência em trabalhos, lazeres saudáveis, atividades religiosas em sociais - eis a única receita para que se recupere o amor e a alegria em família, únicos antídotos contra a discórdia, a separação, a frieza e o isolamento.

A sociedade deverá se estruturar de forma a permitir maior convivência familiar. Aliás, o emprego tradicional de 8 horas diárias está em franca decadência. A terceirização, o serviço de meio período, a volta das famílias à vida mais simples e mais rural, a possibilidade do trabalho e do estudo em casa via computador - tudo isso são evidências que poderão se confirmar cada vez mais no terceiro milênio e que deverão favorecer a vida em família.

De fato, a solução antiga - homem fora e a mulher dentro do lar - já não é mais possível, nem desejável, pois resulta numa grande dissociação entre interesses, realizações e ideais femininos e masculinos, criando dois mundos à parte, inconciliáveis e empobrecidos. O homem ausente de maiores responsabilidades domésticas e apenas retido no ativismo da vida diária, tende a endurecer o coração e perder a sensibilidade para as delicadezas da vida familiar. A mulher, apenas encarcerada em casa, perde a perspectiva do progresso individual e coletivo, aliena-se e torna-se mesmo incapaz de dar uma educação de maior qualidade aos filhos. Além disso, o mundo em suas atividades produtivas ganha muito com a participação intuitiva e sensível da mulher. O ideal portanto, é uma diminuição do ritmo feminino e masculino no frenesi do mundo, para que o lar volte a ser um lugar aprazível e não apenas um dormitório. A diminuição de horas passadas fora de casa poderá minimizar ainda outros problemas, como o desemprego e o stress. É claro que também deve implicar numa renúncia voluntária ao consumismo. Mas o que será melhor: poder trocar de carro, comprar todas as novidades eletrônicas do mercado, ou poder reunir-se com a família para conversar e cantar, orar e passear num bosque?

Esse é o ideal que devemos trabalhar no plano individual e coletivo, escolhendo sempre as soluções mais humanistas e mais amorosas. Mas a realidade atual está semeada de incertezas e angústias. Alguns certamente argumentarão que o trabalho frenético do homem e da mulher é na maioria das vezes uma necessidade de sobrevivência e não um arranjo desenfreado de consumo. Frequentemente, é verdade. 

Nesse caso, o sacrifício pessoal deverá ser maior para consagrar o maior tempo disponível às crianças e à convivência familiar, às vezes em detrimento de um lazer pessoal e até de algumas horas de repouso. O fato, porém, é que geralmente o maior sacrifício quem faz é a mulher, que acaba acumulando as funções de profissional, dona de casa e mãe, com grandes complexos de culpa por não estar desempenhando a contento a sua missão materna. Os homens, em sua maioria, ainda não aprenderam a sair de seu egoísmo milenar e cooperar com a mulher no mundo doméstico, como a mulher tem cooperado com eles no mundo do trabalho.

Esse descompasso ente homens e mulheres tem sido uma das causas de separação de casais. Mas a verdade é que marido e esposa deveriam se empenhar até o limite máximo possível para evitar esse rompimento dos laços familiares, que sempre é causa de traumas para os filhos. Uma prática mais intensa do amor e do perdão de ambas as partes poderá solucionar muitos impasses. Entretanto, esse esforço para preservar a famíia em sua unidade não pode implicar em pressão., violência física ou anulação da personalidade de algum dos parceiros. Por isso, sem dúvida, o divórcio aparece em certos casos como o mal menor, o remédio inevitável. Cabe então aos pais divorciados uma quota de maior compreensão e amor aos filhos, para ampará-los nesse transe difícil.

O que se vê, porém, são alguns casais separados, usando as crianças como instrumento de manobra para ferir um ao outro. Outros saem do casamento como se entrassem em novo período de adolescência e passam a buscar avidamente novos parceiros - em namoricos transas inconsequentes. Obviamente isso representa um desrespeito a si mesmos e às crianças. Basta conhecer de perto a sensibilidade infantil para verificar o quanto deve ser estranho e dolorido observar pai ou mãe às voltas com namorados e amantes. 

Mas hoje, o prazer sexual e a satisfação do indivíduo são postos acima do amor paternal ou maternal. A ternura pelos filhos, que deveria servir de antídoto e ponto de apoio contra maiores desequlíbrios, perdeu a força, pelo egoísmo excessivo dos adultos.

Não queremos dizer com isso que o homem ou a mulher divorciados não tenham o direito de reconstruir sua vida afetiva. Se encontrarem alguém com sentimentos nobres e à altura dos filhos, que o façam com cuidado, a longo prazo e pensando sempre nas consequências de suas atitudes para a Educação das crianças.

O melhor, porém, é que homens e mulheres busquem como ideal de vida a monogamia e isso deve ser um objetivo cultivado desde a adolescência, pois é justamente a multiplicidade de parceiros que confunde e perturba o indivíduo desgovernando-lhe o caminho para o parceiro certo. Casamentos se desfazem com facilidade, também porque não são nascidos da afinidade profunda e de compromissos anteriores. Muitos não passam da oficialização fortuita de algum dos vários relacionamentos que tanto o homem como a mulher já tiveram em muitos anos de "experiências" afetivas. É óbvio que tal consórcio não pode criar raízes. Mas o problema é que nascem crianças destes casamentos, e crianças que teriam direito a uma família estruturada, amorosa e feliz.

Precisamos recuperar com urgência o amor verdadeiro, sincero e altruísta e isso tem a ver necessariamente com uma restrição voluntária da liberdade sexual. Há valores bem mais aprazíveis, duradouros e sublimes do que a satisfação passageira do instinto. A construção de uma família sólida e equilibrada é um desses tesouros inestimáveis, capaz de salvar os Espíritos em sua jornada evolutiva.

O lar deve ser o cenário onde o indivíduo possa sentir-se plenamente confiante, aceito e amado, onde possa expor seus conflitos mais íntimos com sinceridade, sem medo de perder a compreensão dos familiares, onde possa desabafar seus problemas e dialogar com profundidade com os que lhe são afins. A família tem que ser o esteio de sua auto-sustentação.O exemplo edificante, o ambiente moral, as vibrações amorosas do lar serão determinantes na existência presente e na vida imortal.


Fonte - "A Família"
Livro: A EDUCAÇÃO SEGUNDO O ESPIRITISMO. (2a. ed. maio 1998) 
Autora - Dra. Dora Icontri

08 maio 2014

A Educação Sexual na Visão Espírita - Dora Incontri



A EDUCAÇÃO SEXUAL NA VISÃO ESPÍRITA


A educação sexual aparece necessariamente relacionada à Educação moral, porque, ao contrário do que muitos pensam e praticam atualmente, ela não deve se constituir meramente de lições de anatomia e de prazer sensorial. À prática do sexo, está associada sua responsabilidade moral indispensável. É claro que, como em todos os outros campos, a canalização positiva do sexo deve em primeiro lugar partir do exemplo de pais e ou educadores. Em segundo, o assunto deve ser objeto de conversação aberta, mas dentro de um clima de responsabilidade. Nem tabu, nem deboche são próprios para o diálogo entre educador e educando sobre essa questão. Naturalidade, oportunidade, respeito e elevação são os ingredientes necessários.

É nesse ponto, que a Psicologia moderna atinge a sua máxima problemática em neutralidade moral. A maioria dos profissionais dessa área, e que exercem grande influência sobre a opinião pública, consideram o sexo como meramente fonte de prazer, admitindo como normais toda e qualquer prática, inclusive marturbação, homossexualismo, sexo oral, sexo anal, sexo grupal...

Sabemos o quanto esses temas são polêmicos atualmente, mesmo em ambientes religiosos e até entre espíritas - coisa aliás difícil de se entender, porque certos valores morais deveriam estar claros pelo menos para aqueles que têm maior compreensão das Leis Divinas. Entretanto, é preciso esclarecê-los quando se fala em Educação, porque tais problemas muitas vezes aparecem desde a infância.

Sabemos que o sexo é uma energia poderosa, que é melhor canalizada na formação de uma familia, na troca equilibrada entre duas pessoas do sexo oposto que se amam e cujos frutos serão filhos, ou mesmo trabalhos sociais e espirituais. A Lei Natural é a monogamia (e a prova disso é o equilibrio numérico entre os dois sexos no mundo).

A energia sexual, se for gasta apenas no prazer, sem um sentimento de amor, que eleve o seu diapasão, sem responsabilidade moral e uma finalidade nobre, que garanta o equilibrio, pode não só servir de alimento a Espíritos vampirizadores, como gerar profundos desequilibrios naquele que a está desperdiçando e malbaratando.

E, nesse caso, estão a prática da masturbação, do homossexualismo, do sado-masoquismo, do sexo grupal e de todas as formas de anormalidades. Ora, porque muita gente nasce já com tais tendências, alguns estudiosos modernos concluem que elas sejam naturais e que há pessoas, por exemplo, normalmente homossexuais, como há pessoas de olhos verdes e de pele vermelha ou amarela. A reencarnação nos explica que, de fato, tais tendências podem ser inatas, mas nem por isso deixam de contrariar as leis naturais. É que trazemos vícios do passado, assim como trazemos conhecimentos e virtudes. Cabe à Educação proporcionar os meios para o indivíduo vencer suas tendências negativas. Mas o que se faz hoje é justamente incentivar todo e qualquer desequilíbrio, porque se espalham falsas teorias e justificativas que proclamam que tudo é válido e moral.

É bem verdade que se, em todos os campos da vida moral, o indivíduo tem inteira jurisdição sobre si mesmo, seu comportamento sexual é algo ainda mais íntimo. A ninguém compete julgar e condenar o próximo, nesse sentido. Lembremo-nos da inesquecível lição de Jesus: "quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra". É por isso também que se iniciou com tanta veemência a defesa dos chamados direitos das minorias, entre os quais se incluem os que praticam o sexo fora dos padrões aceitos pela sociedade. Mas o dever de se tratar um homossexual com respeito humano, não significa que o homossexualismo seja conforme às leis naturais.

Aliás, não só o homossexualismo é um desvio dessas leis; a heterossexualidade pode apresentar muitos outros tipos de desequilibrios. Mas a pretexto de tolerância e benevolência para com todos, não se pode deixar de reconhecer o que é certo ou o que é errado, o que é normal ou não, o que é elevado, bom e nobre e o que é rasteiro, grosseiro e vil.

Para uma Educação sexual saudável, além do exemplo e do diálogo, pressupõe-se que sejam estimulados no educando os seguintes valores:

1 - A Higiene Física e Mental. Trata-se de respeito pelo próprio corpo, o cuidado com a saúde, com a higiene e também a consciência de que o corpo é um templo do Espírito, no qual cada um deve trabalhar pelo seu progresso moral e não reduzí-lo a uma fonte inesgotável de prazer físico. A higiene mental implica na elevação de pensamento e por isso todo aquele que se alimenta mentalmente de imagens e propósitos saudáveis, equilibrados e bons, atrai para si afinidades nesse sentido e fugirá das atrações do abismo, que podem vir de fora ou nascer de dentro.

2 - O Respeito pelo Sentimento Alheio. Quando o educando aprendeu e viu desde cedo a prática,do respeito mútuo, o interesse pelo bem-estar do outro e o amor presidindo todas as ações, dificilmente será na fase adulta um gozador irresponsável, indiferente às consequência de suas relações afetivas.

3 - O Autodomínio. Também aquele que se viu desde cedo estimulado a controlar seus desejos, que não vê seus mínimos caprichos atendidos e cultiva a autodisciplina (que não é a mesma coisa que a disciplina imposta por outros, e sim uma disciplina despertada pela influência dos educadores, mas que cada um vai exercer dentro de si), já na adolescência saberá controlar seus desejos e orientar seus impulsos.

"A Educação segundo o Espiritismo" - Edições FEESP - Autora: Dora Incontri - Pós-doutoranda em História e Filosofia da Educação pela Universidade de São Paulo.



26 fevereiro 2008

O Amor às Crianças - Dora Incontri

O AMOR ÀS CRIANÇAS

Deveria ser óbvio, mas não é para muitos: para se pensar em colocar um filho no mundo ou para se escolher uma carreira na Educação, a primeira condição deveria ser a de amar as crianças.

É verdade que todo ser humano deveria gostar de crianças, pois a afeição à descendência, a ternura despertada pela graça infantil, o instinto de proteção diante de sua fragilidade, são coisas naturais inerentes à espécie humana.

No entanto, o homem tem a liberdade e a capacidade de contrariar até os seus instintos mais básicos, pelo menos temporariamente. E há muitos que não suportam crianças.

A característica básica da maioria dos inimigos de criança é o egoísmo feroz. A criança pede sempre cuidado, atenção. Uma criança, na vida do adulto, modifica-lhe os hábitos, requer que ele renuncie a alguns de seus prazeres e desejo de uma grande parte do seu tempo. Dá trabalho. E há gente que se encerra num egocentrismo tão doentio que não pode sequer pensar em doar algo de si em favor de um ser que dele dependa.

Outro aspecto de tais personalidades é geralmente uma falta de sensibilidade e de sentimento, que pode raiar pelo extremo da crueldade e da dureza. Pois quem não é capaz de se comover diante de um rostinho sorridente, quem não é capaz de apreciar a ternura e a sinceridade infantil
revela um enorme atraso em sua evolução moral.

Incluem-se nesse rol todos aqueles que não conseguem respeitar uma criança, exercendo violências inomináveis contra os próprios filhos ou contra os filhos alheios.

Infelizmente, o estágio evolutivo do nosso planeta é ainda tão deficitário, que muitos Espíritos se encontram ainda nesse ponto de atraso e degeneração.

Basta ver as barbaridades praticadas contra as crianças nas guerras e, mesmo no cotidiano, o número de estupros, seviciaçoes, rapto e assassinato de menores.

Mas entre esse extremo brutal e o verdadeiro amor às crianças, há enorme gradação. A maioria das pessoas sente uma inclinação natural pela infância, demonstra algum enternecimento diante da graça infantil.

É o começo, mas não basta, pois a ternura inicial não exclui atitudes egoísticas. Uma manifestação de desamor às crianças, constante mesmo entre aqueles que afirmam e até demonstram gostar delas, é considerá-las como um estorvo.

Elas atrapalham a ordenação do ambiente, fazem barulho, têm necessidade de se movimentar, de correr, são perguntadeiras, pedem atenção, querem o nosso tempo... São uma perturbação na rotina, nos afazeres, na vida
do adulto. A tendência é a chamada imposição de "limites" - muito citada por pedagogos atuais, que na realidade não passa de uma tentativa de estabelecer regras para que a criança não atrapalhe e deixe o maior usufruto possível do espaço e do tempo para o adulto.

O objetivo implícito é fazer a criança ver que ela tem de se conformar a ser uma pessoa secundária, uma natureza violentada, para se adequar ao mundo egoístico do adulto.

O amor pleno à criança é, acima de tudo, ter tempo para ela, aceitá-la como criança, dar-lhe inteira atenção e devotamento, não excluí-la nunca de nossa vida, fazendo-a ver que em qualquer tempo, ela pode estar presente.

Além de aceitação de sua natureza infantil, amá-la significa enxergá-la como uma pessoa inteira, digna de respeito, com dignidade humana, liberdade de opinião e necessidade de afeto.

O amor a uma criança ou a algumas crianças que estejam sob nossa responsabilidade só é edificante e legítimo, se não se manifestar exclusivista e egoístico. O amor deve ser justo e não desprezar ninguém.

Diante de uma criança que seja nossa filha ou tutelada e de outra que não seja, tratemos ambas com o mesmo carinho, sejamos justos na divisão de brinquedos, alimentos e carícias e jamais coloquemos uma criança em posição inferior à outra. Se com os adultos - embora devamos amar ao próximo como a nós mesmos - podemos ter nossas simpatias e preferências, nosso amor às
crianças deve ser farto e indistinto.

Quanto aos que se dedicam profissionalmente à Educação, é preciso que tenham uma grande paixão por crianças e especial prazer em estar com elas.

Que apreciem suas qualidades, que considerem seu trabalho um privilégio e tenham plena consciência da responsabilidade moral que ele implica.

Nenhuma escolha profissional deve ser fruto do acaso e da indiferença, menos ainda a tarefa da educação. Ela deve brotar em primeiro lugar de um grande amor à criança e a humanidade em geral.

Quem não se sinta a vontade, alegre e satisfeito com um bando de crianças correndo e gritando à sua volta, que as deixe em paz e procure outra atividade, para não se
tornar rabugento, tirânico e frustrado.

De "A educação segundo o Espiritismo", de Dora Incontri