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16 dezembro 2018

Dos Equívocos e das Distorções Doutrinárias - Orson Peter Carrara



DOS EQUÍVOCOS E DAS DISTORÇÕES DOUTRINÁRIAS


A falta de estudo da Doutrina Espírita, a ausência do uso da razão e do bom senso e também o isolamento dos grupos (fechando-se em si mesmos) são os responsáveis pelos absurdos que se cometem em nome da Doutrina e seu movimento. E isto fica por conta de quem pratica, pois o Espiritismo não pode ser responsabilizado por aqueles que não raciocinam no que fazem.

São muitos os exemplos, alguns citados em livros, jornais e revistas, por articulistas e autores diversos, todos respeitáveis e conhecidos na atividade espírita, os quais permito-me citar uns ou outros (os exemplos) para desenvolvimento do presente artigo.

Enquadram-se nesses equívocos:

a) Obrigatoriedade de passe em todo e qualquer comparecimento ao Centro Espírita;
b) Toda pessoa que chega perturbada ao Centro Espírita é médium;
c) Os médiuns são seres elevados e extraordinários;
d) Os oradores e expositores são seres infalíveis – “falou tá falado”;
e) Médium experiente não precisa estudar;
f) Não se deve bater palmas ao final de palestras para não dispersar fluidos;
g) Casamento, batizado, uso de gestos e imagens, roupas especiais, cromoterapia,
cristais, tvp, pirâmides, etc, no Centro Espírita;
h) As mãos dadas formam correntes de proteção;
i) Comemoração de Páscoa e Semana Santa no Centro Espírita; j) Para recarregar energias, o aplicador de passes deve encostar a cabeça na parede após a tarefa;
k) Mulheres não devem entrar de saia no centro;
l) Homens e mulheres devem sentar-se em fileiras separadas no ambiente do centro;
m) Reencarnação serve para pagar dívidas;
n) Os espíritos comunicantes sabem tudo;
o) Determinado Centro Espírita é forte, o outro é fraco;
p) Uso de expressões, como mesa branca, baixo espiritismo, encosto e muitos outros absurdos como aqueles das correntes no chão e das garrafas em prateleiras, para prender os espíritos obsessores ou da mesa de concreto que suporte os murros dos médiuns indisciplinados.

Ora, o Espiritismo é profundamente racional. O espírita precisa sempre saber porque faz determinada prática. Pensar no que faz e analisar se está dentro do bom senso, da razão e, principalmente, se há coerência no que se pratica e o que a Doutrina ensina.

Com objetivos tão elevados e fundamentos tão racionais, como poderia o Espiritismo ver em casas que se dizem espíritas, práticas tão distantes de sua orientação? Só a falta do estudo doutrinário pode responder por esses absurdos que comportariam, em muitos casos, diversas argumentações e comentários sobre sua nulidade e incoerência. E também se caracterizam como prática distante do dinamismo da Doutrina, o espírita desanimado, o Centro distante e isolado do estudo e da divulgação – preocupado apenas com a prática mediúnica; a Casa Espírita isolada do movimento – que traz o entusiasmo e renova; também o expositor que transmite aos ouvintes a ideia de um Espiritismo de tristeza, dor ou sofrimento, e finalmente o espírita que não estuda. Como aceitar também aquelas reuniões sem nenhuma motivação, onde um lê e todos ouvem – ou dormem, criando a figura do “espírita de banco” (aquele que entra, senta, ouve e vai embora)? OU a presença no Centro como se fosse uma obrigação penosa, sem alegria?

Espiritismo é alegria, é vida! E trabalho vibrante, com harmonia, coerência, união... Daí a necessidade do estudo individual, estudo em grupo, união de forças entre os trabalhadores da mesma casa e entre as casas da cidade e região. Isto traz entusiasmo, revitaliza o movimento e afasta os equívocos. A troca de experiências é algo muito positivo, que não devemos temer. O espírita esclarecido é dedicado à causa, sempre estuda, melhora-se gradualmente e trabalha sempre, confiando em Deus – mas usando sua própria razão.

Essas questões precisam ser discutidas para aparelharmos melhor nossas casas, tornando-as colmeias de trabalho, união e amor, para que não se distanciem dos objetivos que nortearam sua fundação.


Orson Peter Carrara


15 dezembro 2018

Adão e Eva, “pecado”, “castigo”, “culpa” e o livre arbítrio - Jorge Hessen

A repreensão de Adão e Eva (1626). 
Pintura de Domenichino


ADÃO E EVA, "PECADO", "CASTIGO", "CULPA" E LIVRE ARBÍTRIO


É ingênuo crermos no “pecado”, qualificado dogmaticamente como uma ofensa contra Deus, que por sua vez revida mediante o tal“castigo” que inflige ao “pecador”. Ora, vejamos que Deus não se ofende com os equívocos das suas criaturas em processo de evolução. Em face disso o tal “castigo” não é e nem pode ser uma espécie de vingança ou uma atividade pessoal do Criador (antropomórfico) para penitenciar o “pecador”.

Deus não pune; Deus AMA! Sobre isso, Jesus inovou o pensamento teológico ao apresentar Deus como um pai bondoso e justo, em substituição à divindade colérica, vingativa e caprichosa dos povos ancestrais. Na verdade, o indigesto dogma do “pecado” foi criado pela senil e heterônoma teologia humana. Advém dos espetáculos mitológicos protagonizados por Adão e Eva, que supostamente teriam desobedecido uma ordem divina e atraíram para si e para toda humanidade uma maldição que implicaria em toda sorte de males, dores, erros, crimes e tudo quanto fosse ruim.

Daí a pueril crença do “pecado original” na Terra, com a represália divina entre os homens através das doenças, da morte e todo tipo de contradição. Vagando por essas crendices, afirma-se que já nascemos “culpados”, que somos “pecadores”, que temos o DNA da transgressão, tudo isso por causa do escandaloso casal adâmico da velha mitologia. Garantem os arautos de tais imposições dogmáticas que se há injustiça no mundo, se crianças nascem defeituosas, se existe guerra, fome, tragédias e muita malignidade, tudo é culpa do “pecado original’; portanto, tudo procedente dos lendários Adão e Eva.

Perante a Lei de justiça divina, o adepto do Espiritismo recusa a ideia de transferência de responsabilidade dos atos errados dos outros, pois cada um é responsável por si naquilo que deliberar empreender. Pela lei da reencarnação, todos trazemos ao renascer as matrizes das imperfeições que mantemos. Deste modo, transportamos os germens dos defeitos que não superamos que se traduzem pelos instintos naturais e tendências para tal ou qual ação. É esse o sentido racional para o tal “pecado original”, ou seja, escolhemos sempre as experiências provacionais a fim de superá-las.

Quando nos desviamos do amor escolhendo arrastar-nos pelas paixões, entramos em rota de colisão com as Leis Divinas (inscritas na consciência) e criamos para nós o psiquismo desarmônico, mantendo as deficiências do senso moral. Ao desencarnarmos arrastamos para o mundo espiritual todas as imperfeições e ao renascermos trazemos as desarmonias conscienciais como tendências naturais.

O anseio íntimo pela liberdade consciencial rejeita o dogma do “pecado original” e da vassalagem cega a Deus. Reencarnamos muitas vezes na Terra ou em outros orbes realizando nosso aperfeiçoamento moral. Recordemos que no princípio de nossa evolução humana éramos “simples e ignorantes” (sem qualquer “pecado original”) e pela evolução chegaremos à perfeição moral. Portanto, penetramos na humanidade sob o manto de purezas e simplicidades; dessa forma nos tornamos gradualmente senhores e únicos depositários da consciência, cuja lesão ou bem-estar não dependem definitivamente senão de nossa vontade e das disposições do nosso livre-arbítrio.

O comportamento livremente deliberado acarreta consequências naturais. Se transgredimos as leis divinas da consciência atraímos consequências naturais e desagradáveis na medida da imperfeição moral que mantemos. Por isso, jamais devemos nos entender injustiçados ou apenados nas ocorrências da vida. E nem perseguidos, e muito menos punidos.

A “cada existência temos os meios de nos redimir pela reparação e de progredirmos, quer despojando-nos de alguma imperfeição, quer adquirindo novos conhecimentos, e assim, até que suficientemente aperfeiçoados, não necessitemos mais da vida corporal e possamos viver exclusivamente a vida espiritual, eterna e bem-aventurada. ” [1]

Somos reflexos das nossas livres escolhas, porém inevitavelmente somos por Deus amorosa e sabiamente conduzidos rumo à suprema felicidade, sempre na conformidade dos caminhos que sem coação elegemos através do uso cabal do livre-arbítrio.

Jorge Hessen

Referência bibliográfica:

[1] KARDEC, Allan. A Gênese, 26ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1984. Cap. I item 38

14 dezembro 2018

O Inabitual - Charles Richet

(Willian Crookes)


O INABITUAL


Para assegurar que há fatos anormais, maravilhosos sob o ponto de vista da ciência atual, invocarei em primeiro lugar o argumento de autoridade. Em favor da nova ciência, há de um lado certos sábios e do outro certo público.

Em primeira lugar falarei dos sábios.

É facílimo dizer que se enganaram e que foram enganados. É uma objeção que está à altura do primeiro sabichão que aparece. Quando o grande William Crookes relata ter visto, em seu laboratório, Katie King, fantasma capaz de se mover, de respirar ao lado de sua médium, Florence Cook, o dito sabichão pode erguer os ombros e dizer: “É impossível. O bom senso faz-me afirmar que Crookes foi vítima de uma ilusão. Crookes é um imbecil.” Mas esse pobre sabichão não descobriu nem a matéria radiante, nem o tálio, nem as ampolas que transmitem a luz elétrica. E assim, minha escolha está feita. Se o sabichão disser que Crookes é um farsante ou um louco, serei eu quem sacudirá os ombros. E pouco importa que, rebocados pelo sabichão, uma multidão de jornalistas — que nada viram, nem nada aprofundaram, nem nada estudaram — diga que a opinião de Crookes de nada vale. Não me admirarei.

Se Crookes ainda estivesse só! Mas não! Há uma nobre plêiade de sábios (grandes sábios) que presenciaram esses fenômenos extraordinários. Em lugar de fazer essa simples suposição que eles presenciaram do inabitual, poderei considerá-los cretinos ou mentirosos?

Stainton Moses, um homem de uma piedade rara, de elevada moralidade, com seu amigo Speer e Sra. Speer, anotou diariamente, durante dez anos, fenômenos que ele observava consigo próprio. E isso apesar dos riscos que sua audácia o fazia correr.

Os fenômenos produzidos por Eusapia Paladino foram afirmados e confirmados por toda uma série de ilustres experimentadores, por Enrico Morselli, um dos mais sábios psiquiatras da ltália, por Filippo Bottazzi, Foá Herlitzka, professores de Fisiologia nas Universidades italianas, pelo célebre Lombroso, por sir Oliver Lodge, por Ochorowicz, por Fr. Meyers, por Camilie Flammarion, por Schrenck-Notzing, por Albert de Rochas. O testemunho de um só desses grandes homens seria suficiente. Então, quando eles se reúnem numa mesma afirmação, irei eu dar ouvidos às criticas infantís que se resumem quase todas nesta pequena frase ingênua: “Não é possível”?

E por que não é possível?

Unicamente porque não é habitual.

Na Alemanha, o grande matemático Zöllner presenciou, com Slade, fenômenos realmente estranhos.

Meu distinto amigo, Dr. Gibier, Diretor do Instituto Pasteur de Nova York, constatou fenômenos semelhantes com a Sra. Salmon.

Geley obteve com Kluski surpreendentes modelagens que toda a habilidade mecânica dos modeladores não poderiam reproduzir e que só se explicam pela desmaterialização de formas moldadas.

Quanto aos fenômenos mentais de adivinhação, de leitura de pensamento, de premonição, citarei os nomes de William James, de Sir Oliver Lodge, da Sra. Sidgwíck, de Schrenck-Notzing, de Frederic Myers, de Osty, de Flammarion. No decurso deste livro farei referências de algumas de suas constatações, mas desde já afirmo que a autoridade desses sábios é suficiente para, a priori, fazer-nos admitir que eles não se enganaram completamente.

Repito: trata-se de homens versados em ciências experimentais, tendo o espírito constantemente alerta para com a série de todas as fraudes possíveis.

As objeções dos jornalistas de pasquins que negam a realidade dos fatos são da mesma espécie que as objeções feitas à realidade dos meteoritos. O grande Lavoisier ousou dizer: “Não há pedras que caem do céu porque no céu não existem pedras”. Boucher de Perthes chamou a atenção sobre o sílex, que ele dizia ter sido talhado por homens primitivos. Durante dez anos ele foi ridicularizado, como ridicularizaram aqueles que julgavam possível o voo de máquinas mais pesadas que o ar. Denis Papin construiu um barco a vapor. Foram necessários mais de cem anos para que essa invenção fosse adaptada à prática náutica.

As novas verdades, estabelecidas pelos grandes sábios, custam a ser aceitas pelo público. É necessário muito tempo para que uma descoberta científica seja aceita. Que será então quando se tratar de fatos inabituais? Toda constatação de um fato novo, a princípio, parece inverossímil. Então, quando é inabitual, não podendo ser repetido à vontade, é negado, apesar das provas que se apresentam. Sim! É negado obstinadamente, porque nada é tão fácil quanto uma negativa.

Voltemos à Metapsíquica.

Um primeiro fato é evidente: é que todas as vezes que um sábio assentiu em estudar de maneira aprofundada esses fenômenos, chamados outrora ocultos, adquiriu a convicção da existência desses fenômenos. Na história da Metapsíquica, não conheço somente um caso, não somente um, de um observador consciencioso que, após dois anos de estudos, tenha concluído por uma negativa.

Dois anos de estudos, não é realmente muito, porque não é suficiente para fazer (com ideias preconcebidas e a intenção determinada de negar) duas ou três experiências prematuras e incompletas.

Portanto, dou uma importância primordial a esta constatação que jamais, até o momento presente, um experimentador perseverante, tendo feito pacientemente uma trintena de experiências (pelo menos), com dois ou três médiuns julgados autênticos por observadores competentes, tenha finalizado por uma negativa.

Uma objeção ridícula frequentemente nos é apresentada. Os negadores, quando consentem com outra coisa que motejos, pretendem que nós, metapsiquistas, empreguemos todos os nossos esforços para provar não que esses fatos existem, mas que eles não existem. Nossa constante preocupação é procurar a fraude possível, o erro sistemático. Pensar que queremos encontrar fenômenos sobrenaturais ou paranormais, é loucamente absurdo. Não temos mais que uma preocupação: é a de descobrir os embustes. Qualquer que seja o fantasma que se nos apresente, não temos outro receio que o de ser ludibriado por um indivíduo real, um odioso impostor.

Todos aqueles que publicaram as suas experiências sabiam que por essa publicação comprometiam seu renome científico, expondo-se às zombarias de seus colegas e aos sarcasmos do povo. Não é, pois, com satisfação que se entra nessa batalha, onde não há mais que golpes a receber. É porque nos limitamos à honra de defender a verdade, por mais arriscada que ela possa ser.

Não imaginam as angústias interiores por que passa um sábio assim que se lhe apresenta um fenômeno extraordinário, anormal, cruelmente inverossímil, que parece estar em contradição evidente com tudo quanto ele conhece, com tudo que seus mestres lhe ensinaram, com tudo que ele próprio ensinou. Poderá um jornalista adivinhar o que pensa um fisiologista quando presencia (como eu presenciei), uma expansão sair do corpo do médium, prolongar-se formando duas pernas estranhas que se fixam no solo, emitindo depois mais alguns prolongamentos que tomam aos poucos a forma de mão, da qual se distinguem vagamente os ossos, sentindo a sua pressão nos joelhos? É necessário coragem para crer nisso! E é necessário muito mais coragem para relatar.

Pensais por exemplo que Crookes, Oliver Lodge, Schrenck-Notzing, de Rochas, Flammarion, Lombroso ignoravam que seriam olhados com desprezo por ousarem dizer que o inverossímil e o absurdo são muitas vezes verdadeiros?

Se tivemos a audácia de falar é porque estávamos absolutamente certos de nossa experimentação, muito mais certos que inúmeros sábios estão frequentemente quando sustentam um fato verdadeiro, mas novo.

Vitam impendere veto. Essa é a nossa divisa.

Faço um resumo:

1 – Os fatos metapsíquicos foram afirmados por uma trintena de sábios de honorabilidade absoluta, após provas anteriormente adquiridas por uma irrepreensível competência experimental.

2 — Empregaram todos os esforços para não admitir o extraordinário.

3 – Não receiam comprometer-se, perder-se, ao publicarem o resultado de suas experimentações.

Eis o que se pode dizer dos sábios que fizeram experimentações. Mas não há somente os sábios, há também um numeroso público, de cultura intelectual não descuidada, público cujo número e atividade crescem cada dia. Estarei longe da verdade dizendo que há, tanto na Europa como nas duas Américas, duzentas sociedades psíquicas, sejam espíritas, sejam metapsiquicas, particulares ou não, e pelo menos cinquenta jornais de pesquisas psíquicas. Sei bem que esses jornais se entregam muitas vezes a lucubrações teóricas e místicas sem valor, enfadonhamente embaraçantes, cruelmente indigestas. Do mesmo modo, fatos curiosos são relatados, cuja documentação é muitas vezes nula ou medíocre. Mas para que se decidam a publicá-los é mister que se tenham solidamente convencido de sua realidade.

Cada um dos membros de cada uma dessas sociedades está absolutamente certo de que o paranormal existe. É, pois, qualquer coisa que deve ser levada em consideração, em vista da convicção raciocinada de trinta mil pessoas judiciosas.

Elas estão convictas, não como se está de uma crença religiosa. Não é uma fé mais ou menos cega, como a dos católicos, dos protestantes, dos muçulmanos, é uma fé científica, pessoal, apoiando-se em observações, porque realmente, posto que essas observações sejam frequentemente bem imperfeitas, essas pessoas observaram, viram, tocaram, controlaram, ouviram, ou pelo menos pensaram ver, tocar, ouvir, controlar.

Ao lado dos jornais há livros dos quais alguns são notáveis. Somente a bibliografia desses livros e os artigos de Espiritismo ou de metapsiquismo seria de duzentas páginas, talvez ainda mais. É uma biblioteca muito volumosa, mesmo só tomando os trabalhos escritos desde há meio século (ver por exemplo o último catálogo de Rider, em Londres).

Recuso-me absolutamente a crer que todos esses livros, todos esses jornais, são uma coleção de mentiras e de equívocos. Que haja algumas mentiras, muitos equívocos, e mais ainda, ilusões, é absolutamente positivo. Mas Jeová teria perdoado a Gomorra se lá houvesse um único justo e há certamente mais de um escrito verídico nas relações que nos são dadas em abundância.

A todos esses escritos, a todos esses fatos confirmados por sábios ilustres, expostos por pessoas de boa fé, trazem sempre a mesma objeção: “É contrária ao bom senso, é absurdo!” Não sei que sábio ousou dizer: “Não quero assistir à experiência que me propõe, porque já estou certo de que, se eu cresse, ela me induziria em um erro formidável”. Oh! que terrível cegueira recusar com antecedência uma experimentação nova. É necessária uma fé inabalável, injustificável, entretanto, nos miseráveis dados atuais de nossos sentidos e de nossas ciências para negar qualquer coisa a priori.

Tanto mais que nada é contraditório, os fenômenos são novos e inabituais, eles nada destróem. Não é o absurdo, é o desconhecido ainda.

O bom-senso de 1933 não é o mesmo de 1833.

Em 1833 quem poderia supor que se colocariam todas as doenças em pequenos frascos, que se poderia fazer as mais graves operações sem que o operado sentisse a menor dor, que máquinas carregando cinco mil quilos iriam, em menos de duas horas, pelos ares de Londres a Paris, que se ouviria em Paris, em Berlim ou em Roma, um discurso pronunciado, ou um concerto, realizado em Nova York, que se reproduziria a imagem, não somente das pessoas, mais ainda de seus movimentos etc...?

É todo um mundo que os acadêmicos de 1833 teriam considerado farsa ou feitiçaria, e teriam, em nome do mais elementar bom-senso (de 1833), repudiado essas extravagâncias.

Abordaremos, portanto, com risco de ofender o bom-senso dos acadêmicos de 1933, o inacreditável, o inabitual e absurdo.


Charles Richet
Livro: A Grande Esperança
LAKE – Livraria Allan Kardec Editora

13 dezembro 2018

Aborto e o papel da Mãe - André Luiz Gadelha


 ABORTO E O PAPEL DA MÃE


Hoje, vivemos uma ampla discussão acerca do aborto, onde um dos pontos de debate é o direito da mãe em decidir por fazer o aborto. Porém, ninguém discute a respeito do direito que a mãe possui em escolher não fazer o aborto.

Geralmente, a gestante sofre pressões por parte da família, do companheiro e dos amigos. Ouvem coisas do tipo “você é louca de ter um filho acéfalo”, “não temos condições de ter outro filho”, “você vai morrer, sua maluca”, etc.

Como se não bastasse, ainda há a questão profissional, onde muitas empresas passam a negar ascensão de carreira das mães, quando não as demite após o intervalo de tempo estabelecido por lei.

A legislação brasileira afirma que a prática do aborto é crime, excetuando os casos de gestação que ponha a vida ou a saúde da mãe em risco, consequente de estupro e que gere fetos com anencefalia, punindo quem o pratica, quem o incentiva (com ou sem pressões) e a mãe, caso consente e tenha condições para isso.

A legislação também prevê, nos casos em que o aborto seja permitido, que a mãe precisa concordar com o aborto, tanto que exige que ela ou algum representante ou procurador legal obtenha a permissão jurídica para isso. Assim sendo, a lei abre espaço para que o aborto não seja realizado se assim for o desejo da gestante, cabendo punição a quem coagí-la ao contrário.

Não é difícil encontrarmos mulheres dispostas a muitos sacrifícios em nome dos seus filhos, inclusive o da própria vida. Nesse cenário, não é surpresa conhecermos casos em que a gestante negue o aborto, preferindo levar a gravidez a termo, ainda que isso implique no seu desencarne, preservando a vida do filho.

Essa disposição ao sacrifício apresentado por diversas mães, se comprova na pergunta 890 de O Livro dos Espíritos (Capítulo XI – Da Lei de Justiça, Amor e Caridade – Item Amor Materno e Filial):

“Será uma virtude o amor materno ou um sentimento instintivo comum aos homens e aos animais?

Resposta: “Uma e outra coisa. A Natureza deu à mãe o amor a seus filhos no interesse da conservação deles. No animal, porém, esse amor se limita às necessidades materiais; cessa quando desnecessários se tornam os cuidados. No homem, persiste pela vida inteira e comporta um devotamento e uma abnegação que são virtudes. Sobrevive mesmo à morte e acompanha o filho até no além-túmulo. Bem vedes que há nele coisa diversa do que há no amor do animal.”

Um ponto que se constitui mesmo num desafio a uma mulher, é abraçar com o mesmo carinho e abnegação a gestação consequente de um estupro. Porém, Jesus nos orienta, segundo o nosso irmão Mateus (5: 38 a 42):

“Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente. – Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra; – e que se alguém quiser pleitear contra vós, para vos tomar a túnica, também lhe entregueis o manto; – e que se alguém vos obrigar a caminhar mil passos com ele, caminheis mais dois mil. – Dai àquele que vos pedir e não repilais aquele que vos queira tomar emprestado”.

Logo, acolher com carinho o fruto de uma violência é responder o mal com o bem, agindo de acordo com a Lei do Amor e Caridade.

Sobre a gestação que leva risco a existência materna, O Livro dos Espíritos, na sua pergunta 359 (Capítulo VII – Da Volta do Espírito à Vida Corporal – Ítem União da Alma e do Corpo), traz:

“Dado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda?”

Resposta: “Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe.”

Num primeiro momento, a mãe que nega o aborto, ainda que diante do risco de vida, segue na contra mão da recomendação dos espíritos superiores. Mas, atentando-se um pouco mais, verificamos que o vocábulo “preferível” leva ao entendimento de que a opção de negar o aborto em tal situação não constitui agressão a qualquer lei divina ou natural, não cabendo, daí, qualquer processo de endividamento moral.

É análogo ao que, a certo tempo atrás, vinha nas contas que chegavam nas nossas casas: “até a data de vencimento, pagável, preferencialmente, no banco X”. Significava que, até a data de vencimento, a conta poderia ser paga em qualquer outro banco que não fosse o X, não havendo, por essa decisão, nenhuma sanção ou multa.

Tal gesto poderia, ainda, ser visto como um ato suicida, uma vez que a gestante teria consciência de que poderia ter a sua existência abreviada. Porém, como são as intenções o que pesam nos nossos atos e sabendo que o desejo da mãe é o de garantir a vida do filho, não temos suicídio.

Consultando o livro O Céu e o Inferno, no seu Capítulo V (Suicidas), no caso O Pai e o Conscrito, temos a situação de um pai que sacrificou a própria vida para livrar o filho da convocação para a guerra. A respeito disso, o nosso irmão Luis explica:

“Este espírito (o pai) sofre justamente, pois lhe faltou a confiança em Deus, falta que é sempre punível. A punição seria maior e mais duradoura, se não houvera como atenuante o motivo louvável de evitar que o filho se expusesse à morte na guerra. Deus, que é justo e vê o fundo dos corações, não o pune senão de acordo com suas obras”.

Se o gesto desse pai não é classificado como suicídio, por semelhança, o gesto de uma mãe que nega o aborto, dando continuidade à gestação e, por consequência disso, vem a falecer, também não o é.

Além disso, uma mãe que opta por não abortar, mesmo ciente da possibilidade do seu desencarne, aposta na sobrevivência de ambos. Afinal, uma gravidez de risco não implica na morte certa da mãe, mas, sim, de chances disso acontecer. Desta forma, quem garante que ambos não sobrevivam? Trata-se de uma mulher que, muitas das vezes, deposita na fé a sua esperança na dupla sobrevivência e, havendo o entendimento das necessidades que nós mesmos provocamos com as nossas decisões infelizes no pretérito, percebe que, uma eventual não sobrevivência constitui em lição que havia a necessidade de aprender.

André Luiz Gadelha
Fonte:


Referências:

→ Artigo 128 do Código Penal Brasileiro – Decreto Lei 2848/40

→ Leonardo da Costa Gobira – Obstetra e Ginecologista do Exército Brasileiro – Manaus – AM

→ Deise Calixto – Advogada – São Pedro da Aldeia – RJ

→ O Livro dos Espíritos – Allan Kardec

→ O Céu e o Inferno – Allan Kardec

→ O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec


12 dezembro 2018

Forças Mentais - Joanna de Ângelis


 FORÇAS MENTAIS


A mente é um dínamo gerador de energia de difícil catalogação, que se expressa automaticamente, conforme o conteúdo emocional de que se reveste. Exteriorização do Espírito, é interpretada pelo cérebro que a transforma em idéia, tornando-a veículo de comunicação e de expressão variada. Força irradiante, seu teor vibratório resulta dos sentimentos daquele que a emite.

Mesmo quando não conduza conscientemente, essa energia mantém sintonia com outras equivalentes, gerando efeitos que correspondem à sua constituição.

Conhecida, de alguma forma, em quase todas as épocas da humanidade, tem sido utilizada de maneiras diferentes, quase sempre alcançando os fins para os quais se aplica.

…É o veículo de múltiplas manifestações anímicas, em razão de proceder do Espírito que a emite, qual antena que não cessa de vibrar. Ao mesmo tempo responde pelas diversas ocorrências da telepatia, da telecinesia ou movimentação espontânea de objetos, da combustão natural, sendo um agente poderoso e ignorado que se encontra à disposição da criatura humana, que a não tem sabido orientar corretamente.

Em razão da sutileza das ondas que exterioriza, a mente intervém nas construções do mundo físico e age diretamente sobre todos os corpos, às vezes alterando-lhes a constituição. O mesmo ocorre no que diz respeito ao intercâmbio psíquico, atuando nas faixas semelhantes e operando efeitos que lhe correspondem ao teor vibratório.

O Universo é resultado da Mente divina que não cessa de agir positivamente.

Tudo quanto cerca o ser humano, de certo modo resulta da sua afinidade mental, sendo ele também o co-criador, graças às edificações que opera pela incessante emissão de força psíquica.

Ao mesmo tempo, essa energia é responsável por inúmeros estados de bem e mal-estar, de saúde e de doença, de alento e de desconforto.

…O intercâmbio mental é muito maior do que se pode imaginar. Inconsciente ou de forma lúcida entre os homens e mulheres; direcionado aos animais e plantas; entre os Espíritos, alguns dos quais o manipulam com propriedade; destes para com os outros demais seres humanos, assim também com a Fonte da Vida.

…Transtornos emocionais e de conduta, amolentamento e irascibilidade, tensão e angústia procedem, muitas vezes, da irradiação negativa de mentes em desequilíbrio vibrando intensamente contra aqueles que as sofrem.

…Alegria, idealismo, realização dignificante, são gerados e mantidos pela mente em sintonia com a ordem universal, vitalizando quem a emite.

…Envolve-te no pensamento do bem e ora sempre, a fim de que as tuas sejam forças mentais enobrecidas.

A oração proporciona sintonia com as irradiações superiores da Mente divina, na qual mergulharás, beneficiando-te com elas.

Se te manténs inadvertido a respeito do intercâmbio psíquico e não vigias, sofrerás o efeito daninho de muitas mentes que te buscam, roubando-te vitalidade ou impondo-te suas cargas nem sempre saudáveis, que te submeterão.

Estás sempre em sintonia, queiras ou não, com as forças mentais que se movimentam no mundo. Conforme a tua identificação emocional, externarás vibrações que se vincularão a outras de igual teor vibratório.

Não te descuides do que pensas, do que aspiras, do que falas e de como ages. Da mente procedem todos esses passos e se não a tens disciplinada, habituada aos bons direcionamentos, sofrerás as correspondências da reciprocidade.

…És tu quem eleges a região psíquica para viver e pela qual te conduzirás na busca da realização interior.

Muitas vezes enfrentarás campos psíquicos minados por cargas viciadas e perigosas, imantadas por seres espirituais perversos e doentios que se utilizam de outras pessoas para te alcançar e prejudicar.

Somente poderás conduzir-te nessas batalhas com os recursos morais que provém das tuas energias psíquicas. Como não temem outros recursos, será através das tuas vigorosas emissões vibratórias que a eles escaparás.

Assim, robustece-te no autoconhecimento, aprofundando a tua capacidade de bem pensar para melhor agir, adquirindo controle e direção segura para a tua existência terrena.

O teu pensamento é fonte viva que não podes descurar.

As tuas forças mentais devem ser cuidadas, ampliadas, aplicadas na elaboração de novas condutas para ti e para o mundo sob a inspiração de Jesus-Cristo, cuja existência na Terra foi sempre vivida em perfeita sintonia com Deus, de Quem hauria forças para o desempenho do ministério a que se entregou, e para manter o poder sobre as Entidades do mal, carregadas de energia destrutiva, que Ele muitas vezes enfrentou.


Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Pereira Franco
Obra: Dias Gloriosos - Capítulo 2 - Forças Mentais


11 dezembro 2018

Intolerância para intolerantes - Pablo Capistrano



INTOLERÂNCIA PARA INTOLERANTES



Emanuel Lévinas escreveu uma vez que “todo rosto é um enigma” e que o respeito pelo divino que se esconde no rosto do outro deve ser um imperativo ético intransponível.

Para quem foi vítima do ódio racial do nacional socialismo, o apelo a tolerância e a luta pela convivência pacífica das diversidades e das alteridades pode realmente ser a única maneira possível de se resistir as misérias do mundo.

Esta parece ser (nestes anos pós-modernos), a grande oração da intelectualidade de esquerda, que repete como um mantra a palavra “tolerância”. Temos que amar o inimigo, dar a outra face, perdoar as ofensas cometidas e encontrar, na face do outro, o caminho que aproxima a vítima de seu carrasco na busca de uma conciliação social que apazigue o sofrimento dos povos, das classes, das culturas.

Essa cantilena tem lá suas razões ideológicas e deve ser posta entre parênteses quando as condições de temperatura e pressão política dão sinal de que os antigos fantasmas de tempos sombrios ameaçam nos assombrar, com insuspeitas ressurreições.

Falo da prisão, amigo velho, na semana da morte do grande Chico Anysio, dos blogueiros fascistas que ameaçavam fuzilar jovens universitários do curso de ciências sociais em uma casa frequentada por alunos da UNB.

Hannah Arendt já escreveu que: “compreender não é perdoar”. Essa é uma grande verdade para a arena política. Os esforços de Arendt em entender as origens do totalitarismo foram muito providenciais para a direita do pós-guerra. Ela ajudou os liberais democratas a se libertar do peso do fascismo (o resíduo da direita após a crise do entre guerras).

A grande força de seu pensamento estava justamente em demonstrar que a experiência totalitária não surge fruto da loucura de dois ou três tarados fardados com insígnias de magia ritual. O fascismo emerge de sistemas de poder que usaram as diferenças raciais, étnicas ou de classe como catalizadores do rancor das massas. É por isso que o combate à lógica que fomenta esses delírios de violência e exclusão precisam ser vigiados de perto, com muito rigor e cuidado.

Vivemos um tempo fértil para o retorno dessas práticas de extermínio e violência. A sensação de insegurança, aliada a névoa de crise e a descrença cada vez mais forte nas instituições da democracia liberal produz um território muito fértil para que os sonhos dos velhos fascistas voltem a nos assombrar, dessa vez com a ferramenta do terror e o delírio que mistura elementos sexuais, religiosos, ideológicos; unidos às mitologias regionalistas que separam o Brasil do norte do Brasil do sul.

A ideia de que o respeito pelo outro é o axioma ético mais essencial pode ser bom para delimitar uma fronteira, um limite para o tolerável na arena política. Mas quando esse limite se quebra e a intolerância se torna perigosa, temos que combater outro tipo de combate.

Um combate que não pode seguir as regras da tolerância que nós mesmos buscamos defender. O paradoxo está no fato de que, na arena política, não há como ser tolerante com os intolerantes. Há um proverbio judaico que diz: “quando alguém salva um homem da morte está salvando toda a humanidade”. Hoje, nesse tempo de fantasmas virtuais é preciso reescrever esse ditado porque não há mais espaço, depois de Treblinka e Auschwitz, de se ter somente a disposição de salvar as víti

mas. É preciso também combater implacavelmente os seus carrascos, para que as lições da história não retornem como tragédia. 

Pablo Capistrano
Escritor, professor de filosofia do IFRN www.pablocapistrano.com.br 
twitter.com/@pablocapistrano



10 dezembro 2018

Médiuns acusados de abusos sexuais - um alerta para o Movimento Espírita"



 MÉDIUNS ACUSADOS DE ABUSOS SEXUAIS
UM ALERTA PARA O MOVIMENTO ESPIRÍTA


Acusações de exploração sexual envolvendo o médium João de Deus ganha repercussão de escândalo nacional após denúncia de, até agora, doze testemunhas. Apesar de não ser "espírita", no sentido estrito do termo, o trabalho de tratamento espiritual realizado pelo médium goiano — que tem reconhecimento internacional — desperta especulações diversas que costumam ser usadas intencionalmente pelos antipáticos ao Espiritismo para deturpar a imagem da nossa doutrina, e acende um sinal de alerta para um cuidado especial que as casas espíritas devem ter ao oferecer serviços ao público.

Ontem, no programa Conversa com Bial da Rede Globo, doze mulheres deram declarações estarrecedoras contra João de Deus acusando-o sobre abusos sexuais, detalhando as formas diversas do médium aproveitar-se das sessões de supostos tratamentos espirituais para curas físicas para então atentar contra o pudor das suas "pacientes".

Veja aqui a reportagem do G1 sobre as acusações.

A matéria da Globo também dá conta de uma nota vinda da "assessoria de imprensa" da Casa D. Inácio de Loyola, em Abadiânia de Goiás (onde João de Deus presta seus serviços mediúnicos publicamente) negando veementemente todas as acusações e salientando que há 44 anos o médium vem servindo à causa sem qualquer vestígio de "prática imprópria em seus atendimentos".
 
Médium: João de Deus

Sobre o personagem citado, recordemos alguns posts à respeito:

Supostos abusos sexuais em centro espírita

Não faz muito tempo outro conjunto de denúncias semelhantes ganhou notoriedade nacional, daquela vez, em um centro — dito — espírita: o caso foi em Curitiba, capital do Paraná, contra o presidente da instituição e suposto médium Maury Rodrigues da Cruz. Mais de sessenta testemunhas de acusação — incluindo adolescentes — relataram que foram molestadas em sessões de "troca de energias".

Veja aqui a reportagem do programa Fantástico.


Maury Rodrigues da Cruz

Maury também repudia as denúncias e acusa um grupo que, segundo ele, estaria interessado em desmoralizá-lo publicamente e então afastá-lo do comando da instituição para que esse mesmo grupo assumisse a direção da Sociedade Brasileira de Estudos Espiritas, que, além do centro espírita, administra mais uma creche e uma faculdade.

Alerta geral

Centros espíritas costumam receber abertamente um público regular (os chamados frequentadores da casa) e outros "pacientes" que vêm esporadicamente em busca de serviços do tipo "limpeza espiritual" ou "cura", de enfermidades, muitas vezes, desenganados pelos médicos. Para tanto, há uma certa banalização da aplicação do "passe espírita", inspirado nos tratamentos do Magnetismo Animal de Mesmer. Têm-se aí, habitualmente, uma espécie de clínica espiritual, envolvendo então dois segmentos: 1) os pacientes; e 2) os "trabalhadores da casa".

E aí surge a primeira questão básica: os tais "trabalhadores" são todos bem preparados para o tal "serviço espiritual"? Para começar, em sendo uma instituição espírita, eles são "bons espíritas"? São todos conhecedores da codificação espírita?

A discussão pode ser alargada ainda mais: esses "serviços espirituais" são mesmo autênticos? E, mesmo considerando a autenticidade mediúnica, eles são bem aplicados e úteis ao "paciente" e à causa espírita?



Para tais questões, a propósito, um livro que recomendamos é Terapia Espírita, de Louis Neilmoris, cujo eBook está disponível em nossa Sala de Leitura.

Não ousamos emitir um julgamento sobre os casos específicos aqui expostos — pois isto é tarefa da justiça civil, bem como a esta já foram encaminhados os devidos processos, certos também de que, acima das instâncias terrenas, há ainda a infalível justiça divina. Todavia, convém nos atentarmos à possibilidade real desses tipos de abusos em instituições espíritas, pelo que, é preciso que os dirigentes se atentem com todo o cuidado possível em prevenir que isso ocorra, porque, fora os danos pessoais aos que estivem diretamente envolvidos com essas abomináveis fraquezas morais, igualmente a imagem do Movimento Espírita fica arranhada com tais escândalos.

Allan Kardec bem que advertiu os espíritas, exemplarmente nas edições da Revista Espírita, quanto a necessidade de não darmos aos "inimigos do Espiritismo" motivos para más críticas, porque estes antipáticos à nossa causa sabem muito bem se apropriar desses escândalos para espalhar o joio sobre o trigo e atravancar o progresso da espiritualização da humanidade.

Prevalece a máxima do Cristo:

"Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca."  (Mateus, 14:38) 



09 dezembro 2018

Hora de Mudar - Frederico Menezes



HORA DE MUDAR


Qual é a hora de mudar? sob a ótica do desenvolvimento espiritual, toda hora é a indicada para tal. A estagnação é o outro nome da palavra morte. E o espírito, tanto na carne ou na dimensão espiritual, necessita alcançar a compreensão que a vida é um processo extremamente dinâmico. Sempre é hora, portanto, de mudar, de rever valores, de tomar decisões e concretizar atitudes para o bem.

A sensação de marasmo e atonia é próprio do ambiente que se situa a alma no que tange a permanecer estagnada. Daí, também, advém a sensação depressiva, a ausência de sentido e objetivo para a existência, o vazio na vida. A alma adoece. Sem o esforço da mudança não há como sair desse labirinto patológico.v Todo o universo encontra-se em constante transformação, em permanente mutação. Esta é a lógica da vida. Tudo o que encontra-se em confronto com esta lógica aprisiona-se no marasmo, na queda, em confronto para com as leis soberanas da vida. Este é o sentido da expressão cunhada por Jesus quando se referiu que ele daria a quem fosse à ele vida, e vida em abundância. A vida rica de movimento, de ideais superiores, em harmonia para com os propósitos de Deus.

Quase sempre o ser humano é refratário à mudanças. Até quem as defende, muitas vezes, quando se vê convidado a empreende-las, se inibe, se contrai ou tenta justificar porque não as realiza em si mesmo. Vencer a inércia é um dos grandes desafios para o ser que anseia tomar posse de sua herança divina. Para quem já ensaia o despertar, a hora para começar a mudança é esta e o tempo é agora.

Frederico Menezes


08 dezembro 2018

Não ao Preconceito - Sonia Mugnato de Vasconcelos



NÃO AO PRECONCEITO


O preconceito tem sido forte óbice ao desenvolvimento moral do ser humano, um comportamento limitado pelas travas de um julgamento que surgiu da falta de compreensão e de uma avaliação parcial das situações.

Espiritualmente falando, as religiões cristãs têm como ideia fundamental que todos serão julgados na medida em que julgarem. Esse conceito, trazido das palavras de Jesus (Lucas 6:37), é uma forma de abolir o mal nas relações entre as pessoas, favorecendo a empatia, a solidariedade e a fraternidade.

O processo psicológico do ser humano, contudo, é complexo, e não raramente certas apreciações na prática limitam-se a citações decoradas. O comportamento de uma pessoa religiosa nem sempre é análogo ao que ela diz crer.

A Doutrina Espírita, moralmente fundada em valores cristãos, concorda com a assertiva de que o julgamento feito será o julgamento recebido. Que não se entenda isso como uma espécie de vingança divina, mas como método educativo que alerta que as leis morais e naturais que regem a alguns, regem a todos.

Para tornar ainda mais sério esse entendimento, o Espiritismo é reencarnacionista, sendo a reencarnação possivelmente a única forma de explicar as aparentes injustiças sociais e individuais. Ora, se todos reencarnarão em novo corpo tantas vezes quantas forem necessárias até atingirem certo grau de evolução espiritual, o que garante que não vivenciarão papéis sociais semelhantes aos que hoje são alvo de seu preconceito e que, infelizmente, parte dos indivíduos ainda alimenta no decorrer da história da humanidade?

Uma pessoa preconceituosa com o gênero, cor, posição social, religião, dentre outros, dificilmente deixará de sentir na pele, mesmo que noutra encarnação, o que fez outrem sofrer com seu desprezo. Não se trata da pena de talião, mas de causa e efeito, pois não se colhe maçãs nos limoeiros! Se o conceito não convencer a todos, a própria experiência convencerá.

O preconceito tem sido pedra de tropeço a atrasar toda a humanidade por causa de valores frívolos, quase sempre voltados à aparência exterior, em detrimento das qualidades interiores do ser humano. Não é assustador e sim estimulante, imaginar que se for verdade – a verdade que o Espiritismo abraça – como seria uma próxima vida se tivéssemos que colher o que hoje semeamos.



Sonia Mugnato de Vasconcelos


07 dezembro 2018

Comportamento e Responsabilidade - Antônio Carlos Navarro

 


COMPORTAMENTO E RESPONSABILIDADE


Desde o mito da Criação, no Velho Testamento, temos a indicação da existência do mecanismo de Ação e Reação vinculado às atitudes humanas.

A ação de Eva, contrariando a ordem Divina – e aqui se entenda como sendo a Lei de Deus – é seguida de consequências nefastas para ela e para Adão, e o mesmo se dá com seus filhos, no episódio em que Caim tira a vida de Abel.

Nossos comportamentos geram reações correspondentes ao prejuízo ou benefício causados, conforme atesta o Senhor Jesus, quando disse que se dará “a cada um segundo as suas obras”, e isso não mais é segredo para ninguém.

Ao experimentarmos as consequências do que fazemos, temos condições de sedimentarmos em nós o que é bom, o que é útil, porque estará de acordo com a Lei Divina, que é de Amor, tanto quanto temos condições de sentir o amargor das ações infelizes, que acabam por nos fazer entender o que devemos evitar e como devemos agir.

Poderíamos dizer, em raciocínio simples, que são de dois tipos as consequências daquilo que fazemos: o primeiro é quando o prejuízo é pessoal, e o segundo quando o prejuízo é causado a terceiros.

Mas, não é bem assim. Como vivemos em sociedade, todo e qualquer prejuízo a nossa pessoa decorrente de reações às nossas ações, acaba por alcançar pessoas que dividem seus projetos reencarnatórios conosco. Ao experimentarmos situações difíceis, sofrimentos físicos ou emocionais, acabamos por causar algum transtorno em suas vidas.

O nosso comportamento sempre tem a ver com a vida alheia, e sempre seremos responsabilizados por isso.

Ocorre, no entanto, que o egoísmo e o orgulho que existem em nós, acabam por obscurecer-nos o raciocínio moral, e não levamos em conta o quanto afetamos as pessoas.

Chegamos mesmo a dizer “que os incomodados é que se mudem”, “se não me quer tem quem quer”, “ninguém tem nada com isso”, e por aí se vai.

Poder-se-ia argumentar que se alguém sofre pelo nosso jeito de agir é porque precisa passar pelo que geramos com nossas atitudes, mas não é bem assim. Nomeando essas situações de “escândalo”, Jesus disse que são necessárias na vida das pessoas, mas ai daquele que fosse o gerador do mal estar. É que todo constrangimento, todo prejuízo e toda dor causados, diretamente ou não, contrariam a Lei de Amor e, por isso, causam sofrimento aos que os praticam.

A nossa educação moral, portanto, faz-se necessária e com urgência, para nosso próprio benefício. A ela nos conduz a Doutrina Espírita, ao apresentar-nos a realidade maior na qual estamos inseridos, como funciona a dinâmica da vida em toda a sua operacionalidade, acabando por demonstrar que a felicidade que almejamos está, justamente, a cargo de nossas próprias mãos.

Segundo o eminente e influente psicólogo e educador Howard Gardner, e de acordo com as modernas premissas para uma educação consoante ao século vinte e um, para as relações sociais a educação reclama, entre outras coisas, dois comportamentos pessoais: o Respeitoso e o Ético. O primeiro trata do respeito que devemos dedicar às pessoas, aceitando-as como são, sem as prejudicar, e o segundo reclama o exemplo pessoal que se deve dar na vida de relação.

Nada mais do que ensinam Nosso Senhor Jesus Cristo e a Doutrina Espírita.

Pensemos nisso.

Antônio Carlos Navarro


06 dezembro 2018

Palavras dos espíritos - Hugo Lapa



PALAVRAS DOS ESPÍRITOS...



Hoje em dia o moderno espiritismo e espiritualismo se transformou numa “busca cultural”.

É considerado bom e elevado quem sabe mais, quem dá a melhor palestra, quem demonstra mais conhecimentos técnicos, quem une melhor a ciência e o Espiritismo, quem está mais atualizado com as recentes descobertas da Física que possam comprovar o espírito, quem leu mais livros, quem sabe citar Kardec e outros autores na ponta da língua, quem é capaz de versar sobre teorias com maestria usando o melhor vocabulário técnico-científico-filosófico…

Tanto é assim que hoje a figura de mais destaque no Espiritismo ou Espiritualismo é a figura do palestrante, que faz de suas palestras um “show” de erudição e eloquência. Somado a tudo isso, há um realce no caráter personalístico do orador, onde se exalta seu ego e o coloca como a fonte de todo saber e o modelo de conduta a ser seguido por todos.

As pessoas só esquecem de uma coisa… Esquecem de praticar aquilo que aprenderam, de fazer aquilo que elas mesmas ensinam, de realizar uma obra na Terra que esteja de acordo com suas pregações. Como está dito na Bíblia: “A letra mata, mas o espírito vivifica”. Nada pode nos acrescentar uma erudição vazia e sem alma… Qualquer conhecimento precisa vir acompanhado de uma boa dose de prática, caso contrário, nenhum valor tem para o plano geral do espírito.

De que adianta saber de cor o sermão da montanha se na minha vida diária eu não realizo 1% de tudo o que acumulei em minha mente? De que adianta ler os Salmos e recita-los para uma plateia empolgada e sedenta de saber se eu não saboreio o néctar da sabedoria em minha vida que essa obra proporciona? Conhecimento, erudição, ciência, cultura sem a contraparte prática é como recitar um cardápio sem sentir o gosto dos pratos.

Nunca deixaremos de repetir… A prática é a pérola da existência. Conhecimento pelo conhecimento é terreno seco e improdutivo. É preciso semear a obra e rega-la pela prática se não desejamos uma passagem na Terra vazia e sem sentido, onde perdemos nosso precioso tempo.

Hugo Lapa


05 dezembro 2018

Vencendo o passado - Adriano Machado

 

VENCENDO O PASSADO


Vocês têm a sensação de que estão enfrentando uma batalha diariamente? Por vezes, é assim que me sinto!

Todos os dias, acordamos com a sensação de que não podemos esmorecer, que não podemos nos deixar abater diante das experiências que já estamos vivendo ou das que iremos enfrentar. Todos os dias, já acordamos armados, buscando fôlego para não desanimarmos ante a falta de uma visão mais esperançosa, seja na nossa vida, seja na vida de outras pessoas que, indiretamente, tomamos conhecimento e nos influenciamos.

Comecei a sentir isso e percebi que a cada dia estava mais e mais cansada. A cada dia parecia que as minhas forças estavam se esvaindo... e eu não sabia para onde estavam indo!

Comecei a me entregar a uma sensação de abandono e impotência... e tenho de dizer que é horrível viver assim! Mas, não pensem que estava depressiva. Não! Eu estava bem... bem para conseguir flagrar esse processo em mim e me policiar para não descer mais fundo. E por esta razão, imagino o quão é arrebatador estarmos portadores da depressão. Não a desejo para ninguém e não critico quem está com dificuldade para superá-la.

De qualquer forma, como eu dizia, vendo-me entrar neste processo, precisei parar e ter coragem para descobrir o que estava “errado” em mim. Graças a Deus, achei e continuo achando algumas respostas e elas serviram e servirão como ferramentas imprescindíveis para a superação desta fase na minha vida. Afirmo que, tomando coragem e fazendo essa análise, cada um poderá achar as suas próprias respostas.[1]

Mas, o que seria esse momento, afinal de contas? Dentre tantas outras respostas, posso afirmar que é um período em que estamos vivendo o nosso presente tendo o nosso passado incompreendido como base.

Pode parecer óbvio e infalível o que acabei de dizer, afinal,

o presente sempre terá o passado como base,

mas precisamos fazer algumas ressalvas. Passado é passado e quando não o deixamos lá, principalmente nas experiências que não superamos, estaremos vivenciando no hoje:
  1. todos os traumas nele (passado) criados,
  2. todas as nossas crenças limitantes que construímos com os traumas, usando-as como se fossem as ferramentas certas, mas, na essência, sendo equivocadas para o nosso caminhar.

Diante dessa nossa ação, estaremos literalmente construindo uma vida sobre um terreno bem instável de areia fofa. A qualquer momento, sob qualquer tempestade, ela (construção) sucumbirá por falta de segurança ou fortaleza de nossa base.

Para não haver dúvidas sobre o que estou falando, quando afirmamos que o presente tem o passado como alicerce, não é o passado em si, mas todo entendimento que extraímos das experiências que já vivenciamos.

A base de nosso presente deve ser o aprendizado e não o resultado que extraímos das nossas vivências no ontem.

Dentre outras explicações, a sensação de fragilidade, de desgosto com a vida, são o resultado de nos perdemos em nossos medos e angústias que têm o seu foco nas experiências que vivenciamos, mas que com elas ainda não aprendemos toda a essência do que é necessário para o nosso caminhar seguro.

Assim, ouvimos muito sobre as posturas otimistas e espiritualizadas que devemos tomar para não sucumbirmos diante das dificuldades diárias que enfrentamos, mas, se não compreendermos que a nossa base está instável, continuaremos acrescentando mais peso sobre paredes que não aguentarão todo o peso nelas depositado.

Friso aqui que não estou dizendo que precisamos saber a origem de todo e qualquer trauma, mas sim que precisamos tornar segura a base, iniciando:

  1. por um processo de alimentar em nós a certeza de que cada experiência vivida é uma benção para o nosso crescer,
  2. que apesar das dificuldades, tudo passa e, com certeza, estaremos melhores amanhã,
  3. que nossas crenças deixarão de ser limitantes, ficando o passado no passado naquilo que ainda não temos condição de compreender,
  4. que não sabermos o que fazer faz parte de nossa elevação e não precisamos nos punir por isso,
  5. e, tentando colocar em prática todos os itens anteriores, nossos dias estarão mais sadios e leves porque essa será a nossa verdade.

Estaremos vencendo o passado quando, deixando-o nos influenciar no momento certo de cada vivência, ele depositará aos nossos pés os instrumentos com os quais antes já nos deparamos, mas, pela nossa falta de compreensão não os tínhamos entendido. Agora, no entanto, com o pouco do que já vivenciamos, poderemos melhor usá-los para a depuração de nosso ser.

Assim, o passado estará por nós e não contra nós.

Um viva para a nossa vitória!


[1] Não estou falando de casos em que a depressão já seja uma realidade. Para esse quadro, somente através de um acompanhamento profissional, associado ao enriquecimento espiritual, poderá auxiliar efetivamente na sua superação.