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02 setembro 2013

O Orgulho é o Terrível Adversário - Clóvis Ramos


O ORGULHO É O TERRÍVEL ADVERSÁRIO

O orgulho é o terrível adversário da humildade. Se o Cristo prometia o reino dos céus aos mais pobres, é que os grandes da Terra imaginam que os títulos e as riquezas são as recompensas concedidas ao seu valor, e que sua essência é mais pura do que a do pobre. Eles acreditam que isso lhes é devido, e eis que, quando Deus as retira, acusam-no de injusto. Oh, escárnio e cegueira! Acaso Deus vos diferenciará pelo físico? O corpo do pobre não é da mesma substância que o do rico? Fez o Criador duas espécies de homens?

O ricaço, enquanto dormes sob os dourados tetos, resguardado do frio, não sabes tu que inúmeros irmãos teus, que te ajudam, dormem sobre esteiras? O infeliz, que tem fome, não é teu semelhante? A esta palavra rebela-se teu orgulho. Concordas em lhe dar uma esmola, nunca a lhe estender a mão.

Oh, lança um olhar de humildade sobre ti mesmo. Volve os olhos para as realidades das coisas deste mundo, para o que compõe a grandeza e a desonra no outro. Pondera que a morte será implacável tanto contigo como com os outros, e que os seus títulos não te livram dela. Que a morte pode ferir-te amanhã, hoje mesmo, neste instante, e se tu te amortalhares no teu orgulho, então muito serás digno de lástima, de compaixão. 

Espera e ora. A felicidade não é ainda deste mundo. Aos pobres oprimidos e confiantes em Deus, é concedido o reino dos céus.

Por que chorar? Ergue o teu olhar compassivo e sereno para Deus, que alimenta até os passarinhos. Tem confiança nELE e não ficarás abandonado.

Vós todos que sofreis as injustiças dos homens, sede tolerantes com os erros dos vossos irmãos, sabendo que também não sois irrepreensíveis. Isto é igualmente caridade e humildade. Se sofreis calúnias, suportai essa provação. Que vos importa o julgamento do mundo? Se a vossa conduta é pura, o Senhor não vos pode recompensar? Receber com humildade as humilhações dos homens é sábio e admitir que só Deus é grande e poderoso.

Será preciso, meu Deus, que Jesus venha segunda vez à Terra ensinar aos homens as leis que eles esqueceram? Deverá Ele de novo expulsar os vendilhões do templo, que maculavam a tua casa de oração? E quem sabe, ó homens, se vos concedendo Deus essa graça, não o renegaríeis como outrora, considerando-o um blasfemador por invectivar o orgulho dos fariseus modernos e não faríeis palmilhar ainda, o caminho do Calvário?

O Cristo nos deixou a sua doutrina, dando-nos o exemplo de todas as virtudes, e vós desprezastes esses exemplos e ensinos. Conservando cada um as suas paixões vos tornais um Deus ao vosso sabor, segundo uns, sanguinário e terrível, segundo outros, descuidado dos interesses do mundo. O Deus que fabricastes é, ainda, o bezerro de ouro, que cada qual apropria a seu gosto e vontade.

Sede bons e caridosos sem ostentação, quero dizer, fazei o bem com humildade: cada qual desmanche pouco a pouco o altar erguido ao orgulho, em uma palavra, sede verdadeiramente cristãos, e alcançareis o reino da verdade.

Por que vos lastimais das calamidades que amontoastes sobre as vossas cabeças? Desde que esquecestes a santa e divina moral do Cristo, não vos espanteis de que o cálice da iniquidade tenha transbordado em toda parte.

De "O perfume do Evangelho" 
De Clóvis Ramos

06 abril 2010

Quantas Vezes Perdoarei? - Clóvis Ramos

QUANTAS VEZES PERDOAREI?...

Quantas vezes perdoarei ao meu irmão? Não perdoareis sete vezes, mas setenta vezes sete vezes. Eis ai um desses ditos de Jesus que mais devem golpear-vos a inteligência e falar mais alto ao coração. Esmiuçai essas palavras de misericórdia, tão simples e concisas e tão profundas em suas intenções, e achareis sempre o mesmo pensamento. Jesus, o justo por excelência, respondeu a Pedro: Perdoarás, mas sem limites; perdoarás cada ofensa sempre que te ofendam; ensinarás aos teus irmãos esse esquecimento de si mesmo, que os tornará invulneráveis à acusação, aos meus procedimentos e às injustiças.

A cólera é contrária à caridade e à humildade cristã.

O homem permanece vicioso porque quer; mas o que deseja corrigir-se, pode fazê-lo sempre; de outra forma a lei do progresso não existiria para ele.

Serás manso e humilde de coração, não encurtando nunca a tua tolerância. Farás, enfim, o que desejas que Deus, nosso Pai, faça por ti. Ele não te tem perdoado sempre, e porventura contou o número de vezes que o seu perdão já apagou as tuas faltas?

Perdoai, usai de condescendência, sede cristãos, magnânimos, pródigos mesmo de amor. Daí, que o Senhor vos restituirá. Perdoais, que o Senhor vos perdoará. Abaixai-vos, que o Senhor vos erguerá. Humilhai-vos, que o Senhor vos assentará à sua direita.

Perdoai aos vossos irmãos como é necessário que se vos perdoe. Se os seus atos vos causaram danos, é isso uma razão a mais para a vossa bondade, porquanto o mérito do perdão é proporcional à gravidade do delito.

Esquecei o mal que vos fizeram, e pensai somente no bem que puderdes prestar. Aquele que penetrar nessa estrada não se deve desviar nem sequer pelo pensamento, pois sois responsáveis pelos vossos pensamentos diante de Deus, que os conhece. Deus sabe o que está no coração de cada um. Bem-aventurado aquele que pode cada noite adormecer, dizendo: "Nada tenho contra meu semelhante".

Há dois modos bem diversos de perdoar, que são: o perdão dos lábios e o do coração. Muitas pessoas dizem que perdoam o inimigo, ao passo que, interiormente, sentem certo prazer com o mal que lhe sucede, achando que foi muito bem feito. Quantos há que dizem perdoar, mas nunca se reconciliarão , nem querem ver nunca mais o desafeto. Será esse o perdão segundo o Evangelho? Não. O perdão sincero, o perdão cristão é o de quem coloca um véu sobre o passado.

O esquecimento completo e absoluto das ofensas é próprio das grandes almas. O rancor é sempre sinal de baixeza e inferioridade. Não esqueçais que o verdadeiro perdão se reconhece mais pelos atos que pelas palavras.

O homem indulgente não vê os defeitos de outrem, e se os vê, acautela-se de falar deles e de os divulgar. Ao contrário, oculta-os a fim de que apenas sejam conhecidos dele, e, se o maledicente os descobre, ele tem sempre uma escusa pronta para dissimular, uma desculpa admissível, razoável, e não dessas que, em vez de atenuarem as faltas, fazem-na sobressair com insidiosa finura.
De "O perfume do Evangelho",
de Clóvis Ramos