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17 novembro 2011

Visão de Eurípedes - Hilário Silva


VISÃO DE EURÍPEDES

Começara Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo da mediunidade, em Sacramento, MG, observar-se fora do corpo físico, em admirável desdobramento, quando, certa feita, à noite, viu a si próprio em prodigiosa volitação. Subia, subia sempre, amparado por braços intangíveis. Viajou, viajou até que se reconheceu em campina verdejante. Reparava na formosa paisagem, quando, não longe, avistou um homem que meditava, envolvido por doce luz.

Como que magnetizado pelo desconhecido, aproximou-se...

Houve, porém, um momento em que estacou, trêmulo.

Algo lhe dizia no íntimo para que não avançasse mais...

E num deslumbramento de júbilo, reconheceu-se na presença do Cristo.

Baixou a cabeça, esmagado pela honra imprevista e ficou em silêncio, sentindo-se como um intruso, incapaz de voltar ou seguir adiante.

Ofuscado pela grandeza do momento, começou a chorar...

Viu, porém, que Jesus também chorava...

Traspassado de súbito sofrimento, por ver-lhe o pranto, desejou fazer algo que pudesse reconfortar o Amigo Sublime...Afagar-lhe as mãos ou estirar-se à maneira de um cão leal aos seus pés...

Mas estava como que chumbado ao solo estranho...

Recordou, no entanto, os tormentos do Cristo, a se perpetuarem nas criaturas que até hoje, na Terra, lhe atiram incompreensão e sarcasmo...

Nessa linha de pensamento, não se conteve. Abriu a boca e falou, suplicante:

a.. Senhor, por que choras?
O interpelado não respondeu.

Mas desejando certificar-se de que era ouvido, Eurípedes reiterou:

- Choras pelos descrentes do mundo?

Enlevado, o missionário de Sacramento notou que o Cristo lhe correspondia agora ao olhar. E, após um instante de atenção, respondeu em voz dulcíssima:

a.. Não, meu filho, não sofro pelos descrentes aos quais devemos amor. Choro por todos os que conhecem o Evangelho, mas não o praticam...
Eurípedes não saberia descrever o que se passou então. Como se caísse em profunda sombra, ante a dor que a resposta lhe trouxera, desceu, desceu... E acordou no corpo de carne. Era madrugada. Levantou-se e não mais dormiu.

Hilário Silva (CHICO XAVIER)

De "A Vida escreve"
De Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira
Pelo Espírito Hilário Silva

13 setembro 2011

Solução Natural - Hilário Silva


SOLUÇÃO NATURAL

Os espíritos benfeitores já não sabiam como atender à pobre senhora obsidiada.

Perseguidor e perseguida estavam mentalmente associados à maneira de polpa e casca no fruto.

Os amigos desencarnados tentaram afastar o obsessor, induzindo a jovem senhora a esquecê-lo, mas debalde.

Se tropeçava na rua, a moça pensava nele...

Se alfinetava um dedo em serviço, atribuía-lhe o golpe...

Se o marido estivesse irritado, dizia-se vítima do verdugo invisível...

Se a cabeça doía, acusava-o...

Se uma xícara se espatifasse, no trabalho doméstico, imaginava-se atacada por ele...

Se aparecesse leve dificuldade econômica, transformava a prece em crítica ao desencarnado infeliz...

Reconhecendo que a interessada não encontrava libertação, por teimosia, os instrutores espirituais ligaram os dois - a doente e o acompanhante invisível - em laços fluídicos mais profundos, até que ele renasceu dela mesma, por filho necessitado de carinho e de compaixão.

Os benfeitores descansaram.

O obsessor descansou.

A obsidiada descansou.

O esposo dela descansou.

Transformar obsessores em filhos, com a bênção da Providência Divina, para que haja paz nos corações e equilíbrio nos lares, muita vez é a única solução.

Hilário Silva
De "Luz no Lar"

De Francisco Cândido Xavier
Por diversos Espíritos

18 julho 2011

O Preço da Remissão - Hilário Silva


O PREÇO DA REMISSÃO

I

No grande castelo português do século XVII, José Antônio Maria de Alenquer, jovem senhor feudal, chama os três servidores mais íntimos a conselho.

Quer liquidar José Joaquim, o pequeno bastardo, nascido nos últimos tempos da existência do pai viúvo.

Manuel Macário, o mordomo, a esposa e a filha ouvem-no, interessados.

Ganharão pequena fortuna pela cumplicidade.

E José Joaquim, menino de sete anos, que se deslumbra perante a vida, é conduzido pelos quatro a extenso poço lotado de peixes vorazes. E, enquanto a criança fita o bojo das águas, o irmão desapiedado arroja-lhe o corpo frágil no precipício.

Leve rumor.

Um grito abafado. E depois o silêncio.

José Antônio Maria de Alenquer senhoreia enorme herança. E a vida continua ...

II

8 de fevereiro de 1957. Telegrama dos jornais: " A criança foi devorada em vida pelas piranhas!

Em poucos minutos, dela só restava o esqueleto!

Presenciada pelos pais do menor a horripilante cena!

A população da pequena cidade de Monte Alegre, no Baixo Amazonas, ainda não se refez do choque emocional causado pela tragédia que envolveu uma criança de sete anos, devorada em vida e em poucos minutos por um cardume de famintas piranhas e, o que é pior, na presença dos pais e de irmã menor, todos horrorizados.

O menino Adílson, a vítima, filho do pescador Darlan, era uma criança muito estimada pela sua vivacidade e seu temperamento ameno. No dia em que perdeu a vida, de maneira tão brutal, havia sido mandado pelo pai, em companhia de sua irmã Josefina, de onze anos, numa pequena canoa, a fim de levar um recado a um conhecido, na outra margem do rio Gurupatuba, que corre nos fundos da casa do pescador.

Já no meio da travessia, Adílson, a um movimento menos feliz, perdeu o equilíbrio e caiu na água.
Incontinenti, o local onde mergulhou o menor tingiu-se de sangue.

A infortunada criança caíra exatamente num cardume de vorazes piranhas, que em poucos minutos, ou mesmo segundos, a devoraram.

Horrorizados, os pais de Adílson e a irmãzinha do menino assistiram à cena impressionante, sem nada poderem fazer, tal a conhecida rapidez com que age essa espécie de peixe.

Refeito da brutalidade da cena e passado o cardume, o pai de Adílson, como um louco, mergulhou nas profundas águas do rio e de lá voltou trazendo, apenas, um esqueleto, quase totalmente descarnado.

Essa ocorrência deixou chocados a quantos dela tiveram conhecimento."

III

A voracidade das piranhas e o assombro da pequena família foram o preço da remissão da falta cometida...

- FIM -

Do livro "A Vida Escreve"
Pelo Espírito Hilário Silva
Médiuns: Francisco Cândido Xavier, Waldo Vieira

21 março 2011

O Bico de Gás - Hilário Silva


O BICO DE GÁS

Naquela noite Vitalino discutira muito. Acaloradamente.
Opondo-se aos argumentos de dois amigos, combatia a fé. Acreditava somente no que visse. Estudara profundamente a anatomia e precisava apalpar para crer. Necessitava sentir, ouvir, cheirar, analisar...
Por isso mesmo, estava contrariado ao recolher-se.
A esposa demorou-se ainda um tanto em luta pela ordem no apartamento estreito.
Acomodava os filhinhos, atendia aos afazeres da casa.
Mas, mesmo depois que Da. Constância passou a ressonar, Vitalino prosseguia em solilóquio mental.
Não mudaria. Era homem prático. Só renderia à evidência dos fatos. Queria fatos. Mais fatos. Mais fatos para compreender os fatos.
Algo cansado, acabou dormindo.
Dormiu e sonhou que se achava diante de Rosalino, seu velho irmão desencarnado havia muitos anos...

* * *

Rosalino dizia convincente:
- Meu caro, ouvimos-lhe as considerações silenciosas.
Realmente, as provas de sobrevivência, muitas vezes, são difíceis. Mas, essa circunstância, só por só, não lhe autoriza negá-la.
Veja bem.
Existe a fé automática, inconsciente, sem comprovação. É a aceitação dos acontecimentos naturais, sem a ajuda dos sentidos.
Em quanta coisa você confia inteiramente sem proceder a qualquer exame!
Você não examina a competência do motorista, mas viaja no veículo despreocupadamente...
Você não testa a resistência do leito, cada noite, mas deita e dorme tranquilo...
Você não vê os ingredientes que lhe compõem a refeição, mas como sem medo...
Você não experimente a segurança da casa bancária, mas confia-lhe os bens sem titubear...
Por outro lado, inúmeras ocorrências perspassam-lhe na vida sem merecer de sua parte estudo mais acurado.
Você não apalpa o ar, mas respira o oxigênio sem susto...
Você não vê o vírus, mas sofre a gripe...
Você não escuta muitas das ondas sonoras que se entrecruzam à sua volta, mas ouve satisfeito os programas radiofônicos...
Você não mediu o Universo, metro a metro, mas reconhece o infinito da Criação...
Você não morreu ainda, mas aceita a fatalidade do fenômeno da morte...
Igualmente, meu amigo, você diz que não vê e não pega o Mundo Espiritual, mas.....ele....existe...
Acorde para a verdade!
Acorde e viva!
Acorde e viva!

* * *

Como se impulsionado por estranha força, Vitalino despertou no corpo físico.
O ambiente pesava. Fazia-se o ar irrespirável. Algo sucedera de estranho...
Levantou-se estremunhado. Procurou o berço das duas crianças. Ambas desacordadas.
Aflito, abre maquinalmente a janela próxima e faz luz.
Somente aí descobre que a esposa, distraída, deixara aberta a torneira do gás.
A família salvara-se a tempo.
E, passado o perigo, tomou papel e lápis, escreveu todas as considerações que ouvira em sonho, e começou a meditar...

Do livro "A Vida Escreve"
Pelo Espírito Hilário Silva
Médiuns: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira

11 março 2011

Lição Oportuna - Hilário Silva e Valérium

LIÇÃO OPORTUNA

O Dr. Albertino Silvério era conhecido advogado. Homem de invejável cultura. Conhecimento profundo e variado. Em particular, achava-se autoridade em assuntos socioeconômicos.

Era contudo, refratário a qualquer tipo de assistência social.
Não aceitava. Achava inútil.

— Não acredito em beneficência diminuta. Caridade gota a gota não resolve. Prefiro soluções radicais.

— Não é o que penso, Silvério. A caridade, mesmo pequenina, é sempre ajuda a alguém. É este o ensinamento de Jesus.

Quem respondia era o Doutor Fontes, médico espírita e abnegado amigo dos sofredores.

Silvério, no entanto, continuava:

— Um copo de leite, por acaso, banirá do mundo a fome? Um cobertor ou uma veste resolverá, por ventura, a angústia da nudez? Isso é assunto de governos e não serão alguns poucos bem intencionados que irão solucioná-lo.

A conversa prosseguia, quando passa um jovem anunciando o jornal da tarde.

Silvério chama-o. Deseja o jornal. Rebusca o bolso e só encontra dinheiro alto. Não há troco.

Nesse instante, porém, o doutor Fontes, tomando a quantia necessária e pagando o jornal, aproveitou a lição:

— Veja, Silvério, o que a própria vida nos mostra. Ninguém nega o bem inestimável, que os grandes recursos, governamentais ou não, carreiam. Obras imensas. Doações fartas. Entretanto, é preciso convir que há passagens estreitas, que apenas a ajuda humilde e pequena transpõe.

Para a compra do jornal agora o dinheiro de alto valor de que você dispõe só seria útil, se fracionado em valores menores e múltiplos. Assim ocorre também na assistência social. O muito realiza muito
de uma só vez, mas o pouco feito com persistência e amor pode ser, em ocasiões, a única solução disponível para grandes problemas.

Silvério compreendeu o ensinamento e mudo de espanto frente à lógica do amigo, iniciou, silenciosamente, a leitura das notícias.

De “Histórias da Vida”
De Antônio Baduy Filho
Pelos Espíritos Hilário Silva e Valérium

16 novembro 2010

A Riqueza - Hilário Silva

A RIQUEZA

Amélia Kauper, anciã, estava em sua tapera, nos arredores de Chesapeake Bay, no interior de Maryland, quando Craig Poter, um de seus muitos sobrinhos, foi observar-lhe a situação.
- Seu tio James - dizia ela ao parente, referindo-se ao marido desencarnado - desde que se fez médium, num templo espírita, deu aos necessitados tudo quanto pôde. Não deixou dividas, mas, depois do funeral, vim a saber que a nossa própria casa se achava hipotecada e fui constrangida, por isso, a entregar todos os nossos recursos aos credores...
- A senhora está arruinada, tia? - perguntou o moço.
- Estou com a roupa do corpo... - esclareceu a velhinha.
E designando antigo móvel:
- Mas, graças a Deus, tenho o meu tesouro no cofre.
O rapaz, que conhecera os tios nos bons tempos, quando possuíam preciosas reservas no Texas, pensou um minuto e deliberou, de súbito, que a tia o acompanhasse.
No dia imediato, a viúva Kauper, depois de entregar enorme mala ao sobrinho, entrou no jipe, carregando pequeno baú, carinhosamente.
Então, começou para ela uma vida nova.

Craig, que possuía sitio próspero na Virgínia, chamou Edward, seu irmão mais velho, cujas terras confinavam com as dele, trocaram idéias confidencialmente e concluíram que a estreita caixa de lata de que a tia jamais se distanciava deveria conter jóias riquíssimas... E combinaram entre si guardar a anciã, cuidadosamente.
Vieram familiares de longe, disputando a convivência da Sra. Kauper, mas Craig e Edward alegavam que “tia Amélia” estava fatigada, que médicos não lhe permitiam maior esforço...
Habitualmente à noite, um ou o outro espiava a velhinha, pelo buraco da fechadura, e viam-na segurando a vela acesa, a debruçar-se sobre o baú aberto, decerto fitando, através dos óculos, aquilo a que ela chamava “minha riqueza” ou “meu tesouro”. Assim viveu, ainda por mais nove anos, requestada por toda a família e tratada com respeitosa atenção por ambos o sobrinho que a mantinham, interessados...

Quando a morte quebrou semelhante situação conduzindo a viúva Kauper na direção de vida melhor, Craig e Edward trancaram-se no quarto que ela deixara, apossando-se do cobiçado baú; no entanto, ao abri-lo apenas encontraram dentro dele um antigo exemplar do Evangelho e, sobre o ensebado volume, o seguinte bilhete que lhes era dirigido pela tia desencarnada:
- Meus filhos, Deus os recompense pela caridade para comigo, mas tomem cuidado com a vida na Terra...
E com a sua longa experiência do mundo, a velhinha terminava com o versículo número dez capitulo seis da Primeira Epístola do apóstolo para Timóteo:
“... Porque a paixão pelo dinheiro é a raiz de todos os males e, nessa cobiça, alguns desviaram da fé e se traspassaram a si mesmo com muitas dores.”

Do livro "Entre Irmãos de Outras Terras"
Pelo Espírito Hilário Silva,
Médiuns: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira

10 outubro 2010

Não Perdoar - Hilário Silva

NÃO PERDOAR

Bezerra de Menezes, já devotado à Doutrina Espírita, almoçava, certa feita, em casa de Quintino Bocaiúva, o grande republicano, e o assunto era o Espiritismo, pelo qual o distinto jornalista passara a interessar-se.

Em meio da conversa, aproxima-se um serviçal e comunica ao dono da casa:

- Doutor, o rapaz do acidente está aí com um policial.

Quintino, que fora surpreendido no gabinete de trabalho com um tiro de raspão, que, por pouco, não lhe atingiu a cabeça, estava indignado com o servidor que inadvertidamente fizera o disparo.

- Manda-o entrar – ordenou o político.

- Doutor – roga o moço preso, em lágrimas -, perdoe o meu erro! Sou pai de dois filhos...
Compadeça-se! Não tinha qualquer má intenção...
Se o senhor me processar, que será de mim? Sua desculpa me livrará! Prometo não mais brincar com armas de fogo! Mudarei de bairro, não incomodarei o senhor...

O notável político, cioso da própria tranqüilidade, respondeu:

- De modo algum. Mesmo que o seu ato tenha sido de mera imprudência, não ficará sem punição.

Percebendo que Bezerra se sentia mal, vendo-o assim encolerizado, considerou, à guisa de resposta indireta:

- Bezerra, eu não perdôo, definitivamente não perdôo...

Chamado nominalmente à questão, o amigo exclamou desapontado:

- Ah! você não perdoa!

Sentindo-se intimamente desaprovado, Quintino falou, irritado:

- Não perdôo erro. E você acha que estou fora do meu direito?

O Dr. Bezerra cruzou os braços com humildade e respondeu:

- Meu amigo, você tem plenamente o direito de não perdoar, contanto que você não erre...

A observação penetrou Quintino como um raio.

O grande político tomou um lenço, enxugou o suor que lhe caía em bagas, tornou à cor natural, e, após refletir alguns momentos, disse ao policial:

- Solte o homem. O caso está liquidado.

E para o moço que mostrava profundo agradecimento:

- Volte ao serviço hoje mesmo, e ajude na copa.

Em seguida, lançou inteligente olhar para Bezerra, e continuou a conversação no ponto em que haviam ficado.

Pelo Espírito Hilário Silva
Do livro: Almas em Desfile
Médiuns: Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira

23 julho 2010

A Evolução do Comendador - Hilário Silva

A EVOLUÇÃO DO COMENDADOR

Jorge Sales, o denodado orientador da instituição espírita, encontrava-se no habitual entendimento com Anatólio, o mentor desencarnado, através do médium.

As tarefas da noite haviam praticamente chegado ao fim, mas Jorge sentia-se necessitado de instrução e por isso dilatava a palestra, ao pé dos amigos, a constituírem o círculo de oração.

— Os obsidiados crescem de número — dizia Sales, preocupado —, e precisamos antepor providências...

— Sim — concordava o amigo espiritual —, é necessário estender o clima da serenidade e do trabalho, do entendimento e da prece...

E a conversação avançou:

— São lutas morais por toda parte... Jovens mal saídos da infância caem perturbados, de momento para outro... Velhinhos, na derradeira quadra da existência, enlouquecem de súbito... Tem havido suicídios, crimes...

O benfeitor consolava, pelo médium falante:

— Sim, meu amigo, toda paciência é pouca a fim de vencermos com segurança... Saibamos servir a todos, com muita compreensão da fraternidade...

— Tudo indica estarmos aqui sob a influência do velho comendador Antônio Paulo da Silveira Neves, que foi fazendeiro na região e está desencarnado há oitenta anos. Silveira Neves foi homem terrível... Consultei documentos na municipalidade e tenho ouvido pessoas da zona, cujos ascendentes lhe comungaram a intimidade... Possuía escravos em legião e, entre eles, era conhecido por flagelo de todos... Sustentava capatazes ferozes e comandava, ele próprio, o sofrimento dos cativos, que, às vezes eram chicoteados até a morte... Não só isso. Colocava os sitiantes daqui uns contra os outros, provocando assassínios e ódios que até hoje persistem... Estou certo de que essa teia de obsessões e vinganças nasce da atração do velho comendador... Ele deve ser a causa inicial de tudo...

— Muito ponderada a sua palavra...

— O irmão conhece o infeliz?

— Sim, conheço...

— Tenho o máximo interesse em evocá-lo...

— Não acho prudente.

— Ora! São muitos os Espíritos rebeldes evidentemente vinculados a ele... Topo vários, a cada semana... Uns se declaram vítimas do comendador, muitos acusam o comendador e outros ainda prometem que não haverá mudança aqui, enquanto não liquidarem o comendador... Tenho assentado que, apesar de haver transcorrido muito tempo, é indispensável nos disponhamos a doutrinar esse Espírito. Sem esse contacto, ao que julgo, será muito difícil a modificação para melhor, de que estamos necessitados...

— Entendo o que diz — tornou Anatólio —, mas não faça a evocação. Seria de todo inoportuna...

— Mas escute, meu amigo! Eu também pareço sofrer a influência dessa poderosa entidade... As referências ao comendador desabam sobre mim como choques elétricos. Só em ouvir-lhe o nome, sinto-me mal... Imagine que já fui orar por ele, no próprio túmulo em que lhe sepultaram o corpo, tão impressionado vivo eu... Creio que se orássemos, chamando-o ao aparelho mediúnico...

— Mas não convém...

— Insistiria, no entanto... Um entendimento direto, entre esse Espírito perseguidor e nós, talvez desse bom resultado...

— A medida é desaconselhável.

— Será que Silveira Neves desencarnado está em plano superior, embora as atrocidades que cometeu?

— Ainda não... O ex-comendador vive em luta consigo mesmo...

— Então? Trazê-lo ao esclarecimento seria caridade...

— Isso, entretanto não deve ser tentado.

— Meu amigo, por que a recusa, se o Espírito dele está em provas, segundo a sua própria informação?

— Apesar de tudo — replicou o benfeitor —, a evocação não deve ser praticada...

O interlocutor, porém, não obstante respeitoso, perguntou semi-exasperado:

— Mas por quê?

Vendo que o instrutor silenciava, discreto, repetiu:

— Diga! Diga, por quê?!...

Foi aí que Anatólio mudou o tom de voz e falou muito sereno:

— Jorge, meu amigo, a evocação não deve ser feita porque o ex-comendador Antônio Paulo da Silveira Neves é você mesmo... reencarnado.

Pelo Espírito Hilário Silva
Do livro: Almas em Desfile
Médium: Francisco Cândido Xavier

07 novembro 2009

O Livro-Libelo - Hilário Silva

O LIVRO-LIBELO

O distinto causídico não ocultava a ojeriza que experimentava pela Doutrina Espírita. Fosse onde fosse, se a conversa versasse sobre algum tema de Espiritismo, escorregava deliberadamente para o sarcasmo. "Essa história de Espiritismo só num tratado psiquiátrico" - dizia, irônico -, e destilava pequenas difamações como quem debulhava espigas de brasas. Tão azedo adversário se fizera, que aproveitou o largo período de férias, em fazenda silenciosa, para escrever um livro contra os postulados espíritas. Livro-acusação. Livro de ódio. Nos serões caseiros, costumava ler para os amigos esse ou aquele trecho, em que médiuns eram denunciados e apupados de maneira cruel. E riam-se, ele e os companheiros, entre um e outro gole de uísque, salpicando a lama esfogueante em forma de letras.

O distinto advogado assumia as primeiras responsabilidades para enviar o volume à editora, quando sobreveio o inesperado.

Dirigia carro elegante, nas proximidades de um grupo escolar, quando atarantado pequeno, a correr desorientado, lhe cai sob as rodas.

Um passarinho sob um trator não morreria mais depressa.

Tumulto. Autoridades em cena.

Ele mesmo, suportando os impropérios do povo, apanha o cadáver minúsculo e, de coração agoniado, busca a residência da vítima.

Em sã consciência não é culpado, mas tem o coração alanceado de intensa dor.

Chorando copiosamente, entrega o menino morto aos pais em pranto, que o recebem sem a mínima queixa.

O pai acaricia os cabelos da criança, em silêncio, e a mãezinha ora em lágrimas.

Deseja ser humilhado, acusado, ferido. Isso, decerto, lhe diminuiria a tensão. Encontra ali, porém, apenas a resignação e a serenidade.

O advogado consulta então a família sobre a instauração do processo de indenização, mas o chefe da família responde, firme:

- Nada disso. O doutor não teve culpa alguma. Ninguém faria isso por querer... Os desígnios de Deus foram cumpridos...

E a mãe do menino, enxugando o rosto, acrescenta:

- Choramos, como é natural, mas não desejamos indenização alguma. Deus sabe o que faz.

O causídico, de olhos vermelhos, considerou:

- Então...

Mas o dono da casa cortou-lhe a palavra, acentuando:

- Doutor, não se preocupe... Compreendemos perfeitamente que o senhor não tem culpa... o senhor está sofrendo tanto quanto nós... Ore conosco, a fim de acalmar-se...

Admirando-lhes a paciência cristã, o causídico indagou, vacilante:

- Que religião professam?

- Nós somos espíritas - informou o pai da pequena vítima.

O advogado baixou a cabeça e ali permaneceu, sensibilizado e prestimoso, até à realização dos funerais.

E à noite, em casa, de coração opresso e transformado, fechou-se no quarto e rasgou o livro-libelo que havia escrito.

Hilário Silva (Waldo Vieira)

De "A vida escreve",
de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira,
pelo Espírito Hilário Silva