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18 janeiro 2014

Reencarnação e Desigualdades - Deolindo Amorim


REENCARNAÇÃO E DESIGUALDADES

Como política preventiva, que significa simplesmente atacar o mal ainda na raiz, antes que seja tarde, o programa espírita sempre se esforçou no trabalho de assistência e educação, visando à modificação do ambiente moral e social, até mesmo nos recantos mais sórdidos. Prevenir, portanto, para que a pobreza aviltada não chegue a uma convulsão incontida. Se é óbvio que não podemos tratar somente do corpo, mas também, principalmente, do espírito, é óbvio ao mesmo tempo que não devemos relaxar os deveres em relação às necessidades do corpo. Se o espírito precisa de instrumento humano para a comunicação de seus dons, logicamente um corpo doente, abatido pela deficiência alimentar ou depauperado pelo esgotamento, não pode ser bom veículo por causa do desmantelo orgânico. E já se sabe que há repercussão recíproca entre o orgânico e o psíquico. Mas a Doutrina adverte, a certa altura, que às vezes uma pessoa pode nascer em "posição difícil e embaraçosa, precisamente para ser obrigada a procurar vencer as dificuldades, nunca, porém, deve deixar a vida correr à revelia, o que seria mais preguiça do que virtude." (O Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. V, nº 26). Este ponto, sem dúvida alguma, sugere reflexão sobre o problema das desigualdades sociais à luz da reencarnação.

Seja, porém, como for, a despeito dos "altos e baixos" dos compromissos reencarnatórios na vida social, não nos compete fazer julgamento, mas temos o dever de trabalhar pela melhoria do homem. E com fazê-lo sem ir ao encontro dos focos de revolta e decadência? Disse muito bem o dr. João Pompílio de Almeida Filho:

"Devemos ir ao encontro dos necessitados, para dar-lhes o que precisam, moral e materialmente, antes que eles venham até nós arrancar o que lhes falta, e destruir as riquezas, que são nossas, mas exigem emprego inteligente, com distribuição de parte em favor dos que têm fome, sofrem frio, vivem envilecidos nos vícios, constituindo verdadeiro peso-morto à margem da sociedade". Tese oficial - 1° Congresso Espírita do Rio Grande do Sul-1945.

Realmente. Tais palavras estão inteiramente abonadas pela Doutrina Espírita. A esmola é uma doença da sociedade. Ainda não temos uma consciência de solidariedade capaz de suprir as falhas no rastro da pobreza extrema e da invalidez relegada. Mas a palavra esmola não teria mais razão de ser, dentro de uma organização social mais espiritualizada ou mais aproximada do Evangelho. Em vez de esmola, diríamos acertadamente dever. Se é verdade que os males sociais, em grande parte, têm relação com o nosso passado e, por isso, também é verdade que cabe à criatura humana fazer a sua parte, a fim de que ninguém seja privado pelo menos do essencial à subsistência nos flancos mais ínfimos da sociedade.

Melhoramento social engloba estabilidade e libertação do medo, mas não significa que todos tenham de ser ricos ou venham a possuir automóvel como requinte de bem-estar. mas todos têm o mesmo direito a uma condição de vida condizente com a dignidade humana, por mais frisante que seja a desigualdade dos níveis sociais. O Espiritismo não propõe a eliminação total das desigualdades, notadamente no estágio evolutivo em que nos encontramos, pois a sociedade é toda diversificada, com ricos e pobres, inteligentes e parvos, empreendedores e preguiçosos, progressistas e retrógrados, homens de bem e homens trapaceiros, por exemplo. Sem pensarmos, porém, na utopia de um mundo sem falhas e disparidades, como se fosse um paraíso terrestre, podemos e devemos, contudo, dar o quinhão que a Doutrina Espírita nos atribui, porque temos a nossa parte de responsabilidade no conjunto:

"Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na lei de Deus e na Justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação. Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa vontade de alguns". (O Livro dos Espíritos-Parte 3a, Cap. XI).

Como se vê, a Doutrina Espírita não absorve a idéia de fatalismo como explicação genérica dos desacertos sociais, nem a tese da reencarnação levaria a tanto. O fatalismo social seria a condenação de pessoas ou grupos a uma vida de privações indefinidamente, como se fossem todos marcados pela adversidade inarredável. Não. Nesta ordem de considerações o que a Doutrina afirma nada tem de radical: os males deste mundo são de duas ordens, isto é, os que têm vínculos com o passado, por causa de atos praticados noutra existência, e os que resultam de erros e abusos cometidos no presente. Nem tudo, portanto, se deve lançar na conta do passado. A incapacidade ou a falta de escrúpulos na gestão administrativa, a negligência na vida pessoal e os desperdícios são responsáveis por muitas crises na sociedade. O cotidiano das ocorrências bem o demonstra. São fatos da presente existência. A interpretação unilateral seria muito inconveniente, pois os problemas exigem, antes de tudo, análise conjuntural. Dois fatores são indiscutivelmente relevantes neste passo: a educação e a reforma moral.

Na confluência dos problemas com que nos defrontamos, de um lado e do outro, não seria lógico pôr de lado a interferência de "situações cármicas". Há criaturas humanas sujeitas ao determinismo de uma existência difícil ou penosa em razão do que fizeram antes, não se sabe onde ou em que época. Quem, suponhamos, explorou o suor alheio, quem abusou da riqueza ou da autoridade como verdadeiro tirano ou corruptor, certamente vai ter que lutar muito contra a humilhação, as aflições e os embaraços, ainda que trabalhe e estude com o maior afinco para subir pela inteligência e pela tenacidade. Por mais que insista na tentativa de afastar os empecilhos, fica sempre na planície social, em posição apagada, obrigado a executar serviços inferiores, segundo os valores convencionais do nosso mundo.

Mais adiante se nos depara o varredor de rua, um homem que já fora lorde noutra época e, agora, volta à Terra para reeducar-se na humildade, pois impusera humilhação a muita gente quando estava na opulência. Semelhantemente, não seria um despropósito admitir que antigo e orgulhoso aristocrata, daqueles que faziam pouco caso das pessoas que estivessem abaixo de sua camada social, venha a reencarnar com uma prova que o coloque nas calçadas como engraxate, vivendo à margem das multidões nos grandes centros urbanos. Noutros tempos, tinha criados sobre os quais tripudiava com arrogância e desumanidade. O fato de engraxar sapato nada tem de deprimente para quem trabalha honestamente, tanto quanto a profissão de gari e outras profissões tidas como das mais modestas não aviltam as mãos honradas. Se a sociedade precisa de médico para os problemas de saúde pública, também precisa do gari, ao mesmo tempo, porque sem a limpeza da cidade e a remoção dos detritos e entulhos transmissores de vermes e alimentadores de mosquitos os planos sanitários ficam seriamente comprometidos. O cavalheiro elegante, habituado a vestir-se com apuro, não pode fazer "boa figura" em público se não tiver quem lhe engraxe os sapatos no momento necessário. E quem vai fazê-lo? O titular de um cargo importante? O funcionário de status mais elevado? Claro que não. É o engraxate, que se torna uma figura indispensável naquele momento.

Naturalmente é uma prova para o espírito que reencarna, como se diz, nas "classes baixas" da sociedade e não consegue projetar-se, porque tem débitos pesadíssimos de outras existências. O tipo inteligente ou espertalhão de outrora, muito afeito a espertezas com prejuízo de terceiros, depois de ter tantas e tantas vezes abusado da inteligência para fins inconfessáveis, sem jamais ter sido alcançado pela justiça terrena, não poderá reincorporar-se à mesma sociedade a que pertencera, mas agora reencarnado como servente ou trabalhador explorado, sempre em aperturas financeiras, lesado aqui, sacrificado ali? É uma contingência admissível no desenrolar do processo reencarnatório. É a lei de causa e efeito.

A justiça nunca deixa de vir, cedo ou tarde, segundo as nossas noções de tempo. A reencarnação está na vida social, não tenhamos dúvida. Conseqüentemente, não se exclui em tudo e por tudo a reencarnação como um dos dados de avaliação nos desajustes sociais, ainda que não seja razoável generalizar, o que daria motivo a conclusões muito rígidas. Se, de fato, há circunstâncias que se sobrepõem aos nossos desejos e meios de ação, porque decorrem de uma carga de responsabilidade individual ou coletiva de outras etapas da vida, há obstáculos e eventualidades que denunciam apenas a falta de vigilância ou a displicência nesta existência. E se o homem fosse conduzido pelo passado em todos os instantes não haveria mudança nem disposição do livre-arbítrio. A vida seria uma sucessão fatal de episódios predeterminados.

Como corpo de idéias, baseado em fatos que comprovam a sobrevivência do espírito além do corpo e a sua comunicação com o nosso mundo, o Espiritismo também se interessa pelo ser humano na vida de conjunto, o que quer dizer: o homem na sociedade. Sem a vida social ninguém teria como se desenvolver e renovar-se, pois a penitência reclusa, distante dos problemas, ignorando o sofrimento de seu próximo, sem dar sequer um pouco de si, não faz nenhum santo.

É na forja social realmente que adquirimos experiência e exercitamos as nossas possibilidades latentes, ora caindo, ora levantando, até que nos modifiquemos para melhor. Não sendo, portanto, fatalista, como já dissemos e fazemos questão de repetir, está bem claro que a Doutrina Espírita se preocupa com as desigualdades humanas, cujas causas devem ser atacadas para que se corrijam as injustiças. Muitas chagas sociais já teriam sido extirpadas se houvesse mais sentimento de humanidade, mais respeito às razões éticas, tanto no plano do poder público quanto no plano particular. Há desigualdades que são o flagrante resultado do egoísmo, da ambição e, por fim, das incongruências de uma sociedade discriminativa na distribuição dos bens indispensáveis à vida humana. Uma sociedade em que a vivência real do Cristianismo ainda está reduzida a compartimentos limitados, porque o Cristo é apenas objeto de devoções formais, sem ação nas profundezas do coração, a não ser das pessoas abnegadas, cujo espírito de sacrifício vem contrabalançar o peso da indiferença ou da frieza dominante. Pois bem, é contra esse tipo de sociedade, ainda vigente, que invocamos os princípios espíritas, sem compromisso com ideologias e facções políticas.

Não estamos defendendo a igualdade maciça ou mecânica, pois seria uma pretensão visionária. Como igualar os elementos de um aglomerado humano composto de criaturas desiguais? Sim, desiguais espiritualmente, desiguais no temperamento, na formação moral, tanto quanto desiguais intelectualmente, etnicamente, psiquicamente. Neste ponto, exatamente, a noção de igualdade, tão mal situada nas discussões doutrinárias ou políticas, tem dois sentidos muito naturais: somos iguais pela natureza e pela origem, porque somos criaturas de Deus e pertencemos à espécie humana, mas não somos iguais nas aptidões, no caráter, na educação, na cultura, nas decisões do livre-arbítrio. Teoricamente, "todos são iguais perante a lei". Seria, de fato, o ideal de uma sociedade bem equilibrada. Como seres humanos, todos têm o direito a uma vida normal, uma vez que todos têm aspirações, compromissos e deveres compatíveis com as necessidades biológicas e espirituais. Necessidades inerentes à natureza humana e, por isso mesmo, não se condicionam, pelas categorias sociais. No entanto, há muitos casos em que animais de estimação, como cavalos, cachorros e gatos são mais bem tratados do que as próprias crianças que ficam em volta desses animais. Que os animais sejam bem cuidados e defendidos, mas que não se despreze o ser humano. A proteção do reino animal é uma prova de adiantamento de uma civilização.

É válido indiscutivelmente o conceito de igualdade na acepção de respeito aos direitos comuns, os direitos intrínsecos da pessoa humana em qualquer nível social: preservação da integridade física, oportunidades para estudar e melhorar-se, liberdade de escolha de seus objetivos profissionais, intelectuais e religiosos. Igualdade, portanto, nos direitos essenciais. Nosso conceito de igualdade, porém, não vai ao irrealismo de imaginar uma sociedade em que todos tenham o mesmo "trem de vida", as mesmas regalias, as mesmas qualificações sociais. Na luta pela vida, sob a pressão das competições, sempre se defrontam capacidades diferentes, com interesses conflitantes. O emprego do livre arbítrio, por sua vez, está sujeito às variações circunstanciais nos empreendimentos e nos modos de proceder ou de julgar as coisas. Ao lado, por exemplo, dos que querem vencer e, por isso, estudam, trabalham, enfrentam todos os reveses, há muitos que não querem sair da comodidade, não se esforçam para mudar de posição, porque preferem ficar onde estão, cultivando a displicência como regra de vida. Ora, o indivíduo operoso e realizador, porque leva a vida a sério não se confunde com o preguiçoso, que se anula por si mesmo no grupo social.

Figuremos de passagem o caso de dois irmãos, cujo pai tenha dado oportunidade ou chances, como se diz correntemente, tanto a este como àquele. O primeiro trabalhou, não esbanjou o tempo, preparou-se para ocupar lugares mais altos, enquanto o segundo deixou tudo correr à vontade, fazendo suas farras, abusando das energias da mocidade. Mais tarde, na "idade madura", quando as ilusões já estão desfeitas, um irmão está em boa situação, com estabilidade, mas o outro, completamente despreparado, desgastado pelas extravagâncias, está de mãos vazias, nulificado na planície social. De quem a culpa? ... Iguais na origem, no lar de onde saíram, mas visivelmente desiguais na organização/temperamental, na vontade, nas inclinações.

A sociedade, em suma, é um somatório das desigualdades individuais. Seria então irrealizável a igualdade em termos absolutos. A reencarnação não invalida totalmente o livre-arbítrio. Justamente por isso, se estamos encarando a questão à luz do pensamento espírita, precisamos ter uma visão mais elástica. De um lado, há quem afirme, por exemplo, que as desigualdades são problemas sociais e, portanto, "nada têm a ver com a reencarnação"; do outro lado, com o mesmo acento categórico, afirma-se que as desigualdades sociais são "conseqüências de nosso passado", e, assim, seria inútil qualquer tentativa de modificação. Então, a única solução é "deixar como está". São entendimentos contrários à verdadeira índole da Doutrina Espírita, de um lado e do outro. Nossa posição há-de ser a do meio termo, nunca das definições intransigentes diante da realidade social. Há, de fato, situações que inferiorizam o indivíduo socialmente, durante uma reencarnação ou mais, por causa da rede expiatória de envolvimentos que o acompanham do passado. Se não cabem no vocabulário espírita as palavras "azar", "má sorte", "capricho do destino" e outras, de uso comum, naturalmente há uma razão para que certos casos perdurem na sociedade, a despeito de todo o empenho que se faça para afastá-los ou atenuá-los. Se a razão determinante do sofrimento ou das dificuldades não está nesta existência, teremos de encontrá-la no passado, sob a ação da lei moral de "causa e efeito", não pelo que os pais fizeram, mas pelo que o próprio culpado fez, não importa se neste ou noutro século. Daí, porém, não se segue que todas as injustiças da Terra, efeitos da maldade, do engodo e do orgulho, por exemplo, sejam projeções do passado e, por isso, irremediáveis. Não. Até certo ponto, as deficiências sociais podem ser retificadas pelas atitudes reparadoras, pela luta contra o mal e pelas reações da parte mais sadia da sociedade. E sempre houve, felizmente, em todos o grupos humanos, os elementos que não se contaminam, ainda que sejam obrigados a transitar pelas mesmas vielas por onde passam o ódio, a baixeza, o vício e a hipocrisia bem enroupada.

Os desafios são uma contingência desse estado de coisas, mas nem todas as ocorrências são fatais. A reparação das brechas que se abrem no organismo social exige a reforma periódica de suas estruturas. É um fenômeno inevitável, sem o que a sociedade não se adaptaria às mudanças impostas pelas necessidades. Mas as reformas estruturais não eliminam a relevância da reforma moral, é ponto em que insistimos. São instâncias concomitantes. A reforma de uma estrutura política, administrativa, religiosa ou educacional, por exemplo, pode ser muito inteligente, como boa base de sustentação, mas o funcionamento vai depender do homem. E se o homem não estiver preparado para conviver com os novos mecanismos, não apenas do ponto de vista intelectual ou técnico, mas também do ponto de vista moral, a melhor estrutura possível corre o risco da poluição, apesar das boas aparências. (...).

Que poderíamos esperar de uma casa muito bem traçada, muito bonita por fora, mas construída com material de péssima qualidade, sem alicerce seguro?

Então, embora as reformas de estruturas sejam necessárias, o equilíbrio social não dispensa a reforma moral de alto a baixo. Não se reformam costumes por leis ou pela força. Por mais bem intencionada e cuidadosa que seja uma lei, não está isenta de acomodações e distorções quando o homem quer usá-la em benefício de seus caprichos ou de conveniências ocultas. A lei por si só não reforma a sociedade, pois os resíduos da imoralidade e das artimanhas sempre subsistem enquanto o homem, por sua vez, também não se modifica interiormente. Dentro dessa concepção, que está na ordem geral das idéias que até aqui explanamos, naturalmente nos defrontamos com o problema da propriedade.

Como já recordamos, o Espiritismo nos põe diante de uma concepção igualitária quanto aos direitos essenciais da criatura humana. Mas também estabelece a distinção entre a propriedade privada e a propriedade destinada ao uso geral. Não usa terminologia jurídica nem muito menos formulações técnicas, mas divide, claramente, em termos técnicos, o bem comum, a que todos têm direito, e a fortuna de uso particular. Reconhecemos, por isso mesmo, a legitimidade da propriedade privada, obtida à custa do trabalho honesto, sem prejuízo de ninguém, como ensina a Doutrina. E porventura não tem o direito de usufruir o resultado de seu esforço todo aquele que trabalha e sabe perseverar e economizar para conseguir um padrão de vida melhor? É lógico e humano. Isto não implica aceitar ou defender a transformação de recursos ou bens de uso geral em propriedade particular, para o enriquecimento de uns poucos em desfavor de muitos. É o que significa, sem tirar nem pôr, a monopolização de um patrimônio coletivo. A propriedade e o capital são, portanto, valores relativos. Se a Doutrina Espírita não é contra o capital em si, coerentemente não apóia a designação depreciativa do dinheiro como o "vil metal". O homem é o responsável pelos efeitos do capital, pois o dinheiro é apenas um instrumento que tanto pode servir de peça decisiva de um sistema de corrupção e violência. O problema é com o ser humano, não é com o dinheiro, pois já sabemos muito bem que as melhores coisas deste mundo, quer materialmente, quer intelectualmente, podem ser usadas para o mal ou para o bem, na medida em que o livre-arbítrio pende para um lado ou para outro.

É o que aprendemos na Doutrina Espírita:
"Se a riqueza houvesse de constituir obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem, conforme se poderia inferir de certas palavras de Jesus interpretadas segundo a letra e não segundo o Espírito, Deus, que a concede, teria posto nas mãos de alguns um instrumento de perdição, sem apelação nenhuma, idéia que repugna a razão". (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI).

Coincidentemente - apesar da grande distância no tempo e nas circunstâncias - o presidente Franklin Roosevelt, dos Estados Unidos, chefe de uma nação capitalista, dizia isto:

"Os capitalistas vorazes serão devorados pelo fogo que eles atearam... O capital é essencial; razoáveis compensações ao capital são essenciais; porém o mau uso dos poderes do capital ou a egoística supervisão de seu emprego precisa ter fim, ou o sistema capitalista se destruirá pelos seus próprios abusos".

Roosevelt estava então fomentando a política do New Deal, um plano econômico realmente revolucionário. Roosevelt defendia até veementemente a propriedade privada, mas ressalvou logo que a propriedade "não pode ser sujeita à manipulação desumana dos jogadores profissionais da bolsa ou dos conselhos de administração". O sentido humano da propriedade, em suma. São idéias que se encontram com as idéias espíritas:

"O que por meio do trabalho honesto, o homem junta, constitui legítima propriedade sua, que ele tem o direito de defender, porque a propriedade que resulta do trabalho é um direito natural, tão sagrado como o de trabalhar e viver". (O Livro dos Espíritos - capítulo XI, parte 3a, nº 882).

Outra coincidência relevante, sobretudo pelo espaço de tempo (90 anos) entre o pensamento espírita e o pensamento de um economista contemporâneo, o que demonstra, mais uma vez, as antecipações da Doutrina Espírita em relação a problemas de nosso tempo:

1947. H. Hansen:
"Numa fase de industrialização e urbanização, o indivíduo não pode ordenar a sua vida isoladamente. Só conseguirá resolver os complexos problemas hodiernos mediante esforço conjugado e a ação cooperativa dos seus semelhantes".

1857. O Livro dos Espíritos:
"O homem tem que progredir. Isolado não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No isolamento ele se embrutece e estiola". 

No fundo, o que resulta de suas conceituações de origens tão diferentes é um apelo de ordem ética, porque contrário ao egoísmo, mas identificado com o espírito de solidariedade, que continua a ser uma força social das mais ponderáveis."Uma sociedade que se baseia na lei e na justiça de Deus - diz a Doutrina Espírita - deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação". É o caso da esmola, que humilha e não resolve os problemas. Mas o assunto provoca reflexões no campo sócio-econômico, o que será objeto de próximo capítulo.

*****

Texto publicado originalmente no livro "O Espiritismo e os Problemas Humanos". Edição USE, 1985. Primeira edição em 1948.

Deolindo Amorim (1906 e  1984)


06 janeiro 2014

Espiritismo e Humanismo - Deolindo Amorim


ESPIRITISMO E HUMANISMO

Comecemos por uma questão indispensável: sendo o Espiritismo uma doutrina muito ampla, há de ter, e tem mesmo, um conteúdo de humanismo em suas implicações. A palavra humanismo , como inúmeras outras palavras, já mudou de sentido mais de uma vez e, por isso, pode ser entendida em acepções diversas. É problema de semântica. O valor das palavras sofre influências da época, do meio e dos fatos novos. Com relação à predominância da Teologia, na Idade Média, segundo a qual o homem nada significava, porque "não caía uma folha das árvores sem a vontade de Deus", a noção de humanismo corporificou-se no homem como o eixo, o centro de tudo. Era a valorização do homem, que precisava ocupar seu verdadeiro lugar na Terra. O movimento renascentista, que sucedeu ao ciclo medieval, deu muito valor ao papel do homem no mundo. A palavra humanismo, dentro desse contexto, dava idéia de uma "tomada de posição", restaurando como que a supremacia do homem.

Com o decorrer do tempo, no entanto, surgiu um movimento novo, no Renascentismo (também chamado de Renascença ), definindo-se justamente pela fixação de certos padrões. Houve um momento de desordem espiritual, como é comum em todos os períodos de transição, uma tendência para o relaxamento, uma espécie de fobia, querendo acabar com as formas e os conceitos do passado. Justamente por isso, e para evitar a desagregação, ou talvez o caos, deu-se a "volta aos clássicos", isto é, um movimento que tinha por objetivo retomar o contato com as fontes gregas, restaurar as heranças clássicas da cultura. Humanismo, a esta altura, já significava não apenas a posição do homem, como expressão decisiva sobre a Terra, mas também o culto dos valores e da forma nas letras, nas artes, nos gostos, etc. Era realmente o retorno às "fontes clássicas". Humanismo, então, pressupunha o conhecimento das velhas matrizes do pensamento.

A idéia, de certo modo, ainda é válida, até hoje. É considerado humanista, no sentido antigo, aquele que tem uma cultura geral muito sólida, com fundamentos mais profundos nas ciências básicas, na história, nas línguas. Allan Kardec, por exemplo. Podemos considerá-lo pedagogo, moralista, pensador entre os mais autênticos, mas é bom não esquecer que sua formação, antes de tudo, era de humanista. Pelas questões que levantou, pela segurança com que formulou as teses fundamentais da Doutrina em seus diálogos com os espíritos instrutores e pelas próprias linhas mestras de sua estrutura intelectual, vê-se logo que havia, nele, os recursos culturais de humanista completo. (*)

Com a valorização da cultura especializada, entretanto, os humanistas clássicos já estão desaparecendo. O Brasil teve alguns deles e foram notáveis. E é o caso de nosso grande Rui Barbosa. Ainda há pouco, em artigo no "Anuário Espírita" de 970, de Araras, S. Paulo, escrevemos o seguinte: "Rui Barbosa era humanista, e dos maiores e mais completos do Brasil. Lia infatigavelmente. Além de portentoso saber jurídico, que era seu campo de atividades, tinha conhecimentos gerais de várias ciências, como de literatura, vernáculo etc. Entendia alguma coisa de Medicina, dizem que às vezes fazia diagnóstico, lia Homeopatia, leu Espiritismo... Hoje, porém, Rui certamente já não poderia, com a intensa vida profissional das “cidades trepidantes”, como o Rio, dedicar-se a tantos assuntos ao mesmo tempo. Outro humanista brasileiro: Pandiá Calógeras, que era engenheiro de minas, homem público, mas tinha conhecimentos positivos em vários campos do saber, fora de sua profissão. Capistrano de Abreu, homem sem curso acadêmico, de hábitos um tanto esquisitos, conseguiu formar um lastro admirável de conhecimentos lingüísticos, históricos, filosóficos, literários.

No meio espírita, e sem favor nem exagero, podemos apontar Carlos Imbassahy como verdadeiro tipo de humanista. E ele o era na plenitude da expressão exata. Ocorre-nos lembrar, entre outros, Ismael Gomes Braga, que também era um espírita de cultura humana muito extensa, embora muita gente só o conhecesse através do Esperanto, de que foi, na realidade, um idealista. Mas Ismael tinha boa bagagem de humanidades.

Humanista, em suma, é aquele que, não tendo formação especializada ou não sendo propriamente um técnico, tem conhecimentos fundamentais em vários sentidos. Não se deve confundir, todavia, o vero humanista com o simples "livresco", que lê um pouco de tudo, mas sempre "por alto". Mas o mundo de hoje é dos técnicos, dos especialistas, dizem. É verdade, até certo ponto. Apesar disto, é preciso notar que a especialização muito rígida e fechada pode criar certas deformações. As pessoas que se especializam demais levam certa vantagem na vida prática, mas ficam muito limitadas, desde que não cuidem de enriquecer sua cultura através de outros campos, ainda que seja apenas por diletantismo.

Afinal, que tem tudo isso com o Espiritismo? Vamos ver. Se o título desta exposição é "Espiritismo e Humanismo", claro que devemos relacionar um assunto com o outro. E o que iremos fazer, daqui por diante. O conceito de humanismo, nos dias presentes, principalmente depois da II Guerra, tomou dimensões diferentes. Já se entende, hoje, por humanismo não apenas conhecimentos gerais, bebidos nas "belas letras", como se dizia antigamente, mas também a preocupação absorvente com o homem. A acepção atual de humanismo volta-se para o homem, antes de tudo, justamente porque o homem passou a ser, agora, o centro de todas as cogitações.

Humanismo é, portanto, a filosofia que visa ao homem, à dignidade da pessoa humana, de que tanto se fala, muitas vezes apenas teoricamente. E como considerar criteriosamente essa nova concepção à luz da Doutrina Espírita? Posta a questão em termos espíritas, devemos saber, preliminarmente, se a Doutrina ficou apenas no plano ideal ou se tem, na verdade, um conteúdo humano. Neste particular, a Doutrina Espírita é profundamente humanista. Não é exagero, é observação. Mas isto é apenas uma premissa, pois não podemos parar aqui.

Quando dizemos que o Espiritismo é uma doutrina profundamente humanista, claro que estamos vendo o conjunto, não estamos considerando apenas um aspecto, seja qual for a relevância imediata desse aspecto. Se quisermos inicialmente situar a Doutrina dentro do contexto histórico do humanismo, segundo a compreensão antiga de conhecimentos gerais, "letras clássicas" etc., encontraremos elementos que nos permitem formar uma síntese, englobando vários subsídios da cultura humana: Biologia, Psicologia, Física e assim por diante. Há umas tantas questões, por exemplo, em que a Doutrina Espírita, embora sem minúcias técnicas, leva o estudioso forçosamente a ciências pouco familiares aos conhecimentos comuns, como é o caso da Geologia e da Astronomia. O objetivo da Doutrina não é aprofundar o estudo da formação da Terra nem tampouco cogitar de mecânica celeste ou movimento dos astros, mas a tese da evolução, que é uma de suas teses fundamentais, não pode deixar de suscitar inquirições sobre as formas de vida e a sucessão das camadas geológicas, o meio físico etc. A geologia histórica, portanto, há de entrar em cogitações, pelo menos em determinado momento. A tese da pluralidade dos mundos habitados — tese básica da Doutrina — pressupõe inevitavelmente algumas noções gerais de Astronomia. Cabe aos especialistas, é óbvio, a palavra técnica, o emprego da terminologia própria, mas esses problemas podem muito bem ser apreciados no quadro dos conhecimentos gerais, no ponto em que se tornam necessários, como elementos auxiliares. É o que se dá com a Doutrina Espírita.

A Doutrina também envereda algumas vezes pelas ciências sociais, levantando questões atinentes à Sociologia, principalmente.

>E a Doutrina, por sua vez, também não discute o problema da criminalidade em face das condições sociais? Forçosamente vai entrar na Criminologia, não como especialidade, mas naturalmente como disciplina subsidiária de comprovação. Podemos observar, ainda, que a condensação geral das teses espíritas incide no problema racial, em passagens especiais, quando trata das desigualdades das raças humanas e dos caracteres dos tipos representativos de certos grupos. É Antropologia. Naturalmente o antropólogo de profissão poderá formular algumas questões de outro modo, com esquematizações mais técnicas, mas verdade é que a Doutrina também toca em problemas de Antropologia. Fá-lo por decorrência natural de suas premissas gerais e não com o propósito de dar soluções específicas, fora de sua verdadeira problemática.

Tudo isso, evidentemente, em função de uma tese central: a reencarnação. O desdobramento da Doutrina, como se vê, pode estender-se a diversos ângulos da cultura. Isto não quer dizer que a Doutrina Espírita seja obrigada a fazer uma sistematização dessas disciplinas ou pretenda monopolizar todo o saber, como se fosse uma enciclopédia no estilo antigo... Não ! Essa conjunção de proposições e conhecimentos diversos vem apenas mostrar a extensão cultural do Espiritismo, fazendo ver, notadamente àqueles que têm ainda noções muito incompletas ou falsas, que a Doutrina Espírita não é um manual ou breviário de "falar com os mortos" ou simples tabela de regrinhas para "adivinhar o futuro". Espiritismo é conhecimento, e conhecimento no sentido intensivo. E nesta ordem de idéias, conseqüentemente, que a Doutrina Espírita se torna humanista à medida que notamos suas relações com diversas províncias da cultura.

Para a verificação de nossa assertiva, bastaria observar a distribuição e a convergência das matérias dispostas em três obras básicas: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns e A Gênese . São livros em que se condensam os princípios gerais da Doutrina sem prejuízo do fio de seqüência que se prolonga através das outras obras. Não incluímos, aqui, O Evangelho Segundo o Espiritismo , justamente porque esta obra é o coroamento, é o vértice de toda a estrutura da Doutrina, representando a essência moral, o código de ética por excelência.

Queremos dizer, em suma, que a organização da Doutrina, em suas afirmações, não se limita pura e simplesmente ao fato das comunicações, fato que teria pouca significação, se fosse apenas objeto de curiosidade, mas a comunicação em si mesma envolve uma série de questões. O caso da obsessão ou da "loucura sem lesão" porventura não nos obriga a uma incursão na fisiologia cerebral? E disciplina médica, mas entra forçosamente no exame do problema mediúnico. Se a Doutrina discute o problema da estrutura psíquica do indivíduo em relação com as desigualdades espirituais, determinando as variações de comportamento ou de reações em face do meio biológico, do meio cósmico e do meio social, naturalmente está nos domínios da Psicologia.

Poder-se-á dizer que a Psicologia de hoje não se interessa mais pela alma como entidade independente, porque considera essa concepção mais filosófica do que científica. Diga-se que é metafísica, é psicologia tradicional ou coisa equivalente, mas o que estamos querendo demonstrar é que as preocupações do Espiritismo não dizem respeito exclusivamente ao problema da alma (espírito) "no espaço", mas também às relações da alma com o corpo, sua influência na formação do ser e no processo evolutivo. Temos, aí, problemas de Biologia, como de Fisiologia. E tudo isso está no corpo da Doutrina.

Quando a Doutrina, finalmente, estuda as funções do perispírito no organismo, os fenômenos de "desdobramento" e as materializações, os deslocamentos de objeto sem contacto, vai provocar a discussão de problemas de peso, pulsações, estabilidade, ação sobre a matéria, não é verdade? E não entram, aí, certas leis de Física e de Fisiologia? E não há fenômenos mediúnicos em que se dá alteração até na organização vocal? Diante de fenômenos tão inusitados, tão impressionantes, poder-se-ia então negar a correlação do Espiritismo com alguns ramos da Ciência? E não seria até o caso de fazermos uma revisão das noções que aprendemos acerca da matéria?...

Com estas considerações, lançadas de passagem ou de simples "pinceladas", como geralmente se diz, objetivamos apenas fixar um ponto: a amplitude do Espiritismo perante os conhecimentos gerais. Cabe, aqui, portanto, e com inteira propriedade de expressão, chamá-lo de Doutrina humanista.

Vamos a outro ponto: o conceito moderno de humanismo , o que, aliás, já foi referido. A Doutrina Espírita é humanista em suas conseqüências, porque se preocupa, em tudo por tudo, com o homem, e propõe soluções para os problemas que dependem da sociedade. Há problemas, como se sabe, que estão vinculados a existências passadas e fazem parte do chamado "acervo cármico" do indivíduo, como dizem os teosofistas, mas também há problemas que a sociedade pode evitar e há dificuldades que a organização social deve resolver. Logo, a Doutrina Espírita não está à margem da vida social. Se, portanto, o que se entende, hoje, por humanismo é o interesse pelo homem, é a preservação de sua dignidade, é o aprimoramento das instituições sociais, a Doutrina Espírita é humanista, sem tirar nem pôr.

(*) O curso de preparatórios, que se fazia anteriormente para chegar a escolas superiores, chamava-se "curso de humanidades", porque compreendia os conhecimentos gerais considerados indispensáveis à formação básica, antes de entrar em Faculdade.

Deolindo Amorim (1908-1984)

Artigo transcrito do livro Idéias e Reminiscências Espíritas, de Deolindo Amorim, lançado pelo Instituto Maria, de Juiz de Fora (MG), em 1980.


27 dezembro 2013

Desunião e Divergência - Deolindo Amorim


DESUNIÃO E DIVERGÊNCIA

Nem sempre divergência significa desunião. Se é verdade que as divergências ou discordâncias algumas vezes já comprometeram a união entre pessoas e grupos, não se deve dar a este fato a extensão de uma regra geral, pois é apenas um episódio discrepante. Onde há duas pessoas frente a frente sempre há o que ou em que discordar. Seria impossível a existência de um grupo humano, por menor que fosse, sem um pensamento discordante, sem uma opinião contrária a qualquer coisa. Entre dois amigos, como entre dois irmãos muito afins pode haver divergência frontal ou inconciliável em matéria política, religiosa, social etc., sem que haja qualquer “arranhão” na amizade. Discutem, discordam, assumem posições opostas, mas continuam unidos.

Justamente por isso e pelo que observo na vida cotidiana, não creio que seja necessário abafar as divergências ou evitar qualquer discussão, ainda que em termos altos, simplesmente para preservar a união de um grupo ou de uma coletividade inteira. Seria o caso, em última hipótese, de acabar de vez com o diálogo e adotar logo um tipo de vida conventual. 

O diálogo é uma necessidade, pois é dialogando que trocamos ideias e permutamos opiniões e experiências. Uma comunidade que não admite o diálogo está condenada, por si mesma, a ficar parada no tempo. Cada qual naturalmente deve preparar-se ou educar-se espiritualmente para discutir ou divergir sem prevenções ou ressentimentos.

O fato de não concordarmos com a opinião de um companheiro neste ou naquele sentido ou de não adotarmos a linha de pensamento de uma instituição deve ser encarado com naturalidade, mas não deve servir de motivo (jamais!) para que mudemos a maneira de tratar ou viremos as costas a alguém. Seria o caso de perguntar: e onde está o Evangelho, que se prega a todo momento?... Como falar em Evangelho, que é humildade e amor, e fugir a um abraço sincero ou negar um aperto de mão por causa de uma divergência ou de um ponto de vista.

Então, não é a divergência aqui ou ali que porventura “cava o abismo da desunião”, é a incompreensão, o personalismo, o radicalismo do elemento humano em qualquer campo do pensamento. Já ouvi dizer mais de uma vez que os espíritas são desunidos por causa das divergências internas. Sinceramente, não acompanho este ponto de vista. Acho que não há propriamente desunião, mas apenas desencontro de ideias, fora dos pontos cardeais da Doutrina. Somos uma comunidade composta de gente emancipada e por isso mesmo, o campo está sempre aberto ao estudo e à crítica. 

Certos observadores gostariam, por exemplo, que o Movimento Espírita fosse um “bloco maciço” sem nenhuma nota fora do conjunto. É uma pretensão utópica, pois não há um movimento religioso, político ou lá o que seja sem alguma voz discordante, aqui ou ali.

Tomava-se como referência, até bem pouco tempo, a “unidade monolítica” da Igreja Católica. Unidade relativa, diga-se de passagem. E o que se vê hoje? O fracionamento cada vez mais acentuado. Os grupos conservadores, porque se batem pela manutenção da Igreja tradicional, estão enfrentado os grupos renovadores, partidários de modificações estruturais; grupos que querem a Igreja fora da política estão em conflito com os grupos que querem justamente uma Igreja participante no campo político

Há, portanto, demanda de alto a baixo, com programas de reforma na teologia, como na administração e na disciplina eclesiástica. Logo, a Igreja não oferece hoje a unidade doutrinária que nos apontam às vezes, como modelo. E o Protestantismo, que é outro grande movimento religioso, não se divide em denominações e seitas, com características diferentes entre si? Batistas, presbiterianos, adventistas, congregacionalistas etc. Não desejo criticar procedimentos religiosos, pois todos os cultos são respeitáveis, mas estou anotando fatos.

Voltemo-nos para mais longe, fora da faixa ocidental, e lá está o Budismo, também um movimento expressivo. Não cabe, aqui, discutir se o Budismo é ou não religião. Seja como for, ocupa um espaço considerável, mas também se ramificou. Existe, hoje, pelo menos mais de uma escola budista. O Positivismo, que viera da França, teve muita força no Brasil, mas não se manteve íntegro, pois o grande bloco se desmembrou entre científicos e religiosos no século passado. Sobrevive, hoje, uma religião sem Deus, sem cogitação acerca da vida futura, mas um culto ritualizado, com sacerdócio. Muitos discípulos de Augusto Comte não queriam, de forma alguma, que o Positivismo se transformasse em religião e, por isso, eram chamados de científicos, ao passo que muitos outros absorveram logo o Positivismo como Religião da Humanidade. E realmente implantaram um culto religioso no Apostolado Positivista. Logo, também o Positivismo não conseguiu sustentar um padrão uniforme.

O fenômeno que se observa no meio espirita é muito diferente. Sempre houve divergências, mas não se quebrou a unidade doutrinária, que é fundamental. O Espiritismo continua a ser um só, inconfundível, não se dividiu em diversos espiritismos. Há, entre nós, opiniões discordantes em determinados aspectos, porém, os princípios são os mesmos, não se alteraram. Não formamos seitas nem correntes à parte, apesar das divergências. Então, não há motivo para que estejamos vendo desunião onde há simplesmente desacordo de ideias.

Deolindo Amorim

Fonte: Mundo Espírita, abril de 1984, Curitiba-PR. Órgão de divulgação da Federação Espírita do Paraná.


08 dezembro 2013

Intolerância e Preconceito - Deolindo Amorim


INTOLERÂNCIA E PRECONCEITO

Em matéria de prevenções contra qualquer “novidade”, há exemplos abundantes, quer na seara religiosa quer na seara científica. Já vimos, embora de relance, algumas ocorrências características dessa mentalidade. Nem toda pessoa que cuida de ciência ou faz carreira em atividade cientifica é cientista de verdade, pois o cientista, na acepção integral, precisa ter vocação, aptidões e qualidades especiais. Há muita confusão a este respeito.

Do mesmo modo, nem todo aquele que faz um curso de Direito é jurista de verdade; mas quase todo mundo confunde o jurista com qualquer bacharel, pelo simples fato de ser portador de um diploma. Há pessoas que fazem curso de especialização, pertencem a sociedades científicas etc., mas não têm, na realidade, uma formação compatível com a índole da Ciência. É o caso daqueles que ensinam ciências nas escolas, fizeram todos os cursos, lidam com materiais de laboratório, mas nem sempre reagem como homem de mentalidade científica, porque repelem a priori toda ideia nova, qualquer processo que seja diferente dos padrões aceitos. Há ocasiões em que raciocinam mais em termos de fé, porque prejulgam e às vezes chegam ao extremo de condenar aquilo que ainda não conhecem, ainda não examinaram. Tal procedimento não é de um homem de cultura moderna, é de um vigário de aldeia no século 16.

Os fatos demonstram, a cada dia, que não basta fazer um currículo universitário, não basta apresentar títulos e láureas para ficar verdadeiramente credenciado como cientista. Não. A mentalidade do cientista define-se pelas suas concepções, pelo arejamento de sua cultura, pela independência de suas opiniões, pela sua disposição natural de procurar as manifestações da verdade, venham de onde vierem: o cientista afirma-se, finalmente, pelos horizontes de seu espírito, nunca pelas medalhas que ostenta no peito ou pelos méritos exteriores. É uma qualidade intrínseca, não é extrínseca. Há pessoas que não têm curso sistematizado, nunca passaram por uma Escola Superior, mas possuem naturalmente, uma embocadura científica, uma predisposição muito acentuada para os raciocínios exatos; na prática, no modo de reagir e proceder, revelam muito mais espírito científico do que certas “eminências galardoadas”.

Não é a erudição por si só, como não é o planejamento de um curso acadêmico que faz o cientista; a cultura regular fornece apenas os instrumentos, dá orientação básica, mas ninguém sai cientista de uma Universidade, por mais adiantada que seja ela. É preciso ter formação, e a formação é inerente à estrutura psicológica do indivíduo. Há muita gente, por exemplo, que nunca fez curso de Direito, nunca entrou em Faculdade, mas tem muito mais senso jurídico do que determinados bacharéis.

O espírito cientifico, se é legítimo ou autêntico, nunca repele uma ideia, uma descoberta, sem exame. Justamente por isso, o patrimônio da Ciência sempre se enriqueceu e há de se enriquecer cada vez mais, aproveitando achegas de toda a ordem, até mesmo quando trazidas por elementos leigos.

Nosso índio, lá nas selvas, não ofereceu tanto material terapêutico ao europeu? Não foi aqui, nos aldeamentos indígenas, com a sua “medicina de beberagens”, que os primeiros pesquisadores europeus descobriram as propriedades curativas de certas plantas? Evidentemente o homem de ciência não iria ficar nas “beberagens”, fazendo o empirismo dos índios, mas aproveitou o material, observou bem os processos por eles empregados e, depois, foi aperfeiçoar as técnicas na Europa. Mas levou daqui as primeiras noções, o índio foi o instrumento dessa contribuição cientifica, embora sem saber do papel que estava desempenhando.

A visão da ciência tem de ser sempre e cada vez mais ampla. É bom lembrar que um fabricante de cerveja — Joule — e que nem por isso deixou de ser um físico inglês, fazendo as suas observações nas horas vagas, realizou importantes experiências sobre conservação de energia. Quem o diz é Albert Einstein, em trabalho de colaboração com L. Infield, no livro “Evolução da Física” (Zahar Editores) ). Lá está escrito: “É uma estranha coincidência que todo trabalho fundamental relacionado com a natureza do calor tenha sido realizado por físicos não profissionais”, que consideravam a física como “passatempo”.

A história das ciências, quer nos domínios da Física e da Química, quer nos da Biologia ou de outros ramos, pode enumerar muitos exemplos de pessoas que, não tendo carreira científica, não sendo profissionais, fizeram estudos valiosos: Não seria razoável rejeitar uma colaboração, que pode até provocar uma descoberta, pelo fato de se tratar de elemento não integrado nas corporações acadêmicas.

O horror a inovações, como se vê, tanto se manifesta na vida religiosa, como em qualquer campo de atividade cultural. Sempre houve espíritos avessos à renovação de ideias ou de hábitos. O pior, ainda mais, é que certas reações chegam a tomar feição de guerra de prevenções e ódio, por causa de uma teoria ou de uma técnica, desde que saia dos moldes habituais. O caso da Homeopatia, por exemplo. Hahnemann sofreu hostilidade franca dentro do meio médico. Aqui mesmo, no Brasil, quando se iniciou a difusão da nova doutrina, ainda no tempo do Império, a campanha movida pela corrente alopata foi muito forte. E a Homeopatia, a esse tempo, já era muito conhecida no Velho Mundo. Até o clero, na Bahia, também levantou desconfianças. Quando os homeopatas tentaram introduzir o ensino da doutrina hahnemanniana, na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, encontraram oposição frontal. Não houve muita tolerância na cúpula médica. Muita gente combateu a Homeopatia sem fazer estudos sérios, sem qualquer experiência.

O mesmo critério de julgar a priori ainda se observa, até hoje, no que respeita ao Espiritismo e, principalmente, aos médiuns. É verdade que há muita exploração e muita ignorância no campo mediúnico, mas o estudo criterioso pode muito bem separar o “joio do trigo”.

O Espiritismo é combatido em dois flancos: a igreja e a classe médica, em parte. Não podemos generalizar, tanto mais quanto já é grande o número de médicos nas fileiras espíritas. Mas o combate sistemático ao Espiritismo peca pela base, porque os que o atacam não fazem estudos, não procuram conhecer as verdadeiras teses espíritas.

O problema da Igreja é com a Doutrina, por causa dos seus pontos de fé; mas o problema médico, que não cogita do aspecto doutrinário, está justamente no exercício da mediunidade. É o ponto nevrálgico.

Todos nós sabemos que há muita coisa errada na prática mediúnica, muito abuso, em grande parte decorrente do espírito de exploração, por um lado, e da falta de estudo, por outro lado. Também sabemos que o receituário constitui um problema dos mais delicados, inclusive para o próprio meio espírita, justamente por causa de certos fatos desagradáveis.

Mas, é indispensável considerar, antes de tudo, que o aspecto negativo é apenas uma contingência da ignorância e das fraquezas humanas a que os médiuns também estão sujeitos, ao passo que o aspecto positivo, que sempre existiu e existe, ainda não foi suficientemente estudado no meio médico de nossa terra e de outros países, onde ainda se pede a prisão de médiuns, como se fossem elementos marginais ou perigosos.

O lado mediúnico pode ser considerado fora da área espírita, em determinados casos, porque nem todo médium é espírita. A faculdade mediúnica — é ensino rudimentar da Doutrina — não depende das ideias, das qualidades morais, nem da crença do médium.

O uso da mediunidade, entretanto, é um problema essencialmente moral. E é com este ponto, principalmente, que a Doutrina Espírita tem que ver, em todos os casos. Isto, porém, é o que todos nós sabemos, porque estamos no movimento espírita, já nos familiarizamos com as obras doutrinárias e, mal ou bem, nos apresentamos como espíritas.

Ainda que este ou aquele caso de médium não seja, a rigor, um caso de Espiritismo, desde que o médium não tenha compromissos com a Doutrina e queira fazer da mediunidade o uso que bem entender, o certo é que, no fim de tudo, aparece o Espiritismo, porque a maioria, em seus raciocínios simplistas, entende que todo médium é espírita e, por esse prisma, faz os seus julgamentos. O Espiritismo é sempre envolvido...

Seja como for, e deixando de lado os princípios doutrinários e a situação particular do médium, se é espírita, budista, católico ou lá o que seja, a mediunidade em si deve ser estudada seriamente, mas com critério científico. Isto ainda não se fez nas altas instituições médicas. Combate-se, condena-se, reclama-se a prisão, mas não se faz um exame in loco, não se procura selecionar os casos para separar “a verdade da impostura”.

Veja-se o caso Arigó (1), que é, hoje, um assunto de repercussão internacional. Não interessa discutir crença nem deduzir consequências filosóficas ou religiosas, nem igualmente saber o que o médium pensa em matéria de fé: o que interessa, ou devia interessar à Medicina, são as operações que ele faz, por processos rudimentares, à luz do dia, para quem quiser ver com os próprios olhos, inteiramente fora das técnicas e das precauções normais da cirurgia. Mas faz, não é verdade? Como? Por que? Como pode ser?... Partindo destas indagações preliminares, mas necessárias, as corporações médicas, com o verdadeiro espírito cientifico, já deveriam ter designado comissões de especialistas para um exame direto.

Que se fez, porém? Nada disto. O que se viu foi a prisão do médium, com processo criminal, e a pedido exatamente de uma Associação Médica!... Qual a sociedade científica que teve o cuidado de, antes de qualquer pronunciamento, mandar chamar o médium Arigó para um estudo geral, com observação de todos os aspectos do caso?... Enquanto vários homens de ciência, de outros países, estão interessados em estudar demoradamente o caso Arigó, aqui, no Brasil, o médium foi encarcerado, respondeu a um processo e, por fim. saiu absolvido e aclamado por multidão compacta. Tudo isto seria evitado, se houvesse um critério científico. Não houve infelizmente. E do que se acusou Arigó? Qual o seu crime?...

Estaria Arigó enquadrado na figura penal do charlatão? Ora, charlatão é impostor, o indivíduo que impinge falsas drogas ou se apresenta com uma qualidade que não possui. Arigó nunca vendeu e não vende drogas de falsas propriedades curativas. Não é um impostor, portanto; nunca se disse médico e sempre diz que não é ele quem opera; declara abertamente que é o Dr. Fritz (espírito) quem faz as operações, pois ele, pessoalmente, nada pode fazer de si mesmo. Seria charlatão, incurso em contravenções penais, se algum dia se dissesse médico ou atribuísse aos seus méritos pessoais o resultado das operações de que os jornais dão notícia. (O autor deste artigo esteve em Congonhas e viu Arigó “virar” os olhos de dois pacientes com uma faca comum e, logo depois, os operados saiam da sala, normalmente).

Se Arigó não é médico e não se apresenta como tal; se não recebe dinheiro dos que o procuram, porque vive do seu emprego e tem, por isso mesmo, um horário determinado para os trabalhos mediúnicos, fora do serviço; se ele próprio confessa francamente que as operações são feitas pelo espírito que o assiste, onde está o charlatão, que não explora ninguém, não se considera milagroso, não faz comércio com a faculdade mediúnica?...

Se ele faz intervenções com êxito sem ser médico, sem conhecer técnica operatória e sem utilizar anestesia nem os instrumentos da cirurgia, e se já está provado que não houve até hoje um caso fatal, se nenhum paciente ficou inutilizado por causa disto, é o caso, então, de algum recurso diferente, seja extra-humano, seja de natureza ainda desconhecida dentro dos conceitos gerais da Medicina.

Por que as corporações médicas ainda não foram testar os conhecimentos desse espírito, uma vez que o médium é leigo no assunto, pois funciona apenas como instrumento? Poderiam fazê-lo, por simples experiência, estabelecendo uma conversa, em linguagem técnica, quando Arigó estivesse mediunizado. Se realmente o espírito do Dr. Fritz fosse um cirurgião, aguentaria uma interpelação em termos médicos, poderia dar respostas certas sobre uns tantos problemas pertinentes à profissão; se, porém, o espírito nada dissesse ou respondesse tolices, revelando completo desconhecimento da Medicina; ou seria um embusteiro, muito ignorante, ou não seria espírito. Seria o próprio médium, que estaria mistificando ou “inventando” o nome de um espírito.

Admitindo-se que fosse mistificação, e que não houvesse espírito algum nem tivesse existido o Dr. Fritz, como explicar as operações sem anestesia, sem os cuidados mais comezinhos da cirurgia, sem o instrumental apropriado? Seria habilidade excepcional de Arigó? Ainda que fosse ele muito hábil para fazer tudo isso em poucos minutos, não poderia evitar hemorragias e outras consequências, como não poderia prever um acidente operatório. Ainda não houve desses casos. Então há qualquer elemento imponderável, qualquer interferência transcendental ainda não identificada, desde que não seja admitida a existência do espírito.

Por que, então, as corporações médicas não estudam diretamente o problema Arigó, ainda que pondo de lado a questão do espírito? Infelizmente, não foi este o critério adotado. Em lugar de observações rigorosas, com espírito científico, porque se trata de alguma coisa inabitual, o que se deu, lamentavelmente, foi a prisão do médium, como se ainda estivéssemos nos tempos das “bruxas” da Idade Média.

Tudo isto demonstra, enfim, que não é somente do lado religioso que há bitolamento, mas também do lado científico, com o mesmo espírito de intolerância dos processos inquisitoriais. Quem não se lembra da campanha contra o movimento espírita, em 1939, no Rio de Janeiro, por causa da Hora Espírita Radiofônica? (2) Qual o objetivo da campanha? Impedir que se difundissem os princípios espíritas pelo rádio. De onde partiu essa infeliz iniciativa? De uma Sociedade Médica... A fonte é outra, mas o sentido é o mesmo: puro sectarismo, que tanto existe nas corporações religiosas, quanto nas agremiações científicas, embora seja paradoxal.

É bom lembrar, finalmente, que a campanha médica contra o Espiritismo não produziu efeito. Como decorrência do ambiente, que logo se formou, alguns jornais abriram suas colunas em defesa da causa espírita. De tudo isto, resultaram algumas ocorrências benéficas, começando pela doação de um terreno para a construção do Hospital Espírita Pedro de Alcântara, no bairro do Rio Comprido. Pouco depois, como reação à campanha, promoveu-se o I Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas, no Rio, tendo-se realizado a sessão inaugural na ABI [Associação Brasileira de Imprensa], no dia 15 de novembro de 1939, data comemorativa do 50° aniversário da República Brasileira. Também, como reação, o saudoso confrade médico dr. Levindo Melo arregimentou diversos colegas seus, espíritas, e muitos outros confrades, para a fundação da Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro. Ainda houve outras ocorrências, provocadas pela atitude de elementos hostis na classe médica.

Queremos concluir, dizendo apenas que a intolerância, seja no meio religioso, seja no meio médico, como também no meio espírita é sempre prejudicial à cultura e ao progresso do espírito. Ninguém possui a verdade integral, quer em ciência, quer em filosofia, quer em religião. Justamente por isso, devemos procurar a luz do conhecimento, observando, estudando e raciocinando sem preconceitos.

Notas:

(1) José Pedro de Freitas, mais conhecido como Zé Arigó, foi um médium de cura, médico-médium, nascido em Congonhas-MG em 18 de outubro de 1922 e desencarnado em 11 de janeiro de 1971, vítima de acidente de carro. Recebia o espírito Dr. Fritz, médico alemão desencarnado durante a I Guerra Mundial, e operava catarata, abcessos, quistos e tumores munido apenas de um canivete ou faca, sem assepsia ou anestesia. Chegou a ser condenado por curandeirismo e exercício ilegal da medicina e atraiu o interesse de pesquisadores estrangeiros, tornando-se uma celebridade no meio espírita e no campo da paranormalidade.

(2) “A Hora Espírita Radiofônica" surgiu em 1º de junho de 1939, no Rio de Janeiro e tornou-se o maior programa espírita de rádio de sua época, apresentado pelo radialista João Pinto de Sousa. A equipe do programa contava com Leopoldo Machado, como diretor geral. Guillon Ribeiro e Manoel Quintão, ambos da FEB, dentre outros, eram encarregados pela seleção do material. O dr. Henrique Andrade prestava consultoria jurídica. (Fonte: “Subsídios para a história da Radiodifusão Espírita”, artigo de Eduardo Carvalho Monteiro).


Fonte: Revista Internacional de Espiritismo, dezembro de 1968, Matão-SP.

Deolindo Amorim


26 novembro 2013

Ética e Progresso - Deolindo Amorim


ÉTICA E PROGRESSO

Assim como o organismo humano e o organismo animal estão sujeitos a doenças, muitas vezes incuráveis e dolorosas, também o organismo social adoece em pequena ou grande escala. Por isso mesmo, há uma disciplina que se ocupa justamente das doenças da sociedade: a Patologia Social. É matéria, principalmente, do interesse dos sociólogos, antropólogos e especialistas em Psicologia Social.

Mas, não se deve estabelecer analogia entre as doenças da sociedade e as doenças do ser humano, individualmente, como já se fez noutros tempos. Sim, noutros tempos, porque havia em determinados círculos intelectuais, a bem dizer no apogeu da concepção positivista, a ideia de que os fenômenos sociais têm correspondência com os fenômenos biológicos. Então, as doenças do indivíduo e as da sociedade poderiam ser consideradas analogicamente. E não faz mal lembrar que, por influência desse pensamento, a Psicologia ficou “enquadrada” na Biologia por muito tempo, tendo-se tornado ciência autônoma à custa de muita discussão e, assim, pela força mesma das coisas.

É certo que a sociedade, com os seus desequilíbrios, concorre muito para que indivíduos e grupos adoeçam. Vive-se, hoje, por exemplo, em constante estado de tensão, porque a maioria está ficando cada vez preocupada com a poluição nos grandes centros urbanos, a “disparada” do custo de vida, a insegurança nas ruas, nos ônibus, no trabalho e até mesmo dentro de casa, onde cada qual deveria ter o seu refúgio tranquilo, depois da luta cotidiana do ganha-pão.

Alguém já disse que estamos sob uma “civilização do medo”. Realmente. Tem-se medo de tudo, hoje em dia, porque os perigos acompanham os passos de todos, homens e mulheres, moços e velhos. É inevitável, pois, que a repercussão da própria inquietação social provoque abalos emocionais muito profundos na vida pessoal e abra caminho para neuroses, distúrbios cardíacos, formação de úlceras etc. E se o elemento humano já está um pouco predisposto, obviamente ainda será mais rápido o efeito da conjuntura social, cujos atritos afetam o sistema nervoso de muita gente. Todavia, pelo que se pode colher através de estudos divulgados atualmente, até certo ponto há uma relação entre a patologia social e a patologia individual.

As “doenças da sociedade”, como dizem alguns observadores, não podem ser equiparadas indiscriminadamente às doenças do homem em si mesmo, uma vez que os mecanismos biológicos são de natureza diferente da natureza dos mecanismos que acionam os processos sociais. Já se cometeu esse engano anteriormente — convém dizer de novo — porém, hoje os estudos sociais têm uma visão muito mais lúcida e desenvolvida a respeito das relações do ser humano com o meio social.

O que existe, entretanto, e é justamente o que nos interessa, é a influência das tensões sociais no psiquismo individual, por causa dos traumas e dos abalos emocionais a cada hora. As notícias de tragédias, roubos, assaltos, suicídios, desfalques vultosos, assim como de perseguições e pressões políticas, muitas vezes exploradas com ênfase na TV ou nas manchetes, sensibilizam imediatamente e causam transtornos profundos em muitas pessoas. É o ônus que se paga ao desenvolvimento tecnológico da comunicação. Por isso mesmo, há pessoas que resolveram desligar-se de tudo e não tomar conhecimento de notícias, justamente para que não sejam emocionalmente envolvidas.

Ainda que seja discutível a designação de patologia social para os que não veem propriedade nessa expressão, verdade é que a sociedade tem aspectos negativos ou doentios. E uma sociedade cujas crônicas se enchem diariamente de crimes, violências e degradação moral não é realmente uma sociedade doente?

O fenômeno, infelizmente, não está configurado entre as fronteiras de um país, pois é de ordem geral. Se existe, de fato, um aspecto doentio na sociedade, e não seria possível fechar os olhos à evidência, pois os tumores e as chagas sociais são ostensivas e deprimentes, precisamos alargar a nossa ótica e observar também o aspecto sadio, isto é, o que vemos de grande e humanitário em todas as latitudes da paisagem social.

Ao lado da miséria material e da miséria moral, tanto quanto do egoísmo e da velhacaria ou da desumanidade e do vício, que corrompe e degrada, estão os belos e edificantes exemplos de amor e renúncia, dedicação e dignidade, contrabalançando a onda de ódio e decadência moral. Há muita gente trabalhando de corpo e alma em benefício do próximo, desinteressadamente; muita gente, afinal, que está curando as feridas da alma nos organismos individuais para curar as feridas do organismo social. Neste particular, a ação espírita está desempenhando um papel dos mais positivos.

Estão aí, à vista de todos, as obras de assistência à infância e à velhice, obra criada e sustentada com amor, acima dos próprios interesses pessoais em muitos casos. O trabalho de reerguimento espiritual e de socorro material realizado por equipes espíritas nos ambientes mais obscuros da sociedade, assim como nas prisões e nos pontos mais afastados dos centros asfaltados, é um esforço persistente e desprendido em benefício da própria coletividade.

Não se trata apenas de dar o pão para o corpo ou vestir os maltrapilhos, que inspiram piedade, pois é preciso, indispensavelmente, esclarecer e educar a criatura humana, ajuda-la a reerguer-se conscientemente pelo conhecimento e pelo amor. Pois é exatamente o que faz o elemento espirita.

Sempre que se consegue retirar o homem do antro do crime e do vicio, reintegrando-o na convivência pacífica e honesta, naturalmente se dá um passo a mais na eliminação das feridas que sangram na sociedade.

Neste grande trabalho, muitas vezes anônimo, se engajam obreiros de diversos credos, como também pessoas vinculadas a vários movimentos, religiosos ou não. Tem, aí, o movimento espírita uma posição relevante, justamente porque vem realizando cada vez mais um trabalho constante de educação, assistência e reerguimento espiritual, sem o que não haverá melhoramento do homem em termos profundos.

Seria difícil firmar um diagnóstico exato dos males sociais. Cada qual encara os problemas por um prisma, de acordo com a sua formação e suas inclinações. Há um ponto, entretanto, em que a inteligência das mais argutas e desapaixonadas pensa de um modo convergente: a sociedade ressente-se profundamente da falta de valores éticos. Daí resulta o acentuado e espantoso descompasso entre o desenvolvimento material e o adiantamento espiritual.

O mundo dos negócios, em grande parte, está mais voltado para o êxito imediato sem a preocupação de saber o que deve e o que não deve ser lícito. A ética fica inteiramente fora de cogitações em muitos casos. É natural que haja o aceleramento econômico, como é natural e necessário que se enriqueça o aparelhamento tecnológico, mas também é necessário, senão indispensável, que não se despreze o lado ético das transações.

Deve haver um ponto de limite moral nas ambições humanas. Por isso mesmo é que alguns pensadores notam a flagrante falta de ética e acham, com razão, que a sociedade está sofrendo graves consequências por causa do contraste entre as realizações materiais, inegavelmente impressionantes, e os padrões de moralidade na vida particular e na vida social.

Albert Schweitzer, o homem que, deixando as comodidades da chamada “grande civilização”, foi para a África longínqua, onde realizou verdadeiro apostolado entre populações pobres e atrasadas. Desconfiava muito da cultura exterior, justamente porque, como pensador e humanista, médico e homem de grande coração, sentia que a falta de ética estava ameaçando o destino da civilização. Seria um visionário? Ou seria Schweitzer muito mais realista do que certos homens práticos, para os quais somente os valores utilitários e o poder das técnicas têm significação na vida humana?...

E as doenças da sociedade, em grande parte, não decorrem exatamente da ausência de moralidade ou de respeito ao escrúpulo e ao foro da consciência, sede da Lei Moral, como ensina a Doutrina Espírita? Claro que Schweitzer não era um sonhador, mas um observador da realidade humana.

Pois bem, há mais de um século — é bom que muita gente saiba disto — a Doutrina Espírita já se pronunciava sobre este problema, como que antevendo a situação de hoje. Recorramos apenas à questão 785, de “O Livro dos Espíritos”: Há duas espécies de progresso, que se apoiam mutuamente e que, entretanto, não marcham em paralelo: o progresso intelectual e o progresso moral. O equilíbrio entre as duas ordens de progresso é questão de tempo, ainda segundo o ensino espírita.

Já houve muito progresso, inegavelmente, nas instituições, nas ciências, e assim por diante, o que, aliás, está previsto no mesmo texto espírita, porém os acontecimentos deste meio século se sucedem de tal forma e com tanta agressividade que exigem mais reflexão a respeito dos padrões de ética para evitar, tanto quanto possível, maior descalabro social.

Todos os movimentos preocupados com os problemas espirituais, embora não se descuidem dos problemas terrenos, devem empregar a inteligência, a criatividade e o verdadeiro espírito de serviço na cruzada de educação do homem, mas uma forma de educação capaz de penetrar-lhe o mundo íntimo e despertá-lo ainda em tempo.

Neste campo, sem a menor dúvida, muito mais ainda será pedido ao movimento espírita; pois uma Doutrina que explica a sobrevivência após a morte com o testemunho dos fatos; uma Doutrina que nos fala da justiça divina sem castigos eternos, mas à luz de uma filosofia que infunde esperança e coragem, com apoio da reencarnação; uma Doutrina, enfim, que nos mostra o próprio Evangelho aplicado à vida em todas as circunstâncias tem muito o que oferecer à sociedade como remédio para as feridas que se abrem de alto a baixo, em todos os níveis.

 
Deolindo Amorim

Fonte: Revista “Aurora”, agosto de 1982, págs. 4 e 5, ano IV, nº 9 – Duque de Caxias-RJ.