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18 janeiro 2014

Reencarnação e Desigualdades - Deolindo Amorim


REENCARNAÇÃO E DESIGUALDADES

Como política preventiva, que significa simplesmente atacar o mal ainda na raiz, antes que seja tarde, o programa espírita sempre se esforçou no trabalho de assistência e educação, visando à modificação do ambiente moral e social, até mesmo nos recantos mais sórdidos. Prevenir, portanto, para que a pobreza aviltada não chegue a uma convulsão incontida. Se é óbvio que não podemos tratar somente do corpo, mas também, principalmente, do espírito, é óbvio ao mesmo tempo que não devemos relaxar os deveres em relação às necessidades do corpo. Se o espírito precisa de instrumento humano para a comunicação de seus dons, logicamente um corpo doente, abatido pela deficiência alimentar ou depauperado pelo esgotamento, não pode ser bom veículo por causa do desmantelo orgânico. E já se sabe que há repercussão recíproca entre o orgânico e o psíquico. Mas a Doutrina adverte, a certa altura, que às vezes uma pessoa pode nascer em "posição difícil e embaraçosa, precisamente para ser obrigada a procurar vencer as dificuldades, nunca, porém, deve deixar a vida correr à revelia, o que seria mais preguiça do que virtude." (O Evangelho Segundo o Espiritismo - cap. V, nº 26). Este ponto, sem dúvida alguma, sugere reflexão sobre o problema das desigualdades sociais à luz da reencarnação.

Seja, porém, como for, a despeito dos "altos e baixos" dos compromissos reencarnatórios na vida social, não nos compete fazer julgamento, mas temos o dever de trabalhar pela melhoria do homem. E com fazê-lo sem ir ao encontro dos focos de revolta e decadência? Disse muito bem o dr. João Pompílio de Almeida Filho:

"Devemos ir ao encontro dos necessitados, para dar-lhes o que precisam, moral e materialmente, antes que eles venham até nós arrancar o que lhes falta, e destruir as riquezas, que são nossas, mas exigem emprego inteligente, com distribuição de parte em favor dos que têm fome, sofrem frio, vivem envilecidos nos vícios, constituindo verdadeiro peso-morto à margem da sociedade". Tese oficial - 1° Congresso Espírita do Rio Grande do Sul-1945.

Realmente. Tais palavras estão inteiramente abonadas pela Doutrina Espírita. A esmola é uma doença da sociedade. Ainda não temos uma consciência de solidariedade capaz de suprir as falhas no rastro da pobreza extrema e da invalidez relegada. Mas a palavra esmola não teria mais razão de ser, dentro de uma organização social mais espiritualizada ou mais aproximada do Evangelho. Em vez de esmola, diríamos acertadamente dever. Se é verdade que os males sociais, em grande parte, têm relação com o nosso passado e, por isso, também é verdade que cabe à criatura humana fazer a sua parte, a fim de que ninguém seja privado pelo menos do essencial à subsistência nos flancos mais ínfimos da sociedade.

Melhoramento social engloba estabilidade e libertação do medo, mas não significa que todos tenham de ser ricos ou venham a possuir automóvel como requinte de bem-estar. mas todos têm o mesmo direito a uma condição de vida condizente com a dignidade humana, por mais frisante que seja a desigualdade dos níveis sociais. O Espiritismo não propõe a eliminação total das desigualdades, notadamente no estágio evolutivo em que nos encontramos, pois a sociedade é toda diversificada, com ricos e pobres, inteligentes e parvos, empreendedores e preguiçosos, progressistas e retrógrados, homens de bem e homens trapaceiros, por exemplo. Sem pensarmos, porém, na utopia de um mundo sem falhas e disparidades, como se fosse um paraíso terrestre, podemos e devemos, contudo, dar o quinhão que a Doutrina Espírita nos atribui, porque temos a nossa parte de responsabilidade no conjunto:

"Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na lei de Deus e na Justiça deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação. Deve assegurar a existência dos que não podem trabalhar, sem lhes deixar a vida à mercê do acaso e da boa vontade de alguns". (O Livro dos Espíritos-Parte 3a, Cap. XI).

Como se vê, a Doutrina Espírita não absorve a idéia de fatalismo como explicação genérica dos desacertos sociais, nem a tese da reencarnação levaria a tanto. O fatalismo social seria a condenação de pessoas ou grupos a uma vida de privações indefinidamente, como se fossem todos marcados pela adversidade inarredável. Não. Nesta ordem de considerações o que a Doutrina afirma nada tem de radical: os males deste mundo são de duas ordens, isto é, os que têm vínculos com o passado, por causa de atos praticados noutra existência, e os que resultam de erros e abusos cometidos no presente. Nem tudo, portanto, se deve lançar na conta do passado. A incapacidade ou a falta de escrúpulos na gestão administrativa, a negligência na vida pessoal e os desperdícios são responsáveis por muitas crises na sociedade. O cotidiano das ocorrências bem o demonstra. São fatos da presente existência. A interpretação unilateral seria muito inconveniente, pois os problemas exigem, antes de tudo, análise conjuntural. Dois fatores são indiscutivelmente relevantes neste passo: a educação e a reforma moral.

Na confluência dos problemas com que nos defrontamos, de um lado e do outro, não seria lógico pôr de lado a interferência de "situações cármicas". Há criaturas humanas sujeitas ao determinismo de uma existência difícil ou penosa em razão do que fizeram antes, não se sabe onde ou em que época. Quem, suponhamos, explorou o suor alheio, quem abusou da riqueza ou da autoridade como verdadeiro tirano ou corruptor, certamente vai ter que lutar muito contra a humilhação, as aflições e os embaraços, ainda que trabalhe e estude com o maior afinco para subir pela inteligência e pela tenacidade. Por mais que insista na tentativa de afastar os empecilhos, fica sempre na planície social, em posição apagada, obrigado a executar serviços inferiores, segundo os valores convencionais do nosso mundo.

Mais adiante se nos depara o varredor de rua, um homem que já fora lorde noutra época e, agora, volta à Terra para reeducar-se na humildade, pois impusera humilhação a muita gente quando estava na opulência. Semelhantemente, não seria um despropósito admitir que antigo e orgulhoso aristocrata, daqueles que faziam pouco caso das pessoas que estivessem abaixo de sua camada social, venha a reencarnar com uma prova que o coloque nas calçadas como engraxate, vivendo à margem das multidões nos grandes centros urbanos. Noutros tempos, tinha criados sobre os quais tripudiava com arrogância e desumanidade. O fato de engraxar sapato nada tem de deprimente para quem trabalha honestamente, tanto quanto a profissão de gari e outras profissões tidas como das mais modestas não aviltam as mãos honradas. Se a sociedade precisa de médico para os problemas de saúde pública, também precisa do gari, ao mesmo tempo, porque sem a limpeza da cidade e a remoção dos detritos e entulhos transmissores de vermes e alimentadores de mosquitos os planos sanitários ficam seriamente comprometidos. O cavalheiro elegante, habituado a vestir-se com apuro, não pode fazer "boa figura" em público se não tiver quem lhe engraxe os sapatos no momento necessário. E quem vai fazê-lo? O titular de um cargo importante? O funcionário de status mais elevado? Claro que não. É o engraxate, que se torna uma figura indispensável naquele momento.

Naturalmente é uma prova para o espírito que reencarna, como se diz, nas "classes baixas" da sociedade e não consegue projetar-se, porque tem débitos pesadíssimos de outras existências. O tipo inteligente ou espertalhão de outrora, muito afeito a espertezas com prejuízo de terceiros, depois de ter tantas e tantas vezes abusado da inteligência para fins inconfessáveis, sem jamais ter sido alcançado pela justiça terrena, não poderá reincorporar-se à mesma sociedade a que pertencera, mas agora reencarnado como servente ou trabalhador explorado, sempre em aperturas financeiras, lesado aqui, sacrificado ali? É uma contingência admissível no desenrolar do processo reencarnatório. É a lei de causa e efeito.

A justiça nunca deixa de vir, cedo ou tarde, segundo as nossas noções de tempo. A reencarnação está na vida social, não tenhamos dúvida. Conseqüentemente, não se exclui em tudo e por tudo a reencarnação como um dos dados de avaliação nos desajustes sociais, ainda que não seja razoável generalizar, o que daria motivo a conclusões muito rígidas. Se, de fato, há circunstâncias que se sobrepõem aos nossos desejos e meios de ação, porque decorrem de uma carga de responsabilidade individual ou coletiva de outras etapas da vida, há obstáculos e eventualidades que denunciam apenas a falta de vigilância ou a displicência nesta existência. E se o homem fosse conduzido pelo passado em todos os instantes não haveria mudança nem disposição do livre-arbítrio. A vida seria uma sucessão fatal de episódios predeterminados.

Como corpo de idéias, baseado em fatos que comprovam a sobrevivência do espírito além do corpo e a sua comunicação com o nosso mundo, o Espiritismo também se interessa pelo ser humano na vida de conjunto, o que quer dizer: o homem na sociedade. Sem a vida social ninguém teria como se desenvolver e renovar-se, pois a penitência reclusa, distante dos problemas, ignorando o sofrimento de seu próximo, sem dar sequer um pouco de si, não faz nenhum santo.

É na forja social realmente que adquirimos experiência e exercitamos as nossas possibilidades latentes, ora caindo, ora levantando, até que nos modifiquemos para melhor. Não sendo, portanto, fatalista, como já dissemos e fazemos questão de repetir, está bem claro que a Doutrina Espírita se preocupa com as desigualdades humanas, cujas causas devem ser atacadas para que se corrijam as injustiças. Muitas chagas sociais já teriam sido extirpadas se houvesse mais sentimento de humanidade, mais respeito às razões éticas, tanto no plano do poder público quanto no plano particular. Há desigualdades que são o flagrante resultado do egoísmo, da ambição e, por fim, das incongruências de uma sociedade discriminativa na distribuição dos bens indispensáveis à vida humana. Uma sociedade em que a vivência real do Cristianismo ainda está reduzida a compartimentos limitados, porque o Cristo é apenas objeto de devoções formais, sem ação nas profundezas do coração, a não ser das pessoas abnegadas, cujo espírito de sacrifício vem contrabalançar o peso da indiferença ou da frieza dominante. Pois bem, é contra esse tipo de sociedade, ainda vigente, que invocamos os princípios espíritas, sem compromisso com ideologias e facções políticas.

Não estamos defendendo a igualdade maciça ou mecânica, pois seria uma pretensão visionária. Como igualar os elementos de um aglomerado humano composto de criaturas desiguais? Sim, desiguais espiritualmente, desiguais no temperamento, na formação moral, tanto quanto desiguais intelectualmente, etnicamente, psiquicamente. Neste ponto, exatamente, a noção de igualdade, tão mal situada nas discussões doutrinárias ou políticas, tem dois sentidos muito naturais: somos iguais pela natureza e pela origem, porque somos criaturas de Deus e pertencemos à espécie humana, mas não somos iguais nas aptidões, no caráter, na educação, na cultura, nas decisões do livre-arbítrio. Teoricamente, "todos são iguais perante a lei". Seria, de fato, o ideal de uma sociedade bem equilibrada. Como seres humanos, todos têm o direito a uma vida normal, uma vez que todos têm aspirações, compromissos e deveres compatíveis com as necessidades biológicas e espirituais. Necessidades inerentes à natureza humana e, por isso mesmo, não se condicionam, pelas categorias sociais. No entanto, há muitos casos em que animais de estimação, como cavalos, cachorros e gatos são mais bem tratados do que as próprias crianças que ficam em volta desses animais. Que os animais sejam bem cuidados e defendidos, mas que não se despreze o ser humano. A proteção do reino animal é uma prova de adiantamento de uma civilização.

É válido indiscutivelmente o conceito de igualdade na acepção de respeito aos direitos comuns, os direitos intrínsecos da pessoa humana em qualquer nível social: preservação da integridade física, oportunidades para estudar e melhorar-se, liberdade de escolha de seus objetivos profissionais, intelectuais e religiosos. Igualdade, portanto, nos direitos essenciais. Nosso conceito de igualdade, porém, não vai ao irrealismo de imaginar uma sociedade em que todos tenham o mesmo "trem de vida", as mesmas regalias, as mesmas qualificações sociais. Na luta pela vida, sob a pressão das competições, sempre se defrontam capacidades diferentes, com interesses conflitantes. O emprego do livre arbítrio, por sua vez, está sujeito às variações circunstanciais nos empreendimentos e nos modos de proceder ou de julgar as coisas. Ao lado, por exemplo, dos que querem vencer e, por isso, estudam, trabalham, enfrentam todos os reveses, há muitos que não querem sair da comodidade, não se esforçam para mudar de posição, porque preferem ficar onde estão, cultivando a displicência como regra de vida. Ora, o indivíduo operoso e realizador, porque leva a vida a sério não se confunde com o preguiçoso, que se anula por si mesmo no grupo social.

Figuremos de passagem o caso de dois irmãos, cujo pai tenha dado oportunidade ou chances, como se diz correntemente, tanto a este como àquele. O primeiro trabalhou, não esbanjou o tempo, preparou-se para ocupar lugares mais altos, enquanto o segundo deixou tudo correr à vontade, fazendo suas farras, abusando das energias da mocidade. Mais tarde, na "idade madura", quando as ilusões já estão desfeitas, um irmão está em boa situação, com estabilidade, mas o outro, completamente despreparado, desgastado pelas extravagâncias, está de mãos vazias, nulificado na planície social. De quem a culpa? ... Iguais na origem, no lar de onde saíram, mas visivelmente desiguais na organização/temperamental, na vontade, nas inclinações.

A sociedade, em suma, é um somatório das desigualdades individuais. Seria então irrealizável a igualdade em termos absolutos. A reencarnação não invalida totalmente o livre-arbítrio. Justamente por isso, se estamos encarando a questão à luz do pensamento espírita, precisamos ter uma visão mais elástica. De um lado, há quem afirme, por exemplo, que as desigualdades são problemas sociais e, portanto, "nada têm a ver com a reencarnação"; do outro lado, com o mesmo acento categórico, afirma-se que as desigualdades sociais são "conseqüências de nosso passado", e, assim, seria inútil qualquer tentativa de modificação. Então, a única solução é "deixar como está". São entendimentos contrários à verdadeira índole da Doutrina Espírita, de um lado e do outro. Nossa posição há-de ser a do meio termo, nunca das definições intransigentes diante da realidade social. Há, de fato, situações que inferiorizam o indivíduo socialmente, durante uma reencarnação ou mais, por causa da rede expiatória de envolvimentos que o acompanham do passado. Se não cabem no vocabulário espírita as palavras "azar", "má sorte", "capricho do destino" e outras, de uso comum, naturalmente há uma razão para que certos casos perdurem na sociedade, a despeito de todo o empenho que se faça para afastá-los ou atenuá-los. Se a razão determinante do sofrimento ou das dificuldades não está nesta existência, teremos de encontrá-la no passado, sob a ação da lei moral de "causa e efeito", não pelo que os pais fizeram, mas pelo que o próprio culpado fez, não importa se neste ou noutro século. Daí, porém, não se segue que todas as injustiças da Terra, efeitos da maldade, do engodo e do orgulho, por exemplo, sejam projeções do passado e, por isso, irremediáveis. Não. Até certo ponto, as deficiências sociais podem ser retificadas pelas atitudes reparadoras, pela luta contra o mal e pelas reações da parte mais sadia da sociedade. E sempre houve, felizmente, em todos o grupos humanos, os elementos que não se contaminam, ainda que sejam obrigados a transitar pelas mesmas vielas por onde passam o ódio, a baixeza, o vício e a hipocrisia bem enroupada.

Os desafios são uma contingência desse estado de coisas, mas nem todas as ocorrências são fatais. A reparação das brechas que se abrem no organismo social exige a reforma periódica de suas estruturas. É um fenômeno inevitável, sem o que a sociedade não se adaptaria às mudanças impostas pelas necessidades. Mas as reformas estruturais não eliminam a relevância da reforma moral, é ponto em que insistimos. São instâncias concomitantes. A reforma de uma estrutura política, administrativa, religiosa ou educacional, por exemplo, pode ser muito inteligente, como boa base de sustentação, mas o funcionamento vai depender do homem. E se o homem não estiver preparado para conviver com os novos mecanismos, não apenas do ponto de vista intelectual ou técnico, mas também do ponto de vista moral, a melhor estrutura possível corre o risco da poluição, apesar das boas aparências. (...).

Que poderíamos esperar de uma casa muito bem traçada, muito bonita por fora, mas construída com material de péssima qualidade, sem alicerce seguro?

Então, embora as reformas de estruturas sejam necessárias, o equilíbrio social não dispensa a reforma moral de alto a baixo. Não se reformam costumes por leis ou pela força. Por mais bem intencionada e cuidadosa que seja uma lei, não está isenta de acomodações e distorções quando o homem quer usá-la em benefício de seus caprichos ou de conveniências ocultas. A lei por si só não reforma a sociedade, pois os resíduos da imoralidade e das artimanhas sempre subsistem enquanto o homem, por sua vez, também não se modifica interiormente. Dentro dessa concepção, que está na ordem geral das idéias que até aqui explanamos, naturalmente nos defrontamos com o problema da propriedade.

Como já recordamos, o Espiritismo nos põe diante de uma concepção igualitária quanto aos direitos essenciais da criatura humana. Mas também estabelece a distinção entre a propriedade privada e a propriedade destinada ao uso geral. Não usa terminologia jurídica nem muito menos formulações técnicas, mas divide, claramente, em termos técnicos, o bem comum, a que todos têm direito, e a fortuna de uso particular. Reconhecemos, por isso mesmo, a legitimidade da propriedade privada, obtida à custa do trabalho honesto, sem prejuízo de ninguém, como ensina a Doutrina. E porventura não tem o direito de usufruir o resultado de seu esforço todo aquele que trabalha e sabe perseverar e economizar para conseguir um padrão de vida melhor? É lógico e humano. Isto não implica aceitar ou defender a transformação de recursos ou bens de uso geral em propriedade particular, para o enriquecimento de uns poucos em desfavor de muitos. É o que significa, sem tirar nem pôr, a monopolização de um patrimônio coletivo. A propriedade e o capital são, portanto, valores relativos. Se a Doutrina Espírita não é contra o capital em si, coerentemente não apóia a designação depreciativa do dinheiro como o "vil metal". O homem é o responsável pelos efeitos do capital, pois o dinheiro é apenas um instrumento que tanto pode servir de peça decisiva de um sistema de corrupção e violência. O problema é com o ser humano, não é com o dinheiro, pois já sabemos muito bem que as melhores coisas deste mundo, quer materialmente, quer intelectualmente, podem ser usadas para o mal ou para o bem, na medida em que o livre-arbítrio pende para um lado ou para outro.

É o que aprendemos na Doutrina Espírita:
"Se a riqueza houvesse de constituir obstáculo absoluto à salvação dos que a possuem, conforme se poderia inferir de certas palavras de Jesus interpretadas segundo a letra e não segundo o Espírito, Deus, que a concede, teria posto nas mãos de alguns um instrumento de perdição, sem apelação nenhuma, idéia que repugna a razão". (O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVI).

Coincidentemente - apesar da grande distância no tempo e nas circunstâncias - o presidente Franklin Roosevelt, dos Estados Unidos, chefe de uma nação capitalista, dizia isto:

"Os capitalistas vorazes serão devorados pelo fogo que eles atearam... O capital é essencial; razoáveis compensações ao capital são essenciais; porém o mau uso dos poderes do capital ou a egoística supervisão de seu emprego precisa ter fim, ou o sistema capitalista se destruirá pelos seus próprios abusos".

Roosevelt estava então fomentando a política do New Deal, um plano econômico realmente revolucionário. Roosevelt defendia até veementemente a propriedade privada, mas ressalvou logo que a propriedade "não pode ser sujeita à manipulação desumana dos jogadores profissionais da bolsa ou dos conselhos de administração". O sentido humano da propriedade, em suma. São idéias que se encontram com as idéias espíritas:

"O que por meio do trabalho honesto, o homem junta, constitui legítima propriedade sua, que ele tem o direito de defender, porque a propriedade que resulta do trabalho é um direito natural, tão sagrado como o de trabalhar e viver". (O Livro dos Espíritos - capítulo XI, parte 3a, nº 882).

Outra coincidência relevante, sobretudo pelo espaço de tempo (90 anos) entre o pensamento espírita e o pensamento de um economista contemporâneo, o que demonstra, mais uma vez, as antecipações da Doutrina Espírita em relação a problemas de nosso tempo:

1947. H. Hansen:
"Numa fase de industrialização e urbanização, o indivíduo não pode ordenar a sua vida isoladamente. Só conseguirá resolver os complexos problemas hodiernos mediante esforço conjugado e a ação cooperativa dos seus semelhantes".

1857. O Livro dos Espíritos:
"O homem tem que progredir. Isolado não lhe é isso possível, por não dispor de todas as faculdades. Falta-lhe o contacto com os outros homens. No isolamento ele se embrutece e estiola". 

No fundo, o que resulta de suas conceituações de origens tão diferentes é um apelo de ordem ética, porque contrário ao egoísmo, mas identificado com o espírito de solidariedade, que continua a ser uma força social das mais ponderáveis."Uma sociedade que se baseia na lei e na justiça de Deus - diz a Doutrina Espírita - deve prover à vida do fraco, sem que haja para ele humilhação". É o caso da esmola, que humilha e não resolve os problemas. Mas o assunto provoca reflexões no campo sócio-econômico, o que será objeto de próximo capítulo.

*****

Texto publicado originalmente no livro "O Espiritismo e os Problemas Humanos". Edição USE, 1985. Primeira edição em 1948.

Deolindo Amorim (1906 e  1984)


17 janeiro 2014

Determinismo - Richard Simonetti


DETERMINISMO

Qualquer pessoa medianamente informada conhece o complexo de Édipo, consagrado por Sigmund Freud (1856-1939), como a tendência de se ligarem os filhos às suas mães, em oposição aos pais.

Freud inspirou-se numa tragédia grega: Édipo Rei, de Sófocles (495-406 A.C).

Édipo, segundo os oráculos, mataria seu pai e se casaria com a mãe, o que efetivamente aconteceu, numa fantasia recheada de lances dramáticos e mirabolantes, bem ao gosto da mitologia grega.

A tese de Freud, porém, não resiste aos fatos.

Há filhos “vidrados” na figura paterna.

Além disso, a afinidade ou animosidade entre pais e filhos decorre muito mais de ligações harmônicas ou conflituosas de vidas anteriores.

Se alguém reencontra no pai um rival do passado, quando disputavam o amor de uma mulher, hoje possivelmente ligada a ambos como mãe e esposa, enfrentará conflitos em seu relacionamento.

Em contrapartida, dar-se-á muito bem com o genitor que foi amigo ou familiar ligado ao seu coração.

E há que se considerar o comportamento.

Se não cultivarmos valores elementares de convivência civilizada – compreensão, atenção, respeito, tolerância, cooperação, solidariedade… –, os melhores amigos do pretérito nos parecerão figadais inimigos a nos aborrecerem no ambiente doméstico.

***

O aspecto mais interessante da famosa obra teatral de Sófocles diz respeito à fatalidade.

É possível alguém nascer com a trágica sina de matar o pai e casar com a mãe ou destinado a cometer atrocidades?

Negativo.
Não há o determinismo para o mal.

Ninguém reencarna para ser suicida, alcoólatra, fumante, toxicômano, adúltero, traficante, ladrão, assassino, terrorista…

Comportamentos dessa natureza configuram um desatino.

Jamais um destino!

***

Dirá o leitor amigo que o oráculo não teria acertado o sinistro vaticínio, se não fosse esse o fado de Édipo.

Oportuno não esquecer, porém, que estamos diante de uma ficção, uma história da carochinha para adultos.

Questionará você:

E quanto aos oráculos de hoje, representados por médiuns, pais de santo, cartomantes, quiromantes, astrólogos e quejandos? Não antecipam, efetivamente, o futuro?

Consideremos, em princípio, que eles falam de generalidades.

Assim fica fácil.

Se eu fizer dez previsões superficiais sobre seu futuro, envolvendo saúde, negócios, vida afetiva, família, viagens, pelo menos metade se cumprirá. Você ficará admirado de meus poderes premonitórios, tão entusiasmado com os acertos que não reparará nos desacertos.

E há um detalhe: se o “oráculo” revela que terei um dia muito difícil, cheio de contratempos, e acredito firmemente nisso, assim tenderá a acontecer. Estarei predisposto a encontrar “chifre em cabeça de cavalo”.

Obviamente, há indivíduos dotados de grande sensibilidade que podem “ler” em nosso psiquismo algo do que nos espera.

Nele podem estar registrados alguns compromissos que teríamos assumido ao reencarnar, conjugando família, profissão, trabalho, ideal…

Mesmo assim, não poderá fazer afirmações taxativas, porquanto nem sempre cumprimos na Terra o que nos propusemos a realizar, no Além.

Há, também, desajustes no perispírito, nosso corpo espiritual, decorrentes de faltas desta existência ou precedente, tendentes a se refletirem no corpo físico, dando origem a males variados.

Um sensitivo poderá identificá-los e nos falar a respeito.

Não obstante, esses males não são inevitáveis.

É possível, com o empenho de renovação e a prática do Bem, “depurar” o perispírito, favorecendo uma existência saudável.

***

O ideal é viver o hoje, procurando fazer o melhor, sem nos preocuparmos com o que virá.

O futuro não está escrito.

Há apenas esboços.

O “texto definitivo” está sendo grafado por nossas ações.

Jesus sabiamente ensina, no Sermão da Montanha, que a cada dia basta o seu labor.

Cuidemos de buscar o Reino de Deus em primeiro lugar, com o empenho do Bem, e tudo o mais, acentua o Senhor, virá por acréscimo da misericórdia divina.

Livro: Luzes no Caminho
Autor: Richard Simonetti

16 janeiro 2014

Canção da Imortalidade - Joanna de Ângelis


CANÇÃO DA IMORTALIDADE

A vida física é um processo evolutivo para o Espírito que se veste de matéria para as experiências necessárias à sua iluminação.

Dessa forma, cada existência carnal constitui abençoado ensejo para o desenvolvimento dos sublimes tesouros que dormem em germe no ser.

Passo a passo desperta a essência divina de que todos se constituem, em razão da sua gênese que é o amor de Nosso Pai Celeste.

Mediante os pensamentos, palavras e atos praticados, edificam-se as futuras jornadas, sempre decorrentes das anteriores, qual acontece em uma classe de estudos, cuja promoção para nível superior sempre depende de aprendizagem adquirida.

Quando ocorrem descuidos e deslizes morais, comportamentos insalubres e agressivos que perturbam a marcha do conhecimento, é estabelecida a necessidade da repetição do currículo, a fim de que venha a constituir alicerce para o somatório de novas informações.

De igual maneira ocorre na aquisição dos inestimáveis recursos intelectuais e morais, que faculta ao Espírito ser o autor da felicidade ou da desdita que lhe assinala a caminhada no rumo da perfeição.

Não existem exceções nos Códigos Soberanos da Divina Justiça, todos experimentam os mesmos desafios, graças aos quais apresentam-se portadores de diferentes níveis de consciência e de desenvolvimento ético-moral.

A imortalidade é, portanto, a meta a atingir através das sucessivas reencarnações, que são os diferentes degraus a conquistar, na simbologia da bíblica escada de Jacó, que conduz ao Infinito.

Em razão, portanto, do impositivo de crescimento para Deus, cabe a cada criatura o esforço para desembaraçar-se das paixões primitivas que a mantêm na ignorância e na sensualidade por onde transitou, adquirindo outros valores de natureza enobrecida, que lhe facultarão a harmonia interior, a saúde e a coragem para a luta incessante.

A morte física, em consequência, é um fenômeno biológico natural que alcança apenas a forma, o invólucro material que é deixado após o seu uso, prosseguindo a vida em outra dimensão e vibração de energia, na condição de princípio inteligente, que é o Espírito imortal.

Necessário que se considere a inevitabilidade da desencarnação, pensando diariamente na sua ocorrência, a fim de que não se seja surpreendido quando se der.

Distraído pelas sensações do corpo, o Espírito apega-se à matéria e às suas concessões, permite-se fixação perturbadora, de que terá que se libertar, não raro, a contributo do sofrimento, mediante a perturbação que o assalta além das fronteiras carnais.

Estás destinado à plenitude ou reino dos Céus, conforme a promessa de Jesus.

Não recalcitres ante o impositivo das Leis, que nem sempre respondem como gostarias aos apelos aflitivos durante o trânsito carnal.

Mergulha o pensamento e a emoção nas páginas libertadoras do Evangelho de Jesus, a fim de que possas insculpi-las na conduta diária, utilizando-te das mesmas como metodologia iluminativa ante as circunstâncias obscuras do período existencial.

Nada te acontece por acaso, por capricho do destino.

O teu é o destino reservado aos triunfadores, que somente depende de como te comportes e desejes.

Desde que compreendes a Lei de amor a que Jesus se referiu e viveu, mais facilmente enfrentarás os problemas que te surgirão à frente e os transformarás em lições de sabedoria.

Enquanto os insensatos desesperam-se ante as ocorrências mais desagradáveis, entregam-se à revolta e à blasfêmia, como se fossem eleitos e incorruptíveis, que não merecessem passar pelos mesmos caldeamentos a que todos estão sujeitos, permanece fiel ao dever, com paciência e coragem, de modo a enfrentares todas as vicissitudes com a alegria de alguém que se liberta das dívidas adquiridas anteriormente.

Jamais consideres que sofrimento é infelicidade ou desgraça, já que sabes que somente és chamado a resgatar compromissos que foram desrespeitados e atitudes que foram praticadas em agressão aos códigos do Bem.

Na transitoriedade terrena, todas as dores logo passarão e deixarão as marcas abençoadas ou afligentes que decorram da maneira como as enfrentares.

Desgraça real é o mal que possas fazer, são as atitudes de soberba e de ressentimento que cultives, as agressões e rebeldias que já não devem fazer parte da tua existência.

Da forma como te preparas para qualquer realização futura, também organiza-te para que a morte, quando chegar, te encontre rico de valores e de paz, não te causando qualquer tipo de aflição ou de choque.

Além do túmulo, continuarás conforme te encontras, dando prosseguimento aos compromissos abraçados, que não serão interrompidos, porque a vida estende-se além das vibrações do organismo físico.

Poderás continuar amando aqueles que ficarão na retaguarda, ajuda-los-á no crescimento pessoal, de modo que o amor continuará lenindo a saudade que, de alguma forma, é uma expressão de ternura que o afeto coloca no ser.

* * *

Não te desesperes ante os seres amados que a morte arrebatou momentaneamente do teu lado.

Eles prosseguem vivendo e cantam o hino da imortalidade.

Faze silêncio interior para ouvir-lhes as vozes, sentir-lhes as emoções, orares com eles e cresceres também no rumo da espiritualidade.

Eles te esperam com imensa alegria, porque sabem quão rapidamente passa o período orgânico na Terra.
Ora por eles com gratidão por tudo quanto te significam e os envolve em carinho, pois que o amor é a presença de Deus em todo o universo.

Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Pereira Franco, em 30 de agosto de 2013, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.


15 janeiro 2014

Saber Amar - Irmão Saulo

 

SABER AMAR
Às vésperas do Natal, a poetisa Maria Dolores nos lembra o mandamento do amor. Se o houvéssemos obedecido, a Terra seria hoje um mundo tranquilo e feliz. Como não fomos capazes de segui-lo, vemo-nos envolvidos em lutas inglórias e submetidos a terríveis ameaças. Quando Jesus advertiu os discípulos contra o fermento dos fariseus, eles entenderam que o Mestre lhes falava de pão. Dois milênios depois fazemos o mesmo. O fermento do orgulho e da vaidade nos leva a desfigurar os seus ensinos e rejeitar as suas palavras. Somos alunos repetentes de muitos séculos!


O item 5 do capítulo VI de O evangelho segundo o espiritismo, citado por Chico Xavier, constitui-se de uma mensagem do Espírito da Verdade, que há mais de um século repetiu-nos, como porta-voz de Cristo, o seu ensino esquecido: “Espíritas, amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instrui-vos, eis o segundo”. A mensagem é dirigida aos espíritas, na era da razão, porque eles devem estar em condições de compreendê-la.


Não basta amar, é preciso saber amar. Jesus não nos trouxe apenas o amor, mas também a verdade. Ensinou-nos a raciocinar, a buscar o sentido da vida, a não nos perdermos de novo nas trevas da vaidade farisaica. Por isso o Espírito da Verdade acentua: "Instrui-vos".


O espiritismo é a Renascença cristã, segundo a bela definição de Emmanuel. Inicia na Terra uma fase nova da Ilustração, de Iluminismo, desalojando a nossa mente do fanatismo sectário. No Renascimento tivemos a iluminação das ciências. No espiritismo temos a iluminação da verdade, sob as luzes conjugadas da ciência, da filosofia e da religião.

Não temos o direito de nos perdermos de novo em jogos de palavras, como fizeram os sofistas gregos, os rabinos judeus, os clérigos medievais. Não temos o direito de corrigir os textos de Jesus e Kardec segundo a medida estreita de nossa miopia mental. Precisamos instruir-nos, arejar-nos, libertar-nos dos preconceitos para não confundirmos o fermento do passado com o pão de cada dia que o padeiro nos entrega.


A prece de Maria Dolores é um convite de Natal à compreensão profunda das lições do Mestre, à rejeição “das bagatelas entre as quais nos perdemos”, como crianças que brincam com os seixos da praia sem compreender a extensão e a profundidade do mar.


Abençoada lição que nos dá a grande poetisa do além: deixemos de lado os bilros das palavras e cuidemos do sentido real dos ensinos de Jesus, pondo-nos em prática na realidade da vida. Neste Natal, o Mestre nos olha compassivo, perguntando a si mesmo até quando continuaremos apegados à ilusão dos sofismas, tentando corrigir os seus ensinos.

Irmão Saulo*
*Pseudônimo de J.Herculano Pires 

14 janeiro 2014

A Verdade e suas Faces - Wellington Balbo


A VERDADE E SUAS FACES
  
A Verdade vem sendo motivo de intensas lutas íntimas por parte das criaturas.

Alguns querem retê-la em seus domínios, todavia, impossível, porque a Verdade é livre, não se subordina ao poder, à beleza física, aos paradigmas, aos preconceitos... A história da humanidade comprova a virtude da liberdade que possui a Verdade, muitos foram aqueles que se julgaram Donos Absolutos dela, queriam encarcerá-la, contudo, ocioso dizer que foi inútil tentativa, porquanto, o Tempo, esse amigo sereno da Verdade, tratou de reconduzi-la a seu lugar de origem.

Mas ao mesmo tempo que a Verdade é desejada, seja para provar que temos razões em corriqueiras discussões familiares, ou absolver réus que estavam prestes à condenação, ela também é temida. Quem quer encarar de frente a Verdade dos fatos? Por que dói tanto saber que a Verdade é que somos nós mesmos os responsáveis pelos nossos pedagógicos fracassos?

Dirão alguns que temer a Verdade é como se auto proteger, esperando que vida por si só nos amadureça, e maduros, estaremos mais aptos a encará-la.

 Mais simples mascarar a Verdade e colocar a responsabilidade pela nossa desdita em ombros alheios ,até que a maturidade nos visite, contudo, este procedimento não é nada recomendável, porquanto:

A Verdade é inconveniente, pode cobrar seu preço a qualquer momento. Tanto é inconveniente que muitos se negam a enxergá-la, não querem vê-la, mesmo que ela esteja escancarada, é mais fácil tapar os olhos.
Um amigo que foi matricular o filho pequeno em uma escola, ao ver uma garota negra estudando, afirmou decisivo:

- Este ambiente não é para meu filho! E se retirou com o garoto.

Ilusão: “O pai julga que seu pequeno é melhor que o filho do outro”.

Verdade escancarada que não quer ser encarada:”O filho desse pai é um ser humano igual a  todos os outros”.

Resultado:

O garoto crescerá em um mundo de faz de conta, considerando-se acima do Bem e do Mal, e futuramente virão dores e dissabores apresentados pela sempre sábia Verdade, a fim de despertá-los do sono dessa ilusão.

Sim, caro leitor, cedo ou tarde, maduros ou não, a Verdade nos cobrará os deslizes cometidos.

Quem sai da linha e procura dominá-la deve aprender que ela é Livre, e não se subordina aos padrões do mundo, quem a teme e procura as ilusões e fantasias, deve aprender que ela atropela, contudo, sempre visando nosso progresso como seres humanos.
Pensemos nisso.


13 janeiro 2014

Tempo de Crise - Orson Peter Carrara


TEMPO DE CRISE
Quando surgem as crises – sejam de qualquer origem – o impositivo é de serenidade. Afinal, são nas crises que nos opomos uns aos outros.
      
A renovação que necessitamos não é obra de um dia ou de décadas, pois a conquista da sublimação exige variadas matérias de domínio pessoal. Um dos significados da palavra sublimação é engrandecer.  Sim, podemos entender dessa forma: engrandecer a vida humana, valorizar, exaltar as vivências. Por outro lado, se pensarmos bem na expressão matérias de domínio pessoal veremos a abrangência do quanto precisamos fazer para domarmos nossos ímpetos agressivos ou egoístas, nossas tendências de arrogância e vaidade, de prepotência ou de imposição e veremos o quanto precisamos na área do domínio pessoal. O mais grave é que agimos ao contrário: queremos dominar os outros...

Muitas vezes somos competentes na profissão, mas apegados. Em outras situações, somos abnegados, mas nos complicamos na afeição possessiva. Em determinados momentos, somos generosos, mas nos deixamos envaidecer ou nos perdemos na arrogância, na prepotência e mesmo na imposição...

Quanto ainda por fazer!!! O progresso é mesmo muito lento até que surjam as épocas de exame ou avaliação que comprovem as aquisições. Isso tudo faz refletir.

Se nos propomos a vencer, nas lições que a vida apresenta, é preciso usar a compreensão que se apóie no raciocínio e exercitar o amor uns aos outros.  Esta atitude de amor e compreensão vai encontrar as variadas expressões de opção da vida humana. Uns preferem o poder econômico e parecem agredir; outros querem a independência sem dever e enveredam em caminhos que resultarão em aprendizados amargos. Outro se ilude e distancia-se da dignidade; outros ainda aceitam as sugestões dos tóxicos. É preciso mesmo muita paciência diante de opções e decisões nem sempre equilibradas e muitas vezes marcadas pelo orgulho e pelo egoísmo. E essas opções ou decisões partem de pais, filhos, cônjuges, irmãos, amigos, parentes, companheiros de ideal...

Por  isso, quem já possua equilíbrio, que ajude ao desorientado. Quem raciocine com segurança, ampare o que se afastou do bom-senso. Quem disponha de qualquer luz, que clareie o caminho os que jazem na escuridão dos vícios ou dos condicionamentos perniciosos. E, claro, se estamos de pé, socorramos os caídos, porque tempo de crise é tempo de teste e somente se honra com a distinção desejada, quem procura esquecer-se para compreender e auxiliar os demais. Afinal, somos todos irmãos uns dos outros.

Nota: Texto adaptado pelo autor, a partir da mensagem Tempo de Crise, capítulo 19 do livro Companheiro, de Emmanuel, edição IDE.

Orson Peter Carrara


12 janeiro 2014

A Bênção da Saúde - Joanna de Ângelis

A BÊNÇÃO DA SAÚDE

A saúde resulta de vários fatores que se conjugam em prol da harmonia psicofísica da criatura humana. Procedente do espírito, a energia elabora as células e sustenta-as no ministério da vida física, assim atendendo à finalidade a que se destinam.
Irradiando-se através do perispírito, fomenta a preservação do patrimônio somático, ao qual oferece resistência contra os agentes destrutivos, em cuja agressão se engalfinha em luta sem cessar.
Quando essas forças se desorganizam, aqueles invasores microbianos vencem a batalha e instalam-se, dando origem e curso às enfermidades.
Na área dos fenômenos emocionais e psíquicos, face à delicada engrenagem do aparelho pelos quais se expressam, a incidência da onda energética do espírito, nesses tecidos sutis, responde pelo desequilíbrio, mais grave se tornando a questão dos desconcertos e aflições alienantes.
Nesse capítulo, as estruturas profundas do ser, abaladas pelas descargas mentais perniciosas, além dos desarranjos que provocam, facultam a sintonia com outros espíritos perturbadores e vingativos, que se homiziam nos campos psíquicos, produzindo infelizes obsessões.

A preservação da saúde exige cuidados preventivos constantes e terapêuticos permanentes, pela excelência de que se reveste, para as conquistas a que está destinada durante a reencarnação.

Diante das inumeráveis patologias que atribulam o ser humano, a manutenção do equilíbrio psíquico e emocional é de fundamental importância para a sustentação da saúde.

Desse modo, visualiza-te sempre saudável e cultiva os pensamentos otimistas, alicerçado no amor, na ação dignificante, na esperança.

Liberta-te de todo entulho mental, que te pode constituir fonte de intoxicação e estímulo às vidas microbianas perturbadoras, conservando-te em paz íntima.

Se a enfermidade te visita, aproveita-lhe a presença para reflexões valiosas em torno do comportamento e da reprogramação das atividades.

Pensa na saúde e deseja-a ardentemente, sem imposição, sem pressão, mas com nobre intenção.

Planeja-te saudável e útil, antevendo-te recuperado e operoso no convívio familiar e social como instrumento valioso da comunidade.

Vincula-te à Fonte Generosa de onde promanam todas as forças e haure os recursos necessários ao reequilíbrio.
Reabastece o departamento mental com pensamentos de paz, de compaixão, de solidariedade, de perdão e de ternura, envolvendo-te, emocionalmente, com a Vida, de forma a te sentires nela integrado, consciente e feliz.

Doença, em qualquer circunstância, é prova abençoada, exceto quando, mutiladora, alienante, limitadora, constitui expiação oportuna de que as Soberanas Leis se utilizam para promover os calcetas que, de alguma forma, somos quase todos nós.

Saudável, aproveita o ensejo para te preservares, produzindo mais e melhor.

Enfermo, agradece a Deus e amplia os horizontes mentais no amor para te recuperares, hoje ou mais tarde, seguindo adiante em paz e confiança.

Pelo Espírito Joanna de Ângelis
Obra: Momentos de Saúde - LEAL. Capítulo 18
Médium: Divaldo Pereira Franco

11 janeiro 2014

A Misericórdia Divina e a Questão Social -



A MISERICÓRDIA DIVINA E A QUESTÃO SOCIAL

Diante dos graves problemas sociais, que não são apenas econômicos, mas espelham os disparates, as grandes contradições entre o luxo e a miséria, a doença, a invasão da intimidade das pessoas, a loucura e os vícios que corroem a alma e tornam perplexos os momentos de cada pessoa num mundo que atinge cinco bilhões de habitantes, treme o homem contemporâneo.

Aquele que não aceita nem Deus nem o Espírito, nada de espiritual, como nós vemos o espiritual, que limita seu horizonte ao percurso berço-túmulo, gerencia sua angústia dentro de um código de vida específico, nem por isso egoísta ou alienado. Às vezes, pelo contrário, dando de si mesmo e exercendo um humanismo comovente.

Mas o crente terá muitas dúvidas. Foi ensinado que a existência de Deus se manifesta pela sua misericórdia e que a solicitude divina é tal que não cai um só cabelo de nossa cabeça sem que Ele saiba. Então, se perguntará, tímida ou abertamente: “Onde está Deus? Como se manifestará essa solicitude no mundo, se para onde olharmos tudo nos parece dominado pelo mal, pela corrupção, pelo cinismo dos que vilipendiam o bem e usufruem as delícias do poder, do dinheiro, das condições de bem-estar, enquanto a maioria esmagadora sofre a pena?”

Se o crente pensar nos ensinos de sua igreja, certamente ficará em dúvida sobre a sabedoria divina. Se Deus teve o poder de transformar, por um sopro, o barro em homem, por que não colocou nele um ingrediente mais forte, mais apaixonado pelo bem? Por que o deixou entregue às forças do mal, mais propenso ao erro do que ao acerto? Por que fez da conquista da felicidade, do paraíso, do nirvana, uma meta quase impossível?

REFÚGIO

E os espíritas, como enfrentam essa realidade?

“Nosso refúgio é a Doutrina Espírita, que não só explica as razões de tantos sofrimentos e incompreensões, como aponta suas complexas causas, de origem individual e coletiva...” Esse trecho, extraído de um artigo que analisava os problemas atuais, em conhecida revista espírita, sintetiza a pretensa solução que muitos adeptos do Espiritismo afirmam encontrar para as questões sociais.

Supõem que tudo se ajusta magicamente, atribuindo a culpa ao indivíduo e à sociedade por não terem obedecido à Lei Divina.

Não basta dizer “és assim porque pecaste”. De nada resolve acumular o Espírito com culpas reais e imaginárias, como se ele não fizesse parte do conjunto. O pensamento espírita é dinâmico, sistêmico, holístico e não pode reduzir-se a mero indicador de erros e justificador de injustiças por uma interpretação incorreta da Justiça Divina.

Muitos espíritas ainda raciocinam dualisticamente, em estrito sentido newtoniano e cartesiano. Acreditam que o universo funciona como um relógio sincrônico, um mecanismo pesado e infalível, de modo que a lei de causa e efeito se abate sobre o Espírito, dentro de uma visão de tempo e espaço absoluto e fora da pessoa.

Precisamos nos livrar do maniqueísmo psicológico que divide o mundo entre o bem e o mal, profano e divino, César e Deus, espírito e matéria. E incorporarmos a mensagem espírita, as contribuições da cultura, as ideias e propostas de humanistas, materialistas ou espiritualistas, reelaborando-as dentro da nossa ótica.

No “Manifesto Comunista”, Marx, analisando o dinamismo das transformações sociais diz: “Todas as relações fixas, imobilizadas, com sua aura de ideias e opiniões veneráveis são descartadas; todas as novas revelações recém-formadas se tornam obsoletas antes que se ossifiquem. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sábios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens” (citado por Marshall Berman no livro “Tudo Que é Sólido Desmancha no Ar”, pág. 93 - Companhia das Letras).

A citação de Marx é feita porque qualquer problema de modificação social, não apenas econômica, mas em sua dimensão total, terá nele um ponto de apoio, uma referência inevitável. Mas, alguns espíritas, senão a maioria dos que pensam em termos de Doutrina, permanecem adstritos a uma análise simplista dos problemas sociais. É o que se depreende desse trecho de artigo publicado em revista centenária: “Em 1848, dois pensadores alemães, Karl Marx e Engels, lançaram o célebre “Manifesto Comunista” que haveria de influenciar poderosamente a história econômica e política da Humanidade...” (...) no mesmo ano do aparecimento do “Manifesto Comunista”, o Mundo Espiritual desencadeia as manifestações dos fenômenos espíritas começando pelos raps de Hydesville. (...) Estava lançado, nos tempos modernos, o grande desafio entre duas correntes de pensamento que se contrapõem por sua natureza. De um lado o materialismo envolvente, apelando para o imediatismo da vida, para o bem-estar do corpo físico a qualquer custo, com o culto do egoísmo de indivíduos e nações, usando a violência e a luta de classes sociais, como um meio de atingir seus fins. (...) De outro lado, o reconhecimento de todas as necessidades do homem, mas não apenas no terreno material e transitório. Também no campo espiritual, já que ele é um ser espiritual, por excelência.”

O que o autor das linhas que transcrevemos esqueceu-se de dizer é que a reação de Marx e de todos os socialistas como Proudhon, Saint-Simon, Fourier, Owen, decorre do fato de que a revolução industrial massacrava o homem, reduzindo-o a uma posição inferior à máquina e que antes e depois disso, o camponês era servo da gleba, parte dos mecanismos produtivos, uma espécie de gado inteligente. E que tudo isso era permitido, aceito, benzido, enquanto a sociedade pretensamente cuidava do futuro espiritual, era religiosa, pensava em Deus e em sua misericórdia.

As propostas de Marx e seu pensamento, pelo menos teoricamente, não apelavam para o egoísmo. Ao contrário, pediam a solidariedade internacional, a cooperação comunitária e a distribuição equitativa dos bens. Se existe um regime egoísta esse é, sem dúvida, o capitalista.

Nada é profano, porque tudo é divino. Não existe a luta entre César e Deus, espírito e matéria, passado e futuro. O homem é divino, o mal é divino, o bem é divino, porque tudo reflete momentos, instantes, reflexões, experiências que se renovam, reciclam, passam e repassam incessantemente.

NOVA ORDEM SOCIAL

Para os religiosos, inclusive os religiosos espíritas, a felicidade na Terra parece utopia. Mesmo quando se raciocina em termos imediatos, diante do perigo atômico, o futuro figura-se, às vezes, como um deserto árido criado pelas explosões atômicas, com corpos disformes e almas vazias. Deixaremos de cantar louvores a Deus nos altares das Igrejas, perderemos a fé que remove montanhas, abandonaremos o trigo ao joio e choraremos as lágrimas do apocalipse? Conquistaremos o Reino ou sucumbiremos pela angústia que o Criador colocou em nós, dando-nos o desejo e a esperança?

Será também utopia crer no homem, na sua capacidade de superar-se, de tornar-se um ser realmente humano? Tais questões se impõem, porque, segundo Allan Kardec, o objetivo final do Espiritismo é influenciar uma nova ordem social, com os subsídios de sua doutrina apoiada em fatos inconclusos.

Como influenciar a sociedade afastando-se dela? Pelo exemplo de cada um, responder-se-á. Sem dúvida, ninguém duvida que sem a adesão pessoal aos códigos de ética, comportamento ou moral que elege, tudo não passará de simulação, de engano lamentável, com frutos inócuos, tanto individual como coletivamente. O que se vê, porém, é que essa reforma íntima se institucionaliza, torna-se um programa de atuação ativista e é vista dentro de parâmetros, de modelos estabelecidos pela tradição, pela força de ordenações.

A presença de Deus, a misericórdia divina, que o Espiritismo afirma e resgata da crendice e da perplexidade do crente, não se conforma com a visão míope, tanto do que pede a intervenção divina para poupar-se da participação ativa, como do que a vê somente nos lances da dor, do sofrimento.

Essa presença tem sido feita constantemente, pela abertura da liberdade para o Espírito crescer e pela criação do processo dinâmico de aprendizado, repetição e reelaboração vivencial, seja pela reencarnação ou pela expansão da inteligência.

Vieram profetas, missionários, messias. Pregaram a verdade. Ergueram a voz nos desertos da vida, fertilizando o coração humano com as esperanças do céu. Vieram os filósofos e espargiram a dúvida que possibilita a pesquisa e o crescimento do intelecto. Vieram os santos, cujas vidas se tomaram a moldura da fé e do desprendimento, nas trilhas da caridade.

Vieram os cientistas e transformaram a ignorância em conhecimento e em tecno-logia, criando novas perspectivas para o progresso e o bem-estar.

São lições, sementes, luzes que estabelecem, em seu tempo, a base para a renovação, a conscientização dos valores da vida.

A incompetência das religiões em mostrar a misericórdia divina na participação ativa das transformações sociais é patente. Apartando-o da vida, tornando-o omisso, afastado, indiferente à sorte da criatura, brandindo o chicote para punir, mas aparentemente impotente para sustar os atos de violência contra o fraco, desprotegido, o humilde, exigindo lealdade, fé, renúncia de si mesmo, como condição de penetrar no céu além da morte, num caminho regado de lágrimas, choro e saudade, tomam Deus cruel.

VOCAÇÃO SOCIAL

Existem muitas propostas para a solução dos problemas sociais. Todas são, geralmente, utópicas, enquanto desconhecerem que qualquer projeto coletivo só terá sucesso a partir da modificação da pessoa. Isso, porém, não isola, separa, divide a questão social, como impossível de ser conjuntamente realizada. Aliás, não há crescimento pessoal possível sem a integração no social.

O que pretendemos, então?

Certamente não é engrossar propostas ideológicas, demagógicas e irrealísticas. Mas, queremos a valorização do homem, da mulher, da pessoa humana, em todos os sentidos: físicos, educacionais, espirituais, humanos, sociais, tantos quantos sejam os nomes, os ramos, as direções que queira ou possam dar às necessidades integradoras, totalizadoras do ser humano.

Não será isso possível sem o saneamento econômico. Sem a disseminação dos recursos sanitários, educação livre e aberta, do salário justo, da distribuição da riqueza; sem a preservação do meio ambiente, da saúde do corpo e do espírito. Sem o amor, sem a paixão.

Pretender separar, dicotomizar a questão, é cair na cilada da “salvação”, meta egoísta que olha narcisisticamente para si mesmo e pouco se importa com os outros.

A vocação do Espiritismo é social. Não a de se tomar a religião dominante, de todos, com poder temporal e espiritual. Mas a de se misturar nos conflitos da vida, apontando uma saída.


Jaci Regis (1932-2010)

Fonte: Abertura - Jornal de Cultura Espírita, ano I, nº 3 – Licespe, Santos-SP.  Os intertítulos, no lugar de algarismos romanos, foram acrescentados pelo Pense.

10 janeiro 2014

Tolerância - Emmanuel


TOLERÂNCIA 


Vive a tolerância na base de todo o progresso efetivo.

As peças de qualquer máquina suportam-se umas às outras para que surja essa ou aquela produção de benefícios determinados.

Todas as bênçãos da Natureza constituem larga seqüência de manifestações da abençoada virtude que inspira a verdadeira fraternidade.

Tolerância, porém, não é conceito de Superfície.

É reflexo vivo da compreensão que nasce, límpida, na fonte da alma, plasmando a esperança, a paciência e o perdão com esquecimento de todo o mal. Pedir que os outros pensem com a nossa cabeça seria exigir que o mundo se adaptasse aos nossos caprichos, quando é nossa obrigação adaptar-nos, com dignidade, ao mundo, dentro da firme disposição de ajudá-lo.

A Providência Divina reflete, em toda parte, a tolerância sábia e ativa.

Deus não reclama da semente a produção imediata da espécie a que corresponde. Dá-lhe tempo para germinar, crescer, florir e frutificar. Não solicita do regato improvisada integração com o mar que o espera. 

Dá-lhe caminhos no solo, ofertando-lhe o tempo necessário à superação da marcha.

Assim também, de alma para alma, é imperioso não tenhamos qualquer atitude de violência.

A brutalidade do homem impulsivo e a irritação do enfermo deseducado, tanto quanto a garra no animal e o espinho na roseira, representam indícios naturais da condição evolutiva em que se encontram.

Opor ódio ao ódio é operar a destruição.

O autor de qualquer injúria invoca o mal para si mesmo. Em vista disso, o mal só é realmente mal para quem o pratica. Revidá-lo na base de inconseqüência em que se expressa é assimilar-lhe o veneno.

É imprescindível tratar a ignorância com o carinho medicamentoso que dispensamos ao tratamento de uma chaga, porqüanto golpear a ferida, sem caridade, será o mesmo que converter a moléstia curável num aleijão sem remédio.

A tolerância, por esse motivo, é, acima de tudo, completo esquecimento de todo o mal, com serviço incessante no bem.

Quem com os lábios repete palavras de perdão, de maneira constante, demonstra acalentar a volúpia da mágoa com que se acomoda perdendo tempo.

Perdoar é olvidar a sombra, buscando a luz.

Não é dobrar joelhos ou escalar galerias de superioridade mendaz, teatralizando os impulsos do coração, mas sim persistir no trabalho renovador, criando o bem e a harmonia, pelos quais aqueles que não nos entendam, de pronto, nos observem com diversa interpretação, compreendendo-nos o idioma inarticulado do exemplo.

Oferece-nos o Cristo o modelo da tolerância ideal, em regressando do túmulo ao encontro dos aprendizes desapontados. Longe de reportar-se à deserção de Pedro ou à fraqueza de Judas, para dizer com a boca que os desculpava, refere-se ao serviço da redenção, induzindo-os a recomeçar o apostolado do bem eterno.

Tolerar é refletir o entendimento fraterno, e o perdão será sempre profilaxia segura, garantindo, onde estiver, saúde e paz, renovação e segurança.


Pelo Espírito Emmanuel
Do Livro: Pensamento e Vida
Médium: Francisco Cândido Xavier 


09 janeiro 2014

Desemprego - Violência: Causas e Consequências, Terapias e Profilaxias - Luiz Lemos e Nina Lemos


DESEMPREGO - VIOLÊNCIA: 
CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS, TERAPIAS E PROFILAXIAS

Para nossas maduras reflexões e ações pertinentes sobre o assunto, selecionamos entre pesquisadores alguns de seus estudos.

De Frededrico Mayor, ilustre diretor-geral da Unesco, em memorável página intitulada “Educar os que Construirão o seu Próprio Futuro”:

O mundo de amanhã dependerá da visão que dele terão nossos filhos. Qual será essa visão e como pode a educação contribuir para modelá-la? Implícita a essas interrogações há uma dupla problemática: uma está ligada à contribuição que a Educação deve dar à sociedade; outra, ao desenvolvimento e à reforma do próprio sistema educacional para que este possa corresponder às expectativas por ele suscitadas e às esperanças que a sociedade nele deposita.

Os desafios à Educação são universais, mas as medidas que ela terá de adotar para enfrentá-los terão de surgir do interior das culturas de cada região. A Educação deve refletir o melhor e o mais autêntico de nós próprios e de nossas sociedades (...) Em todas as partes e sob qualquer ponto de vista, a Educação é essencial para a Paz. A Paz que, como sabemos, é mais que mera ausência de conflito. É uma cultura baseada na tolerância e no respeito aos demais; é um espírito de solidariedade ativa entre os indivíduos que se fundamenta em uma esperança comum de justiça e de paz (...)

Devemos estar preparados para investir na Educação o que, no passado investiamos na guerra; devemos estar dispostos a pagar o preço da paz (...) Em um mundo onde o progresso depende cada vez mais dos produtos da inteligência, são cada vez mais numerosos os que reconhecem que a Educação é o vetor, a força do futuro.


Amartya Sem, Prêmio Nobel de Economia de 1998, nasceu em Shantinik, na Índia, em 1953; mantém a cidadania indiana e caracteriza-se por apresentar seu pensamento com clareza e rigor lógico, mesclando, com habilidade, a matemática e a história na construção de seus argumentos; trata de temas com alto teor de significado social como: pobreza, fome e desigualdade, conforme transcrevemos:

No seu livro A Desigualdade Reexaminada, de 1992, Sem transita da economia para a filosofia ao discutir a idéia de igualdade, argumentando que as teorias normativas sobre organização social propõem que haja igualdade sob algum aspecto (por exemplo, igualdade de oportunidades de renda ou no atendimento às necessidades das pessoas (...)

Os programas públicos de combate à fome, desnutrição e probreza são analisados no livro de Amartya Sem, em co-autoria com Jean Drèze, intitulado Fome e Ação Pública, de 1989 no qual “(...) o Brasil é mencionado de maneira algo caricatural como exemplo de uma economia que usou pessimamente os recursos gerados pelo crescimento econômico para reduzir a pobreza.”

Ramesh Singh, diretor da Action Aid, no Vietnã, destaca o importante papel da cultura no combate à pobreza: “(...) é a cultura local que mais frequentemente está na origem da pobreza (...) A cultura dominante é estruturada de tal forma que certos grupos ou indivíduos permanecem a serviço dos outros. Ela perpetua a pobreza desses grupos”.

O relatório “Vencer a Pobreza Humana”, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), afirma que a única verdadeira solução para o desenvolvilmento humano na superação da pobreza: é uma melhor organização, uma participação crescente de todos na tomada de decisões e no desenvolvimento das habilitações, no quadro de uma mobilização da dinâmica social.

Lembramos e isso é importante assinalar, que erradicação da pobreza: tanto a política (qualitativa), bem como a sócio-econômica (quantitativa), só acontecerá com a competente atuação do pobre, isto é, com a minha, a sua, com a nossa efetiva participação na construção da cidadania.

Outrossim, é importante assinalar que erradicar a pobreza no Brasil constitui-se também como um dos objetivos fundamentais de nosso País, segundo o artigo 3º da atual Constituição do Brasil.

Acreditamos que devemos e podemos, vencendo, inclusive, a Síndrome do Misticismo Alienante (SMA), incrementar políticas, especialmente públicas, que privilegiem o ser humano, o bem-comum, que promovam melhores condições de vida, pois, no dizer de Václav Havel, a única digna deste nome é a política a serviço do próximo, a serviço das gerações futuras, seu fundamento é ético.

Os espíritas e, bem como outros segmentos sociais, não têm se furtado, ao longo dos anos, a darem sua colaboração no encaminhamento à solução de tão magno problema, que ora trazemos à baila, não só ao nível teórico, em consonância com o Espiritismo, como ao nível prático também, em suas ações baseadas na Doutrina Espírita, evidentemente.

Hoje, pensamos, devido, entre outros, à ignorância generalizada das Leis da Natureza, principalmente no campo da Ética; a desestruturação da família (a célula-mater: pedra angular da sociedade) causando a desorganização social, a delinquência e tanta coisa ruim; a crise de paradigmas, que se alteram com as constantes mudanças; a falta de políticas públicas que privilegiem mais o Homem: fundamentalmente a educação e saúde públicas; a incompetência dos sistemas de ensino e das religiões; ao cinismo da “politicagem” e a hipocrisia da “vendilhagem” dos templos; a exarcebação do orgulho; a hipertrofia do egoísmo; a corrupção; o desequilíbrio advindo do progresso tecnológico, de um lado, e o uso, de outro, onde, egoisticamente, apenas uns poucos usufruem dos seus benefícios e outros são excluídos.

Tudo pode gerar, inclusive, a instabilidade social, o desemprego, os vícios, a prostituição, os quais, por sua vez, vão originar e aumentar uma série enorme de outros problemas: a desconfiança, insegurança, medo, violência, miséria, drogas etc.

Se é assim, amigos, continuemos nossas pesquisas bibliográficas sobre o tema em tela, que visto sob o enfoque do Espiritismo, poderá nos trazer novas luzes.

Deolindo Amorim, lúcido escritor espírita brasileiro, assim se pronuncia:

“(...) Não é da índole da Doutrina fazer profecias nem lhe compete muito menos apresentar um modelo ideal de regime político, porque não é este, na realidade, o seu campo de perquirição. Todavia, partindo de induções perfeitamente compreensíveis, porque nada têm de fantasiosas, a Doutrina preconiza uma aristocracia intelecto-moral, isto é, uma sociedade em que devam prevalecer ao mesmo tempo a competência e a honestidade. Não é uma forma de governo, não é um programa específico, mas um estágio de adiantamento pelo processo de seleção, escolhendo-se os mais capazes e mais idôneos, moralmente falando. O fator tempo há-de ter, aí, sua parte relevante”.

Amilcar Del Chiaro Filho, repeitável jornalista espírita, escreveu sobre o assunto: “(...) Acreditamos que o combate à pobreza e à ignorância é prioridade dos espíritas; Aliás, não só dos espíritas, mas de todas as pessoas que tenham fraternidade no coração. Pobreza e ignorância são geradoras dos maiores males da humanidade, portanto, no nosso modo de entender, a doutrina política que erradicar a pobreza e a ignorância proporcionando vida digna, mesmo que simples para todas as pessoas, terá nossa preferência. Para isso não é preciso empobrecer os ricos, basta despertar a solidariedade, a fraternidade em todos os corações (...) Finalizando, queremos deixar bem claro que, como espíritas, somos contra toda a forma de ditadura, opressão, de egoísmo, de privilégios e demagogia, e a favor de uma política de fraternidade, de igualdade de direitos e que tenha por base o combate incansável à ignorância e à pobreza. Por último, repetimos a resposta à pergunta 930 de O Livro dos Espíritos: “Em uma sociedade organizada segundo a lei do Cristo, ninguém deveria morrer de fome (...)”.

AÇÃO SOCIAL ESPÍRITA

Os textos abaixo fazem parte de um artigo de Maria Thereza C. de Oliveira, intitulado "Novas Idéias para a Ação Social Espírita".

Há de nos preocupar alguns dados sociais, exigindo de cada um de nós, enquanto sociedade, um posicionamento mais rigoroso, no sentido do envolvimento. Gilberto Dimenstein em Eles já Vivem na Recessão (Folha de S. Paulo, 14/12/97), analisa a situação de jovens desempregados. Segundo ele, “existe a preocupação de um fenômeno, que estudos já comprovaram nos EUA e Europa, é o de que esse desemprego gere combustão para o aumento ainda maior da criminalidade”.

Analisemos um dado que Dimenstein nos traz, estatisticamente: “A imensa maioria das populações carcerárias é feita de jovens, incapazes de se colocar no mercado de trabalho, vítimas de processo contínuo de exclusão. No Brasil, de cada 100 presos, 85 voltam a delinquir. Pagamos, portanto, não para reeducar marginais mas para torná-los mais violentos”.

Mais adiante, continua Dimenstein: “A taxa de desemprego entre adolescentes brasileiros (de 15 a 19 anos) chega aos 30% em São Paulo (números da Fundação SEADE, junto com o DIEESE). O IBGE revela hoje (1997) que existem no País dois milhões de adolescentes que não estudam nem trabalham”.

Social e economicamente não estamos nos preparando para essa onda. Políticas sociais mais justas, políticas de segurança etc. têm que ser levadas em consideração, haja vista a linha tênue entre drogas, crimes e desemprego juvenil.

Acentua Dimenstein: Os melhores projetos para combater a marginalidade, em qualquer parte do planeta são bem sucedidos quando misturam educação com geração de renda. Temos exemplos nos projetos sociais desenvolvidos no morro da Mangueira, no Rio de Janeiro e no bairro do Harlem, em Nova York.

Roberto Mangabeira Unger, na página Violência e Ternura, escrita para a Folha de S. Paulo (17/02/98), segundo Thereza Oliveira, assim se pronuncia: “Faz observações interessantes sobre como o desvirtuamento familiar influi, sobremaneira, sobre a desorganização social, criando uma cadeia de desequilíbrios a gerar o contraste entre a violência física e social do dia-a-dia e a procura sôfrega do afeto e da ajuda. Dessa situação resultam muitos males: a repetência e a evasão escolares, o desvio de comportamento acabando no crime e, até mesmo, o desmantelamento físico dos brasileiros. Países pobres, como o México e a Índia, escaparam do pior porque preservaram melhor a família unida dentro da comunidade organizada. Continuando, diz Unger: fundemos em torno da Escola Associações de Mães, Pais e Professores que co-formulem e co-executem os programas sociais, inclusive os programas de apoio à criança em sua família e, quando necessário, de colocação das crianças em família substituta.”

Depois de citar esses dois articulistas (Dimenstein e Unger) e fornecimento de alguns outros dados sobre este tema, de tamanha relevância e do qual não podemos nos omitir e muito menos nos “alienar”, devido a sua repercussão em nossas vidas diárias, Thereza C. de Oliveira chega a algumas conclusões, das quais escolhemos: A questão está num ângulo maior e não tem somente o enfoque de justiça. É isto (justiça) e mais família, saúde, educação, trabalho, infra-estrutura de habitação, transporte, etc. Precisamos de políticas sociais bem definidas, de âmbito familiar e comunitário, possibilidades de oportunizar a sobrevivência básica a todos, com justiça (...) Diante dessa realidade o serviço assistencial trabalhando pelos grupos espíritas precisam acompanhar os fatos que emergem e buscar novas alternativas de trabalho, além das que existem.

Finalizando o artigo, diz Oliveira: “idéias ou outras similares, esteremos prestando uma colaboração social enorme, atuando de fato, no âmago de muitas questões, ajudando a crianças e adolescentes a saírem das ruas e buscarem novas alternativas de educação, profissionalização e renda”.

PROJETO DE EDUCAÇÃO COMUNITÁRIA

Eis aí, prezados companheiros de ideal espírita, material para nossas reflexões críticas, visando provocar ainda mais, mediante nossa atuação, a formação de uma massa crítica sobre esse atualíssimo tema, de natureza estrutural e que emerge em nosso contexto conjuntural, afrontando-nos. Massa crítica esta que apostamos, seja capaz de vencer os desafios decorrentes das atuais mudanças, que estão ocorrendo atualmente no cenário mundial, testando-nos acerca da construção de nossa cidadania (nos seus vários aspectos) em mares nunca dantes navegados.

Diante do exposto, compete-nos assumirmos nossa postura espírita, isto é, aplicando as recomendações da Doutrina Espírita no enfrentamento das problemáticas em foco, envidando esforços na busca de caminhos à luz do Espiritismo, a fim de também dar a nossa modesta contribuição na construção de uma melhor qualidade de vida. A começar pelas pessoas (as protagonistas da qualidade) e considerada toda as suas dimensões, ou seja, globalmente: social, ambiental, econômica, política, cultural e, sobretudo ética.

Para tanto, cumpre-nos fazermos, primeiramente, uma análise diagnóstica da presente situação em que nos encontramos: pesquisando suas causas, planejando nossos procedimentos futuros, avaliando-os constantemente a fim de otimizá-los, tendo como objetivo atingirmos, sequencialmente e em tempo hábil, as metas confirmadas; tudo, sob a chancela da Doutrina Espírita.

Haveremos de começar, acreditamos, por cada um de nós, ampliando-se aos que nos rodeiam: a família, e daí estendendo-se à sociedade.

Elejamos, permita-nos sugerir, mediante as razões apontadas, a Educação como centro da questão. Educação no seu sentido amplo, que a Ética (compromissada com a Fraternidade) como sua diretriz básica norteadora, admitida também como um espaço incomensurável, onde se desenvolvem múltiplos relacionamentos, diálogos, nos que acontecem, ciclicamente, reflexões/ações práticas.

É a Educação, além disso, um espaço em que associados às respectivas comunidades, podemos, como uma das alternativas, elaborar gradativamente, implementar projetos educacionais comunitários que, no nosso caso, devido estarmos comprometidos com o Espiritismo e, por conseguinte, aliados ao Movimento Espírita, hão de estar respaldados, obiamente, na Codificação Espírita Kardeciana.

Esses projetos podem ser complementados por oficinas comunitárias de arte, esportes, etc. que constituem-se em verdadeiros braços através dos quais um projeto educativo chega ao âmago das comunidades, alastrando-se pela sociedade...

Frisemos que cada comunidade, devido as suas peculiaridades, é singular quando da elaboração e implementação do seu projeto político-pedagógico: sócio-cultural sob a égide da Codificação Espírita.

Projeto Educacional este que, antes, ouviu os seus atores-sociais. Pois um projeto não pode ser bem sucedido sem a compreensão da cultural local, sobe a qual ele pretende atuar, no sentido de melhorá-la, trazendo reais benefícios (espirituais e materiais) à sua comunidade. Seu objetivo é ajudar seus participantes, desde criança, a se tornarem, pouco a pouco, cidadãos plenos, conscientes, esclarecidos, criativos, críticos, participativos, solidários, autônomos e, sobretudo, ético.

Só assim serão responsáveis pela paulatina edificação de um mundo melhor com uma sociedade mais justa, democrática e fraterna, com uma melhor qualidade de vida. O programa é vasto, portanto. Deve basear-se na paz, no afeto, nas liberdades políticas, econômicas e sociais. Criar uma vida saudável, harmoniosa e criativa com educação e saúde, alimentação, habitação, transporte, lazer e demais condições necessárias ao bem-estar humano. Enfim, cidadania, justiça social, emprego com trabalho, aposentadoria e democratização da terra, melhor distribuição dos bens e da renda, meio ambiente, e biosfera (social e física), ciências e tecnologia com pesquisa e desenvolvimento, cultura e alegria de viver.

Um projeto educacional, portanto, não pode ser um milagroso pacote extraterrestre a ser imposto de forma violenta, catequista, um projeto pasteurizado. Muito pelo contrário, um Projeto Educacional tem a cara de sua comunidade e se operacionaliza por meio da efetiva participação desta comunidade (interna e externa) que visa, através deste projeto, por meio de seus próprios esforços cotidianos, transformar-se para melhor, onde as pessoas se sintam mais felizes, desde os dias de hoje e para o futuro.


Luiz Lemos e Nina Lemos

Os autores são dirigentes do movimento "Pelo Menos Kardec", sediado no Rio de Janeiro (RJ). Contatos com Luiz Lemos, R. Joaquim Serra, 18 - CEP 20745-300 - Rio de Janeiro (RJ).  Artigo publicado no jornal Abertura (agosto de 1999)