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23 junho 2022

Estupro: a Visão Espírita - Marcelo Henrique Pereira


ESTUPRO: A VISÃO ESPÍRITA

Dentre os crimes existentes, mormente no âmbito da natureza sexual, um dos mais aberrantes e horrendos é, sem dúvida nenhuma, o estupro. A legislação humana – particularmente, a brasileira, – impinge-lhe uma severa capitulação, dispondo sobre ele no título reservado aos Crimes contra os Costumes, no capítulo dos Crimes contra a Liberdade Sexual, conforme os artigos reproduzidos no quadro ao lado.

A moderna legislação pátria considera-o, ainda, como crime hediondo (1), o qual significa depravado, vicioso, sórdido, imundo, repelente, repulsivo, horrendo, sinistro, pavoroso, medonho. (Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 2ª ed., p. 884, Nova Fronteira, 1986).

As características fundamentais do tipo-crime dão-nos conta da atitude criminosa de alguém que constrange outrem à prática de conjunção carnal ou ato libidinoso, por meio de violência ou grave ameaça (artigo 213, do Código Penal Brasileiro).

Deixando de lado os aspectos puramente legais do tema, pretendemos traçar uma abordagem acerca da visão espírita (e espiritual) deste ato, assim como de suas causas e conseqüências, abstratamente falando. Queremos deixar bem claro que nossas posições são pessoais, com base em informações genéricas contidas nas obras básicas da Codificação Kardequiana, em virtude da escassa bibliografia existente.

Dentre as liberdades de que a criatura humana é detentora, na qualidade de direitos fundamentais, talvez a mais significativa seja a liberdade sexual. Afinal de contas, baseada em padrões de moralidade, distintos entre si e peculiares a cada individualidade, a escolha de parceiros sexuais não obedece a nenhum padrão. O ser, baseado em sentimentos e (ainda) em instintos, deixa aflorar sua sexualidade, partindo para a busca e o encontro de um companheiro para satisfazer seu prazer, na permuta de energias sexuais.

Por isso, quando se tem notícia de que ocorreu um estupro, isto é, a conjunção carnal forçada, imposta pela força física ou pela coação moral (psicológica), estamos diante da maior violência que se pode praticar contra o ser, excetuando-se, é claro, o aborto, onde a vítima é totalmente incapaz de defender-se.

No estupro, o que conta não é a possibilidade (ou não) de resistência da vítima às ações do agressor. Isto é secundário. Tampouco se deve verificar se a primeira, por sua ação ou intenção, manifesta em gestos, comportamentos, olhares, sinais, ou, ainda, em sua forma de trajar ou sua conversação, tenha provocado o aflorar dos desejos sexuais de outrem. Ou, ainda, se o criminoso possuía um estado psico-patológico anterior que o mantinha intimamente ligado à idéia da relação sexual, ou, até, a sua vinculação mental (fixação mental) ao objeto de seus desejos. O que realmente conta é a atitude desmedida, agressiva e irracional, e a enorme carga de responsabilidade que resulta do ato cometido, que agride a função sexual da vítima e interfere na energia contida nas gônadas femininas.

Em alguns encontros espíritas, presenciamos discussões que procuravam delimitar o estupro perante a Espiritualidade, isto é, tentavam analisar se, dentre as provas e expiações a que o homem se sujeita, em razão de seu grau evolutivo e da sua passagem por este planeta, não poderia estar planejada uma situação em que ocorreria o estupro, como forma de resgate de erros pretéritos, por parte da vítima.

O exame das obras básicas é, como dissemos, fundamental e constitui o primeiro passo, para entender tal situação.

Então, o que constitui o Planejamento Encarnatório?

Do exame de “O Livro dos Espíritos” (2), podemos extrair a cristalina idéia de que nem todas as tribulações que experimentamos na vida foram previstas e escolhidas por nós. A escolha se resume ao gênero da prova. Exemplificadamente, o Espírito de Verdade nos adverte: “Se o Espírito quis nascer entre malfeitores, por exemplo, sabia a que tentações se expunha, mas ignorava cada um dos atos que viesse a praticar. Estes atos são efeito de sua vontade, ou de seu livre arbítrio.”

A regra norteadora, como sempre é a liberdade de ação, com a necessária atenção para a responsabilidade quanto ao reflexo destes, o resultado.

Fazendo, pois, uma analogia com o suicídio, encontramos na literatura espírita a consideração de que todos os desencarnes são previstos pela Espiritualidade, à exceção daquele, quando o ser renuncia voluntariamente à oportunidade de vida, abreviando sua existência.

Assim, afirmamos que há certa resistência de nossa parte em aceitar que uma brutalidade como o estupro possa estar incluída como uma prova escolhida pelo espírito reencarnante, tendo em vista que, deste modo, quem seria “escalado” para ser o algoz, o estuprador? Não estaria sendo ele, instrumento de uma severa e dolorosa forma de “resgate”?

Poderiam afirmar alguns: quem sabe a vítima, numa vida, poderia retornar para ser o agressor em outra? Pois bem! Onde fica a Lei de Justiça, Amor e Caridade? Ou, quem sabe, voltaríamos nós à época da barbárie, onde a Lei de Talião era a severa espada da justiça, isto é, o que se fez, da mesma maneira se sofre? A razão espírita repudia tais considerandos…

Todavia, há que se mencionar, também, a questão da “necessidade dos escândalos” (Mateus: 18, 6-11), tão bem enfocada por Jesus. Mas, “ai de quem seja instrumento dos escândalos”, diz a passagem, demonstrando claramente que a Lei Natural presente no Universo aproveita as situações surgidas pela vontade humana, filtrando-as e enquadrando-as no contexto das encarnações dos seres. Uma guerra ocorre por vontade humana, dos dirigentes das nações e sua efetivação ceifará muitas vidas, entre civis e militares. Portanto, as pessoas atingidas pela desencarnação violenta decorrente das guerras, assim como aquelas que terão seqüelas físicas e psicológicas, aproveitam o acontecimento funesto para resgatarem dívidas de ontem. Mas, e quanto a seus algozes, os guerreiros que provocaram mortes e ferimentos? Evidentemente, por suas atitudes, serão julgados pelo tribunal da consciência e carecerão de novos reajustes, onde saldarão seus débitos, em outras existências.

O estupro, assim, não obedece a nenhum planejamento espiritual. Todavia, em acontecendo, vítima e agressor submetem-se aos desígnios da Lei Maior, sujeitos à completa análise espiritual da questão, resultando para a primeira, por suportar a prova com coragem e resignação, condição de progresso espiritual e, para o segundo, dolorosa senda de refazimento de seus atos, esperando contar, ainda, com o perdão da primeira como forma de ajuda para superar suas próprias deficiências.

E para nós, que ainda nos revoltamos quando presenciamos notícias sobre a ocorrência de um estupro, bradando justiça, entendamos que nada escapa aos desígnios da Providência e, antes de nos trans-formarmos em juízes dos infelizes seres que cometem tal atrocidade, lembremos da mensagem do Nazareno do “atire a primeira pedra”, re-colhendo-nos à meditação e à prece em seu favor, para que os mesmos possam sair do mar de lama em que se encontram, arrependendo-se sinceramente de seus atos, reivindicando, assim, nova oportunidade benfazeja de reparação, para, ao final, alcançar a paz e a serenidade.

(1) Lei Federal n.o 8.072/90.
(2) Questões 258 a 273.

Código Penal Brasileiro

Art. 213. Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça:
Pena – reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos. (Redação dada pela Lei nº 8.072, de 25.07.90)
Parágrafo único. (Revogado pela Lei nº 9.281, de 04.06.96)
Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 10 (dez) anos. (Redação dada ao parágrafo pela Lei nº 8.069, de 13.07.90)

Art. 223. Se da violência resulta lesão corporal de natureza grave:
Pena – reclusão, de 8 (oito) a 12 (doze) anos. (Redação dada pela Lei nº 8.072, de 25.07.90)

Parágrafo único: Se do fato resulta a morte:
Pena – reclusão, de 12 (doze) a 25 (vinte e cinco) anos. (Redação dada pela Lei nº 8.072, de 25.07.90)

Art. 224. Presume-se a violência, se a vítima:
a) não é maior de 14 (catorze) anos;
b) é alienada ou débil mental, e o agente conhecia esta circunstância;
c) não pode, por qualquer outra causa, oferecer resistência.

Marcelo Henrique Pereira
Fonte:
Portal Casa Espírita Nova Era

11 fevereiro 2022

Espiritismo e Misticismo - Marcelo Henrique Pereira


ESPIRITISMO E MISTICISMO

A influência do sincretismo religioso e do pensamento oriental e espiritualista na formação do perfil do espírita do século 21

Não há, no Espiritismo, nada “[...] de místico, nada de alegorias susceptíveis de falsas interpretações. Quer ser por todos compreendido, porque chegados são os tempos de fazer-se que os homens conheçam a verdade. Longe de se opor à difusão da luz, deseja-a para todo o mundo. Não reclama crença cega; quer que o homem saiba por que crê. Apoiando-se na razão, será sempre mais forte do que os que se apoiam no nada”. (Kardec, em O livro dos espíritos, Conclusão, Item VI.)

Existe relação entre Espiritismo e Misticismo? Como entender que uma doutrina racional, embasada na lógica e no bom-senso e fundada na pesquisa séria da fenomenologia mediúnica possa estar sendo associada às práticas místicas, presentes na Humanidade desde épocas imemoriais, reflexos, muitas vezes das crenças, crendices e superstições dos homens de todos os tempos?

Místico, aliás, é uma palavra que, no léxico, está associada à vida espiritual, mas de sentido oculto ou esotérico, sobrenatural, baseada na simples contemplação espiritual, em busca da união (completa e eterna) com a Divindade. O Misticismo, assim, propugna uma completa comunhão entre os seres e o Criador, e, em consequência, permite a crença de que as “revelações” espirituais possam ser transmitidas de modo direto, de Deus para os homens, o que, de certo modo, guarda consonância com a teoria espírita da Mediunidade, pela qual as informações espirituais são divulgadas à Humanidade (de todos os tempos) por intermédio dos médiuns, como calcado no capítulo I, de A gênese, formando, assim, ao contrário da revelação divina, a revelação espírita (de espíritos para espíritos). Ademais, o misticismo não se coaduna com a ciência (física), pois depende de uma crença adicional para ser entendido, dependendo, pois, da interpretação das simbologias por parte de algumas pessoas “especiais”, tidas como “iniciados”.

Foi justamente para romper com a idéia do sobrenatural que Kardec aceitou a incumbência espiritual de relatar ao mundo uma nova verdade, com específicos paradigmas de compreensão da realidade espiritual, há exatos 150 anos. Concebeu, com a ajuda prodigiosa da Falange da Verdade, não uma religião, propriamente, mas uma doutrina filosófica (teoria), com embasamento científico (nas pesquisas e experimentações), de consequências ético-morais (resultado, objetivo). De modo oposto às religiões e seitas de todas as épocas, a filosofia espírita visa desmistificar a divindade, o mundo espiritual e as relações entre os espíritos (encarnados e desencarnados).

Nos dias hodiernos, a acentuada tendência – mesmo entre os espíritas – para o misticismo tem lugar em razão das escolhas e dos caminhos do próprio movimento espírita. Sem desmerecer ou desqualificar ninguém (pessoas ou instituições), entendemos que a questão de fundo é muito mais peculiar à interpretação (parcial ou mais ampla) da própria Doutrina Espírita. Evidentemente, em termos brasileiros, há que se considerar o contexto cultural e a evolução histórico-social de nosso povo. Primeiro, a influência da religião católica no processo de colonização (e, mais adiante, no próprio Império) é decisiva no sentido de garantir, no curso dos séculos, a proeminência do catolicismo sobre as demais expressões de religiosidade. Em segundo lugar, a existência de índios (e suas crendices), bem como a vinda de escravos negros (e seu sincretismo) para o território pátrio, representou, no cadinho da miscigenação racial, a formação de um “caldo” cultural interessantíssimo, com acentuado caráter místico, merecendo destaque a presença de entidades que se identificam como caboclos ou pretos-velhos, ontem e hoje. No plano espiritual, ainda, é imperioso considerar a presença, na Codificação, de individualidades que haviam sido, em suas últimas romagens encarnatórias, líderes religiosos (sobretudo do catolicismo), e, mais recentemente, em todo o processo de desenvolvimento do espiritismo em solo nacional, alguns expoentes daquela doutrina figuram como mentores espirituais de médiuns e grupos espíritas. De outra sorte, as religiões afro-brasileiras, principalmente a Umbanda e o Candomblé contribuíram para esta “guinada” do espiritismo tupiniquim, abandonando, em parte, os aspectos filosófico e científico e introduzindo uma espécie de “religião” espírita.

E, mais presentemente, também, é possível perceber a introdução de idéias derivadas de filosofias e seitas espiritualistas do oriente, algumas de origem ancestral, cujos conceitos até podem guardar similaridade com certos princípios espíritas, mas que, estudados mais detidamente, revelam diferenças inconciliáveis. De certo modo, a difusão de conhecimentos espirituais não é (nem foi, nem será) privilégio do Espiritismo, de forma que, em diferentes lugares e épocas, as verdades são disseminadas conforme o nível de entendimento das pessoas e comunidades.

A tendência para o misticismo também se acentua nas próprias instituições espíritas, em razão de explicações “fantásticas” que são dadas às questões mais corriqueiras da existência, como se tudo o que nos ocorresse fosse decorrente da ingerência de individualidade(s) desencarnada(s) com poderes para influir em nossa vida. De outra sorte, a estrutura de muitos centros e grupos, centralizados em torno de determinados líderes ou médiuns, envolve a rotina dos atendimentos individualizados (entrevistas, aconselhamentos ou consultas), em que alguém passa a analisar as diferentes contingências da vida do consulente e seus problemas, prescrevendo-lhe, além dos comportamentos “obrigatórios” como a freqüência às sessões de palestras públicas e a submissão aos passes “terapêuticos”, prescrições de caráter opinativo, de como devam se comportar nas situações da vida. Importante salientar, neste contexto, a existência de uma simbiose entre os “necessitados” e os “lideres”, em que ambos se locupletam com a atividade, os primeiros que experimentam “melhoras” ou, quando pouco, se sentem “aliviados”, e os últimos que alimentam suas vaidades e orgulho.

Ainda no concernente à mediunidade, com apoio em Deolindo Amorim (O espiritismo e a investigação científica), o lado místico predomina na prática mediúnica, importando numa amplitude de comportamentos e vivências mediúnicas, com a apropriação de elementos ritualísticos ou formatações particulares, sob a orientação de mentores ou dos próprios dirigentes, impossibilitando a adoção de métodos e experimentações comuns, que melhor direcionem os resultados da atividade medianímica. Muito porque “[...] A legião de sofredores é muito grande, em todas as camadas sociais, e a maior parte do público, por isso mesmo, recorre aos "canais mediúnicos" simplesmente como fonte de consolações ou à procura de esclarecimentos imediatos para suas situações; nunca, porém, como elemento de pesquisa, com visão científica ou filosófica.”

Temos, então, um enorme contingente de beatos espíritas, assim conceituados pelo Prof. Herculano Pires: “O beato espírita não é espírita, pois não conhece a doutrina e não estuda, não se liberta das superstições e dos erros do seu passado religioso. Pela sua crença ingênua está sujeito a servir de instrumento a qualquer espírito mistificador e se apresentar como mestre missionário, reencarnação de Kardec e outras tolices dessa ordem.”

Outra mistificação evidente, também censurada a seu tempo por Herculano, e ainda presente nos dias de hoje, é a vinculação do movimento espírita oficial à teoria roustenista (calcada no livro Os quatro evangelhos, do advogado francês, contemporâneo de Kardec, Jean-Baptiste Roustaing) e seus absurdos conceituais, desprovidos de lógica e frontalmente em desacordo com os conceitos da codificação.

No meio espírita brasileiro, ainda, é possível encontrar teorias que convivem paralelamente ao Espiritismo, ou, ainda, que são estudadas e divulgadas como se fossem espíritas. São exemplos nítidos as idéias de Edgard Armond, Pietro Ubaldi, e Ramatís, muitas das quais totalmente incompatíveis com o corpo doutrinário espiritista, apresentando teses pessoais, as quais não se sujeitaram aos critérios utilizados por Rivail. Há quem acrescente a eles os idolatrados e “oficiais” Bezerra de Menezes, Emmanuel e Joanna de Ângelis, todos com feições evangélico-cristãs, que reduziram a doutrina ao aspecto moral-religioso, sobretudo por sua ascendência na prática religiosa do catolicismo. Não bastasse isso, conforme Herculano, “André Luiz é equiparado a Ramatis e ambos transformados em superadores de Kardec”.

Ante a avalanche de “novidades” que vão aparecendo nos centros espíritas, por pessoas que se encantam com outras filosofias e práticas (a quem Herculano, com propriedade, chamou de “novidadeiros”), nossa postura filosófico-científico espírita deve ser clara e inalterável: a doutrina dos espíritos é uma e contém em si as bases e práticas conhecidas, mencionadas com propriedade em O que é o espiritismo e em O livro dos médiuns. Qualquer outra “inovação” deve ser tratada com cuidado, o que não impede (nem desmerece) que pessoas sensatas e bem-intencionadas, que buscam a tudo conhecer, para reter-lhes a melhor parte, possam – em ambientes não-espíritas – experimentar e praticar, se tiverem certeza dos efeitos positivos que deles advenham. É o caso, por exemplo, da massoterapia, do reiki, dos cristais, da cromoterapia, da aromaterapia, da musicoterapia, entre outras. A justificativa, nossa, de não introdução de tais atividades nas instituições espiritistas decorre do fato de evitar confusões, misturas e tendências ao próprio misticismo, mantendo íntegra a estrutura do pensamento espírita e sua prática correlata.

Se é verdade que a atualidade nos faz presenciar uma “volta ao recomeço”, com a preocupação crescente com temas filosófico-científicos e a reintrodução das pesquisas e experimentos mediúnicos, o segmento majoritário do movimento espírita prefere encarar o Espiritismo como religião, ou “o futuro das religiões”, assumindo, destacadamente, comportamentos místicos em face, principalmente, da idolatria a médiuns ou espíritos e da adoção de rituais e hierarquias, como visto antes.

Como o mundo é, em essência, o que dele fazemos, enquanto inteligências (encarnadas e desencarnadas) e por meio de nossas ações, entendemos que, mesmo com a influência do religiosismo e do misticismo, o Espiritismo cumpre sua marcha, enquadrando-se, presentemente, no final do quarto período (dos seis enunciados por Kardec, na Revista Espírita de dezembro de 1863, sobre a evolução do pensamento espírita), denominado religioso, para, a seguir, em breve, alcançar o quinto, intermediário, que conduzirá ao último, o de renovação social.

Como bem afiançou nosso querido (saudoso e inesquecível) amigo Amílcar Del Chiaro Filho, “O Espiritismo coloca-nos frente a frente com duas realidades, a da matéria e a do espírito. Realidades que se interpenetram, existindo cada uma no seu espaço vibracional. Já não somos mais homens profanos ou místicos, e sim cósmicos, cidadãos do Universo.” O caráter holístico do Espiritismo está, assim, encartado na sintonia mental e permanente do ser, pela mediunidade, com outras inteligências desencarnadas, dando-nos a clara idéia de completude e totalidade, não necessitando de práticas ritualísticas ou explicações fantásticas, já que tudo pertence ao plano do Espírito, e sua realidade transcendente, eterna e imortal.

Por fim, não é repetitivo lembrar, novamente, Herculano, que se refere aos místicos como os que a tudo aplaudem e aceitam, “[...] esquecidos de que não podemos tolerar a mentira e a mistificação. [...]

Os espíritas conscientes, convictos, precisam opor a barreira da verdade doutrinária a essa avalanche de mentiras que ameaça asfixiar o Espiritismo no Brasil. Chegamos aos limites da tolerância e mergulhamos no erro, entregamo-nos à fascinação das Trevas. E cada um de nós é responsável por essa situação calamitosa. Ou reagiremos contra esse abastardamento do Espiritismo ou seremos cúmplices da ignorância criminosa.”

Tudo, enfim, deve estar no seu lugar. Há espaço para todos, e cada um respira os ares compatíveis com sua desenvoltura espiritual, em afinidade com as vibrações e as circunstâncias que mais lhe apeteçam. Mas, se desejamos, sinceramente, aprender mais acerca da filosofia espírita, que a preservemos de enxertos, alterações e deturpações, mais convenientes aos nossos gostos e pendências, mas, com franqueza, que nada acrescem ao edifício espírita.

O espírita do Século XXI, assim entendemos, resgatará Kardec em sua essência e completude, compreendendo melhor o caráter transformador da filosofia espírita, pura, sem acréscimos ou adulterações, dirigido ao homem e à Sociedade.

Marcelo Henrique Pereira
Fonte:
Grupo de Estudos Avançados Espíritas (GEAE)

15 dezembro 2021

Um gesto de profunda solidariedade e humanidade - Marcelo Henrique Pereira

 
UM GESTO DE PROFUNDA SOLIDARIEDADE E HUMANIDADE

Imunização (vacina), distanciamento e utilização das máscaras de proteção facial constituem atitudes cívicas, fraternas, socialmente adequadas e espiritualmente recomendadas, no retorno às atividades presenciais.

As vacinas são uma das mais efetivas ferramentas para proteção das pessoas contra a covid-19. São importantes as medidas direcionadas ao aumento das taxas de vacinação, visando atingir as metas de saúde pública e, por conseguinte, gerarem uma situação de conforto físico, jurídico e especial, para todos os que participem de atividades presenciais espíritas.

Chegou ao nosso conhecimento, neste momento (ainda) doloroso e delicado da pandemia (Covid19) de que algumas atividades espíritas presenciais estão retornando. Neste intervalo, mais ou menos curto, dependendo da ótica e da percepção de cada um e de suas próprias necessidades – além do fato de “como” cada um acaba lidando com elas – o chamado movimento espírita teve de se reinventar.

A interdição dos espaços públicos, na fase de amplo contágio, em face, inclusive, da não-imunização (vacinação) da população brasileira, exigiu dos grupos e instituições que adotassem, além da interrupção presencial das atividades nos “centros”, a disponibilização de alternativas (virtuais) para trabalhos de palestras, estudos e atendimentos. Todos à distância, ou por meio das ferramentas cibernéticas, sem a presença física em ambientes coletivos.

Deste modo, registre-se a capacidade do ser humano em buscar opções possíveis destinadas não só à chamada instrução/educação espiritual-espírita, mas, também, para manter o nível de fraternidade e as relações entre dirigentes, expositores, trabalhadores e frequentadores. Como disseram os Espíritos Superiores a Kardec, o vínculo entre os seres (encarnados entre si e com os desencarnados) se baseia nas leis de afinidade, havendo laços mais profundos e permanentes entre aqueles que possuem, entre si, ligações em função do pensamento, raciocínio, lógica e, é claro, sentimentos.

A imunização, conforme os números disponibilizados pelas entidades estaduais de Saúde, vem aumentando, gradativamente, em termos da aplicação das (duas) doses ou da dose única, originais. E já há um contingente recebendo uma terceira dose, em face da condição peculiar que alguns segmentos possuem em relação a outros, em termos de vulnerabilidade.

Por outro lado, o vírus é um ser mutante e tem apresentado variações evolutivas (cepas), tornando-se resistente à imunização disponível. Razão pela qual os procedimentos e protocolos de saúde e saneamento, assim como as medidas preventivas e de distanciamento social são, ainda e não se sabe por quanto tempo, exigíveis de todos os “homens de bem”.

A proposta lógico-racional da Doutrina dos Espíritos aponta, em diversos textos das 32 obras de Allan Kardec, para a utilização de TODOS os meios disponíveis para a preservação da vida (Lei de Conservação) e para a assunção de posturas individuais e coletivas correlacionadas à saúde (corporal). Não há, sob nenhuma hipótese, qualquer “imunidade espiritual” ou “proteção espiritual” a quem quer que seja – inclusive, temos visto alguns “expoentes” ditos espíritas patrocinando estas afirmações totalmente desprovidas de sentido e distantes do conteúdo genuinamente espírita.

Imunização (vacina) e procedimentos de distanciamento, assim como a utilização (adequada) das máscaras de proteção facial constituem atitudes cívicas, fraternas, socialmente adequadas e espiritualmente recomendadas. E não há como justificar outras condutas, diversas destas, sob o viés Espiritual-Espírita.

As provações/expiações constituem elementos naturais e concernentes à Lei de Progresso, aplicando-se a máxima atribuída a Yeshua: “a cada um segundo suas obras”. Se há situações que decorrem de contingências do passado, grande parte das experiências que vivenciamos na atual reencarnação são decorrentes da aplicabilidade (inafastável e para todos) da Lei de Causa e Efeito, de modo que às nossas ações humanas (causas) haverá, sempre, a reverberação de efeitos (pessoais).

Dito isto, chegamos ao ponto central que motiva este ensaio e está associada às práticas espíritas neste momento em que as atividades estão voltando a ser presenciais, embora, ainda, com algumas obrigatórias e necessárias restrições. No cenário de qualquer instituição dita espírita, considerando as distintas atividades nela desenvolvidas, rotineira e semanalmente, podemos considerar os seguintes contingentes populacionais: 1) Dirigentes; 2) Expositores (próprios ou convidados); 3) Trabalhadores; e 4) Participantes ou Visitantes.

A orientação/determinação dos órgãos de saúde é para a vacinação. Discute-se, é claro, no âmbito do Direito brasileiro (porque estamos neste país) acerca da OBRIGATORIEDADE (OU NÃO) de submeter-se à vacina (contra a Covid19). No final de 2020, a mais alta corte judiciária do país (Supremo Tribunal Federal – STF) se posicionou [1] no sentido de validar a COMPULSORIEDADE da vacinação [2], em todo o país, mas determinar que não haja condução coercitiva ou imposição física a ninguém, para os procedimentos correlatos, podendo, no entanto, impor sanções [3] àqueles que voluntariamente se recusarem à imunização.

Tem-se que a chamada vacinação compulsória não representa, assim, vacinação forçada, sendo facultada a recusa por parte do usuário. Mas a não-vacinação poderá importar, com o respaldo na lei e na decisão da Suprema Corte nacional, medidas indiretas, segundo critérios de razoabilidade e proporcionalidade, no sistema jurídico brasileiro, as quais compreendem, dentre outras, a restrição ao exercício de certas atividades ou à frequência de determinados lugares, no mais absoluto respeito à dignidade humana e aos direitos fundamentais das pessoas. Deve-se considerar, ainda, a condição de competência concorrente entre os entes federados brasileiros (União, Distrito Federal, Estados e Municípios) para produzirem normas locais que, entretanto, devem obedecer ao contido na lei federal (nacional) antes mencionada e ao teor da decisão do STF que foi explicitada neste ensaio.

Vale dizer, ainda, que, em território brasileiro, as vacinas são distribuídas universal e gratuitamente, de modo a, por condições afetas à comorbidades ou faixas etárias, assim como em face dos estoques disponíveis, estarem disponíveis a todos os que residam ou transitoriamente estejam em nosso país.

Não se pode, portanto e inclusive, alegar quaisquer motivações ideológicas, políticas, filosóficas ou religiosas, para não se submeter às vacinações ou para usufruir, pessoalmente, da vantagem de, em tendo optado por não se vacinar, o indivíduo tenha acesso às atividades ou entrada e permanência em ambientes onde seja exigido o comprovante de vacina [4].

Deste modo, considerando os aspectos legal e jurisprudencial, já tratados neste artigo, em sede de atividades e instituições espíritas PRESENCIAIS, havendo a regulamentação de que certas ações ou tipos de comportamento sejam adotadas para proteger o bem-estar de indivíduos ou comunidades, entende-se que, tanto a adoção de protocolos de segurança (máscaras, distanciamento social, medição de temperatura, exigência de comprovantes de vacinação, e outras), são eticamente justificadas, pois podem ser cruciais para proteger a saúde e o bem-estar do público.

Se o cada uma destas ações ou comportamentos notadamente interferem na liberdade e na autonomia individuais, elas devem buscar um equilíbrio entre o bem-estar da comunidade e as liberdades individuais, considerando, assim, preocupações éticas (e, também, espirituais), direcionadas a um objetivo social valioso, como a proteção da saúde pública.

Por fim, tem-se que a atitude individual do espírita ou simpatizante do Espiritismo, no sentido de atender ao requisito de demonstração da sua imunidade e de exigir dos demais conduta semelhante e paritária, representa, para o conjunto dos espíritas que participem de qualquer evento presencial, um gesto de profunda solidariedade e humanidade. E, por consequência, estar-se-á materializando os caracteres do “homem de bem” e do “verdadeiro espírita”, que faz para o seu semelhante aquilo que quereria vos fosse feito.

Marcelo Henrique Pereira
Fonte: Portal Casa Espírita Nova Era

Notas do Autor:

[1] Decidiu o Plenário do STF que o Estado pode determinar aos cidadãos que se submetam, compulsoriamente, à vacinação contra a Covid-19, prevista na Lei Federal n. 13.979/2020.

[2] O teor da decisão, merece registro, como legítima tese de repercussão geral, ou seja, aplicável a todos os brasileiros e àqueles que, mesmo temporariamente, estejam em território nacional (Recurso Extraordinário com Agravo – ARE 1267879): “É constitucional a obrigatoriedade de imunização por meio de vacina que, registrada em órgão de vigilância sanitária, tenha sido incluída no plano nacional de imunizações; ou tenha sua aplicação obrigatória decretada em lei; ou seja objeto de determinação da União, dos estados, do Distrito Federal ou dos municípios com base em consenso médico-científico. Em tais casos, não se caracteriza violação à liberdade de consciência e de convicção filosófica dos pais ou responsáveis, nem tampouco ao poder familiar”.

[3] A decisão judicial autoriza os vinte e seis Estados e o Distrito Federal a impor aos cidadãos que recusem a vacinação as medidas restritivas previstas em lei (multa, impedimento de frequentar determinados lugares, fazer matrícula em escola, utilizar meios de transporte coletivos, entre outros).

[4] O entendimento do STF derivou do julgamento conjunto das Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) 6586 e 6587, que tratam unicamente de vacinação contra a Covid-19, e do já mencionado ARE 1267879, em que se discute o direito à recusa à imunização por convicções filosóficas ou religiosas.


21 outubro 2021

Duvidar, sempre! - Marcelo Henrique Pereira

Charles Fourier
 
DUVIDAR, SEMPRE!

“Aquele que duvida verdadeiramente, procura, e aquele que procura, encontra”, Charles Fourier (Revista Espírita, abril, 1869).

Duvidar ou não duvidar, eis a questão!

Infantes, duvidamos de pais e mestres, quando não dos amigos de faixa etária, quando eles nos dizem algo que escapa de nossa compreensão momentânea.

Adolescentes, duvidamos dos conselhos dos mais velhos, diante das situações da vida, imaginando que, conosco, será tudo diferente.

Adultos, duvidamos de muitas de nossas conclusões, sobretudo as que vêm de primeiro impulso e, receosos, repetimos raciocínios que nos levem a resultados diferentes.

Maduros, duvidamos, desconfiados, de certas pessoas que de nós se aproximam, com o receio de sermos iludidos ou enganados.

Idosos, duvidamos do porvir, que é apresentado pelas religiões como algo distante de nossos sentimentos, ao mesmo tempo em que, racionalmente, custamos a crer que o nada seja o nosso destino final. Eis que chegamos, todos, à Doutrina dos Espíritos por uma (ou várias) dúvida(s), persistentemente ecoando em nosso íntimo, para a busca dos porquês da existência. Eis que, encontrando respostas, nos vemos diante de que muitas delas são não-satisfativas, porque nos impeles a outras perguntas, sucessivamente.

Eis que, encontrando respostas, nos vemos diante de que muitas delas são não-satisfativas, porque nos impeles a outras perguntas, sucessivamente.

Então, quando vemos um sem-número de espíritas em “zonas de conforto”, como se soubessem muitas coisas, ou repetindo um “mantra” de que as obras de Kardec já disseram tudo à Humanidade, traduzindo a inteligência e a perspicácia das Almas Invisíveis e Sábias, constatamos que MUITOS ainda não entenderam a real proposta da Filosofia Espírita.

E a opinião de Fourier, registrada por Kardec, no laboratório de sua Revue Spirite, longe de nos apresentar certezas definitivas, para as nossas procuras, apresenta-nos, vez por outra, alguns encontros. E estes encontros nos levarão, indefinidamente, a continuar procurando…

Marcelo Henrique Pereira
Fonte: Portal Casa Espírita Nova Era

15 outubro 2021

Nós e os outros - Marcelo Henrique Pereira

 
NÓS E OS OUTROS

Será possível libertar-se da idolatria a Espíritos ou homens?

O cotidiano das sucessivas existências é o cenário para muitos aprendizados. Como seres errantes que somos, atravessamos os dias, os anos e as encarnações, com erros e acertos. É “da vida” (espiritual, que se compõe das experiências na carne assim como as fora dela), este processo.

Kardec indagou sabiamente as Inteligências Superiores acerca dos esforços para o melhoramento pessoal. E recebeu deles a fraterna advertência: “o que lhes falta é a vontade […] [e] são poucos os que se esforçam” (resposta ao item 909, de “O livro dos Espíritos”).

Ora, então, para a instrução (conhecimento) dos Espíritos haveria algo até muito simples: um pequeno esforço. Mas, o pequeno vira enorme e intransponível. E o mais comum é que se siga as pegadas já dispostas ao derredor, sem enveredar pelos caminhos (estreitos, na parábola do Magrão), que levam às transformações.

"Vamos voltar esta “prosa” para o nosso “umbigo”. Vamos falar dos espíritas e do chamado movimento espírita. Todos os que quiserem se afirmar como espíritas precisam conhecer TODA a obra (de Kardec). Sim, não há Espiritismo SEM (ou FORA DE) Kardec. E são muito poucos os que conhecem em totalidade a obra. Ou seja, que já leram – e, mais que isso, se debruçaram no estudo das TRINTA E DUAS OBRAS escritas e publicadas por Allan Kardec)."

Preferem, muito mais, as “novidades”. É um livro novo “psicografado”, é uma conferência de algum “destaque”, é um curso promovido por algum grupo ou instituição conhecida…

Obras dos homens – sejam eles encarnados ou desencarnados – todas sujeitas à falibilidade. Ou seja, ao erro! No que tange aos “Expoentes do Espiritismo”, que são os médiuns, expositores ou dirigentes, é preciso estabelecer a premissa fundamental: como qualquer ser encarnado, todos possuem limitações. Sem exceções!

O “verniz” da aparência, a “beleza” da retórica, a “relevância” da recomendação feita a este ou aquele, a “estatura” de obras assistenciais não é nenhuma garantia séria em relação ao que dizem ou escrevem. Voltemos a Kardec: “A única garantia segura do ensino dos Espíritos está na concordância das revelações feitas espontaneamente, através de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em diversos lugares” (“O Evangelho segundo o Espiritismo”, Introdução, Item II – Autoridade da Doutrina Espírita. Controle Universal do Ensino dos Espíritos).

"Vamos ampliar a premissa de Kardec – que trata da validade e pertinência dos elementos pertinentes à Instrução dos Espíritos (Superiores) – para os seres encarnados, já que o texto, acima, foi estabelecido, inicialmente, para o conteúdo das mensagens psicografadas, ou seja, em relação à autoria (desencarnados). A mesma regra vale – e, até, mais – para os encarnados, por duas razões óbvias: 1ª) os médiuns são seres encarnados e INFLUEM direta ou indiretamente nas mensagens obtidas; 2ª) os dirigentes, palestrantes e médiuns expressam OPINIÕES PESSOAIS, dentro da liberdade de pensar (axioma espírita-espiritual), mas nem sempre estão com a verdade. Ou seja, são falíveis."

Chegamos, então, ao contexto da prática e do cotidiano espírita, com uma grande questão: os espíritas (em geral) não estudam (com profundidade), não compreendem o método (originalmente utilizado por Kardec) e, por extensão e consequência, não avaliam as mensagens, as obras e nem as manifestações dos espíritas que seguem.

Mas há outros problemas, igualmente graves. Vamos a eles:

I – Endeusam Kardec, tomando-o como infalível e sua obra como totalmente “ditada” por Inteligências Superiores, o que lhe configuraria duas condições que o Espiritismo jamais teve: o de ser a (única) verdade; e o de que o que fora escrito por Kardec seria inalterável e não sofreria a ação da Lei do Progresso (humano e espiritual);

II – Idolatram escritores, palestrantes ou dirigentes, como se eles, como nós, não fossem portadores de ideias pessoais e como se desempenhassem, eles, missões “especiais” dadas a poucas criaturas, e que estariam “no mundo” para serem seguidos sem contestação;

III – Tornam-se seguidores cegos dos guias espirituais (de instituições ou de médiuns), como se a condição de desencarnado em “apoio” a uma instituição ou obra espírita fosse garantia segura de infalibilidade, ou se o uso de linguagem rebuscada, culta ou melíflua, porquanto sedutora, fosse expressão de superioridade espiritual.
Por consequência, lamentavelmente, os espíritas em geral bajulam outros homens – médiuns, palestrantes, dirigentes – tomando-os como seres (muito) acima do homem (espírita) médio.

Que dizer destes? E como fazer para não ser “presa fácil” da idolatria, da obediência e da não-contestação? Fica a pergunta, para a nossa meditação… Homens são (e sempre serão) homens, com suas limitações e imperfeições, até que estejamos TODOS em outras condições espirituais (mais adiantadas) em virtude do (olha ele, novamente) nosso esforço pessoal!

Marcelo Henrique Pereira
Fonte:
Portal Casa Espírita Nova Era

22 agosto 2021

Serve-nos o Humanismo de Kardec? - Marcelo Henrique Pereira

 

SERVE-NOS O HUMANISMO DE KARDEC?

Como se formou o pensamento de Rivail-Kardec e como ele pode ser resgatado e aprofundado na contemporaneidade

O Professor francês Rivail, na França do Século XIX, hauriu grande parte do seu conhecimento, naquela existência (encarnação), a partir da orientação (teórico e prática) no Instituto de Yverdon (Suécia) com Pestalozzi. Pode-se dizer, assim, que o Humanismo, enquanto corrente filosófica, foi essencial na formação daquele homem que, depois, veio a ser o responsável direto pela introdução dos conhecimentos espirituais sistematizados (Espiritismo) para a Humanidade.

Em que consistia, pois, o Humanismo de Kardec? Quais suas bases filosóficas? Como foi aplicado em relação às práticas espíritas?

Em linhas gerais, o Humanismo foi um conjunto de ideias, nascidas antes e durante o Renascimento, cujo escopo era a valorização das ações humanas e dos valores morais (como justiça, respeito, honra, amor, liberdade, solidariedade, etc.). Sua configuração partiu do antropocentrismo, com o homem no centro do pensamento filosófico, resgatando alguns conceitos da cultura clássica antiga (sobretudo dos gregos), com destacada valorização dos direitos humanos e das expressões de cidadania. Para o Humanismo o homem é o centro de interesse e é em torno dele que tudo acontece.

Os ideias e valores humanistas acham-se presentes na obra de Allan Kardec como um todo e fundamentam os princípios e os elementos da Doutrina dos Espíritos, que ele fundou, sistematizou e difundiu, na segunda metade do Século XIX. Os elementos fundantes e originários de tal doutrina permanecem válidos e atuais, em termos teóricos, mesmo considerando que grande parte dos que se afiliam ao chamado “movimento espírita”, fundando, dirigindo, participando em funções e atividades ou, ainda, apenas frequentando instituições espíritas (associações civis), no Brasil e em outras partes do mundo, não sejam totalmente fiéis nem aos conceitos e teorias, nem às práticas e roteiros de atividades introduzidos e recomendados por Kardec.

"O Humanismo se opõe, frontalmente, ao Deísmo, porque coloca o ser humano no centro das realizações (materiais e espirituais) do Planeta, e salienta cada um dos avanços das sociedades em busca do aperfeiçoamento (material e espiritual) e a necessidade de mudanças (progresso) do Direito e das sociedades. O já citado antropocentrismo, assim, substitui a primazia pelo teocentrismo, escopo de todas as religiões deístas."

Na estruturação da Doutrina dos Espíritos, ao dialogar com as Inteligências Invisíveis, Kardec trabalha em dois contextos muito claros. Primeiro, o da ambiência terrena, material, da vida encarnada, contextualizada naquele momento histórico, fazendo análises detalhadas e aprofundadas de várias questões sociológicas, políticas, pedagógicas, associativas, entre outras. Analisa a sociedade vigente e projeta as futuras, neste orbe. Segundo, com as informações de Espíritos que já se encontram em outras posições na “Escala Espírita”, trata da realidade (espiritual e material) futura, como a projeção do progresso individual e coletivo da Humanidade terrena. E, com isso, influencia decisivamente no quesito participação, isto é o compromisso dos humanos (encarnados) na transformação social, a partir da individual, um dos objetivos finalísticos da própria Doutrina.

Então, ao nos debruçarmos sobre a proposta de Kardec (Espiritismo), em face da conjuntura planetária do Século XXI, torna-se oportuno perguntar se os conceitos e fundamentos do Espiritismo, vinculados ao Humanismo, estão conformes à atualidade planetária e o que é possível fazer, em termos de ações possíveis, para retomar o Humanismo de Kardec e aperfeiçoar as atividades e intenções do chamado “movimento espírita”.

"O Humanismo Espírita, então, tem a ver com a implantação do “Reino”, ou seja, concretizar, pela ação dos Espíritos encarnados, um estágio mais adiantado de vida em Sociedade, onde a Justiça Social já é realidade. Em muitas passagens da chamada Codificação Espírita, Kardec e os Espíritos Superiores dissertam sobre ela, quer no aspecto negativo, quando Kardec e os Espíritos dissertam acerca das injustiças e limitações do nosso organismo social humano, quer no positivo quando prescrevem um estado futuro, em planos mais adiantados, no qual as ações humanas já se achariam melhor adequadas aos ditames das Leis Morais (que são explicitadas na parte terceira de “O livro dos espíritos”), quer, ainda, subjetivamente, quando são analisadas situações pontuais egressas da conduta dos Espíritos, encarnados ou desencarnados, a partir das perguntas de Kardec."

Assim, as inteligências já despertas devem empreender todo e qualquer esforço – teórico ou técnico e prático – para o aperfeiçoamento da Sociedade, dentro da missão espiritual que cada individualidade tem para consigo mesmo, em relação ao(s) seu(s) semelhante(s) e para com o todo. O teórico ou técnico deriva dos estudos científicos e da promulgação de leis “melhores”; o prático compreende um rol de ações individuais e coletivas, para acelerar o progresso social.

O Espiritismo, Humanista que é, como doutrina filosófico-científica com consequências morais, concebe então uma ética espírita baseada nos valores de solidariedade, fraternidade e Justiça Social. Aos espíritas de nossos dias, compete a atribuição de contribuir para a instauração de um novo padrão de relações humanas, capazes de ensejar beleza na convivência humana e alcançando questões essenciais que gravitam em torno da satisfação das necessidades materiais e espirituais dos homens, a partir de um outro referencial de valores, o espiritual.

Trabalhar para a concretização desta Sociedade Justa, portanto, deve privilegiar a preocupação para amenizar as desigualdades sociais, permitindo o acesso aos direitos básicos (dignidade humana, educação, saúde, trabalho, moradia, acesso à justiça, etc.), por meio de políticas públicas e não pelo mero assistencialismo e clientelismo, primando, inclusive, pela transparência das ações governamentais, com a divulgação de recursos empregados e ações materiais realizadas, sobretudo na direção de pessoas e comunidades consideradas socialmente vulneráveis.

O Projeto Social Espírita, assim, é dialógico porque permite que todos os atores sociais dialoguem entre si, conhecendo dificuldades e problemas e laborando por superá-los. É humanista, porque está centrado na figura humana, o agente e objeto de todos os esforços e iniciativas em favor do progresso e, com ele, do atingimento da justiça. É livre-pensador, porquanto seja despido de preconceitos e dogmas, que poderiam particularizar entendimentos, permitindo que o entendimento espiritual, amplo e completo, referencie a busca pela erradicação das injustiças.

"Kardec aponta o norte para este percurso quando, ao dissertar sobre “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, em “Obras Póstumas”: “destruí nas leis, nas instituições, nas religiões, na educação, até os últimos vestígios, os tempos de barbárie e de privilégios, e todas as causas que mantêm e desenvolvem esses eternos obstáculos ao progresso, que se recebe, por assim dizer, desde a meninice e se aspira por todos os poros na atmosfera social; só então os homens compreenderão os deveres e benefícios da fraternidade; então, também, se estabelecerão por si mesmos, sem abalos e sem perigo, os princípios complementares da igualdade e da liberdade”."

Os espíritas, destarte, imbuídos do Humanismo Espírita, devem agir e influenciar os não-espíritas, sem qualquer intenção proselitista, mas pela “força das ideias e das ações”, propugnando e materializando as mudanças de estrutura e da própria ordem social, a partir da noção de justiça dada pela reencarnação, mas, no plano material, atribuindo a cada indivíduo o dever de auxiliar o seu semelhante e eliminar quaisquer diferenças existentes, por meio de uma prática social efetiva e permanente.

"É por isso que se diz, ao conhecer a essência da proposta espiritista, que todos os espíritas comprometidos com a construção de uma sociedade socialmente justa e fraterna, acham-se seriamente preocupados com os destinos (físicos, materiais) da Humanidade e mantêm a capacidade mobilizadora da indignação e da solidariedade capaz de direcionar esforços para, com a fundamentação crítica da Doutrina dos Espíritos. Engajam-se, deste modo, os espíritas em movimentos e iniciativas voltados à luta para superar este perverso modelo social, substituindo-o, aos poucos e perseverantemente, por um melhor e mais ajustado aos reais propósitos da encarnação neste orbe."

A chamada “Revolução Espírita” permite que se penetrem as bases do comportamento humano resultando na revisão de princípios morais, para promover, adiante, a revisão completa dos princípios jurídicos, econômicos e sociais. Desta revisão, que fará concretizar uma Justiça Social material, advirá a futura Justiça Social Espiritual.

Neste sentido, vale ponderar acerca de nossa efetiva participação na construção de uma Nova Sociedade. A organização social, este tecido formado por linhas que são as individualidades encarnadas, precisa refletir o grau de adiantamento (progresso) dos seres que a compõem e, neste contexto, devem os espíritas se adiantar, em posição de proeminência e organização para, com a visão aclarada que o Espiritismo propugna, criar, manter e aperfeiçoar mecanismos e ferramentas de inclusão, acolhimento, proteção e promoção de todos os seres nela inseridos. Em uma palavra: sejam garantidos os direitos elementares do homem e a cidadania, pilares essenciais de uma Sociedade Justa e Fraterna.

Não é outra, senão essa, a proposta do Humanismo de Kardec, ou do Humanismo Espírita.

Teoricamente, então, estamos prontos, suficientemente embasados e motivados para a implantação da Justiça Social na Terra. O que nos falta, então, na prática?

Marcelo Henrique Pereira
Fonte:
Porta Casa Espírita Nova Era


15 agosto 2021

A Babel do Espiritimo - Marcelo Henrique Pereira


 A BABEL DO ESPIRITISMO

Ufanismos Espíritas: dos Espíritos, de Kardec ou dos Espíritas?

Muitas vezes me pego folheando a Revue Spirite, esse notável repositório de informações acerca do Espiritismo. E comparo várias dissertações com os textos de Kardec esparsos nas obras “mais densas” em que está presente a Filosofia Espírita e, nesse caso, sob a chancela do controle universal. Já destaquei inúmeras vezes que os textos da Revista devem ser lidos com atenção e interesse, mas sem a intenção de colocá-los, de pronto, como verdades indiscutíveis. O laboratório de Kardec permitiu-lhe, de 1857 a 1869, colocar “n” temas para debate e maturação, tanto é que, em variadas situações, as páginas mediúnicas foram motivo para alterações do pensamento de Kardec (e dos Espíritos) na revisão de algumas de suas obras.

Há um entusiasmo por vezes exacerbado de Kardec em relação à “proposta do Espiritismo”. Esperava ele que a difusão dos conhecimentos espiritistas pudesse levar a novas mentalidades – individuais e coletivas – as quais, sob bases espíritas, permitiriam a construção de novas sociedades e conduziriam o planeta, a passos largos, ao progresso.

Isto fica patente no texto em que Kardec fala dos “períodos do Espiritismo”, analisando passado, presente e futuro – naquele quadrante da segunda metade do século XIX – quando ele projetou para meados do século XX a entrada do planeta numa era de regeneração. Já estamos caminhando para a segunda década do século XXI, e a barbárie, as sandices, as violências e as intolerâncias nos dão provas cabais de que regenerados é que os homens em geral, em sua imensa maioria, não estão.

Há quem diga que o planeta permanece evoluindo a passos largos (Lei do Progresso) e que as descobertas e experimentos científicos, a modernidade das relações e das comunicações, a conquista de direitos de gerações mais adiantadas (quarta, quinta), são demonstrativos das “previsões” dos Espíritos Superiores. Como se o conhecimento e o progresso tecnológico, material, científico fosse atestado de dianteira na senda evolutiva, tão-somente.

"As contingências sócio-político-econômicas, as relacionadas à linguagem e às relações entre indivíduos, povos e Estados, o diálogo interfilosófico e inter-religioso, os acordos de convivência política no plano internacional, ainda sofrem em face da intransigência dos interlocutores e, ao passo que em dada década avançam, em outras recrudescem, como resultado da aplicação de ideias pessoais, crenças e paixões, ainda primitivas, ou voltadas à conversão, escravização e dominação de consciências. O que falar, então, das barreiras ideológicas, das de crença, e as derivadas da dificuldade de compreensão em face da língua que se fala?"

Erasto, um dos Espíritos Superiores mais marcantes em toda a Codificação tem esse traço de otimismo exacerbado – ou, como pontuo no título deste artigo, um UFANISMO ESPÍRITA. Sim, porque ao falar “dentro” da obra do Espiritismo, Erasto, personagem conhecido do Cristianismo se destaca como intérprete espírita e suas ideias devem ser interpretadas como espiritistas – e não como signatárias da verdade cristã, anterior a 1857.

Em um trecho contido na Revue (Novembro, 1862, “Origem da linguagem”), ele ditou (a cento e cinquenta e sete anos atrás, portanto): “a Humanidade marcha para uma língua única, como consequência forçada de uma afinidade de ideias em Moral, em Política, e sobretudo em Religião”. Incrível! Afinidade de ideias morais, políticas e religiosas como condutoras da unificação da linguagem humana planetária!

O que podemos dizer disso? Você, amigo ou amiga, vê algum traço disso ao seu derredor? Ligando a TV ou acessando sites de notícias e informações, percebe algum sinal (ainda que de fumaça, em distante horizonte) de sinergia, entendimento, esforços conjuntos, para o estabelecimento de BASES reais e claras em termos de Moral (filosofia), Política e Religião! Tirando, aqui ou ali, um evento isolado, promovido quase sempre por entidades educacionais ou ONGs voltadas a questões de interesse coletivo, não se consegue divisar quase nenhum traço dessa proposta conciliatória. E conciliar, aqui, simboliza o gesto de desprendimento que minimiza posições pessoais e busca acordos em que não há vencedores ou vencidos, superiores ou inferiores, líderes ou seguidores.

O Ufanismo de Erasto contagiou Kardec em inúmeros trechos da obra. É fato que, ao se deparar com inúmeras páginas de elevação moral, genuínas propostas para a caminhada, relatos de realidades extrafísicas que aguardam os seres que se adiantam na trajetória de progresso, cumpridas as etapas anteriores de provas e expiações – como é a tônica deste orbe – Kardec se “empolgou” com a perspectiva de raiar uma Nova Era para a Humanidade, com indivíduos e coletividades despertos, conscientes, fraternos e construtores desta nova realidade. Mas tal (ainda) não ocorreu. E, a olhos vistos, deve tardar, diante de tantas iniquidades e pouquíssimos rasgos de lucidez em termos de consciência e ação, nos nossos dias.

E o que vemos, então, senão ESPÍRITAS DEMASIADAMENTE ENTUSIASMADOS, falando em “datas limites” para a “transição planetária”, compondo histórias fantásticas, que bem poderiam ser enredos de películas cinematográficas (ou já são!), com a encarnação de seres “alados” (Espíritos de Luz) a povoar o planeta e a assumirem postos de liderança e condução de “rebanhos”. Por falar em rebanho, a postura e a manifestação dos “arautos espíritas” (os mais conhecidos, nacional e internacionalmente, assim como os mais modestos, “astros” locais da oratória dos centros e eventos) continuam a repetir seus bordões que cultuam a religião espírita como o ponto de convergência de todas (!) as demais religiões (“em nome do Cristo”) e que irão espalhar os “princípios espíritas” mundo afora, pois todos hão de reconhecer sua validade e aplicabilidade (!), levando um sem-número de adeptos à posição genuflexa de “crer cegamente” (ainda que se fale em fé raciocinada), porque “Deus está no comando”, “os Espíritos Superiores nos orientam e fazem por nós” e que muitos “guias”, já encarnados, estarão à frente da nau (espírita e planetária), com “Jesus no leme”.

"O ufanismo “dos Espíritas”, infelizmente, não me seduz nem me tem como membro do séquito que, dia após dia, repete esses mantras como “verdades”. E ai de quem – com a Filosofia Espírita como diretriz – disser o contrário! É “acusado” de tudo! É considerado como “obsedado”. Ou então se questiona: – quem é você para duvidar dos “mentores” ou dos “palestrantes”? Vá fazer, primeiro, o que fulano ou beltrano tem feito, apra depois dizer algo diferente das “orientações” que ele nos traz… "
 
É isso , amigos, a Babel Planetária prossegue e, de modo pontual, também é visualizada entre os espíritas. Os espíritas “crentes” não admitem que lhes confrontem ou lhes advirtam em nome da razão – bem poderia ser a kardeciana fé raciocinada, não é mesmo? – e os diversos grupos que se intitulam espíritas, laicos, científicos, filosóficos, religiosos, federados, e as demais adjetivações que vemos por aí, associadas a determinados autores ou médiuns e expositores, prosseguem cada qual com as suas “verdades”, sem nenhum interesse nem esforço de buscarem atentar para a proposta de Erasto. Sem a mínima compreensão da LINGUAGEM (que não se refere, unicamente, a idiomas) continuaremos proclamando o UFANISMO ESPÍRITA e muito distantes da Terra de Regeneração.

Por fim, até compreendo o Ufanismo de Erasto (por estar, ele, mais adiantado e “de fora” do mundo físico que é a nossa morada atual), o de Kardec (que estava diante de uma doutrina nascente, com a qual permaneceu à frente por cerca de doze anos). Mas não posso me contentar com o dos espíritas, pois já temos as diretrizes da Filosofia Espírita há praticamente cento e sessenta anos, mais de um século e meio, considerando que seria muito mais adequado do que teorizar acerca do Espiritismo, dar-lhe as condições efetivas de se tornar realidade de entendimento mundial. E por que não o fazemos, então?
 
Marcelo Henrique Pereira

21 junho 2021

Por que o riso incomoda muitos espíritas? - Marcelo Henrique Pereira


POR QUE O RISO INCOMODA MUITOS ESPÍRITAS?

Incomoda ou não incomoda? Eis, aí, o dilema…

Haverá um segmento que, ao ler o título deste artigo, terá cólicas e franzirá a testa em desaprovação. E dirão: – Como pode uma doutrina consoladora se posicionar contra o riso?

E, de outro lado, testemunhas de fatos ou tendo experimentado, na própria pele, a intransigência para com o riso em “ambientes” espíritas, irão balançar a cabeça afirmativamente.

E você, como se posiciona?

Inicialmente devemos estabelecer uma diferença de sorrir e rir. No primeiro caso, os sorrisos são comuns em qualquer agrupamento humano, sobretudo em face dos reencontros possíveis, semanalmente na instituição que se frequente, seja ela educacional, cultural, assistencial, filosófica ou religiosa.

O sorriso é até uma espécie de cumprimento, que pode ou não desencadear a aproximação física, o toque, o abraço, o aperto de mão e algumas expressões verbais, meio que chavão, como o “tudo bem?”.

Já o riso…

Este parece ser talhado para o ostracismo e o combate. Alguns mais ortodoxos, inclusive, irão dizer: – Num ambiente de prece, atendimento e consolo, certas extravagâncias não têm espaço! Enquanto outro, lá do fundo, se não fala, pensa: – Mas que pessoa(s) escandalosa(s)! Não sabe(m) nem se conter e rir “baixo”!?

Obviamente, em geral, o riso contagia. Parece espargir alegria aos circunstantes. E promove a leveza (insustentável) do ser, como disse Kundera. E é insustentável porque logo virão os dissabores existenciais, as provas, as expiações, as dificuldades…

Que seja, então, o riso, eterno enquanto dure, parafraseando um de nossos poetas maiores, Vinícius…

As heranças culturais religiosas parecem figurar como dolorosos entraves para a liberdade (ou a leveza do cronista), ancorados na falsa premissa de que “os sacrifícios agradam a Deus”. Se o Criador, pela própria definição religiosa, maravilhou-se com a sua obra e estabeleceu como “destino” do homem a sua própria felicidade, como fincar os pés em uma embarcação que só enfrenta tormentas? Não me parece lógico… E, no fundo, não é mesmo.

Relembremos a obra magistral de Umberto Eco, na forma de livro que virou filme e encantou milhões de pessoas mundo afora, com um maduro Sean Connery (1930-2020) magistralmente interpretando um monge. Ele chega a um mosteiro para um conclave que discute se a Igreja deveria ou não doar parte de suas riquezas, mas que se converte em investigador de alguns crimes que lá ocorrem. O personagem tem como nome William de Baskerville.

Numa das cenas mais apaixonantes do filme, um dos abades, cego, é interrogado por Baskerville, buscando subsídios para decifrar os crimes. O clérigo, então, questiona o investigador: – O que você realmente deseja?

William, de pronto, responde: – Eu quero o livro grego, aquele que, segundo você, nunca foi escrito. Um livro que trata apenas de comédia, que você odeia, tanto quanto o riso.

E prossegue: – É provavelmente a única cópia preservada de um livro de poesia de Aristóteles. Mas… Existem muitos livros que tratam de comédia. Por que este livro é precisamente tão perigoso?

O abade retruca: – Porque é de Aristóteles e vai fazer rir!

Baskerville devolve com outra questão: – O que é perturbador no fato de os homens poderem rir?

Eis que o abade sentencia, encerrando o interrogatório: – O riso mata o medo! E, sem medo, não pode haver fé! Pois quem não teme o diabo não precisa mais de Deus!

O medo soterra o riso, amaldiçoado desde sempre, pelas prescrições da religião. O medo sepulta a espontaneidade, visto que há convenções religiosas que precisam ser respeitadas. O medo invalida a criatividade, posto que os padrões estabelecidos são mais confortáveis aos que dirigem, diminuindo o esforço de lidar com o novo. O medo impõe caras tristes, semblantes fechados, posturas genuflexas, cabeças baixas, como que a suportar o peso do mundo sobre seus ombros.

Este é o nosso diabo moderno espírita, que engessa as pessoas e afasta tanta gente das instituições espíritas: a conformação a padrões estabelecidos, a subserviência a cânones impostos por certas personalidades, e a ideia “doutrinária” de que, por ser, este, um plano de expiações e provas, as criaturas devem concentrar todos os esforços em melhorarem-se. Em sendo esta tarefa dura, difícil, tenaz – dizem eles – não há espaço para gracejos e gargalhadas.

Que pena!

Fico imaginando aqueles onze homens e uma mulher, simples, do povo, de formações e profissões diferentes, condicionadas à sisudez da posição de crentes tementes a Deus. Cenário impossível… Mesmo diante das adversidades daquele povo, havia festejos e a presença na “Casa do Pai”, como tradicionalmente simboliza o templo, era motivo de regozijo e alegria. Como conceber um Pesach (Páscoa) sem cantos e danças, sem risos e gargalhadas, sem emotividade e satisfação?

Ou, então, como imaginar Rivail e Amélie sem receber convidados em seu modesto apartamento, sem frequentar os animados salões de Paris, sem se reunir festivamente com seus colegas de profissão, academia, trabalho, vizinhança? Que pobreza teria sido uma vida assim! Que inútil, igualmente!

Yeshua e Kardec foram, inegavelmente, homens à frente do seu tempo e almas muito mais maduras que a imensa maioria de seus patrícios. Por isso, sabiam o inestimável valor do riso, como o próprio festejo da existência, em mais uma jornada de aprendizado.

Fico por aqui com meus sorrisos, diante da expectativa em relação a você, que irá ler este meu artigo. E, quem sabe, logo, logo, pelos caminhos da vida, possamos nos encontrar e gargalhar, lembrando da necessidade de romper com certos paradigmas que nos foram impostos, quase sempre, por quem adotou a ideia do “pecado” – materializado na tese de eventual desrespeito ao “templo” espírita e aos Espíritos Superiores que ali comparecem para ministrar lições e atender aos enfermos – porque ainda não conseguiram se libertar dos atavismos culturais-religiosos de suas sucessivas existências.

Rio eu, ri você, rimos todos nós! Porque a mensagem espiritualizada é aquela que nos dá prazer e que transforma nosso semblante para o formato risonho, que cativa e reverbera…

Marcelo Henrique Pereira
Fonte: Portal Casa Espírita Nova Era

23 maio 2021

A quem interessa a mistificação da Mediunidade? - Marcelo Henrique Pereira

 
A QUEM INTERESSA A MISTIFICAÇÃO DA MEDIUNIDADE?
Não há interpretação espírita da Mediunidade sem ou fora de Allan Kardec.

Vejo muitos espíritas falando “da” Mediunidade. Constato outros mais praticando “a” Mediunidade. E observo um grande número de pessoas que, no segmento espírita, aceitam obras discutíveis, só porque teriam sido concebidas pela psicografia e detém assinaturas (mais ou menos) “ilustres”, tanto em termos do encarnado (médium?) quanto do desencarnado (espírito “de luz”?).

Ora, senhores… Não há interpretação espírita da Mediunidade sem ou fora de Allan Kardec. É impossível entender o FENÔMENO MEDIÚNICO (que Crookes bem conceituou como “O Fenômeno Espírita”, em um belo clássico da nossa literatura temática) sem acatar as judiciosas observações do Codificador, que concebeu uma sistemática e uma metodologia capaz de entender o processo, afastar a mistificação, a idolatria, a submissão e a introdução de conceitos bem estranhos em relação aos princípios espíritas. 
 
Vejo muitos espíritas “ávidos por novidades”, frequentando stands de feiras literárias ou seguindo os expositores-medalhões, em grandes (ou nem tanto) eventos espíritas. Acotovelam-se em filas de autógrafos, e passam a CRER CEGAMENTE nos “livrinhos” que têm em mãos, dizendo serem “obras complementares à Codificação”.

Precisa ser explicado para eles que COMPLEMENTAR não pode, sob qualquer hipótese ou pretexto, CONTRARIAR o que foi estatuído em Kardec – a não ser que, sob criteriosa pesquisa, investigação e seleção de escritos mediúnicos – algo relevante e novo possa ser agregado ao “edifício espírita”, não sem a chancela da generalidade.

Se há a liberdade de pensar – e, dela decorrente, a de escrever, no tocante aos que editam ou publicam obras psicografadas – nada substitui o critério de observação, juízo, seleção e entendimento doutrinário. E quem faz isso? Poucos, muito poucos.

Lembramos um trecho contido no laboratório kardeciano, a Revue Spirite (dezembro, 1858): “Como opor-se a um fenômeno que não tem tempo nem lugar prediletos; que pode produzir-se em toda parte, em todas as famílias, na intimidade, no mais absoluto segredo, ainda melhor do que em público? O meio de prevenir os inconvenientes nós o fornecemos em nossa Instrução Prática: Torná-lo de tal modo compreendido que nele apenas se veja um fenômeno natural, mesmo no que apresenta de mais extraordinário”.

Se o fenômeno é natural e ocorre todos os dias – independentemente do local tido como “sagrado” pelos espíritas, o “centro” e que não precisa de qualquer ritualística ou adereços, nem está condicionado à autoridade “mundana” de dirigentes ou pretensos especialistas – NÃO se quer dizer, com isso, que TUDO O QUE VEM DOS ESPÍRITOS DEVA SER TIDO COMO VERDADE. Muito pelo contrário.

Um bordão que foi destacado por Kardec em suas obras (32 no total) é o de que a condição de desencarnado não torna ninguém, sábio e que nós, após a vida física, todos, continuamos sendo o que fomos em vida. E, não raro, permanecemos envoltos nos mesmos interesses e conhecimentos, até que tenhamos outras oportunidades de ampliação, pelo estudo, pela experiência, pela conduta, pelas vivências em provas e expiações, nossos horizontes. Não é o “brilho” da assinatura, a “adjetivação” do cargo ou da função que ocuparam em vida, a “vinculação” ao movimento espírita ou às religiões em geral, na última existência conhecida, que o Espíritos (desencarnado que se manifesta) será reconhecido como pontual e agregador, em termos de conhecimento, ao Espiritismo.

Natural é a Mediunidade e deve ser compromisso igualmente natural de todo espírita estudioso e interessado avaliar cada parágrafo, cada artigo, cada texto, cada livro que lhe chegue em mãos, evitando, na singela e oportuna lembrança de um dito atribuído ao Mestre dos Mestres, Yeshua, nos caracterizarmos, infelizmente, como os cegos que são guiados por outros cegos.

É hora, definitivamente, de expulsarmos a trave de nossos olhos, que tem sistematicamente impedido que muitos espíritas enxerguem além!


Marcelo Henrique Pereira
Fonte:
Portal Casa Espírita Nova Era

19 janeiro 2021

Sim, somos racistas! - Marcelo Henrique Pereira

(Arte mensagem divulgada pela FEB no dia 20/11)
 
SIM, SOMOS RACISTAS!

Somos racistas quando maquiamos o discurso de ódio, inventando justificativas para o injustificável.

Somos racistas quando “torcemos o nariz” para programas econômico-financeiros de inclusão social, com discursos abrandados de meritocracia, quando a “lei da vida” nos impulsiona, desde as espécies do reino animal, a prover as necessidades dos hipossuficientes. “O forte deve amparar o fraco”, como contido em “O livro dos Espíritos”.

Somos racistas quando nos sentimos ameaçados ao vermos uma pessoa preta se aproximar de nós, na rua.

Somos racistas quando percebemos que alguém sofre algum prejuízo em dada oportunidade, nos cenários sociais, e não dizemos e nem fazemos nada!

Somos racistas quando visualizamos que alguém olha para outrem, de outra cor, com suspeita ou prevenção, e não a acolhemos nem nos posicionamos contrariamente a tal atitude.

Somos racistas quando atribuímos papéis ou funções, em espaços de integração, como a praia, o avião, o shopping, a determinadas pessoas simplesmente em razão da cor da pele, como a servidão em espaços de transporte, limpeza, lazer ou comida, por exemplo.

Somos racistas quando buscamos nos justificar como não-racistas, com o discurso pronto de que temos, em nossos círculos familiares ou de amizade, pessoas de outra cor.

Os reflexos racistas estão por toda a parte, em múltiplas faces! E se amplificaram, tanto no Brasil, quanto nos Estados Unidos, com o retorno a discursos, candidaturas e gestões marcadas pela exclusão, pelos preconceitos em geral (não somente o étnico) e pela violência no discurso e na prática. No segundo, a eleição (ainda não oficialmente encerrada, mas que já proclamou um vencedor), ao que parece, há avanços. Espera-se que, por aqui, logo à frente, também hajam.

Em um estudo publicado pelo Instituto DataFolha, em 2019 e realizado pela Oxfam – Percepções sobre desigualdades no Brasil de 2019 – para a população brasileira em imensa maioria (72%) a cor da pele seria o elemento definidor da contratação por parte de empresas; para 81%, um número ainda superior, os pobres pretos sofrem mais do que os brancos e a raça define o tipo e o nível da abordagem policial. Exatamente como ilustra o caso no supermercado, ocorrido esta semana. É o racismo “fora do armário” e a desconstrução do mito do não-racismo.

Um dado significativo da esperança pela mudança (de mentalidade e de comportamento) está no relatório, de 2018, da Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior, que declinam que 70,2% dos estudantes de universidades públicas federais vêm de famílias com renda mensal per capita inferior a um salário mínimo, 64% são egressos de escolas públicas e 52,1% são pretos.

Antes que haja, também em relação a este texto, alguma sombra de preconceito, vou justificar porque estou utilizando PRETO ao invés de NEGRO. Em um depoimento tocante e necessário, que circula na internet, um ganês de nascimento que vive há mais de trinta anos, no Brasil, e já entendeu a cultura brasileira e, por extensão, a forma de manifestação, o palavreado, a riqueza (ou nem tanto) das expressões do nosso vernáculo e a utilização de expressões em dados contextos, assim se pronuncia:

“Tem uma coisa que eu não compreendo no Brasil. No tempo da escravidão, os negros e os indígenas brasileiros eram chamados de negros da terra. Isto até 1755, quando se aboliu a palavra negro para indígenas, porque proibiu a escravidão de índios.

O Brasil usa palavras como a lista negra, o dia negro, magia negra, câmbio negro, vala negra, mercado negro, peste negra, buraco negro, ovelha negra, fome negra, humor negro, nuvem negra, passado negro, futuro negro. Não deveria chamar uma criança de negro, entendeu? Esta é uma coisa passada. Quando chama uma criança de negro – e tudo o que é negro é relacionado a coisas negativas – a criança fica com dúvidas, dúvidas acerca de sua própria identidade!

No dicionário de língua portuguesa – você que ainda não prestou atenção – está escrito: negro quer dizer “infeliz, maldito”. Brasileiro, então, quando valoriza, ele não fala negro. Ele fala preto! Ele não come feijão negro, ele come feijão preto. O carro dele não é negro, é preto. Ele não toma café negro, toma café preto. Quando passa fome, a fome é negra. Quando ganha na loteria, ganha nota preta.

Se branco não é negativo, preto também não é, entendeu? Mas negro não! Negro é palavra cem por cento negativa. Atrasa, causa morte, causa miséria e doença. Então, já que o mundo mudou, vamos mudar nossa linguagem, também, pra acompanhar a mudança do mundo!”

Vejo sensatez, bondade, riqueza, brasilidade e fraternidade nesta manifestação. E é por isso que me sinto representado neste discurso.Voltando ao racismo, é preciso dizer que a escravidão (de pretos, de indígenas e de povos colonizados por outros povos) tem um papel preponderante neste cenário e fixou raízes profundas na estrutura de nossa sociedade contemporânea, manifestando-se na economia, na política e nas relações sociais.

O fato é que o racismo se amplificou no século XIX, com a reverberação do conceito de que a cor branca, no contexto europeu se postava numa fictícia posição de superioridade, autoproclamando que as características físicas da cor da pele (branca) eram ficticiamente superiores. E os brancos, assim, se perfilaram superiores a outros grupos.

E, então, o conceito de “raça”, que deriva disto, produz um fenômeno (a priori, incontrolável) que situa pessoas não-brancas (pretas, indígenas, amarelas) como pertencentes a uma raça, ao passo que pessoas brancas são consideradas indivíduos.

Não saberia, eu, dizer se todos somos racistas. Mas vivemos, indiscutivelmente, numa sociedade enraizada no racismo. Pois o racismo está em todas as relações sociais e é notório perceber que há privilégios a uns, na conjuntura brasileira, pela cor de pele, meramente.

Não precisamos, assim, de isonomia, igualdade, equivalência, porque o discurso, inclusive constitucional (“todos são iguais perante a lei”) é mais uma poesia legal sem amplitude e eficácia! É impermanente, posto que efêmero, instável e inconstante! O que necessitamos é de equidade, para concretizar as oportunidades para todos e, ainda mais, para não permitir nem tolerar nenhuma diferenciação, seja porque motivo for.

No agir, é fundamental, como muitos especialistas no estudo das ciências humanas, sociais e antropológicas têm afirmado:

1) perceber em realidade que todas as práticas sociais da atualidade contêm racismo;

2) que lutar contra o racismo é compromisso e responsabilidade de todos, inclusive os não-pretos;

3) que, por sermos privilegiados, por certas convenções sociais e em face de características exteriores (como a cor da pele) e devemos nos posicionar contra isso; que não se pode calar diante da opressão nem tolerar que os que lutam e denunciam as práticas racistas sejam calados;

4) que não é responsabilidade dos pretos (ou dos índios, ou dos amarelos) perceberem e lutarem contra o racismo; e,

5) que não devemos tratar pessoas, sob qualquer interesse ou justificativa, como objetos (inclusive sexuais).

E dizer: vidas pretas importam! Vidas importam, sempre!

Pela cor da pele, pela herança genética, pela ascendência genealógica, sou um homem branco, fruto da miscigenação de italianos, portugueses e alemães. Mas isso não me impede de me sentir como um preto, de me solidarizar ante a dor dos que, sendo pretos, sofrem algum tipo de preconceito e, muito mais, de me alinhar contra toda e qualquer atitude que, direta ou indiretamente, de modo superficial ou fundante, na seriedade ou na “brincadeira”, em público ou privativamente, pensem, falem ou ajam por puro preconceito contra qualquer irmão em Humanidade.

Neste ponto, sou um branco-preto, ou um preto-branco. E é fundamental que todos os humanos do século XXI se posicionem nada mais do que como homens!

Esta semana, nas redes sociais, houve quem cobrasse do chamado “movimento espírita” uma atitude em relação ao racismo, sobretudo em face do crime bárbaro cometido aqui no sul brasileiro, onde também eu estou. Em nome da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo e em nome dos Movimentos “Espiritismo COM Kardec” e “Espíritas Progressistas”, nós nos manifestamos. Nós dizemos em alto e bom tom: – Não basta não ser racista. É preciso ser ANTIRACISTA.

Caso contrário, sim, somos racistas!

Marcelo Henrique Pereira

15 abril 2020

A Caridade Abnegada recomendada aos Espíritas - Marcelo Henrique Pereira



A CARIDADE ABNEGADA RECOMENDADA AOS ESPÍRITAS


Inegavelmente, o Espiritismo possui um caráter consolador. Kardec, mesmo, antes de escrever sua obra espírita “mais religiosa” – “O evangelho segundo o Espiritismo” – OESE, 1864) -, já havia, na Revue Spirite, desde 1858, como, também, em “O que é o Espiritismo” (1859) e “Viagem Espírita em 1862” (1863), destacado a importância do consolo pelo esclarecimento, dissipando nuvens e afastando explicações míticas ou místicas, dadas pelas religiões de todos os tempos, sobretudo com foco nas “penas e gozos terrestres”, isto é, da presente encarnação, e nas “penas e gozos futuros”, antevendo as situações dos Espíritos no porvir.

Presentemente, em face da situação de perplexidade, desânimo e até desespero em relação à pandemia deste ano de 2020, em todo o planeta, vamos buscar um texto que está inserido n’O evangelho espírita, pontualmente no Capítulo XIII, intitulado “Os infortúnios ocultos”.

Infortúnios são desditas, contratempos, adversidades ou infelicidades que os homens experimentam em sua experiência na carne. Ocultos porque, à vista dos olhos materiais, aqueles que estejam experimentando o desafio da pandemia, em geral, nada fizeram conscientemente para estarem suportando os efeitos ou resultados. Isto é, é oculta (desconhecida) a causa direta para que estejam perpassando as dificuldades inerentes ao cataclismo instalado no orbe. Ou, como pontua o Codificador no trecho em destaque, há sofrimentos que não se tornam conhecidos de muitas pessoas, nos quais as vítimas silenciosamente suportam as dores. 

Logo na abertura da mencionada dissertação, Kardec escreve de próprio punho (itens 4 a 8 do aludido capítulo), que na ocorrência calamitosa é a caridade que se expressa e avulta, podendo ser verificados impulsos generosos em grande parte das pessoas (e instituições sociais). A atenção se volta para os grandes desastres, mas, no âmago das sociedades e das famílias há desastres menores que podem passar despercebidos. E o conselho fraternal do professor francês vai no sentido de se descobrir ONDE estão os que sofrem em silêncio, sem se queixarem ou sem pedir assistência.

O componente principal nestes dias de pranto e ranger de dentes – remontando aos escritos evangélicos – está na SOLIDARIEDADE, na fraternidade, na caridade abnegada que muitos, anonimamente, dispensam aos seus compatriotas, mitigando-lhes dores e amparando-os no que seja urgente e possível.

Se formos atentos e não nos deixarmos levar pela “onda de pessimismo” e de contrariedades várias que tomam de assalto muitas pessoas, que buscam notícias em sites especializados, os que os recebem por postagens nas redes sociais ou os que acessam aos noticiários televisivos, diariamente, podemos verificar a divulgação das BOAS AÇÕES que são comuns neste tempo de penúria e consternação geral.

Aqui, uma idosa confecciona em sua velha máquina de costura, máscaras caseiras para a proteção dos que não podem adquiri-las nas farmácias. Ali, um grupo de voluntários se dispõe a arrecadar mantimentos e produtos de higiene pessoal e limpeza, para entregar no centro comunitário da periferia. Adiante, o morador de grande condomínio, em que há muitos idosos e pessoas em debilidade física, se predispõe a pegar-lhes as listas de compras de gêneros alimentícios e produtos de primeira necessidade, indo ao mercado e voltando com os suprimentos. Mais além, é a associação de bairro que abriu uma conta bancária específica para arrecadar donativos para a localidade municipal em que há o maior número de segregados sociais (pessoas em grave situação de vulnerabilidade social). E muitos outros exemplos há por aí.

Importa registrar que tal caridade se assemelha à descrita pelo Homem de Nazaré, seja em relação aos gestos do Samaritano, seja em sede das ações da viúva e seu óbolo, quando Kardec registra fato real, da França daqueles dias de penúria, que deixa a túnica em casa e se veste de forma simples, justamente para não afrontar os beneficiários do gesto, em face do distanciamento econômico-social, naquele momento, e, mais ainda, leva consigo a filha menor para que ela presencie o ato abnegado e angarie, com a experiência do momento, os preciosos valores que, segundo o Rabi, não quedariam inertes e à mercê dos ratos ou das aves do céu. Virtudes que sobreviveriam a outras intempéries e direcionariam, também, atos futuros.

E como a mocinha se inspira na mãe, tal a força do exemplo, também ela pode, com suas próprias mãos, minorar o sofrimento alheio. “Quando visitamos os doentes, tu me ajuda a tratá-los” – diz a mãe à menina-moça que ensaia o ensino-aprendizagem do exemplo. A mulher de bem – descrita mais à frente, no mesmo OESE, Capítulo XVII, “Sede Perfeitos”, item 3 (“O homem de bem” – gênero humano e não atributo da masculinidade física), ali está, plenamente caracterizada e atuante, sem receios nem titubeações. Por isso, Kardec pontua: “aquela mãe verdadeiramente cristã prepara a filha para a prática das virtudes que o Cristo ensinou. É espírita ela? Que importa!”.

Se Erasto, S. Luís ou A Verdade tivessem algo a dizer, neste momento em que a Humanidade – e o movimento dos espíritas, em particular – se pergunta sobre os “porquês” da pandemia, suas causas e consequências (sobretudo as de cunho espiritual), não há qualquer chancela de “status” a diferenciar os homens. Não se faz, em meio à catástrofe instalada nos quatro cantos da terra, qualquer pergunta relativa à crença, religião ou filosofia que adotam.

Aos que atuam, com dedicação, em relação ao sofrimento alheio NÃO SE PERGUNTA se são espíritas ou não. E, também, caso haja um bom número de espíritas que não estejam, atualmente, APENAS, preocupados com seus próprios botões (saúde pessoal e familiar), ou temerosos ante o “futuro do planeta” (inclusive para compartilhar mensagens bastante duvidosas, atribuídas a Espíritos, ou para relembrar a falácia mística da “data limite”, tristemente vinculada a Chico Xavier, que jamais teria se expressado neste sentido), trabalhando nos “infortúnios ocultos”, eles não estarão necessitando de NENHUM RECONHECIMENTO. Como Kardec escreve ao final do item 4, do capítulo em comento, todo aquele que assim age, “não deseja outra aprovação, além da de Deus e da sua consciência”.

Silêncio, pois! A verdadeira caridade não ocupa a ribalta!

Marcelo Henrique Pereira