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13 julho 2016

Os Problemas da Vida - Vinícius

 
OS PROBLEMAS DA VIDA

Podemos dizer, por hábito e força de expressão, que a vida humana encerra dois problemas – o físico e o espiritual. Daquele, os homens não se têm descuidado, pois constituiu sempre, através de todos os tempos, a sua máxima preocupação. Quanto ao segundo, eles o descuram lamentavelmente, esquecendo-se de que é por isso que os outros problemas – os materiais – continuam sem solução, apesar de tratados com tanto zelo e solicitude.

A inversão de valores, nesse particular, tem sido fatal à Humanidade. Do pão para a boca jamais o homem olvidou. Quando lhe falta ou escasseia, ele prorrompe em protestos e lamentos, entregando-se ao desespero. Da roupa, para cobrir o corpo, também nunca desdenhou, empregando engenho e arte para consegui-la sob as formas mais variadas e apropriadas a cada região do globo e a cada estação do ano. O teto para abrigar-se tem sido, a seu turno, objeto de suas cogitações constantes, dedicando a essa questão o melhor do seu tempo e de sua inteligência. Na pecúnia, nunca deixou de pensar, sendo que este elemento absorve sua mente quase por completo, pois a pecúnia é a mola a que tudo obedece neste mundo.

Será, no entanto, que o estômago é mais importante que a razão? Acaso os tubos digestivos representam mais que as cordas do sentimento?

Dirão, talvez, os homens “práticos e sabidos” que as utilidades desta vida devem realmente ser consideradas em primeiro plano, visto como, abstraindo-nos do pão, vestuário e teto, o mais não passa de teorias que carecem de importância; estamos no plano da matéria, encarnados num corpo que depende daquelas utilidades. Portanto, acima de tudo, cumpre atender a essa circunstância. De nada vale falar no pão do Espírito quando o estômago está vazio e o corpo nu. O que interessa aos famintos, aos miseráveis, aos desnudos e peregrinos, é pão para a boca, é vestuário, é teto.

Perfeitamente. As necessidades físicas requerem medidas imediatas, enquanto as necessidades espirituais, sendo de efeitos remotos, podem, sem prejuízo, ser adiadas “sine die”. Ninguém morre por carência de luz, mas certamente muitos perecem à mingua de pão. Tudo isso parece certo, e é assim que os “homens práticos” pensam, agindo sob o influxo desse critério.

Mas, assim sendo, porque então continuam insolúveis os problemas materiais do pão, do vestuário, do teto e da enfermidade, não falando já no do vício e do crime?

A resposta é óbvia e clara; é porque aqueles casos só serão solucionados à luz do Espírito.

Quando o problema espiritual for encarado e estudado como merece, verificar-se-á que os de categoria material estão intrinsecamente ligados àquele; não podem, portanto, resolver-se em separado, distintamente.

Enquanto persistirem no erro de colocar em primeiro lugar o corpo, nada de que o corpo carece estará acautelado e seguro. Logo, porém, que o Espírito esteja acima da matéria, a razão acima do estômago e o sentimento acima dos tubos digestivos, os problemas da vida terão pronta solução. “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça; tudo o mais vos será dado de graça e por acréscimo”.

Em realidade, não há problemas materiais; só existe um problema na vida: o espiritual. Mesmo por amor ao corpo devemos cuidar do Espírito. Assim, pois, se estamos interessados nas coisas do corpo – como é natural que estejamos, porque a “máquina divina” é instrumento de nossa evolução -, cuidemos com afinco e perseverança, sem vacilações nem esmorecimentos, das coisas da alma. O corpo foi criado para o Espírito e não o Espírito para o corpo: eis a questão posta em seus devidos termos, e, ao mesmo tempo, eis como se acha a incógnita que encerra o senso da Vida.


Autor (a): Pedro de Camargo – Pseudônimo de Vinícius
Livro: Na Seara do Mestre – Editora: FEB (Federação Espírita Brasileira) – Páginas: 105 até 107 – 5ª Edição de 1985 – Rio de Janeiro/1951.


22 fevereiro 2012

Meditações - Vinícius



MEDITAÇÕES


Tem melhor noção do valor de certos bens quem deles está privado.

É fácil demonstrar a realidade desta assertiva. Quem mais estima a saúde, senão o doente? Quem melhor sente o mérito da liberdade, senão o encarcerado? Quem sabe aquilatar tão bem a valia da moeda, senão o pobre?

Pela mesma regra, o marido exemplar não é reconhecido nem compreendido pela esposa que o possui; assim como a melhor companheira, carinhosa, meiga e amorável, passa, com esses excelentes predicados, inteiramente despercebida, ao lado do marido que teve a ventura de desposá-la.

Os pais que tudo renunciam pelos filhos não são, geralmente, correspondidos pela prole, na sua dedicação e nos seus sacrifícios. Os filhos dedicados e respeitosos que procuram facilitar a tarefa árdua dos pais, a seu turno, não encontram a devida correspondência por parte dos genitores.

Tal é a vida humana: uma tessitura de paradoxos.

É natural, no entanto, que seja assim, por isso que o nosso planeta é mundo de reajustamento.

Nos atos, atitudes e gestos de amor, os mais simples, modestos e insignificantes, reflete-se sempre a imagem divina manifestação de sua lei soberana.

Deus, Vida e Amor são três expressões de uma única idéia verdadeira.

A vida sem o amor carece de significação. O Amor e a Vida sem Deus, têm algo de monstruoso. Dá a impressão de termos diante de nós um corpo decapitado.


***

Se indagarmos o motivo por que Deus criou o Universo com todos os seus prodígios e maravilhas, chegaremos à conclusão de que, como Pai, tudo fez para os seus filhos.

“Deus é Amor”. Não há amor sem objeto. Nós somos o objeto do Infinito Amor. Destarte, os sóis inumeráveis que brilham no azul do firmamento; os mundos, sem conta, suspensos na imensidade, girando em suas respectivas órbitas; as leis que regem a fantástica mecânica celeste, e aquelas que operam e regulam a evolução de todos os seres; o infinito no espaço e a eternidade no tempo, como patrimônio inalienáveis; a consciência do bem e do belo, do justo e do verdadeiro, a faculdade de evolver com as forças próprias, percebendo e sentindo o desabrochar de novos poderes que se incorporam e se fundem em nossa individualidade; a nobreza e a satisfação de sermos os arquitetos imortais do nosso destino, sob os olhares vigilantes e protetores de um Criador, que é todo justiça e misericórdia, - tais são, em ligeira e rápida síntese, as riquezas e os tesouros divinos que nos pertencem, por isso que nos foram legados pelo Pai Nosso, que está nos céus.


Fonte: “Na Escola do Mestre”
De Vinícius (Pedro de Camargo)

17 junho 2011

Sublimidade - Vinícius



SUBLIMIDADE

Às minhas filhas: Martha, Elisa, Almira e Maria Amélia.

Haverá algo mais maravilhoso que um pôr-do-sol, tingindo o horizonte de vivos e variegados coloridos?

Haverá alguma coisa mais encantadora que uma noite de luar; plácida e serena, calma e doce, envolvendo a Terra em seu manto de alumínio?

Haverá quadro mais imponente que o oceano em suas águas levemente crispadas, ondulando deleitosas, através de brando marulhar?

Haverá painel mais admirável que a mata virgem, ostentando árvores seculares, através de cuja ramada côa-se, a custo, a luz solar, cujo calor não basta para secar a umidade que refresca o solo acamado de folhas e musgos?

Haverá cena mais cheia de suavidade que aquela proporcionada pelo lago tranqüilo, de águas azuladas, sempre mansas, arfando de leve ao sopro da brisa?

Haverá, acaso, expressão de beleza maior que a das flores, dispostas com arte, num conjunto mesclado de verde, trescalando viço, frescor e aroma?

Haverá graça comparável à do passaredo garrido e travesso, enchendo o ambiente de vida e de alegria com seus gorjeios e trinados?

Haverá espetáculo mais majestoso e arrebatador que um céu escuro, recamado de estrelas, tremeluzindo e cintilando na solidão profunda que se estende, imensurável, sobre as nossas cabeças?

Haverá mais solene representação que aquela que nos oferece a aurora, espantando as derradeiras sombras da noite com as primeiras claridades do dia que desponta?

Haverá, enfim, impressão mais digna e mais nobre, mais delicada e mais tocante, mais sensibilizadora e mais emotiva que aquela que nos proporciona a atitude do santo que ora, do justo que defende os seus algozes, e da virtude ignorada que se dá em holocausto pela felicidade de outrem?

Sim — existe algo no mundo mais maravilhoso que o pôr-do-sol; mais encantador que a noite de luar; mais imponente que o oceano; mais admirável que as árvores seculares; mais garrido que os pássaros; mais majestoso e arrebatador que o céu recamado de estrelas; mais belo que as flores; mais solene que a aurora:

É a criança sorrindo no regaço materno, batendo palmas em sinal de aplauso ao doce chamamento de Jesus: Deixai vir a mim os pequeninos!

De “Na escola do Mestre”, de Vinícius (Pedro de Camargo)