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21 junho 2022

Como é ser espírita, segundo Kardec? - Rita Foelker


COMO É SER ESPÍRITA, SEGUNDO KARDEC?

Fala-se muito em Espiritismo, mas pouco se sabe a seu respeito. J. Herculano Pires

Espiritismo é uma doutrina filosófica, suas bases e princípios se encontram nos cinco volumes da chamada Codificação Espírita, obra resultante do trabalho conjunto de Espíritos Superiores e dos médiuns que transmitiram comunicações reunidas e coligidas por Allan Kardec, tendo ele submetido, tanto as mensagens, quanto as respostas dos Espíritos, ao escrutínio da razão e ao princípio da universalidade dos ensinos dos espíritos.

Como Kardec e os Espíritos realizaram isso?

Os fenômenos mediúnicos haviam se tornado muito populares na França do século XIX, por meio de grupos que provocavam manifestações diversas de efeitos físicos, com fins de entretenimento ou curiosidade. No ano de 1855, Kardec foi convidado por seu amigo, Sr. Carlotti, a comparecer a uma dessas reuniões, sobre a qual ele se mostrou bastante cético, a princípio. Tendo contudo, comparecido e observado os fatos com mentalidade científica, análise lógica e sem preconceitos, Kardec percebeu que ali havia um fenômeno real, o qual passou a estudar mais amiúde.

Enquanto outros participantes dirigiam aos Espíritos perguntas fúteis e visavam a diversão, Kardec elaborou questões sérias, para as quais começou a receber respostas coerentes e profundas, que iriam constituir a origem dos livros que ele publicou, entre 1857 e 1868, cujo conteúdo reúne os conceitos espíritas fundamentais.

Ele também escreveu logo na Introdução a O Livro dos Espíritos que:

“Para designar coisas novas são necessárias palavras novas; assim exige a clareza de uma língua, para evitar a confusão que ocorre quando uma palavra tem múltiplo sentido. As palavras espiritual, espiritualista, espiritualismo têm um significado bem definido, e acrescentar-lhes uma nova significação para aplicá-las à Doutrina dos Espíritos seria multiplicar os casos já tão numerosos de palavras com duplo sentido. […] Diremos que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo tem por princípio a relação do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo espiritual. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas ou, se quiserem, os espiritistas.

Ambos os termos – ‘Espiritismo’ (substantivo, doutrina codificada por Allan Kardec) e ‘espírita’ (substantivo e adjetivo que relacionam pessoas, locais, fatos, objetos e ideias ao Espiritismo) – foram explicitamente vinculados nesse trecho à Doutrina Espírita que é específica, com princípios e conceitos nela claramente definidos, como Deus, espírito, matéria, reencarnação, evolução, mediunidade, entre outros. E aos seus adeptos.

Mas fora dos centros e grupos de estudos esclarecidos a esse respeito, existe muita confusão.

Na internet, onde nos habituamos a lançar nossas pesquisas sobre os mais diversos assuntos, no site Guia do Estudante, por exemplo, o Espiritismo é considerado uma religião brasileira das massas, muito influenciada por Chico Xavier…

A Wikipédia também não colabora, dizendo que é uma doutrina espiritualista, que pretende explicar a reencarnação e a evolução.

Outros usos comuns das mesmas palavras

Culturalmente, longe de sua conotação nos livros de Kardec, observamos o uso do termo ‘espírita’ para referir-se a cartomantes e benzedores, por sua aproximação com o contexto da mediunidade. Mas a atividade não se baseia necessariamente em conhecimento profundo (ou sequer raso) do Espiritismo segundo Kardec e, sim, no fato da pessoa ser (suposta ou verdadeiramente) médium ou sensitiva. No senso comum, se envolve algum tipo de mediunidade, clarividência ou relação com o mundo espiritual, é “espiritismo”.

Nesse ponto, cabe uma distinção importante:

1. Espiritismo, na definição de Kardec, é filosofia ou doutrina filosófica de conteúdo definido.

2. Mediunidade, por sua vez, é um dos termos amplamente abordados na Codificação e na Revista Espírita. Mas trata-se de uma faculdade humana, como a visão ou a inteligência, pertencente ao campo da sensibilidade e comunicação, presente em todos os encarnados em diferentes graus e tipos de manifestações. Nos livros de Kardec, aqueles que produzem efeitos ostensivos, de certa intensidade, são chamados de médiuns propriamente ditos, podendo ser ou não espíritas e, até mesmo, nunca ter ouvido falar em Espiritismo.

Portanto, ‘espírita’ e ‘mediúnico’ não são sinônimos.

Outras vezes, encontramos instituições religiosas que se autodenominam “espíritas” e, neste caso, a palavra ‘espírita’ significa que são realizadas atividades que pressupõem auxílio espiritual ou presença de Espíritos, por meio da prática mediúnica (faculdade humana inata) ou de aplicação do passe.

Assim como a mediunidade, o passe é atividade sem relação obrigatória com a doutrina codificada por Allan Kardec. O passe é uma prática milenar e Jesus a utilizava, assim como estudiosos e adeptos do Magnetismo Animal, muito antes de Kardec.

Por outro lado, os princípios e conceitos pertencentes à Filosofia Espírita, relacionados entre si pelo entendimento, vão além dessas práticas, porque estruturam toda uma visão de mundo com bases científicas e consequências morais, a qual precisa ser aprofundada pelo estudo e meditação, além de bem compreendida. Kardec escreveu, logo no início do capítulo III de O Livro dos Médiuns: “o Espiritismo é toda uma Ciência, toda uma Filosofia. Quem desejar conhecê-lo seriamente deve, pois, como primeira condição, submeter-se a um estudo sério e persuadir-se de que, mais do que qualquer outra ciência, não se pode aprendê-lo brincando”.

Essa compreensão é ainda mais relevante, quando pensamos na tarefa da divulgação espírita. Como divulgar consiste em levar a Doutrina a quem não a conhece, é de suma importância esclarecer bem seus conceitos originais, a fim de que aquele que se inicia agora nesse conhecimento possa penetrar de fato nas suas consequências existenciais e morais. Rita Foelker – Filósofa, palestrante e jornalista. Escritora reconhecida nos temas: espiritualidade, inteligência emocional e educação, publica livros desde 1992. Faz palestras no Brasil e no exterior. Formação em Pedagogia Sistêmica com a Educação, pelo Instituto Hellen Vieira da Fonseca. https://vidasinteligentes.com/

04 janeiro 2022

O Mecanismo Secreto da Evolução Espiritual - Rita Foelker

 

O MECANISMO SECRETO DA EVOLUÇÃO ESPIRITUAL


Até que ponto sabemos escolher com base no conhecimento que possuímos?

Já há muitos séculos os seres humanos pensam sobra a responsabilidade espiritual, encontrando diversas explicações sobre como suas ações geram consequências boas ou ruins para si mesmos. Espiritas, falam em lei de ação e reação. No entanto, até que ponto essa lei é bem compreendida? Até que ponto sabemos escolher com base no conhecimento que já possuímos?

Emoções e pensamentos definem o modo como vivemos. Diariamente, criamos nosso céu e inferno pessoais. E a cada minuto a vida responde conforme nossos padrões mentais e nossas atitudes.

As consequências de nossas atos têm sido entendidas e ensinadas por religiões e filosofias, durante séculos. E, para os que acreditam nas leis da vida espiritual e buscam estudá-las, a tentativa de compreensão do que acontece a partir do comportamento tornou-se um dos principais elementos a influenciar as escolhas.

Aprendemos a chamar essa correspondência, entre atos e resultados, de “lei de causa e efeito” ou de “lei de ação e reação”. Contudo, nem sempre é suficientemente claro, o que se pretende dizer com essas expressões. Seria o sofrimento, o resultado de nossos atos contrários à lei de Deus? Podemos melhorar nossa vida melhorando nossa forma de pensar, sentir, escolher e agir?

PRÊMIOS E CASTIGOS

Conduta moral é o conjunto das atitudes que revelam o caráter de cada pessoa, sua forma habitual de agir segundo as virtudes já conquistadas. A igreja católica exerceu uma forte influência no pensamento ocidental sobre como os efeitos da conduta moral influenciam a vida futura. A matemática era simples: cumprir os preceitos religiosos e evitar o pecado levariam a criatura para o Céu, depois de única existência. Ignorar essas coisas redundaria numa eternidade de sofrimento atrozes e irremediáveis, a conhecida vida no Inferno. A sorte de cada criatura estaria lançada a partir do momento em que sua alma deixasse este mundo em busca do próximo, em locais específicos de felicidade ou sofrimento: o “Céu” e o “Inferno”.

Sobre a localização das penas e alegrias depois desta vida, a questão 1011 de O Livro dos Espíritos deixa claro que não há, no mundo espiritual, lugares circunscritos para a permanência dos Espíritos felizes ou em sofrimento. “As penas e os gozos são inerentes ao grau de perfeição dos Espíritos. Cada um traz em si mesmo o princípio de sua própria felicidade ou de infelicidade. E como eles estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado se destina a uns e a outros”.

Os Espíritos afins, em razão de seus gostos, simpatias, pensamentos habituais, emoções predominantes e interesses comuns, reúnem-se em grupos e podem permanecer ligados entre si, mas não é necessário que haja um lugar próprio para tal. Contudo, muito tempo atrás, sacerdotes desenharam em nossa imaginação visões da imortalidade para os bons e os maus, de maneira a incentivar comportamentos virtuosos ou, pelo menos, aprovados pela instituição religiosa a qual pertenciam. É claro que muitos se aproveitaram de nossa ingenuidade, tirando partido de nossos temores para atender aos próprios interesses. Mas ficou muito marcada, para nós, a ideia de que vamos receber o prêmio ou o castigo depois, no “além”, ao se encerrar esta existência. E muitos espíritas conservaram essa noção equivocada.

Já para os problemas durante a vida, o remédio indicado pelos sacerdotes era o da tolerância, para suportá-los com o mínimo de reclamação e o máximo de resignação “santificante”, com vistas ao porvir de venturas celestiais.

ALEGRIA E SOFRIMENTO NA VIDA PRESENTE

Para outras doutrinas, contudo, o sofrimento presente é entendido como resultado de ações em vidas passadas. No Oriente, as crenças na reencarnação e no carma conduzem à noção, bastante difundida entre aquele povo, de que aquilo que fizemos no passado de múltiplas reencarnações reverte em situações vividas presentemente.

Tal perspectiva oferece-lhes uma possibilidade de compreensão e aceitação da condição pessoal e social em que cada um se encontra, por mais difícil que possa ser. A resignação é uma atitude importante perante situações sobre as quais não se tem possibilidade de ação, mas é preciso perceber que em muitos casos há o que fazer para colocar-se em melhor condição física, emocional e espiritual. Essas ideias chegaram ao Ocidente, em grande parte, com a divulgação da obra de Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, em Nova York, no ano de 1875.

O Espiritismo, no que se refere aos espíritos, informa que ele são mais ou menos felizes, conforme o mundo que habitam seja mais ou menos adiantado. E a classe do mundo onde vão encarnar está de acordo com o grau de evolução que já atingiram e a necessidade de aprendizado naquela fase específica de seu progresso. A Terra é classificada, entre as categorias de mundos habitados, como um planeta de provas e expiações, de acordo com O Evangelho Segundo o Espiritismo: “A Terra nos oferece, pois, um dos tipos de mundos expiatórios, em que as variedades são infinitas, mas têm por caráter comum servirem de lugar de exílio para os espíritos rebeldes à lei de Deus. Nesses mundos, os espíritos exilados têm de lutar, ao mesmo tempo, contra a perversidade dos homens e a inclemência da natureza, trabalho duplamente penoso, que desenvolve a uma só vez as qualidades do coração e as da inteligência”.

Além das características planetárias, que participam da configuração das condições da encarnação, existem aspectos relativos à especificidade do organismo (estado de saúde ou doenças congênitas), do grupo familiar, e da condição sócio-econômica em que o Espírito irá reencarnar, e tudo isso atende ao aprendizado espiritual das virtudes que buscará desenvolver.

O capítulo VII de O Livro dos Espíritos dia que o Espírito prestes a retomar a vida física possui consciência mais ou menos nítida de que está chegando o momento da reencarnação, embora muitos deles nem compreendam o que lhes sucederá. Explica também que ele pode abreviar o tempo de espera pelo retorno ao plano físico, ou mesmo retardá-lo, mas não indefinidamente. O Espírito que se unirá a um determinado corpo já está designado com antecedência, e o corpo sempre corresponde ao tipos de provas que a que deseja se submeter. Há casos em que ele mesmo pode, escolher em qual corpo irá reencarnar, embora esta escolha nem sempre dependa dele.

Estes poucos esclarecimentos sobre a volta do Espírito à vida corporal nos oferece uma evidência interessante: de que não existe determinismo na encarnação.

NÃO HÁ DETERMINISMO NO EFEITO

A ideia de uma aplicação automática da lei de ação e reação, nos moldes da “pena de talião” – “olho por olho, dente por dente” – deixa conosco uma impressão de que, como diz o adágio popular, “aqui se faz, aqui se paga”. Como se fosse um sistema de troca entre o indivíduo e a lei natural – que cobra pelo que aquele fez contra ela.

Esta visão é reforçada por muitos romances onde se explora a correspondência entre as múltiplas existências de um mesmo Espírito, de modo a vincular as ações infelizes em uma vida com o sofrimento na vida posterior. Embora seja um recurso literário interessante, a correlação entre fatos de uma e de outra vida não pode ser encarada de forma tão simplista. Tal concepção não poderia conviver com a Justiça Divina, que é perfeita, e leva em conta a melhoria de sentimentos, o arrependimento, e que também considera as mínimas atitudes favoráveis ao equilíbrio íntimo e à pacificação das relações com o próximo.

Nunca se pode afirmar, portanto, que sofremos exatamente aquilo que fizemos sofrer, de maneira automática. Porque a Leia de Justiça é também de Amor e Caridade e respeita as condições do espírito em evolução para melhor oferecer recursos para seu aprendizado.

Não há automatismo da lei de ação e reação, pois mudanças morais no Espírito podem alterar a intensidade ou mesmo a qualidade da “reação”, em virtude das mudanças interiores que cada um de nós pode realizar, a qualquer momento, com o poder da vontade.


O PORQUÊ DO SOFRIMENTO

O ajuste impecável entre nossas atitudes e suas consequências é fruto da perfeição da justiça divina, mas isso não trata necessariamente de punição ou recompensa (embora se possa pensar que os bons efeitos de boas escolhas seriam os nossas prêmios, e vice-versa).

No item 5 do capítulo V de O Céu e o Inferno, Allan Kardec escreveu: “Sendo o sofrimento inerente à imperfeição, sofre-se por tanto tempo quanto se for imperfeito, como se sofre de uma doença por tanto tempo quanto não se consegue extinguir as suas causas. É assim que um homem orgulhoso sofrerá as consequências do orgulho, da mesma maneira que um egoísta as do egoísmo”.
Fica nítida a noção de que sofremos, em razão de como somos, e não em razão daquilo que fizemos. E quando mudamos nosso modo de pensar, sentir e agir, conseguimos minorar o sofrimento, embora ainda continuemos sofrendo os efeitos de causas que deflagramos.

Este alívio ocorre, muitas vezes, imediatamente! Por exemplo. Em muitos casos de enfermidades físicas, o maior estresse está relacionado à revolta, ao derrotismo, à inconformação, do que aos sintomas experimentados. Se mudarmos a maneira de pensar e sentir sobre a doença e seu papel no nosso desenvolvimento espiritual, não só sofremos menos como podemos ativar potenciais de cura pela ação do pensamento sobre os fluidos e a matéria.

É comum, pensar-se unicamente em termos de futuro, como se o período da encarnação fosse um tempo de semeadura e tivéssemos de aguardar no post-mortem a colheita dos frutos. Contudo, se hoje sabemos que nossas condições atuais de vida resultaram de escolhas feitas no mundo espiritual, antes da presente encarnação, ou de causas originadas em encarnações anteriores, o fato é que a maioria delas nasceu de deliberações mais recentes, desta própria vida. São estas que, com frequência, ocasionam prazer ou sofrimento, como explica O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítuloV. Kardec lhes dá o nome de causas atuais das aflições e, se estamos causando aflições para a nossa vida atual, significa que, igualmente, podemos aprender atitudes que nos proporcionem bem-estar a partir de agora, rompendo, em definitivo, com as ideias aprendidas em outras doutrinas, de que o céu e o inferno estão além desta vida, num outro tempo e lugar.

Não exite “lá” ou “aqui” para a lei de ação e reação. Podemos, agora, estar convivendo com o resultado de decisões tomadas em outras vidas ou no mundo espiritual, ou podemos estar gerando, também neste instante, uma situação que terá efeitos em poucos minutos. Por exemplo: talvez estando num lugar público enquanto lê esta revista, alguém se sente ao seu lado e queira conversar. Talvez, esta mesma pessoa venha trazer-lhe a resposta para uma questão que o(a) vem atormentando durante muito tempo, gerando contentamento.

Podemos tomar atitudes que começam a gerar resultados no mesmo instante em que as tomamos, e que perdurem enquanto nelas perseveramos, deixando de existir somente quando mudarmos interiormente.

Causas e efeitos de nossos atos estão em toda parte, porque elas não dependem de se estar encarnado ou desencarnado. Como encarnados, não apenas permanecemos livres para escolher novos rumos como, também, as nossas decisões começam a fazer efeito na existência atual – rapidamente, no campo emocional e mental, embora materialmente possam se concretizar mais tarde.

Responsabilidade cresce com o entendimento espiritual e implica em responder por tudo o que for manifestação da vontade do Espírito, por tudo o que ele decide com razoável consciência dos resultados, seja sob a forma de pensamentos, atos ou sentimentos.

Dessa forma, a dor e o sofrimento ganham outra dimensão. Observamos que não somos seres passivos perante eles, podendo realizar modificações em nossas formas de pensar e de lidar com as situações que redundarão numa vida com mais qualidade em muitos sentidos.

Rita Foelker*
Fonte:
Portal Casa Espírita Nova Era
*Rita Foelker é escritora com mais de 40 livros publicados, entre infantis e adultos, mediúnicos e próprios.

31 dezembro 2019

Saber ajudar - Rita Foelker



SABER AJUDAR


Ver crianças passando por necessidades, seja em fotos do Afeganistão ou sob a marquise de um prédio a três quarteirões de casa, é sempre triste. E é quando nos perguntamos: o que se pode realmente fazer, enquanto cidadão e enquanto espírita?

São muitas as ações espíritas voltadas à infância e à juventude sem recursos, moradora das sub-habitações urbanas, subnutrida, sem escola e sem família estruturada, grande parte já trilhando os caminhos tortuosos da delinqüência.

Mas um fato observável, sobretudo nos grandes centros, é que o tipo de trabalho social comumente desenvolvido pelas entidades supre apenas necessidades imediatas e cria uma dependência viciosa das famílias com respeito às doações. Centros espíritas se estabeleceram, há vinte ou trinta anos, próximos à favela, e a favela só faz crescer!! Doa-se roupa, comida e material de construção, mas a pobreza nunca deixa de existir.

E as crianças nascem e crescem neste ambiente, também vão à casa espírita para receber. Mesmo as que nunca comparecem à "Evangelização" surgem do nada, quando é Páscoa ou Dia da Criança, esperando ganhar... "O que é que a gente vai ganhar?" – perguntam. Isto significa que nosso modelo vem fazendo mais estragos do que se supunha, já está passando de pai para filho.

E este seria o momento de nós nos perguntarmos como espíritas: o que é que estamos fazendo? Para que estamos trabalhando? Como estamos educando?

Não basta ajudar. É preciso saber ajudar.

Primeiro, conscientizar-se de que não há vítimas ou coitadinhos neste mundo. Todos vivemos um processo evolutivo e buscamos condições de aprimoramento espiritual. Socialmente, a vida nos coloca em várias posições, dependendo da lição que devemos aprender, mas todos estamos aqui para aprendê-la.

Os pobres não são vítimas da injustiça social, porque não existe injustiça social, mas necessidade e merecimento individuais. Será que recebemos estas criaturas na casa como Espíritos em processos difíceis de aprendizagem? Ou como criaturas "carentes", incapazes de melhorar de vida e saírem da miséria, a quem oferecemos doações por tempo indeterminado? Até que ponto se trabalha para que eles, muito embora necessitem de donativos em situações emergenciais, passem a prover seu próprio sustento, assim que estejam devidamente capacitados ou empregados?

A esmola que muitas vezes se dá e que se chama de caridade, ou humilha, ou cria "sem-vergonhas". E as crianças, mesmo as menores, já estão vivendo esta realidade, enquanto a casa espírita trabalha em prol de gerações de dependentes, e o mundo não se torna nem um pouco melhor com isto.

É claro que os pequenos trazem carências mais sutis, ligadas à ausência de estímulos, de vínculos afetivos firmes e de atenção emocional, que não podem ser desprezadas nem resolvidas com café com leite e que pedem ações imediatas.

Não, não tenho soluções. Quanto aos adultos, entendo que a casa espírita deveria ocupar-se daqueles que realmente desejam progredir, que se integram a algum tipo de treinamento profissional, que querem melhorar de vida, ou que buscam um conforto espiritual e o conhecimento das leis da vida, para se reerguerem.

Para todos os outros, as portas da instituição permanecem abertas, assim que decidirem investir no próprio aprimoramento.

Às crianças, que se ofereçam oportunidades e afeto verdadeiro, atenção individualizada na medida do possível, mas deixando claro que, por mais que as amemos, não cuidaremos delas pelo resto de suas vidas, assim como não fazemos com os nossos próprios filhos. Cuidado com promessas que não poderão ser cumpridas. Precisaremos oferecer-lhes condições de desenvolver a auto-estima e a auto-responsabilidade, sem responsabilizar pais ou sociedade pelo que quer que lhes venha a acontecer de desagradável, no futuro, mas a si mesmas já que contam com seu livre-arbítrio. Poderemos ajudá-las a desenvolver o amor ao trabalho, o desejo de aprender, ensiná-las a estabelecer objetivos de vida e a buscá-los.

Muitas pessoas, que implantam obras sociais ou que se inscrevem como voluntárias da assistência, fazem o melhor que sabem, acreditam fazer o bem. Mas é preciso verificar se este é um bem real ou ilusório, se está melhorando de fato a vida das pessoas assistidas e ajudando-as a progredir ou a permanecerem estacionadas no comodismo.


Rita Foelker

23 março 2019

Dependência psicológica da ajuda dos espíritos - Rita Foelker



DEPENDÊNCIA PSICOLÓGICA DA AJUDA DOS ESPÍRITOS


O espiritismo desencoraja formalismos e automatismos. Nenhum ritual mecanizado, nenhuma repetição de gestos e palavras pode substituir a energia da vontade e do sentimento. Como fé esclarecida por princípios racionais, o espiritismo solicita de seus adeptos reflexão em seus atos e compreensão da natureza das forças que agem além da matéria.

Muitos de nós, contudo, ainda precisamos de muletas psicológicas. Precisamos de noções e atos simples, freqüentemente automáticos, que nos dêem a sensação de estarmos amparados, ainda que não se sustentem perante uma análise mais aprofundada de seus mecanismos.

Refiro-me a práticas comuns como anotar os nomes das pessoas conhecidas no caderno de vibrações da casa. Ou receber o passe, obrigatoriamente, toda vez que se vai ao centro espírita, independente observarmos se estamos realmente necessitados ou não. Ou tomar a água fluida sempre que se chega ou que se sai, sentindo como se algo estivesse faltando quando não o fazemos.

Uma das coisas que sempre me chamou a atenção em Calunga , meu querido amigo espiritual, é sua constante orientação para que abandonemos esse tipo de atitude.

Com muita razão, ele pede para sermos responsáveis por nossos pensamentos, sentimentos e ações, pois quando, por exemplo, pegamos o caderno de vibrações e relacionamos os nomes de nossos familiares, amigos, vizinhos ou conhecidos, muitas vezes não sabemos se o caso de cada uma dessas pessoas necessita de um atendimento espiritual específico. Fazemo-lo por hábito, simplesmente.

Pensando melhor: será que já buscamos dialogar com cada um, ver se nós podemos ser úteis de alguma forma ao auxílio daquela criatura? Ou simplesmente delegamos a tarefa aos amigos espirituais e nos sentimos livres do encargo e, simultaneamente, com a consciência tranqüila por termos feito "algo"?

O passe é um recurso oferecido por todos os grupos espíritas de forma ampla e generosa. Mas não é por isso que precisamos abusar deste recurso. Antes de entrar na fila do passe como sempre, perguntemos a nós mesmos: sentimos que precisamos receber aquele tipo de ajuda naquele momento?

Será que já pensamos que além de receber o auxílio, é importante comparecer à casa espírita igualmente para doar algo de nós mesmos, sejam bons pensamentos, preces, amizade, companheirismo ou algumas horas de colaboração na manutenção do prédio, por exemplo?

Certamente, o Pai conhece nossas necessidades, bem como nosso carinho por aquelas pessoas de nosso círculo de relações que entendemos estar em sofrimento. Creio que isto seja levado em conta em cada caso particular. Entendo que nossas preces sinceras, todas elas, recebem um tipo de atendimento, não segundo nossos pedidos e inquietações, mas segundo a sabedoria presente nas leis divinas que governam nossos destinos.

Contudo, isso não nos exime do dever de amadurecer, de agir com consciência ao escrever um nome, ao fazer um pedido por qualquer pessoa ou ao sentarmo-nos para receber os eflúvios do passe.

Quanto às muletas psicológicas, se ainda precisamos, talvez já seja tempo de abandoná-las. Lembremo-nos da orientação do Mestre ao paciente recém-curado: "Levanta-te, toma o teu leito e anda" (Jo 5, 8).

Quando nos sentimos mais fortalecidos, tanto pela amorosa receptividade dos responsáveis pelo atendimento fraterno, quanto pelas energias do passe e pelas leituras e palestras que ouvimos, é o momento de pensar em abandonar hábitos antigos e caminhar com nossas próprias pernas.


Rita Foelker


11 março 2019

Deus não pune e nem premia - Rita Foelker



DEUS NÃO PUNE E NEM PREMIA


É uma lei da vida social que a gente se junta em grupos por afinidades. Isso expressa uma lei espiritual, que nos aproxima de espíritos como nós, porque é assim que aprendemos sobre nós mesmos (autoconhecimento) e sobre aquela experiência compartilhada. É assim que confirmamos nossa presença naquela sintonia de pensamento e emoção ou, então, somos incentivados à mudança.

Conforme as coisas vão acontecendo e gerando consequências, contudo, tem pessoas – especialmente aquelas ligadas à religião -, que costumam enxergar causas e consequências como prêmios divinos ou castigos por condutas que Deus aprova ou não. A crença por trás disso é de que condutas e consequências têm valores absolutos, são boas ou ruins, de sorte ou infortúnio. É como se Deus fosse uma pessoa tomando conta de suas vidas. Quando algo desagradável ocorre, elas mentalmente associam isso a algo que creem ter feito errado e atribuem a ocorrência ao Criador.

Mas não é assim que acontece. Se Deus nos deu liberdade, não tem cabimento que ele nos castigue por usá-la.

Pense: você só vai à oficina mecânica quando o carro quebra. O mecânico abre o capô e vai descobrindo que, além da peça que provoca o problema, há muitas outras, desgastadas, ressecadas, precisando trocar e faz um orçamento. Você, então, reclama: “Toda vez que eu venho à oficina, acabo gastando um valor absurdo! Que falta de sorte!!” Mas se conhecesse melhor o seu carro, adotaria procedimentos que evitariam a situação que seu próprio comportamento e inconsciência criaram. Não é culpa da sorte ou de Deus. Nem é um castigo. É uma consequência de uma forma de agir sem consciência.

Com o funcionamento das leis do Universo, é a mesma coisa: o hábito de ver punição em eventos desagradáveis e recompensas em situações felizes provém da incompreensão dos mecanismos de evolução dos seres. Se compreendêssemos melhor, saberíamos que nós mesmos criamos ou atraímos aquela consequência, pelo nosso modo de pensar e agir.

De fato, somos aprendizes. Agimos com o discernimento possível em nosso estágio evolutivo e estado de consciência. Podemos nos equivocar na escolha, mas aquilo que acontece devido ao nosso ato não é uma punição. Na dinâmica da existência, entram em cena o conhecimento e a habilidade, a forma como vemos a vida, como decidimos encarar cada acontecimento e também a forma como reagimos a cada situação. Não há algo apenas bom ou ruim. Isso fica bem claro numa lenda sufi sobre o cavalo do fazendeiro chinês, que eu convido você a ler pelo link.

Enfrentar obstáculos e crises, ficar diante de nossas próprias fragilidades, é uma providência natural de um Universo que promove o progresso dos seres. Quando algo o desafia, esse desafio traz uma mensagem e um ensinamento. Como diz Calunga, “vida é subida”.


Rita Foelker


09 outubro 2017

Desfazendo confusões a respeito do "carma" - Rita Foelker



DESFAZENDO CONFUSÕES A RESPEITO DO "CARMA"

"Carma" é um termo muito usado e muito pouco compreendido. A palavra carma não pertence propriamente à terminologia da Doutrina Espírita. Sua origem é o sânscrito, um antigo idioma da Índia.

Nas filosofias hindus, carma é definido como conjunto das ações de uma pessoa e suas conseqüências.

Alguns companheiros espiritualistas e espíritas importaram este termo vindo de tão longe e passaram a utilizá-lo. No meio espírita, por exemplo, ele viria substituir a expressão "conseqüências da lei de causa e efeito".

Mas de maneira geral, o carma só é entendido em seu aspecto negativo, o que é um grande equívoco.

Conforme podemos observar na definição acima, o carma não se restringe às conseqüências negativas de nossas ações, porém ao conjunto de nossas ações (positivas e negativas) e suas conseqüências (positivas e negativas).

Uma segunda confusão envolve o emprego desta palavra. É quando se diz que tudo o que acontece a uma determinada pessoa é devido ao "carma".

Isto é um engano, nem tudo o que se passa conosco neste planeta é fruto do cumprimento da lei de causa e efeito, e nem tudo é fatídico e imutável como geralmente se pensa.

Que nos diz o Espiritismo a este respeito? Dentro da concepção espírita de vida, podemos afirmar que as condições atuais de nossa existência na Terra são definidas basicamente por três fatores:

1- A escolha, pelo próprio Espírito, antes de encarnar, do corpo ao qual se unirá e do estilo de vida que terá aqui na Terra, a qual incluiu elementos que definem, de forma bastante genérica as provas que vai enfrentar (O LIVRO DOS ESPÍRITOS, Questões 334 e 335). Esta escolha poderá ser mais ou menos condicionada pela necessidade de reparação de suas faltas havendo, inclusive, certos casos em que a encarnação num determinado corpo poderá ser imposta por Deus (idem. Questão 337);

2- As escolhas feitas na existência atual e seus desdobramentos (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, Cap. V, Itens 4 e 5);

3- Os resultados de nossas ações do passado remoto, em cumprimento da lei de causa e efeito, fazendo com que colhamos, agora, frutos do amor ou do egoísmo plantados em outra encarnação (O LIVRO DOS ESPÍRITOS. Questão 921; O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO. Cap. V, Itens 6 e seguintes).

O determinismo dos acontecimentos, portanto, não existe de maneira absoluta. Ele existe, devemos admitir, nas escolhas de que falamos no item 1, quando se trata de provas de natureza física (ex.: grupo familiar, enfermidades congênitas).

Quanto às provas morais, o Espírito conserva o livro-arbítrio, sendo possível ceder ou resistir às tentações e, mesmo, modificar no presente resoluções tomadas no Mundo Espiritual, antes de encarnar.

Em relação ao item 3, aos fatos que resultam de coisas que fizemos por ato de livre vontade, não há como fugir de suas conseqüências, sejam boas ou ruins. Mesmo que a nossa vontade nos desvie momentaneamente, cedo ou tarde, nossa própria consciência nos levará a responder por eles.

A fatalidade, neste caso, existe somente quanto à responsabilidade em si, à qual não pode o homem subtrair-se de modo algum, mesmo que séculos e distâncias o separem do ato causador. Mas não há fatalidade quanto à ocasião, nem quanto ao modo como se efetuará a reparação do mal a que se deu causa.

Por: Rita Foelker

08 agosto 2017

A Importância dos Fenômenos Espíritas - Rita Foelker



A IMPORTÂNCIA DOS FENÔMENOS ESPÍRITAS



Os fenômenos espíritas constituem uma parte importante do estudo e da pesquisa do Espiritismo. Eles representam a possibilidade de comprovação dos princípios da Doutrina.

A reencarnação, por exemplo, é revelada pelas lembranças de vidas passadas e por aqueles talentos da alma que não foram adquiridos na presente encarnação.

A imortalidade e a evolução podem ser melhor observadas e compreendidas através da mediunidade.

A ação dos fluidos está presente na telepatia e nas curas, à distância ou pela imposição de mãos.

Mas Kardec deixa muito claro que, acima de tudo isto, é a filosofia que se depreende do estudo destes fenômenos que deveria nos interessar. Que eles são uma espécie de "porta de entrada" para pesquisas e reflexões mais profundas e conseqüentes.

É natural que muitas pessoas sejam despertadas para o estudo da realidade espiritual pelos fatos que não conseguem explicar, como efeitos físicos, psicografia, vidências, dejà vu, conhecimento de um assunto ou arte sem nenhuma dedicação prévia nesta existência, e tantos outros.

Porém, com o tempo e as reflexões, emergem conceitos e idéias que oferecem as verdadeiras explicações para eles e, também, para muitas outras indagações que os seres humanos de todas as épocas fizeram a si mesmos: quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Após o compreensível espanto e o deslumbramento do primeiro impacto, aquele que presencia um fenômeno assim, pode ter dois tipos de comportamento. Pode guardar o assunto numa pasta da memória, onde ele ficará à espera de outras situações que o despertem. Ou pode dar um outro passo intelectual: estudar, pesquisar, investigar as verdadeiras causas por trás da realidade visível, que o conduzirão ao conhecimento mais completo de si mesmo e do Universo onde vive.

Rita Foelker
Fonte: Jornal do Cem - Ano VIII
Edição nº.8 - Janeiro de 2005

25 março 2017

Desfazendo confusões a respeito do "carma" - Rita Foelker



DESFAZENDO CONFUSÕES A RESPEITO DO "CARMA"


"Carma" é um termo muito usado e muito pouco compreendido. A palavra carma não pertence propriamente à terminologia da Doutrina Espírita. Sua origem é o sânscrito, um antigo idioma da Índia.

Nas filosofias hindus, carma é definido como conjunto das ações de uma pessoa e suas conseqüências.

Alguns companheiros espiritualistas e espíritas importaram este termo vindo de tão longe e passaram a utilizá-lo. No meio espírita, por exemplo, ele viria substituir a expressão "conseqüências da lei de causa e efeito".

Mas de maneira geral, o carma só é entendido em seu aspecto negativo, o que é um grande equívoco.

Conforme podemos observar na definição acima, o carma não se restringe às conseqüências negativas de nossas ações, porém ao conjunto de nossas ações (positivas e negativas) e suas conseqüências (positivas e negativas).

Uma segunda confusão envolve o emprego desta palavra. É quando se diz que tudo o que acontece a uma determinada pessoa é devido ao "carma".

Isto é um engano, nem tudo o que se passa conosco neste planeta é fruto do cumprimento da lei de causa e efeito, e nem tudo é fatídico e imutável como geralmente se pensa.

Que nos diz o Espiritismo a este respeito? Dentro da concepção espírita de vida, podemos afirmar que as condições atuais de nossa existência na Terra são definidas basicamente por três fatores:

1- A escolha, pelo próprio Espírito, antes de encarnar, do corpo ao qual se unirá e do estilo de vida que terá aqui na Terra, a qual incluiu elementos que definem, de forma bastante genérica as provas que vai enfrentar (O LIVRO DOS ESPÍRITOS, Questões 334 e 335). Esta escolha poderá ser mais ou menos condicionada pela necessidade de reparação de suas faltas havendo, inclusive, certos casos em que a encarnação num determinado corpo poderá ser imposta por Deus (idem. Questão 337);

2- As escolhas feitas na existência atual e seus desdobramentos (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, Cap. V, Itens 4 e 5);

3- Os resultados de nossas ações do passado remoto, em cumprimento da lei de causa e efeito, fazendo com que colhamos, agora, frutos do amor ou do egoísmo plantados em outra encarnação (O LIVRO DOS ESPÍRITOS. Questão 921; O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO. Cap. V, Itens 6 e seguintes).

O determinismo dos acontecimentos, portanto, não existe de maneira absoluta. Ele existe, devemos admitir, nas escolhas de que falamos no item 1, quando se trata de provas de natureza física (ex.: grupo familiar, enfermidades congênitas).

Quanto às provas morais, o Espírito conserva o livro-arbítrio, sendo possível ceder ou resistir às tentações e, mesmo, modificar no presente resoluções tomadas no Mundo Espiritual, antes de encarnar.

Em relação ao item 3, aos fatos que resultam de coisas que fizemos por ato de livre vontade, não há como fugir de suas conseqüências, sejam boas ou ruins. Mesmo que a nossa vontade nos desvie momentaneamente, cedo ou tarde, nossa própria consciência nos levará a responder por eles.

A fatalidade, neste caso, existe somente quanto à responsabilidade em si, à qual não pode o homem subtrair-se de modo algum, mesmo que séculos e distâncias o separem do ato causador. Mas não há fatalidade quanto à ocasião, nem quanto ao modo como se efetuará a reparação do mal a que se deu causa.


Por: Rita Foelker

16 agosto 2015

A Impessoalidade do Exercício Mediúnico - Werneck / Rita Foelker

 
A IMPESSOALIDADE DO EXERCÍCIO MEDIÚNICO


Quando procuramos um médium, não procuramos por ser Rita, Maria ou José. Buscamos determinadas qualidades que tornam o médium mais apto à tarefa que se apresenta. Buscamos, entre os médiuns da mesa, o perfil mais apropriado. Servimo-nos daquele que melhor se adapta à necessidade do momento.

Neste sentido é que dizemos que as ligações mediúnicas mais saudáveis são impessoais.

Se nos ligamos afetivamente aos médiuns com que trabalhamos? Claro! Mas não lhe somos exclusivos, nem ele o é para nós, e não hesitaremos em buscar outro medianeiro mais qualificado para um mister diferente, se esta providência se mostrar cabível.

Espíritos que se ligam aos médiuns por motivos pessoais existem, e não são poucos. Haja vista, toda a gama dos obsessores e subjugadores. Também as afinidades estabelecidas em existências anteriores poderão facilitar o contato com estas criaturas. Mas o bom médium não vive de ligações pessoais com almas familiares ou simpáticas. Ele busca, no estudo e autoconhecimento aliados à humildade, a possibilidade de ser mais útil a uma variedade maior de Espíritos e eficiente numa diversidade de situações.

Aliás, se fazemos alguma distinção com relação aos médiuns é no que tange ao desenvolvimento destas virtudes:

o estudo sincero e o empenho real em aprender sobre a mediunidade e as leis espirituais;

o conhecimento de si mesmo que diminui a possibilidade de ser enganado por suas próprias fraquezas;

a humildade, que evita interferências personalistas do orgulho e da vaidade.

Se existe um médium para preferirmos exclusivamente como instrumento e, não, como ser humano, é este.

Acostume-se, portanto, o médium a não tomar como pessoais as ligações que se estabelecem na reunião, a não se tornar defensor ou acusador da criatura necessitada que o procura para fins de reajustamento íntimo, nem se considere agraciado pela chance de ser intermediário de palavras sublimes.

A prudência pede que se abstenha de comentários que denunciem preferências ou antipatias por esta ou aquela entidade comunicante. O amor abraçará a todos, na medida em que aumentar dentro de nós.

Entregar-se ao serviço mediúnico com bondade e sem acúmulo de expectativas sobre o próprio desempenho e sobre as comunicações recebidas é a melhor maneira de não se ver surpreendido, mais tarde, pela fileira dos equívocos de julgamento.

Quando, na sua tarefa habitual, o médium consegue igualmente se desprender de suas exigências e maneirismos pessoais, quando consegue relevar seu desejo de atender somente a determinada faixa de Espíritos em benefício da experimentação e do socorro às criaturas em sofrimento, torna-se facilitador do próprio aprendizado e desenvolvimento.

Quando, ao contrário, fecha-se no limite de mimos e idiossincrasias é ele, mais que qualquer outro, quem perde a oportunidade da lição presente na experiência.

No silêncio de sua alma, cada um sabe o que pode ou não fazer com sua faculdade sem prejudicar a saúde física e emocional. Que ninguém se prejudique com o pretexto de servir, e recorra aos Espíritos orientadores para esclarecer-se e assegurar-se do que é apropriado a cada momento. Mas também, que ninguém se negue a possibilidade de tentar algo novo, por preconceitos ou receios sem maior justificativa que os próprios preconceitos.

Que ninguém busque os louros da glória entre os homens, porque no ponto mais alto do exercício mediúnico encontram-se a abnegação e o desinteresse.

Entender a mediunidade como a moeda recebida em confiança na parábola dos talentos; aplicá-la, não exclusivamente segundo nossos gostos, mas segundo as necessidades da vida; investi-la sem medo, mas com bom senso, e sem distribuição indiscriminada dos seus bens, tudo isto são responsabilidades de todo bom médium.

Unicamente o discernimento e a humildade conferem parâmetros seguros a este exercício, discernimento e humildade que não podem conviver com o personalismo.


Autores: Werneck / Rita Foelker
Site: Luz do Espiritismo - Grupo Espírita Allan Kardec

06 junho 2015

A Força do Espiritismo- Rita Foelker


A FORÇA DO ESPIRITISMO


Quando Allan Kardec formulou as bases da Doutrina Espírita, ele recebia comunicações mediúnicas de cerca de mil centros espíritas espalhados por diversos lugares do mundo. Além de dialogar, ele mesmo, com os Espíritos, ele estudou o assunto por sua própria conta, comparou todas essas comunicações, pesquisou fenômenos e, só depois, veio a publicar "O Livro dos Espíritos", a primeira das Obras Básicas do Espiritismo.

Um homem sozinho pode ser enganado. Pode enganar a si mesmo e a um pequeno número de pessoas.

Se a Doutrina Espírita tivesse sido concebida por um só homem, seria preciso acreditar neste homem para acreditar na Doutrina, e ela estaria limitada por seu nível de esclarecimento e cheia dos seus preconceitos. Seria uma Doutrina com falhas.

Se os Espíritos tivessem transmitido a Doutrina Espírita a um só homem, ele poderia ser enganado, por mais sinceros que fossem os seus propósitos, pois a razão de uma só pessoa pode errar em seus julgamentos.

Mas o Espiritismo começou a ser revelado através de fatos que movimentaram diversos pontos do mundo ao mesmo tempo, na segunda metade do século passado. Os ensinamentos dos Espíritos foram disseminados através de comunicações mediúnicas dadas em lugares muito distante entre si e, apesar disto, e apesar das diferenças de linguagem, os princípios coincidiam precisamente. Não seria possível que a mesma idéia fosse lançada em grupos tão diferentes e que não tinham contato entre si, se elas não tivessem a mesma origem, se não tivessem uma finalidade maior.

Segundo Allan Kardec, esta universalidade no ensinamento dos Espíritos é que torna o Espiritismo forte, indestrutível, garantindo, ao mesmo tempo, a autoridade do que ele nos ensina.

O Espiritismo é um trabalho conjunto de homens e Espíritos.

E pode-se, afinal, fazer desaparecer um homem, mas não se pode calar milhões de pessoas. Os fenômenos mediúnicos acontecem por toda parte, e mesmo que todos os livros espíritas fossem queimados, e os centros espíritas, fechados, o Espiritismo poderia começar novamente, pois a sua origem não está sobre a Terra. Onde houvesse um Espírito e um médium - e os há em todo lugar - poderia a Doutrina Espírita começar a ser revelada novamente.

Sempre haverá gente que veja com seus próprios olhos e que tire suas próprias conclusões, partindo da lógica irrefutável dos princípios do Espiritismo.


Rita Foelker
Livro: Um pouco por dia
Espiritismo, Amor e Luz, Bússola da Alma

27 novembro 2014

Em Busca de Conforto e Esclarecimento Espírita - Rita Foelker



EM BUSCA DE CONFORTO E ESCLARECIMENTO ESPÍRITA

Como você se sentiu na primeira vez em que esteve na casa espírita: acolhido, deslocado, retraído, confiante, confuso, esclarecido...? 

A Doutrina Espírita, através dos livros, da Internet, da TV, dos médiuns afamados e de outros meios, vem sendo cada vez mais popularizada. Os temas da mediunidade, da reencarnação e da vida espiritual ocasionam um interesse crescente nas mais diferentes faixas da população. Como os centros espíritas estão se adaptando a esta nova realidade, considerando que eles são a grande porta de entrada para a aprendizagem e vivência espíritas? 

Fico pensando no público que procura uma casa pela primeira vez: que tipo de informação recebe? Qual orientação lhe é dada? Os cursos e atividades para as quais é convidado preenchem sua verdadeira necessidade? 

É fato notório que as casas espíritas nem sempre são a imagem fiel da visão espírita da vida. Muitas estão ultrapassadas, tanto nos recursos pedagógicos quanto nas relações humanas. Pararam no tempo. Qualquer pessoa pode adentrar uma casa destas e sair com uma impressão completamente errada do Espiritismo. 

Existem muitos centros que parecem existir exclusivamente para si mesmos. Se não mudam, seria preferível que se denominassem "grupos espíritas" fechados e, não, entidades de portas abertas. Há escassez de informações; nenhuma reunião específica para quem está iniciando, exceto um "evangelho e passe" anacrônico e distante da realidade; pessoas sem treino para o atendimento fraterno que vai introduzir a criatura na rotina da casa, identificando as atividades cuja participação mais lhe convenha. 

Há também um certo discurso que prega a "simplicidade" mas que, de fato, despreza todos os confortos e melhoramentos proporcionados pelo progresso (uma das leis divinas que a própria doutrina ensina!), que não significam luxo, mas facilidade e eficiência, desde recursos audiovisuais, salas apropriadas e um bom equipamento de som, até a metodologia de estudo atualizada, facilidade de comunicação, diminuição da burocracia em benefício do dinamismo, treinamento para as relações humanas, um setor ativo de venda e empréstimo de livros e vídeos, etc. Falando de maneira bastante genérica (pois há exceções incrivelmente boas), a falta de entendimento da própria função da Doutrina em nossas vidas, decorrente, em parte, da falta de aprofundamento nos estudos e de uma abordagem mais prática dos temas, faz com que nos tornemos espíritas e continuemos agindo como pessoas crédulas, sem reflexão e sem transformação íntima significativa. Por quê? Porque inexiste mudança de mentalidade. Ir ao centro, receber o passe, fazer sopa para os pobres e ler obras de André Luiz não fazem de nós, espíritas. 

O que diferencia o espírita é a mudança consciente de atitude, é a renovação interior, e se não nos renovamos e não nos sentimos renovados, se não estamos vendo a vida e os acontecimentos de forma diferente, é porque não assumimos as conseqüências da visão filosófica do Espiritismo em nosso dia-a-dia. É porque ainda pensamos como o "homem velho". 

Entendo que a formação de uma consciência espírita é responsabilidade de todos que a compreendem e estão prontos para viver o tipo de vida a que ela nos convida, também, no que diz respeito à maneira de administrar a casa espírita. A maior divulgação do Espiritismo é a dos exemplos de vida. E se vivermos aquilo que ensinamos, estaremos levando a pensar, estaremos favorecendo a conscientização de qualquer pessoa de nossas relações. 

Se você participa de uma casa espírita e tem idéias para melhorar o trabalho ali realizado, não se omita. Ofereça sugestões, compartilhe o que sabe. O centro espírita não é uma estrutura rígida, onde nos conformamos às regras ou saímos. Ao menos em tese, ele deveria ser um lugar onde as pessoas se querem bem, se respeitam, colaboram e aprendem sobre si mesmas e sobre as leis da vida. 

Rita Foelker

02 novembro 2014

Equilíbrio perante os imprevistos - Rita Foelker


EQUÍLIBRIO PERANTE OS IMPREVISTOS 

A dinâmica da vida nos insere em experiências diversas. Conscientes de que somos seres em evolução nessa dinâmica, de que somos Espíritos imortais, podemos procurar agir com uma visão mais ampla e profunda dos acontecimentos.

Como? Eis um jeito de fazer isso: não dos deixando abalar pelo impacto de coisas que nos descontentam, pelos imprevistos, mas tentando perceber o seu sentido e a sua necessidade para a nossa melhoria.

Nem sempre a vida espera que estejamos preparados, para nos trazer suas questões (que, no fundo, são as nossas, refletindo nossas necessidades evolutivas). Em geral, a primeira coisa que fazemos em situações tensas é nos agarrarmos ao passado. Aos fatos semelhantes de outros tempos. Às possíveis consequências negativas ou desagradáveis que carrearam.

E esses pensamentos nos levam a nos enrijecer, perante a situação que se apresenta, quando seria mais importante nos soltarmos e ficarmos mais sensíveis, para agir com mais flexibilidade e confiança.

Essa tensão que nos colhe, no entanto, tem um motivo: ela vem do fato de encararmos negativamente as possíveis mudanças e de sonharmos com uma impossível estabilidade.

A estabilidade jamais esteve nas coisas, nem nunca estará: é a força da alma que nos concede serenidade, enquanto as circunstâncias externas são mutáveis. Não podemos determinar os acontecimentos, porque eles não obedecem aos nossos desejos e nem funcionam segundo a nossa lógica particular. Mas podemos solicitar inspirações e intuições no sentido de que venham boas ideias, visões de opções e de caminhos viáveis, sobretudo se estivermos imbuídos de bons sentimentos e com o coração aberto, além da mente positiva e receptiva.

Somos mais que o físico, somos mais até que aqueles nossos aspectos mentais e emocionais que, habitualmente, nos elevam ou nos derrotam, se não estamos vigilantes. Se não podemos controlar pessoas e acontecimentos, podemos escolher agir melhor perante eles!

É uma boa providência, em favor do equilíbrio interno e da harmonia, observar para onde dirigimos nossa atenção, nossos pensamentos. Para quais fatos. Quais coisas. Quais pessoas. E perceber como isso nos afeta. E dentro do conhecimento que a filosofia espírita nos proporciona, modificar pensamentos negativos, diluir estados emocionais pesados, de ansiedade ou sofrimento, que apenas nos desgastam sem ajudar, nem a nós mesmos, nem os outros eventualmente ligados à mesma circunstância.

É possível um equilíbrio, sim, ampliando a visão do que acontece, ter mais positividade e menos receios. Acreditar mais na sabedoria das leis do Universo e menos nas nossas preocupações que sempre vêm de uma limitação de perspectiva.

Desejo que hoje minha mente descanse na gratidão pelas bênçãos recebidas, na leveza e no parentesco universal com tudo aquilo que evolui e se torna mais inteligente, maduro e amoroso, enquanto atravessa suas vivências e desafios.


Autoria: Rita Foelker
 

29 julho 2014

Inteligência de si - Rita Foelker




INTELIGÊNCIA DE SI

Esses escritos juntam várias coisas que ouvi e observei, recentemente, relacionadas a essa “coisa” de achar o outro sempre mais inteligente do que a gente.

A inteligência é a característica que define o ser espiritual, de acordo com a filosofia espírita. Portanto, somos todos inteligentes e pertencemos à Criação Divina. Todos nós fomos criados com o mesmo potencial, aprendemos a usá-lo e a escolher o que fazer com ele.

Em geral, consideramos inteligente alguém que cria um carro para estacionar sozinho, ou um chip cada vez menor que armazena cada vez mais “gigas”. Achamos que tecnologia é fruto de inteligência, mas nos sentimos pouco inteligentes nas coisas do dia-a-dia.

Ninguém, exceto as almas evoluídas, é altamente inteligente para tudo! Somos mais inteligentes para lidar com algumas situações e desafios, menos inteligentes para outros. Mas isso faz parte da nossa jornada evolutiva. Dificilmente poderíamos desenvolver todos os nossos potenciais numa só encarnação, então, trabalhamos por partes e evoluímos um pouco em cada setor.

Um fato sobre esses avanços tecnológicos recentes é que eles surgem de trabalho coletivo, são pequenas melhorias construídas sobre melhorias anteriores, ou reunidas com ideias dos colegas, de modo que praticamente não existe mais a figura individual do inventor, como Graham Bell e o seu telefone. Ou seja, há uma inteligência que não é necessariamente a de um único “gênio”, mas a de muitas pessoas pensando juntas.

A própria Humanidade é também uma inteligência coletiva, crescendo em conjunto. E que isso faz com que, individualmente, dentro desse movimento, também possamos desenvolver nosso potencial de inteligência, compreender mais, aprender melhor e viver mais satisfatoriamente. O acesso à web ajuda nisso. Sites trazem composições musicais, museus se abrem para visitas virtuais e contemplação das grandes obras de arte, bibliotecas disponibilizam seu acervo.

Mas essa inteligência muitas vezes não fica tão evidente, não é mesmo? Nas coisas cotidianas, por exemplo, é comum não se estar satisfeito consigo, com seu lugar, com seus relacionamentos. E não saber o que fazer.

Notamos que temos uma relação neurótica com o tempo. Num mundo que tantas vezes assusta e desconforta, desenvolvemos um grau de negatividade que nos faz defensivos e distantes. Ou nos enterra em nós mesmos, no trabalho, no consumismo, no vício. E nada disso denota um alto grau de inteligência, perante essas situações.

Às vezes, absorvidos em nossos “problemas”, perdemos o foco das alegrias simples, que mostram como a vida é especial. Às vezes, distanciados de nós mesmos, aderimos a padrões inventados por outras pessoas e que não compreendemos. Ou com que, em alguns casos, nem concordamos...

Mas isso pode ser diferente, quando desenvolvemos alguma inteligência de nós mesmos. Quando nos conhecemos melhor e descobrimos o que realmente desejamos que esteja em nossas vidas, deixando de lado o que não faz parte.

O que eu quero que seja cotidiano, para mim? Acordar disposto todos os dias? Trocar um beijo com o ser amado? Agradecer mais e reclamar menos? Cumprir minhas tarefas com ânimo e disposição? Celebrar a Natureza, a amizade? Comer alimentos mais saudáveis? Se nada disso está presente no meu dia de hoje, poderá estar a partir do momento da minha decisão. E assim veremos as melhorias refletirem a nossa inteligência de nós mesmos e nos fazendo bem. 

Por Rita Foelker – para o site FEAL
 

16 julho 2014

Ser humilde é bem mais fácil - Rita Foelker


SER HUMILDE É BEM MAIS FÁCIL


Estava ao mesmo tempo pesquisando para escrever este artigo e agindo por curiosidade pessoal, enquanto procurava relacionar algumas desvantagens do orgulho. Porque se ele é uma espécie de cegueira ou de miopia – O evangelho segundo o espiritismo fala em “catarata” – que distorce as coisas para as quais olhamos e também a nossa própria imagem, é quase certo que o orgulhoso não consiga enxergar claramente as dificuldades que o orgulho lhe acarreta.

Calunga, o querido amigo espiritual, apresentou algumas. Diz ele: "O orgulho vai fazer você perder totalmente a isenção do discernimento. O orgulho vai impedir de pedir desculpas, mesmo quando lá no fundo você sentir que está errado. E vai fazer você viver como um ser diferente daquele que você é".

Discernimento é um instrumento muito importante para nossa orientação e decisões na vida. O filósofo e escritor indiano Jiddu Krishnamurti em Aos pés do mestre, adverte que ele “deve ser exercido entre o bem e o mal, o importante e o não importante, o útil e o inútil, o verdadeiro e o falso, o egoísta e o desinteressado”. Pense nas mentiras que tomamos por verdades, no mal que consideramos como bem, e pense nas possíveis consequências. Fiquei imaginando as coisas desimportantes que ele nos faz considerar importantes, e o esforço inútil que é despendido em obtê-las, quando poderíamos fazer algo útil (mas falta discernimento!). O jornalista Emile Henry Gauvreay observa com perspicácia que: “Construímos um sistema que nos convence a gastar dinheiro que não temos, para comprar coisas de que não precisamos, para criar impressões que não vão durar em pessoas para quem nem ligamos”. Vê-se que o orgulho, além de nos impedir de discernir, ainda nos faz trabalhar e lutar por objetos e satisfações que se mostram vazias e ilusórias.

Bom, até aqui falamos de “coisas externas”...

Mas depois, ao olhar para nós mesmos, segundo Calunga, não apreciaremos ter falhado ou nos termos equivocado, se o orgulho não permitir. Sempre nos daremos razão, porque admitir erros, para o orgulho, equivale a diminuir-se. E como ele, alterando nossa visão, modifica nossa ação segundo o que ele nos permite ver, não conseguiremos ser nós mesmos.

Mas acontece que "quem tem medo dos erros cometidos é o orgulho tagarelando na sua cabeça. O orgulho não gosta de errar e não gosta de ver que errou. Ele vai se doer todo, se tiver que aceitar a verdade. Já a humildade não dói...", afirma o amigo espiritual.

O orgulho, além do mais, já provocou outras confusões sérias, de efeitos terríveis. Lemos no capítulo 7 de A gênese, de Kardec, que o orgulho fez com que o ser humano afirmasse terem sido os animais criados por sua causa e para satisfação de suas necessidades. Um equívoco que ainda convence muitas pessoas atualmente. Um pouco de clareza mental, contudo, leva a um raciocínio: o de que o número dos animais que têm alguma serventia para os seres humanos é ínfimo, perante a quantidade daqueles com os quais ele nunca se relacionou nem vai se relacionar. “Como se pode sustentar semelhante tese, em face das inumeráveis espécies que exclusivamente povoaram a Terra por milhares e milhares de séculos, antes que ele aí surgisse, e que afinal desapareceram? Poder-se-á afirmar que elas foram criadas em seu proveito?”

Bem, continuando com nossa listinha de desvantagens, o orgulho também impede os ganhos da aprendizagem, sendo um fator de manutenção da ignorância. O capítulo 15 também d’A gênese, menciona o orgulho dos fariseus, afirmando que eles consideravam sua inteligência superior à dos demais e não aceitariam uma observação de uma pessoa do povo. Isso nos lembra de uma ideia inteligentemente oposta, a de Cora Coralina, que diz: “O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes”.

O orgulho também, junto com o egoísmo, pode levar a prejudicar os semelhantes. No capítulo 18 d’A gênese, lê-se: “Enquanto o orgulho e o egoísmo o dominarem, o homem se servirá da sua inteligência e dos seus conhecimentos para satisfazer às suas paixões e aos seus interesses pessoais, razão por que os aplica em aperfeiçoar os meios de prejudicar os seus semelhantes e de os destruir.”

Passando para outro livro, chegamos a O céu e o inferno, onde textualmente lemos que “o orgulho é o inimigo da felicidade. É dele que promanam todos os males que acometem a Humanidade e a perseguem até nas regiões celestes". Ou seja, além de não deixar discernir, promover a ignorância, prejudicar o próximo e impedir a felicidade, ele ainda acompanha a criatura até a outra vida!!!

Em O evangelho segundo o espiritismo, capítulo VII, Kardec observa que o orgulho é um ato de revolta contra Deus. Como um dos problemas que acometem nossa visão – falamos de cegueira e miopia –, no mesmo capítulo está escrito que “o orgulho é a catarata que tolda a visão. De que vale apresentar a luz a um cego? Necessário é que, antes, se lhe destrua a causa do mal. Daí vem que, médico hábil, Deus primeiramente corrige o orgulho”.

O que é um fato, pois decorrente do probleminha de visão, é que desde que “o orgulho se mostra indulgente para com tudo o que o lisonjeia”, ele também não lhe permite observar a falsidade e a hipocrisia, alegrando-se com a lisonja e os falsos elogios.

“O orgulho é o terrível adversário da humildade.” “O orgulho, eis a fonte de todos os vossos males.” “O orgulho é sempre castigado, cedo ou tarde, pela decepção e pelos malogros que lhe são infligidos.” São outras afirmações pertencentes às Obras de Kardec sobre o mesmo tema, que nos deveriam deixar de sobreaviso perante suas investidas.

E até o momento ainda não eu nada escrevi sobre as ciladas que o orgulho reserva especificamente aos médiuns. O livro dos médiuns inclui os médiuns orgulhosos entre os médiuns imperfeitos (item 196), definindo-os como aqueles que “se envaidecem das comunicações que lhes são dadas; julgam que nada mais têm que aprender no Espiritismo e não tomam para si as lições que recebem frequentemente dos Espíritos. Não se contentam com as faculdades que possuem, querem tê-las todas”. Como variedade desses, considera os médiuns suscetíveis: aqueles que “suscetibilizam-se com as críticas de que sejam objeto suas comunicações; zangam-se com a menor contradição e, se mostram o que obtêm, é para que seja admirado e não para que se lhes dê um parecer. Geralmente, tomam aversão às pessoas que os não aplaudem sem restrições e fogem das reuniões onde não possam impor-se e dominar”.

Por outro lado, para que as palavras dos espíritos superiores chegue até nós isenta de qualquer alteração, são condições necessárias querer o bem e repelir o orgulho e o egoísmo (item 226). O médium orgulhoso, portanto, dificilmente poderá ser um intermediário confiável de instruções espirituais aos encarnados.

Bom, talvez já esteja suficiente para uma primeira oportunidade. Não desejamos cansar o leitor, apenas esperamos, com apoio nessas referências citadas, ter colocado o orgulho sob uma luz tão forte, que seja muito difícil evitar enxergar...


Rita Foelker