Total de visualizações de página

16 outubro 2020

Semeaduras e Colheitas - Momento Espírita


SEMEADURAS E COLHEITAS


Plantaremos todos os dias. É a lei.

Até os inativos e ociosos cultivam, mesmo que seja o joio da imprevidência.

É necessário reconhecer, porém, que diariamente também colheremos.

Há vegetais que produzem em poucas semanas. Outros, no entanto, só revelam frutos na passagem laboriosa de muito tempo.

Em todas as épocas, uma multidão cria complicações de natureza material, acentuando o labirinto das próprias vidas, demorando-se em dolorosas dificuldades.

Ainda hoje, temos notícia dos que pretendem curar a honra com o sangue alheio e lavar a injustiça com a vingança. Daí, o ódio de ontem gerando as guerras de hoje, a ambição pessoal formando a miséria que há de vir, os prazeres fáceis que irão acarretar retificações no amanhã.

Vivemos nesse processo de constante semeadura e colheita.

Infelizmente, até hoje, a maioria de nós tem semeado com descaso, sem se preocupar com a qualidade das sementes que atiramos no solo das múltiplas existências.

Vida após vida, então, somos surpreendidos por colheitas amargas, ingratas, que geram em nós indignação e tristeza.

Como alterar esse curso doloroso?

Semeando melhor, semeando bem.

Pensemos, nos anos de nossa vida aqui na Terra, sejamos jovem, maduro ou idoso, quantas coisas boas semeamos?

Quantas vidas mudamos para melhor? Que papel importante desempenhamos na sociedade à nossa volta? O que de louvável construímos? Como somos para nossa própria família?

São todas possibilidades ímpares de semeaduras felizes.

Pensemos nos caminhos que seguimos, desde que nascemos. Quantos deles foram de sementeiras conscientes e maduras?

Se percebermos que foram poucas as boas sementes cultivadas, não entremos em desespero. Ainda há tempo.

Sempre estamos aptos a semear. Hoje mesmo, daqui a alguns minutos, podemos tomar uma decisão importante, podemos encontrar-nos com alguém e mudar os rumos de uma história.

Hoje mesmo podemos perdoar, podemos começar uma tarefa nova, nos engajarmos em alguma causa valorosa com responsabilidade.

Comecemos qualquer semeadura nova hoje mesmo, a qualquer instante. Tomos somos capazes.

E não nos preocupemos com as colheitas penosas, reflexos de outros tempos. Façamos a colheita resignados, aprendamos e semeemos melhor de agora em diante.

Tornemo-nos um melhor semeador, o que seleciona as sementes que espalhará no solo do mundo.

Passados séculos sobre o Cristianismo, apenas alguns de nós, que nos afirmamos seguidores do Cristo, compreendemos a necessidade da sementeira da luz espiritual em nós mesmos.

Dessa forma, se desejamos plantar na lavoura divina, cabe-nos fugir do velho sistema da semeadura do mal, optando por cultivar o bem.

São muitos os que padecemos, no mundo, por equívocos do ontem. Se desejamos criar nossa felicidade, importante que não percamos tempo, prosseguindo em caminhos escusos.

A luz veio ao mundo há séculos. Milênios se passaram. Optemos pela reconstrução de nós mesmos.


15 outubro 2020

Errar é humano. Permanecer no erro é apenas imaturidade espiritual - Cristina Sarraf


ERRAR É HUMAMO. PERMANECER NO ERRO É APENAS IMATURIDADE ESPIRITUAL


Mesmo sendo espíritas e nos sabendo em evolução, errar é sempre um grande incômodo e motivo de muitas reações psicológicas indesejáveis, mas que ainda nos pertencem.

Errar, em verdade precisa de um bom exame sobre o que seja, na medida em que muitas vezes está sendo apenas a opinião de outro sobre nosso modo de ser, pensar e agir. Esse outro que nos aponta um erro, está agindo por imposição? Por espírito de domínio? Por considerar-se dono da verdade? Por querer nos diminuir? Por se incomodar conosco, porque o desagradamos? Por querer nosso bem estar? Mas quem quer o nosso bem, aponta erros? Precisamos examinar isso!

Muitas outras questões poderiam ser feitas, no entanto, cada um pode elaborá-las segundo a situação que vive, viveu ou viverá.

Quando nós mesmos nos reconhecemos em erro, teremos realmente errado ou estamos nos comparando a algum padrão estabelecido por alguém, pela sociedade, pela religião ou por nossa vontade de agradar para ter reconhecimento e/ou amor? Tudo isso e mais algumas coisas precisam ser examinadas, como por exemplo o nível de orgulho, pretenciosidade e vaidade que possamos estar cultivando. Sim… também ver se não estamos querendo ser iguais a outra pessoa, que consideramos melhor por alguma razão.

À luz do Espiritismo, estamos todos em processo evolutivo. Processo é algo que veio de algo, que veio de algo… e que vai para algo, que vai para algo… sem término, sem interrupção e sem exceção.

Se estamos em evolução, é possível ser criticado ou condenado por alguém, que nos aponta um erro, sendo que esse alguém também, está em evolução? Bom… há os mais maduros e com mais experiência. Mas se alguém é melhor, aponta erro, critica e condena? Ou ajuda a entender, respeita e considera as razões que temos; e admite que pode não haver erro? É preciso examinar isso!

Esses raciocínios não estão isentando que erramos, e sobretudo não estão “passando a mão na cabeça” de ninguém, e muito menos esquecendo que há erros que realmente prejudicam, destroem e matam.

Na medida em que há Espíritos encarnados de todos os tipos em nossa sociedade humana, e que recebem influências de desencarnados, também de todo tipo – fato de fácil compreensão para os espíritas – mas ignorado pela legislação social, as punições são a condição, por enquanto, para que abusos e crimes não predominem. Ou que sejam temidas as consequências, inibindo um pouco a maldade, a ignorância moral e a “injustiça”. Se bem que tudo isso possa ser acobertado e imposto de forma oficial, disfarçada e sob ameaça, na medida em a maioria não sabe prever o resultado de certo tipo de escolhas, como por exemplo de governantes.

Mas voltando as relações de amizade, família, grupo espírita, trabalho profissional, há que pensarmos melhor sobre o que se considera serem erros.

Por exemplo: se já sabemos que algo não é bom, não faz bem, não ajuda e pelo contrário, atrapalha e prejudica, mas continuamos agindo da mesma forma, o que está acontecendo? Sabemos mesmo? Estamos convictos de que isso ou aquilo é errado, ou apenas ficamos submetidos ao que nos dizem? Será negligência, prepotência e imposição? Será que conhecemos os passos, as etapas para chegar ao acerto? Estaremos nos forçando, sem conseguir acertar? É que forçar mostra desconhecimento dos caminhos!

Porque, muitas vezes, um hábito, um modo de ser é tão antigo e condicionado, que nem é percebido que está sendo usado, até que se concretize. Porém… o fundamental é entender, de verdade, que os atos são frutos, são consequência da maneira de pensar. Se o pensamento perdura, não há como mudar os atos! Ou seja, ser condenado ou condenar-se não resolve nada. Culpar-se é usar de raciocínio não espírita. Os equívocos são parte de nossa ignorância espiritual, por mais que o intelecto esteja desenvolvido. E sair deles – sempre chamados de erros – requer condições de percepção, compreensão, humildade intelectual e verdadeiro entendimento de estarmos em evolução. Ah, sim… todos somos bem e mal inspirados, influenciados e temos limites, equívocos, preconceitos e tendenciosidade no que sabemos e somos.

Como resolver? Aí vai uma sugestão: Primeiro ver se realmente é um erro ou apenas uma opinião alheia. Segundo sair da culpa e ver-se em evolução e por isso, errar e acertar faz parte do processo. Terceiro observar-se, com respeito e amor, em relação a sua forma de pensar sobre a questão, assunto ou conduta. Quarto, analisar se está com disposição de empreender uma mudança de pensamento e sustentar-se no devido tempo de transição entre o hábito antigo e a nova forma. Quinto, aceitar-se como é, integralmente e propor-se a uma modificação que lhe será benéfica; e para isso comece a dar-se todo apoio necessário. Com paciência e muito amor.

A escolha é de cada um, conforme sua possibilidade!

Mas… afaste-se da utopia da perfeição, do conhecimento absoluto, da verdade inconteste e da falsa superioridade, que só é orgulho. E orgulho é também, apenas ignorância espiritual.

Cristina Sarraf
Fonte:
Portal Casa Espírita Nova Era


14 outubro 2020

Esquecimento do Passado - Rogério Coelho


ESQUECIMENTO DO PASSADO


Esquecido de seu passado o Espírito é mais senhor de si.
“O passado é a causa viva, mas não soluciona o presente.” – Emmanuel


Quando Jesus (1) nos conclama a amar aos inimigos, bendizer aos que nos maldizem, fazer o bem aos que nos odeiam e orar pelos que nos maltratam e perseguem, é porque se faz necessário desatar todos os nós que nos prendem aos equívocos passados.

A necessidade do perdão e os trâmites evolutivos são dois fatos emergentes de imediato quando se trata do esquecimento do passado. Se Deus achou por bem ocultar de todos nós o passado em cada experiência reencarnatória, de nossa parte, devemos envidar os esforços necessários para esquecer os prejuízos e males mais recentes da presente reencarnação, isto é, ministrar o perdão incondicional, como Jesus o fez e ensinou, a fim de livrar nossa economia espiritual do lixo cármico.

Escrevendo aos romanos, Paulo de Tarso concita-nos a tratar com caridade aos nossos inimigos, “porque fazendo isto, amontoaremos brasas de fogo sobre a cabeça deles.” Nada mais certo e lógico, pois os nossos inimigos, observando nossa atitude cristã e positiva no sentido de acertar os desentendimentos, ficarão propensos a não mais oferecer nutrição às situações de beligerância.

Já nossa evolução ficará bem solucionada condicionando-a ao esquecimento do passado de forma a aplicarmos nossas energias e potencialidades na direção certa, sem os prejuízos dos liames que nos agrilhoariam às nossas seculares defecções, libertando-nos assim, para nossas missões que têm como denominador comum a aplicação da legítima caridade que não só ensinaremos mas que principalmente praticaremos.

Mateus registra em suas anotações, (Mt., 10:26.) que “nada há encoberto que não haja de revelar-se, nem oculto que não haja de saber-se.” Assim, no momento azado, quando a maturidade chegar, haveremos de saber o que hoje ainda é conveniente que permaneça oculto. O próprio Cristo nos dá notícia de que existem coisas que necessitam aguardar o concurso do tempo e da ocasião propícia para que possamos entendê-las. Ao Seu tempo dizia: “Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas por hora não as suportaríeis”.

O passado, portando, não deve ser causa de maiores preocupações. Isso não nos desobriga a fazer um exame minucioso de nossas atuais tendências mais íntimas, vez que elas nos mostram as próprias leiras de serviço, isto é, onde devemos trabalhar em nossa própria intimidade para vencer os remanescentes de uma sementeira passada irresponsável e descuidada.

Enquanto encarnado, João Batista desconhecia que ele próprio era a reencarnação de Elias. Quando lhe perguntaram (2): “Quem és? És Elias?”

Ele respondeu: “não.” Vemos, assim que até mesmo aos grandes missionários o passado não é revelado. Seu esquecimento é algo mais abrangente do que podemos imaginar e transcende o plano material. Os Benfeitores da humanidade disseram (3) a Allan Kardec que “(…) muitas vezes um Espírito recém desencarnado não se lembra de nomes de pessoas que lhe eram caras, nem uma porção de coisas importantes. É que tudo isso, pouco lhe importando, logo caiu em esquecimento. Ele só se recorda perfeitamente bem dos fatos principais que concorrem para a sua melhoria.”

O Mestre Lionês aborda o tema a partir da questão de número 392 de “O Livro dos Espíritos” de onde extratamos alguns itens para oportunas elucidações: “não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em Sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro. Esquecido de seu passado ele é mais senhor de si.“(…) Gravíssimos inconvenientes teria o nos lembrarmos das nossas individualidades anteriores. Em certos casos, humilhar-nos-ia sobremaneira; em outros nos exaltaria o orgulho, peando-nos, em consequência, o livre-arbítrio. Para nos melhorarmos, dá-nos Deus exatamente o que nos é necessário e basta: a voz da consciência e os pendores instintivos. Priva-nos do que nos prejudicaria. Acrescentemos que, se nos recordássemos dos nossos precedentes atos pessoais, igualmente nos recordaríamos dos outros homens, do que resultariam talvez os mais desastrosos efeitos para as relações sociais. Nem sempre podendo honrar-nos do nosso passado, melhor é que sobre ele um véu seja lançado.”

Por outro lado, muitas criaturas que contestam a reencarnação perguntam: “como posso pagar por uma coisa da qual não tenho a mais vaga lembrança?” Evidentemente esta pergunta é até compreensível para quem ainda não estudou a Doutrina dos Espíritos, havendo portando dificuldade em compreender e aceitar algo cujo fundamento permanece desconhecido. A solução é oferecer a tais criaturas um caminho de acesso a essas informações, chamando-lhes a atenção para o fato insofismável de que Deus é justo e bom e impossível seria conciliar Sua justiça e bondade com os desníveis sociais que vemos à nossa volta. A unicidade da existência jamais poderá explicá-los. Por que sorte tão diversa na vida de Seus filhos? Por que uns nascem em berço de ouro e outros nas mansardas infectas? Por que uns são inteligentes e outros apoucados? Só a reencarnação pode conciliar e justificar situações tão antagônicas e aparentemente injustas.

Segundo Allan Kardec (4), o esquecimento do passado não constitui obstáculo a que se possa aproveitar da experiência de vidas anteriores. Havendo Deus entendido de lançar um véu sobre o passado, é que há nisso vantagem. Sabemos que a evolução se processa de baixo para cima, isto é, o “Espírito nasce simples e ignorante” e caminha na direção da perfeição relativa. Assim, para que rebuscar no passado os fatos que devem presentemente ficar esquecidos?!

Segundo Emmanuel, “(…) é no corpo que dispomos daquele bendito anestésico do esquecimento temporário com que a cirurgia da vida, nos hospitais do tempo, nos suprime as chagas morais instaladas por nós mesmos, no campo íntimo; nele reencontramos os desafetos de passadas reencarnações, nas teias da consanguinidade ou nas obrigações de grupo de serviço para a quitação necessária de nossos débitos, perante a lei que nos governa os destinos.”

Quão salutar e providencial é o esquecimento do passado que nos enseja a possibilidade de resgatar, sem humilhação, os débitos junto daqueles que prejudicamos ou nos prejudicaram!… No passado que se perde na noite dos tempos, está a causa de grande parte dos sofrimentos humanos e o fulcro da questão está no fato de sempre termos fracassado na administração do perdão incondicional. Estamos sempre nos lugares certos e com as pessoas certas. Cabe-nos aceitar e procurar compreender o que devemos fazer para aproveitar ainda nesta oportunidade reencarnatória o ensejo abençoado da reconciliação com os adversários d`antanho.

Esqueçamos o que passou; não nos assentemos na esquina do remorso e tampouco nos enveredemos em meio aos cipoais da amargura. Sigamos em frente, de olhos postos no futuro feliz que nos aguarda a todos, construindo esse porvir ditoso desde já sob as bênçãos de Jesus.

Rogério Coelho
Fonte: Agenda Espírita Brasil

Referências:

(1) Mateus, 5:44;

(2) João, 1:21;

(3) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, q. 307; e

(4) KARDEC, Allan. O Evangelho Seg. o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. V, item 11.


13 outubro 2020

Hipocrisia gourmet: os riscos de uma seita chamada Espiritismo - Vinícius Lara da Costa

 



HIPOCRISIA GOURMET: OS RISCOS DE UMA SEITA CHAMADA ESPIRITISMO


E ele, respondendo, disse-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito:Este povo honra-me com os lábios,Mas o seu coração está longe de mim; Marcos 7:6

Talvez o número de revelações espirituais seja grande no mundo porque, com mais frequência do que desejaria nossa motivação de praticar o bem, temos pervertido e conspurcado grandes ensinamentos semeados ao longo da história.

Embora não seja passível de uma afirmação categórica, praticamente todas as grandes religiões surgiram a partir da experiência de espíritos maduros que, intuindo as Leis Naturais, as traduziram de acordo com a cultura e o tempo para seus companheiros. Assim, a primeira geração da religião costuma ser vigorosa, profética. Após a rolagem do tempo, porém, o que antes fora vigor tende a se transformar em rigorismo e os profetas, que são missionários sem formação institucionalizada e cumprem sua função por uma espécie de impulso íntimo, são lentamente substituídos pelo sacerdotes: doutores no texto e da língua.

O Espiritismo não possui sacerdotes, pelo menos não em sua feição original. Não temos – ou não deveríamos ter – palestrantes, médiuns, espíritos ou dirigentes de instituições, que apenas pela função que ocupam temporariamente são tomados como referências absolutas da verdade. Para o Espiritismo conforme organizado por Allan Kardec há apenas duas fontes de aprendizado seguro para os iniciantes: o estudo dos fundamentos da nova ciência e a observação dos fatos espíritas, donde se poderia derivar princípios mais ou menos gerais capazes de sustentar a filosofia e a moral. Deste modo seria ideal que o móvel para nossas ações se desse no campo da análise detida, da meditação profunda e da crítica fraterna, reconhecendo que a autoridade de um espírito ou de um espírita não é fruto de uma boa produção midiática, do número de livros que ele publicou ou pelo número de seguidores que fez ao longo da vida, essa autoridade advém, antes, da capacidade de efetivar transformação na visão de mundo de seus companheiros, reconhecendo-se sempre como mais um.

Nesta direção o problema da hipocrisia é um ponto central. Como disse uma vez Richard Simonetti, “os espíritas se odeiam fraternalmente” e esse ranço, que só é fruto do embaçamento mental e vaidoso de grupos e seus guias solapa, dia após dia, o que poderia ser uma unidade de princípios ampla no campo da prática espírita brasileira e mundial.

As divisões aumentam na medida em que não compreendemos a obra de Allan Kardec e, à guisa de auxílio, nos valemos de outros autores, por mais respeitáveis que sejam, para tentar edificar a fundação do Espiritismo em nós. Com humildade e respeito é preciso dizer que se a casa onde habita sua prática espírita está construída sobre a obra de Léon Denis, Chico Xavier, Divaldo Franco, Yvonne do Amaral Pereira ou outros nomes importantes do nosso movimento, cedo ou tarde ela sofrerá fissuras porque fundação em Espiritismo se chama Allan Kardec. Todos os que vêm depois dele compõem paredes, telhado, acabamentos, enfim, acabamentos à obra de nossa morada espiritual. Acredito que o exemplo seja claro.

Mas o que isso tem em relação à hipocrisia? Ora, na medida em que não estamos seguros da base podemos descobrir que boa parte dos comportamentos adotados ante os nosso ídolos da caridade e da filantropia são belos, mas não possuem relação positiva com o Espiritismo. Vejamos alguns exemplos: Allan Kardec recusa, em o Livro dos Médiuns[1], várias mensagens atribuídas a espíritos renomados por não revelarem a elevação necessária, mesmo que bem redigidas. Quantas vezes nós, como movimento, pudemos fazer o mesmo com os espíritos que nos auxiliam sob a forma de “guias” seja na casa espírita ou nos congressos? Simplesmente por ter sido dito/ psicografado por este ou aquele médium as mensagens são isentas de equívocos?

Além disso, como lidar com problemas a respeito da cobrança e direitos autorais por parte de palestrantes que, divulgando o Espiritismo, criam plataformas de streaming pagas? Ou então, com a realização de eventos custosos, em hotéis, sob propagandas nada elevadas, alegando-se que o recurso dos eventos seria destinado à manutenção de obras assistenciais, os fins justificam os meios? Isso para não citar a mistura não ingênua entre terapeutas/médiuns/profissionais liberais que se apresentam com currículos longuíssimos antes de sua fala. O que impacta no entendimento de quem escuta e ensina sobre o evangelho se o expositor é engenheiro, mecânico, desempregado ou professor? Amigos, isso nunca esteve relacionado com o Espiritismo, nestas circunstâncias todos os ídolos são frágeis, e o pior, mesmo assim, adoramos o glamour de estar perto “do médium”, “do guia”, “da elite”.

Na Revista Espírita, em dezembro de 1863, o Espírito Erasto nos apresenta uma bela página a respeito do que ele identifica como os principais conflitos no seio do Espiritismo. É fácil perceber a atualidade do pensamento no que tange aos médiuns respeitáveis, porém humanos:

Hoje vossas falanges engrossam a olhos vistos e vossos partidários se contam aos milhões. Ora, em razão do número de adeptos, deslizam sob falsas máscaras os falsos irmãos dos quais ultimamente vos falou vosso presidente temporal. Não que eu venha recomendar-vos que não sejam abertas vossas fileiras senão às ovelhas sem mancha e as novilhas brancas; não, porque, mais que todos os outros, os pecadores têm direito de encontrar entre vós um refúgio contra suas próprias imperfeições. Mas aqueles dos quais vos aconselho que desconfieis são esses hipócritas perigosos, aos quais, à primeira vista, se é tentado e conceder toda a confiança. Com o auxílio de uma atitude rígida, sob o olho observador das massas, eles conservam esse ar sério e digno que leva a dizerem deles: “Que criaturas respeitáveis!” ao passo que, sob essa respeitabilidade aparente, por vezes se dissimulam a perfídia e a imoralidade.

Eles são acessíveis, obsequiosos, cheios de amenidades; eles insinuam-se nos interiores; eles entram voluntariamente na vida privada; eles escutam atrás das portas e se fazem surdos para escutar melhor; eles pressentem as inimizades, atiçam-nas e as alimentam; eles vão aos campos opostos, indagando, interrogando sobre cada um. O que faz este? De que vive aquele? Quem é fulano? Conheceis sua família? Depois os vereis ir surdamente desfilar na sombra as pequenas maledicências que conseguiram recolher, tendo o cuidado de envenená-las com untuosas calúnias. “São rumores em que a gente não acredita”, dizem eles, mas acrescentam: “Onde há fumaça há fogo, etc., etc.”

A esses tartufos da encarnação reuni os tartufos da erraticidade e vereis, meus caros amigos, quanto tenho razão de vos aconselhar a agir, de agora em diante, com extrema reserva e de vos guardardes de toda imprudência e de todo entusiasmo irrefletido.[2]

Se não podemos alinhar estes comportamentos com o fundamentos extremamente simples do Espiritismo, como ainda investir em uma espécie de “guiismo” tão descarnado da lógica e do bom senso? A resposta não é racional, porque racionalmente isso não tem sentido. Na mediocridade de nossa carência humana, o sonho é ser amigo do rei…

Aí chegamos então a uma religião de estrelas, ansiosa por expandir o número de adeptos e muito atenta aos nichos mercadológicos em que se enquadra a fé. Uma crença dissidente da ortodoxia, que se arvora em correta, portanto, uma seita[3]!

Tomando emprestada uma ideia da psicanálise – tão cara aos movimentos psicologizantes do espiritismo pop – é quase como se entre posturas afetadas, eventos caritativos e poses para fotos acontecesse, eventualmente, atos falhos, nos quais representantes destas mentalidades estranhas resolvem falar em nome da filosofia espírita de questões ligadas a partidarismos sociais, poder, autoridade e moralismo. Há um recalque presente, talvez o prazer de ser autoridade. Um prazer narcísico, personalista. Que bom que a morte sempre vem e destrói tudo isso.

Referências:

[1] O Livro dos Médiuns, cap. XXXI, Comunicações apócrifas.

[2] Revista Espírita, dezembro de 1863, Instruções dos espíritos, Os Conflitos.

[3] De acepção muitas vezes pejorativa, a seita é constituída de um grupo de indivíduos que professam uma doutrina diferente da doutrina considerada ortodoxa e majoritária. É o caso por exemplo dos hereges em matéria de religião; porém, quando ela se institucionaliza e adquire amplidão, a seita acaba por constituir uma Igreja: foi esse o destino, principalmente, das Igrejas protestantes. Como mostra Durkheim, o adepto, antes de se vincular à própria doutrina, quer participar a princípio do “sistema de forças coletivas” representadas pela seita. – DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Vinícius Lara da Costa
Fonte: Rede Amigo Espírita

12 outubro 2020

Por autopunição ou abreviação do sofrimento, o suicídio jamais será solução - Rogério Miguez


POR AUTOPUNIÇÃO OU ABREVIAÇÃO DO SOFRIMENTO, O SUICÍDIO JAMAIS SERÁ SOLUÇÃO

Dificílimo julgar atos e condutas. Há tantas variantes envolvidas no móvel da execução de um ato qualquer, que é praticamente impossível avaliar com precisão as razões e motivações de nossas atitudes, seja para o bem, ou para o mal, como exemplos:

1. É o passado manifestando-se através da temida sombra, sugerindo constantemente a transgressão dos princípios morais e éticos.
2. São as conquistas de reencarnações anteriores apresentando-se por meio da luz que existe em todos nós, apontando nobres e seguros caminhos.
3. Os antigos desafetos agora no plano etéreo têm também significativa participação em nossas decisões ao nos induzirem a esta e não àquela deliberação invariavelmente no caminho do mal.
4. Os Espíritos protetores sempre nos intuem em direção ao bem.
5. São as influências do meio em que se vive ditando normas e comportamentos.
6. Surgem os conselhos dos amigos, nem sempre ajuizados.
7. É a nossa limitada compreensão criando inúmeras e errôneas concepções sobre os objetivos da vida.
8. Temos também a educação recebida da família.

Ou seja, são variadas as forças motivadoras impelindo-nos a agir desta ou de outra forma.

Em função desta realidade, considerando tantos estímulos existentes, jamais deveremos julgar-nos com extrema severidade a ponto de aplicarmo-nos a pena de morte, destruindo o nosso “abnegado” corpo, valioso empréstimo divino, abreviando a nossa preciosa existência seja por qual ou quais motivos forem.

Alguns se punem auto aplicando-se a pena capital, acreditam que as suas inadvertidas condutas representaram pecados irremissíveis, em parte pelo desconhecimento de si mesmos, não admitindo nenhuma atenuante ao que fizeram, creem, por conta deste raciocínio equivocado, serem agora os últimos dos últimos, esquecendo-se de que não há privilegiados, tampouco renegados, da bondade e misericórdia de Deus.

Os infortúnios que nos atingem não passam de respostas amargas ao que fizemos e continuamos fazendo. Tudo ocorre dentro dos princípios imutáveis da Lei de Causa e Efeito, uma Lei justíssima e igualitária. É um princípio a ser exaustivamente estudado por todos para melhor compreensão das próprias jornadas e alguns porquês das particularidades da existência, norteando-nos sobre as estradas que deveremos tomar de modo a evitar sofrimentos desnecessários.

Em função de nossas ainda acanhadas percepções da realidade, supomos que há sofrimentos em demasia, agruras indevidas, dores injustas, problemas demais: Jamais!

O ordenamento divino segue invariavelmente na direção de nos capacitar para adquirirmos uma fortaleza moral e ética, através de provas, fortalecendo-nos e preparando-nos para melhor servir dentro das incontáveis tarefas existentes na mecânica do Universo.

Quando não observamos a propriedade das provas que devemos vivenciar e desviamo-nos de suas educativas lições, somos levados naturalmente à experiências desagradáveis, não previstas em nossas particulares jornadas e geradoras de futuras expiações.

Diante destas novas adversidades, jamais podemos imaginar que não poderemos atravessá-las, todas alcançarão um termo, nesta existência ou na próxima, sem exceção, extinguir-se-ão, tão mais rápido quanto for o nosso novo posicionamento diante da vida, não transgredindo mais os princípios divinos, buscando única e exclusivamente o bem, seja em que situação for.

E para nos ajudar neste intento, a mais adequada diretriz que devemos incorporar às nossas personalidades é o conhecimento de nós mesmos, conforme ensinou o sábio Sócrates.

A Doutrina Espírita, vários séculos após, sugeriu uma expressão-ação para adquirir este conhecimento, sendo sintetizada na conhecida Reforma Íntima. Em função desta proposta, vários autores e pensadores se dispuseram a escrever sobre o tema, em uma tentativa de nos motivar, bem como orientar a como realizar este importante e intransferível empreendimento aplicado a nós mesmos.

Entre outras, temos uma literatura dedicada à Reforma Íntima, orientada por Cairbar Schutel, representando um bom roteiro para ajudar na construção desta importante conquista.

Segundo a definição desta expressão-ação, na obra citada (1): Reforma Íntima é o renovar das esperanças interiores, tendo por meta o fortalecimento da fé, a solidificação do amor, a incessante busca do perdão, o cultivo dos sentimentos positivos e a finalização no aperfeiçoamento do ser. Ou por outra, também pode ser entendida como autoeducação, um tema rotineiramente discutido, contudo, realização de fato raramente alcançada.

Como já tivemos muitas existências, há uma imensidão de experiências consolidadas, encobertas pelo esquecimento do passado, aliadas aos muitos estímulos do presente, dirigindo-nos, sem que sequer percebamos.

Precisamos observar cuidadosamente as nossas tendências instintivas para vislumbrar o que já fomos, com esta compreensão, e com as novas propostas do presente, preparamos o nosso futuro, sendo este tão mais tranquilo e feliz quanto nos dispusermos a controlar agora o chamado “homem velho”, dando espaço em nossa existência atual para o florescer do “homem novo” que desejamos ser.

Caso não nos disponhamos a iniciar esta construção de nós mesmos, o processo de autoaperfeiçoamento, agindo pouco a pouco, dentro dos acertados princípios divinos, será de se esperar que, quando estivermos face a face com as muitas tribulações da existência, cogitemos em sair, se assim podemos nos expressar, pela porta dos fundos da vida, representada pelo suicídio, arrependendo-nos e surpreendendo-nos amargamente mais à frente.

Os depoimentos dos suicidas, são de decepção, desapontamento, amargura e profunda tristeza. Como gostariam de volver ao momento exato do ato desesperado para reavaliar e, quem sabe, dar mais uma chance à vida? Arrependidos, agora atestam a continuidade da vida, à qual tentaram desesperadamente escapar.

Ademais, alguns se deram conta de que o cenário que se desenhava na antiga caminhada, quando alucinados e desalentados atentaram contra a própria vida, não terminou como haviam imaginado. Finalmente entenderam haver soluções jamais cogitadas, reconhecendo agora, possuir Deus muitas formas de sustentar-nos.

Nas horas de extrema solidão, quando nos sentimos desamparados, esquecidos, desiludidos, tristonhos, aguardemos pacientemente o término natural das lições que a vida nos oferece, aprendamos a aceitar resignadamente estas preciosas lições, nem sempre por nós desejadas, contudo, absolutamente necessárias para o nosso crescimento espiritual.

Desta forma, enfatizamos: O suicídio nada resolve, ao contrário, tudo complica.
Confiemos incondicionalmente hoje e sempre em Deus!

 
Rogério Miguez
Fonte:
Agenda Espírita Brasil  
 
Referências Bibliográficas:

(1) GLASER, Abel. Reforma Íntima. Pelo Espírito Cairbar Schutel. 12. ed. Matão/SP; Casa Editora “O Clarim”, 2012. Introdução, item 1.

11 outubro 2020

Seja também porta-voz da Esperança - Orson Peter Carrara


SEJA TAMBÉM PORTA-VOZ DA ESPERANÇA

Todos fomos e continuamos sendo beneficiados pelo conhecimento espírita. De alguma forma ele chegou até nós, conduzindo-nos a ver a vida com olhos de compreensão sobre as realidades das lutas humanas.

Alguns nasceram espíritas, outros chegaram depois. Nem todos souberam avaliar a oportunidade desse contato, mas a lógica e grandeza do pensamento espírita conquista pela sua coerência e lucidez. Fundamentado na lógica e no discernimento que nos convida continuamente, abre o raciocínio para os propósitos da vida, com solidez e segurança.

Para perceber esse alcance, não podemos, todavia, ficar na superfície. O Espiritismo é muito mais que palestras, passes, atendimentos, contatos com espíritos ou atividades variadas que inspiram em seus adeptos. Seus fundamentos é que precisam ser conhecidos e refletidos para alcançarmos a dimensão de sua proposta que, aliás, está totalmente fundamentada no convite celeste trazido pelo Mestre da Humanidade. Isso pede estudo, pesquisa, debate, intercâmbio de ideias, participação e comprometimento com a causa.

O notável escritor Roque Jacintho em sua obra Vida Futura (editada em parceria IDE/Luz no lar), no capítulo 31 da 1ª. edição da citada parceria, com o título Posições, leva-nos a caminhar por esse terreno do conhecimento que chegou e nosso comportamento daí advindo.

Após os parágrafos iniciais, referindo-se ao momento tumultuado do planeta, afirma aquele autor: “(…) negar-se à disseminação da luz será fazer-se omisso no espraiar desse Sol dadivoso, contribuindo, então, para que se alongue a noite da mente humana, atravancando as engrenagens irreversíveis do progresso espiritual. (..)”.

E acentua para nosso sentimento: “(…) Recorde-se de que foram palavras, mensagens avulsas, livros preciosos, conversações edificantes, indicações singelas e exemplos vivos que, um dia, o conduziram às portas do Espiritismo consolador, miniaturizando as suas agruras, colocando no diminutivo seus sofrimentos. (…)”.

O conhecimento espírita nos dá plenas condições – incluindo o entusiasmo – de promover com perseverança a expansão da ideia espírita que distribui orientação e conforto às comuns e complexas aflições humanas. Todos podemos protagonizar ações em favor da sofrida coletividade que se debate em dúvidas e aflições.

Comecemos, fazendo-nos portadores da esperança, utilizando-nos sim da divulgação espírita, com critério e respeito pela crença e opções alheias, mas espalhando essa luz que tanto ajuda.

Como pondera o autor em referência: “(…) Se você foi assim beneficiado, através de incontáveis benfeitores encarnados, por que não ser o intermediário da Esperança aos que o buscam afogados pela angústia? (…)”.

O precioso capítulo – que se junta aos demais da notável obra – prossegue com as ponderações do autor. Nosso desejo é convidar o leitor para juntar-se a essa iniciativa de distribuir conhecimento e conforto, especialmente pelo esforço da vivência pessoal. E também de conhecer a incomparável obra que em seu todo, é um verdadeiro estimulador para a conquista de virtudes.

Autor: Orson Peter Carrara
Fonte: Porta do Espírito

10 outubro 2020

PaIsagem Mental - Joanna de Ângelis


PAISAGEM MENTAL


Inscrevem-se em todas as mentes, pensamentos, palavras e atos.

As paisagens mentais de cada ser humano resultam das suas reflexões, assim como dos seus interesses. Tudo aquilo que o atrai, impregna a mente, passando a fazer parte do seu patrimônio, que será utilizado oportunamente, quando as circunstâncias assim o impuserem.

A vida mental é, pois, o somatório das construções psíquicas que permanecem dando lugar às realizações e atividades do ser no seu processo de evolução. Em consequência, cada ser reside no local psíquico onde deposita as suas ideias.

São elas o natural resultado dos hábitos mantidos durante a vilegiatura orgânica.

Todo pensamento que passa pelos registros mentais deixa traços de alto significado que, pela sucessão da ocorrência, transforma-se em cultivo para a reprodução oportuna, pelo automatismo dos equipamentos eletrônicos que constituem os chips de registro de tudo que ocorre. Portanto, tal vida conforme os ajustamentos mentais.

Jesus afirmou com muita beleza: Onde estiver o vosso tesouro aí estará também o vosso coração. (Mateus, 6:21)

Equivale dizer: onde estiverem as tuas ideias, estará a tua realidade, o ser que és.

O Seu Evangelho, em sua proposta de terapia preventiva aos males da existência física, oferece a ensementação operosa, gentil e produtora de frutos nutrientes.

Em todos os momentos suas páginas registam as ocorrências edificantes: mesmo quando os primeiros registos apresentem algo de mau, a sua diretriz demonstrará o resultado equivalente aos seus conteúdos.

Não estranhes, pois, o pessimismo, o pânico e a insegurança quando fores defrontado com os testes do movimento da existência humana planificada para vivência da plenitude naqueles indivíduos de mente desabituada a reflexões positivas e a fixações primorosas, que serão as primeiras reações à manifestações do dia a dia.

Expulse-se da mente o hábito do mau julgamento, em particular quando chamam a atenção às más qualidades. Há razões que escapam ao observador apressado que tomam cada pessoa específica ou especial.

Compreendamos que existe em todos os seres humanos a outra face, isto é, o outro lado, talvez, sombrio, como num espelho.

A realidade é que ninguém se sente feliz por inspirar antipatia ou desagrado. E, se por acaso demonstra que sim, está oculto um conflito perverso que desarticula o seu possuidor.

Elege os melhores pensamentos, mesmo quando a situação for extremamente perigosa e negativa.

Vive-se num Universo de leis inalteráveis que funcionam por automatismos inflexíveis.

Se pensas bem, num momento mau, tornas o clima mental menos denso, portanto, favorável a um resultado inesperado.

Esforça-te por ser gentil com todos, pois que a gentileza, como afirma o brocardo popular, gera gentileza.

Conserva a ideia da vitória em circunstâncias aziagas, porque, mesmo quando o resultado não é positivo, o aprendizado é de alto coturno.

O pântano ignora a podridão que exala.

O matagal não sabe os prejuízos que produz...

A peste ignora as vidas que arrebata.

Desse modo, drena as águas paradas e dá-lhes movimento, capina a erva má e retira a mata que agasalha ofídios e aracnídeos perigosos e transforma o terreno em formoso jardim.

Precata-te da pestilência e a saúde triunfará em teu organismo.

A vida é um convite intérmino à ação edificante.

Cuida do teu jardim mental.

As boas conversações são os maravilhosos instrumentos da edificação do Bem.

As palavras carregam as vibrações do tônus que as envolvem. Nem sempre é o som do verbo, mas a emissão do seu conteúdo moral que tem significado.

Como não podes viver sem pensar, habitua-te a reflexionar nas belezas da vida: o desabrochar de uma flor, o gotejar da água, o leve perfume da brisa que beija o roseiral, as coisas simples da Natureza...

As questões complexas exigem mentes que sabem elaborar esquemas e equacionar enigmas.

Sê simples e acaricia tudo que é delicado e desconsiderado.

Sorri ante um amanhecer irizado da luz do Sul ou o poente em fogo do entardecer.

Olha a vegetação numa greta de pedra onde caiu um pólen, manifestando o poder da vida.

Detém-te e examina um grão de areia que reflete a luz, um pirilampo que brilha no escuro, e descobrirás a maravilha da vida em mil manifestações surpreendentes que fascinam.

Pensa em Deus, analisando a Sua obra e deslumbrando-te com um colibri no ar ou uma borboleta leve e também flutuante, bailando ao vento brando, ou uma laboriosa abelha, produzindo mel e fecundando a Natureza sem o saber.

Considera que a tua mente é um jardim portador de belezas inimagináveis. Seleciona o que nele irás plantar, com a certeza, porém, de que colherás conforme a semente que lhe entregares aos cuidados.

Jesus foi peremptório, afirmando que: (...) A cada um segundo as suas obras. (Mateus, 16:27)

Normalmente o momento da desencarnação libera a memória que evoca toda a existência, especialmente aquilo que mais se fixou na mente através da repetição.

Essas fixações são os pensamentos comezinhos, constantes, viciosos.

Desse modo, vive de maneira que, ao desencarnar, a tua memória te abençoe com o jardim de pensamentos elevados, a fim de poderes seguir feliz desde esse momento.

Pelo Espírito de Joanna de Ângelis
Psicografia de Divaldo Pereira Franco, em 16 de junho de 2020, na Mansão do Caminho, em Salvador, Bahia.

09 outubro 2020

Em torno da sexualidade - Jorge Hessen


EM TORNO DA SEXUALIDADE


A arremetida teórica sobre a sexualidade humana é profundamente complexa. A aberração da prática sexual, quando somente visa a satisfação egoística , imediata e desvairada, cede lugar a patologias graves que rebaixam o ser humano. Há espíritos que ainda não conseguiram superar as viciações sexuais que trazem do passado e que entorpecem a consciência. Há casos obsessivos gravíssimos, conquanto incomum, em que a mulher insaciável coaja (“estupre”) o homem na área sexual.

Perante as leis humanas e de civilidade é preciso manter a observância às normas e regras, que nos diferem dos seres irracionais. Ora, do ponto de vista biológico, a sexualidade é uma sublime seiva para manter a vida em padrões de estabilização e de encanto, proporcionando, quando o seu uso é ético e equilibrado, contentamento e completude nos relacionamentos. Somos impregnados desse potencial sexual e convocados a aprender a discipliná-lo.

A sexualidade não pode ser avaliada sob o prisma dos que a consideram impura e proibitiva, muito menos sob as impressões dos que anseiam algemá-la ao plano da banalidade como simples fricção de células causadoras de clímax orgástico. A sexualidade humana é de procedência divina e sua possante energia, que alastra naturalmente no ser, não deve ser tratada de forma insana, todavia urge ser disciplinada no sentido de atingir seu desígnio, como força fecunda e criadora, a fim de produzir o avanço espiritual do homem.

Quando um casal se ama, os parceiros se apetecem e se reverenciam. A vida e experiência sexual entre ambos é respeitosa e prazerosa. O amor entre os dois não está condicionado apenas à sexualidade, todavia vai muito mais além, incluindo amizade, companheirismo e cuidado pela satisfação de suas necessidades. Quando, porém, isso não ocorre e há a necessidade compulsiva de sexo de um ou ambos companheiros, esse casal não está em harmonia; encontra-se psicologicamente corrompido e não é feliz.

Naturalmente precisamos exercer a indulgência para com aqueles que são servos da sexolatria, compreendendo que cada ser é um ente divino em suas potencialidades de amor que eclodirão no futuro, até porque esses atrasos morais são particularidades do estágio de expiação e provas do homem terreno.

É urgente orar e orientar aqueles que nos solicitam auxílio, demostrando as implicações infelizes do sexo em desatino e conforme nos advertem os Benfeitores do além, diante de toda e qualquer desarmonia do mundo afetivo, seja com quem for e como for, coloquemo-nos, em pensamento, no lugar dos desajustados, analisando as nossas tendências mais íntimas e, após verificarmos se estamos em condições de censurar alguém, escutemos no âmago da consciência, o apelo inolvidável do Cristo: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.


Jorge Hessen
Fonte:
A Luz na Mente


08 outubro 2020

O estupro da menina de 10 anos e o aborto assistido - Ery Lopes

 


O ESTUPRO DA MENINA DE 10 ANOS E O ABORTO ASSISTIDO

Conforme prometido, voltamos a falar sobre o caso polêmico que agitou o cenário midiático nacional em agosto deste 2020, envolvendo um processo de aborto assistido cuja grávida era uma menina de 10 anos que, segundo a apuração das autoridades, era vítima de abuso sexual já há pelo menos três anos, sendo o estuprador o próprio tio da menina, que aliás acabou preso (ver aqui o post anterior). A polêmica se deu exatamente em torno da discussão sobre a legitimidade ou não de se operar aí o aborto, que no caso foi efetivado em um hospital da rede pública do Estado de Pernambuco. Segundo o portal de notícias G1, "A menina precisou ir ao Recife para interromper a gravidez porque, no estado de origem [Espírito Santo], os médicos do hospital em que ela foi atendida afirmaram que não tinham capacidade técnica para fazer o procedimento." (ver reportagem).

A complicada ocorrência, que envolve dois elementos gravíssimos: estupro de vulnerável e aborto, muito lamentável inclusive, bem poderia ser peça de um debate aproveitável entre especialistas e autoridades no sentido de daí se extrair medidas práticas para evitar situações semelhantes, que toca essencialmente no âmbito da educação, mas sem ideologismos. Aconteceu, no entanto, que partidos diversos tomaram o drama emprestado como pano de fundo para ativismos irracionais e fanatizados, trazendo-o ora para o viés político, ora para o viés religioso, só que no mais baixo nível de Política e Religião – matérias honoráveis e não merecem tais comportamentos.

O primeiro post publicado aqui sobre este caso (ver aqui) também suscitou muitas críticas, embora, felizmente, bem mais sensatas do que as argumentações gerais que circulavam por aí, por exemplo, nas redes sociais. Diante disso, e como era previsível, preparamo-nos para melhores aprofundamentos das questões envolvidas, exatamente como foi prometido naquele post. Ei-las, sem a pretensão de fechar o caso e estabelecer a "verdade absoluta" e a "justa sentença", pois que estas escapas da esfera humana; apenas oferecemos nossas reflexões, para que se juntem às reflexões de todos e daí cada qual possa tirar suas conclusões. Norteamos nossas reflexões de acordo com nosso entendimento espírita, sem, contudo, pretendermos falar pelo Espiritismo, que também é de esfera superior.


Estupro de vulnerável

Se o atentado de violência por motivação sexual já é algo nojento demais, ainda mais grave se configura em se tratando de uma vítima nas condições observadas pela lei como "vulneráveis", figurado na Lei Federal 12.015 de agosto de 2009, do Código Penal Brasileiro (ver texto oficial), sendo no caso em questão flagrante, dado a vítima ter tão somente 10 anos de idade.

A propósito, a "preocupação" com a aplicação do aborto nesse episódio acabou ofuscando e muito o ato criminoso de que o drama resultou; na verdade, como o processo de justiça no nosso país é bastante falho em todos os sentidos, acaba que um ato abominável como esse passa quase desapercebido, banalizado, tal fosse uma contravenção comum, enquanto cada ato de estupro deveria ser severamente apurado e motivasse uma reação enérgica da sociedade na direção de erradicar – ou pelo menos minimizar – essa mal absurdo do nosso meio.

A persistência desse tipo de violência só demonstra o quão primitiva e materializada é a cultura geral de nossa gente; cultura essa que só pode ser combatida pela espiritualização do nosso povo, ou seja, pela fomentação da consciência dos valores espirituais, como a moral, a valorização da vida, a fraternidade, o bom uso das potencialidades do afeto e da sexualidade, etc. É preciso então despertar as pessoas do hipnotismo em que se vive, pela ilusão da matéria, do exagero dos gozos carnais, da libertinagem generalizada.

Tal tarefa não é fácil, certamente, mas é precisamente a meta da Doutrina Espírita: quebrar essa cultura materialista, da ilusão da vida material, tirar as pessoas da caverna – como diria Platão. E cabe a nós, espíritas, mais do que qualquer outros, porque temos recebido a mensagem espiritual esclarecedora e estimuladora. Se, passados 150 anos da Revelação Espírita, ainda o mundo é bastante materializado em sua cultura, vejamos se não estamos sendo omissos ou fracos demais; vejamos se não poderíamos fazer mais do que fazemos para mudar essa realidade perversa; vejamos se também nós não estamos sendo passivos demais ou até coniventes com as apelações sexuais via música, filmes e séries que consumimos. A cultura geral não inocenta os criminosos estupradores, mas alimenta a sua banalização. É muito provável que não estaríamos sujeitos ao estupro e a outras abominações se desses males estivéssemos totalmente depurados, pois, do contrário, poderíamos culpar a Deus pelos nossos sofrimentos.


Legitimidade ou não do aborto


Sendo ponto mais ou menos pacífico que o abuso sexual do referido caso deva ser tratado com rigor (e, de fato, a polícia foi diligente o bastante para prender o dito responsável), passemos a refletir sobre a questão do aborto dentro do referido episódio.

Mas atenção: a coisa é complexa, não tem respostas simples, e exige certo esforço racional e controle emocional para encarar as reflexões. Rogamos que o leitor conserve essa advertência.

Primeiramente, vamos recobrar o postulado espírita sobre tal prática. Segundo a codificação kardequiana, a instrução dos Espíritos superiores é a de que o aborto só pode ser considerado legítimo conforme a Lei Natural instituída por Deus quando – e somente quando – a sobrevivência física da mãe está em risco (o que é legalmente amparado pelo nosso Código Penal, Lei n° 2.848, de 7 de dezembro de 1940). Isto está em sintonia com o princípio fundamental do primeiro dos direitos humanos: a vida, pelo que, "ninguém tem o de atentar contra a vida de seu semelhante, nem de fazer o que quer que possa comprometer-lhe a existência corporal" (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec - questão 880). E no caso, a vida começa na concepção, quando os laços perispirituais do Espírito reencarnante começa a se ligar ao embrião. Estabelecida a gravidez, pode-se dizer que aí começa a reencarnação. O problema, no entanto, é que, para o entendimento comum da legislação humana, o indivíduo só existe após o parto: o cidadão só se constitui após nascer.

Mas, veja-se que as instruções espirituais são postas como normas gerais, portanto, considerando a generalidade das situações. Contudo, não se poderia admitir particularidades outras que escapem a essas regras gerais? Verifiquemos...

O fato é que a protagonista do episódio evidenciado estava grávida, quer dizer, já trazia em seu ventre um embrião, um projeto orgânico de um corpo humano. Logo, a violação fatal - acidental ou provocado - desse organismo definitivamente caracterizaria o aborto físico; nos moldes da biologia, ali havia um ser vivo individualizado que então morreria.


Todavia, o aborto físico implica diretamente num aborto espiritual?

Noutras palavras: toda gravidez (dizemos da estrutura física) contém necessariamente um processo de reencarnação? Ou, ainda, todo embrião está diretamente ligado a um Espírito reencarnante?

Não. Por isso, não se pode dizer que todo aborto físico corresponde a um aborto espiritual. De acordo com a codificação espírita, há casos de gestação para cujo corpo em formação não está designado nenhum Espírito, havendo aí somente a "máquina orgânica", um órgão físico que obviamente resultará um natimorto, porque a vida está no Espírito e não no corpo físico (ver O Livro dos Espíritos, questões 356 e as duas seguintes). Daí pode-se indagar: qual o propósito dessa fecundação? E a resposta pode ser a mesma para os casos de aborto natural e acidental: provação e expiação para os envolvidos. Em todas essas adversidades há que se compreender as lições necessárias para a nossa evolução espiritual. Com isso, em se sabendo da impossibilidade de o corpo nascer, poder-se-ia considerar salutar interromper essa gravidez. Mas, que tem ciência para tanto?

Detalhe: pode ocorrer ainda de o próprio reencarnante provocar o aborto, dado que "(...) os laços que o prendem ao corpo são ainda muito fracos, rompem-se facilmente e podem se quebrar por vontade do Espírito, se este recua diante da prova que escolheu. Porém, em tal caso a criança não nasce." (O Livro dos Espíritos - questão 345). Nesse caso, seria uma espécie de suicídio, cuja responsabilidade fica a cargo do Espírito.

Em todo o caso, preservemos então o entendimento que a gravidez daquela menina era passível de conter ali um Espírito reencarnante, um cidadão em potencial e a intervenção nesse processo implica na admissão de um aborto ilegal aos olhos das leis espirituais, salvo uma justificativa plausível.

Esta justificativa poderia ser o que os mentores da codificação do Espiritismo apontam na instrução geral: o risco da sobrevivência física da mãe. Neste caso, a equipe médica especializada poderia avaliar, especialmente considerando as condições de uma menina de só 10 anos de idade. E diante de um tal parecer profissional, isento de contestação profissional, só caberia a todos os juízes e comentaristas aceitarem. Porém, o fato é que, pelo que sabemos, tal parecer não foi emitido.

A gravidez de crianças é extremamente arriscada para a sobrevivência da mãe, especialistas apontam (ver BBC News), como parece óbvio. Mas, ainda assim, seria o caso de se dizer que todas as gestações de meninas de 10 anos de idade devam ser abortadas com base nessa justificativa? Pensamos que não, pois, concretamente falando, sabe-se de muitos partos bem sucedidos de crianças com idades até inferiores; há um caso registrado de uma criança de 5 anos que deu a luz a um bebê, e ambos cresceram saudáveis (ver no R7). Além disso, certos especialistas afirmam que o processo de aborto pode ser ainda mais perigoso que a própria gravidez precoce.

Mas a justificativa mais recorrente para os ativistas pró-abortistas no caso da nossa menina capixaba não era esse, de risco físico para a mãe, mas sim o da "integridade psicológica", visto que, segundo eles, a continuação da gestação seria "extremamente danosa" para a saúde mental da menina. Será?...

Em nossa humilde opinião, consideramos que o dano maior já estava concretizado: a violência sexual sofrida pela menina, um dano irreversível, inapagável para a biografia dos envolvidos. Desta maneira, no que o processo desse aborto poderia contribuir? Vamos analisar...

Felizmente, a operação foi concluída sem maiores danos físicos para a menina; ou seja, pelo que foi noticiado, a ela resistiu bem ao procedimento e estava sendo preparada para receber alta e retornar ao seu Estado de origem. Mas então, o que mudará na vida dela doravante? Ela esquecerá a violência sofrida pelo tio? Esquecerá que um dia foi paciente de um processo de aborto e pretexto para as discursões de extremistas e comentaristas ativistas de correntes ideológicas diversas? Efetivamente, no que esse aborto pode ter servido para ela?

Para ponderarmos sobre essas questões, devemos levar em conta não apenas os desdobramentos da vida física, mas também as consequências vistas sob o ponto de vista espiritual - que, obviamente, quem não tem o conhecimento espírita sobre as leis espirituais será incapaz de assimilar. Por isso, é justo que eles indaguem, com braveza: "por que Deus permitiu que essa inocente fosse violentada e dessa barbárie fecundasse um projeto de vida?"

Os espíritas mais conscientes sabem da nossa necessidade de evoluir, para o que as diversas existências terrenas são absolutamente necessárias a fim de adquirirmos a experiência de vida, também a fim de pormos à prova nossas aquisições e assim fortalecer as virtudes, bem como ensejos de ajustes reencarnatórios, ditos expiações das faltas cometidas. Mediante isso, estar na Terra nas condições do nosso progresso atual significa nos sujeitarmos às mais diversas ocorrências - inclusive o do estupro. Em suma, seja por prova, expiação ou missão (oportunidade de enfrentar um desafio para servir de bom exemplo para os semelhantes), qualquer um de nós na Terra está sob o risco de ser, pessoalmente ou ter alguém muito próximo, "vítima" de uma violência dessa natureza. A partir daí, cabe o exercício de cada qual se colocar no lugar daquela menina de 10 anos, ou no lugar da sua avó, que foi quem teve que tomar a decisão de abortar a gravidez, igualmente sopesando as circunstâncias dessa vida carnal atual frente as circunstâncias espirituais futuras, porque nem sempre o que se apresenta ser conveniente agora se verifica a melhor escolha.

Se é para pensarmos na saúde mental da menina capixaba, teremos que pensar qual o impacto psicológico que ele poderá sentir, ainda nesta encarnação, se lhe vier à consciência que ela interrompeu o advento neste mundo de uma alma? Tal remorso, sem data de validade, não lhe poderá ser muito mais nocivo do que o sacrifício de completar a gestação e, quem sabe, doar o bebê para alguém criá-lo (procedimento legalmente estabelecido)? Claro, não foi ela quem tomou essa decisão, mas sua avó. Mas ela também terá condições psicológicas para distinguir isso?

Afinal, qual teria sido a programação reencarnatória dessa menina? Dessa avó, que assumiu a responsabilidade da decisão? A decisão tomada, levando em conta os interesses imediatos, estará ajustada com as pretensões traçadas?

Ignoramos. Porém, se antes havia um drama no caso: o atentado sexual, hoje há dois: aquele e a decisão do aborto.

As lições que ficam

Usamos o caso para daí tirar reflexões, mas é bom não nos determos no exemplo particular, senão para vibrarmos positivamente para todos os envolvidos, sem julgamentos condenatórios.

Por outro lado, sabemos que o caso foi amplamente explorado pelas ideologias, dentre as quais uma verdadeira indústria interessada na legalização do aborto e, pior, com o patrocínio do Estado. Essa indústria não tem os olhos voltados para a problemática envolvendo as pessoas, mas os interesses comerciais dessa prática. Donde todos nós temos que estar atentos às artimanhas para justificar essa campanha. É patente que uma sociedade que esforça-se para erradicar o aborto, o suicídio, a eutanásia, o estupro e a violência, esta caminha para o progresso e a prosperidade, ao passo que aquela que ignora, negligencia ou até facilita tais práticas, esta fica mais distante do bem comum.

O que queremos dizer, finalmente, é que não devemos nos prender nas ocorrências particulares, de que nosso entendimento é mínimo em face de tantos detalhes que não estão ao nosso alcance, mas no exame aprofundado das questões inerentes a esses dramas. Ao invés de ficarmos opinando sobre ocorrências e julgamentos de determinadas pessoas, devemos cuidar de estudar os princípios e, feitas as conclusões, efetivamente contribuir para uma melhor conduta geral, para erradicarmos da nossa sociedade os males como a ilusão da matéria, a violência e a exploração da sexualidade, semeando as virtudes espirituais.

Esta a finalidade da Revelação Espírita.
 

Ery Lopes

07 outubro 2020

É Possível Comprar o Céu? – Sidney Fernandes


É POSSÍVEL COMPRAR O CÉU?


Podemos negociar com a divindade? O futuro além desta vida depende de fatores materiais? E o mérito, como fica?

É muito conhecida a reação do indivíduo que, deitado numa rede, ao sentir repentina vontade de trabalhar, ficou bem quietinho, até a vontade passar. Se fôssemos eleger um hino à indolência, talvez essa fosse a imagem perfeita para caracterizar o ânimo do preguiçoso.

Interessante observar o comportamento de determinadas pessoas, que agem e pensam de acordo com esse hino e depois se ressentem de suas precárias condições de vida. Costumam chamar de sorte o sucesso do esforçado e dedicado.

A questão do mérito é abordada pela sociedade humana, desde que foi constituída. Existem os que, cedo, constatam que sem ele não há como sobreviver. Batalham, esforçam-se e fazem por merecer vida digna. Há, no entanto, os que se consideram espertos e querem os mesmos direitos dos que trabalham, fazendo nada.

Estes, em todos os setores de relação humana, procuram atalhos com o intuito de ludibriar a natureza e os pares da sociedade em que vivem. Vão mais longe. No campo da religião, por exemplo, alimentam a absurda pretensão de enganar o criador, transgredir suas leis e ainda se sair bem, quando partem desta para outra vida.

Como ainda estamos longe da perfeição, semelhantes intenções malignas, tão comuns e corriqueiras em nosso mundo, representariam monstruosas exceções em planetas mais adiantados. Tais quais, por exemplo, as vendas de indulgências por pessoas inescrupulosas e destituídas de princípios religiosos autênticos.

Martinho Lutero, monge alemão, revoltou-se e deflagrou a reforma protestante em 1517, assim como os reformistas John Wycliffe, João Huss e Jerônimo de Praga, que também se insurgiram contra os excessos, a cobiça e a vilania dos equivocados, que pretendiam conspurcar o poder religioso da época.

O auge dos escândalos das indulgências ocorreu no século XVI, com o lançamento de uma política aberta de venda de certificados absolvitórios capazes de extinguir qualquer pecado.

Surpreendi-me, caro leitor, ao encontrar uma pintura datada de 1530, denominada A venda de indulgências, de Augsburg.

Embora saibamos dos desmandos do passado, em que os mais elementares princípios de justiça, perante os homens e perante as leis divinas, hajam sido conspurcados pelo egoísmo humano, as verdades, quando são apresentadas cruamente, ainda causam perplexidade. Um balcão de negócios, tendo, de um lado, dois comerciantes: um recolhendo o dinheiro — que se poderia chamar de vendedor —, e o outro, fornecendo o documento de quitação dos pecados. À frente, longa fila de pecadores, cristãos não praticantes da fé, interessados em diminuir ou extinguir penas previstas para os erros cometidos.

As indulgências eram verdadeiros passaportes para o céu. Eram vendidas a céu aberto, por sacerdotes, profissionais, mascates, chamados de perdoadores(quaestores), portadores de cartas que teriam o condão de extinguir qualquer tipo de pecado. Não existia crime, nem o mais cruel, que não pudesse ser remido, mediante o pagamento de vasta soma de dinheiro.


Tornou-se popular a expressão que libertava as pessoas das penas eternas:

No momento em que uma moeda tilinta no fundo do gazofilácio, uma alma escapa do purgatório.


Cristãos autênticos, que se esforçavam para se manter distantes do pecado, ficavam desconcertados com a subversão de interesses, ao presenciar o comércio clandestino de uma mercadoria denominada excedentes de mérito.

Acreditava-se que essa matéria-prima se originava de Jesus, de Maria e de muitos outros santos, e era comercializada por aqueles que se consideravam seus depositários, os detentores dos poderes eclesiásticos.

No meu livro Luzes em Paris, cito João Huss, John Wycliffe e Jerônimo de Praga, esses importantes reformistas que se insurgiram contra a ambição e a ganância dos que deveriam dar o exemplo de dignidade e não representavam com fidelidade os postulados da Igreja Romana.


***

A princípio, as indulgências tinham objetivo nobre. Religiosos bem-intencionados, sensibilizados pela sincera intenção de pecadores arrependidos que queriam se redimir de seus erros, davam-lhes nova oportunidade de atenuarem suas faltas, por intermédio de doações, encaminhadas a hospitais, asilos, orfanatos, pobres miseráveis e viúvas desamparadas. Com efeito, baseavam-se na frase de Pedro: o amor cobrirá a multidão de pecados, contida em sua primeira epístola, para tentar efetivamente ajudar os crentes.


Com o tempo, cresceu o olho dos religiosos, diante dos altos valores que circulavam por suas mãos e que passaram a guardar para a igreja e para si próprios.


***

É possível comprar o céu?

Pecadores e pretensos religiosos do passado pensavam que sim. Infelizmente, muita gente ainda hoje acha que pode comercializar com a divindade. Contratos de fé, vassouras ungidas, terreno no céu, contrato de compra com Deus, autenticado com o sangue do cordeiro na forma de uma cruz… Estes são alguns tristes exemplos encontrados em rápida busca pela internet, atestando que nos tempos atuais ainda existe muita gente procurando atalhos para o céu.

Os que defendem esse tipo de prática argumentam que no livro Atos, 16:30-31, há a seguinte promessa:

— Que é necessário que eu faça para me salvar?

— Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.

Nesse caso, segundo eles, bastaria ter fé e os objetos ou documentos vendidos aos fiéis seriam suficientes para salvar a alma dos pecadores.

Esquecem-se de uma outra passagem, contida na epístola de Tiago, 2:17:

— Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma.


Na Doutrina Espírita não se encontra a salvação com contratos ou terrenos no céu. Dizem a lógica e também a sociedade humana, esta desde que tomou consciência do mérito, que todo e qualquer objetivo somente poderá ser alcançado se houver esforço, dedicação e muito trabalho. Não há atalhos ou quebra-galhos. Tudo, para ser alcançado, exige o preço a ser pago.

Jesus salva — segundo a Doutrina Espírita — quando superamos a preguiça, quando abraçamos o trabalho e a determinação para superar nossos defeitos e desenvolver a nossa transformação interior.

O autêntico espírita aceita Jesus e a sua salvação, mas sabe que precisará batalhar, merecer, amar e praticar a caridade. Ninguém — nem mesmo o mais injusto dos homens — premia quem não merece. Assim também é a vida, sob o olhar de Deus. Somente se salva quem tem o mérito do esforço.

***

A qual grupo você pertence?

Ao time da indolência? Dos espertos? Daqueles que ainda estão querendo comprar indulgências ou pretensos salvo-condutos? Ou ainda está atrás de uma chave mágica que proporcione o sucesso e a salvação? Ou do atalho para o céu?

Nesse caso, estas palavras não lhe servem e muito menos todo o manancial do Cristo e da Doutrina Espírita à disposição. Infelizmente você ainda está arriscado a cair em mãos inescrupulosas e estelionatárias, que lhe prometerão o céu em troca de alguns trocados e lhe provocarão decepção ao descobrir que foi enganado, ao conhecer a vida verdadeira.

Mas, se você, caro leitor, está disposto a suar, trabalhar, estudar, concentrar suas forças e energias para se tornar melhor… Se você está disposto a promover a sua transformação moral e a minimizar suas más tendências… E toda noite faz sua reflexão para identificar erros cometidos durante o dia a fim de evitá-los, no dia seguinte…

Então você já pode se considerar um espírito a caminho do bem, à procura do verdadeiro mérito, que lhe abrirá ainda mais as portas desta existência e da espiritualidade maior.

Sidney Fernandes
Fonte: Kardec Rio Preto

06 outubro 2020

Autoperdão e obsessão - Rogério Miguez

 
 
AUTOPERDÃO E OBSESSÃO

O emprego do autoperdão vem recebendo viva atenção nos meios espíritas: em palestras nos centros, transmissões ao vivo, as quais são disponibilizadas na WEB, artigos, entrevistas, ou seja, nos mais variados meios de divulgação e comunicação.

Tema realmente oportuno e relevante, com eficazes resultados para os seus reais utilizadores, pois pode proporcionar, quando pertinente, o reencontro com a paz interior, momentaneamente perdida pelo cometimento de graves atos e condutas perpetrados pelo infrator, distanciados do correto ordenamento divino.

Entretanto, é imperioso esclarecer que no desenrolar da existência, não há receitas mágicas, tudo desenvolve-se através do merecimento e do aproveitamento das lições oferecidas pela vida, traduzidas pelo resultado das boas obras efetivamente realizadas, ou seja: não há a lei do menor esforço.

Sem perceberem ter o emprego do autoperdão alcance e efeitos muito bem delineados, alguns iludem-se acreditando em poder, pelo uso continuado deste recurso, escapar das inevitáveis consequências de suas obras levianas, às vezes mesmo, maldosas.

Uma das possíveis formas de, infelizmente, autoenganar-se, alguns por desconhecimento, outros às vezes mesmo tentando subtrair-se das implicações de anteriores atitudes cometidas irrefletidamente, o indivíduo autoperdoa-se, na expectativa de poder iniciar nova caminhada livre do sentimento de culpa, sem nenhuma necessidade de expiar e reparar o mal realizado.

O autoperdão é uma ferramenta a ser utilizada em casos contundentes, onde o descumpridor dos eternos princípios divinos, se vê acuado diante de sua conduta, não encontra respaldo e apoio junto a seus amigos e familiares, e, diante de uma pressão interna cada vez maior, o autoperdão apresenta-se como uma válvula de alívio da insuportável pressão interna, permitindo ao que sofre as consequências do remorso e arrependimento profundos, reorganizar-se, tendo condições de retomar sua marcha evolutiva.

Eventualmente, o conflito interno experienciado pelo transgressor pode ser acentuado pela atuação incisiva de um Espírito ainda desorientado – o chamado obsessor - que, por razões diversas, ligou-se mentalmente ao transgressor da lei e, através de continuadas más sugestões especificamente direcionadas à questão em foco, martiriza ainda mais a vítima, fazendo crer que o delito foi gravíssimo, não havendo desculpa para o feito, em suma: o agressor cometeu uma falta irremissível.

Nesta situação, poder-se-ia argumentar que o autoperdão seria a solução ideal, liberando o obsidiado desta incômoda situação.

É fato que o autoperdão sincero, por parte daquele que se considera pecador, o ajuda muitíssimo a conviver com as consequências da ação indevida. Entretanto, se o vínculo obsessivo se estabeleceu por conta de uma prejudicial conduta direta ao Espírito desencarnado, por exemplo, a prática de um abortamento, o futuro reencarnante que se viu impedido de voltar ao mundo material poderá, se assim o decidir, iniciar um processo obsessivo, tentando vingar-se. Neste caso, apenas o autoperdão terá pouca ou nenhuma serventia para interromper o assédio do obsessor.

O único caminho com o poder de aliviar a vítima de seu algoz, nesta particular situação, seria a mudança de atitude do infrator, neste caso a mãe que, em geral, já havia prometido previamente, antes de reencarnar, receber aquele particular Espírito para uma jornada em nova existência familiar.

E qual seria a conduta adequada em um caso como o descrito, além de autoperdoar-se? Certamente a mãe poderia voltar-se a atividades envolvendo crianças sem pais, um orfanato, por exemplo, dedicando-se a cuidar de filhos alheios.

Outra opção seria assumir a manutenção material de uma criança abandonada em uma ONG dedicada a este tipo de atividade, suportando as despesas materiais que este órfão necessita para viver sob a tutela desta organização filantrópica. Não há necessidade em absoluto de levar a criança escolhida para a própria residência, pois muitas mães nem podem (possuem jornadas de trabalho extensas), é suficiente o compromisso de cuidar do filho alheio, com dedicação e responsabilidade.

Em nosso país é difundida a prática da contratação de serviços domésticos ajudando no funcionamento de um lar. Em muitos casos, esta pessoa que nos ajuda, a chamada diarista, possui filhos. Por qual razão não “adotar” estas crianças, caso os contratantes possuam recursos suficientes, provendo material escolar, brinquedos, vestimentas, ou mesmo algum apoio na alimentação destes filhos alheios?

O obsessor precisa observar um comportamento altruísta da mãe em relação ao próximo; isto é que o motiva a desfazer o laço obsessivo.

Entres tantas obras espíritas orientando neste sentido, podemos recordar literatura do século passado, onde se lê uma orientação geral para desanuviar as mentes culpadas: (1)

“Para desobstruir o caminho de nossa consciência culpada, devemos favorecer a libertação dos que suportam fardos mais pesados que os nossos, porque ajudando aos nossos semelhantes angariaremos o auxílio deles, fazendo-nos, ao mesmo tempo, credores do amparo daqueles Irmãos Maiores que nos estendem próvidos braços da Vida Superior”.

Em um caso de abortamento, quando a mãe desconhece as graves implicações desta conduta, a situação pode ser plenamente contornada por uma nova gravidez, quando, às vezes, o próprio Espírito não aceito no passado, pode apresentar-se mais uma vez para um novo tentame reencarnatório.

Este exemplo pode se estender a outras situações onde o transgressor da lei divina, por meio de uma simples atitude de autoperdoar-se, não logrará sucesso em acalmar-se internamente, e precisará agir de acordo com o delito perpetrado, reparando o mal realizado, e, certamente, a misericórdia de Deus sempre ajudará neste intento.

Rogério Miguez


Referência:

(1) XAVIER, Francisco C. Instruções psicofônicas. Espíritos Diversos. 2. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1955. cap. XII. Ante a reencarnação.

04 outubro 2020

Prolongando o Sofrimento - Nilton Moreira


PROLONGANDO O SOFRIMENTO

É normal sem querer, prolongarmos o sofrimento do doente que está agonizando, pois ao vermos a piora dele passamos a lastimar veemente a separação que se aproxima, chorando, nos desesperando, rogando a Deus que não o leve, pedindo ao médico que se empenhe em salvá-lo, fazendo correntes de pensamento pela cura, e isto faz com que forneçamos ao natural um pouco de nossa energia para o moribundo. É semelhante a termos uma pilha fraca e colocarmos uma nova junto desta para ligar uma lanterna, que no caso a lanterna significa o organismo da pessoa, havendo, portanto uma diferença de potencial, e a pilha que estava fraca recebe uma injeção ficando com a carga equilibrada com a que fora colocada nova, e o espírito/alma que está prestes a abandonar o corpo material permanece ainda mais um pouco em razão desse tônus fornecido pelos familiares e amigos que se acercam ou sintonizam mentalmente com o doente.

Mas os benfeitores espirituais quando notam que chegou mesmo o momento de tal pessoa que está agonizante se ir, adicionam uma determinada quantidade de tônus vital nela, possibilitando assim uma reação momentânea. Com isso, os familiares notando a melhora resolvem se afastar do local, o que possibilita que logo a seguir seja pelos mentores cortado o elo que ligava o corpo material ao espiritual, e a morte física acontece. É a chamada “melhora para morrer”.

Por isso que as preces são importantes nos casos em que ainda não chegou a hora do desencarne, pois nunca sabemos quando determinada moléstia será a causadora da morte física, e sendo assim as orações se tornam energias que manipuladas pelos benfeitores, são canalizadas ao doente como tônus vital, agindo no organismo debilitado.

É certo que nas situações onde de fato está programado o passamento de determinada pessoa em razão de ferimento recebido ou moléstia contraída, as preces só servirão para que haja uma mobilização pelos Mensageiros de Jesus no sentido de assistir e ajudar na minimização das dores físicas do doente e sofrimento mental das pessoas que o querem bem.

Pessoas dotadas de vidência conseguem ver perfeitamente com os olhos da alma toda a atividade dos benfeitores no atendimento aos doentes, seja em suas residências ou em hospitais.

Na literatura encontramos explicações vasta a respeito de doentes que estão em fase terminal e que por ocasião de estarem dormindo ou sedados, são levados à beira mar para receberem energias reconfortantes ou orientações a respeito do desencarne que se aproxima. Alguns vão até visitar o hospital no plano espiritual, para onde irá após o passamento, isto para que tenha um desencarne sem traumas, ou seja, uma “morte serena” como muitos dizem.

Tenhamos a certeza que nos acompanham sempre Benfeitores no momento do passamento. Ninguém está só.


Nilton Moreira
Coluna Semanal - Estrada Iluminada
Fonte:
Espirit Book