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22 fevereiro 2019

Vaidade ou inveja? - Vladimir Alexei



VAIDADE OU INVEJA?


O movimento espírita brasileiro também tem sido sacudido pelas mudanças e transformações vigentes no mundo. Isso causa dor e alegria. Dor porque o processo de mudança exige adaptação. Alegria porque vislumbram-se novos horizontes.

Ulrich Beck (2016), ousou dizer – e defendeu a sua ousadia –, que não se trata de mudança ou transformação e sim “metamorfose”. Na busca por explicar o processo que se vive na atualidade, o autor alegou “falência” de definições. Se ele tivesse conhecido a doutrina espírita, talvez compreendesse que se trata de um período de “regeneração” com profundos ajustes acontecendo em diversos campos da vida.

A mudança no movimento espírita vem ocorrendo a partir do enfraquecimento de instituições seculares, que antes ditavam o ritmo da divulgação doutrinária e consequentemente dos seus profitentes. A rede mundial de computadores (www.), encurtou distâncias e permitiu a proliferação de pensamentos e sentimentos que demonstram necessidades diferentes daquela estrutura patriarcal estabelecida no campo físico. O exemplo da Igreja Católica é inequívoco: o Papa “saiu” do Vaticano pelas redes sociais e conseguiu arrebanhar mais simpatizantes do que se estivesse apenas em seu trono dourado. Ele apresentou ao mundo um pensamento contemporâneo, sensibilidade e fraternidade, pautados nas diretrizes do Cristo. Aliás, ele foi ousado e demonstrou riqueza de caráter quando trocou o trono de ouro, por uma cadeira de espaldar alto.

Nas décadas de 1980 e 1990, palestrante espírita conhecido em todo Brasil era o Divaldo Franco. Um ou outro, de forma voluntária e anônima, se deslocava pelo país, sem projeção como ocorreu com Divaldo. Divaldo não chegou a ser o que é, em termos de divulgação, de um dia para o outro. Fez o seu trabalho com uma vida de dedicação. Há quem goste e aqueles que não gostam do trabalho de divulgação realizado por ele. É um direito de cada um pensar diferente. É oportuno dizer, em tempos obtusos, que pensar diferente não significa desrespeitar. Criticar o trabalho não significa diminuir o trabalhador, apenas apresentar outros entendimentos sobre o assunto.

Nessa linha de divulgação doutrinária, via rede mundial, muitos nomes surgiram com contribuições relevantes para que o pensamento espírita pudesse alcançar corações sofridos e auxiliá-los no processo reeducativo por meio de palestras, seminários e congressos. Os congressos, ditos, “espíritas”, se perderam em pompas e circunstâncias totalmente materialistas, em lugares amplos, para arrebanhar grupos dispostos a pagar e fazer circular moedas entre palestras, atividades e dinâmicas.

Existe, na rede mundial de computadores, trabalhadores espíritas contabilizando quantas palestras e quantas pessoas participaram de suas atividades ao longo de uma vida, como se esse “quantitativo” significasse “progresso espiritual”. Pasmem: existem ainda, canais de vídeo na rede, de espíritas, que aceitam ofertas financeiras, como uma espécie de “leilão”, para que as perguntas dos ouvintes que ofertaram, sejam atendidas pelo expositor. Será que, às custas de um internauta, vale a pena manter uma estrutura “profissional” para se divulgar opiniões pessoais? Porque não são estudos doutrinários e sim, “bate-papos” com “famosos”. São momentos de tietagem, estimulados pela simpatia e educação dos expositores que se prestam a esse papel, de receber dinheiro por causa da estrutura que se montou.

Isso nos remete ao pensamento de Allan Kardec quando proferiu uma “alocução” (discurso curto, pronunciado em solenidades), para os espíritas de Bruxelas e Antuérpia, narrado na Revista Espírita de novembro de 1864. Kardec ao cumprimentar os espíritas daquelas localidades, demonstrou alegria sóbria ao informar que ele teria direito de envaidecer-se pela acolhida daqueles Irmãos, mas ele sabia que aqueles testemunhos “se dirigiam menos ao homem do que à Doutrina, da qual sou humilde representante”.

Onde há humildade nesses Congressos ou Seminários ou Palestras virtuais em que os expositores se colocam como “seres missionários”? Que falam que os outros são vaidosos, mas incapazes de reconhecerem a própria vaidade?

No passado, os Congressos Espíritas produziam anais. Os primeiros registros sobre “anais” datam da Roma Antiga e hoje seriam registros de trabalhos científicos publicados no contexto do evento. Se o congresso espírita não tem o cunho de apresentar trabalhos científicos, fruto de estudos mais elaborados, ele serve para o que? Angariar fundos para instituições privadas ou interesses pessoais? O objetivo de Allan Kardec realizar visitas aos centros espíritas, ainda no relato de sua viagem de 1864, era para, “além de contribuírem para estreitar os laços de fraternidade entre os adeptos”, colher elementos de observação e de estudo. Os elementos que se colhem na atualidade, demonstram total divergência com os princípios postulados pela Doutrina Espírita. São ações motivadas por interesses pessoais, ainda que traduzidos ou motivados por causas "nobres". Nobre é o que o Cristo disse: "não saiba vossa mão esquerda o que faz a direita".

O texto de Allan Kardec é perfeito para a atualidade. Para concluir essa ilustração, Kardec diz o seguinte: “Está provado que o Espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal do que pelos que não o compreendem absolutamente (...).” Uma divulgação malfeita, com valorização do “amor próprio”, aquele que se traduz por pessoas que “se acham” detentoras do conhecimento espírita, causa essa perda de referência doutrinária que se encontra no movimento espírita brasileiro.

O que fazer então? Essa pergunta paira no ar, a cada reflexão, porque remete a outro pensamento: seria inveja? É possível, por que não? Cabe análise pela relevância do tema. Se estivéssemos na mesma condição, teríamos feito diferente? Com esse entendimento, ousaria dizer que faríamos diferente, até por ver tudo isso. Entretanto, não é um caminho fácil de se modificar. O despreparo do espírita é tão grande que as repercussões ocorrem no campo pessoal: relacionamentos desfeitos, empregos que se modificam, filhos que se rebelam, olhares de desconfiança, depressão, ansiedade e uma série de outras sequelas que podem ser observadas. Será que estamos realmente preparados para uma profissão de fé Espírita? "Abrir mão" do que é politicamente ou convenientemente adequado, no plano terreno, para as conquistas do espírito?

É necessário e premente que se modifique, para o bem das lideranças que ainda conseguem lembrar, em meio aos holofotes, que a Doutrina Espírita educa, consolando, transforma, orientando, estimula, fazendo-nos trabalhar nas fragilidades egoístas que ainda se manifestam gritantes em seus adeptos. Que essas fragilidades pessoais não sejam superiores ao brilho perene e regenerador da Doutrina Espírita.


Vladimir Alexei


28 maio 2018

Rótulos e máscaras - Vladimir Alexei



RÓTULOS E MÁSCARAS


Estudar o Espiritismo é algo sublime, capaz de transformar-nos a maneira de pensar e agir em relação a pessoas, situações e de um modo geral, com a própria Vida. Mas estudar o Espiritismo ainda requer estudo, por mais redundante que seja, de tão óbvio.

Houve uma época em que a produção literária espírita, preenchia lacuna significativa, quanto a interpretações daquilo que a Doutrina Espírita revelou. Além do magistral trabalho de Allan Kardec, muitas pesquisas e estudos foram empreendidos com o objetivo de esclarecer pontos e ampliar entendimentos que o Espiritismo, por intermédio dos Espíritos Superiores, lançou luz.

Pesquisadores e pensadores espíritas teceram obras fenomenais, tanto pela forma, como pela profundidade do seu conteúdo. A cada nova interpretação e a cada novo entendimento, uma avalanche de livros era produzido tentando explicar e fazer luzir algum ângulo até então abordado de uma maneira diferente.

Essa diversidade fez com que o espírita tivesse, em suas mãos, um leque extenso de opções para seu estudo, que o movimento espírita convencionou “fragmentar” e rotular em trabalhos de cunho religioso, científico e filosófico. A crítica ao rótulo não é gratuita. Foi um recurso didático utilizado para conseguir melhor transmitir os ensinamentos dos espíritos. Entretanto, após mais de meio século de divulgação do Espiritismo nos moldes atuais, adotados pela esmagadora maioria das casas espíritas que possuem ciclos de estudos, estudos sistematizados, etc., percebe-se, mesmo sem método ou instrumento científico mais adequado, que o estudo do espiritismo ficou mascarado.

A fragmentação, por exemplo, é duramente criticada pelo educador Edgar Morin, quando diz que o retalhamento das disciplinas, torna impossível apreender “aquilo que é tecido junto”. Por que estudar “ciência, filosofia e religião”, quando o que deveríamos estudar é a “Doutrina Espírita”? Será que “tríplice aspecto” da doutrina consegue explicar a complexidade do que o Espiritismo aborda? Quando dizemos Doutrina Espírita, aplicamos um “zoom” que evidencia as inter-relações entre os conhecimentos (“tecido junto”), deixando claro que há mais do que um tríplice aspecto. No entanto, a aplicação do conteúdo fica a cargo do expositor, que pode abordar assim ou não.

Talvez – e esse é outro ponto da nossa reflexão –, quando iniciaram os estudos, no início do século XX, traduzir o pensamento das obras de Kardec, comportava um nível de abordagem que preservasse muito mais o entendimento e a interpretação, no sentido de “simplificar”, do que de ampliar considerações daquele aprendizado em relação a outros temas do cotidiano. Isso muda quando Dr. Carlos Imbassahy (Pai) assume a pena e nos dizeres do Herculano Pires, em sua “fortaleza” direto de Niterói, consegue relacionar as descobertas científicas com as revelações doutrinárias e tecer comentários filosóficos a respeito de conclusões – ilações, hipóteses, inferências, etc., todas válidas no campo da exposição de ideias –, que poderiam agradar ou não espíritas e não espíritas.

O movimento espírita – não o movimento de unificação, que não unifica nem entre eles – tem sido convidado a rever a eficácia e os objetivos do aprendizado, consequentemente, das atividades doutrinárias da casa espírita. Será que ainda buscamos “unanimidade” ou aprendemos com a diversidade nas casas espíritas?

Unanimidade é utopia no mundo atual, beirando a atrofia. Convergências de entendimento, ainda que existam diferenças na construção do conhecimento, são desejáveis. Veja um exemplo: “se dou comida aos pobres, todos me chamam de santo. Mas quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Essa frase do Dom Helder Câmara ilustra a diferença dos pensamentos e a sua complexidade. Tentar simplificar, rotula. Explicar: mascara porque evidencia apenas a compreensão daquele que está expondo o pensamento. Na complexidade do mundo atual, percebe-se que há muito conhecimento e informação entre os extremos para se tomar uma decisão simplista.

Nesse sentido, sabendo que as necessidades humanas estão cada vez mais globais, complexas e com níveis de exigência dantes observado, um leigo, neófito, apenas curioso, que enfrenta críticas, se expõe, tendo apenas como instrumentos diminuta experiência e uma convicção pessoal, não tem alcance e nem competência para empunhar bandeira que não seja aquela de provocar, estimular e refletir acerca do que temos visto, vivido e aprendido na Doutrina Espírita.

Desconstruir rótulos começa com a revisão do próprio papel de divulgar o espiritismo. Ao contrário do que muitos divulgadores dizem, quando assumem a tribuna, ouso refletir com os amigos, que não está faltando Kardec, nem obras de conteúdo doutrinários, nem muito menos estudo. Está faltando amor, benevolência, simplicidade.

Simplicidade é diferente de simplismo. Com as redes sociais, reduziram as discussões a críticas contumazes, sem ao menos apresentar argumentos. Quando as questões apontam para o “comportamento”, alguém se manifesta contrário, lamentando que a discussão “sempre” redunda em questões comportamentais. Todo aprendizado religioso, moral, filosófico, de alguma forma afeta o comportamento. Circula vídeo no whatsapp do Padre Fabio de Melo falando sobre a “quaresma”. Em linhas gerais, o convite dele é para que o católico substitua a abstinência por comida e bebida, por melhorias no comportamento. Qual o problema do espírita de hoje em entender isso?

Precisamos resgatar a linha mestra que nos vincula aos primeiros cristãos, aqueles que sentiram o perfume da presença do Mestre, seguiram seus passos, sonhavam com suas prédicas, criavam conexões de Suas parábolas com os desafios do cotidiano. Resgatar a alegria de servir, a beleza de amar desinteressadamente, de auxiliar o próximo, mais próximo, a partir de uma renovação interior, capaz de nos mostrar a grandeza da vida e seu aprendizado.

Que as dificuldades do caminho não nos paralisem os gestos nobres. Que o desejo de servir seja maior do que os rótulos e máscaras que existem no caminho. E que a presença do Cristo seja constante em nossas vidas, hoje e sempre.


Vladimir Alexei

14 abril 2018

O Espírita e a Política: uma reflexão a respeito das manifestações em redes sociais - Vladimir Alexei



O ESPÍRITA E A POLÍTICA: 
UMA REFLEXÃO A RESPEITO DAS MANIFESTAÇÕES EM REDES SOCIAIS


Um dos maiores espíritas que reencarnaram no Brasil, foi político renomado: Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti. No mesmo período – final do século XIX – encontraremos Anália Franco como membro do Partido Republicano, fato que ela sabia separar, com distinção, de sua militância social e educativa. Cairbar Schutel assumia o posto de vereador pela primeira vez em 1889, Eurípedes Barsanulfo na pequena Sacramento, também dedicou-se à política, dentre muitos outros.

Ignorar a presença de políticos, cientistas, acadêmicos, empresários e filósofos no meio espírita, ao longo de sua existência, seria uma injustiça histórica. Figuras ilustres como Lins de Vasconcelos e Frederico Figner, empenharam suas vidas e suas respectivas fortunas à divulgação do Espiritismo. Envolviam-se em terreno delicado ao propor levar um pouco mais de luz, de esclarecimento ao povo mais necessitado.

Se recuarmos um pouco mais no tempo, veremos que o movimento que ocorreu no Brasil, espelhava aquilo que havia começado na França quando intelectuais, artistas, políticos e acadêmicos fizeram coro ao trabalho de Allan Kardec na propagação doutrinária. A França que abrigou Voltaire e Rousseau, precisou de conflitos armados para fazer com que a democracia se instaurasse. Segundo o historiador Will Durant, o movimento democrático nasceu do “dinheiro e da pólvora”.

Onde queremos chegar? Que falar sobre política e fazer política é tão natural quanto necessário. O que tem chamado a atenção, nas redes sociais, é a falta de compromisso com que a política tem sido compartilhada, inclusive, por espíritas. Assemelha-se a uma torcida de futebol em que os opostos desfilam provocações cada vez mais ácidas, demonstrando fragilidades preocupantes.

A omissão de instituições espíritas quanto ao cenário político, transformou-se em algo “normal”, quando lideranças confundem a liberdade de opinião com o laissez faire, no sentido de o que você quiser fazer é problema seu, afinal, não esclarecerem seus profitentes.

Recentemente, um espírita de renome, por seu belíssimo e indiscutível trabalho assistencial desenvolvido em bairro de periferia de Salvador, além de extensa obra mediúnica, foi duramente criticado por posicionar-se a favor da “direita” e daqueles que a imprensa tem noticiado como “pessoas de bem”. É a opinião dele e deve ser respeitada, assim como devemos respeitar a opinião daqueles que pensam diferente, como os que se colocam de “esquerda”. Aliás – apesar de toda a crítica que essa reflexão receberá –, combina mais com o espírita o posicionamento de esquerda do que da situação. Por que? Porque o progresso social, a partir do progresso individual com acesso à educação e melhores condições de vida deveria ser uma plataforma de trabalho do espírita, de acordo com seus recursos e posicionamento social. As Leis Morais em O Livro dos Espíritos podem elucidar melhor esse pensamento.

O que tem ocorrido é uma confusão dantesca entre o agente de corrupção e a corrupção. A corrupção é uma das manifestações do egoísmo humano, quando, em detrimento ao bem comum, opta-se por levar vantagens pessoais, sem pensar no progresso que poderia realizar se agisse da forma diferente. O “instrumento de escândalo” (o corrupto) é refém de suas escolhas, arregimentando compromissos de ordem espiritual cada vez mais sérios e que deveria ser motivo para profundas reflexões de nossa parte: acaso estamos isentos de erros, mazelas e dificuldades de toda ordem? Eleger um “salvador” que não seja o “Modelo e Guia da Humanidade” é procurar amparo para legitimar ideias egoístas.

Os instrumentos que hoje avaliam a corrupção, também se beneficiam dela, de maneira que, seu senso de justiça nem sempre é capaz de sobrepor o posicionamento político de “situação-oposição”, obnubilando o julgamento de condenar.

Quem está certo? Quem está errado? Camille Flammarion, no túmulo de Allan Kardec proferiu discurso que se notabilizou por considerar Kardec o “bom senso encarnado”.

Um amigo, de esquerda, com profundo bom senso – em todos os campos da vida, admirável, diga-se de passagem – sempre nos diz que “os extremos devem ser evitados”.

Não tenho vinculação a nenhum partido político. Fui eleitor tanto de esquerda quanto de direita ao longo dessa jornada terrena. Procuro, como livre pensador, analisar prós e contras, ainda que contrariem as opiniões dos amigos. No máximo, evito discutir e tentar “impor” meu ponto de vista para que as discussões não se exaltem além do ambiente fraterno em que começaram. Busco vislumbrar qualidades na oposição e situação para escolher candidatos e seus respectivos projetos para solucionar os problemas do país. Acertamos e erramos em nossas escolhas, mas não transformamos nosso posicionamento pessoal em motivo para brigas, contendas e desavenças, sejam no meio espírita ou fora dele.

Que o espírita se posicione favorável ou contra determinada corrente política, mas que sua forma de se posicionar seja pautada nos princípios doutrinários que, na atualidade, ele consegue praticar. Não sejamos nós, espíritas, motivo de escândalo, incentivando a proliferação de ideias contrárias ao que a Doutrina Espírita nos orienta, seja de esquerda ou direita: o contraditório é saudável no processo de aprendizado!

“Aos homens progressistas se deparará nas ideias espíritas poderosa alavanca e o Espiritismo achará, nos novos homens, Espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo.” (Allan Kardec)

Vladimir Alexei


03 maio 2017

Sociedade Alternativa - Vladimir Alexei


 SOCIEDADE ALTERNATIVA


Vladimir Alexei Dirão os amigos que sou saudosista. Talvez seja. Mas não se espantem: sinto falta das Instituições Fortes em nosso país e, consequentemente, em nosso Movimento Espírita. Para que não pairem dúvidas, instituição forte não é instituição militar. É instituição que possui liderança.

A Federação Espírita Brasileira se transformou em algo muito mais sério e grave do que sua teimosia em propagar o misticismo roustanguista. Talvez o despreparo daqueles que chegaram e, dos que se perpetuam nas sombras para conduzir uma instituição de tamanho porte, seja um dos motivos de sua inércia. Sem contar seu compromisso espiritual com o país. Ela simplesmente não representa mais, nem a Unificação, nem a liderança dos espíritas que, por algum motivo, ainda nutriam admiração por aquela secular instituição. Se não fossem os livros por ela editados, talvez, já não vinculássemos o seu nome às figuras ilustres que um dia representaram aquela Casa, como Ewerton Quadros, Bezerra de Menezes, Leopoldo Cirne, Bittencourt Sampaio e muitos outros.

Posso dizer que, nos últimos 25 anos, não me recordo de nenhum momento tão acéfalo assim para a liderança do Movimento Espírita. É uma reflexão, subjetiva, é verdade, de quem acompanha com preocupação o rumo que o Movimento Espírita está tomando. As lideranças espíritas não conversam entre si, independentemente, de sua posição no movimento espírita. Como pode isso?!

Creio que a FEB, hoje, não saiba o impacto causado por sua ineficácia, seja na gestão ou na produção de conteúdos doutrinários orientativos. À semelhança do país, a ausência de uma liderança, causa males muito graves. Fazem surgir oportunistas, vendilhões que se passam por missionários, sincretismos sutis, docetismo... um verdadeiro laissez-faire (é como o Raul Seixas em sua música: “faça o que quiseres pois é tudo da lei”).

Por isso o saudosismo: era muito bom o engajamento federativo para produzir conteúdo doutrinário, propaga-los e receber críticas e sugestões em seguida. Havia, no movimento crítico, uma proposta de estudo, ainda que não calibrada adequadamente. Era mais saudável! O que se vê hoje? Nada. Inércia total. Formiguinhas continuam trabalhando intensamente nas casas espíritas, enquanto o movimento federativo está em profunda letargia, gangrenando lentamente...

Tudo passou a ser comum. Ou seja, por mais autonomia que toda casa espírita deve ter, a ausência de uma liderança que estimule as casas a seguirem estudos doutrinários, é um ponto grave de atenção. Falta União entre as casas espíritas e em todo o movimento espírita. Mas, os amigos dirão, existem livros que orientam Casas Espíritas. Sim! E quem segue essas orientações?? Tornou-se algo para “inglês ver”.

Haverá, neste primeiro semestre de 2017, evento em uma capital, em um hotel, com capacidade para 750 lugares. Estão cobrando R$30,00, por pessoa. A arrecadação desse evento servirá para o que? Onde será empregado esse recurso? Exercitar a reflexão é importante. Será que os organizadores, tenho certeza que fazem a organização com todo carinho e amor, não percebem que estão repetindo o fracasso materialista que chafurdou a sociedade no que vemos hoje de mais decadente em termos de religião? O espiritismo se tornou mais uma seita ou religião exterior, nos moldes decadentes que vemos hoje. O que nos difere das demais religiões?

Não satisfeitos em baratear a mediunidade, onde os médiuns infelizmente não estudam, e cada vez mais escrevem obras de qualidade duvidosa, realizar eventos se transformou em um grande negócio. Cuidado. Muita informação não significa qualidade e nem geração de conhecimento. Onde ocorre o intercâmbio? Cadê o “estabelecimento central” idealizado por Allan Kardec? Ah! são as casas espíritas! E como as temos conduzido? Como anda nossa fraternidade para com os que chegam e para com aqueles que estão ativos conosco nos trabalhos?

Desde a casa espírita até a federação, num fluxo contínuo de informações, em via de mão dupla, parece que a ruptura se agravou. Não sou da área da saúde, mas diria que há fuga de energia nessa via, ou então, ela passou a ser uma “via tripla” com a criação da “sociedade alternativa dos eventos”. Qual o retorno dessa outra via? A qual movimento espírita ela beneficia? Porque há dedicação de energia para fazer esses eventos acontecerem. Isso não diminui seu brilhantismo, ok?! Quem está lá, voluntariamente, merece todo nosso respeito por tamanha dedicação e desvelo.

Não sei vocês, mas, está feio ouvir as pessoas no meio espírita dizerem que “servem Jesus”, que “trabalham por Jesus”, que “seguem Jesus”, que “bom é só Kardec”, que “todos devem estudar Kardec”, quando repetimos os mesmos erros de movimentos religiosos do passado. Ninguém disse que seria fácil despir o homem velho e vestir o homem novo, porém, nada que aprendemos até hoje, substitui a força que a União é capaz de proporcionar. E isso está em baixa.

Se a Federação não é mais a entidade que representa a União pela unificação (acho que nem sabem o que é “unificação” hoje em dia), se aqueles que produzem eventos acreditam unir as pessoas em torno de uma obra (ego), se os vendilhões se veem como missionários, se os médiuns não estudam, se o momento é de crise e exige liderança, e ninguém faz nada junto, apenas separado, e ainda assim, disser que tudo está conforme a lei, a notícia não é boa. Não está dando certo. É uma “revelação” mediúnica? Não. É, simplesmente, uma, dentre outras, análises que podem ser feitas do momento que vivemos.

Autor: Vladimir Alexei é orador espírita na cidade de Belo Horizonte/MG e apresenta o Evangelho na Rede aos sábados as 8hs pela Rede Amigo Espírita