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28 dezembro 2013

É Hora de Recriar - José Rodrigues


É HORA DE RECRIAR

“Que importa aquele que produz o bem, desde que o bem seja produzido?” Essa afirmação fecha o raciocínio de “Um filósofo do outro mundo”, espírito que assina uma comunicação transcrita por Allan Kardec na “Revista Espírita” de junho de 1863. Ele dissertava sobre o futuro do Espiritismo, em reunião. ocorrida na cidade de Lyon, tendo como médium a sra. B.

A abrangência universalista daquela afirmação demanda uma análise da trajetória do Espiritismo no mundo e particularmente no Brasil, onde um movimento em seu nome cresceu, avolumou-se em grandes proporções, a ponto de tornar-se até um “exportador” de ideias para outros países. As questões que se colocam são: o movimento espírita brasileiro guarda correlação com a ideia espírita? E esse mesmo movimento pode levar os adeptos do Espiritismo à conclusão do “filósofo do outro mundo?”.

Os conflitos de ideias vividos pelo movimento espírita nacional, a nosso ver, respondem negativamente à primeira questão; os caminhos não se cruzam entre as facções que se apresentam no cenário brasileiro. Novas leituras de Allan Kardec, as pesquisas na “Revista Espírita”, novas gerações de espíritas descomprometidos com antigas estruturas de pensamento, abriram irreversível conflito entre nós. A abordagem da questão social na imprensa espírita, os encontros específicos dessa área, por exemplo, encontraram e ainda sofrem forte oposição. Criou-se mesmo um cerco ideológico em torno daqueles que ousam repensar as estruturas, propor mudanças, colocar o Espiritismo em seu efetivo lugar.

Curiosamente, para dizer o mínimo, aqueles que cerceiam debates e tentam bloquear ideias progressistas, com receios de desvirtuamentos da tese espírita, nunca se insurgiram contra as distorções exaustivamente propagadas pela que se intitula “Casa Máter do Espiritismo no Brasil”. De fato, e de maneira insofismável, a FEB, historicamente, é responsável pela introdução e aplicação do pensamento antidoutrinário de Roustaing no Brasil, sem que essas mesmas pessoas e entidades que hoje se colocam na defensiva contra a discussão filosófica do Espiritismo tenham-se manifestado.

Também é verdade que as entidades representativas da unificação sempre conviveram num clima de extrema tolerância com filiadas cujas práticas doutrinárias longe estão de se afinarem com o pensamento espírita. São casas vendedoras de ilusões, de dependências em relação a seus dirigentes e de artigos de fé inconsistentes. Simulam saberes que não possuem, apresentam fórmulas feitas e acabadas em torno do destino, da mediunidade, que mais assustam do que libertam. Na verdade, sonegam o pensamento espírita.

Isto tudo é bem conhecido, mas fraternalmente tolerado há muito tempo. Outro peso, no entanto, tem sido usado para avaliar a intenção e os esforços dos que pretendem agitar as águas, sacudir o pó, procurar a luz no horizonte do pensamento espírita. Então a colisão teria mesmo que vir.

Ocorre que não é confortável para ninguém a manutenção permanente do conflito, da discussão. Chega-se a um ponto em que cada um deve seguir o seu próprio caminho e até com respeito pelo outro. E isto já está acontecendo.

Num ponto a outro do território nacional estão sendo criadas instituições, não necessariamente vinculadas ao movimento de unificação, com interesses pelo estudo do Espiritismo enquanto fonte de cultura e pela pesquisa. São embrionárias, mas revelam o que há de mais novo no cenário espírita brasileiro, uma busca de crescimento sem peias nem censuras, com idealismo, sim, de quem quer avançar no conhecimento para melhor servir a si e ao próximo. 

Não há mais como conter esses ventos de renovação porque eles partem de jovens ou de mais velhos, mas com espírito jovem, dispostos a rever posições, ideias, conceitos, de redescobrir caminhos e de revolver o terreno onde pisaram para o encontro de novos tesouros.

Allan Kardec por várias vezes constatou e afirmou que o Espiritismo é uma ciência positiva. Como tal, tem que avançar com críticas sobre si mesmo, porque este é o fundamento da ciência, de não temer recomeçar tudo, se preciso for, para a prevalência da verdade. Mas, a característica do movimento espírita não tem sancionado essa posição da Doutrina. Ao contrário. E o resultado é a marcação sobre pessoas e ideias, com pensamentos preconcebidos que impedem a conclusão do “filósofo do outro mundo”: “Que importa aquele que produz o bem...”.

Quando se discrimina dessa forma, contra a absorção de ideias ou produções dependendo de suas origens, é sinal de que o pensamento doutrinário espírita está sufocado. E para que a vida prossiga é preciso recriar, o que alguns já estão fazendo.


José Rodrigues

Fonte: Abertura - Jornal de Cultura Espírita, abril de 1987, Ano I, nº 1. Licespe - Santos-SP.



 

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