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23 novembro 2021

Egoísmo - Márcio Martins da Silva Costa

 
 
EGOÍSMO

Em mundo cada vez mais acelerado, não te dás conta de pequenos detalhes.

Levantas-te pela manhã pensando em teu desjejum. Preparas o que lhe convém com os recursos que dispõe.

Satisfazes no calor da refeição e segues para a repetitiva rotina. Mas não lembras que poderias beneficiar outros no teu lar aumentando a porção que preparastes.

Dirigindo na rodovia, assumes a faixa da esquerda em velocidade bem menor que a prevista, impedindo a passagem de outros irmãos que carecem de tempo. Atento somente ao que lhe importa adiante, olvidas que o condutor do veículo que lhe segue pode estar em atendimento a alguma emergência.

No trabalho deténs conhecimentos de favorecimento coletivo. Mas guardas para si as informações, justificando aplicá-las futuramente em prol exclusivo de tuas necessidades.

No transporte coletivo, buscas uma melhor posição para ti e te fixas nos recursos audiovisuais na palma de sua mão, sem te dar conta que tua mochila nas costas espreme o irmão que compartilha o espaço apertado no corredor. Ainda neste cenário, sem tirar teus olhos da tela, sentas-te no banco que esvazia próximo a ti, sem observar se no entorno há outros mais necessitados de um assento.

Em via pública, manténs-te na calçada em linha reta a passos largos, ignorando quem vem à frente. Mal percebes que uma irmã com um carrinho de bebê foi obrigada a se desviar pela rua para não colidir contigo.

Sujeitas tua saúde a condições limítrofes que podem fragilizá-la, alegando imperativos da carne. Mas te esqueces que o teu adoecimento representa trabalho e exclusividade dos que lhe são próximos.

Regozijas-te de teus feitos e de teu sucesso com terceiros, porém te esqueces que para alguns ouvidos que te escutam isto pode representar dor e sofrimento por não contarem com a mesma oportunidade.

Ao chegar o sono busca o repouso completo de suas forças, fazendo uso do tempo que te apraz. Todavia, ignoras a possibilidade de se esforçar um pouco mais em vigília para dividir com o próximo que compartilhas contigo o teto as tarefas rotineiras do lar.

* * *

Dentre todos os males da humanidade, o egoísmo é o que nos detém como grilhões, obstando o nosso progresso moral. Filho do orgulho, ele nos impele a agir em favor de nós mesmos, negando a caridade para com o próximo.

Em todos os momentos da vida é nos dada a oportunidade de aplicarmos o evangelho prático e exercermos a caridade das mais variadas formas.

Todavia, muitas vezes e sem nos darmos conta, exercemos o egoísmo a cada passo, influenciando o próximo a fazer o mesmo em um efeito dominó que, às vezes, retorna para nós mesmos.

Ao aplicarmos o egoísmo pessoal, negamo-nos automaticamente à lei de amor, dita pelo Mestre Jesus por meio do “Amai o vosso próximo como a vós mesmos”. Todavia, qual o limite com relação ao próximo? Será a família, a seita, a nação? Neste contexto, percebemos que nosso egoísmo pode transcender o eu para se tornar um egoísmo de família, de casta, de nacionalidade.[1]

Busquemos nos exemplos do Divino Mestre a lembrança contínua de aplicarmos na escola da vida o evangelho vivido em ações de amor ao próximo. Só assim, e
 
 
xpurgando este mal de nossos corações, é que iremos contribuir com a ascensão da humanidade à a um mundo de Regeneração onde a felicidade será o caminho natural dos homens.

Márcio Martins da Silva Costa
Fonte:
Agenda Espírita Brasil

Nota do autor:

Publicado na Coluna Espírita (Agê) do Jornal Diário de Taubaté, em 28 de setembro de 2021.

Referência:

[1] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, 131a. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.

16 novembro 2019

Aparições de Pessoas vivas Distantes - Márcio Martins da Silva Costa




APARIÇÕES DE PESSOAS VIVAS DISTANTES


Em julho de 1856, uma senhora da cidade francesa de Boulogne-sur-Mer escreve uma carta, no mínimo curiosa, à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.


Ela estava na sala de jantar com o seu filho, um notável médium capaz de manter comunicações com os Espíritos, lendo um livro sobre magnetismo. Em certo momento, ele pega o livro da mãe e começa a folhear algumas páginas. Sob a orientação de seu mentor espiritual, o rapaz volta a sua atenção para história de um médico que houvera visitado, em Espírito, um amigo distante enquanto dormia o seu corpo físico.


Aquela aventura lhe faz lembrar seus amigos em Londres e o jovem comenta o quanto gostaria de passar por experiência semelhante. Na carta, sua mãe conta que, ouvindo aquele pedido, o seu guia espiritual lhe informa que no dia seguinte seria domingo e ele poderia levantar mais tarde. E complementa com a informação de que na sexta-feira seguinte receberia uma carta de seus amigos.


No dia seguinte, às oito da manhã, o jovem entra em sono profundo. Meia hora depois se levanta sem lembrar-se de nada do que ocorrera.

Passa-se então uma semana e exatamente na sexta-feira seguinte, conforme descrito pelo seu guia espiritual, chega uma carta de seus amigos da Inglaterra. Com uma perfeição de detalhes, não explorados pela narradora para não alongar a transcrição, os amigos censuram o jovem por ter ficado tão pouco tempo com eles.

Segundo os relatos da mãe, não havia dúvidas de que o filho fora até a cidade britânica e lá tenha ficado trinta minutos com os amigos. A carta deles era a prova dos fatos ocorridos.


* * *


Este caso foi publicado por Allan Kardec na Revista Espírita de dezembro de 1858, sob o título “Aparições” (1). Nesta publicação citam-se ainda outros eventos de possíveis aparições dos Espíritos dos vivos em locais distantes de onde se encontravam os seus corpos físicos.


Um deles era o de uma senhora que constantemente via a circulação de pessoas entrando e saindo de sua casa à noite. Independente da iluminação e mesmo com todas as portas fechadas, a movimentação ocorria e a deixava espantada. Certa feita percebeu nitidamente que se tratava do seu irmão que morava na Califórnia e que não havia morrido.

Estes fatos são possíveis e conhecidos pelo nome bicorporeidade (2).


Enquanto estamos em vida, nosso Espírito liga-se ao corpo por meio de uma substância semimaterial que o envolve e que a Doutrina Espírita o designa como sendo o períspirito. Quando dormirmos, afrouxam-se os laços que nos ligam ao corpo físico (3). Conforme as nossas intenções e possibilidades, podemos ficar, em Espírito, próximos ao corpo físico que repousa ou irmos ao longe, mantendo-se conectados àquele.


Em estado normal, o períspirito mantem-se invisível para nós. Contudo, pode sofrer modificações que o tornam perceptíveis e até tangíveis. Logo, não é impossível ocorrer de estarmos com alguém à nossa vista que, em verdade, esteja fisicamente bem distante. Tudo dependerá da disposição molecular do períspirito que atenderá a vontade do Espírito de se tornar visível ou não, seguindo-se leis naturais que ainda desconhecemos.

Márcio Martins da Silva Costa
Fonte: Kardec Rio Preto

Referências:

(1) KARDEC, A. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos, 1858.
(2) KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. 81a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013a.
(3) KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 93a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013b.

06 outubro 2019

Um Espírito pode nos Empurrar ou até nos Bater? - Márcio Martins da Silva Costa



UM ESPÍRITO PODE NOS EMPURRAR OU ATÉ NOS BATER?


Era noite de Réveillon e toda a família havia se reunido no quintal da casa para ver os fogos de artifício. Entre comes e muitos bebes alguns já tinham ultrapassado o limite da razão, mostrando-se mais alegres e tontos em relação a outros.

Naquela época, Pedrinho nem contava oito anos de vida. De pé, à porta da casa que dava acesso ao quintal, contemplava a alegria dos tios e primos com medo dos fogos barulhentos que começavam a tomar o céu. Bem atrás de onde estava, havia um pequeno banheiro e um corredor de acesso à cozinha, onde sua mãe lavava algumas louças acumuladas do jantar. Naquele pequeno espaço sentia-se seguro.

O pai de Pedrinho era um dos que tinham bebido além da conta. Nunca tinha soltado um foguete, mas resolveu insistir com o cunhado que lhe cedesse um dos fogos que ele estava soltando. Lúcio hesitou, porém não teve jeito. Trocando as pernas, Reinaldo pegou o rojão, acendeu o pavio, estendeu a mão para cima e fechou os olhos.

O facho de fogo explodiu, ascendeu um dois metros e, ao invés de subir, desceu em linha reta em direção à porta da cozinha onde estava Pedrinho. O menino congelou de pavor vendo uma bola de fogo vindo direto ao encontro de sua barriga.

Foram segundos de desespero de todos.

Prestes a ocorrer o trágico impacto, Pedrinho sentiu duas mãos a lhe empurrarem de súbito para o lado. A chama explodiu dentro do banheiro com tamanha violência que tudo dentro dele foi queimado. Equilibrando-se do empurrão, o garoto parou em frente à mãe gélido, suando frio e ofegante.

Ninguém mais quis ver fogos de artifício naquela noite.

* * *

Sim, um espírito pode nos empurrar e até mesmo nos bater. Na Revista Espírita de janeiro de 1860, Kardec publica a evocação de um espírito na qual lhe é perguntado se é possível que o mesmo desfira um soco sensível ao encarnado e o mesmo responde de forma afirmativa. Na Revista Espírita do mês seguinte, descreve-se um ocorrido no qual um proprietário de uma casa considerada como assombrada à época recebe uma forte bofetada de uma mão invisível ao adentrar em um dos seus aposentos, mesmo sozinho no local. Além destes, diversos outros relatos publicados em outras edições da Revista Espírita descrevem interações físicas sensíveis aos encarnados causadas por espíritos interessados e capazes de realizá-las (1).

No capítulo “Da teoria das manifestações físicas”, em O Livro dos Médiuns, Kardec nos esclarece que a interação entre o espírito e a matéria ocorre por meio de forças fluídicas de natureza desconhecida ainda por nós. Quando o espírito está encarnado, a sua vontade de atuar sobre o meio físico é transmitida do espírito ao corpo por meio do períspirito. Quando desencarnado, a atuação sobre a matéria ocorre por meio da vontade do espírito que leva a uma interação fluídica com o objeto a ser manipulado (2).

Destaca-se, contudo, que quaisquer interações somente acontecem se houver a intenção do espirito e ainda que lhe seja permitido fazê-lo. Do contrário, tais ações não ocorrem (1-2).

Na história de Pedrinho fica clara a presença de espíritos protetores atuando em benefício de sua integridade física. Sejam eles nossos anjos da guarda ou espíritos com os quais nos afinamos pela sintonia de nossas atitudes, sua ação só ocorre com a permissão da Divina Providência.

Que busquemos sempre trabalhar no amor e na caridade para que sejamos dignos de ter à nossa volta espíritos sublimes que sintonizem com as nossas ações. Nossas próprias emanações mentais e estas presenças de luz manterão distantes espíritos levianos que desejem nos impressionar fisicamente de maneira afrontosa.


Márcio Martins da Silva Costa

Referências:

(1) KARDEC, A. Revista Espírita. Jornal de Estudos Psicológicos, 1860;

(2) KARDEC, A. O Livro dos Médiuns. Cap. IV. 81a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.


18 novembro 2018

Paciência e Resignação - Márcio Martins da Silva Costa




PACIÊNCIA E RESIGNAÇÃO 



Otávio entrou no gabinete do Diretor para despachar um documento de rotina da empresa. Depois de apresentar todo o material, voltou para seu escritório repleto de alterações para fazer no texto.

Cerca de uma hora depois finalizou as diversas correções e retornou ao chefe. “Agora vai estar tudo certo”, pensou. Sentando-se à frente do seu avaliador, percebeu que não seria bem assim. Com uma caneta vermelha na mão, o patrão rabiscou quase todas as páginas e mandou retornar.

Mais uma hora e meia depois, Otávio retornou ao gabinete com a nova versão. “Agora vai”, pensou mais uma vez. Mas a caneta vermelha novamente coloriu todo o seu trabalho e ele voltou para a sua mesa.

Este movimento se repetiu por quase dez vezes, sendo que em cada momento que ele retornava ao chefe, este se estressava mais e ele ficava mais desanimado.

Na décima oitava vez em que voltou ao gabinete não se conteve com as novas correções e ponderou, quebrando seu silêncio:

– Chefe, essas alterações que o senhor está colocando agora são exatamente aquelas que eu inseri na primeira versão do documento, as quais o senhor disse que estavam erradas.

– As coisas evoluem, Otávio – respondeu o chefe irritado. Agora estou tendo uma visão melhor do relatório. Você é que não entendeu o que eu quero.

Otávio voltou para a sua mesa sem nada falar e foi fechar o documento mais uma vez.

Desta feita, porém, o colega que estava sentado ao lado dele e tinha visto todo o acontecimento ponderou:

– Como você tem tanta paciência, Otávio? Eu não teria aguentado tudo isso.

– A paciência que eu tinha já se esgotou, amigo. Mas deu lugar às preces que faço pelo nosso chefe.

* * *

Paciência e resignação são os ensinamentos que a Doutrina Espírita nos concede para suportar as vicissitudes deste plano onde estamos encarnados (1).

Vivendo em um mundo de expiação e provas, estamos sujeitos a diversas situações que podem levar ao limite a nossa paciência, como também podem exigir muita resignação de nossa parte. Logo, falar de paciência e resignação para nós mesmos pode vir a ser, para tantos, uma tarefa muito difícil.

Mais complexo, porém, é falar de paciência e resignação para com os outros. Quantos de nós exercitamos a paciência de ouvir histórias repetidas daqueles cujo tempo já lhes roubou a memória, mas precisam de nossos ouvidos para ainda se sentirem úteis? Quantos de nós nos resignamos diante da tarefa de acolher a dor de um parente enfermo, estar próximo a ele, deixando para trás os apelos da vida que continua à nossa volta?

Devemos estar atentos a estas oportunidades de darmos uma nova face àquilo que chamamos de paciência e resignação, transformando-as em amor e caridade para com o próximo.

Em certos momentos, uma prece, um pequeno gesto de atenção e amor que pareça pouco para nós, poderá ser muito para aquele que recebe cônscio ou não desse gesto.

E mais ainda será para o Divino Pai, cuja benevolência e o amor que envolve a todas as criaturas indistintamente, não deixará de enviar sua espiritualidade de luz para acolher o irmão necessitado, em atendimento às nossas sublimes vibrações.


Márcio Martins da Silva Costa

Referências:

(1) KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 93a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013.


23 setembro 2018

Cada um ao seu tempo - Márcio Martins da Silva Costa



CADA UM AO SEU TEMPO


Fazia pouco tempo que Pedro havia conhecido a Doutrina Espírita. Começou a frequentar uma Casa e estava maravilhado com os estudos e as atividades desenvolvidas.

A ideia de encontrar outros irmãos esclarecendo as mesmas dúvidas que tinha, trazia-lhe um grande conforto. Antes pensava ser o único a não entender o mundo dos Espíritos.

Não tardou a se envolver nos diversos trabalhos disponíveis no Centro. Ajudou a organizar campanhas, preparava estudos, frequentava as reuniões públicas e, sempre que podia, fazia-se presente nas diversas ações do movimento.

Todavia, começou a perceber que nem todos os amigos do início o acompanhavam. Todos sabiam que era necessário o apoio coletivo às campanhas, mas só ele e o pessoal antigo na Casa participavam. Todos eram convidados para os estudos, mas só alguns compareciam. Todos sabiam quando haveria reunião pública, mas só ele e alguns trabalhadores assistiam os expositores que falavam para uma pequena audiência de visitantes.

Chegou ao ponto de se irritar várias vezes, sempre questionando:

“- As pessoas não aprenderam que seria importante estarem ali? Por que não vêm? Não acordaram?”

*     *     *

Não, nem todos despertam ao mesmo momento.

Admitindo o processo da reencarnação, basilar da Doutrina Espírita, entendemos que somos seres milenares cruzando os séculos em experiências diferenciadas no corpo carnal.

Em contínua evolução intelecto-moral, vamos abandonando em cada existência as nossas imperfeições, tal como um diamante sendo lapidado gradativamente.

Se em uma encarnação cometemos erros, em algum momento adiante o arrependimento baterá a nossa porta, indicando a necessária e decorrente expiação para que possamos reparar o ato infeliz (1).

Na dinâmica deste processo evolutivo, alguns caminham mais rápido em direção a perfeição, enquanto outros se mostram mais lentos (2), iludidos pelas paixões terrenas.

Um simples olhar nas páginas da história irá nos mostrar valores culturais questionáveis, inaceitáveis nos tempos modernos. Quantas encarnações, a exemplo, vivenciamos na Idade Média, nascendo, renascendo e cometendo os mesmos erros, alheios às sucessivas oportunidades de evolução moral.

Com o avanço da humanidade, muitos de nós passamos a entender a mensagem do Nazareno, mas nem todos se esforçam por vivenciá-la.

Assim ocorre com aqueles que frequentam nossos Centros Espíritas, igrejas e templos, sem dar muita importância ao trabalho. De alguma forma já perceberam o quanto certas ações no bem são importantes, mas não se prendem a elas pela necessidade que sentem de atender em prioridade às demandas materiais.

Cada um ao seu tempo, vamos percebendo o quanto é importante o amor e a caridade estarem mais presentes em nossas vidas.

Logo, antes de julgar um irmão por acreditar que ele deixou de fazer algo, voltemos nossos olhos a nós mesmos, interrogando de maneira amiúde à nossa consciência quantas vezes erramos sem perceber e o que precisamos fazer para nos melhorar (3). Uma vez corrigindo nossos erros, nossas ações, por si só, servirão de exemplo e incentivo aos que ainda precisam despertar.


Márcio Martins da Silva Costa

Referências:

(1) KARDEC, A. O Céu e o Inferno. 61a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013a;
(2) KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Questão 117, 93a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013b; e
(3) KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Questão 919, 93a ed. Brasília (DF): Federação Espírita Brasileira, 2013b.


15 outubro 2017

Obsessão na Casa Espírita - Márcio Martins da Silva Costa



OBSESSÃO NA CASA ESPÍRITA


Felisberto era encarregado do Departamento Doutrinário da Casa Espírita em que frequentava. Assumiu esta tarefa pela indicação unânime de todos os demais colegas, os quais o consideravam um exemplo de conhecimento da Doutrina. Sempre que havia alguma dúvida nos estudos, Felisberto era solicitado. Quando o Centro se preparava para algum seminário ou outro evento, era também Felisberto que indicava os livros de referência.

Anos se passaram, e o que era a satisfação e exemplo de trabalho foi transformando-se aos poucos em um orgulho velado por parte de Felisberto. O que antes era simplicidade passava a dar lugar a expressões imponentes, tais como: -“…e você não sabe isso? Não leu ainda?”, franzindo o rosto de maneira amarga.

Entre o vai-e-vem dos participantes dos grupos, novas pessoas foram chegando a Casa Espírita, conhecendo Felisberto como sendo uma das “autoridades” do Centro. Os mais novos nem se atreviam a se contrapor com questionamentos e perguntas, pois sabiam que poderiam ser rechaçados diante dos demais irmãos se o distinto coordenador estivesse por perto.

Sem encontrar pessoas dedicadas como ele à leitura detalhada da Doutrina, passou a assumir uma postura mais fechada. Quase não sorria mais. No seu entender, aquele seu perfil exemplificava a seriedade com a qual os estudos deveriam ser conduzidos.

Logo sua postura contagiou alguns confrades que também passaram a adotar um posicionamento mais sério. As reuniões da Diretoria, que antes eram realizadas em clima fraterno e feliz, passaram a ser conduzidas com certo constrangimento dos integrantes. Só havia espaço para a prece de abertura, as propostas de Felisberto, a apresentação de detalhes administrativos por outros membros e o encerramento com uma curta prece.

Anos de pequenas mudanças, imperceptíveis pela maioria, passaram a influenciar a psicosfera da Casa. O que antes representava acolhimento figurava-se agora como constrangimento. Iniciativas dos mais novos trabalhadores costumavam ser tolhidas, na justificativa de que eram necessários anos de estudo para estar à frente de qualquer atividade. A Casa já não lotava suas fileiras como antes.

Felisberto agora já exibia cabelos grisalhos e o rosto enrugado, quando uma mensagem fora recebido em uma reunião mediúnica. O tema da comunicação era o afastamento das pessoas do Centro. De acordo com o mentor espiritual da Casa, espíritos de regiões entenebrecidas pelo ódio e pela inveja do bem há anos se incomodavam com os resultados sublimes angariados pelos trabalhadores. Eles queriam impedir a continuação daquelas atividades redentoras. Mas precisavam partir de algum ponto.

Sem adentrar em detalhes, a comunicação destacava que um dos antigos e influentes trabalhadores do Centro fora escolhido para o início do ataque, em face de suas imperfeições morais sedimentadas ainda no orgulho e na vaidade. Assim, uma turba de espíritos passariam a obsidiá-lo com frequência até que houvesse a possibilidade de obsidiar outros também.

A mensagem se encerrava dizendo que ainda havia tempo para mudar todo aquele cenário. Mas deveria haver o concurso de todos na auto-vigilância e na prece contínua à luz dos ensinamentos do Evangelho.

Quando terminou a reunião, alguns dos presentes criaram em suas telas mentais a imagem de Felisberto. Mas poucos se mostraram inclinados a levar a mensagem para ele.

* * *

Allan Kardec detalha os processos obsessivos no Capítulo XXIII de O Livro dos Médiuns. De acordo com a classificação proposta pelo codificador, os processos podem ser de obsessão simples, fascinação e subjugação, aumentando a sua gravidade, seguindo esta ordem [1].

O primeiro caso é negado por muitos, mas pode ocorrer com vários de nossos irmãos pelo natural intercâmbio existente entre o mundo corporal e o mundo espiritual. Basta criarmos conexões deletérias, geradas por pensamentos de baixo teor moral, tais como a inveja, a raiva, a ganância, o orgulho, etc. que estaremos propensos a abrir as portas para os espíritos inferiores que desejam nos dominar. Como efeitos, podemos perceber no obsidiado ideias fixas, desconfianças, desentendimentos em excesso, enfermidades, dentre outros.

No segundo caso, a fascinação, as consequências são mais graves. O obsidiado é envolvido em uma falsa percepção dos fatos, sendo iludido pelo espírito fascinador. Ele então passa a ter uma confiança cega naquilo que faz, acreditando que não está sendo influenciado. A crítica o perturba. Irrita-se com o próximo que se opõe a ele. Às vezes até crê que os demais em sua volta é que estão envolvidos em processos obsessivos. Achando-se dono da verdade, o obsidiado, muitas das vezes, sob a influência do espírito obsessor, procura afastar as pessoas que potencialmente poderiam lhe “abrir os olhos”, a fim de evitar a contradição e se manter na razão. Este processo geralmente é difícil de ser tratado, pois o obsidiado nem sempre aceita que está nesta situação.

No último caso, o obsidiado fica sob verdadeiro jugo, ou seja, sob domínio do espírito obsessor. Nesta situação, a vítima pode tomar decisões absurdas e comprometedoras; pode realizar atos motores involuntários e até perder a lucidez.

O pequeno conto apresentado, enriquecido com ingredientes potencialmente reais, apresenta um caso onde a invigilância do trabalhador abre gradativamente as portas para um processo obsessivo mais grave. Sem a observância da prece e da sintonia com os bons espíritos protetores e amigos, o obsidiado permite, sem se dar conta, de que suas imperfeições passam a criar conexões mentais com a espiritualidade inferior, a qual se aproveita da oportunidade atingir os demais trabalhadores da Casa.

De acordo com Allan Kardec, os meios de se combater os processos obsessivos variam de acordo com a situação estabelecida. Começar pela contínua vigilância e prece, procurando se desvencilhar de nossas más tendências e inclinações, já será um indicativo para o obsessor de que suas investidas são uma perda de tempo. Sendo paciente e persistente neste processo de melhoramento das condições morais fará o obsessor perceber de que não adianta dar continuidade ao processo.

Dependendo da insistência do obsessor, o processo ainda pode levar um tempo demasiado. Assim, devemos também buscar o acolhimento de nossos Espíritos protetores e o auxílio dos Espíritos simpáticos e amigos que nos assistem. Nunca estamos sozinhos e em cada encarnação sempre temos uma falange que torce pelo nosso êxito nesta vida. Juntemo-nos a eles.

Podemos, ainda, também receber preces de outros que, com certeza, nos ajudarão enviando mais amigos espirituais para nos apoiar. Mas nenhuma das preces será maior do que aquela oriunda do fundo de nossa alma, buscando o melhoramento de nossos atos e ações (não só físicos, como mentais), como também, em prol daqueles irmãos infelizes que estão ali tentando nos incomodar. Rezemos por nós, mas também rezemos pelos nossos obsessores. O desejo do bem a eles também os fará perceber o quanto perdem tempo em nos tentar iludir.

Durante o dia, busquemos manter a sintonia com pensamentos felizes, de amor, paz e caridade pelo próximo, seja ele encarnado ou não. Busquemos também identificar as nossas imperfeições, tentando mudá-las no momento em que elas ocorrerem, ou até mesmo evitá-las. À hora de dormir, façamos uma reflexão sobre o que poderíamos melhorar em nós mesmos. O que fizemos naquele dia que poderia ter sido mais produtivo para nós e para quem nos cerca.

Os nossos esforços no bem nos ajudarão a ascender nossas condições morais. Sob condições morais mais elevadas não seremos alvo de espíritos inferiores. Lembremo-nos de Jesus, nossa guia e modelo, cuja superioridade moral inquestionável afastava quaisquer possibilidades de obsessão.


Márcio Martins da Silva Costa

Referência:

[1] A. Kardec, O Livro dos Médiuns. 1861.