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09 novembro 2014

Honorabilidade - Joanna Ângelis


HONORABILIDADE


Estatuiu-se, na sociedade terrestre, que as conquistas de qualquer expressão exaltam o indivíduo e proporcionam-lhe honorabilidade e respeito. O progresso, portanto, atrela-se a qualidades morais, mesmo quando não exista qualquer correlação de identidade.

O desenvolvimento intelectual, a conquista de recursos econômicos, o destaque na Arte, na política, em qualquer que seja a área, produz respeitabilidade, honradez, e o seu portador passa a receber a bajulação dos parvos e dos aproveitadores, dos oportunistas sempre à espera de compensações. Entrementes, o progresso material nem sempre faz-se acompanhar daquele de natureza moral.

Nem todas as aquisições que deslumbram e projetam o ser humano têm procedência digna, sendo muitas assinaladas pela astúcia ou pela desonestidade, por métodos escusos ou heranças de procedência vergonhosa.

A honorabilidade resulta da vivência dos valores éticos adotados, dos costumes saudáveis, das condutas retas.

Mais facilmente se encontra nos sofredores a presença honrosa da dignidade, que constitui alicerce moral de segurança, sobre o qual são edificados os sentimentos de elevação e de paz, mesmo quando não existem os recursos aplaudidos pelos interesses da comunidade.

Considerando-se o hedonismo, o existencialismo e o individualismo que se estabeleceram como programas sociais da atualidade, não são de surpreender as ocorrências danosas que se instalam no comportamento geral com aspectos terríveis, avassaladores.

Violência, crimes de diversas ordens, rivalidades entre os indivíduos, traições, indiferenças pelo próximo e os seus problemas, constituem os frutos espúrios do comportamento ideológico da imensa maioria dos cidadãos do mundo.

Quando se lhes apresentam pautas morais de coragem ante as naturais vicissitudes, roteiros de elevação diante dos desafios evolutivos, propostas de dignificação e condutas éticas, são considerados fora de época, desequilíbrio mental, perturbação masoquista, porque estes são os dias para o prazer em que se deve beber a taça do consumo até as últimas gotas.

A princípio tem-se a impressão de que o licor da juventude e do estonteante gozo é absorvido até o momento quando esse conteúdo converte-se em fel e veneno, passando a destruir aqueles que o libam.

A filosofia dominante, eminentemente egotista, é a do ter mais e sempre mais, do destacar-se para aproveitar o momento fugaz até a exaustão.

Especialistas em atividades de divertimento e de sensações renovadas não se dão conta de que, enquanto elaboram planos de júbilos infindáveis, mais se acercam da desencarnação. Quando surpreendidos pelas enfermidades que alcançam a todos, pelos desencantos de algum insucesso, pelos acidentes orgânicos paralisantes e aqueles de outra natureza, não dispõem de resistência emocional para a sua administração.

Acreditam-se, inconscientemente, invulneráveis, inatingíveis pelo sofrimento que somente elege os outros, a ponto de viverem anestesiados em relação aos valores existenciais e à fragilidade de que se constitui o ocaso carnal no qual se encontram.

Quanta ilusão nos propósitos de viver apenas para desfrutar!


*


É natural que todos os seres humanos anelem pela felicidade. O fundamental, no entanto, é saber-se em que a mesma consiste. Ignorando-se o de que se constitui, abraçam-se as sensações fortes, o armamento preventivo contra a solidariedade, a fim de não se exporem, e fogem sempre na busca da alegria que não deve cessar. Alcançando-a, não se dão conta de como é rápida a sua presença na emoção, logo cedendo lugar à ânsia de novos e incessantes júbilos.

O corpo, porém, não está programado somente para as sensações, mas sobretudo para as emoções e, quando essas se derivam do exterior, abrem espaço para o vazio existencial, para a sensação de inutilidade.

A felicidade, sem dúvida, é emoção profunda e duradoura de plenitude que o Espírito vivencia quando consegue conciliar a consciência tranquila como resultado do caráter íntegro e das emoções pacificadoras.

Honoráveis são todos aqueles que conseguem superar as más inclinações e se dignificam no esforço da autoiluminação.

Nesse sentido, a oferta de Jesus, desde há quase dois mil anos, diz respeito à imortalidade e não apenas à maneira como deve ocorrer o trânsito carnal que passa célere, mas tem como objetivo essencial trabalhar-se em favor do futuro espiritual inevitável.

É natural que se aspirem pelas alegrias, comodidades, satisfações, bem-estares. Isto, porém, resultará das condutas mentais que dão lugar aos acontecimentos que se desenrolam durante a existência.

Transferindo-se de uma para outra reencarnação, as realizações apresentam-se em novas formulações que são os desafios evolutivos para serem enfrentados e superados.

As distrações e fugas do dever não conseguem impedir que, no momento próprio, apresentem-se como impositivos inevitáveis para acontecerem.

A consciência lúcida em torno da imortalidade propicia inefável alegria, por facultar os meios hábeis para o comportamento nos momentos difíceis da reabilitação moral.

Ninguém existe que possa impedir o despertar para a realidade, fenômeno resultante da sucessão do tempo que impõe amadurecimento psicológico, porquanto, qualquer fuga, em vez de libertar do compromisso, mais o complica e o adia, para ressurgir à frente.


*


Não te escuses ao chamado pela dor para a conquista da honorabilidade.

Se conheces algo da doutrina de Jesus, sabes que ela é um hino de louvor à vida e uma exaltação contínua ao amor em todas as facetas em que se apresente.

Reflexiona em torno de como te encontras e o que podes fazer para alcançar a meta que te está destinada: a perfeição relativa, o estado de reino dos Céus na mente e no coração.

Honoráveis foram os mártires de todo jaez, que não temeram o sacrifício, inclusive, o da própria existência.

Todo aquele que transforma a existência em um evangelho de amor no reto cumprimento do dever torna-se honorável.

Esforça-te para entender a finalidade existencial e segue, firme e abnegado, a trilha do teu compromisso para com a vida.


Joanna de Ângelis 
Psicografia de Divaldo Pereira Franco, na sessão mediúnica de 6 de agosto de 2014, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.

08 novembro 2014

Por que ser bom? - Erika Marques de Britto



POR QUE SER BOM?


Muitos aqui já devem ter ouvido falar que é preciso ser bom, que é preciso fazer o bem e não praticar o mal...

Mas alguém já parou pra pensar porque? Qual é a vantagem que isso traz?

O bem está se tornando uma palavra comum no nosso dia a dia, mas o homem moderno encontra sempre algum motivo para recusar o exercício do bem se confessando incapaz para esta prática, ou alegando cansaço, falta de tempo ou seja, aqui e ali se justificando, dizendo que é muito difícil, ou impossível, ou que é melhor esperar um pouco.

O apóstolo Tiago, no versículo 17 do Capítulo 4 no Evangelho, afirma que Todo aquele que sabe fazer o bem e não faz, comete falta.

O Livro dos Espíritos nos diz na questão n. 643 que não há ninguém que não possa fazer o bem e que somente o egoísta não encontra jamais a ocasião de poder praticá-lo. Diz ainda que o homem deve fazer o bem, no limite de suas forças, porque responderá pelo mal que causou, não tendo praticado o bem.

O “Evangelho Segundo o Espiritismo”, Capítulo XVII, diz que o verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a Lei de Justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Quando interroga sua própria consciência, pergunta-se se não violou essa lei; se não fez o mal; pergunta-se se fez todo o bem que podia; também se deixou uma oportunidade de ser útil passar em branco; ou se alguém tem do que se queixar dele; enfim se fez ao outro tudo o queria que se fizesse por ele. 

O homem compenetrado pelo sentimento de caridade e de amor ao próximo faz o bem pelo bem, sem esperar retorno.

Devolve ao mal, o bem e se satisfaz com os benefícios que espalha, com os serviços que presta, com aqueles que torna feliz, com as lágrimas que seca. 

Se primeiro movimento é de pensar nos outros, antes de pensar em si mesmo. Ele é bom, humano, benevolente com todo mundo, sem distinção de raças nem crenças, pois considera todos os homens como irmãos.

Ocasiões não faltam.

Diariamente multidões de doentes, desabrigados, famintos, nus e desorientados esperam por nós. Por exemplo, se encontramos um doente, sem possibilidades de tratamento e providenciamos sua melhora, simplesmente em troca da satisfação de vê-lo com saúde, pode nos trazer resultados incalculáveis de satisfação pessoal.

Só quem já passou por esse tipo de realização consegue julgar a pureza da emoção que nos domina, o encanto particular de podermos ser os ajudantes ativos, das vitórias do próximo. Talvez, esse tipo de ajuda, possa ajudar muitas pessoas a resgatar a confiança em Deus e isso depende de nós.

Mas, são raras as pessoas que param e se perguntam o que é o bem e o mal. E então como fazer para saber?

O bem é tudo aquilo que está de acordo com a Lei de Deus e o mal é tudo aquilo que dela se afasta. Deus nos deu inteligência para distinguirmos as várias situações que passamos e que fazemos os outros passarem. Essa intuição é o nosso termômetro para identificar o bem e o mal.

Jesus nos disse: “Vede o que quereríeis que vos fizessem ou não” e assim saberemos.

Parece simples, o que nos disse Jesus e realmente é, se treinarmos sempre, dia a dia, os ensinamentos que ele trouxe há 2000 anos.

Os homens freqüentemente cometem faltas, e aquele que tiver maior conhecimento,,,, e que for mais esclarecido é mais culpável aos olhos de Deus que o selvagem que se entrega aos instintos.

“Porque o mal se encontra na natureza das coisas?” pergunta Kardec. E os espíritos respondem: “Os espíritos foram criados por Deus, simples e ignorantes. Deus deixa a escolha do caminho ao homem: tanto pior para ele se seguir o mal; sua peregrinação será mais longa”.

Várias são as causas da maldade: o desequilíbrio econômico, a injustiça das leis, os preconceitos sociais, os vícios morais, a educação falseada, os desregramentos na conduta familiar e principalmente pelo materialismo.

O materialismo gera, egoísmo e orgulho e a partir daí tudo pode se transformar em maldade.

André Luiz, através da mediunidade de Chico Xavier, dizia que o mal não merece comentário, que não devemos perder tempo falando dos maus acontecimentos. Porque isto trás perturbação a mente e fazendo com que despejemos ondas vibratórias negativas no ambiente.

Se não existissem montanhas, não poderia o homem compreender que se pode subir e descer; e se não existissem rochas, não compreenderia que há corpos duros. 

O mal depende da vontade que se tem de fazê-lo e o homem é mais culpado quando melhor sabe o que faz.

Não existe a “Lei da Dor”, portanto, o sofrimento e a dor são conseqüências da ignorância do homem.

O mal sempre recai sobre aquele que o causou, na medida da responsabilidade em saber o que estava fazendo, e assim é julgado. 

O importante é a intenção que leva a pessoa a qualquer ato. 

Desfrutar do mal que outra pessoa causou, também é participar. 

Desejar o mal a alguém, também é como se o tivesse feito. 

Vem daí a expressão de que podemos “pecar” por pensamentos, palavras e obras.

Se alguém deseja o mal, e não o pratica, apenas por falta de oportunidades, também é culpado.

Não é suficiente apenas deixar de fazer o mal para nos mostrarmos agradáveis a Deus tentando garantir uma situação futura.

O que é preciso fazer é o BEM, nos limite de nossas próprias forças, pois cada um de nós responderá por todo mal que tiver acontecido por causa do bem que deixou de fazer.

O mérito do bem é relativo a dificuldade. 

Ou seja , não há mérito em fazer o bem quando não custa nada. Para Deus vale mais o pobre que doa pois vai lhe faltar do que aquele que dá daquilo que lhe sobra.

Diante do bem e do mal, não devemos perder tempo, o certo é praticar o bem, apesar de que a prática do bem não nos isentar de enfrentar o mal, mas teremos a consciência tranqüila, paz e paciência para essa luta silenciosa, mas vitoriosa.

Vamos então pedir que Deus, nosso amado Pai, nos ajude e ilumine para que os ensinamentos dessa noite, façam morada em nossos corações. Que possamos refletir sempre com mais discernimento sobre tudo que estamos aprendendo. Que Deus nos permita aplicar no dia a dia o Seu amor e que a fé inabalável nos acompanhe sempre. 

Que assim seja!

Erika Marques de Britto
  

07 novembro 2014

Filhos Adotivos e Nossas Atitudes - Enéas Martim Canhadas



FILHOS ADOTIVOS E NOSSAS ATITUDES


Questões sobre o tema Filhos Adotivos

1 – À luz do Espiritismo, quais as diferenças entre um filho adotivo e o filho consangüíneo?

Como no ensina o Livro dos Espíritos, Item 205, a doutrina da reencarnação amplia a função dos laços de família enquanto proposta de vivência da fraternidade entre espíritos afins, e mesmo não afins mas que têm ajustes a realizarem nas suas convivências, tanto entre os chamados filhos legítimos como os filhos adotivos. Como nos ensina Emmanuel, essa doutrina nos mostra que “no vizinho ou no servo, pode achar-se um Espírito a quem tenhamos estado presos pelos laços da consangüinidade”.

Podemos pois, inferir com segurança que, em se tratando de espíritos encarnados numa ou noutra condição não há nenhuma diferença. Os chamados filhos do coração podem ser entendidos assim em toda a extensão que esta expressão possa conter quanto a co-responsabilidades paternais e filiais. 

2 – Um filho natural pode ter o mesmo nível de carência afetiva do que um filho adotivo?

A carência afetiva não me parece estar atrelada ao fato de ser filho natural ou adotivo. O ser humano é, intrinsecamente, um ser carente. No entanto, vale evidenciar que o filho adotivo tem uma carência agravada pelo fato de ser um indivíduo rejeitado. Difícil haver um amor sobre a Terra que possa lhe tirar esta sensação. Ele vai ser feliz por ter sido aceito e amado, porém vai conviver com a rejeição.

3 – Toda adoção tem vínculos com as vidas passadas dos pais?

Não diria tal coisa. Podemos ser levados a pensar desta forma por causa da lei de ação e reação. No entanto isso pode não estar acontecendo num processo de adoção. Não posso pensar que trabalho durante anos num asilo de velhos por que tenho vínculo com todas aquelas pessoas idosas que ali estão. O afeto que dedico a eles é, antes de tudo, um afeto que não precisa estar sendo manifesto apenas por acerto de contas ou resgate por dívidas contraídas. Os gestos amorosos não precisam estar condicionados a dívidas pregressas.

4 – Qual a melhor forma para se contar para a criança que ela é adotiva?

Diria que se conta a uma criança que ela é adotiva assim como se ensina uma criança a perder o medo de escuro ou a ficar sozinha em casa. Aos poucos. Doses homeopáticas são o alimento afetuoso que vai fortalecer os sentimentos de confiança do ser que traz em si dúvidas por ter sido rejeitado.

5 – Até que ponto a revelação da adoção pode gerar conflitos emocionais e situações traumáticas?

Se essa revelação for sendo feita com cuidado e com afeto, não deverá causar traumas. No entanto os conflitos emocionais, em alguns casos poderão ser inevitáveis, não devido a maneira errada da revelação mas sim pelas características do espírito que está ali encarnado na condição de filho adotivo. Um espírito inseguro ou irascível ou que já traz em si uma baixa estima, provavelmente viverá conflitos causados por essa revelação. O que restará aos pais será uma missão ainda mais complexa no sentido de doar afeto, ter paciência e ser perseverante na tarefa que assumiram.

6 – Os adultos adotam crianças por amor ou por necessidade psicológica?

As duas coisas. Seria ideal que só o fizessem por amor. É bom dizer porém, que necessidades psicológicas desse calibre precisariam ser muito bem diagnosticadas e esclarecidas. Principalmente para que não estejam por trás dessa atitude, mecanismos psíquicos de compensação, de auto afirmação, de sublimação, de substituição, enfim mais relacionados a orgulho ou “status” do que a um legítimo ato de amor ou afeto. Não fosse assim teríamos menos rejeitados nos abrigos e “lares” como negros, feios, doentes, limitados intelectualmente e outros.

7 – A origem fiso-psíquica dos adotados, mesmo vivendo em uma boa estrutura familiar pode influenciar seus atos e atitudes no futuro?

Com certeza. O que é constituição de caráter vai estar presente pela vida toda. Um espírito problemático, rebelde será assim pela sua história e não pelo lar que o adotou. Pode aprender e assimilar o afeto que for a ele dedicado? Certamente, e isso pode mudar o seu rumo proporcionando um salto no seu progresso intelectual, moral e espiritual. “O Espírito dos pais tem a missão de desenvolver o dos filhos pela educação”. Esse mandato que está no Livro dos Espíritos parece-nos muito apropriado tanto a filhos naturais quanto a filhos adotados. A educação é a maneira correta de influenciar, lembrando porém que não se trata de “mudar” alguém mas sim de criar condições para que ali se dê o processo educativo juntando as oportunidades que o indivíduo tenha de perceber os ensinamentos e que toquem o seu espírito para que ele próprio, pelo seu livre arbítrio, mude o seu interior. Como nos ensina Paulo Freire, “o homem se educa a si mesmo”, porém facilitado pela condição educacional que o ambiente familiar oferecer.

8 – Os sentimentos (amor e mágoa) que a criança nutre pela mãe natural, podem ser transferidas para a mãe adotiva?

Com certeza. Hoje sabemos que os fetos tem uma intensa vida intra-uterina na relação com a mãe natural. Certamente ele já vive no útero que o gerou a dor de que vai ser rejeitado. Quando vier à luz se a mãe natural, por alguma razão, não o quiser ou não estiver livre para desejá-lo para ela, amor ou mágoa existirão e irão sim em forma de amarguras e dúvidas para a mãe adotiva. As dúvidas são inerentes aos espíritos amados e bem equilibrados, quanto mais para os espíritos que foram realmente enjeitados. O filho adotivo, muito provavelmente, terá nas suas raivas e rebeldias naturais (por exemplo na adolescência) o agravante de ter sido adotado. E a mãe natural será alvo desses sentimentos e emoções agravantes.

9 - Um filho adotivo problemático é sempre um “carma” que os pais precisam resgatar?

Não podemos pensar assim pois se não os filhos adotivos que dão certo e são felizes, produtivos e gratos, também teriam que ser considerados prêmios. Não podemos pensar numa providência divina que se utilize de seres encarnados para serem “carmas” ou troféus entregues a pais dedicados. Aliás falando de carma, vamos abandonar a idéia limitada e limitante de que os carmas são dívidas a serem pagas. Os carmas podem ser entendidos como heranças a serem transmutadas ou transformadas. É melhor pensar em carma como estímulo para o nosso desenvolvimento ou mesmo proposta de superação para o nosso progresso. Os carmas podem mesmo ser entendidos por talentos. O homem que enterrou o único talento recebido transformou-o em carma. O outro que multiplicou o talento recebido transformou-o e o multiplicou.

10 - Há mais facilidade em lidar com uma criança adotada recém nascida ou com aquela de maior idade?

Diria que a recém nascida é mais amoldável ao ambiente e aos costumes do casal que a adotou. A própria voz dos pais adotivos se farão ouvir desde muito mais cedo. A criança adotada de maior idade já terá passado outras experiências e também já sofrido mais as agruras da sua rejeição, quer pelos pais naturais ou pela experiência de viver num “lar” provisório ou mesmo na rua ou, sob a guarda de um juizado, ou então nas mãos dos pais naturais que a maltrataram. Não há dúvida que o processo de adaptação da criança de maior idade, será muito mais doloroso para todos, e muito mais difícil enquanto tarefa a ser assumida.


Referências Bibliográficas:

  • Maldonado, Maria Tereza – “Os caminhos do coração: pais e filhos adotivos”, Edit. Saraiva.
  • Miranda, Ermínio – “Nossos filhos são espíritos”, Edit. Arte e Cultura.
  • Oliveira, Amarilis de; Espírito Dori – “Pai Adotivo”, Edit. DPL
  • Sulloway, Frank J. – “Vocação: Rebelde”, Edit. Record
  • Xavier, Francisco Cândido; Vieira, Waldo – “Sexo e Destino”, F.E.B.
  • Xavier, Francisco Cândido; Espírito Emmanuel – “Vida e Sexo”, F.E.B.

Enéas Martim Canhadas
Revista Literária Espírita DELFOS Março/Abril de 2001

06 novembro 2014

A saúde pode ser afetada pela obsessão? - Orson Peter Carrara

 

 

A SAÚDE PODE SER AFETADA PELA OBSESSÃO?

Desafio está em conhecer origem dos casos

 

Uma interessante matéria publicada por Allan Kardec na Revista Espírita (1) utiliza a expressão loucura obsessional. O texto, que recomendamos aos leitores, é um estudo sobre os Possessos de Morzine, uma localidade em determinada região francesa, alvo de carta endereçada ao Codificador pelo capitão B. (membro da Sociedade Espírita de Paris e naquele momento radicado na cidade de Anecy). Allan Kardec publicou a carta na edição de abril (2), seguida de instruções dos espíritos Georges e Erasto e ainda acrescentou lúcido comentário sobre a questão. Depois na edição de dezembro (3) voltou ao assunto, desdobrando-o em bem argumentada análise.

Trata-se de uma obsessão coletiva que atingiu toda uma coletividade e Kardec usa nas duas edições referidas toda a lógica da Doutrina Espírita para explicar a questão da natureza dos espíritos e sua permanente influência junto à humanidade através do perispírito e da mediunidade. Porém, abre importante caminho no entendimento da enfermidade classificada como loucura e acrescenta que “(...) Ao lado de todas as variedades de loucura patológica, convém, pois, acrescentar a loucura obsessional (...)” E acrescenta: “Mas como poderá um médico materialista estabelecer essa diferença ou, mesmo admiti-la? (...)” (1).

A questão suscita observações interessantes sobre a saúde mental. Ocorre que é grande o número de pessoas consideradas como lesionadas no cérebro e portanto internadas em hospitais psiquiátricos ou em tratamento mental ou psicológico, quando na verdade estão apenas sob forte influência de espíritos que agem ainda com ódio premeditado ou mesmo atuam inconscientemente. Claro que há, e isto ninguém contesta, os que podem ser considerados vítimas de lesões cerebrais irreversíveis com indicações claras de tratamentos ou internações inadiáveis. Mas, a influência perniciosa de um espírito desequilibrado e “que não passou de acidental, por vezes toma um caráter de permanência quando o Espírito é mau, porque para ele o indivíduo se torna verdadeira vítima, à qual ele pode dar a aparência de verdadeira loucura. Dizemos aparência, porque a loucura propriamente dita sempre resulta de uma alteração dos órgãos cerebrais (...) Não há, pois, loucura real, mas aparente, contra a qual os remédios da terapêutica são inoperantes, como o prova a experiência (...)” (1), conforme acentua o Codificador.

Como sabem os estudiosos da Doutrina Espírita, a obsessão é capítulo importante no relacionamento entre encarnados e desencarnados, tendo inclusive merecido capítulo específico em O Livro dos Médiuns (4) e como destacado pelo próprio Codificador o desafio está em enfrentar esta loucura aparente – pois não há lesões cerebrais –, causada pela presença e influência de espíritos maus e perversos, que constrange e/ou paralisa a vontade e a razão de sua vítima, fazendo-a pensar, falar e agir por ele, levando-a a atos e posturas extravagantes ou ridículas. Considere-se que estamos num planeta ainda dominado pelo egoísmo, onde a maioria das criaturas que o habitam – estejam encarnados ou desencarnados – estão envolvidas com interesses mesquinhos e sem finalidades educativas ou de aperfeiçoamento. E fica fácil, então, imaginar o mundo invisível formando inumerável população que forma a atmosfera moral do planeta, caracterizado pela inferioridade das lutas mundanas e dos interesses que o egoísmo, a vaidade, o orgulho ou a inveja podem criar. Para resistir a tudo isso, usando palavras do próprio Kardec, “são necessários temperamentos morais dotados de grande vigor”.(5)

E é interessante notar que, conforme ponderações do próprio Kardec (6), “(...) a ignorância, a fraqueza das faculdades, a falta de cultura intelectual” oferecem mais condições de assédio aos espíritos imperfeitos que tentam e muitas vezes conseguem dominar as criaturas humanas através do real fenômeno da obsessão, tantas vezes confundido como loucura ou lesões no cérebro.Diante desse quadro todo, percebe-se claramente a importância do estudo e da divulgação espírita perante todas as classes de indivíduos do planeta. Nesta área da saúde, o Espiritismo vem esclarecer a obscura questão das doenças mentais, apresentando uma causa que não era considerada e constitui perigo real evidente, provado pela experiência e pela observação: o da obsessão ou influência dos espíritos sobre os seres humanos. 

Referências:

(1) Dezembro de 1862, páginas 360, edição EDICEL, tradução de Júlio Abreu Filho.
(2) Abril de 1862, páginas 107/108, edição EDICEL, tradução de Júlio Abreu Filho.
(3) Dezembro de 1862, páginas 360 a 365, edição EDICEL, tradução de Júlio Abreu Filho.
(4) Capítulo XXIII.
(5) página 356 da edição de Dezembro de 1862 da Revista Espírita, edição EDICEL, tradução de Júlio Abreu Filho.
(6) Abril de 1862 da Revista Espírita, página 111, edição EDICEL, tradução de Júlio Abreu Filho.

Orson Peter Carrara
Matéria publicada originariamente no jornal O CLARIM, edição de dezembro de 2004.


05 novembro 2014

Avalie a si mesmo - Elio Mollo



AVALIE A SÍ MESMO
 

Uma observação importante

O que é reformar? (literal)
É restituir ou restabelecer à organização primitiva.

O que é transformação? (literal)
É o ato ou efeito de transformar ou de ser transformado. É uma alteração, modificação ou uma mudança de uma forma em outra. Pode ser uma evolução ou mutação mais ou menos lenta de qualquer coisa.

O que é modificação? (literal)
É o ato ou efeito de transformar. É mudança no modo de ser de qualquer coisa. É transformação de uma coisa sem prejuízo da essência.

O que é alteração? (literal)
É o ato ou efeito de modificar o estado normal de alguma coisa. Pode ser também, o ato de decompor, ou degenerar alguma coisa.
Assim, adotamos a palavra transformação por achá-la mais adequada ao que se refere às mudanças comportamentais.

Transformação Íntima

O que é transformação íntima?

É um processo contínuo de auto-análise, de conhecimento de nossa intimidade espiritual, libertando-nos de nossas imperfeições e permitindo-nos atingir o domínio de nós mesmos.

O que podemos fazer para nos transformarmos intimamente?

Podem-se e devem-se substituir nossos defeitos como, por exemplo, o Egoísmo ou Personalismo, o Orgulho, a Inveja, o Ciúme, a Agressividade, a Maledicência e a Intolerância por virtudes, tais como Humildade, Caridade, Resignação, Sensatez, Generosidade, Afabilidade, Tolerância, Perdão, etc.

Quanto tempo poderá levar para que tais mudanças ocorram?

O tempo não importa o que importa é o esforço contínuo que se faz para atingir a Transformação Íntima. (“Reconhece-se o verdadeiro Espírita pela sua transformação moral, e pelos esforços que emprega para domar as suas más inclinações”. Allan Kardec in O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVII, Sede Perfeitos). Não se trata de esforço físico, mas de firme contenção de espírito, de um empenho que não sofra excessiva solução de continuidade. "Excessiva", porque, na verdade, também não podemos estar "continuamente" empenhados na transformação de nós mesmos.

Deve haver, isto sim, uma persistência de propósito, e a esta persistência chama esforço. Em outras palavras, não é bom sintoma abandonar uma atividade ou desviar a energia para um curso mais fácil de ação, ao primeiro sinal de dificuldade. A referência do esforço é nesse sentido: continuidade, persistência em face das dificuldades. Mesmo que no dia a dia dê a impressão de que não houve nenhuma mudança, não se deve desanimar nem abandonar o propósito da transformação. Por isso devemos dizer que este esforço é para a vida toda. Estudar o Evangelho de Jesus, ouvir sugestões de pessoas experientes, assistir conferências, ler artigos e livros referentes a este assunto nos levará a conhecer ainda mais, e assim nos auxiliar na identificação dos defeitos que nos afetam em cada situação da vida e aprender aos poucos a prática das virtudes que irão substituí-los.

Como fazer?

O Conhecer a si mesmo é o primeiro passo para a nossa Transformação Íntima, e Santo Agostinho em resposta à q. 919ª de O Livro dos Espíritos nos oferece uma excelente receita para isto:

“Quando estiverdes indecisos sobre o valor de uma de vossas ações, inquiri como a qualificaríeis, se praticada por outra pessoa. Se a censurais noutrem, não a podereis ter por legítima quando fordes o seu autor, pois que Deus não usa de duas medidas na aplicação de Sua justiça.

Procurai também saber o que dela pensam os vossos semelhantes e não desprezeis a opinião dos vossos inimigos, porquanto estes nenhum interesse têm em mascarar a verdade, e Deus muitas vezes os coloca ao vosso lado como um espelho, a fim de que sejais advertidos com mais franqueza do que o faria um amigo.

Perscrute, conseguintemente, a sua consciência, aquele que se sinta possuído do desejo sério de melhorar-se, a fim de extirpar de si os maus pendores, como do seu jardim arranca as ervas daninhas; dê balanço no seu dia moral para, a exemplo do comerciante, avaliar suas perdas e seus lucros e eu vos asseguro que a conta destes será mais avultada que a daquelas. Se puder dizer que foi bom o seu dia, poderá dormir em paz e aguardar sem receio o despertar na outra vida.

Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais multiplicá-las. Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna.

Não trabalhais todos os dias com o fito de juntar haveres que vos garantam repouso na velhice? Não constitui esse repouso o objeto de todos os vossos desejos, o fim que vos faz suportar fadigas e privações temporárias? Pois bem! Que é esse descanso de alguns dias, turbado sempre pelas enfermidades do corpo, em comparação com o que espera o homem de bem? Não valerá este outro a pena de alguns esforços? Sei haver muitos que dizem ser positivo o presente e incerto o futuro. Ora, esta exatamente a idéia que estamos encarregados de eliminar do vosso íntimo, visto desejarmos fazer que compreendais esse futuro, de modo a não restar nenhuma dúvida em vossa alma.”

Temos a tendência natural de sempre justificar nossos defeitos com racionalismos. São artimanhas e tramas inconscientes. Portanto, procuremos conhecer a fundo esses defeitos em todas as suas particularidades, e em como eles nos afetam, localizando as ocasiões em que estamos mais vulneráveis à sua manifestação. Procuremos então nos afastar desses procedimentos e buscar ferramentas adequadas para substituí-los em nosso comportamento. 

Veja estas sugestões de Benjamin Franklin em sua Autobiografia, tais como escreveu e na ordem que lhes deu:

  • Temperança – Não coma até o embotamento; não beba até a exaltação.
  • Silêncio – Não fale sem proveito para os outros ou para si mesmo; evite a conversação fútil.
  • Ordem - Tenha um lugar para cada coisa; que cada parte do trabalho tenha seu tempo certo.
  • Resolução – Resolva executar aquilo que deve; execute sem falta o que resolve.
  • Frugalidade – Não faça despesa sem proveito para os outros ou para si mesmo; ou seja, nada desperdice.
  • Diligência – Não perca tempo; esteja sempre ocupado em algo útil; dispense toda atividade desnecessária.
  • Sinceridade – Não use de artifícios enganosos; pense de maneira reta e justa, e, quando falar, fale de acordo.
  • Justiça – A ninguém prejudique por mau juízo, ou pela omissão de benefícios que são dever.
  • Moderação – Evite extremos; não nutra ressentimentos por injúrias recebidas tanto quanto julga que o merecem os injuriantes.
  • Asseio – Não tolere falta de asseio no corpo, no vestuário, ou na habitação.
  • Tranqüilidade – Não se perturbe por coisas triviais, acidentes comuns ou inevitáveis.
  • Castidade – Evite a prática sexual sem ser para a saúde ou procriação; nunca chegue ao abuso que o enfraqueça, nem prejudique a sua própria saúde, ou a paz de espírito ou reputação de outrem.
  • Humildade – Imite Jesus e Sócrates. .

A importância das quedas

Um ponto importante é que precisamos contar com as quedas, até que cresçamos espiritualmente, afinal somos como crianças aprendendo a andar, e são as quedas que fortalecem nossa vontade, e nos ensinam a ter persistência.

Somos aquilo que conseguimos realizar e não aquilo que prometemos. Através das quedas aprendemos mais sobre nós mesmos e podemos aperfeiçoar o modo de evitá-las. Mas se cairmos porque nos falta vontade de acertar estaremos no caminho descendente e, de queda em queda, nos enfraqueceremos.

A criança aprende a andar porque está determinada a fazê-lo. Então, não desanimemos nunca, levantemo-nos logo e sigamos em frente com tranqüilidade, sem nos martirizarmos, com conhecimento de causa, na firme determinação de não mais errarmos.

Conclusão

A cada minuto de nossa vida, antes de iniciar qualquer ação, façamos este exercício de nos perguntarmos sempre:

Isto que estou fazendo agora seria bem aceito por Deus ou pela minha consciência?

Se for, o procedimento é correto; se não for devemos descontinuar imediatamente o que iriamos fazer e não pensar mais nisso.

“Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticara durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que houvera feito, rogando a Deus e ao seu anjo de guarda que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar, porque, crede-me, Deus o assistiria.

Dirigi, pois, a vós, mesmos perguntas, interrogai-vos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar. 

Perguntai ainda mais: Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?

Examinai o que pudestes ter obrado contra Deus, depois contra o vosso próximo e, finalmente, contra vós mesmos. As respostas vos darão, ou o descanso para a vossa consciência, ou a indicação de um mal que precise ser curado.” - (SANTO AGOSTINHO - O Livro dos Espíritos, q. 919a)

A auto-análise permite que alinhemos as nossas ações e pensamentos na direção das correções que necessitamos realizar, para que ajustemos os nossos atos de acordo com os ensinamentos do Mestre, tanto com relação a Deus como em relação ao nosso próximo.

Através do esforço próprio e de exercícios repetidos em direção às boas causas, sedimentaremos em nós o próprio Bem.

Este processo é árduo, assim necessitaremos de muita coragem, perseverança e determinação para o realizarmos. Deus assiste e auxilia sempre, mas precisamos fazer a nossa parte se desejamos verdadeiramente melhorar.

Invistamos em nosso interior e procuremos melhorar nosso espírito eterno, transformando o que esta sociedade transitória estabeleceu como "normal" para nós. Lutemos o bom combate e não a luta mesquinha dos materialistas. A humanidade continuará ainda por muitos séculos como é agora, mas nós, que já estamos disposto às mudanças de atitude, que já sentimos o amor ensinado pela Doutrina Espírita, que já estamos conscientes da realização de nossa evolução espiritual, que já começamos a compreender as palavras de nosso grande Mestre (Jesus), podemos fazer a nossa pequena parte vivendo a solidariedade no mais alto grau que é a caridade e realizar a transformação no íntimo de cada um, fazendo a Alquimia moderna de transformar chumbo em ouro.

Referências:

  1. O Livro dos Espíritos – Allan Kardec
  2. O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec
  3. Reforma íntima (artigo) - Paulo Antonio Ferreira - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/unidual/reforma-intima.html
  4. Manual Prático do Espírita de Ney Prieto Peres, da Editora Pensamento.
  5. Fundamentos da Reforma Íntima - Abel Glaser pelo Espírito Caibar Schutel, da Editora O Clarim.
  6. Reforma Íntima (artigo) - João Batista Armani - http://www.espirito.org.br/portal/palestras/diversos/reforma-intima.html

Escreve: Elio Mollo
Colaborou no desenvolvimento ortográfico deste texto Maria Luiza Palhas
Fonte: Compreender e Evoluir

04 novembro 2014

Espiritismo e Liberdade de Consciência - Breno Henrique de Sousa

 

ESPIRITISMO E LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA


837- Qual o resultado dos obstáculos postos à liberdade de consciência?
- Constranger os homens a agir do modo diferente do que pensam, torná-los hipócritas. A liberdade de consciência é uma das características da verdadeira civilização e do progresso. (O Livro dos Espíritos)


Uma das características que admiro no Espiritismo é a plena liberdade que a doutrina dá aos seus seguidores. Não poderia ser diferente em se tratando de Espiritismo já que a doutrina se construiu pelos caminhos da ciência.

A primeira liberdade que temos por isso é a de poder questionar livremente o próprio Espiritismo. Como a doutrina se construiu pelo caminho da ciência, ela nos ensina a questionar todas as coisas e a não aceitar o quê quer que seja sem uma análise profunda e sem restrições aos nossos questionamentos.

Essa liberdade é que faz do Espiritismo uma doutrina com uma grande pluralidade de pensamentos, nela poderemos encontrar diversas tendências filosóficas e sem questionar o mérito de nenhuma delas, é importante observar como conseguimos conviver com tantas diferenças sem que haja nenhum cisma ou divisão.

É uma pena que existam pessoas que enxerguem esta pluralidade como uma ameaça, estes acham que todos deveriam pensar da mesma forma e temem as diferenças, estes não assimilaram este lado essencial do Espiritismo.

Outros porém, pronunciam suas opiniões como se elas fossem aceitas unanimemente por todos e como se fossem verdades doutrinárias, estes desrespeitam também as diferenças, não sabem dividir o quê está no campo dos princípios básicos daquilo que está no campo da polêmica e se assim o fazem, só podemos pensar que isso se dê por dois motivos: ou porque não conhecem bem as bases doutrinárias e confundem suas opiniões com os princípios da doutrina; ou porque o fazem com segundas intenções, misturando verdades com opiniões próprias na tentativa de confundir os menos esclarecidos e de respaldar suas idéias sob a luz dos princípios espíritas.

Esta última atitude sim, representa a verdadeira ameaça ao Espiritismo, não é das diferenças que devemos temer, não são os Rousteinguistas, Ubaldistas ou qualquer “istas” que representam ameaça. A ameaça está naqueles que por falta de conhecimento ou de caráter mesclam as idéias que estão no campo das opiniões com aquelas que são verdades aceitas por todos os adeptos do Espiritismo.

Liberdade pra pensar é fundamental mas responsabilidade sobre o quê se diz é ainda mais importante. Eu posso defender uma idéia ou corrente de pensamento polêmica mas na hora de subir à tribuna das instituições, na hora de exercer o papel de evangelizador ou em qualquer situação em que eu represente a Doutrina Espírita, é importante separar claramente o quê é opinião própria daquilo que é princípio básico da doutrina. E mesmo tendo a liberdade de apresentar estudos sobre uma determinada corrente de pensamento, é necessário deixar claro que se trata de uma opinião que não é aceita por todos os espíritas e que dita opinião está longe de desfrutar do mesmo status de idéias básicas como a reencarnação e a comunicabilidade dos espíritos.

Seria bom conhecer um pouco sobre Thomas Kün e Lakatos, estes filósofos da ciência nos dizem que toda ciência tem seu “núcleo rígido” que é formada por um conjunto de idéias básicas que dão corpo a um “paradigma”, ao redor das idéias básicas existe um conjunto de idéias acessórias que sofrem modificações constantes sem afetar o “núcleo rígido”. É natural que qualquer ciência sofra ajustes sem que isso afete seu núcleo rígido. Por Exemplo: a comunicabilidade dos espíritos é um princípio que está no núcleo rígido da ciência espírita, mas a questão do corpo fluídico de Jesus é uma idéia acessória que não importa a conclusão que se chegue a esse respeito, e eu duvido que se chegue a alguma conclusão, isto não afetaria as idéias que estão no núcleo rígido, ou seja, o fato de Jesus ter tido um corpo fluídico ou de carne não mudaria em nada a questão da reencarnação e nem tão pouco afetaria o princípio da comunicabilidade dos espíritos ou qualquer outro que faça parte do “núcleo rígido” de princípios doutrinários.

Não sei como é que tanta gente perde tanto tempo se consumindo por causa de “idéias acessórias” e que não afetam o núcleo da doutrina, isso reflete o ostracismo existente no nosso movimento Espírita, pessoas limitadas e circunscritas a uma polêmica secundária que fazem disso uma verdadeira guerra e que se esquecem de contribuir para o crescimento de tantas outras idéias e pesquisas realmente importantes.

Também acredito que não se deve deixar de falar das idéias acessórias, é por elas que obtemos novos conhecimentos, os grupos de estudo sérios devem refletir sobre estas polêmicas, questionar a fundo, porém isso não deve ser motivo de dissensões. Desde que se trate do assunto com honestidade e fazendo-se os devidos esclarecimentos, nada mais saudável do que perscrutar os arcanos doutrinários na busca de conhecimentos mais profundos e nada mais necessário, já que entraremos em caminhos desconhecidos, do que manter a sobriedade e humildade para não cairmos nas armadilhas das paixões por nossas próprias opiniões.

O ser humano ainda não está acostumado a caminhar pelo desconhecido e sempre que se aventura filosoficamente está sujeito as limitações que lhe são próprias e, neste caso, é de se esperar que surjam uma infinidade de opiniões sobre um mesmo tema mas temos que passar por essa escuridão para um dia chegarmos a verdade que é sempre gradativa.

Uma outra forma de liberdade que a doutrina nos permite exercer é a liberdade religiosa, o fato de sermos adeptos do Espiritismo não nos impede de freqüentar qualquer outra religião ou fazer o que queiramos fazer. A liberdade de ação está por isso muito explícita, no Espiritismo não há regulamentações de caráter exterior nem de votos de obrigação religiosa. O Espírita não precisa falar, vestir, comer ou pensar de um mesmo jeito, aliás, estas são ações que se relacionam com a cultura, preferência e educação de cada um.

Digo isso porque fiquei horrorizado quando outro dia eu soube que uma mãe se queixou a uma evangelizadora, alguém que conheço a muitos anos e que possui uma conduta irrepreensível, apenas porque ela estava com as unhas pintadas com uma cor escura, que na opinião da mãe eram inadequadas para o ofício de evangelizadora. Fiquei ainda mais pasmo quando descobri que esse tipo de preocupação entre os que se dizem espíritas é mais comum do que se imagina. Que importa a cor das unhas da evangelizadora? Não seria melhor saber se a evangelizadora é competente, se tem preparado bem as aulas e qual o conteúdo dado em sala? Este tipo de atitude mostra como as pessoas ainda estão arraigadas ao exterior e ainda não assimilaram a essência das idéias espíritas.

Algumas pessoas já me procuraram dizendo que se afastaram da doutrina por se sentirem vigiadas, reguladas ou normatizadas por pessoas que lhe diziam o que fazer ou que viviam criticando suas atitudes. Sem julgar os méritos das atitudes de ninguém e salvo as exceções das atitudes que prejudicam a terceiros, não devemos a ninguém satisfação dos nossos atos além de Deus e de nossa própria consciência. A ninguém cabe nos julgar.

Estes que por esse motivo se afastam da doutrina sempre encontrarão em todas as partes pessoas controladoras e indiscretas, pois este tipo de gente existe em qualquer lugar e se formos esperar um grupo livre disso viveremos uma espiritualidade pobre e individualista. Os hipócritas que devem recuar, os que tem consciência devem permanecer onde estão e criticar fortemente sempre que forem alvo deste tipo de atitude.

Se esta evangelizadora não fosse uma pessoa consciente ela teria se escandalizado e se afastado da doutrina alegando que ela está cheia de pessoas superficiais. Mas, ao contrário, ela repreendeu àquela senhora lhe dizendo que aquilo não tinha a menor importância e que a cor das suas unhas não feria a dignidade de ninguém e nem comprometia a sua eficiência como evangelizadora.

Não é então ao Espiritismo que devemos acusar de ser piegas, superficial ou só mais uma religião que quer ter controle sobre a vida das pessoas. Nós é que devemos lutar contra isso, temos a vantagem de ter a doutrina a nosso favor, devemos usar os conhecimentos que ela nos dá para livrá-la deste tipo de expressões preconceituosas. A doutrina não exerce controle sobre a vida de ninguém e nem deve exercer, ela nos ensina sim a sermos auto-suficientes e independentes, o único controle aqui é o “auto-controle”, não precisamos de “oradores-profetas” e “guias-oráculos”, não precisamos estar na dependência de “mister-médium” nenhum, nem devemos reverência a quem quer que seja.

Que estória é essa agora de só se dar valor a uma mensagem quando ela é assinada por médium “fulano de tal”? Isso não existia na época de Kardec, vocês sabem o nome dos principais médiuns que trabalhavam com Kardec? Pois é! Pouca gente sabe. É que nessa época o que se valorizava era o conteúdo da mensagem e não o nome de quem assina embaixo. É bom começar tudo de novo e estudar o Livro do Médiuns para adotarmos uma outra postura.

As pessoas estão sempre buscando guias que lhe digam o que fazer, querem algo pronto como um manual de instruções para lhes poupar do trabalho de pensar, é mais fácil fazer da codificação um livro sagrado do que aprender a fazer o que nos ensinam os espíritos e Kardec. As pessoas estão muito preocupadas em “seguir Kardec” e se esquecem de “agir como Kardec”. Tenho uma má notícia aos acomodados, estes que não pensam não vão chegar a lugar nenhum! Vão ficar sempre a mercê do que o “mentor” ou “diretor” falar, não serão capazes de distinguir o “Bezerra de Menezes” da “Bezerra do Menezes” pois não aprenderam a pensar por conta própria e o preço que se paga pela ignorância é o sofrimento.

Sejamos livres e saibamos crescer orientados por esta maravilhosa doutrina que nos pede apenas que amemos e nos instruamos, o Espiritismo é a luz na escuridão da ignorância humana a cerca dos valores espirituais mas embora a luz ilumine nossos caminhos, somos nós quem devemos trilhar com nossas próprias pernas a senda da felicidade.

Breno Henrique de Sousa* 
*Membro do Núcleo Espírita Eurípedes Barsanulfo e da Federação Espírita Paraibana, 



03 novembro 2014

A Vida - Victor Hugo


A VIDA

A vida surpeende-nos a todos através do veículo da morte, que nos convida a outra dimensão de pensamento e vida, quando a consciência, livre dos impositivos cerebrais, desperta in totum para a compreensão do ser que somos. Felizes, portanto, aqueles que, diante da verdade, não procuram mecanismo escapistas nem formulações paliativas, mediante os quais fogem do enfrentamento com o dever, procurando a reabilitação que se faz indispensável.

Ninguém, todavia, foge de si mesmo. Não é necessário prestar-se a satisfação aos outros, a respeito dos atos, nobres ou horrendos, porque o problema é interno, pessoal, intransferível. E graças a essa conduta dúplice - a interior, que é legítima, e a externa, que se apresenta como convencional, a da aparência - que incontáeis indivíduos derrapam nos transtornos neuróticos da depressão e de mais graves injunções psicóticas, exatamente por desejarem impedir o reflexo dos atos monstruosos que lhes constituem o caráter real.

Indiscutivelmente são bem aventurados aqueles que se encontram no eito das aflições transitórias, porque se lapidam para futuras experiências, resgatam as promissórias em débito, preparando-se para as inefáveis alegrias existenciais e espirituais.

As aquisições de sabor moral e espiritual, como a paz de espírito, que decorre da consciência responsável, aquela que resulta de pensamentos saudáveis, de palavras justas e de conduta correta, o enriquecimento interior mediante o conhecimento e a prática do Bem, o serviço fraternal de misericórdia e de socorro, aumentam os sentimentos de amor, de caridade e de iluminação interna.

O nosso único objetivo é proporcionar orientação para apressar a instalação do reino de Deus entre os habitantes físicos da Terra, evitando que tombem nas desgraças reais.

Nunca se poderá conhecer a dimensão do sofrimento sem que seja experimentado por cada qual.

Victor Hugo (espírito)
Psicografia de Divaldo Franco
Livro Os Diamantes Fatídicos

02 novembro 2014

Equilíbrio perante os imprevistos - Rita Foelker


EQUÍLIBRIO PERANTE OS IMPREVISTOS 

A dinâmica da vida nos insere em experiências diversas. Conscientes de que somos seres em evolução nessa dinâmica, de que somos Espíritos imortais, podemos procurar agir com uma visão mais ampla e profunda dos acontecimentos.

Como? Eis um jeito de fazer isso: não dos deixando abalar pelo impacto de coisas que nos descontentam, pelos imprevistos, mas tentando perceber o seu sentido e a sua necessidade para a nossa melhoria.

Nem sempre a vida espera que estejamos preparados, para nos trazer suas questões (que, no fundo, são as nossas, refletindo nossas necessidades evolutivas). Em geral, a primeira coisa que fazemos em situações tensas é nos agarrarmos ao passado. Aos fatos semelhantes de outros tempos. Às possíveis consequências negativas ou desagradáveis que carrearam.

E esses pensamentos nos levam a nos enrijecer, perante a situação que se apresenta, quando seria mais importante nos soltarmos e ficarmos mais sensíveis, para agir com mais flexibilidade e confiança.

Essa tensão que nos colhe, no entanto, tem um motivo: ela vem do fato de encararmos negativamente as possíveis mudanças e de sonharmos com uma impossível estabilidade.

A estabilidade jamais esteve nas coisas, nem nunca estará: é a força da alma que nos concede serenidade, enquanto as circunstâncias externas são mutáveis. Não podemos determinar os acontecimentos, porque eles não obedecem aos nossos desejos e nem funcionam segundo a nossa lógica particular. Mas podemos solicitar inspirações e intuições no sentido de que venham boas ideias, visões de opções e de caminhos viáveis, sobretudo se estivermos imbuídos de bons sentimentos e com o coração aberto, além da mente positiva e receptiva.

Somos mais que o físico, somos mais até que aqueles nossos aspectos mentais e emocionais que, habitualmente, nos elevam ou nos derrotam, se não estamos vigilantes. Se não podemos controlar pessoas e acontecimentos, podemos escolher agir melhor perante eles!

É uma boa providência, em favor do equilíbrio interno e da harmonia, observar para onde dirigimos nossa atenção, nossos pensamentos. Para quais fatos. Quais coisas. Quais pessoas. E perceber como isso nos afeta. E dentro do conhecimento que a filosofia espírita nos proporciona, modificar pensamentos negativos, diluir estados emocionais pesados, de ansiedade ou sofrimento, que apenas nos desgastam sem ajudar, nem a nós mesmos, nem os outros eventualmente ligados à mesma circunstância.

É possível um equilíbrio, sim, ampliando a visão do que acontece, ter mais positividade e menos receios. Acreditar mais na sabedoria das leis do Universo e menos nas nossas preocupações que sempre vêm de uma limitação de perspectiva.

Desejo que hoje minha mente descanse na gratidão pelas bênçãos recebidas, na leveza e no parentesco universal com tudo aquilo que evolui e se torna mais inteligente, maduro e amoroso, enquanto atravessa suas vivências e desafios.


Autoria: Rita Foelker
 

01 novembro 2014

Valores da Vida - André Luiz

VALORES DA VIDA


Todo intercâmbio entre as almas está em constante processo de renovação no sustento da marcha evolutiva de todos.

Nenhum coração pode viver normalmente sem companhia.

Olhar, gesto e palavra, ocorrências naturais em qualquer recanto da vida terrestre, tem significações profundas para a garantia da felicidade.

O olhar exprime os mais diversos sentimentos na mímica da face.

O gesto pode ser o movimentos inicial de grandes ações.

A palavra constrói ou destrói facilmente e, em segundo, estabelece, por vezes, resultados vitais para muitos anos.

Toda criação da consciência reveste-se de importância particular.

Desde o pensamento isolado a germinar da forja do cérebro à plasmagem respectiva, tudo se afirma com valor específico, registrado, medido e julgado por Leis Inderrogáveis.

Modificam-se os valores da vida externa, segundo os valores do entendimento.

Examinemos semelhante realidade.

O arco e a flecha, preciosos para o selvagem, carecem de proveito nas mãos do homem relativament instruido.

Uma enciclopédia mostra expressão diferente aos olhos do professor e aos olhos do analfabeto.

As notas musicais são melodias para o músico e vibrações sonoras para o físico.

O desespero desconhece a paz que mora invariavelmente no centro da vida.

A teimosia apenas aprova o que lhe convém às cristalizações.

O egoismo vê concorrentes em todas as criaturas.

A fraternidade encontra irmãos em todos os companheiros.

A avaliação do bem e do belo varia, portanto, de espírito a espírito, de acordo com o burilamento íntimo de cada um.

Levantemos o pensamento para Jesus.

O Evangelho reune os valores indestrutíveis.

Aproveita o mínimo ensejo de auxiliar aos semelhantes.

Observa o lado nobre das ocorrências.

Ajusta o colorido do otimismo nas telas do cotidiano.

Confia e espera com paciência.

O objetivo maior da Criação é a felicidade real de todos.

Estuda ao redor de teus passos se os seres e as coisas, os fatos e as vidas premanecem estacionários ou progressistas, na procura de valores eternos e, buscando a tua própria integração com o melhor, caminharás firmemente no rumo da perfeição.


Obra: Sol nas Almas
Psicografia de André Luiz
Médium: Waldo Vieira