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12 abril 2022

Necessário e supérfluo - Rogério Coelho


NECESSÁRIO E SUPÉRFLUO

Nem tudo que é lícito é conveniente

“(…) Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir”. – Henry D. Thoreau.

Ao invadirem os interiores palacianos, os insurgentes persas ficaram embasbacados com o luxo, a suntuosidade e os três mil pares de sapatos da esposa do rei deposto.

Já da antiga Grécia vem o exemplo oposto com o filósofo Diógenes cujos únicos bens eram um alforje, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o seu desapego e autossuficiência).

Mohandas Karanchan Gandhi sorria diante de uma vitrine londrina. O emissário da rainha, que o acompanhava, estava autorizado a comprar-lhe qualquer coisa que fosse do seu agrado. E como o grande Mahatma estava todo sorrisos enquanto olhava aqui e ali, o serviçal lhe perguntou: – O senhor agradou de algo? A rainha deseja oferecer-lhe um presente.

– Não meu amigo! Obrigado! Estou apenas sentindo-me muito feliz por constatar de quantas coisas não necessito para viver! Era o despojamento personificado!…

Uma dama da nobreza tendo que fugir às pressas pelo deserto escaldante, colocou o máximo de anéis, colares e braceletes em seus dedos, pescoço e braços. Mas, à medida que o Sol a castigava, ela teve que ir se despojando de suas preciosidades, visto que lhe queimavam a pele.

Tal é a vida que nos ensina o que realmente é importante, o que é lastro espiritual…

O Meigo Rabi admoestou delicadamente a irmã de Lázaro, Marta, que estava aflita e afadigada com muitas coisas, quando apenas uma é importante. Já Maria – diferentemente da irmã – cogitava do que era realmente essencial. Ao conclamar-nos a amealhar os tesouros do Céu e não os da Terra Ele indicava a opção salvadora da libertação.

Nestes tempos de intenso consumismo estimulado pelas mídias e até mesmo por governos do terceiro mundo, há que se espelhar nos exemplos nobres de despojamento oferecidos por tantas criaturas que realmente entenderam o verdadeiro sentido da vida.

O filósofo Mário Sérgio Cortella alerta que “vivemos o delírio do tempo.Tudo tem de ser veloz! A reflexão deixou de ser importante. A gente só faz o urgente, mas o importante…”

Identificar e abandonar o supérfluo; exercitar o amor ao próximo (alo-amor); desprender-se dos bens terrenos, tal a diretriz seguida por Chico Xavier, que nos ofereceu exemplos oceânicos de despojamento. Segundo Emmanuel, “só possuímos aquilo que damos”. Esta frase engloba desdobramentos extraordinários que se espraiam em futuras reeencarnações nas quais vamos receber de acordo com as nossas obras (1).

Não é sem motivos que Jesus ensinou que deveríamos caminhar duas milhas quando solicitados a caminhar uma, e dar também a capa a quem solicitar o vestido (2).

Mas como pode o homem conhecer o limite do necessário? (3)

– “Aquele que é ponderado o conhece por intuição. Muitos só chegam a conhecê-lo por experiência e à própria custa”, ensinam os Espíritos Amigos.

Os Benfeitores Espirituais informam (4) que o homem é insaciável e vicioso, e essas condições criam necessidades factícias. “(…) Não há dúvida de que aquele que tinha cinquenta mil libras de renda, vendo-se reduzido a ter só dez mil, se considera muito desgraçado, por não mais poder fazer a mesma figura, conservar o que chama a sua posição, ter cavalos, lacaios, satisfazer a todas as paixões, etc. Acredita que lhe falta o necessário, enquanto ao seu lado muitos há, morrendo de fome e frio sem um abrigo onde repousem a cabeça. Será ele digno de lástima?”

O Codificador explica que “nada de absoluto existe entre o necessário e o supérfluo: tudo é relativo, cabendo à razão regrar as coisas”.

Ao jovem que O inquiria sobre os meios de ganhar a Vida Eterna Jesus disse: “desfaze-te de todos os teus bens e segue-me”. Kardec explica (5) que o Mestre Maior não pretendeu, decerto, estabelecer como princípio absoluto que cada um deva despojar-se do que possui e que a salvação só a esse preço se obtém; mas, apenas mostrar que o apego aos bens terrenos é um obstáculo à salvação. Aquele moço, com efeito, se julgava quite porque observara certos mandamentos e, no entanto, recusava-se à ideia de abandonar os bens de que era dono”.

Quando desencarnarmos teremos que deixar tudo, portanto, é bom ir treinando!…

Lacordaire afirma (6): “O amor aos bens terrenos constitui um dos mais fortes óbices ao vosso adiantamento moral e espiritual. Pelo apego à posse de tais bens, destruís as vossas faculdades de amar, com as aplicardes todas às coisas materiais. Sede sinceros: proporciona a riqueza uma felicidade sem mescla? Quando tendes cheios os cofres, não há sempre um vazio no vosso coração? Compreendo a satisfação, bem justa, aliás, que experimenta o homem que, por meio de trabalho honrado e assíduo, ganhou uma fortuna; mas, dessa satisfação, muito natural e que Deus aprova, a um apego que absorve todos os outros sentimentos e paralisa os impulsos do coração vai grande distância, tão grande quanto a que separa da prodigalidade exagerada a sórdida avareza, dois vícios entre os quais colocou Deus a caridade, santa e salutar virtude que ensina o rico a dar sem ostentação, para que o pobre receba sem baixeza.

(…) Em vão procurais na Terra iludir-vos, colorindo com o nome de virtude o que as mais das vezes não passa de egoísmo. Em vão chamais economia e previdência ao que apenas é cupidez e avareza, ou generosidade ao que não é senão prodigalidade em proveito vosso. Um pai de família, por exemplo, se abstém de praticar a caridade, economizará, amontoará ouro, para, diz ele, deixar aos filhos a maior soma possível de bens e evitar que caiam na miséria. É muito justo e paternal, convenho, e ninguém pode censurar. Mas será sempre esse o único móvel a que ele obedece? Não será muitas vezes um compromisso com a sua consciência, para justificar, aos seus próprios olhos e aos olhos do mundo, seu apego pessoal aos bens terrenais?”

Com o fio de prumo da lógica, continua Lacordaire (5): (…) a ninguém ordena o Senhor que se despoje do que possua, condenando-se a uma voluntária mendicidade, porquanto o que tal fizesse tornar-se-ia em carga para a sociedade. Proceder assim fora compreender mal o desprendimento dos bens terrenos. Fora egoísmo de outro gênero, porque seria o indivíduo eximir-se da responsabilidade que a riqueza faz pesar sobre aquele que a possui. Deus a concede a quem bem Lhe parece, a fim de que a administre em proveito de todos, sabendo prescindir dela quando não a tem, sabendo empregá-la utilmente quando a possui, sabendo sacrificá-la quando necessário”.

Lacordaire finaliza com esse resumo (5): “(…) sabei contentar-vos com pouco… Se sois pobres, não invejeis os ricos, porquanto a riqueza não é necessária à felicidade. Se sois ricos, não esqueçais que os bens de que dispondes apenas vos estão confiados e que tendes de justificar o emprego que lhes derdes, como se prestásseis contas de uma tutela. Não sejais depositário infiel, utilizando-os unicamente em satisfação do vosso orgulho e da vossa sensualidade. Lembrai-vos de que aquele que dá aos pobres, salda a dívida que contraiu com Deus”.

Admiramos a visão lúcida do apóstolo Paulo sobre o tema quando exorta (7): “Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma”.

Segundo a mui querida Nina Arueira (Espírito), “(…) a maior necessidade do homem é justamente a de luz espiritual, para se identificar com o Cristo”.

Rogério Coelho
Fonte:
Agenda Espírita Brasil

Referências:

(1) Mateus, 16:27;
(2) Mateus, 5:40;
(3) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, q. 715;
(4) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, q. 716 e 923;
(5) KARDEC, Allan. O Evangelho Seg. o Espiritismo. 129.ed. Rio: FEB, 2009, cap. XVI, item 7;
(6) KARDEC, Allan. O Evangelho Seg. o Espiritismo. 129.ed. Rio: FEB, 2009, cap. XVI, item 14; e
(7) Paulo, I Cor., 6:12.

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